Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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3 de jun de 2007

Travessia – a vida de Milton Nascimento

Faltavam seis páginas para terminar as 390 de leitura intensa da biografia do Milton, feita em todos os momentos possíveis e a abandonei. Não queria que o livro terminasse. Há muito um texto não me arrebatava assim. A autora, Maria Dolores, uma jovem jornalista de Três Pontas faz jus à orelha do livro e constrói a biografia como quem escreve um romance. Eu me envolvi tanto que no capítulo sobre a descoberta do diabetes tipo II do Milton, me penitenciei por tê-lo abandonado, por não ter estado junto dele. As biografias bem escritas nos apresentam nossos ídolos em humanidade plena e a gente passa a compreendê-los melhor. Por exemplo, no caso do Milton - embora ele goste de ser chamado de Bituca, mantenho a distância de quem é apenas fã - pude entender um pouco como ele se constituiu como homem negro, os conflitos raciais, a segregação racial vivida na Três Pontas de sua infância e adolescência. Mesmo sendo aquele que escreveu o discurso de formatura da turma de 8a série não pode participar do baile no clube racista da cidade. Lá não entravam negros. Não podia também assistir ali as apresentações de orquestras e bandas que passavam por "Trespa" (apelido dado à cidade). Ficava sentado no banco da praça, ouvindo pelas frestas de janelas e os amigos brancos entravam e corriam para lhe contar como eram os instrumentos, os músicos, o clima da apresentação. Criado por uma família branca de classe média, depois da morte prematura da mãe, sentia-se discriminado pelas famílias negras pobres que não o aceitavam por ter uma família branca. Não esqueçamos que todas essas famílias moravam numa cidade, na qual havia lugares estabelecidos para os negros. Milton saía da norma e os negros locais provavelmente não sabiam como lidar com isso. A vida de Milton Nascimento é fascinante, principalmente sua relação espiritual com a música. Há um capítulo para cada um dos discos confeccionados ao longo de mais de 40 anos de carreira. Em todos eles a presença dos amigos, fundamentais para ele. Aliás, o livro é uma louvação às relações de amizade. Só lamentei não ter conseguido saber ao fim da leitura, se Milton reconstruiu a relação afetiva com Pablo, filho único, ao qual a ditadura exigiu abandono total (Pablo morava em São Paulo e Milton no Rio) sob pena de “dar um sumiço” no garoto, caso não cumprisse as ordens à risca ou fizesse comentários sobre elas. O livro é pura poesia, em vários momentos dolorosa. É preciso ler pra ver e sentir.
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