Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de mar de 2008

30 de mar de 2008

Tambor em Brasília, dia 02 de abril, com a presença de Lia Maria, a ilustradora!

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Cidinha na Revista Urbana

(Entrevista concedida ao jornalista Davi Amorim para a Revista Urbana, edição de março 2008. Trata-se de uma revista cultural mensal que circula no Alto Tietê Cabiceiras, São Paulo). RU: Quais são as suas motivações para escrever? O que te faz escrever? Cidinha: Escrever é a coisa que mais me dá prazer e alegria, veja bem, falo do campo das coisas e não das relações humanas, aí é outro papo. Viver o afeto e as relações amorosas é mais intenso do que escrever. Escrevo porque preciso comunicar ao outro meu jeito de ver o mundo e como o mundo me dói, como me toca, me emociona, me faz rir, chorar, pensar. Escrevo porque o real dói e eu o transformo, às vezes em mais dor com certa poesia, mas o que vale é imprimir minha marca. Escrevo porque acho que o que tenho a dizer ao mundo é singular e como tal, só pode ser dito por mim, e acredito que haja um lugar no mundo literário para o que tenho a dizer. Por essas razões escrevo. RU: Você se identifica com esse movimento que temos chamado de literatura marginal? O que isso significa para você? Cidinha: Sim, eu me identifico, respeito e admiro, mas não o integro. Acompanho, sou solidária e bem recebida, os escritores e escritoras marginais ou periféricos demonstram respeito por meu trabalho e o acolhem. Literatura marginal ou periférica no meu modo de ver, parte essencialmente de um lugar geo-político-afetivo. É um jeito de morar, viver e produzir na favela e nas periferias, para a favela e com a favela, usando as armas do amor e da guerra. O lugar geográfico periferia é de suma importância para que os integrantes da literatura marginal ou periférica emitam sua voz. Ali tudo começa, a partir dali tudo se desenvolve. Eu não moro na periferia, não tenho meu coração plantado nesse lugar político, transito por lá, vou buscar perfume e deixar minhas flores, mas emito minha voz de outro lugar. Sou uma escritora negra, é literatura negra o que escrevo, mais do que qualquer outra coisa. Uma literatura negra que pretende alcançar todo mundo, que não quer se prender a uma fatia de público apenas. RU: Quais são suas influências e quais os personagens históricos que admira? Cidinha: Eu fui muito influenciada por música, por quadrinhos, literatura dispersa em revistas e jornais literários. Li muitos cronistas e muita poesia na infância e adolescência, os mineiros principalmente, Drummond, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Depois, Machado de Assis e Lima Barreto. Mais tarde, Adélia Prado e Guimarães Rosa, basicamente literatura brasileira. Ainda estou por estudar os clássicos da literatura mundial. Hoje leio muito a literatura produzida por mulheres, gosto muitíssimo de Leda Martins, Elisa Lucinda, Nélida Pinõn, Rachel de Queiroz, Conceição Evaristo, Tony Morrison, Rosa Monteiro, Paulina Chiziane, Isabel Allende e Alice Walker. Dentre o pessoal da literatura periférica sou fã de carteirinha da literatura da Dinha, pelo vigor, pela precisão, pela ausência de concessão poética e política, pelas construções poéticas maravilhosas. À medida em que é publicada no Brasil, leio também a literatura produzida por escritores (as) africanos (as). A observação da vida e das relações humanas também me influencia muito. É preciso viver para escrever. Quanto às personagens da História que admiro, não vou me lembrar de todas, são muitas, mas vamos às que vêm à cabeça primeiro: Sueli Carneiro, Hélio Santos e Luiza Bairros; Nelson Mandela, Malcoln X, Ângela Davis, a primeira geração dos revolucionários africanos que libertaram Angola, Moçambique e os demais países lusófonos do jugo colonial português, Winnie Mandela, Stevie Biko, Lula e Evo Morales, dentre outros. RU: Fale um pouco sobre seu trabalho e seu novo livro: Cidinha: Estou agora trabalhando em meu primeiro livro juvenil, em parceria com a Iléa Ferraz, artista plástica responsável pelas ilustrações. É um livro desenvolvido a partir de uma letra de música. Estou muito animada com o projeto, principalmente porque meu trabalho literário se aproximará mais das crianças da minha casa, pelo menos enquanto não consigo escrever textos mais adequados à faixa etária delas, entre seis e dez anos. Edito diariamente o blogue www.cidinhadasilva.blogspot.com e é um exercício constante de escrita bem interessante e útil ao meu processo de criação. Escrevo para um boletim eletrônico e para alguns sítios literários. Desenvolvo alguns trabalhos que garantem minha sobrevivência que passam pela formação de professores(as) em relações raciais e de gênero e pesquisa e redação de textos encomendados por empresas e órgãos públicos. Sobre o Tambor, meu livro novo, trata-se de um livreto singelo que aborda o amor e a solidão, vistos e sentidos por personagens femininas, principalmente. São olhares críticos, ácidos, vez ou outra líricos, outras tantas humorados e com mais uma dose de acidez. Jeferson De afirmou na orelha que a autora é cruel. Nazareth Fonseca asseverou no prefácio que “é montado um painel de pessoas e vidinhas comuns, ritmado pela busca de afeto, de companhia, de casual sex, de sexo, sexo, sexo, ou mesmo de soluções incomuns que ajudem a aliviar o corpo torturado pelo desejo. São por isso histórias de humores e impulsos para desbancar a solidão ou o vazio de uma convivência que sabe a cebola e cerveja ou que incomoda como o contato de sola de pés tipo lixa” (...) Não sei, não sei! Você precisa ler para formar sua própria opinião. O Tambor é ilustrado pela amiga e artista plástica Lia Maria, que já havia produzido a capa do Tridente (2ª edição) e a coleção de postais Tridentiana. São lindos os desenhos. Para contar um pouco sobre como o livro foi feito, digo-lhes que depois do Tridente, várias pessoas, escritores em especial, sugeriram que eu me dedicasse a textos mais longos, pois demonstrara fôlego para fazê-lo. É óbvio que gostei da sugestão, mas resolvi me desafiar de outra forma, quis escrever textos curtos, alguns curtíssimos e dar meu recado em poucas linhas. O resultado é só conferir no Tambor editado.

27 de mar de 2008

EUA: corte anula pena de morte de Mumia Abu-Jamal

(Fonte: Terra) "A Corte Federal de Apelações dos EUA anulou hoje a sentença de morte de Mumia Abu-Jamal, um jornalista e ativista contra a pena capital, condenado em 1982 pela morte do policial Daniel Faulkner no Estado da Filadélfia. A decisão revertou a execução de Abu-Jamal em uma pena de prisão perpétua. Além disso, a Justiça concedeu a ele a oportunidade de um novo julgamento. Entretanto, ele pode ser novamente condenado à morte se decidir se submeter a um novo júri. Abu-Jamal foi condenado pelo assassinato de Faulkner ocorrido na manhã de 9 de dezembro de 1981. O júri o declarou culpado pela morte do policial, que prendeu seu irmão por uma infração de trânsito". Quem é Mumia Abu-Jamal? (Fonte: Wikipédia) "Mumia Abu-Jamal, pseudônimo de Wesley Cook (24 de abril de 1954) é um ex-integrante do Partido dos Panteras Negras que se tornou jornalista na Filadélfia e ficou popular com o seu programa de rádio "A voz dos sem-voz". Mumia Abu-Jamal foi condenado a morte por, supostamente, matar um policial que espancava seu irmão, no início dos anos 80. Jornalista e militante negro anti-racista, Mumia foi preso em 9 de dezembro de 1981, sob a acusação de ter assassinado o oficial de polícia Daniel Faulkner, em Filadélfia. Ao longo de 20 anos de uma incessante batalha judicial, repleta dos apelos por um julgamento justo por parte de personalidades e milhares de manifestantes, e apesar da constatação de inúmeras irregularidades em seu processo, a data de sua execução foi várias vezes marcada e depois suspensa. Por mais que as autoridades tentem tratá-lo como um criminoso comum, Jamal é, de fato, o único prisioneiro político dos Estados Unidos condenado à morte. Segundo o relato de várias testemunhas, tudo começou quando Jamal interveio para socorrer seu jovem irmão, que estava sendo brutalmente espancado por Faulkner. Havia um outro homem, não identificado, no meio da briga. Houve muita confusão, gritos e disparos. Quando outros policiais chegaram ao local, Jamal estava ferido e Faulkner morto. As mesmas testemunhas declararam ter visto o homem não identificado - que não se parecia com Jamal - fugir do local. Aqui começam as flagrantes irregularidades: nenhuma perseguição ou busca foi feita na hora pela polícia. A arma que foi encontrada com Jamal não poderia ter disparado as balas que mataram o policial. Nenhum exame de balística foi efetuado para saber se a arma de Jamal tinha sido utilizada. E mais: nenhuma das testemunhas que saíram em sua defesa foi arrolada no processo. Uma delas declarou que a polícia o ameaçou de prisão se testemunhasse. Alguns asseguraram que a polícia os havia intimidado para que eles mudassem seu testemunho. Para coroar essa montanha de irregularidades, o juiz que presidiu o processo, Albert Sabo, declarou publicamente sua hostilidade em relação a Jamal, que em sua juventude foi membro do movimento Black Panthers. Jamal foi levado a julgamento em junho de 1982 e condenado à morte em 3 de julho. Sabo era já famoso como o “recordista” em número de condenações à morte (seis antigos promotores de Filadélfia declararam, sob juramento, que nenhum réu poderia esperar julgamento imparcial na Corte de Sabo). O júri só foi formado após a remoção de onze negros perfeitamente qualificados. O advogado de defesa declarou publicamente que não havia entrevistado nenhuma das testemunhas, e que não estava preparado para o julgamento. Apesar disso, Sabo recusou a Jamal o direito de fazer sua própria defesa. Segundo a promotoria, Jamal teria confessado, no hospital, a autoria da morte de Faulkner, mas um relatório assinado pelo policial Gary Wakshul (que fez a guarda do réu), e não apresentado ao júri, diz que “o negro nada comentou”. Quando a defesa convocou Wakshul, a promotoria alegou que ele estava de férias e fora de alcance, e o juiz não aceitou esperar seu regresso; hoje se sabe que ele estava em casa. O médico de Jamal também negou ter ouvido qualquer confissão. As supostas incongruências se acumulam, seriam necessárias várias páginas para as descrever.A promotoria não apresentou nenhuma prova material de suas acusações. Em contrapartida, foi comprovada a prática de intimidação de testemunhas. Veronica Jones, que primeirou depôs contra Jamal e depois mudou a história, declarou que fora obrigada a mentir: policiais haviam ameaçado usar contra ela antigas acusações de mau comportamento que poderiam custar-lhe a guarda dos filhos. Quando Verónica contou isso, foi imediatamente presa. Mas o caráter político do julgamento pode ser inferido dado que o FBI (polícia federal) apresentou, como “prova” contra Jamal, um arquivo de mais de 600 páginas contendo um resumo de suas atividades como militante do movimento negro. Foi preso pela primeira vez, em 1968, aos 14 anos, durante o protesto contra o racista George Wallace, então em campanha presidencial. Aos 15 anos, participou do movimento para rebatizar sua escola com o nome Malcolm X e ajudou a criar o comitê do Partido dos Panteras Negras (Black Panther) em Filadélfia. Mais tarde, tornou-se membro da redação central do jornal do movimento. Nos anos 70, passou a fazer parte de uma lista do FBI de pessoas que “ameaçam a segurança dos Estados Unidos” (ou seja, um dos que seriam imediatamente presos em casos de “emergência nacional”). Jornalista graduado, Jamal tornou-se locutor de rádios locais e de uma rede nacional de emissoras negras. Além de entrevistar gente como Bob Marley e Alex Haley, ficou conhecido como “a voz dos que não têm voz”. Denunciava a violência policial - em particular, as de natureza racista - e os dramas diários da população pobre. Foi várias vezes ameaçado por policiais e autoridades, como o prefeito Frank Rizzo. Em 1994, a rede Rádio Pública Nacional o contratou para fazer comentários sobre a vida na prisão. O programa foi cancelado antes de começar, sob forte pressão do The New York Times, do senador Robert Dole (então, líder da maioria no Senado) e da Ordem Fraternal (que tentou, em 1995, proibir a publicação de seu livro Live from Death Row - Ao Vivo do Corredor da Morte, recentemente lançado no Brasil, editora Conrad). Seguiu-se uma complexa e árdua batalha judicial e política logo após a sua sentença de morte em julho de 1982. A dimensão do caso, levou a que várias entidades e personalidades clamassem por justiça, em sua defesa, tais como : Congresso Nacional Africano, Amnistia Internacional, Parlamento Europeu, Ordem Nacional dos Advogados (dos Estados Unidos), Coalizão Nacional pela Abolição da Pena de Morte, Jacques Derrida, Stephen Jay Gould, Jesse Jackson, Danielle Mitterrand, Salman Rushdie, arcebispo Desmond Tutu, Elie Wiesel. Em janeiro de 1999, os Rage Against the Machine e três outras bandas de rock promoveram um concerto em Nova Jérsia , em defesa de Jamal. A governadora Christine Whitman lamentou não poder proibir a atividade, e propôs um boicote à atividade. O espectáculo foi um grande sucesso de público e bilheteria. Exatamente por ter atingido tal dimensão, o seu julgamento tornou-se exemplar. Caso ele escape à execução, o estatuto da pena de morte terá sofrido um duro golpe, e não apenas nos Estados Unidos - que representam, hoje, no quadro da ONU, o maior obstáculo político à abolição total da pena de morte em todo o mundo. Em abril, a Assembleia anual da ONU para os Direitos Humanos aprovou várias resoluções em que pede aos países membros que eliminem a pena de morte, cuja aplicação está em franco declínio no mundo. Em 1965, apenas doze países haviam abolido a ‘‘pena capital’’. Hoje, segundo a Amnistia Internacional, já somam 68, além de 14 que limitaram seu uso apenas a crimes hediondo e outros 23 que a eliminaram na prática (não praticando qualquer execução por um período de pelo menos dez anos). São 105 países contra 90 que ainda a mantêm em vigor - e a maioria destes 90 está discutindo a possibilidade de sua abolição total, seja sob pressão política seja porque concluíram que a pena máxima não diminui o índice de criminalidade. Um pequeno punhado de países é responsável pela maioria das sentenças de morte (Estados Unidos, China, Congo, Irã)".

25 de mar de 2008

Tambor em Porto Alegre!

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24 de mar de 2008

Novos rumos

(Paulinho da Viola) Vou imprimir novos rumos/ Ao barco agitado que foi minha vida/ Fiz minhas velas ao mar/ Disse adeus sem chorar/ E estou de partida/ Todos os anos vividos/ São portos perdidos que eu deixo pra trás/ Quero viver diferente/ Que a sorte da gente/ É a gente que faz/ Quando a vida nos cansa/ E se perde a esperança/ O melhor é partir/ Ir procurar outros mares/ Onde outros olhares nos façam sorrir/ Levo no meu coração/ Uma grande lição que contigo aprendi/ Tu me ensinaste em verdade/ Que a felicidade está longe de ti

22 de mar de 2008

Estamira

Uma leitora reage à matéria publicada no blogue sobre Estamira, nome de personagem real e de filme sobre sua vida. Envia-me matéria (ou trecho dela) intitulada “o preço da fama”, publicada por Milene Pacheco, na revista Carta Capital. Diz o texto: “sentada no sofá de sua casa, Estamira Gomes de Sousa nem parece a mesma protagonista do documentário que recebeu seu primeiro nome. Com voz mansa e olhar esmorecido, a ex-catadora de lixo no aterro sanitário Jardim Gramacho passa os dias transitando da cama para o sofá, do sofá para a cama. Só sai para ir ao médico. Prestes a completar 67 anos no dia 07 de abril, carrega em seu corpo exausto as dores de mais de 20 anos de árdua labuta no lixão. Foi lá, no maior aterro da América Latina, que Estamira saiu do anonimato para se tornar a feiticeira, a louca, a dama do Apocalipse. A filósofa. “Eu nem sei o que é filosofia”, responde ao ser informada do título que recebeu de alguns críticos (...)” Frente às reticências, talvez eu devesse pesquisar a revista para ver se o texto continua e entender melhor porque é intitulado “o preço da fama”. Mas não vai rolar, o tempo anda curto. Mesmo assim quero comentar uma impressão ou outra suscitada pelo envio da mensagem e pelo texto. A leitora escreve a frase “só para informá-la” como introdução à matéria pinçada da revista. Parece-me haver dois sentidos divergentes no anúncio: o primeiro seria mesmo de informação despretensiosa sobre o estado da arte da vida de Estamira, às portas dos 67 anos. Uma notícia de que ela continua viva, mesmo que sofrida e debilitada. O segundo poderia contestar a matéria anterior publicada no blogue, por meio de um certo puxão de orelha, “veja o preço que ela paga pela fama”. Quando selecionei a matéria, achei interessante a leitura de contraste feita pelo jornalista sobre as personagens Carolina Maria de Jesus e Estamira, principalmente na rejeição da primeira e aparente adaptação da segunda à vida vivida no meio do lixo, à sobrevivência extraída do lixo, a um lixo de vida, enfim. Mas, não poderia ser a loucura de Estamira - o intenso sofrimento mental demonstrado por ela, a angústia, a revolta vomitada, a tentativa de produzir significado para a vida desumana e indigna vivida no aterro sanitário Jardim Gramacho -, que alguns chamaram de “filosofia”, sua reação de inadaptação à vida-lixo? O subjugado quando reage à opressão parece tornar-se “filósofo” visto pelos olhos (beneméritos) de quem mira seu mundo de fora, com um certo nojo travestido de espanto, não foi assim com Arthur Bispo do Rosário? Em que a fama de filósofa ou do que quer que seja, atribuída à Estamira do documentário, pelos olhares e vozes de gente distante da degradação do mundo miserável, ocupada em elocubrar sobre a miséria, influenciaria a vida da Estamira real? Deslocar-se da cama para o sofá e do sofá para a cama, não deve ser o preço que Estamira paga pela fama, mas por anos a fio de degradação física, moral e espiritual da vida alimentada de sobras misturadas a dejetos, durante “ mais de 20 anos de árdua labuta no lixão”.

20 de mar de 2008

Tambor põe o pé na estrada

Dia 05 de março de 2008 o Tambor deu o primeiro passo do caminho de lançamentos no Sarau da Cooperifa. Noite iluminada, cheia de mulheres de e na periferia Sul de São Paulo. Era festa do 08 de março e, pelo menos nesse dia, a mulherada reinava. Dia 25/03 será dado mais um passo, desta feita na terrinha, Belo Horizonte. Será no Centro Cultural São Bernardo, pela manhã (9:00), em evento especialmente organizado pela Regional de Educação da região Norte, voltado para educadores(as). O endereço é rua Edna Quintel, 320, fone: 31 32777416. Vai aqui um agradecimento à Benilda Regina que está à frente da organização. Dia 27/03, às 18:30 é a vez de Porto Alegre, promoção de Maria Mulher, na Palavraria, a livraria-café mais simpática da cidade. Fica na Vasco da Gama, 165, bairro Bom Fim, fone: 51 32684260. Agradecimentos à querida Nô Homero, amiga desde a pré-história, e à Vera Dayse que está cuidando da produção. Dia 28/03 tem oficina literária e Sarau Sapho no Bar e Restaurante Coma Bem, às 19:00, em Alvorada, Grande Porto Alegre. O bar fica na rua Nilzo Ramires, 50, na lateral da praça central. A promoção é do Coletivo de Lésbicas Negras Feministas Candace – BR, gracias, Leila. Informações pelo fone: 51 92041156. Aproveite e visite o blogue do Candace: www.coletivolesbicasnegrascandace.blogspot.com No início de abril o Tambor vai para o Planalto Central, Brasília e Goiânia. Assim que tiver informações precisas de local e horários postarei aqui. Por ora aguardo os amigos e amigas de Belô, Porto Alegre e Alvorada. Até lá. (Logo do Candace)

19 de mar de 2008

Redentoras

Existem dois tipos de perseguidoras de viados: as descompreendidas e as cínicas. As primeiras não percebem que o cara é viado, mesmo com o letreiro luminoso que ele carrega na alma, nos gestos, no olhar. As segundas acreditam no mito da conversão, baseado em seus superpoderes de mulher fatal, capazes de redimir tanto uma bicha pintosa quanto um cara que não é tão gay assim – daquele tipo que se guarda num contêiner ou abrigo nuclear. Talvez pela prática de abrigo antibombas, os gays escondidos se defendam melhor das cínicas. Homens heteros, gays e mulheres lésbicas, todo mundo percebe que o sujeito vive no contêiner, mas é gay. Sei lá, é uma questão de energia, de radar, mas a mulher hetero descompreendida ataca o coitadinho. Elas roçam na biba, fazem caras e bocas, ar infantil de adolescente ultrapassada, sopram coisas no ouvido deles. Sim, elas fazem isso, sussurram e mordiscam a orelha, enfiam a mão dentro da camisa, cheiram a nuca. Os caras, denotando falta de interesse, e elas semióticas: decifra-me para que eu te devore. A-go-ra. Não se sabe qual dos dois modelos é mais temerário, mas as sonsas incomodam mais. São de uma insistência constrangedora. Uma dessas pegou um amigo numa festa outro dia. O menino dançava bem. Ela cresceu o olho. Se ela fosse uma hetero compreendida saberia que havia 80% de possibilidade do sujeito ser gay: primeiro, dança (50%), segundo, dança bem (80%). Os meninos são gentis. Distraídos, demoram a compreender o que se passa. Homem gay acha que dançar é uma coisa gostosa, sensual, não é necessariamente o início do coito de coelho debaixo da escada de incêndio. Ele dança e ela se excita. Na cabeça dela há sempre a possibilidade de algo debaixo da escada. Ela acha que a apatia heterossexual dele é timidez, e se movimenta para motivá-lo. Dança como uma ema sibilante e, sabe Deus com que força, acerta-lhe uma umbigada nas partes baixas! Ele ri desconcertado, é um cavalheiro, mas ela já está passando do aceitável. O lampadinha brilha e então ele se dá conta do enredo, ela não percebeu que ele é viado. Não tem outro jeito, ele usa o recurso da pintosidade. Não é seu estilo, mas é pra ver se a racha se toca. Nada. Ela fecha os olhos e desanda a pular, agora como foca com braços e pés de orangotango. Tenta roçar o nariz no nariz dele. Dá um beijinho fungado de esquimó. Pula mais e mais. Loucamente. Num desses pulos, acerta-lhe um joelhaço na parte mais baixa das partes baixas. Ele se curva, dolorido. Despido de qualquer disfarce e delicadeza, aproveita a agressão para fugir da pista. “Tem mulher que... eu vou te contar um negócio. Mãozinhas na frente dos seios como uma coelhinha da playboy. Patético! Mão no joelho, rebola pra esquerda, no outro joelho, rebola pra direita, tenta esfregar o traseiro em mim. Tenha fé em Deus! Que carência, solidão dos infernos. Eu sou gay desde que me entendo por gente. Nem quando criança estive dentro do armário. A única forma que tenho para ajudá-la é indicar minha terapeuta. Louca! Estragou minha festa, me tirou do salão. Se eu não fugisse era capaz dela me encostar num canto e tentar o improvável. Tarada! Que coisa feia é o assédio. Mulher também se aproveita de homem. Não venham me dizer que não, porque se eu não me defendo, meu bem, a essa hora a loba desequilibrada tinha comido o chapeuzinho vermelho aqui.” “Mas pera lá, parece que ela é um caso patológico mesmo”, segreda a amiga-ouvinte. “Outro dia, na volta de uma reunião, no banco do carona ela se sentou no colo do Amarildo. Só ela e ele. Lugar tinha de sobra. Ela força a barra. Parece o Comando Vermelho atrás de polícia. Atira pra todo lado”. “E o Amarildo?” “Bem, ele ameaçou saltar do carro e ela agora espalha aos quatro ventos que ele é viado.” (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!")

17 de mar de 2008

Adolesceu sob a magia de Michael Jackson e agora atura os requebros e urros de Rick Martin

Dia desses um leitor me encheu de alegria, disse que “minha literatura tem um quê de encanto antigo”. Olhos sagazes e elogios charmosos tem o querido leitor. Gosto de brincar com o tempo, por enquanto nos damos bem e para meu próprio bem, tomara que seja amizade para a vida toda. Longa, segundo os oráculos. Às vezes, em conflitos geracionais, aviso, “mais do que uma mulher mais velha sou uma mulher antiga, gosto de coisas que os mais velhos do que eu gostam”. E não é por ter convivido com velhos não, caso freqüente em gente parecida comigo, é coisa de afinação da corda íntima, de afinidade com o que me precedeu. De bom gosto também, modéstia às favas: já ouviu Elizete, Dorival, Maysa, Ataulfo, Gonzagão, Jackson, Moreira, Nora, Alaíde, Dolores? Há pouca renovação artística de qualidade, músicos que foram jovens nos anos 60 continuam sendo ídolos de meninas e meninos que ainda não completaram 20. Você que é entendido em música pop me diga, o que aconteceu de novo depois de Michael Jackson? Nada. Os ídolos do pop dos últimos 45 anos imitam os passos inventados por Michael, desde os 5, nos Jackson Five. Eu vi os Jackson Five, imitava os passinhos deles, imunizada por eles, os Menudos nunca me atingiram. Só sei quem é Rick Martin porque a TV me bombardeia e entre um zap e outro há um mega-show desse mega-ridículo. Eu assisti a Seleção de 82, época de Júnior, Toninho Cerezo, Sócrates, Falcão. O Raí, herói de hoje, é um tipão, grande atleta, jogador dedicado e competente, mas genial foi o irmão dele. Eu ouvi o Olodum de Madagascar, das numerosas manifestações contra o apartheid, ah pelourinho, pelourinho, negras verdades e letras ingênuas, com erros históricos abissais, mas quem se preocupava com a História? Detalhe sem importância diante do solavanco de amor próprio que o Olodum nos dava. Para a gente do Sudeste então, à exceção dos cariocas, donos de uma identidade negra também poderosa, o som negro da Bahia era uma coisa mítica, quase uma divindade. Por falar nisso, outro dia, em um show, o Chico César introduziu a participação de Elza Soares chamando-a de “a diva, a divina Elza Soares”. Muito bem. Ao fim da apresentação, artistas e público muito emocionados, o diretor musical, excelente músico, segue a onda do Chico, mas toma um caldo da linguagem e apresenta a diva assim: “no centro do palco, a divindade Elza Soares”. O que não faz uma palavra mal empregada, a Elza empenhada em transpirar vida e o cara quer mandá-la para o Orum antes da hora. Voltando à Bahia, do Ilê nem falo, porque o mais belo dos belos continua a sê-lo. O povo novo tem Ivete, por favor, me dêem Elizete, Elizete, Elizete, e não pensem que é uma questão de rima.

14 de mar de 2008

Barack Obama e Dinha

Compro exemplar do Le Monde Diplomatique Brasil, n.36, impulsionada pela matéria de capa: “Obama – enfim, o fato novo.” Buscava novidades sobre Obama e a campanha dos democratas estadunidenses, ou uma análise política de grande envergadura que corrigisse meus erros interpretativos e robustecesse meus argumentos acertados. Nem uma coisa, nem outra encontro, os artigos eram mornos, tímidos até, e nada acrescentaram. A campanha está “apaixonante”, como diz o amigo Fernando, cientista político de mão cheia. Merece acompanhamento diário, em tempo real, pois tudo é tão veloz e mutante, que as publicações impressas e mesmo a televisão, têm comido bola. Há dias caiu uma assessora de Obama porque chamou Hilary de “monstra”. Agora cai uma assessora de Hilary porque afirmou que “Obama só está indo tão longe, porque é negro.” Um corta na própria carne daqui, a outra avalia que também é um bom lance de marketing cortar na própria carne dali. E tome bife nos costados de ambos. Lição representativa também, de que fogo amigo se combate em casa, antes de se tornar munição para o inimigo. No mesmo exemplar do jornal, surpreendo-me com um artigo da Dinha, a guisa do 08 de março. Dinha é poeta, autora de um belo volume de poemas “De passagem, mas não a passeio”, da Edições Toró, e segunda edição no prelo, pela Global, com direito a prefácio de Elisa Lucinda. Sua escrita me lembra a de Vilma Reis, de quem também sou fã. Ambas me trazem a ira santa dos injustiçados que sobreviveram e não se venderam. Acompanhem os primeiros parágrafos do texto e vejam se não tenho razão: “E por que será que eu, pobre, preta, favelada, nascida na Rua dos Ossos seria interesse para alguém? Seriam precisos quantos crimes, suicídios, ou quantas almas eu teria que vender? (Se o cabra dizia que era Deus, eu tinha que obedecer?) Devia falar de mor, calar sobre a distribuição de renda, ou dizer retoricamente apenas o que convinha? Devia mandar à merda toda a minha família? Botar Deus e diabo em um mesmo caldeirão? Devia ter pouco pudor. (Tudo o que o teu olho toca caberá em tuas mãos). Porque é preciso entender que o leite e a luta estão juntos, no caso de nós, as mulheres. E o que tantas pessoas confundem é que não há um valor para a luta. Militância não é emprego e guerreiras não recebem salários. Mas eu, preta, pobre, favelada, nascida na Rua dos Ossos, agora estou em evidência _ e não como vítima, reparem. Num lugar em que as mulheres são mortas pelos maridos, agredidas pelos filhos, torturadas pelas mini-saias, saltos altos e outras “burcas” do Ocidente, escolhi casar e ter filhos, e trabalhar na comunidade. Plantamos, casal, sementes de resistência. Mas quantos crimes precisaria cometer para estar na mídia? Pequena migrante, eu sabia: competência nenhuma eu tinha para seguir os caminhos “normais”. Então escolhi a escola. Sonhei que a educação era a chave para um outro mundo (im)possível. Um mundo em que, menina, nunca mais seria humilhada, nunca mais seria agredida, nunca mais seria violentada. Mas depois percebi que o respeito aqui não se tem, se compra (...) Por isso escolhi a favela e escolho ser Aqualtune. E quem sabe avó de quantos Zumbis eu serei? Se da serra da barriga das minhas filhas quantos quilombos virão?” Vejam também uma entrevista da escritora, publicada no blogue do Vaz, há uns tempos: www.colecionadordepedras.blogspot.com 1- Na sua opinião, qual a importância desta coleção da editora Global para a literatura brasileira? Dinha: A coleção apresenta um universo que, apesar de não ser estreante no cenário da literatura, é apresentado de forma sistemática, representativa, na medida do possível, de diversos gêneros literários produzidos nas periferias. Mas mais importante é que os leitores e leitoras terão a possibilidade de nos conhecer, rsrsrsr. Lógico. Porque o que vai nos conferir importância não é a coleção em si, mas a nossa sobrevivência, o fato de as pessoas nos lerem, ou não, depois que ser preto/a e pobre deixar de ser moda. A coleção possibilitará o acesso das pessoas aos textos produzidos pelas periferias. 2- E qual a importância desta coleção para as periferias brasileiras? Dinha: Depende. Se as pessoas tiverem acesso, poderá ser tão importante quanto o Hip Hop. As pessoas gostam de se verem representadas, de preferência, sem estereótipos, de forma realista ou não, mas respeitosa sempre. (Porque somos nós que estamos produzindo e eu, pelo menos, costumo me respeitar. Sei – porque sinto na pele – que somos a mesma pessoa: eu, minha família, meus vizinhos. Se um morre ou passa fome ou outro aperreio. Também sou eu quem estou morrendo, passando fome e todo o resto.) 3- Qual a importância desta coleção para vocês, escritores marginais? Dinha: A principal é a oportunidade de ser lido por outros públicos – periféricos ou não. Escrevo pra todo mundo. Faço questão de que todo mundo leia. Fico feliz quando uma moradora de rua (mais marginal que eu) lê e gosta dos meus poemas. Mas também fico satisfeita quando pessoas de outras classes e culturas lêem e gostam. 4- Prefere o termo literatura periférica ou literatura marginal? Existe diferença entre eles? Dinha: As palavras têm muito peso. Elas criam. Por isso discutimos as nomenclaturas. Mas, a princípio, é apenas uma questão de nome. Os ditos "marginais" e os ditos "periféricos" são hoje as mesmas pessoas. A diferença fundamental, pra mim, é que "marginal" até Caetano foi (uma amiga me lembrou isto uma vez). Periféricos ou, "de periferia", tem a ver com um contexto atual, difícil de confundir, por isso prefiro este último. 5- Considera que o adjetivo, tanto periférica como marginal, é usado de forma pejorativa, de modo a excluir vocês do time "oficial" de escritores? Dinha: A periferia é um mundo inteiro e tudo o que tem a ver com pobreza costuma ser tratado de forma pejorativa. Eu não me esforço pra parecer pobre. Sou pobre. Não tenho intenções de parecer e nem de ficar mais rica. Não admiro a outra classe. Se eu entrar pro tal time e não for lida pela minha mãe, filha, esposo, amigos, etc, de nada me serve a oficialidade. Digo isso porque cultura oficial, geralmente quer dizer cultura de elite, de quem tem poder aquisitivo. Essas pessoas, ou nos tratam como folclore, ou tendem a diminuir nossa produção cultural. Diante disso, a reação natural é reforçar que somos o que somos. Depois que estivermos bem firmes, deixaremos de desperdiçar energia com quem não vale o esforço e nos dedicaremos completamente à gente da gente. 6- A periferia lê a literatura feita na periferia? Dinha: Além dos livros publicados de forma independente, à revelia das grandes editoras e dos raros incentivos governamentais, existe ainda nas periferias diversos movimentos de acesso à leitura e formação de leitores e leitoras: são bibliotecas comunitárias, produção e circulação de fanzines, jornais de bairro, saraus literários e projetos independentes de oficinas literárias que possibilitam acesso à leitura sem que a gente deixe de comprar arroz e feijão. Significa dizer que a parte leitora da periferia, também lê seus próprios autores. 7- Os moradores da periferia terão acesso à coleção da Global? Lógico. Se não, pra quê publicar? Se não, pra quê servem as bibliotecas, saraus e tudo o mais que respondi na pergunta anterior? 8- O que significa uma grande editora lançar uma coleção de literatura marginal? Dinha: Significa que estamos sendo valorizados como autores/as, independentemente dos rótulos que se coloque. Mas significa também que estamos virando mercadoria vendável e que, portanto, corremos sério risco de virar escritores e escritoras rotineiras, de transformar nosso cotidiano, nosso mundo (com suas maravilhas e misérias) em material de consumo para outras classes – aquelas que não têm coragem de entrar numa favela, mas se delicia com esse contato "seguro". Significa que a luz amarela do farol está acesa. 9 - Você considera que tudo que vem da periferia ,ou é feito para e sobre a periferia, é positivo? Dinha: Nem o que vem da periferia e nem o que é alheio a ela são simplesmente positivos ou negativos. O Movimento Hip Hop, por exemplo, vem narrando, oralmente, através do Rap, várias nuances da perifeira. Isso é bastante positivo pra mim que nunca havia lido/visto/ouvido minha história, da minha família e dos meus vizinhos, a não ser a partir de olhares de fora, estrangeiros. Entretanto, o Movimento é mesmo machista e sexista , assim como a grande maioria das pessoas da nossa sociedade também o são. Isso não tira sua importância. 10 - Quais são os planos futuros? Dinha: Estudar. De preferência não trabalhar fora. Só para minha casa, família e comunidade. Cuidar das minhas filhas (a que é grande e a que está por nascer). Produzir e distribuir muitos fanzines (de graça, que é a melhor parte), participar de muitos saraus. Escrever muito. Até ano que vem, publicar o outro livro - "Morrer, só se morre uma vez?" – para o qual estou juntando munição. 11- Qual a maior contribuição dos saraus da Cooperifa ? Dinha: Reunir, compartilhar, multiplicar e produzir talentos entre nós, por nós. 12 - Como se tornou escritora? Dinha: Lia até pedaços de jornal velho – porque não tinha livros em casa. Depois comecei a escrever um diário, com uns 12 anos, mais ou menos. Como eu não tinha chave, percebi que as palavras poderiam dizer sem dizer. Comecei a usar metáforas como chave de palavras. Daí pra escrever poesia foi questão de tempo e muito segredo escrito. Depois senti vontade de mostrar. As pessoas gostaram e eu passei a produzir fanzines literários, com meus próprios textos. Faço isso até hoje. Me tornei escritora quando as pessoas passaram a ler meus trabalhos, multiplicar e pedir mais. 13 - Quais os autores te influenciam ou influenciaram ? Dinha: Li bastante Drummond, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Agora leio Cadernos Negros e autores de Angola e Moçambique ( que são coisas que eu estudo). Leio muito também os autores periféricos, ou que freqüentam o sarau da Cooperifa. Trocamos influências mútuas. Me influenciam também alguns rappers como GOG e o grupo Clã Nordestino. Me traduzem. 14- Se tiver alguma coisa que vc queira comentar...se puder também, conte o que anda fazendo. Dinha: Bom... acabei de casar, estou grávida de 6 meses, cursando mestrado na USP, na área de Literatura Comparada. Trabalho como educadora em uma ONG da cidade e sou responsável, entre outros, pela parte de saraus no Núcleo Cultural Poder e Revolução. Quero reforçar que apesar de escrever PARA todas as pessoas, escrevo, principalmente, POR mim. E eu sou mais que eu mesma. Sou meus irmãos, minha comunidade. Fico feliz que conheçam e admirem nossa história, nossa sensibilidade. Mas isso não significa que vou aliviar o lado de ninguém, nem me encantar a ponto de deixar de ser quem eu sou. Não quero enriquecer, sair da periferia e continuar a escrever sobre ela, de fora, como todo mundo que não é da periferia faz. Primeiro porque não tenho esse desejo, como disse, não admiro a outra classe. Não quero morar no Paraíso, Vila Madalena ou Morumbi, nem comer um pedaço de pizza que custe R$4,50, nem ter carro do ano, ou as outras coisas mais que desconheço. Quero mais é que as feridas se abram e o povo tome, à força se for preciso, o que é nosso por direito. Se eu fizer o contrário do que estou dizendo, me desconsiderem. Como diz o amigo, escritor e rapper Dugueto: Quem não tem valor, tem preço.

12 de mar de 2008

Amor na pós-modernidade

Quão novo é esse jeito pós-moderno de deixar as coisas na superfície. No limite da pele, das línguas, do sexo. É proibido aprofundar, se envolver. Nada de amadurecer. Sentir o amor crescer dentro do peito como um grão de feijão no algodão molhado. Aquela relíquia que você observa todos os dias de manhã. Molha. Cuida. E o bichinho vai crescendo até chegar ao céu. Risquem-se do dicionário as palavras compromisso e entrega. Extingam-se do breviário as conjugações dos verbos: amar, cuidar, entrelaçar, encantar, plantar e colher. Apague-se o brilho dos olhos de expectativa do próximo encontro. Substitua-se o verbo encontrar por manter contato. Substitua-se o suor das mãos enamoradas pela seqüência de beijos em bocas mil. Saiba que, mesmo acreditando em belas histórias de amor, ainda que curtas, os tempos pós-modernos lhe oferecerão tirinhas de jornal: três quadrinhos nesta edição, mais três na edição de amanhã, e assim dia após dia. Você pode também deparar com o represamento das águas do amor, que passam a ser controladas por fios, botões, transístores e relógios de força. Assim como uma hidrelétrica. Ou por conceitos como o de PSF – parceiro(a) sexual fixo(a), flutuante, fugaz. Depende da constância do “F”. Ah, que saudade da Pré-história, quando as pessoas namoravam e se casavam. Quando casar era mais do que dividir despesas e ter sexo seguro aos domingos à noite, depois do Fantástico. Que saudade dos tempos em que Baco fazia a festa dos amantes. Nestes tempos pós-modernos, a energia e a disposição dos ficantes é definida por alucinógenos, energéticos e drogas diversas. Ah, que tristeza viver nestes tempos sem compromisso, sem afeto, sem entrega, sem poesia. Sem exame do nó dos dedos, das linhas da vida e do amor nas mãos da amada, seguidos daqueles comentários tolos e profundos de quem nada entende de quiromancia, mas capricha na arte de seduzir. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Ilustração: Lia Maria)

11 de mar de 2008

João Planz, Jéremie e Bina passeiam por Rua Luanda

(Por: Edimilson de Almeida Pereira) João Planz – “João Planz estica o sol, encolhe o oceano. / Tira as rãs do viveiro, solta as galinhas na lua. / João Planz volta e meia muda a direção das ruas. / Para contar os dias, usa grãos de areia. / Para contar uma história, faz acrobacia com as letras. / João Planz conhece os brinquedos, o tatu e a taturana. / Conhece até os planetas, mas com seis anos apenas / o mundo de João Planz cabe nas pontas dos dedos.” Jéremie – “Quem disse a Jéremie que o vento não vai à escola, se engana. / Do alto de seu berço ele avista o vento atrás das antas. / Depois passando no lago, descendo por trás das pedras. / Quem disse que o vento não reza, se engana. / Jéremie nem esticou os olhos para vê-lo saindo da igreja. / Por que será que nunca dizem as coisas a Jéremie? Do alto de seu berço o mundo é pequeno. / Dá pra conhecê-lo de fora para o avesso”. Bina – “Um recado de Bina demora três luas para chegar. / Não importa o tamanho do texto. / O que Bina diz nunca finda de nascer. / Ontem ela indagou: - Como vai? Já fui, voltei e a pergunta ainda está na varanda. / Bina se esmera na fiação das palavras. / Como um aprendiz, não as veste sem motivo. / O cachorro ganiu, Bina veio contar. Por isso, em nosso ouvido o cachorro vai ganindo. / Ah, o melhor de tudo: meu coração floresce. / Vou pedir à Bina para espalhar a notícia. / Então serei primavera muito tempo na vida”. (Rua Luanda, Paulinas, 2007, coleção Árvore falante)

9 de mar de 2008

"Carolina de Jesus e Estamira: mulheres, negras e brasileiras"

(por: Paulo Moreira Leite / extraído do sítio literário Lima Coelho www.limacoelho.jor.br ) "O único filme obrigatório de 2006 é Estamira, impressionante depoimento de uma senhora que sobrevive num lixão do Rio de Janeiro. Estamira é um soco no estômago: choca pelo que tem de novo e também pelo que tem de antigo. Em 1958, um jovem repórter, Audálio Dantas, decidiu conhecer de perto uma favela de São Paulo, para retratar um cotidiano que poucos conheciam, na época. Audálio descobriu Carolina de Jesus, personagem que virou reportagem, depois livro e peça de teatro e, até morrer, foi um desses símbolos eternos da desigualdade brasileira. Há uma semelhança óbvia entre Estamira e Carolina de Jesus. Ambas são mulheres, negras e miseráveis. Há diferenças notáveis, também. Aos olhos de hoje, a pobreza de Carolina de Jesus era uma realidade quase poética, em seus barracos de madeira e uma cidade que ficava genuinamente comovida com sua infelicidade. O retrato de Carolina de Jesus desenhava uma tragédia social que era chocante porque parecia passageira e fácil de ser consertada. Era um Brasil otimista e generoso que olhava para ela, apesar de tudo. A miséria de Estamira é mais sofrida e repulsiva. Se a primeira catava papel, a segunda vai direto ao lixo em busca de detritos. O olhar que mostra Estamira é pessimista, derrotado. Carolina de Jesus foi saudada de modo generoso, com uma certa culpa. Estamira é vista com temor, assombro -- e medo. Se o país que acolheu Carolina de Jesus acreditava-se solidário, o Brasil de Estamira perdeu a vergonha do próprio egoísmo. A pedido do blogue (do Estadão), Audálio Dantas foi ver o Estamira. Consultou seus arquivos sobre Carolina de Jesus. Ele nos enviou as fotos da própria Carolina de Jesus. Uma das fotos mostra a atriz Ruth de Souza, representando a personagem em "O Quarto de Despejo," encenada em 1961. A última foto é do próprio Audálio na favela, conversando com Carolina de Jesus. Ele também é o autor do texto que publicamos a seguir, e que serve de instrumento para nossa reflexão: "Em uma sala – o Cine Bombril – em São Paulo, assisti um documentário tão bom quanto perturbador: “Estamira”. Realizado por Marcos Prado, o filme conta a história de uma mulher que sobrevive dos restos que consegue amealhar num lixão do Rio de Janeiro. O título do filme é o nome dela, um nome raro, estranho, forte – Estamira. O cenário, uma pegajosa montanha de lixo, é o lugar dela. Um lugar para onde são mandados os restos da cidade. Sobre os restos, a presença de Estamira, imponente como se aquilo fosse um pedestal. Ela sentencia: “Isso aqui é o resto, mas também é o descuido”. Ela quer dizer que no meio do muito que não serve, pelo menos para quem joga fora, sempre sobra alguma coisa descartada por descuido. Pode ser uma lata de conserva (quem, nesse lugar, se dará ao cuidado de conferir validade?), um a melancia, um maço de verduras, um brinquedo, até um livro. Estamira faz, ali, minuciosa garimpagem. E disso vive e por isso proclama que aquele é o melhor lugar do mundo para se viver. Estamira delira e o filme de Marcos Prado é o alto-falante que espalha a sua voz, o discurso que ela faz do alto da montanha de lixo. Um estranho e perturbador sermão, de negação de Deus, porque, para ela, o concreto está ali, sob seus pés. “Deus é criado pelo homem, é o poder ao contrário”. Marcos Prado expõe, com grandeza, em belas e densas imagens, o delírio de Estamira. O filme é Estamira e sua verdade, sua voz que paira sobre o caos do lixo. É um depoimento, um testemunho. Por ser tudo isto, muita gente viu no documentário forte semelhança com a história de Carolina Maria de Jesus, outra mulher que viveu do lixo, dos restos, dos descuidos. De fato, há semelhanças, mas a história é outra, e essa eu posso contar, porque dela participei. Se Estamira, que aceitava o mundo do lixo, onde, para ela, não há “escravos disfarçados de libertos”, Carolina abominava a favela, onde se sentia escrava da miséria. Estamira e Carolina percorreram praticamente os mesmos caminhos: ambas vieram do fundo do Brasil, uma de Goiás, outra de Minas, do abandono rural para o urbano, em busca, talvez, da salvação. Encontraram o lixo e sobre ele, delirantes, proclamaram o seu protesto. Mas cada qual fez isso de seu jeito, arrancando o protesto do mais fundo da perturbação mental. Da loucura que, corajosa e dignamente, Marcos Prado expõe em seu belo filme. Conheci Carolina de Jesus numa favela, num tempo em que as favelas, além daquelas que avançavam pelos morros do Rio de Janeiro, ainda eram poucas. A favela do Canindé, onde Carolina vivia, era uma novidade na beira do rio Tietê, em 1958. Toda a cidade de São Paulo não tinha, na época, muito mais que 50 mil favelados. Então, a favela do Canindé, uma das que se aproximavam do centro da cidade, chamava a atenção. Entre outras coisas, por incomodar os vizinhos. A favela era, assim, um assunto novo, na época. Bolei uma pauta, logo aceita pelo chefe de reportagem da Folha da Noite, um vespertino do grupo Folhas, onde eu trabalhava. A idéia era “viver” uma semana na favela, ver como era aquilo “por dentro”. Parti para a missão com o sentimento mais ou menos comum aos jovens repórteres, que é o de que podem mudar o mundo. Do mundo não mudei nada, claro, mas a história que trouxe de dentro da favela espantou muita gente, incomodou, pelo menos. A história que eu buscava na favela já estava escrita com furor, revolta e às vezes até com lirismo, em mais de vinte cadernos encardidos, pela favelada Carolina Maria de Jesus. Era um diário em que ela contava a sua e a miséria dos demais que ali viviam. Ao contrário do discurso gritado a plenos pulmões por Estamira, Carolina ia escrevendo, tecendo amargura e revolta em cadernos que, como o demais que lhe garantia a sobrevivência precária, encontrava no lixo. O lixo de Carolina era diferente do lixo de Estamira. Não era um lixão, aquela montanha lá do Rio de Janeiro, mas o lixo espalhado pelas ruas. Às vezes, um pedaço de pão, um pacote de bolacha. Vivia, principalmente, da venda do papel catado. Só quando esse lixo escasseava, ela se aventurava até um lixão que ficava perto do Tietê e que se chamava Lixão, mesmo. Mas ao contrário de Estamira, que proclamava o lixão como o melhor lugar de se viver, Carolina abominava o lugar ao qual só ia por extrema necessidade. O Lixão foi o lugar onde, um dia, morreu um menino chamado Dinho por que, não resistindo à fome, catou um pedaço de carne estragada, assou, ali mesmo comeu e ali mesmo morreu. Tudo isso Carolina registrava em seu diário, com a força de quem conta a verdade. Em apenas um dos cadernos, iniciado em l955, encontrei material suficiente para a reportagem que a Folha da Noite publicou em página inteira. O meu projeto de escrever uma reportagem que mostrasse a favela “por dentro” terminava ali. De meu, na reportagem, só o texto de abertura, de introdução ao tema que ficou por conta de Carolina. A reportagem reproduzia trechos de seu diário. Repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela. Com pouco tempo de escola, apenas dois anos do primário, em Sacramento, Minas Gerais, Carolina podia tropeçar na ortografia, escorregar na concordância e na pontuação, mas construía uma narrativa forte, densa, um retrato sem retoque da dura vida favelada. A fome, personagem principal, aparecia no texto com uma freqüência irritante, inarredável. Tinha até cor, na escrita de Carolina. As coisas do mundo – o céu, as árvores, as pessoas, os bichos – ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do insuportável. A fome era amarela. Em 1959, quando me transferi para a revista O Cruzeiro, na qual publiquei uma segunda reportagem sobre o diário de Carolina. A revista era, então, a mais importante do Pais. A repercussão foi grande e, no ano seguinte, o diário saiu em livro – Quarto de Despejo - que, em pouco mais de uma semana teve a sua primeira edição, de 10 mil exemplares, esgotada. O título foi extraído de uma frase do diário: “A favela é o quarto de despejo da cidade”. Fui o responsável pela compilação do texto. Do diário foram extraídos os trechos que considerei mais significativos, mas sem lhes alterar a forma. A repetição da rotina, da miséria da favela, seria exaustiva. Aqui e ali mexi na pontuação, assim como na grafia e na acentuação de algumas palavras, quando isso se tornava necessário a uma melhor compreensão do texto. E foi só. O sucesso do livro transpôs as fronteiras, chegou a dezenas de países, com o livro traduzido em treze idiomas. Os mais importantes jornais e revistas do mundo trataram do assunto. Entre outros, Le Monde, Time, Life. A mais importante revista francesa, Paris Match, publicou matéria de mais de dez páginas. Escritores importantes, como Alberto Moravia, que escreveu o prefácio da edição italiana, trataram do assunto. O sucesso do livro foi também, claro, o sucesso de sua autora, transformada de um dia para outro numa espécie de Cinderela. Do borralho da favela foi para uma casa que comprou no meio de gente de classe média. Muitos se incomodaram com a presença daquela negra alta, ex-favelada que brilhava sob as luzes da cidade. Carolina tentou um retorno ao mundo rural. Comprou um sitiozinho em Parelheiros e lá foi viver. Com o tempo, o dinheiro dos direitos autorais (apareceu muita gente em busca de “auxílio”) foi escasseando. Algumas vezes chegou a dizer que preferia viver na favela. Carolina morreu em 1977, aos 68 anos. O impacto de Quarto de Despejo foi além das discussões sobre o texto que muitos consideravam impossível ter sido escrito por aquela negra. O problema da favela foi discutido, estudantes fundaram o MUD - Movimento Universitário de Desfavelamento, a favela do Canindé desapareceu. Parecia, até, que se daria um jeito na miséria. Passados mais de quarenta anos do impacto do livro, muita coisa mudou no País. São Paulo tem outra cara, cresceu para muito além dos limites da beira do Tietê, onde existiu a favela revelada por Carolina de Jesus, hoje multiplicada em centenas de outras. Os lixões também se multiplicaram." Seção: cultura, 06.10.06/19:37:36. FONTE: http://blog.estadao.com.br/blog/paulo/?title=carolina_de_jesus_e_estamira_mulheres_ne&more=1 &c=1&tb=1&pb=1.

8 de mar de 2008

Apenas uma mulher

Ela estava de cabeça quente com aquela situação. Quinze dias desempregado e o bonitão não se mexia para procurar trabalho. Tivera de mudar toda a rotina. Antes, quando ele trabalhava o dia inteiro, deixava a menina em casa e a vizinha passava os olhos, enquanto ela faxinava prédios próximos ou preparava congelados na casa dos solteiros. Isso só dois ou três dias da semana. Assim que chegava da aula, a vizinha dava o almoço para evitar que a menina mexesse com fogo. Com um homem dentro de casa ela não deixaria a menina sozinha, nem monitorando de meia em meia hora. De jeito maneira. “Cabeça vazia é oficina do diabo”, prevenia a avó. Estava certa. Ele nunca desrespeitou a menina e ela orientava que qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, a menina deveria contar para ela. Mas nunca se sabe. Cabeça vazia é oficina do diabo. O homem pediu demissão. Alegou que não agüentava mais passar doze horas dentro de um carro forte, cheio de dinheiro que não era dele, naquele calor infernal que lhe cozinhava os miolos e os bagos. Mas, se ele estava achando que ela iria sustentá-lo, tirasse o cavalo da chuva para não pegar resfriado. Homem para morar com ela tinha de trabalhar, pagar uma parte das despesas. E barriga de tanquinho que não malha, estufa e esparrama. Homem fica sem fazer nada, só pensa em sexo. Daqui a pouco tá cheio de Alexandrinho pela vizinhança. Nela, não, que não é boba. Não pega filho. Afirma que tem alergia a outros métodos e só faz de camisinha, mas toma anticoncepcional escondido. Uma pena. Bom de cama ele é, mas, se não arrumar outro emprego logo, linha na pipa dele. Cabeça vazia é oficina do diabo. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Ilustração: Lia Maria)

7 de mar de 2008

Papo sério sobre o 08 de março: "A saga feminista hoje"

Este artigo de Fátima Oliveira, publicado no sítio literário Lima Coelho - www.limacoelho.jor.br, me redime. Confesso-me muito constrangida quando um amigo ou parente do sexo oposto telefona para me parabenizar pelo "dia da mulher". Sei que há afeto sincero na felicitação, um jeito de valorizar o que faço na vida, as bandeiras que impunho, as causas que defendo, a minha maneira de abrir e consolidar caminhos. São formas de declarar admiração pela mulher que sou. Mas não dá pra fugir do fato de que esse desejo de felicidade (principalmente masculino) no tal "dia da mulher" é reflexo da "comercialização irreversível do Dia Internacional da Mulher", como vaticinou a querida mestra. Obrigada Fátima, e parabéns, pelo texto-nave-vida. Em tempo, parabéns também à Sobá Livraria & Café que, neste 08 de março, apaga a primeira velinha. (por Fátima Oliveira) "Diante da comercialização irreversível do Dia Internacional da Mulher, ouso reafirmar a radicalidade das idéias e da prática feministas, a quem devemos mudanças culturais expressivas na condição da mulher. Os padrões culturais indispensáveis à igualdade entre as pessoas são de alta complexidade e exigem tenacidade contra o sexismo, o racismo, a homofobia, a opressão de classe e o fundamentalismo religioso e suas novas formas de expressão, desde que decretaram a morte das ideologias, a maior mentira do presente século. Mas muita gente crê. E lutar contra crenças é inerentemente complicado. Foi da consciência da milenar opressão de gênero, um fenômeno pancultural, e da compreensão que os governos nos devem muito que surgiu a idéia de um dia para denunciar a situação de segunda cidadania da mulher. A abolição de todas as formas de opressão está no horizonte, pois suas sementes já foram plantadas. A saga feminista hoje consiste em regá-las, pois nós, as feministas, somos jardineiras de um padrão cultural e ético não opressor. Só assim reverenciamos Clara Zetkin, líder socialista alemã, pelo seu gesto de propor na 2ª Conferência Internacional da Mulher Socialista, em Copenhague (1910), o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. Foi escolhido o 8 de março. Há duas perguntas que me fazem muito. A primeira, o que uma mulher como eu ainda quero da vida? A segunda, por que o 8 de março é Dia Internacional da Mulher? Pensando bem, e pensar é sempre perigoso, cada pessoa sabe de si. Digo-lhes: vivo prenhe do amanhã... Pensando mais, é inegável que tenho uma vida privada que de certo modo contém aparentes privilégios, considerando-se o contexto brasileiro - a Constituição mais avançada do mundo em relação aos direitos da mulher, que ainda não é a regra para todas; o fato inconteste de ser sobrevivente do tétano neonatal; e que "eu venho lá do sertão"... Puxando pela memória... O Belém (dos Pretos), torrão ancestral materno (Colinas-MA), e Colinas, onde estudei, são doces recordações; Graça Aranha (MA), onde nasci, e seus caixões azuis de bebês, que ainda brotam como cogumelos, ainda dói, mas afaga meu peito; São Luís, com a poesia e sangue escravo que exalam dos sobrados de azulejos, sacadas e mirantes, foi o palco de minha vida de estudante, onde me fiz médica; Imperatriz (MA), que me acolheu em seu ventre laboral, criei raízes, enterrei lá meus mortos queridos, é minha casa, onde volto, sempre, levando flores, e reabasteço as energias. O resto é lucro, a envolver minha prole de cinco. Morar na linda Belo Horizonte, por exemplo. Quantas pessoas podem contar uma história assim? Se são privilégios, eu os construí, com gana e garra. Como não honrar conquistas exuberantemente belas? Tenho a convicção que sou apenas usufrutuária do mundo. Assim sendo, tenho o dever moral de legá-lo bem melhor do que ele foi para mim às gerações futuras. Portanto, para mim, lutar é um dever moral. À segunda indagação, respondo recontando uma história prenhe de simbolismos. Foi em 8 de março de 1857 que 129 operárias de uma indústria têxtil de Nova York, a Fábrica Cotton, morreram queimadas. Em greve contra as péssimas condições de trabalho e exigindo melhores salários e redução da jornada de trabalho de 14 para dez horas, a resposta dos patrões foi fechar a fábrica e atear fogo no prédio ocupado. Um dos meus ritos de passagem na travessia da vida foi a 3ª Conferência Mundial contra o Racismo (Durban, 2001). Poderia contar do que vi a partir de muitos lugares: de minha esquina de sertaneja negra; de minha esquina de anti-racista; de minha esquina de feminista; de minha esquina de comunista; e de minha esquina de médica, pois delas miro e vislumbro o pulso e o pulsar da vida: a cara oficial do mundo (os governos) é racista, machista e intolerante. E, por tabela, as sociedades são racistas, xenófobas, machistas ou intolerantes. Ou tudo isso junto. Como não lutar contra tantas mazelas?"

TPM

Vem a moça na mesma calçada, chorando. Diminuo o passo, aperto os olhos e vejo que a conheço. É a garota negro-capixaba que admiro tanto. Encurto o passo ainda mais. Espero. Ela desvia, eu a chamo. Eusébia. Ela ouve um alento, pára e enxuga os olhos. Sorrimos e nos abraçamos. Não pára de chorar. Posso ajudar? Pergunto. Quer água, café, suco? Não. Ela não quer nada. Diz que é a TPM, logo passa. Desconfio. Tenho para mim que TPM é vala comum onde homens jogam tudo o que não compreendem sobre a mulher. Mulheres fazem o mesmo, depositam naquela vala as complexidades cotidianas, chatas e incansáveis, que de tanto pressionar os ovários, explodem em lágrimas, gritos, dores. Nada mais pergunto. Mostro os livros que trago na bolsa e conto os preços, promoção das promoções: a obra poética completa, bilíngüe, bem traduzida e revisada do Lorca por trinta e cinco. A biografia do Machado, premiada no Jabuti, por trinta. Cora Coralina da casa velha da ponte e dos becos de Goiás. Contos de Carlos Lacerda. Crônicas de Manuel Bandeira. Eusébia se anima, não há como não se animar. Os olhos estão menos vermelhos. O olhar é triste, como sempre. Nos despedimos. Ela me abraça. Repete no meu ouvido que é a TPM, logo passa. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!" Ilustração: Lia Maria.)

6 de mar de 2008

Sobre o Tambor e o blogue

Lançado durante o Sarau da Cooperifa, dia 05 de março, em São Paulo, o Tambor foi oficialmente para as ruas, para fazer barulho e quebrar a oficialidade. Várias pessoas têm escrito no aguardo de que o Tambor chegue às suas cidades. Nós vamos, com prazer, só é necessário convidar, patrocinar a viagem, organizar e fazer acontecer o evento. São condições imprescindíveis. A gente carrega o livro nas costas, mas não dá para bancar lançamentos e nem contamos com financiamento para fazê-los. A agenda é negociada e renegociada constantemente, o Rio, por exemplo, acaba de avisar que só receberá o Tambor em abril, não mais em março, como havíamos previsto, e a data ainda é incerta. A agenda definida até o momento é a seguinte: 25/03 Belo Horizonte, MG; 27/03 Porto Alegre e 28/03 Alvorada, Grande Porto Alegre, RS; 03/04 Brasília, DF; 04/04 Goiânia, GO; 11/04 Belém, PA e 15/04 São Paulo, SP. A capa e as ilustrações têm feito um sucesso estrondoso, tomara que os textos estejam à altura delas. Em tempo, ultrapassamos as mil visitas ao “meu perfil” no blogue. Não temos idéia do que isso signifique em número de visitas ao blogue, propriamente, cinco mil, dez mil? Que tipo de especulação seria factível? A resposta será dada pela instalação de um contador de visitas eficiente, assim que o blogue se profissionalizar. Até lá, vamos tocando o Tambor.

Comemoração

Sexta-feira, lua cheia. Ela já telefonou para o maridão e se certificou de que hoje não haverá futebol com os amigos. Nem cervejada. Dá um pulinho de felicidade. Diz que ele terá uma surpresa. Prepara a casa. Arranja umas flores. Troca o forro do sofá. Tira o velho com manchas de baba dele. Borrifa bom ar em todos os cantos. Deixa a comida predileta dele semicozida. Um mês de casados. Eles merecem aquela festinha particular. Não pode faltar cerveja, bem gelada. Porque se ele comer de cara, depois dorme e aí morreu Maria Preá. Só acorda no dia seguinte. Ai, aquele friozinho gostoso. Depois do amor, jantar e dormir agarradinha nele. Recapitulando: ele chega, ela pula no pescoço dele, não pergunta a data porque ele não vai lembrar mesmo. Avisa que completavam um mês de casados aquele dia. O marido faz um ar de surpresa para disfarçar a falta de importância do tema. Ela o conduz até o sofá, sugere que tire os sapatos enquanto busca uma bebida e azeitonas. Ele se senta, tira o tênis de chulé e liga a TV. Ela leva o de comer e de beber, faz uma cara sensual-enigmática e pede para que espere um pouco. O tempo de preparar a surpresa. Ela é a própria surpresa. Entra no quarto, desembrulha a roupa, veste. Bate o queixo. Está frio mesmo. Mas para tudo tem solução. Crê que ele ficará doidão e pulará em cima dela. O calor deles espantará o frio. Calcinha e sutian de renda preta, unidos por uma liga, tipo suspensório. Uma tela bem furadinha no ventre. Um lenço de seda preta no rosto. Meia calça transparente, vermelha. E o sapato de salto quinze. Esse não pode faltar. A personagem mescla uma dançarina de can-can, e outra, de dança do ventre. Arremata com perfume e vai pra calçada. Chega à porta do quarto e o chama. “Benhêeee!” Desmancha-se em sorrisos e gestos pretensamente tímidos de donzela à espera do garanhão. Ele olha na direção dela, distraído, volta à TV por um instante, olha-a novamente e diz: “Tá doida menina, desse jeito cê vai constipá. Vai logo vestir uma roupa”. Ela chora, desconsolada. Não tinha plano B. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Ilustração: Lia Maria)

5 de mar de 2008

Novo livro da escritora Cidinha da Silva terá lançamento em vários estados do país

(por Rosane Borges) "Já encontra-se à disposição o mais novo livro da escritora Cidinha da Silva, Você me deixe, viu? eu vou bater meu tambor! (Mazza Edições, Belo Horizonte, 2008). Trata-se de uma publicação zelosa em que se pode a cada página perceber o esmero: prefaciado pela professora doutora Maria Nazareth Soares Fonseca, professora de Literatura da PUC Minas, apresentado, na orelha, pelo cineasta Jeferson De, e ilustrado sob a pena da artista Lia Maria, o livro é timbrado pela leveza, ironia requintada e sonoridade, fazendo-nos nos lembrar, vez por outra, a sonoridade de alguns poetas africanos. O lançamento nacional do livro será hoje, 5 de março, em São Paulo no Sarau da Cooperifa. Já estão marcados lançamentos nas cidades do Rio de Janeiro, no dia 22 deste mês, em Belo Horizonte, 25, e Porto Alegre, 27. Estruturado em um conjunto de 26 textos, entre crônicas e mini-contos, Você me deixe, viu? eu vou bater meu tambor! é o segundo livro de literatura da escritora (o primeiro é Cada tridente em seu lugar, lançado em 2006 e reeditado em 2007) que brinda os(as) leitores com recursos literários sutis, mas nem por isso menos sofisticados. O eixo ordenador do livro gira em torno das afetividades, da sexualidade, do amor, do corpo, e é construído a partir das relações perturbadoras entre mulheres e homens, subvertidas criativamente pelos infindáveis modos de vida que se tecem no universo cotidiano de cada um(a). Relações aplacadas, inacabadas, conflituosas, são esquadrinhadas por Cidinha, que mais uma vez nos oferece a possibilidade de nos (re)visitar a partir da arquitetura que constrói as moradias efêmeras do outro, espelhadas em cada leitor(a). Sobre a escritora – nascida em Belo Horizonte, Cidinha da Silva é historiadora, diretora do Instituto Kuanza, escreve ensaios e histórias curtas. Escreve, ainda, artigos relacionados à temática das relações de gênero e raciais. É autora dos livros Cada tridente em seu lugar (2006, 2ª edição), Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (2003, 3ª edição),entre outros." O que: lançamento do livro Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Onde: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre: Quando: 5, 22, 25 e 27 de março, respectivamente. Contatos: edmazza@uai.com.br ; cidinha.tridente@gmail.com

4 de mar de 2008

Vamos fazer barulho aêeeee! Lançamento do Tambor no Sarau da Cooperifa!

Chegou a hora, agora é toque de Tambor com oficialidade de lançamento. Em grande estilo, no Sarau da Cooperifa, quarta-feira, dia 05 de março. Já que o Vaz disse que o Sarau é "minha casa", além de honrada e agradecida, serei abusada. Lerei dois textos, um de cinco linhas, "Lições", que vocês já conheceram aqui e outro maiorzinho, "TPM", mas nada que ultrapasse o tempo de um texto médio. É, sarau é assim. O Akins me ensinou que a gente deve se preparar antes. Ele, Akins, ensaia a semana inteira e olha que se trata de um performer nato. Segundo a Júlia, de BH, a capa do Tambor engana, é melzinho na boca antes de entrar na acidez dos textos. Então tá, combinados(as) estamos: quarta-feira, dia 05 de março, às 21:00, no Sarau da Cooperifa. Bar do Zé Batidão, à rua Bartolomeu dos Santos, 797, Chacára Santana, São Paulo. Em tempo: para adquirir o livro é só visitar o sítio da Mazza Edições www.mazzaedicoes.com.br ou escrever um e-mail para edmazza@uai.com.br .

3 de mar de 2008

Intolerância Religiosa – uma realidade brasileira

(Por: Márcio Alexandre M. Gualberto - Afropress - www.afropress.com) "Cantada em verso e prosa, a nossa multiculturalidade, nossa miscigenação e nossa malemolência tupiniquim estão seriamente ameaçadas pela intolerância religiosa que, de norte a sul, está dominando o país. Não é preciso ser um grande estudioso para saber que num ambiente de desespero e de pouca cultura florescem com mais tranquilidade teses fundamentalistas e visões religiosas que apelam ao místico para buscar respostas para os problemas cotidianos das pessoas. Assim, não são as pessoas que têm problemas, é o diabo que faz com que elas tenham. Tire-se, pois, o diabo de suas vidas que tudo estará resolvido. Por malandragem, conveniência, má fé e desrespeito, convencionou- se nos meios pentecostais e neo-pentecostais que a melhor representação do diabo como inimigo a ser combatido está nos cultos de matriz africana, onde elementos como Exu, que no sincretismo religioso - que, tal como jabuticaba e dólar na cueca, é coisa que só dá no Brasil -, é identificado com a figura do demônio. Portanto, onde grassa a ignorância, onde ninguém lê e se informa, até porque para entender o sincretismo é necessário o mínimo de estudo, o que se vê é, a cada dia, aumentar a necessidade de e combater o demônio, logo, combater as religiões de matriz africana. Alguns anos atrás o bispo Van Helde, da Igreja Universal, chutou uma imagem de santa na TV e isso virou um caso nacional. No entanto, a mesma Igreja Universal, todos os dias, a todo instante, ataca as religiões de matriz africana e tudo fica por isso mesmo. Nas favelas cariocas pessoas que são ligadas ao candomblé e à umbanda estão sendo "convidadas" a se retirar por traficantes convertidos às igrejas evangélicas que, no entanto, continuam exercendo seu ofício, agora com as bençãos do Senhor, pois até mesmo cerimonias religiosas para traficantes estão sendo feitas nos morros por pessoas que se dizem pastores de igreja. Não são poucos os casos onde babas e yalorixás têm sido expulsos, vítimas de violência física, mortos; terreiros atacados e depredados, enfim, a intolerância religiosa faz parte do cardápio do dia. Um ano atrás a Polícia Militar em Minas invadiu, a partir de uma denúncia anônima que ali funcionava um cativeiro, o Ilê Unzo Atim Nzaze Iya Omin, ofendeu religiosos, agrediu pessoas e o caso só nao caiu no esquecimento porque organizações do Movimento Negro e religiosas agiram acionando os órgãos públicos tomaram as medidas cabíveis que o caso exigia. Agora, mais recentemente, vem de Belo Horizonte um novo caso de intolerância religiosa. Depois de quatro meses para abrir uma conta bancária, necessária para recimento de recursos de projetos sociais e manutenção da própria casa de terreiro, a Mame’tu Kitaloiá da Associação Religiosa Ilê Jacutá de Iansã, acompanhada da coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira (CENARAB), Makota Celinha, ouviram de um gerente da Caixa Econômica a seguinte argumentação para a não abertura da conta corrente: “O conselho da agência após analisar a solicitação indeferiu o pedido da Associação, oferecendo a mesma apenas a possibilidade de abertura de uma conta poupança”. Indagado sobre o porquê disso, visto ser a Associação uma entidade registrada e inscrita no Conselho Nacional de Pessoas Jurídicas e se encontrar em dia com sua documentação e obrigações, a resposta dada foi a de que “assim como a senhora escolhe um banco para sua movimentação bancária, o banco escolhe o cliente com o qual deseja trabalhar. E neste caso a Caixa Econômica não se interessa por este tipo de cliente”. Indagado ainda se a motivação para esta postura, era pelo fato da Associação se tratar de um candomblé, o gerente respondeu que “a Caixa Econômica se sentia no direito de ter o cliente que lhe interessava, e que se quiséssemos o Conselho havia definido pela Conta Poupança”. Na semana passada, a Prefeitura de Salvador resolveu derrubar o terreiro Oyá Onipó Neto, que está há 28 anos instalado no mesmo lugar. Dada a repercussão do caso, o prefeito retirou a ordem mas o estrago já estava feito. Grande parte do terreiro ruiu e com ele as imagens dos santos e os espaços sagrados do terreiro foram destruídos. O prefeito ainda tentou um acordo com a mãe-de-santo da casa, mas organizações importantes do Movimento Negro e religiosas entenderam que o que estava se vendo ali era um grave caso de intolerância religiosa e racismo institucional, portanto, nao caberia apenas a resolução do caso deste terreiro específico, mas, antes de tudo uma retratação pública e a garantia da prefeitura de que situações como essa não mais se repetirão. Para que isso ocorra o ogan do Ilê Oxumarê e coordenador geral do Coletivo de Entidades Negras, Marcos Rezende, entrou em greve de fome com o apoio de sua organização, de várias organizações do Movimento Negro e dos terreiros religiosos. Nos últimos dias uma corrente de apoio e solidariedade tem se erguido de norte a sul do país a favor de uma resolução para o caso. No entanto, é visível a omissão de parlamentares, órgãos públicos (Seppir, por exemplo), grupos político-partidários, que simplesmente se calam, como se casos de intolerância religiosa não lhes dissessem respeito. O Brasil está vivendo um momento complicado no que tange às relações étnico-raciais. No momento em que negros e negras passam a reivindicar espaços na educação formal, no mercado de trabalho, nos veículos de comunicação, na economia e nas esferas de poder, os racistas brasileiros e seus porta-vozes resolvem dizer que os negros é que estão querendo dividir o pais entre racistas e não racistas. Ou seja, quando a vítima de racismo se rebela, é, ela mesma, taxada de racista por aqueles que a discriminam. Uma total esquizofrenia social que, tal como a jabuticaba.. . Enfim, o racismo a brasileira está na ordem do dia e com ele a intolerância religiosa. Atitudes urgentes precisam ser tomadas e não bastam apenas ficar nos discursos. É necessário que o Estado brasileiro se posicione, que órgãos públicos legislativos, executivos e judiciários estejam atentos ao que está acontecendo. Pois chegará o momento em que as vítimas começarão e se revoltar e passarão a reagir. E quando isso acontecer talvez seja muito tarde para buscar soluções que já deveriam ter sido implementadas há mais de cem anos".

Vlade retro!

Sempre que está em crise, ou se separa da esposa, ele recorre às raízes profundas do relacionamento suplementar. Colinho seguro, ventrizinho quente, até que a titular o chame. Chega cheio de dengo, revisa os erros cometidos, promete amor eterno. Choraminga pela undécima vez todas as faltas e carências da infância e adolescência sofridas. Arremata com as raízes profundas que lhe dão sustentação para continuar existindo. Ela resiste a princípio, nem é charme, coitada. É a dignidade lutando para não se afogar nos canais lamacentos de seu coração de mãe. Mas a dignidade faz glub-glub, e ela, mais uma vez, entende, acolhe e ele arremata com as infalíveis raízes profundas. O telefone toca. Ele reconhece o número. É ela, a outra, entenda-se, a oficial. Precisa atender. Vai que ela está precisando de alguma coisa, que tentou suicídio. Ele é solidário. Afasta as raízes profundas e entoa voz de cachorro abandonado, protegido pela mão em concha no celular. Desorienta-se. Precisa ir embora. Assim que puder volta. Tudo bem. Ela murmura: “Não se preocupe, não estou chorando. É um cisco”. Ele sopra os dois olhos dela, por precaução. Afinal, ela não especificou o olho hospedeiro do cisco. Despede-se. Sussurra: “Até logo, meu bem, não se esqueça, nosso amor está escrito nas estrelas e tem raízes profundas”. (Do livro novo: "Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!)

1 de mar de 2008

Sobre o livro da Cidinha

( Por Alessandro Campos) "O livro tem um nome otimo, Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Ta saindo... Conheci a Cidinha da Silva atraves de uma outra amiga. Um desses felizes encontros de alguem que conhece alguem e, que por sua vez, conhece alguem. Estava eu buscando por mais espacos (dentro e fora de mim) sobre a espiritualidade afro-brasileira. E foi numa dessas que encontrei a Cidinha. Coisas boas do ritmo e da crenca, lugares curiosos da alma e para o corpo. Foi somente depois que vim a saber que ela era escritora. Conversa vai e conversa vem, o mundo comeca a ficar pequeno. Havia aquela sensacao e a vontade de perguntar "porque a gente nao se conheceu antes?". Mas tudo no seu tempo... Foi em 2006, se nao me engano em setembro, que a Cidinha lancou Cada Tridente em Seu Lugar, que hoje esta na 2º edicao. Seu primeiro livro de cronicas. Foi la na Acao Educativa, com direito a autografos e tudo mais. Bom, o livro li numa "paulada" soh. Ficava lendo tambem pra todo mundo que podia e ninguem escapava de algum conto quando ia me visitar. Depois disso fui cair no mundo e o livro veio junto. Acabei escrevendo para ela em alguma das vezes que o livro se fez tao presente e desde entao a gente compartilha algumas ideias-historias-emocoes. Eu acabei virando nao apenas fan-leitor, mas alguem que tem a sorte e o privilegio de conhecer a propria. Cidinha tambem eh ativista do movimento negro ha muitos anos. Envolvente e lucida com as opinioes que defende foi e eh editora, educadora, militante, professora, escritora. Ela anda publicando um bocado de coisas no blog que escreve. O livro ta quase saindo da grafica e com certeza vai ter um lancamente bem legal como foi com o Tridente, entao fiquem espertos e nao percam essa oportunidade. Bom, acho que eh isso por enquanto. Vao duas do livro novo. E para a Cidinha, boa sorte!" wwww.paladardepalavra.blogspot.com