Roda de conversa dia 13 de maio, sábado à tarde

Roda de conversa dia 13 de maio, sábado à tarde
Roda de Conversa e leituras dos livros Canções de amor e dengo e [In]contadas – contos de literatura lésbica com a escritora Cidinha da Silva Boto-cor-de-rosa livros, arte e café 13 de maio 15:00h Todxs bemvindxs! ----------------------------------------------- A esperada roda de conversa e de leituras dos poemas de Canções de amor e dengo acontecerá dia 13 de maio, às 15:00 hs, na boto-cor-de-rosa. Você não pode perder. O livro de Cidinha da Silva tem circulado por saraus, eventos feministas e lésbicos e quer agora ser lido e degustado com as guloseimas e bebidinhas da Boto. Vamos também apresentar a obra, [In] Contadas - contos de literatura lésbica, um livro não comercializado que será distribuído como bônus para quem adquirir livros de Cidinha da Silva. [in]contadas é uma coletânea de 15 contos de literatura lésbica, escritos por 15 autoras que representam a diversidade de ser mulher e lésbica, cada uma com um conto imperdível: Ana Paula Enes, Bel Mazzanti, Carla Gentil, Cidinha da Silva, Danieli Hautequest, Diedra Roiz, Hanna K., Inaê Diana, Jackie Rodrigues, Lis Selwyn, Manuela Neves, Márcia Rocha, Marina Porteclis, Priscila Cruz e Wind Rose. Esta coletânea surge com a pretensão de buscar uma oportunidade para traduzir, dar voz e tornar visível uma realidade que ainda é minoritária na produção literária LGBT: a da mulher lésbica como protagonista-narradora-sujeito desejante, portadora da voz, do ponto de vista e do discurso. Coletânea organizada pela escritora Diedra Roiz e pela editora Manuela Neves, realizada por meio do Programa de Ação Cultural - PROAC, do estado de São Paulo. Teremos uma promoção especialíssima: você adquire um livro da autora e ganha um exemplar do [In] Contadas. Esperamos por você!

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

27 de abr de 2017

Mais um menino preto

Por Cidinha da Silva


Escritora Cidinha da Silva comenta morte do adolescente baiano Guilherme dos Santos Pereira da Silva, de 17 anos, baleado por seguranças enquanto comia frutas no quintal de um restaurante
Por Cidinha da Silva*
Ei Shuravel, sabe a jaca que você não gosta? Que cai no chão, suja tudo e deixa para o seu olfato um cheiro insuportável? Pois é, mataram mais um menino preto aqui na Bahia por causa dela. Porque comia jaca no quintal de um restaurante sem pedir licença, você acredita?
Quatro meninos estavam sentados, comiam jacas caídas no chão de uma terra grilada, que se tornou propriedade privada defendida por homens armados. Frutas a serem devoradas por bichos ou varridas, jogadas no lixo depois de espatifadas na queda.
PUBLICIDADE
Sentados eles comiam, ouviram tiros e correram. Um deles se perdeu do grupo, sumiu. Tinha 17 anos, sonhos e vontade de comer jaca, planta nativa de pouco valor comercial.
Os amigos voltaram para procurá-lo. A família foi avisada e também fez buscas. Passaram duas vezes pelo local onde depois de dois dias de sumiço, o corpo desfigurado, misteriosamente, apareceu. Como se tivesse estado ali, sempre. Os familiares reconheceram o boné e o relógio. O corpo, um irmão só conseguiu identificar por uma cicatriz na perna, 25 pontos levados após um tombo de cavalo.
Não é inacreditável, Shuravel? Assistimos impotentes a mais um capítulo do genocídio da juventude negra. Dessa vez, uma vida eliminada por conta de uns bagos de jaca.
Foto: Agência Brasil

25 de abr de 2017

No BUSUFBA, ônibus da universidade, éramos 18 pessoas, 14 negras. Eu contava e sorria. Um menino no fundo do micro-ônibus percebeu minha contagem e sorriu para mim e flagrou uma lágrima caída de um tempo em que seríamos só dois negros em meio àquela gente  da universidade no transporte dentro do campus, eu e o motorista.  Como diz meu amigo Ni Brisant, hoje foi um dia que valeu a pena ser vivido.

24 de abr de 2017

CANÇÕES DE AMOR E DENGO: UMA LEITURA

Por Luciana Moreno

A ideia inicial era tecer uma análise sobre o livro de poemas da Cidinha, mas tragada por sua leitura considero que vale mais narrar a minha experiência literária ao me deleitar com as Canções de Amor e Dengo. Como ao longo do processo de ler o livro, as canções do meu repertório afetivo me tomaram, começo lembrando um verso de Caetano: “Os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, porque é assim que ingresso em minha incursão nessa experiência de leitura. Antes de trazer a chave para entrar nos poemas, me encantou o formato do livro. Aparentemente é um livro de bolso. Essa característica, entretanto não evoca uma decisão mercadológica, capitalista. É também uma via para baratear custos e popularizar o texto (o que considero maravilhoso). Mas é sobretudo um meio de consolidar a ação revolucionária da Mi parió e da própria Cidinha de “editar ‘livros semiartesanais, bonitos de encher os olhos e a alma, mas sem esvaziar os bolsos”. Livros desse tamanho são delicadezas tratadas como relíquias, preciosidades que exigem cuidado. É preciso entrar neles com os “pés de flor” que encontraremos nos versos lá dentro do livro.
Ainda sobre o prazer de tocar no livro, cheirar suas páginas, alisar suas dobras, nós, leitores, somos presenteados com um fino e belo pedaço de tecido que se roça em nossas mão durante a leitura. O verde, o marrom, o branco, um leve rosa que não aparecerão nas páginas ficam grudados no corpo. E o dourado riscado no pano arremata a beleza da qual ando carente. Confesso! Durante as muitas leituras que fiz do livro, numa delas, o tecido caiu. Fiquei órfã. Senti-me obrigada a colar novamente o tecido. Eu acho que é porque depois que a beleza, a delicadeza, o singelo se grudam na gente é mesmo insólito continuar sem isso. Refiro-me à leitura. Mentira refiro-me também à leitura, mas sobretudo à vida, ao amor.
Então, abri o livro. Pássaros e flores me assaltaram. Era o amor mesmo que me elevava. Pronto, eu era a leitora, a amante, viveria ali entre as páginas. Mas Cidinha me trai logo na entrada e nas primeiras páginas joga água na leitora que eu quero ser. Que é justamente aquela leitora desprendida da professora, da pesquisadora em teoria da literatura e me amarra de volta a uma das minhas personas. Diz a mim em seu “Manifesto”, aos críticos, aos pesquisadores, munidos da máquina de dissecar textos literários, de encaixotar escritoras que façam o que quiserem, mas não a obriguem a qualquer coisa. Ela sabe que nós a pesquisaremos, ela sabe que nós escreveremos sobre ela, todavia ela seguirá seu caminho com as roupas e as caixas que lhes convier. Se lhes convier. Até porque, a ancestralidade, desde sempre já a aponta para o fogo, o trovão, a justiça.
Vou encontrando o olhar lírico da cronista. Ali estão o amor e o dengo, mas sem perder de vista a crítica social, o cotidiano como fonte primária, a vida presente, os homens e mulheres do presente, o tempo presente, como declara o poeta gauche, seu conterrâneo. Na linguagem tem “é coisa, viu?” Em bom baianês, a escritora da multiterritorialidade, cidadã do mundo, que nasceu em Minas, morou em São Paulo, em Brasília, que viajou por diversos lugares e agora vive na Bahia coloca as marcas do nosso falar nos textos. Nos jogos com a palavra derruba a ideia de que senzala pode ser sinônimo de quilombo, brinca com a sonoridade do vocábulo para fazer o que de melhor sabe fazer: nos tirar da superfície, nos arrancar das obviedades da fala corriqueira que se cola na gente e nos acostuma a não pensar. Ora potencializa a ordem do discurso, ora subverte-a. Até porque aqui “ninguém se acha. A gente é”, como um dos seus versos nos aponta.
As páginas se seguem sendo encharcadas de águas que fluem, afogam, secam e refluem. Nesse sentido mesmo. Há enchentes nas primeiras páginas, seguidas de secura e dor funda no depois, mas que, para nossa sorte, retornam cheias, abundantes, alvissareiras.
As poetas são maravilhas nas vidas de seus leitores porque nos mostram que as loucuras são humanas. Me conforta ler o “Vermelhor”, porque eu também quando não encontro respostas no universo da racionalidade, confio no “ônibus vermelho” que vai passar, ou digo, se ele me ama o terceiro carro a passar nessa via será preto e estará com o vidro aberto. E eu sigo confiando que minha brincadeira é resposta certeira, nem de longe é maluquice.
Essas águas de dengo e amor e muita, mas muita dor também são ginga, corpo, movimento e aqui na porta do poema o verbo decantar pode tanto ser fazer loas, quanto se livrar de impurezas ou se separar de algo ou alguém. Decantar na “Química sentimental” é a faca amolada da solidão, são os dias de espera. Então, ainda que haja amor quem caminha por essas páginas poéticas vai ser convidada a também fechar a cara. E vai ouvir o refrão de Nelson Cavaquinho: “tire seu sorriso do caminho”, porque há horas em que só nos resta fazer a dor imperar.
Mas no logo depois virá com força a Canção da chegada, aquela dos dias de luz, em como canta Gal a composição de Gil: “quando a gente está contente tanto faz o quente, tanto faz o frio tanto faz”. Tudo abre comportas.
E se conselho fosse bom eu diria que a minha experiência com os dengos e o amor desses poemas me disse que ainda que não saibamos se o que mais cala é o que um dia desejamos e nunca tivemos ou o que desejamos e tivemos a sorte de ter no agora... O amor é um imperativo! Eu diria pela voz desses poemas que amor é entrega, com a quase certeza do abismo, da ferida, das ranhuras e ainda que haja o desamor, o amor em si mesmo é a chave para a renovação.
Assim, fecho as comportas do livro com as águas que encharcaram tudo. Com leveza, sim com força também. Indomáveis. Intransponíveis, porque a despeito de nossas vontades, as águas retornam exuberantes. E chega o tempo da “oguniação” cessar nos dizeres da poeta e se inaugura o tempo da “oxumniação”. Das águas. Da esperança. Que venham. Porque o que nós leitores mais desejamos é que ainda que haja fúria, desesperança e medo, em algum tempo digamos: “Enfim chegaste, minha rainha, plena estou para te receber”.

A experiência de ler os poemas inaugurais da Cidinha teceram outras manhãs. Teceram as minhas manhãs e ainda que por alguns minutos fizeram da professora, a dengosa amante. Agradeço.

20 de abr de 2017

A volta dos que não foram


Por Cidinha da Silva

Triste e constrangedor foi o breve discurso da desembargadora Luislinda Valois em cerimônia administrativa do desgoverno Temer, na qual alçou o usurpador ao posto de “padrinho das mulheres negras”. Se falasse apenas por si seria lamentável,  mas ela o fez em nome das mulheres negras mães e avós. Isso foi inaceitável e mereceu respostas contundentes.

Não conheço a desembargadora pessoalmente, nunca estivemos cara a cara. Conversamos uma vez, por e-mail, quando a procurei para apresentar a plataforma de minha candidata à Ouvidoria da Defensoria Pública do Estado da Bahia e para pedir seu apoio. A resposta foi solícita. Declarou que conhecia Vilma Reis e a apoiava desde o primeiro momento. Escrevi um pequeno depoimento a partir da conversa e submeti-o a ela para aprovação. Estava tudo certo, menos seu título honorífico, eu a chamei de juíza. Luislinda me corrigiu de maneira muito gentil e serena, era desembargadora. Desculpei-me, ela aceitou as desculpas e publicizamos sua adesão à campanha.  

Conto isso para dizer que não tenho qualquer senão à Senhora Luislinda por ser do PSDB. Quando a procurei para compor uma lista de suporte supra-partidário à candidata à Ouvidoria da DPE-BA foi por sabê-la mulher negra de luta, acima de qualquer sigla. Pela consciência de que pertencemos à mesma comunidade de destino e de que era importante seu aceno àquela mulher negra candidata.

Penso que do ponto de vista pessoal, a desembargadora (não a chamarei de ministra porque não reconheço o governo ilegítimo) pode afirmar qualquer coisa, pode ser grata por qualquer coisa, são questões íntimas. Portanto, sem qualquer objeção, pode afirmar-se identitariamente como “preta, pobre, da periferia, candomblecista, divorciada e sem padrinho (antigamente), mas agora apadrinhada por Temer”. A condição de afilhada do ilegítimo é uma opção legítima, mas questionável.

Assumir-se publicamente apadrinhada pelo usurpador da Presidência da República, orgulhando-se disso, é algo retrógrado, porém, aceitável, compreensível dado o perfil político da desembargadora e certa característica geracional, como bem discutiu o jornalista Marcos Romão em artigo recente. Assumo a responsabilidade sobre a grave afirmação, pois, muitas mulheres negras da geração da senhora Luislinda se fizeram na vida sem padrinhos e, se tivessem um, não gostariam que fosse Temer.

Talvez, por trás da louvada “coragem e galhardia” de Temer (PMDB) ao convidá-la para ocupar um ministério do governo golpista, levando-a aos prantos, exista uma crítica aos governantes anteriores que não a reconheceram, não a convidaram para postos à sua altura; gente de sua própria sigla partidária (PSDB) no estado natal (BA) e no governo federal. Foi Temer, seu padrinho, quem a convidou. E só mesmo uma mulher muito agradecida poderia detectar um “coração grandioso” naquele peito decorativo.

De toda sorte, não podemos culpá-la. Do ponto de vista pessoal a desembargadora pode afirmar qualquer coisa, em que pese entendermos o funcionamento do racismo que conduz muitas pessoas negras a aceitarem a subserviência como estratégia de ascensão social e de “reconhecimento” de trajetórias. Contudo, ela não pode entregar a Temer o título de padrinho das mulheres negras em nome delas. Em nosso nome. Contra isso se insurgiram organizações representativas das mulheres negras como a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras - AMNB e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas – CONAQ, entre outras. Também levantaram a voz mulheres negras pertencentes a coletivos e outras sem vínculo institucional. Todas enojadas com o servilismo da declaração.

Se migrarmos do campo da política para a arte, talvez fique mais fácil entender porque o apadrinhamento nos causa tanta repulsa. No episódio de reação e resistência ativa ao morfético seriado O sexo e as nega, de Miguel Falabella, da rede patrocinadora e mantenedora do golpe de 2016, três artistas negros me escreveram na intenção de me demover da decodificação do racismo explícito do programa de entretenimento.  Em linhas gerais, os colegas argumentavam que eu não sabia como a Globo funcionava por dentro e era necessário jogar o jogo com as cartas da emissora. Falabella era um aliado (um padrinho, se quiserem) incompreendido, e, se o deixássemos trabalhar, ele abriria portas nunca antes abertas para os artistas negros na TV.

Inexistia ingenuidade na posição dos colegas. Tratava-se de posicionamento político, discutido, ponderado, público como o da desembargadora e, como tal, criticável. Não esperem condescendência por tratar-se de uma mãe a avó septuagenária. Tratamos de política, agimos politicamente.

Para garantir seus interesses, defensores de Falabella criaram um grupo virtual no afã de discutir ações de reforço a ele e para desfazer o que acreditavam serem equívocos do Movimento Negro e de outras pessoas, intelectuais, artistas, etc, que atacavam o seriado (ou se defendiam dele, como penso). Pois, de maneira desavisada ou mal intencionada, já que eu pertencia ao outro campo e isso era público, alguém me inscreveu nesse grupo e só por isso soube de sua existência, pois era fechado. Considero possível a má fé do ato, pois havia pressões de todos os lados pela solidariedade pública ao padrinho – sabemos que dentro da emissora, atrizes e atores negros importantes eram diariamente emparedados a se posicionar em favor do autor do seriado. Pobre da raia miúda que poderia se beneficiar de papeis criados por ele. E talvez alguém que tivesse querido, mas não tenha podido resistir à pressão tenha se vingado ao tentar me infiltrar no grupo.

Pois bem, como a política tem lados e deve ter ética, imediatamente comuniquei ao grupo que, por engano, alguém havia me adicionado e, como era de conhecimento público, eu pertencia a outro campo de artistas, contrário à execução do seriado por considerá-lo racista, e por isso achava que deveriam me excluir do grupo, sob pena de minha permanência permitir que eu tivesse acesso a informações privilegiadas que não me diziam respeito. Devem ter concordado comigo, pois me excluíram. Por que fiz isso? Por que não quis espioná-los? Porque não pratico a espionagem como tática política. Porque eles eram meus iguais e embora estivéssemos em campos opostos, não éramos inimigos.

O mesmo acontece com a leitura crítica do discurso da desembargadora Luislinda. Somos iguais, estamos em campos opostos e ela será criticada com a dureza necessária. É certo que ela pode pavimentar o caminho discursivo mais confortável de agrado ao chefe. É um direito. Pode ser uma tática do jogo. Mas não pode dizer que as mulheres negras lhe concederam mandato para transformar Temer em padrinho. Vamos ao debate. Construiremos nossos argumentos daqui e ela que sustente os dela de lá.

Temer não é e nunca poderia ser padrinho das marisqueiras atingidas pelo corte do Defeso, conquista social que lhes garantia rendimento nos períodos em que é proibida a pesca e o recolhimento de crustáceos, com o objetivo de assegurar-lhes condições saudáveis de reprodução. Tampouco das mulheres negras das ocupações nos centros urbanos, antes atendidas pelo programa Minha Casa Minha Vida na modalidade Entidades que permitia que famílias organizadas de forma associativa (cooperativas e associações, por exemplo), produzissem suas unidades habitacionais. Ainda, não é e nuca será padrinho das quilombolas, cuja demarcação e titularização de terras foi travada; das usuárias das extintas farmácias populares que ofereciam descontos de 40% na aquisição de medicamentos; de todas as gerações de mulheres negras vitimadas pelo congelamento dos recursos destinados à saúde e educação por vinte anos.

Temer não é e nunca poderia ser padrinho das mulheres negras prejudicadas em sua primeira semana de desgoverno quando cortou milhares de bolsas de manutenção de estudantes cotistas por todo o país; das negras incluídas entre os 93 mil estudantes de graduação e pós-graduação que tiveram estudos interrompidos pelo corte abrupto do programa Ciência sem Fronteiras; das outras milhares atendidas pelo extinto Programa Nacional de Combate ao Analfabetismo; das que foram atingidas pela redução dos repasses do FIES e do Prouni; das que não poderão se inscrever no ENEN dada a majoração exorbitante do valor da taxa de inscrição numa economia devastada em que as pessoas passam a economizar centavos; daquelas que ainda não sabem como serão tratadas conquistas como a Lei 10.639/2003 na Base Nacional Comum do Ensino Médio. 


Eu me pergunto que “coração grandioso e cheio de carinho” é esse do usurpador? Mas, numa coisa concordo com a desembargadora, a caneta de Temer deve ter sim, prazer imenso em assinar todos esses desmandos. 

18 de abr de 2017

A Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras - AMNB, sim, tem prerrogativas para falar em nome das mulheres negras


NOTA PÚBLICA DA ARTICULAÇÃO DE ORGANIZAÇÕES DE MULHERES NEGRAS BRASILEIRAS - AMNB
Essa é mais uma manifestação de indignação dentre as dezenas de mulheres negras que reagiram e vem reagindo a uma afirmação descabida, fora de lugar, subalternizada da Ministra de Direitos Humanos, Desembargadora Luislinda Valois. As mulheres negras estão por sua própria conta, portanto, não necessitam de interlocutora. Nossa voz é nossa força e a senhora não pode usá-la em vão, muito menos para legitimar um falsário e fazer o papel pior, que é de defendê-lo, numa conjuntura e numa situação indefensável; portanto.
Nós, Mulheres da Articulação Nacional de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB, que marchamos em 2015 e seguimos em Marcha Contra o Racismo, à Violência e Pelo Bem Viver, vimos a público repudiar a fala da “Ministra dos Direitos Humanos”, Desembargadora Luislinda Valois, que em discurso designou Michel Temer o papel de “O Padrinho das Mulheres Negras”.
Informamos que esta Sra. não representa as Mulheres Negras Brasileiras, que vivem suas vidas com altivez, dignidade e respeito, mesmo nas situações mais adversas, ao contrário do deplorável espetáculo promovido no último dia 12 de abril de 2017, em cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília – DF, numa postura de lamentável subserviência, servilismo e bajulação.
Nós não reconhecemos esse governo espúrio, usurpador, composto de velhacos/velhacas, com alto grau de periculosidade para o conjunto da população brasileira, em especial as mulheres e homens negros;
Esse governo de costas para a população e braços abertos para o mercado financeiro e sua elite econômica, adepto da política neoliberal e entreguista, que promove a perda dos direitos econômicos, sociais, culturais e políticos da população, aprofunda as desigualdades sociais, privatiza as nossas empresas publicas, promove o desemprego desenfreado, e diminui salários;
Esse governo que congela os recursos da saúde e educação retirando qualquer possibilidade de futuro para nós e nossos filhas e filhos;
Esse governo que quer impedir que nós , mulheres negras, possamos acessar a proteção social para as nossas velhices, resultado de nosso trabalho e do pagamento de nossos impostos, que é a nossa aposentadoria, para privatizar a Previdência Social e enriquecer os empresários do setor de previdência privada;
Esse governo que quer acabar, através da reforma trabalhista, com direitos adquiridos constitucionalmente, promovendo a precarização do trabalho, para enriquecimento dos empresários do setor;
O pranto da Sra. Desembargadora Luislinda Valois faria sentido se lamentasse a perda de direitos e os corpos negros esparramados pelo chão, vitimas do racismo e pela ação do Estado e seu aparato policial.
Mas seu choro, segundo suas palavras, expressa agradecimento ao “grande protetor” e revela indignidade, servilismo, rastejamento e subserviência diante daquele que favorece o assassinato de mulheres negras que tombam impunes em todo o país vitimas do racismo, do sexismo, do LGBTfobismo, enfim, das violências raciais.
ESTAMOS HÁ SÉCULOS EM LUTA!
DESCOLONIZAMOS NOSSAS MENTES E CORPOS!
SEGUIMOS EM MARCHA PORQUE
NOSSOS PASSOS VÊM DE MUITO LONGE!
NÃO PACTUAMOS COM APADRINHAMENTOS POLITICOS NEM COM CLIENTELISMO!
NÃO EM NOSSO NOME!
NÃO AO RACISMO, AO SEXISMO E A LGBTFOBIA!
NÃO A VIOLÊNCIA E PELO BEM VIVER!

17 de abr de 2017

Primeiro ano do golpe parlamentar

17 de abril de 2017, primeiro aniversário do golpe que derrubou a presidenta eleita Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade. Naquele dia terrível, antes da votação comprada na Câmara dos Deputados publiquei o texto abaixo que hoje integra o livro #Paremdenosmatar!




Teve baile de favela em Copacabana com milhares de Silvas contra o golpe

 Por Cidinha da Silva


A favela desceu no dia 17 de abril para tomar a orla de Copacabana pela manutenção da democracia, sob convocação da Furacão 2000 e, de modo indireto, pela frente formada por Yzalú, Luana Hansen, Flora Matos, Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, Flávio Renegado, Eduardo e Mano Brow, entre outros ícones da música que a juventude negra curte.

Rap e funk estiveram juntos para colocar a voz da juventude negra e periférica em evidência na cena da luta por democracia e respeito à Constituição no Brasil, por meio da presença de 50 mil pessoas, segundo os organizadores.
Na concentração no Posto 3 ecoavam músicas dos anos 1980, aquelas que falavam de amor. Do amor romântico, direito negado aos Silva das favelas que pegam trem lotado, trabalham e são criticados por serem funkeiros. Os que não podem amar a rainha do baile pela vida inteira porque serão mortos ainda jovens.
Mas o funk, como canta Bob Rum, no Rap do Silva, “não é modismo / é uma necessidade / é pra calar os gemidos que existem nessa cidade”.
Na nossa interpretação, a letra se refere aos gemidos das comunidades feridas em direitos humanos básicos, que embora expurgadas dos limites da urbe, também fazem parte da cidade.
Moradores do Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Cruzada, Vila Kennedy, Rocinha, Vidigal, Chapéu Mangueira, Babilônia, Vila Aliança, Santa Marta. Também do Complexo do Alemão, da Maré, dos morros de Santa Teresa  e da Baixada Fluminense.
No primeiro discurso da manifestação, uma liderança comunitária deu o tom. Ali se ouviria “o grito da cultura negra, o grito do funk”. Ali se veria a cara preta da juventude. Da “juventude negra funkeira  que hoje é também juventude universitária” e, segundo o discurso,” é isso (a ascensão dos negros)  o que eles (os golpistas) não querem”.
Várias letras de funk foram alteradas para contemplar a situação nacional, por exemplo, “qual a diferença entre o Charme e o Funk / o Funk (a Dilma) anda bonito / o Charme (o Lula) elegante”.
Essa letra, para quem não acompanha o movimento funkeiro, alude a supostas diferenças entre o Charme (ritmo mais lento e romântico) e Funk, mais forte e pegador.
Na interpretação política da moçada que sabe a força política de Lula junto ao povo, era a hora de aproximá-lo de Dilma para fortalecê-la, ou seja, de afirmar que não há diferenças significativas entre ambos.
Seguiram-se discursos que pontuaram a realidade das favelas, vivida pela maioria das pessoas presentes: “eu nunca vi bala perdida em área nobre”.
Não podiam faltar também o humor e a ironia: “O Cunha vai ganhar uma passagem pra sair desse lugar / não é de trem / nem de metrô / nem de avião / é algemado no camburão / eta Cunha ladrão!”
Gostaríamos ainda de destacar três aspectos: primeiro, a participação de muita gente do asfalto sob a liderança da favela, respaldando o discurso racial politizado que o Funk vocalizou neste momento.
Segundo, a participação dos partidos políticos de esquerda (PT, PCdoB, PCO, PSOL), centrais e associações importantes como CUT, CTB (Central dos Trabalhadores Brasileiros), MST, Movimento Negro, AMB (Associação de Mulheres Brasileiras), FAFERJ (Federação das Favelas do Rio de Janeiro), novamente, lideradas pelo funk.
Isso pode indicar alguma mudança no sentido de ampliação da escuta e abertura de diálogo para compreensão e abraço às demandas dessas pessoas e suas comunidades.
Terceiro, à medida que a manifestação era transmitida pela Web, observamos também o debate travado entre as pessoas inscritas para acompanhar o evento. E ali ficou explícito, mais uma vez, o espírito atormentado da casa-grande.
Várias pessoas, escondidas em codinomes, além das ofensas de praxe, misóginas e machistas à Dilma, além de elitistas, LGBTfóbicas e racistas aos manifestantes anti-golpe, expressaram seu ódio em frases como: “saiam daqui, eu comprei essa praia”; “vocês não merecem ser estuprados” e “urna eletrônica é fraude”. Raciocínio profundo de batedores de frigideiras.
Chegaram ao absurdo de defender Eduardo Cunha, com afirmações como “eles (os petistas) estão putinhos porque o Cunha está tirando a Dilma. Cunha neles”.  São mesmo muito tacanhos e querem recuperar anéis perdidos.
Durante meia hora, a transmissão caiu. Houve manifestação bem humorada em resposta, teria sido por ação da CIA; mas houve também reação racista e classista, “a favela roubou a câmera”, “teve arrastão e roubaram a câmera”.
Noutro momento, um professor, representante da rede estadual de ensino, em greve ignorada  pelo governo do Estado e pela mídia hegemônica há 30 dias, denunciou a situação e conclamou a população a apoiá-los, bem como aos estudantes que, a exemplo de São Paulo e Goiânia, ocupam escolas públicas pela melhoria das condições de ensino-aprendizagem.
A reação de um analfabeto político foi imediata: “Reclama com o Lula que é defensor dos pobres, né companheiro”?
Trata-se de professores estaduais em greve. Escolas ocupadas pela resistência de estudantes no Rio de Janeiro. Em que um ex-presidente poderia  interferir  para resolver o problema?
Por fim, todo mundo se mexeu, enquanto participava da manifestação ou enquanto a assistia de casa porque o que vimos foi “som de preto / de favelado”, ou seja, música dançante e discriminada por conta dos sujeitos que a vocalizam,  que “quando toca / ninguém fica parado”.

16 de abr de 2017

Sobre Dalmir Francisco


Por Cidinha da Silva
Dalmir Francisco foi o primeiro intelectual negro que conheci quando ainda era mestrando em Ciência Política. Não me lembro em que ele trabalhava, talvez lecionasse em faculdades particulares, só sei que estudava como louco nos finais de semana. Eu via isso quando visitava um amigo no JK e aquele apartamento era o quartel general de estudos do Dalmir.
Eu, estudante recente de graduação, volta e meia perguntava a ele se era necessário ler aqueles livros todos para escrever uma dissertação. Em tom solene, ele me explicava que, para fazer um bom trabalho, sim. Dava uma risada, às vezes pegava no meu queixo enquanto ria, acendia um cigarro e se concentrava na leitura. Ele lia e tomava notas num ritmo alucinado. Não raro falava sozinho enquanto estudava, parecia discutir com o que lia. A gente ia para a cozinha e conversava em voz baixa para não atrapalhá-lo.
Dalmir influenciou e formou muitas gerações. Depois que saí de BH, em 1991, nos encontramos poucas vezes para bater papo. E quando isso acontecia eram encontros questionadores. Dalmir era intelectualmente inquieto.
A última vez que o ouvi foi num simpósio realizado por Leda Martins no Conservatório de Música da UFMG, entre 2010 e 2011. Pude reparar que revisava coisas que dizia no fim da década de 1980 sobre o candomblé e sua política, com certa ironia, até.
Não sei qual foi a causa da morte, mas sei que seu coração era grande e frágil e que precisou de pontes de safena há alguns anos.
Que você faça em paz o caminho de volta, Dalmir. Muito Obrigada por tudo.