Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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22 de jun de 2017

Foi bonita a festa


Por Cidinha da Silva


Quando ela subiu ao palco, gingando, alguém poderia dizer que ia ali uma porta-bandeira experiente, protegendo o pavilhão da escola e oferecendo-o aos admiradores para a reverência do beijo.

Outra pessoa poderia enxergar uma senhora da ala das baianas, forte, segura, carregando aquela fantasia pesada e evoluindo na avenida como se o peso do mundo fizesse parte daquele corpo negro. Como se carregá-lo fosse o princípio involuntário da reinvenção.

Eu, quando a observei, vi uma habilidosa dançarina de samba-rock rodopiando já na subida dos degraus e nos deixando embevecidas pela elegância, fluidez e determinação de cada passo.  

Depois do silêncio templário feito para escutar a Davi Kopenawa, o Auditório Ibirapuera fez um silêncio entrecortado por ondas elétricas para ouvir a Sueli Carneiro. Era a tensão de não saber o que seria dito pela lâmina da espada.

Mas é mandingueira essa Sueli Carneiro. Até para receber um prêmio ela ginga no desfile de sua cadência banto-paulista de raízes mineiras até chegar ao microfone e empunhá-lo para dizer o que precisa ser dito. Para nos instar a fazer o que precisa ser feito.

Reza a lenda que um exercício freqüente para aprender a dançar samba-rock, daqueles treinados à exaustão em casa, antes do baile, era segurar a maçaneta de uma porta fechada e girar, girar, fazer todos os movimentos e passos, sem soltá-la. Trocando as mãos, mas sem soltar a maçaneta.

Sueli Carneiro, exímia dançadora de samba-rock, nas mesmas proporções em que é conhecedora das manhas do futebol, deve ter apreendido a essência da lição do exercício fixo na maçaneta, ou seja, manter o foco na porta (a abertura do caminho) sem descuidar por um segundo sequer, da flexibilidade do corpo e do espírito dançarino.


Tenho para mim que ela subverteu o jogo, pois portas fechadas não combinam com sua natureza. Sueli Carneiro é mulher de abrir portas, todas elas. Abre mesmo portais, porque não teme o novo, nunca temeu. Talvez por compreender que o melhor do afrofuturismo contemporâneo está no reconhecimento da tradição, na manutenção dos pilares fundadores e na reinvenção daquilo que é da ordem da criação e da tecnologia, do princípio ogúnico da existência.

12 de jun de 2017

Dia das namoradas


Por Cidinha da Silva


Nesse dia, como no restante do ano, você pode escolher entre falar de amor ou de relações comerciais. Vamos aqui inventar o amor que a Organização Mundial do Comércio já está com a vida ganha.
Amar é... passar a ferro o vestido da amada, mesmo não gostando, só para aliviar a pressa dela.
Amar é... compreender que o sangue da mulher amada tem cinco componentes: hemácias, plaquetas, leucócitos, polvilho e queijo. E sair pela cidade nova na chuva à cata de um pão de queijo decente, quentinho, que aplaque a crise de abstinência.
Amar é... aguardar ansiosa a próxima partida de futebol na TV só para ouvir os comentários dela. Amor, quem é que tá jogando? O Barcelona... Ah... o time do Neymar. Sim, o time do Messi. Humm, aquele baixinho que dizem que bate um bolão. Não, preta, ele bate um bolão. Joga muito. Joga nada, esse pessoal é comparsa dele!
Messi na TV, o simples majestoso, passa por dois adversários, deixa o terceiro no chão, torto, e por fim leva uma botinada do quarto, brasileiro recém-chegado do futebol inglês. Permanece de pé, mesmo trôpego, corre e mantem a bola coladinha ao pé. Conclui a jogada num passe açucarado para um companheiro qualquer completar para o gol.
Singela, a amada arrebata: esse pessoal da Europa deixa ele jogar, olha para isso! Por que é que ninguém pára o sujeito? Quero ver jogar bem aqui, na série B do brasileiro.

10 de jun de 2017

Histórias de leitura do #Paremdenosmatar 1 (conte-nos a sua também...)



Nô Homero chegara a Luanda. Na bolsa um exemplar do #Paremdenosmatar! para ler durante as férias. Fernanda Kung Agostinho, 12 anos, folheou o livro e resolver ler. Não largou mais, até terminar. Isso para Nô foi um problema, porque ela já havia iniciado a leitura e queria terminá-la. Mas Fernanda se trancou no quarto e fugia dela para não devolver o livro. Quando devolveu chorava e a abraçou dizendo: "Nós sofremos em quase todos os lugares".

8 de jun de 2017

O livro #Paremdenosmatar! em Alagados, Salvador



Neste sábado tem Só para Mulheres Negras - Oficina de Leitura Encenada, promovida pelo Coletivo de Mulheres Negras (COMUN) no Espaço Cultural Alagados (Uruguai).
O livro #ParemDeNosMatar foi utilizado para produção do texto adaptado "Porque as mães choram", a oficina oferecerá análise de texto dramatúrgico e técnicas de leitura encenada bem como a discussão cênica das questões referentes às mulheres negras. Vai ser muita potência!

Teremos outros títulos à venda no local. As vagas para oficina já foram preenchidas, mas estaremos lá durante a tarde toda, apareçam! <3 span="">

Data: 10\06
Horário: 14h
Local: Espaço Cultural Alagados
- Rua direta do Uruguai, s\n - Final de linha do Uruguai

7 de jun de 2017

O livro #Paremdenosmatar! agora tem página própria



Bom dia! Se você acompanha a trajetória do #Paremdenosmatar!, de alguma forma já faz parte dela. Queremos que o livro e os debates que ele suscita cheguem a mais pessoas. Colabore conosco, marque seus amigos para curtirem a página, curta também https://www.facebook.com/livroparemdenosmatar/?ref=aymt_homepage_panel. Assim que chegarmos a 500 curtidas começaremos as promoções para facilitar o acesso ao livro. Ajude-nos a andar (e voar) pelo mundo. Sinta-se convidad@ a também expressar suas impressões sobre a obra. Vamos junt@s. Gracias.

5 de jun de 2017

Sturm e Richthofen

Por Cidinha da Silva

As personagens dessa crônica são Sturm (André), ainda secretário da cultura da gestão Dória, em São Paulo e Richthofen (Andreas), um jovem doutorado em Química, surtado sob efeito do crack. Homens cuja ascendência européia pode ser notada pela sonoridade consonantal dos sobrenomes.
Em comum o fato de serem dois homens brancos na cidade de São Paulo que gozam das benesses da branquitude. O primeiro, Sturm, para agredir, humilhar e manter-se impune no exercício de cargo público. O outro, Richtofen, beneficiário do direito de existir, explicar-se numa situação suspeita, manter-se vivo e livre, com direito à comoção humana que todos os seres humanos em situação de fragilidade e desequilíbrio deveriam merecer.
Sturm é acusado por ativistas culturais de práticas coronelistas, tais como: interferência nos resultados finais do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (Vai); no carnaval da cidade e na revogação e alteração do edital de Fomento à Dança, que já tinha os projetos pré-selecionados. O secretário também é responsável pelo congelamento de 47% da verba municipal da cultura para 2017 e pelo desmonte de políticas culturais construídas ao longo da última década.
Há poucos dias, durante reunião com ativistas culturais da região de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, confrontado por um deles, o jovem negro Gustavo Soares, que reivindicava não trabalhar de graça para a prefeitura na gestão de um equipamento cultural, foi chamado de babaca e chato por Sturm.
Descontente e alterado diante da argumentação continuada do jovem, ameaçou quebrar-lhe a cara. Gustavo Soares perguntou então se o secretário o estava constrangindo e chamou-o para concretizar a ameaça. Sturm, no melhor estilo Telequete, disse então que não o faria para não sujar as mãos.
O prefeito Dória, como esperado, minimizou o fato, chamou-o de bobagem. Os movimentos culturais periféricos da cidade trataram de pressionar pela queda de Sturm, por serem inaceitáveis suas práticas coronelistas. Procuraram o prefeito com abaixo-assinado de seis mil assinaturas, ocuparam a secretaria de cultura, foram alvo de nota mentirosa da secretaria acusando-os de agressividade na ocupação, intimidação de funcionários e tentativa de invasão do gabinete do secretário. Tudo desmentido em vídeo pelo secretário de relações governamentais, Julio Semeghini, designado pelo prefeito para mediar o conflito. Este, aliás, parece ter sido posto ali para atender às reivindicações dos ativistas, menos a deposição de Sturm. Afinal, se alcançado o intento, a turma pode achar que tem força e isso não será bom para o prefeito e sua gestão que apaga obras de arte dos muros e as substitui por corações vermelhos, feitos por ele mesmo.
A mensagem final é a seguinte: qualquer conjunto probatório que supere as convicções dos acusadores não faz sentido a depender do acusado, de seu sobrenome, de seu pertencimento racial, do lugar político ocupado e à gestão de quem se filie. Em outras gestões, uma nota mentirosa, assinada por uma secretaria e desmascarada por outra, seria o suficiente para a queda de Sturm.
Não foi. Mas, imagine se por um motivo qualquer, em situação pública, com testemunhas e gravação veiculada na internet à larga, o descontrolado Sturm, gestor público, tivesse ameaçado quebrar a cara de um dos cineastas signatários da carta do SIAESP – Sindicato da Indústria do Audiovisual de São Paulo que o apóia? Imagine que Sturm, em surto, intimidasse Cao Hamburger, Cacá Diegues ou Fernando Meirelles com um possível soco?
Caía, mano. Caía no dia seguinte. Não seria mais secretário. Mas, a ameaça foi feita a um pobre coitado, na opinião dessa gestão, e com esses, contra esses, está tudo liberado.
Andreas Richthofen, por sua vez, teve a vida destruída por uma tragédia familiar. A irmã mais velha arquitetou a morte dos pais de ambos e coordenou a execução dos assassinatos. Andreas teve a vida destruída, compreensivelmente. Não se sabe o que viveu, mas havia refeito a vida, era considerado um estudante competente de uma das melhores universidades da América Latina, a Universidade de São Paulo. Graduou-se, doutorou-se.
Foi encontrado em delírio, ferido, semi-desmaiado na porta de uma casa, cujo muro havia escalado. Por sorte, é branco, “não tem cara de bandido”, como disse o dono da casa invadida, que o socorreu e chamou a polícia, que, por sua vez, tratou o moço como gente.
Que maravilha. Um rapaz de sorte. Sorte por não ser um dos inúmeros pretos em delírio causado pelo crack ou pela lucidez de serem o que são e de saber como são tratados e de, por isso, serem mortos como ratos.

31 de mai de 2017

Os instrumentos de Cidinha da Silva


A médica feminista Ana Reis analisa contribuição do livro #Parem de nos matar! para a reflexão de pessoas brancas sobre seus privilégios: “Eu conhecia muitas dessas histórias, minha timeline sangra todos os dias, repleta de massacres. Mas Cidinha tem sempre uma abordagem que incomoda mais, justamente por mexer com a limitação do olho cego com que a branquitude me aleijou”
Por Ana Reis Do Portal Fórum
Conheci Cidinha da Silva em Salvador, na noite do lançamento do seu segundo livro, Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!.
Luiza Bairros tinha me dado a dica do evento, um sarau, com a saudação feita pelo professor Ubiratan Castro, um querido de toda a gente, e um diálogo instigante entre Luiza e Cidinha.
Logo que acabou a mesa, Luiza, como de costume, saiu para fumar o seu ansiado cigarro. Com meu livro autografado “Para a Ana, esse Tambor que quer fazer barulho por aí. Um barulho bom, espero” juntei-me a ela, naquela esperada esticada para algum lugar de cerveja gelada e aipim frito sequinho.
A vida política e cultural de Salvador, mais que outras cidades onde vivi, não é completa sem os encontros pós. É nas mesas mais eloquentes, sem os inevitáveis enquadramentos das reuniões que acontecem as conversas inovadoras, mais soltas, e onde as amizades se fazem mais presentes que as alianças. Entre antirracistas e feministas, os afetos têm peso, cumplicidades.
Quando Cidinha chegou percebi que não viria mais ninguém. Era pra ser um encontro entre as duas. Mas não resisti a perguntar se podia ir também. Generosamente fui, mais uma vez, acolhida. E sem saber, testemunhei um momento particularmente especial para as duas.
Calada, ouvias as duas cheias de prazer pelas realizações de Cidinha, afirmando-se como escritora, batalhando o seu talento. Luiza abençoando.
Essa foi uma das vezes em que percebi o que significa conviver com amigas negras. Amigas que generosamente abrem espaço para que eu possa aprender, com suas didáticas silenciosas, passo a passo como entrar na intimidade protegida, sem esse à vontade automatizado que nos ensinaram desde o nascimento, e que a cada instante nos é reiteradamente bombardeado por todos os meios, até que se torne inconsciente e naturalizado.
O à vontade da branquitude, feita de uma auto referência arrogante, como se fossem nossos, todos os lugares no mundo.
Eu entendo perfeitamente o que são espaços protegidos. Quando feministas nos reunimos para compartilhar nossas alegrias e nossas dores no mundo patriarcal, não queremos homens por perto. Nem aqueles que se dizem feministas. Sempre falta muito para serem feministas. E não, não é racismo nem machismo às avessas. São espaços de respiro, refúgios onde não se tem que explicar, que pedir para não interromper, para não vir com a arrogância que nem é percebida.
Para nós, mulheres brancas de classe média minimamente eXclarecidas, ( assim mesmo, com um x colocando no passado a clareza como sinônimo de saber) a cegueira para o racismo não deveria ser tão naturalizada, porque você sabe, se tiver um mínimo de consciência, que nem todos os lugares são seus. Nem todos são lugares seguros. Sobretudo se você for uma feminista a sério.
Lendo agora o #Parem de nos matar!, sinto como ainda falta para ser uma antirracista a sério.
Cidinha da Silva, nas suas crônicas, “histórias duras mas que precisam ser contadas”, como ela escreveu no autógrafo, traz as mortes, as chacinas, o genocídio da população negra, a que assistimos diariamente, mas os reescreve materializando corpos verdadeiros, com nomes e sobrenomes.
Eu conhecia muitas dessas histórias, minha timeline sangra todos os dias, repleta de massacres. Mas Cidinha tem sempre uma abordagem que incomoda mais, justamente por mexer com a limitação do olho cego com que a branquitude me aleijou. Cabe aqui a palavra. É um aleijão, aquele mesmo que Gil bradou em Barracos da Cidade.
Esse incômodo em gente branca é a tarefa cumprida dos textos, que trazem o olhar preciso, contundente mas também finamente irônico quando retrata situações corriqueiras, aquelas onde o racismo se esconde se fazendo de inexistente.
Penso que esse tempo da implosão das máscaras que estamos vivendo abre também para o tempo de refundação. E a urgente refundação do Brasil começa por abrirmos os olhos cegados.
Asseguro que abrir o olho fechado para esse óbvio que é o racismo estruturante, por difícil que seja, faz da gente uma pessoa melhor. Temos que encarar o legado histórico terrível que pesa sobre nossas trajetórias.
É duro ver o quanto nossos lugares são feitos de privilégios. E quanto mais abrimos o olho, mais vergonha temos. Mas não há mais como esconder essa vergonha e nos livrarmos dela, não implica só em pedir perdão, pois devemos aos negros muito mais que cotas. Significa abrir espaços, abrir mão dos privilégios, aceitar e sobretudo provocar os deslocamentos.
Em tempos de refundação, a coleção de crônicas do #Parem de nos matar! é uma oportunidade de letramento racial. É uma entrada preciosa no mundo visto pelo olhar negro, para ouvir a imprescindível narrativa que falta nessa floresta de narrativas brancas. Uma escuta que é transformadora.
Para construirmos outras casas, com instrumentos outros que não os dos amos, como ensinou Audre Lorde.
Cidinha da Silva nos oferece esses instrumentos, com elegância e talento, como se faz em boa literatura.