Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de jun de 2008

A tenista Venus Williams, "uma mulher linda e graciosa", fotografada por Koto Bolofo

"Um livro de fotografias que propõe um olhar "íntimo" e "com estilo" sobre a figura da tenista americana Venus Williams foi lançado em Londres. "Venus Williams by Koto Bolofo", da editora Steidl, reúne fotos tiradas pelo artista sul-africano Koto Bolofo, que teve a idéia do projeto quando cruzou, por acaso, com a tenista quatro anos atrás, em uma rua do bairro londrino de Covent Garden. 'Para mim, há muitas imagens de celebridades esportistas sem estilo, assinatura e obviamente sem uma relação íntima entre o fotógrafo e o objeto', explicou Bolofo, por meio de sua assessoria de imprensa. 'Eu quis fotografar Venus como uma mulher linda e graciosa. Queria que as pessoas conhecessem uma mulher com graça e alma.' O livro, lançado às vésperas de mais uma edição do torneio de Wimbledon, que Williams venceu quatro vezes, reúne imagens da tenista em 'personagens' que evocam uma estética retrô - como uma Williams saltando sorridente de vestido branco, de época, para acertar a bola com a raquete. Bolofo explicou que algumas imagens guardam semelhança entre Venus - que já foi chamada de "estrela de ébano" em referência à pele negra - e a cantora Josephine Baker, que pelo preconceito racial teve de deixar a terra natal, os Estados Unidos, para fazer sucesso e se radicar na França principalmente nos anos 30 e 40. 'Procurei diversidade criativa para trazer algo diferente, que ninguém tinha visto, escondido em Venus Williams', afirmou o fotógrafo. 'Senti que havia um nível superior para criar um registro artístico de uma estrela do tênis única e incrível.' As primeiras fotografias foram feitas em 2005. O par se encontrou e encontrou inspiração nos diferentes locais por onde Venus Williams passou - Nova York, Istambul, Paris e Londres, entre outros. 'Fui motivado pela elegância de Venus sob pressão, sua confiança e habilidade de alcançar objetivos que tiveram impacto global, e eu queria fazer uma honra a essas conquistas através de minha fotografia', disse Koto Bolofo. 'Ela representa a verdadeira visão da qual Martin Luther King falava em seus discursos'. "

27 de jun de 2008

Sete historias de negro

Antes de comentar o livro preciso contar como cheguei a ele. O autor é o professor Ubiratan Castro de Araújo, da UFBA, ex-presidente da Fundação Cultural Palmares. Um senhor contista. Eu havia lido um único conto dele, chamado “Visitante indesejado”, publicado em uma revista, na qual também publiquei, o “Dublê de Ogum”, creio. Pois bem, fiquei impressionadíssima com a narrativa do Bira, como carinhosamente o chamamos. Vejam um trecho: “Depois da reza, tias, parentas e vizinhas, se reuniam para o salutar exercício de resenha da vida alheia. Elas cortavam, costuravam e bordavam desventuras, fraquezas e malfeitos de amigos e inimigos. Só os presentes escapavam, enquanto aí estivessem. Para não serem entendidas, ou mesmo por pudor e superstição, usavam palavras e expressões estranhas ao nosso vocabulário. Ao invés de ‘botar chifre no marido’, elas falavam ‘serrar as canelas’. Por isso, todas as vezes que eu entrava na casa do vizinho, ficava olhando para as canelas dele, intrigado com a falta de cicatrizes. Dos frescos, dizia-se que eram ‘falsos ao corpo’. Os órgãos sexuais tinham nomes diferentes. O vaso feminino era conhecido como ‘a perseguida’ e o aparelho masculino completo era denominado de ‘berloques de São Brás’. (...) A assembléia do DIVA (Departamento de Investigação da Vida Alheia) ficava triste, quando o assunto era a visita de Bernardo à casa de um parente ou conhecido. __ Bernardo está na casa de fulano há três dias. Todas tremiam. Bernardo era o substitutivo da palavra que não se podia pronunciar: fome. Este era o grande terror de todas as famílias. Ela era epidêmica, como na crise de 1929. Ela era sazonal, no tempo do paradeiro, meses em que não se exportava cacau em Salvador. Ela era terrível em momentos de doença e morte nas famílias. Bernardo também andava mancomunado com os maus procedimentos. Maridos cachaceiros, que se desempregavam para cair na gandaia, deixavam a família aos cuidados de Bernardo. Homens mulheristas, espécies de mulherengos militantes, gastavam o dinheiro com as raparigas e não levavam pra casa senão seus próprios ‘berloques’. Nestes casos, algumas não se continham e saía o palavrão: __ Pica pura dá gastura”. Diga a verdade, tive ou não motivos para ficar inebriada pela narrativa do Bira? Daí que quando soube que ele havia publicado um livro, com outros prováveis contos deliciosos como este Visitante indesejado, peregrinei atrás do dito, tinha o título, nome completo do autor e editora, mas nunca vi coisa tão mal distribuída, impossível de encontrar. Sequer nas livrarias da Universidade que o publicou consegui comprá-lo, meus emissários-buscadores que o digam. Até que no 12 de junho de 2008 fui lançar o Tambor na Fundação Pedro Calmon, em Salvador, dirigida pelo Bira. Eis que o próprio faz a abertura da noite e, além de me chamar de cintilante (desculpem-me, mas fiquei prosa), me saúda com um conto maravilhoso, “Tinhorão”, que estará em seu próximo livro, a ser publicado no segundo semestre de 2008 (por outra editora, tranqüilizei-me). Trato logo de agradecer e como a noite era minha, peço um presente, um exemplar do “Sete histórias de negro”. Prontamente o Bira, gentileza em pessoa, providencia a raridade e me a dedica com um “gordo abraço”. Fiquei mais prosa ainda. Na quarta capa da obra ele assevera que: “emerge uma convicção desafiadora: cada negro letrado no Brasil tem a obrigação de sistematizar as suas próprias lembranças. A experiência de cada um é um trecho de realidade vivida, de muita valia para nós mesmos e para outros. Isso justifica a ousadia de trazer a público sete histórias transmitidas em um contexto de oralidade familiar. São histórias do ordinário, do quotidiano, de homens e de mulheres comuns, negros todos”. Falou o Mestre, bora escrever.

26 de jun de 2008

Grace Jones de volta à cena do disco

(Por:*Alisson Göthz) "Grace Jones está de volta. Na onda dos artistas dos anos 80 que resolveram ressuscitar de uma hora pra outra, Grace talvez seja o nome mais interessante, pelo menos como personagem. Seu retorno se dará com Corporate Cannibal, álbum que sai este ano e foi produzido por Ivor Guest, com participações especiais de Sly & Robbie, Brian Eno e Tricky. O CD será lançado oficialmente na festa Secret Garden Party; porém boa parte de seu material foi incluída no setlist de sua apresentação semana passada no Meltdown Festival deste ano, desta vez em um show completo só dela, sob curadoria do Massive Attack. A apresentação recebeu excelentes críticas da imprensa e público, provando que Grace está de volta em plena forma, e aumentando ainda mais a espectativa pelo novo trabalho. Seu último trabalho em estúdio saiu em 1989, e desde então Grace tem se dedicado mais às apresentações ao vivo. Ano passado ela fez uma incrível aparição ao lado de Jarvis Cocker também no Meltdown de Londres, cantando "Trust In Me". O sucesso foi tanto que ela se animou e resolveu entrar em estúdio para gravar um álbum novo. Tanto o vídeo de Corporate Cannibal, dirigido por Nick Hooker (que já dirigiu vídeos para o U2 e Billy Corgan), quanto a música "This is Life" já estão disponíveis no YouTube, veja: Clipe de Corporate Cannibal. Tendo iniciado sua carreira ainda nos anos 70 como modelo de alta-costura, Grace se viu apadrinhada pelo artista pop Andy Warhol e o grande produtor da era disco Tom Moulton, que a colocaram nos palcos do famoso Studio 54 e a transformaram em diva máxima da cena discotheque de New York. Grace se apresentava no Studio 54 cercada de homens musculosos devidamente acorrentados por ela. Não contente, ela própria entrava numa jaula e bancava a pantera negra. Com uma voz de duas escalas e presença marcante, Grace sobreviveu ao final da disco e nos anos 80 se tornou uma das mais populares cantoras pop (com hits como "Slave To The Rhythm" e "Love Is The Drug") e também fez sucesso como atriz (em filmes como Conan, O Barbaro e 007 - Na Mira Dos Assassinos). Foi também nos anos 80 que Grace lançou seus melhores trabalhos, misturando reggae, rock e um pouco de eletrônica. Durante esse período, foi produzida por importantes nomes da indústria como Trevor Horn e Nile Rodgers. Seus discos Warm Leatherette (1980) e Nightclubbing (1981) são considerados por muitos como dois dos melhores discos da década. Neles encontramos versões de artistas como Iggy Pop & David Bowie, Roxy Music, The Normal e até Astor Piazzolla. O visual super agressivo e masculinizado de Grace é uma das marcas registradas dos anos 80, tendo ao lado artistas como Annie Lennox e na "outra ponta" Boy George. Produzida pelo artista francês Jean Paul Goude (que assinava seus looks e vídeos) suas apresentações ao vivo eram grandes acontecimentos - o DVD A One Man Show captura Grace em total plenitude. Goude, que na época era casado com Grace, usava e abusava dos contrastes raciais e sexuais, transformando a imagem de Grace em algo mais poderoso ainda. Grace - que virou sexagenária em maio - já veio para o Brasil algumas vezes nos anos 90. A primeira, em São Paulo durante a final do extinto concurso de modelos "The Look Of The Year" da agência Ellite, foi um sucesso. Já na segunda vez, Grace não agradou muito a platéia, que teve que aguardar quase duas horas de atraso da diva que se "preparava" no backstage, deixando muita gente nervosa, mas compensou depois com um histórico show em 96 na Metropolitan, no Rio de Janeiro. Desde então outros empresários vêem tentando trazê-la novamente, mas acabam dando de cara com algumas exigências meio extravagantes, como cachês incompatíveis e camarins cheios de comida japonesa e champagne caro. Grace também não pensa duas vezes antes de armar barraco em aeroportos - foi recentemente presa em Londres por se recusar a pegar o ônibus que a levaria até a área de desembarque junto com os outros "pobres mortais" - e também em programas de TV: a "surra" que ela dá no apresentador Russel Harty ao vivo foi eleita em 1996 como um dos mais chocantes momentos da TV britânica. Mas toda diva tem direito de ser um pouco difícil mesmo. Numa época em que tantas bandas e cantores surgem do nada com mais pose do que conteúdo, é muito bom ver Grace - que tem carão suficiente para dar uma boa surra em quaquer bandinha pretensiosa - aparecendo de novo.Brincando um pouco com a famosa frase de Andy Warhol: "Grace is STILL Perfect." (*Alisson Göthz - live from vlad dracul's castle, romania)

25 de jun de 2008

Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces - parte II

Ainda sobre o livro “Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces”, devo dizer que me encantaram a escrita e coragem de Anízio Vianna, no texto “Performance-cidadã”, integrante da parte III do livro, “Teatro, Dança, Música – Poiesis e Performance”. Anízio define o Rap de maneira lapidar, diz ele: “Entendo-o (o Rap) como uma manifestação poética que ocorre em três níveis (escritural, musical e corporal) totalizados na performance. Se manifestação poética há que se perguntar a 'linha evolutiva' dessa literatura. Para tanto, insiro o rap dentro de uma tradição vernacular africana de poesia oral que o antropólogo Edimilson de Almeida (2003) denominou Literatura Silenciosa. Literatura Silenciosa é toda literatura que se dá à margem do cânone e não nutre nenhum desejo de diálogo com as instâncias legitimadoras. Mas por que literatura? Porque faz uso da palavra poeticamente trabalhada. Todavia, palavra arquivada no corpo e que constitui o repertório de comunidades inteiras. No rap a palavra é a força motriz na qual a poesia encontra no corpo do rapper seu veículo de expressão. O corpo é a mídia do rap. Mídia que, historicamente, sempre antecedeu o livro” (p.141). O autor é corajoso porque faz auto-crítica, reconhece os limites acadêmicos, os próprios limites como acadêmico (sem proselitismo) para decodificar a linguagem do rap e do rapper. Assim declara: “A ausência de privacidade e de apreço pelo espaço privado onde se vive faz com que a poesia-rap seja um investimento no corpo. Esta se diferencia da poesia canônica porque o seu eu não é o eu da individualidade capitalítica, ou o eu ‘burguês, introspectivo, da nossa tradição universitária’. Em Sou Negão (referência à música analisada anteriormente), temos um eu-comunitário. Acompanha-o referenciais ético-estéticos e, sobretudo, étnicos nomeados na letra e que legitimam a tese do corpo: ‘Só mais um neguinho pelas ruas da vida’. Mas a aparente fragilidade desse ‘neguinho só’ traz a força de um sujeito-homem, de um homem-coletivo que tem o maior dos poderes. O poder de dar voz a si mesmo: ‘se eu tô com o microfone é tudo no meu nome’. Então, o eu-comunitário abandona a sua condição de objeto (de estudo, de dissertação!) e passa a dizer com a sua voz sobre o corpo e a cor” (p.153). Para finalizar os comentários, destaco o artigo de Jussara Santos, conterrânea e contemporânea, embora mais experiente, como gosto de lembrar. O texto “Palavra poética em transe/trânsito: manifestações pelos sete buracos da minha cabeça” é o que mais me tocou. É necessário dizer que o fato de abordar a obra de um mestre de todas nós, Edimilson de Almeida Pereira, conta. E é uma obra tão múltipla que os encantos e encontros proporcionados por ela vão tomando os sete buracos da nossa cabeça. (...) “Quem não risca não sabe os rios da palavra, o labirinto de haver escrito sem estremecer: Eu mesmo me avio: parceiro da chuva, do capim-cebola preparo um livro de cortar. E se perguntam: ainda não é manhã? É quando eu no verbo faço manhã ou noite. A treva é a escrita, nem mais, nem pois. Deus não entortou linhas porque escrevia canhoto? Medo o só da escrita com leitor viajante. Mas se há leitor de lidas, a e b são histórias infernas. Com modos e truques de ouvir”. (Edimilson de Almeida Pereira, epígrafe do texto de Jussara Santos). Tenho, entretanto, uma discordância de Jussara, ela nos diz: (...) “Busco aqui refletir o tratamento dado à palavra pelo poeta e a relação dessa palavra com o universo negro, afro-brasileiro ou afrodescendente. Edimilson de Almeida Pereira integra uma vertente poética que tenta transgredir uma tradição de literatura afro-brasileira ou afrodescendente que se fecha na cor da pele (grifo meu). Entendendo a poesia como espaço de provocação do diálogo e de busca de experimentação de novas sensibilidades, a construção poética de Almeida Pereira parece movida pelo esforço de conhecer a potencialidade da palavra no resgate das tradições africanas, enquanto elementos significativos da cultura negra ou afrodescendente. Na experimentação da linguagem, dialogam, portanto, o passado – ao qual o poeta sabe pertencer – e o presente, que se mostra no conjunto de relações que o poeta vivencia”. Minha discordância está na expressão cor da pele, que considero ultrapassada, despolitizada e pobre, mesmo que autores do Quilombhoje e Adão Ventura, para citar alguns protagonistas importantes da literatura negra, a utilizem, penso que uma analista de fôlego como Jussara Santos precisa ir mais longe. Eu falaria de um pertencimento racial fechado no corpo, circunscrito ao corpo - favor não confundir com o corpo fechado, coisa boa e salutar. No mais, o texto deve ter me tocado porque fala do caminho que escolhi, o de me valer e me estabelecer no mundo literário pela força da palavra. Da palavra que tem força ancestral, força de amor, de liberdade e de humanidade e está ligada na correria da quebrada.

24 de jun de 2008

Uma Historinha de São João

Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo, olha praquele balão multicor, como no céu vai sumindo (...) Saí para comprar tempero e voltar logo ao preparo das postas de peixe que me aguardavam pegando gosto no limão. Passou por mim uma garotinha de uns nove anos e me abriu um sorriso de quem troca dentes de cima de sua bicicleta. A senhorita simpatia me pegou tão de surpresa que não retribuí ao riso de pronto. Ela pedalou uns metros na direção contrária à minha e depois voltou, sorrindo de novo. Tirou um papelzinho do bolso, estendeu para me dar e disse baixinho "Feliz São João!” Tocada pela espontaneidade do gesto peguei o papel singelo. Sorri. Agradeci. Disse que o desenho do pequeno balão era lindo (em verde e rosa, ainda por cima) e guardei-o no bolso. Meu coração sudestino entendeu, naquele momento, que a gente urbana do lado de baixo do país não tem idéia do que seja o São João para o povo do lado de cima. É uma festa da alma. São rezas, profanidades, comilança e espírito de solidariedade. Na vendinha, procurei uma caneta bonita para dar de presente à garota, mas não havia nem Bic. Comprei então umas balas pra'quele anjo/erê. Olhei a rua e a encontrei encostada em sua bicicletinha, observando os jogadores de vôlei. A seu lado, um guardião, pretendente a namorado, primo ou irmão, não sei. O caso é que me dirigi a ela e disse: “Posso lhe dar uma coisa também?” Ela sorriu um sorriso enorme de quem tinha os dois dentões da frente emparelhados com caninos ainda de leite,e pegou as balas. É lógico que eu tinha um segundo punhado de balas na outra mão e tratei de oferecê-las ao guardião, que, desconfiado, aceitou. Um rapagão do vôlei ficou olhando para ver do que se tratava. Um distinto senhor assentado na varanda da casa, em frente da qual tudo se passava, também. Vi que eles cuidavam da cena e estavam certíssimos, mas não liguei para as atenções deles. Afinal, nada de mal acontecia. Era só nossa cumplicidade à luz do dia, para quem quisesse ver (Do livro Cada Tridente em seu lugar).

O impensável

(Da Folha de São Paulo, por *Maria Rita Kehl) "Não haverá solução se a outra parte da sociedade, a zona sul, não se posicionar radicalmente contra esse extermínio não oficial O INIMAGINÁVEL acontece. Supera nossa capacidade de prever o pior. Conduz-nos até a borda do real e nos abandona ali, pasmos, incapazes de representar mentalmente o atroz. O pior pesadelo do escritor Primo Levi, em Auschwitz, era voltar para casa e não encontrar quem acreditasse no horror do que ele tinha a contar. Acreditar no horror exige imaginá-lo de perto e arriscar alguma identificação com as vítimas, mesmo quando distantes de nós. Penso no assassinato dos cidadãos cariocas David Florêncio da Silva, Wellington Gonzaga Costa e Marcos Paulo da Silva por 11 membros do Exército encarregados de proteger os moradores do morro da Providência. Assassinados por militares, sim, pois não há diferença entre executar os rapazes e entregá-los à sanha dos traficantes do morro rival. A notícia é tão atroz que o leitor talvez tenha se inclinado a deixar o jornal e pensar em outra coisa. Não por insensibilidade ou indiferença, quero crer, mas pela distância social que nos separa deles, abandonamos mentalmente os meninos mortos à dor de seus parentes. Abandonamos os familiares que denunciaram o crime às possíveis represálias de outros "defensores da honra da instituição". Desistimos de nossa indignação sob o efeito moral das bombas que acolheram o protesto dos moradores do Providência. Nós, público-alvo do noticiário de jornais e TV, que tanto nos envolvemos com os assassinatos dos "nossos", viramos a página diante da morte sob tortura de mais três rapazes negros, moradores dos morros do Rio de Janeiro. É claro que esperamos que a justiça seja feita. Mas guardamos distância de um caso que jamais aconteceria com um de nós, com nossos filhos, com os filhos dos nossos amigos. O absurdo é uma das máscaras do mal: tentemos enfrentá-lo. Façamos o exercício de imaginar o absurdo de um crime que parece ter acontecido em outro universo. Como assim, demorar mais do que cinco minutos para esclarecer a confusão entre um celular e uma arma? E por que a prisão por desacato à autoridade? Os rapazes reclamaram, protestaram, exigiram respeito -ou o quê? Não pode ter sido grave, já que o superior do tenente Ghidetti liberou os acusados. Mas o caso ainda não estava encerrado? O tenente, que não se vexa quando o Exército tem que negociar a "paz" no morro com os traficantes, se sentiu humilhado por ter sido desautorizado diante de três negros, mais pés-de-chinelo que ele? Como assim, obrigá-los a voltar para o camburão -até o morro da Mineira? Entregues nas mãos dos bandidos da ADA em plena luz do dia, como um "presentinho" para eles se divertirem? Era para ser "só uma surra"? Como assim? Imaginaram o desamparo, o desespero, o terror? Não consigo ir adiante e imaginar a longa cena de tortura que conduziu à morte dos rapazes. Mas imagino a mãe que viu seu filho ensangüentado na delegacia e não teve mais notícias entre sábado e segunda-feira. E que depois reconheceu o corpo desfigurado, encontrado no lixão de Gramacho. Imagino a cena que ela nunca mais conseguirá deixar de imaginar: as últimas horas de vida de seu menino, o desamparo, o pânico, a dor. "Onde o filho chora e a mãe não escuta" era como chamávamos as dependências do Doi-Codi onde tantos morreram nas mãos de torturadores. Ainda falta imaginar a promiscuidade entre o tenente, seus subordinados e os assassinos do morro da Mineira: o desacato à autoridade é crime sujeito a pena de morte e a tortura de inocentes é objeto de cumplicidade entre traficantes e militares? Claro, os traficantes serão mortos logo pelo trabalho sujo do Bope. Se outros cidadãos morrerem por acidente, azar; são as vicissitudes da vida na favela. Quando membros corruptos da PM carioca mataram a esmo 30 cidadãos em Queimados, houve um pequeno protesto em Nova Iguaçu. Cem pessoas nas ruas, familiares dos mortos, nada mais. Nenhum grupo pela paz foi até lá. Nenhuma Viva Rio reuniu gente de branco a marchar em Ipanema. Ninguém gritou "basta!" na zona sul. Não é a mesma cidade, o mesmo país. Não nos identificamos com os absurdos que acontecem com eles. Não haverá um freio espontâneo para a escalada da truculência da Polícia e do tráfico, nem para o franco conluio entre ambos (e, agora, membros do Exército) que vitima, sobretudo, cidadãos inocentes. Não haverá solução enquanto a outra parte da sociedade, a chamada zona sul -do Rio, de São Paulo, de Brasília e do resto do país-, não se posicionar radicalmente contra essa espécie de política de extermínio não oficial, mas consentida, a que assistimos incrédulos, dos negros pobres do Rio". (*Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora do livro "Sobre Ética e Psicanálise" - Cia. das Letras, 2002).

Nenhuma esperança

(Por: *Edson Lopes Cardoso, do Irohin) "Costuma-se incluir, no histórico do surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU), em 18 de junho de 1978, a reação à discriminação praticada pelo Clube Tietê, em São Paulo, contra quatro atletas negros, como um dos fatos que impulsionaram a mobilização decisiva de um conjunto de entidades e pessoas que desaguaria na criação da organização política. Menos de um mês depois, em 7 de julho de 1978, nas escadarias do Teatro Municipal, um ato público anunciava que a luta contra o racismo alcançava um patamar superior: “Um novo dia começa a surgir para o negro! Estamos saindo das salas de reuniões, das salas de conferências e estamos indo para as ruas”. Trinta anos se passaram e as atitudes de aversão ao negro se extremaram na sociedade brasileira. Mas não se tem notícia de iniciativas do Movimento Negro que, mesmo remotamente, possa se aproximar da indignação e do protesto conseqüente das escadarias do Teatro Municipal em 1978, em São Paulo. A violência e o crime contra os negros convivem com o discurso hipócrita da “inclusão nunca vista’, que embala os sonhos daqueles que renunciaram a combater o racismo. Os corpos de Marcos Paulo Campos (17 anos), Wellington Gonzaga Ferreira (19 anos), David Wilson da Silva (24 anos), jovens negros do Morro da Providência que militares do Exército entregaram para o sacrifício inominável, tinham marcas de tortura (porretes de madeira e barras de ferro), rostos e/ou cabeças destroçadas por 46 tiros, além das ‘marcas deixadas pelo triturador de lixo do caminhão” (FSP, 19.06.08, p.C1). O nosso Clube Tietê é o lixão de Gramacho, mas quem se importa? Há alguns anos, constatam-se as evidências de um profundo retrocesso histórico. Não apenas se retornou às salas de reuniões, a renúncia é de natureza mais profunda. Estamos renunciando a nossos direitos políticos, à condição de sujeitos em um conflito que, sem tergiversações, visa aniquilar a população negra. Nos jornais, os editoriais interrogam-se sobre o conceito e a missão das Forças Armadas. Fala-se em ‘aventura militar’, ‘pântano’ e ‘contaminação da tropa’. Aqui e ali reponta uma crítica ao presidente da República pela aliança com Marcelo Crivella, beneficiário eleitoral de projeto dito habitacional em execução no morro da Providência. O tema em debate é mesmo “a atuação do Exército em áreas urbanas”, se e quando. David, Wellinton e Marcos, são chamados de “três rapazes”, ou “três jovens”. A cor não é citada porque se entende (entendimento unânime, exceto em algumas cartas de leitores) que esta não é uma variável relevante, nem na vida nem na morte. Está completamente fora de cogitação qualquer alusão a racismo e ódio racial. Por isso mesmo, o ministro Edson Santos ainda não apareceu. Sente-se contemplado na fala de Vannuchi. Sente-se contemplado na fala do ministro da Defesa. Sente-se contemplado na fala de Amorim. É um contemplativo, esse ministro que nos arrumaram para descuidar-se das coisas de preto. Mais um submisso, mais um concessivo. É exatamente porque ninguém põe em dúvida a alardeada falta de pertinência da dimensão racial que podemos antever novos crimes, e não só no Rio de Janeiro. Políticos, jornalistas, intelectuais, professores, militares unem-se para ‘sustentar uma conclusão preestabelecida’: não há crimes contra negros. E, por extensão, não há Movimento Negro, não há ministro negro. David, Wellinton, Marcos, pessoas, seres humanos barbaramente assassinados, não estão no centro do debate. Despelados, desumanizados, trucidados, os ‘rapazes’ não motivam nenhuma reflexão sobre a amputação radical de possibilidades de desenvolvimento humano. O que temos, na cobertura jornalística, é uma questão militar com cruzamento eleitoral. As famílias de David, Wellinton e Marcos terão, no desdobramento da tragédia, de se proteger das ameaças e intimidações. Em tempos de retrocesso político para o Movimento Negro, estamos privados de qualquer esperança". (*Edson Cardoso é um dos ativistas negros mais conceituados do país e editor do jornal Irohin).

23 de jun de 2008

Bom Dia!

Processo acatado contra o escritor Ferréz

(Do blogue do Ferréz) "Salve a todos. Aos parceiros e parceiras que venho juntando nessa caminhada. ontem foi o dia do meu depoimento na 77 delegacia pela acusação no artigo 286 (apologia ao crime) pelo texto :"pensamentos de um correria" feito para a folha de S.Paulo. texto esse que expõe o pensamento de um assaltante. O meu argumento no depoimento foi só um, que também eram culpados todos os escritores de ficção que li até hoje, como por exemplo Machado de Assis, Hesse, Gorki, Graciliano Ramos e etc. afinal fazer literatura é um crime que todos nós cometemos juntos. Quando cheguei na delegacia estava lá para minha surpresa o Robson Canto, todo vestido com a 1dasul e pronto para me apoiar. também estava o Rogério que trabalha agora conosco. A folha de S. Paulo mandou um repórter, Alencar Martins, que me acompanhou no depoimento. Meu advogado nessa causa, o Dr. Carlos me disse que não daria nada, que talvez o próprio delegado arquivaria o processo, que é o que na maioria das vezes acontece, mas não foi assim. E realmente o delegado Antônio foi até o escrivão e deu sua opinião que achava que eu havia escrito somente uma ficção, um romance, mas não cabia mais a ele o arquivamento do processo. Estou escrevendo em detalhes, pois nos meus 32 anos de vida, sempre segui os conselhos de meu pai, um bahiano de 60, que falava pra mim nunca pegar nem um palito de fósforo de ninguém. Foi muito difícil seguir isso, pode apostar, passei coisas que hoje conto e alguns nem acreditam, chegou um tempo que nem pra ser faxineiro do hotel Meliá eu servi. Montei a marca 1dasul, fiz centenas de palestras, escrevi meus livros e hoje se durmo 5 horas por dia é muito, cercado pelos compromissos e responsabilidades que isso traz. bom, voltando ao processo, o ministério público acatou, então agora vai para o juiz, o que isso quer dizer? que tenho a partir de hoje um processo contando no meu prontuário, quem mora em periferia sabe o que isso quer dizer, toda vez que for parado, vou ter que me explicar, e se não convencer o policial, posso ser detido para averiguação, fora o tratamento para quem tem processo constando que é daquele jeito que agente sabe. Expliquei isso ao escrivão, mas ele disse não poder fazer mais nada, o pedido foi acatado. Agora cabe a mim, explicar a minha família, que um texto fez eu ganhar uma mancha na minha vida, e explicar também que outro texto (o do Luciano Huck) que disse que esperava a ajuda do Capitão Nascimento, fazendo alusão a justiceiros, sequer foi mencionado. Pensei muito na minha filinha de 1 ano e dois meses, que estava doente, esperando eu voltar para leva-la ao médico, pensei muito o que vou fala pra ela mais pra frente sobre tudo isso. o caso agora segue, se o juiz também acatar, ai vem a pena, senão, vem o arquivamento e eu vou ter que correr para tentar tirar o processo do meu nome. No final, pra mim esse caso é o retrato do pais em que vivemos, a elite ganhou outro lindo relógio de presente, e o cara que acha que faz elo povo, um artigo no prontuário. mas sabe de uma coisa? eu não mudaria uma virgula do que escrevi, porque tenho absoluta certeza do que sou".

21 de jun de 2008

Hip Hop Mulher

Está no ar o sítio Hip Hop Mulher da querida Atielinha (Tiely Queen). Escrevo mensalmente para a coluna "Realidade". Para conhecer, clic aqui. (texto de divulgação) "A história do continente africano é contada de forma lúdica e interativa para as crianças no livro Ao sul da África (Companhia das Letrinhas, 144 pp., R$ 38 - Trad. Rosa Freire d'Aguiar), de Laurence Quentin com ilustrações de Catherine Reisser. A riqueza cultural e natural africana e a luta de povos para manter suas tradições são abordadas no livro, que fala da história, geografia e costumes de etnias como os ndebeles, que habitam o noroeste da África do Sul, os xonas, que vivem no Zimbábue, e dos boxímanes, do Botsuana. Textos explicativos, narrativas ficcionais, jogos e fotos são utilizados como recursos para a leitura. As crianças também aprendem a confeccionar adereços típicos, enquanto se dedicam a conhecer e a respeitar grupos de costumes tão diferentes".

20 de jun de 2008

Eu sou neguinho

(Joel Zito Araújo*, no Irohin, www.irohin.org.br ) "O meu amigo Caetano, que no debate público é um provocador tão genial quanto na arte, também é, sem dúvidas, um atento observador da realidade racial brasileira desde jovem, quando Dona Canô gritava “meu filho corra, venha ver na TV aquele preto de que você tanto gosta!”. Ou quando se irritou ao ver jovens de esquerda chamando Clementina de Jesus de macaca no Teatro Paramount, em 1968. Ou quando não deixou o país esquecer que o Haiti é também aqui. Mas agora, depois de tão bela história, depois de ter produzido poemas tão poderosos e belos sobre a negritude baiana, ele parece acreditar que o país acompanhou a sua cabeça e seu desejo de viver em uma democracia pós-racial. O Brasil pós-racial é uma meta que compartilho, mas ainda é uma ficção. O dramaturgo Harold Pinter já disse que, na exploração da realidade por meio da arte, "não há distinções explícitas entre o que é real e o que é irreal, tampouco entre o que é verdadeiro e o que é falso.”. Mas que diferenciar essas condições é fundamental para o exercício da cidadania. É necessário dizer para o querido Caetano que não é coerente ter feito uma obra tão magnífica e assinar um manifesto contra cotas para jovens negros pobres na universidade. E assim, mesmo agradecido pelo que ele fez, tenho que, atendendo a sua provocação (ver coluna de Jorge Moreno de 07/06/08), vir aqui dizer que a “realidade lá fora” continua brutal para aqueles que são “negros ou quase-negros de tão pobres”. Eles continuam com suas chances de ascensão social condicionadas à cor de suas peles em estruturas seculares que reproduzem o racismo nos bancos escolares, na nossa TV, no sistema de saúde, no mercado de trabalho, na violência policial... Não é possível ignorar as cotas como um movimento natural e necessário, apesar das imperfeições no processo. Diante da revolta contra sua condição de grupos populacionais excluídos, negros e indíos lutam por uma reparação histórica, lutam por seus direitos. Hoje, por trás da emergência identitária destes grupos está a busca pelo reconhecimento dos direitos de partilha das riquezas materiais do país (partilha do direito à educação, à terra, à liberdade religiosa). Vivemos, finalmente, numa sociedade em que os “excluídos” lutam autonomamente no campo da democracia pelos seus direitos. São lutas de idéias, de conquista da opinião pública e de leis. E isso é muito bom, e deve ser respeitado e incentivado. E, veja bem, eles não estão esperando o socialismo, ou a vitória do universalismo francês, ou o triunfo do mercado, para ter acesso à educação. Eles querem acelerar processos, cobrar dívidas históricas. Evitar tensões raciais é promover o reconhecimento dos seus direitos , e incentivar a sua luta política nas formas democráticas e republicanas. E tenho certeza de que o nosso querido Caetano sabe que Mangabeira Unger tá certo. Nós precisamos de uma segunda abolição. Mas como realizá-la sem nos defrontarmos com a questão racial? E por que acreditar que revalorizar neste momento a criação colonial do mulato é um passo para a sociedade pós-racial? Onde é que o mulato é celebrado como ideal da nação? Nas artes, na telenovela, no cinema, na publicidade? O ideal do país desde os tempos da escravidão foi, e continua profundamente internalizado em todos nós, fazer do negro um mestiço e do mestiço um branco. Nossas crianças perdem a auto-estima ao aprender a sonhar em ser, mesmo que cirurgicamente, iguais à rainha dos baixinhos. Por que todas as apresentadoras dos programas infantis foram inspirados no modelo ariano? Que ideal de raça estava por trás disso? Por que os considerados mais belos das revistas de moda, de TV e até mesmo de esportes são invariavelmente os mais germânicos? Por que somente em 2004 tivemos a Taís Araújo como protagonista de uma telenovela na rede líder de audiência? E quando voltaremos a revê-la assim? Ser mestiço, portanto, é ainda um momento de passagem da condição inferior para a raça superior. O mulato na telenovela ainda é, como regra, representação do estereótipo do bundão, do mau caráter, do bandido ou do ressentido. É por isso que não sou mulato. Só aceito o mulato como profissão. E é assim que vivem centenas de brasileiras afro-descendentes pobres que viajam pelo mundo vendendo a beleza dos seus corpos e dos seus movimentos em shows tipo sargentelli. Sou brasileiro, com ascendência afro-índígena-portuguesa. Mas neste momento histórico só me interessa afirmar o que fui pressionado a negar. O país ainda precisa de um choque de negritude e de indigeneidade. Para chegar a ser pós-racial precisa antes ser multirracial. Precisamos reconhecer que nossa nação é um mosaico, onde vivem filhos de africanos, de japoneses, de libaneses e de europeus, além dos indígenas. Somente assim poderemos, no futuro, realizar o mito que tanto prezamos, e vir a ser um exemplo de democracia racial. Neste momento sou orgulhosamente o meu avô e bisavô, eu sou neguinho. E amanhã posso vir a ser a minha avó, nambiquara ou pataxó. Diante da herança colonial que criou um sistema hierárquico de castas raciais, eu sou neguinho. Diante dos articulistas dos jornais que dizem que não somos racistas, mas alertam que se me assumo como negro sou ameaça de guerra civil, eu sou neguinho. Diante do senador que elogia o seu par mulato por estar apurando a raça ao se casar com uma “linda gaúcha dos olhos azuis”, eu sou neguinho. Ou diante da mídia que em suas imagens insiste em reafirmar a branquitude como ideal da nação, eu sou aquele Caetano que tanto admiro, e não aquele inexplicável mulato anticotas. Sou negro preto do Curuzu. Sou beleza pura". *Cineasta (“Filhas do Vento” e “A Negação do Brasil”).

19 de jun de 2008

Pela mão de Benguela - conto inédito

"Fica então determinado, por este egrégio Conselho, que a irmã Estrela de Carvalho Rocha Amorim, ficará em isolamento completo dentro deste mosteiro de clausura, como apelo à reflexão para suas tentativas de práticas inomináveis junto a companheiras de ofício religioso. Rogamos à Maria, mãe divina, amantíssima e piedosa, para que estenda seu manto misericordioso de luz sobre esta pecadora ignóbil. Rogamos aos anjos e santos para que ela se arrependa dos atos que a condenam, posto que, esta sentença do Conselho não a pune, mas responde ao clamor de seus próprios atos por punição. Sendo assim, o isolamento absoluto a ela impetrado, é procedimento adequado, para o próprio bem da irmã Estrela e desta instituição".Terminada a leitura da sentença pela Madre, as seis integrantes do Conselho, de cabeça baixa, disfarçam os sinais de descontentamento e perplexidade. Uma delas, para interceptar o caminho das lágrimas, apressa-se ao toilet e despeja gotas grossas, que deixam um rastro de sal e dor no rosto, apagado pela toalha branca umedecida. Durante a sopa das dezoito horas, última refeição do dia, as noviças não sabem o que se passa, mas antevêem a gravidade do que está por vir. Estrela, como nos dias anteriores ao julgamento, senta-se sozinha no canto de um dos bancos compridos e toma aquela que será sua última refeição em grupo. Ela não pensa em nada, apenas procura os olhos de Esther que, corajosamente, olha para ela e sorri. Estrela recebe, mas não devolve o sorriso, desanuvia o rosto e engole na última colherada de sopa todo o carinho que Esther lhe oferece à distância. Organiza-se sem esforço a fila de saída do refeitório, todas sabem o que fazer, cada uma conhece o próprio lugar. Andam calmas e silenciosas até a porta. Esther fixa o olhar em Estrela ao se levantar. É a última a sair da mesa e deixa algo dentro do prato, sem tirar os olhos de Estrela. Vê todas as noviças saírem, uma por uma, se deixa ficar. A cozinheira, Maria Benguela, recolhe os pratos e ao passar por Estrela entrega o pequeno regalo deixado por Esther. Guarda a encomenda no bolso fundo do hábito branco. Agradece com os olhos, única expressão permitida. Não teria uma última noite no quarto afastado do dormitório, é conduzida para a cela de isolamento. É um lugar frio, mas seco, sem umidade. Possui um catre num canto, lençol e coberta; prato, caneca e toalha dentro de uma bacia. Uma moringa de água. Não há lamparina, nem janela para o exterior, só uma janela grande no meio da porta, por onde ela imagina, entrará a comida. Serão dias tão longos, noites intermináveis, solidão e silêncio como acompanhantes. Estrela deita-se, tenta dormir, põe a mão no bolso e abraça o pequenino embrulho, apalpa-o, percebe que há um papel e algo mais sólido, mas nada consegue enxergar, será preciso se acostumar à escuridão. Dorme. Acorda agitada, o martelo do desespero comprime seus miolos. Pensa na vida fora da clausura, na vida enclausurada, em Esther, seu bálsamo. Lembra-se da infância, das flores do campo e vê o rosto de Esther em cada uma delas. Centenas de flores mínimas, centenas de rostos, sorridentes, serenos, felizes, de dúvidas, de encanto, rostos de Esther. A ida para o convento aos 16 anos, depois da morte dos pais. A chegada da amada no dia em que completou 17, sol de primavera naquele dezembro chuvoso. Aquele sorriso lindo, quase infantil, no rosto de 15 anos. Esther fora escolhida pelos pais, dentre as quatro irmãs, para ter um futuro religioso. Destino comum ao de Estrela por diferente caminho. Sorri o primeiro sorriso desses dias tão tristes. Acaricia o peito, tira o pano do cabelo e passa os dedos entre eles. Lembra-se de como Esther gosta de tocá-los. Decide que vai viver, por Esther, ainda se dará chance de dizer a ela que a vê em cada flor revivida nas lembranças. Acorda com a voz de Maria Benguela e uma certa claridade ou rasgo de luz na escuridão. "Estrela, minha filha, acorda, hora do café". Aquela preta grande e boa, forra, amiga de quem a tratava bem, carinhava Estrela como filha, desde sua chegada. Benguela e Esther eram seu travesseiro de afeto naquele mosteiro inóspito. Por Benguela soubera que os tios a colocaram no convento para cuidarem, eles mesmos, dos bens deixados pelos pais. Pela voz de Benguela, agora, receberia sua ração diária de amor. Benguela passa à Estrela um alguidar com carás e mel, banana e batata doce cozidos, um pedaço de pão, ainda quente e uma caneca de café. "Esta é a minha comida, ocê precisa ficar forte para o que virá". Pergunta se guardou o presente da menina. Ela acena com a cabeça, guardou sim. Aproveita a réstia de luz para abrir o papel, lê a frase: "Minha flor de laranjeira, não tema, tenha fé e paciência. Deus proverá!" Dentro do papel uma pedra sabão ovalada com o desenho de duas mulheres abraçadas, ela e Esther. Estrela não se contém e chora. Benguela segura sua mão e canta baixinho: "tá caindo fulô, tá caindo fulô, tá caindo fulô, tá caindo fulô... cai do céu, cai na terra, olê-lê tá caindo fulô". O canto é como uma luz azul e quente entrando pelo corpo de Estrela, que se acalma e beija as mãos de Benguela. "Minha filha, não posso me demorar", diz a preta. "A sua solidão é doída, mas pensa na solidão daqueles que atravessaram a kalunga Grande e chegaram nessas terras, sem saber como, nem pra quê. Agora preciso ir, volto pra trazer o almoço". Estrela larga o corpo no catre, tenta pensar no conselho de Benguela, mas não consegue. Como passará toda a vida assim, presa e sozinha? Longe de Esther? O que fizera para merecer tal punição? Apenas olhara Esther nua e Esther a olhara também. Trocaram carinhos nos cabelos, no rosto, nos seios e algo puxou uma para a boca da outra e se beijaram, único, longo beijo, interrompido pela chegada inesperada da madre ao quarto. Se pudessem sair daquele lugar, viverem juntas e livres. Mas se esta possibilidade era remota antes, ainda mais agora com a prisão. Reza e chora. Adormece abraçada à pedra-sabão desenhada, sonha com Esther, uma casa, crianças, as flores da infância, um quintal de hortaliças e frutas. Acorda e se dá conta do isolamento, da falta do que fazer, de espaço para se movimentar. Quer tirar a roupa, está quente, mas não sabe se há risco da madre chegar, se ao despir-se do hábito poderá aprofundar o castigo. Não sabe de nada e a sensação é desesperadora. Pela manhã ficara tão emocionada que sequer conseguira conversar com Benguela. Procurará se conter na hora do almoço e fará perguntas, pedirá notícias de Esther. Estrela pensa no mar e na travessia dos pretos quando é acordada por fortes batidas na porta. O coração dispara, é a santa Benguela chegando para responder às perguntas que a inquietam. Decepciona-se, não é Benguela, é Natalícia, uma das enjeitadas da Roda. A que nunca fala e olha as noviças com ódio, limpa o chão do pátio, do refeitório e da cozinha enraivecida, estronda as panelas quando as lava. É mestiça e bela, mais para negra, mas vê-se que tem mãe branca. Mestiça, quando é filha de branco com preta vira escrava, é vendida, não vai para a Roda. Se a mãe é livre, cuida. As enjeitadas costumam ser filhas das brancas. Filhas de estupros, de amores proibidos, da falta de condição pra cuidar. É senda desconhecida. Enjeitadas não têm história. Natalícia chama Benguela de mãe e as noviças a invejam, queriam ter uma mãe ali dentro. Quando a madre se aproxima dela, se destempera, poreja medo pelo corpo, é seu jeito de falar. Natalícia abre a porta e entrega a comida quente e cheirosa. O amor de Benguela vem junto. Estrela agradece, Natalícia ensaia um sorriso, como é bonita. Deixa roupas limpas e uma toalha maior sobre o catre. Traz outra bacia, uma bilha grande de água. Recolhe os dejetos de Estrela e deixa a porta aberta enquanto ela come. Estrela sorve o ar e saboreia a comida, bebe a água fresca, sorri pela segunda vez. À noite Natalícia volta para trazer sopa e pão. Estrela fica feliz ao vê-la e dá o terceiro sorriso do dia. Natalícia sorri também. Tarde da noite, no quarto dos fundos, depois de acalmar Natalícia que mais uma vez chega chorando dos aposentos da madre, depois de cantar para ela dormir, Benguela se arrepia à primeira caída dos búzios. Joga novamente para se certificar, confirmado. Joga a terceira vez e N'Zázi diz que sim, irritado. Matamba se posta ao lado dele. N'kosi Mukumbe dá um passo à frente. O que é para ser feito, deve ser feito. Benguela agora está certa do que deverá fazer. Estrela repara que há manhãs em que Natalícia está tranqüila ao levar o café, parece até que poderá ser feliz, um dia. Noutros está transtornada, indócil, irascível. Num desses dias solta fogo pelos olhos, encosta-se à parede, derrotada. Olha no fundo dos olhos de Estrela, aperta os punhos e chora. Estrela se levanta e a abraça. Natalícia não se move, permanece hirta, encostada à parede fria. Para surpresa de Estrela, ela fala: "aquela mulher, ainda mato ela". Dias e noites se passam, Estrela não sabe quantos, não tem como contar o tempo. Sua angústia aumenta, seus ossos doem, há um zumbido intermitente na cabeça. A pele está seca, trinca, deve estar muito feia, mas não tem como saber. Tem vontade de morrer, pensa em formas de aproximar a morte. Quando Benguela aparece, abraça-a, tranqüiliza-a, tudo está por se resolver. Ela não sabe porquê, mas confia sua vida à Benguela. Pela manhã, muito cedo, ainda antes do dia acordar, Mutalambô e Katendê levam Benguela para os matos. Ela busca raízes difíceis de encontrar. São típicas de regiões mais quentes e a área do mosteiro é fria, no alto da serra. Só encontra uma raiz e não pode esperar a próxima lua minguante. Precisará de ajuda. Desce até a beira da estrada e espera o pessoal do quilombo passar para vender na cidade, as sacas de café desviadas das fazendas. Manda o recado, descreve a raiz, reforça o horário de colher. Planta que não é colhida na hora própria, não tem valor. É imperativo colher na madrugada do dia seguinte. Ela estará na estrada, no mesmo horário, aguardando. Esther quer escrever à amada, mas é impedida pelos olhos vigilantes das espiãs. Escrever é deixar pistas e provas. A madre pode interceptar uma carta e mostrá-la à sua família que, duas vezes por ano vai visitá-la. Pode usar a carta para chantagear seu pai em busca de mais recursos para o convento ou para a quinta da velhice da madre, em Portugal. Não pode se arriscar, tampouco expor Estrela a coisas ainda piores. Confia em Deus e na astúcia de Maria Benguela. Enquanto definha, Estrela também só encontra forças nas palavras da preta mandingueira. É noite, Natalícia recebera o sinal mais cedo e deve dirigir-se ao quarto da madre. Benguela troca longo olhar com ela, abraça-a, diz: "vai minha filha, de hoje não passa, tenha fé em N'Zázi, seu pai". "Que pai, minha mãe? Eu nunca tive pai, se tivesse não tava aqui". "Bata na boca, minha filha. Ocê tem pai e quem tem pai, não morre de boca aberta". Natalícia endireita o corpo, é a primeira vez que passará naquele corredor de cabeça erguida. Quando a madre passa a mão no contorno de sua boca, ela tem uma vontade quase irresistível de matá-la naquela hora, mas controla-se, não estragará o plano. Tudo se desenrola em minutos intermináveis, a madre tira as roupas de Natalícia, observa-a, aperta-lhe o peito, lambe-lhe as partes. Natalícia não se move. A madre reclama, convida-a a entregar-se, a brincar. Mantem-se firme, seu desejo é mostrar os dentes, as garras, o punhal de Matamba com o qual sonha. A madre não tem pressa, um dia fará com que a enjeitada tenha prazer em ser dela. Começa a agredi-la: "enjeitada, preta suja, seca, nem tua mãe te quis. És amaldiçoada". O punhal ferroando a cabeça de Natalícia. "Vai-te embora. Vá buscar minha comida e meu vinho", ordena a madre. A moça se veste e vai até a cozinha. Leva a refeição leve preparada por Benguela. A madre manda que ela experimente cada coisa e espere enquanto ela se refestela. Pega a garrafa de vinho já pela metade, manda Natalícia beber um gole, dois, chega ao ouvido dela e diz que as coisas poderiam ser mais fáceis, que ela poderia ter uma vida menos dura. Mas não, resiste à madre e isso torna sua vida pior. Termina de comer e manda a serviçal juntar os restos e levá-los para a cozinha. Natalícia obedece. Pega também a garrafa de vinho, na qual resta pouco líquido, encaminha-se para a porta e a madre vocifera: "imbecil, deixa aqui meu vinho". Obedece à ordem. Sai rapidamente do quarto. Conta à Benguela que fizera tudo certo, agora era só esperar. Pela manhã a madre não aparece no horário habitual do café. Quando sua ajudante de ordens vai procurá-la no quarto, encontra-a no leito, dormindo ainda. Chama pela madre, chama outra vez, balança-a, ela acorda sonolenta e lânguida. Sem forças, dorme novamente. Benguela é chamada, avalia a situação e prepara um chá. Deixa-o com a ajudante e espreita da porta. O cheiro é muito bom, delicioso, a madre continua lânguida, vomita quando a ajudante suspende sua cabeça. Grita por Benguela, esta despeja o chá na goela da madre. Ela dorme, todas acham que vai melhorar. Passam-se dois dias e a madre continua acamada, agora tem febre, delira, profere calões, amaldiçoa o convento, a clausura. Chama por homens, aperta o sexo, escandaliza as irmãs. Finalmente dorme. Ao final do terceiro dia, morre. O Conselho se reúne e decide pelo enterro da madre nas dependências do convento. Escrevem uma carta à Cúria, comunicando o acontecido. Não fora preciso omitir a presença da garrafa de vinho no quarto, Benguela tivera o cuidado de retirá-la na madrugada, antes que alguém a encontrasse. Decidem que Estrela deveria sair do confinamento para evitar explicações à Cúria. Decisão providencial, a condenada já era pele e osso, não agüentaria por muito tempo. Transcorrem quatro meses de paz no convento. Período em que Estrela se recupera. Chega então uma carta da Cúria, avisando que em breve será designada outra responsável pela instituição. Aquela era a hora. Numa madrugada de lua nova, Natalícia, Esther e Estrela fogem do convento conduzidas por Maria Benguela. Caminham rapidamente até a estrada e pouco depois chegam um homem e uma mulher à cavalo, trazem consigo mais dois cavalos cilhados. Os dois guerreiros são altos e fortes, têm a pele escura, mas ele tem cabelos ondulados, parece filho de índio com negra. Ela é preta como Benguela, tem várias tranças e uma cicatriz muito feia no braço direito. Ele chama Benguela de mãe, toma a benção, ela, não. Abraçam-se os três, o abraço de Benguela à moça é mais longo e apertado. É jovem, mas não tanto quanto as duas noviças assustadas e Natalícia. É a moça, apresentada como Açucena, quem descreve o roteiro da viagem até o quilombo. Até o meio da manhã seguirão pela estrada, onde há pouco movimento. Depois passam por dentro da mata, dormem um pouco ao pé da cachoeira e na madrugada retomam a estrada. Ao amanhecer do dia seguinte subirão a serra do quilombo. Esther irá no cavalo com Benguela, Estrela com Açucena e Natalícia com o rapaz, Domingos. O quarto cavalo levará os víveres e a água e revezará a carga com um dos cavalos que se mostre mais cansado. Domingos e Natalícia trocam olhares e Benguela dá um sorriso de aprovação. Açucena, num gesto de carinho, tira o lenço da cabeça de Benguela, escapam duas grossas tranças embranquecidas que emolduram seu rosto como meia lua. "Eia, eia", Açucena conversa com os cavalos. Benguela amarra a saia no meio das pernas e ensina as meninas a fazerem o mesmo. Estão assustadas, mas felizes, seduzidas pelo desconhecido. Permanecem caladas, montam na traseira dos cavalos, sonhadoras, e rumam para a terra da liberdade. (Ilustração: Iléa Ferraz)

18 de jun de 2008

Bem vinda, Elo da Corrente, mais uma editora!

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Tássya da Bahia!

Recebo comunicação do Pablo dando conta de que mandou o logo da Mazza Edições para a Tássia, do Instituto Pedra de Raio, parceiro do Instituto Nzinga, na promoção do lançamento do Tambor, em Salvador. Digo que as meninas são ponta-firme e o evento promete. Constato depois que o cartaz ficou lindo. Ainda na esteira da logo, o Pablo aproveita pra me dizer: “Cidinha, a moça do Pedra de Raio não tem o mesmo nome daquela senhora famosa?” “Pô Pablo, é mesmo! Tássya, Tássya da Bahia, a poderosa vidente, cosedora de corações partidos! Mas peraí, você é muito jovem, como é que conheceu a Dona Tássia?” “Olha, Cidinha, conhecer propriamente, não conheci, nunca me vali dos préstimos dela, mas foi nos meus tempos de Escola Técnica. A equipe de panfletagem distribuía-os na porta da escola e tive algumas colegas que foram lá”. “Ah Pablo, fale a verdade, você também fez uma consultazinha?” “Não,não, Cidinha, não fiz não”. Acreditei. Dona Tássya era personagem folclórico da adolescência. Dizia-se especialista na solução de problemas de desengano e desespero amoroso. Começou com panfletos em papel jornal e atendimento numa portinha, à rua dos Caetés. Sempre destacava a origem, aliás era parte do nome próprio, como se o fato de "ser da Bahia" legitimasse seus supostos poderes. Com o tempo, por efetividade dos trabalhos ou aumento do número de clientes desesperados e desesperançados, não se sabe, ela melhorou a qualidade dos papéis distribuídos pelas ruas de Belo Horizonte, era o primeiro sinal da melhoria de vida. Em um deles, lembro-me bem, havia uma imagem dela, uma espécie de Iemanjá branca com olhos de Príncipe Namor. Na adolescência do Pablo ela erigiu uma casa enorme, quase um palacete, localizada à Av. Amazonas, uma das maiores da cidade, como o nome indica. Havia uma placa luminosa, provável inspiração em Tieta do Agreste - “Mãe Tássya da Bahia resolve qualquer problema amoroso” -, abaixo um letreiro grande, com os males que Dona Tássya curava: "quebrante, mal-olhado, perda de marido, impotência, quebra de feitiço de separação", etc. O patrimônio da consultora sentimental só crescia, o sinal mais evidente de riqueza foi a instalação de uma fonte luminosa na frente da casa e a colocação de uma imagem dela, acho, mimetizada com a tal Iemanjá branca, de braços abertos, cabelão até a cintura, os olhos de Príncipe Namor ou de Dr. Spock, não sei ao certo. Nunca tive certeza da declarada baianice dela, mas para efetividade da propaganda, o povo inventa certos pertencimentos e, se até os pretos da terra de Obama nos folclorizam, imagine os brancos daqui? Lembro-me que uma vez, no refeitório da Howard University, almoçava com o Prof. Ronald Walters, passou por nós uma professora, afro-brasilianista, e ele contou que estava de viagem marcada para o Brasil. “Para onde?”, ela perguntou. “Para a Bahia”, ele respondeu. Ela então, muito jocosa, cerrou o punho, levantou-o e disse: “give-me de Orixas’power” e gargalhou. Eu, furiosa, lancei-lhe uma maldição qualquer. Ser baiana/o é duro, mana, tá achando que é fácil?_______________________ Para saber mais sobre o Instituto Nzinga, clic aqui, e para saber mais sobre o Instituto Pedra de Raio, aqui.

17 de jun de 2008

Centenário de Solano Trindade: "o pioneiro dos manos"

Ontem, domingão, fui para o III Encontro de Literatura Periférica de Francisco Morato,uma homenagem ao Centenário do Solano Trindade. Esperei o segundo trem na Estação da Luz para fugir da superlotação do primeiro. Uma criança de uns 10 meses chorava, urrava, e a mãe parecia alheia ao sofrimento. Não tinha mais do que dezoito anos aparentes, a mãe, e seu rosto integrava o quadro de alheamento do mundo da maioria dos passageiros. Foram muitas estações de choro e a mãe ali, distante, cansada e de olheiras fundas como quase todos. Por fim, a criança dormiu, vencida pelo cansaço, provavelmente maior do que o frio e a fome, àquela altura. Lembro-me que na minha primeira viagem a São Paulo, no inverno duro de 1988, duas coisas me chocavam, o quanto as pessoas fumavam e o quanto os pobres sentiam frio. Desprovidas de agasalhos apropriados aos seis graus daqueles dias, as pessoas vestiam camadas e mais camadas de roupas finas e surradas, no afã de formar barreira que intimidasse o frio. O efeito psicológico deveria ser maior do que o prático. Depois de sessenta minutos ou quase, cheguei a Francisco Morato. O som do Rap ouvido ao longe, encontro o Tala, angolano boa gente e vamos conversando sobre o lugar de origem dele em Angola. Ele me ensina também uma ou outra palavra do kimbundo até chegarmos lá. Logo na chegada vejo o amigo Allan da Rosa e recebo um exemplar do seu "Zagaia", poesia de cordel, publicado pela Difusão Cultural do Livro. "Zagaia é o moleque rapaz que sai pelo mundo a girar se deparando com cantos, seres e perguntas antes nem imaginados. Passando por provas, amadurecendo, alimentando o espírito com chás amargos e frutos de casca grossa. Procurando e procurando algo escondido nos embaços do dia-a-dia, do noite-a-noite". Nem pudemos fazer um escambo - o Allan publica tanto que não acompanho o ritmo dele -, já havia trocado um Tambor por um "Morada", livro dele, de textos e fotografias sobre moradias populares e periféricas em São Paulo. Não houve outro jeito, senão de pronto, comprar o livro. Encontrei também o Rodrigo Círico que naquela noite lançava o seu "Te pego lá fora", relatos da própria vivência como professor de escola pública na periferia de São Paulo. Fizemos o escambo. A seguir levei um papo com o Marciano Ventura, menino doce e sonhador que conheci anarco-punk e hoje é um super articulador cultural na Cidade Tirandentes. Já ouviram falar da Tiradentes, não é? O maior conjunto habitacional da América Latina. Há uns meses eu havia ido lá pra participar de um sarau, seguido de generosa feijoada, que não experimentei porque não sou fã de suinos e já eram 23:00, dali até o centro de São Paulo são quase duas horas entre ônibus e metrô. Bem, o Marciano me deu informações fresquinhas sobre a publicação "NEGRAFIA", organizada por ele, com textos das pessoas que participaram do sarau da Tiradentes, como convidadas. Honrosamente sou uma delas. O livro homenageará o Centenário do Solano, será lançado em eventos de discussão da obra dele e capricharei em um ou dois contos inéditos para integrá-lo (tenho seis páginas para escrever). Como vocês podem notar, faltam mulheres nesse agito de produção literária na periferia de Sampa. Além da Dinha, da Elizandra e da Maria Tereza, urge que outras meninas apareçam e publiquem e penso que a Edições Toró e a novíssima editora periférica "Elo da Corrente" deveriam se empenhar mais na promoção de mulheres escritoras. De minha parte já me dispus a conversar com as meninas que começam a escrever, que escrevem e têm medo de mostrar os textos, que escrevem e querem escrever melhor, mas ainda não rolou. Depois encontrei Dona Raquel Trindade que, animadíssima, como sempre, mostrou-me um exemplar do "Tem gente com fome", poema mais famoso do Solano, numa versão ilustrada para crianças, noticiada há dias aqui no blogue. Ouvi várias histórias do "papai Solano", da sucessiva perseguição política sofrida por ele, das viagens pelo mundo com o Teatro Popular Brasileiro. Por fim, Dona Raquel mencionou um artigo e fui buscá-lo na Internet, chama-se "O pioneiro dos manos" e, embora o título seja mais instigante do que o texto (esperava mais), vale a pena lê-lo. Atentem para a data, a publicação é de 15 de setembro de 2001. De quebra, haverá lançamento de dois livros do mano-mor, dia 25 de junho, na Casa das Rosas, em São Paulo. Quem estiver pela cidade, não perca. ------------------------------------------------------------------------------------- (O pioneiro dos manos, Por: Xico Sá, na Folha de São Paulo de 15/09/01) "Há 40 anos, o pernambucano Francisco Solano Trindade, morto como indigente em 1974, no Rio, aos 65, cravava a saudação "mano", prefixo obrigatório de hoje entre rappers e jovens da periferia, na poesia negra brasileira pré-Racionais MC's. "Que foi que fizeste mano/ Pra assim tanto falar?", soltava a loa. "(...) Subi para o morro, / Fiz sambas bonitos, / Conquistei as mulatas/ Bonitas de lá..." Ao dedicar-se ao combate à intolerância, com uma obra que guarda as dores do panfleto, mas não esquece do lirismo devoto às mulheres, o poeta firmou-se, entre os militantes dos movimentos negros, como símbolo da resistência que se trava contra o "racismo cordial" do país. Nos últimos dois anos, o precursor dos rappers, que foi cineasta, pintor e teatrólogo, teve seus poemas relançados e o estilo do seu trabalho reproduzido por Organizações Não-Governamentais e centros culturais que prezam por sua memória. A poesia completa do autor foi relançada por uma pequena editora paulista, a Cantos e Prantos, no volume "Solano Trindade - O Poeta do Povo", organizado pela filha Raquel, artista plástica e coreógrafa. A edição reúne os livros "Poemas de uma Vida Simples" (1944), "Seis Tempos de Poesia" (58) e "Cantares do Meu Povo" (61, relançado pela editora Brasiliense no início dos anos 80). Na internet, vários sites destacam no momento a vida e a obra do poeta, como o Pernambuco de A/Z (www2.jc.com.br/pe-az/) e o Portal Afro (www.portalafro.com.br). "É o maior nome da poesia negra militante do Brasil, referência em todos os debates que se travam hoje, como a questão das cotas para negros nas universidades e o racismo que persiste", diz Inaldete Andrade, que organiza, para edição da Secretaria de Educação do Recife, uma coletânea dos poemas de Solano Trindade sobre Pernambuco. Com o seu Estado como fonte, o poeta recupera alegorias infantis e loas populares que lembram a lírica dos conterrâneos Manuel Bandeira e o coloquialismo de Ascenso Ferreira -autor de "Catimbó", celebrado, em 1927, por Mário de Andrade, como o dono de "um ritmo verdadeiramente novo" no modo de fazer verso livre depois da tertúlia modernista. Solano Trindade, tratado como "esse genial poeta" por Carlos Drummond de Andrade, juntava militância, lirismo e uma oratória que mais parecia um assobio. Um dos poemas mais populares de Solano Trindade é "Tem Gente com Fome" -"Trem sujo de Leopoldina/ correndo correndo/ parece dizer/ tem gente com fome/ tem gente com fome/ tem gente com fome". Musicado, seria uma faixa de um disco de 75 do grupo "Secos & Molhados". A censura do regime militar, todavia, cuidou em proibir a canção, gravada posteriormente, anos 80, por Ney Matogrosso, um dos integrantes do conjunto, já em carreira solo. Com o Teatro Popular Brasileiro (TPB), fundado pelo poeta em 1950, foi o primeiro a encenar, seis anos depois, "Orfeu da Conceição", de Vinicius de Moraes, que daria o filme homônimo do francês Marcel Camus. O grupo correu a Europa, participou de espetáculos a convite de Edith Piaf e da Commédie Française. Solano Trindade animou-se também com a dança, no comando da corporação Brasiliana, que teve igual destino de sucesso. Ao contrário do personagem de "Terra em Transe", de Glauber Rocha, que não aguenta a mistura de poesia e política em um homem só, o avô dos rappers não sabia separar uma coisa da outra. Nesse embalo, organizou, nos anos 30, as primeiras reuniões para discutir o racismo no Brasil no século passado, o 1º e 2º Congresso Afro-Brasileiro, realizados no Recife, que respirava o lançamento de "Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre, e em Salvador. O engajamento político do autor em uma organização criada para enfrentar o racismo, fato raro na época, teve início em 36, quando fundou, na companhia do pintor primitivista Barros Mulato e o do escritor Vicente Lima, a Frente Negra Pernambucana. O apego ao panfleto, no entanto, nunca impediu que sua poesia fosse admirada por gente do ramo, como o poeta e ensaísta Sérgio Milliet, Carlos Drummond de Andrade, o escritor e crítico literário Otto Maria Carpeaux, entre tantos outros do mesmo calibre. "Organizando bailados, editando revistas, promovendo espetáculos e conferências, incansável em sua atividade, poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal da valorização do negro", anotou Milliet, em 1961. O escritor Darcy Ribeiro, já nos anos 80, dizia que Solano Trindade foi um dos mais importantes nomes do século passado no trabalho de injetar pilha nova na auto-estima dos negros do Brasil. Aí está também a semelhança do poeta com a legião de "manos" do rap, que segue a mesma pegada, no país que teima em manter a mancha racista do atraso. Solano Trindade é, como ele mesmo cantava, "blues, swings, sambas, frevos, macumbas, jongos", ritmos de angústia e de protestos, para ferir os ouvidos".

16 de jun de 2008

Ainda mais

"Foi como tudo na vida que o tempo desfaz/ Quando menos se quer/ Uma desilusão assim/ Faz a gente perder a fé/ E ninguém é feliz, viu/ Se o amor não lhe quer/ Mas enfim, como posso fingir/ E pensar em você como um caso qualquer/ Se entre nós tudo terminou/ Eu ainda não sei mulher/ E por mim não irei renunciar/ Antes de ver o que não vi em seu olhar/ Antes que a derradeira chama que ficou/ Não queira mais queimar/ Vai, que toda verdade de um amor/ O tempo traz/ Quem sabe um dia você volta pra mim/ E amando ainda mais" (Do Paulinho da Viola).

14 de jun de 2008

É hoje! Desconcertos na Paulista, Casa das Rosas, às 17:00

Saudade, Jamelão, descanse cantando

Mais sobre o Tambor

(Por: Raphael Salomao Khede) "Oi Cidinha, Tudo bem? Queria te falar da minha leitura do Tambor. Primeiro gostei do titulo e da capa e dos desenhos tambem,que complementam os textos. Achei um livro amargo,da amargura de que é feito o mundo em que vivemos :mais "liberdades",tecnologias,progresso,lazer.......e mais solidão,incertezas,desatençoões,ansiedades,pressa,stress..... Seu texto reflete isso,até mesmo no seu caráter fragmentário,mas que é composto como um quadro,formado por vários elementos, todos essenciais.Achei sua abordagem ao tema do relacionamento gay,lésbico ou mesmo hetero, sensível e inteligente :contundente.Pois,qual leitor nao vai se reconhecer em pelo menos(mas creio eu em mais de um) um conto? Gosto do jeito como voce une as palavras,seguindo um ritmo,uma assonância,uma gíria, ou um provérbio,me lembrou alguma coisa de João Antônio,sei lá(ele tambem tinha uma busca muito grande pelo ritmo;qual escritor nao tem,se DostoiévsKi lia em voz alta todos seus textos,logo apos tê-los escrito?)mas voce é ainda mais direta,seca e concisa do que ele.Com poucas pinceladas, voce consegue construir cenas coloridas,uma diferente da outra. Em alguns casos a amargura deixa espaço a um riso esporádico ou satírico,mas na maioria das vezes, percebo que você esta falando de uma dor,dor de mulher negra que vê e vive essa nossa sociedade :"Nao tem alegoria para minha tristeza.Eu sou só dor".Essa frase demistifica,junto a todo o conto que mais parece um poema,e talvez é o que eu mais goste,toda a "alegria" do samba,do eterno país do carnaval,das mulatas dos requebros febris,do lugar aonde tudo é oba-oba e sempre se dá um jeitinho.Achei esse conto cortante,afiado como uma faca necessária para cortar nossas hipocrisias escondidas e nossos sorrisos de chumbo. Ah, a música de Teresa Cristina e Argemiro tambem é linda"! *Raphael em mestrando em literatura brasileira na UERJ.

11 de jun de 2008

Sobre o Tambor

(*Por Glória Azevedo) "Após a leitura do mais novo livro de Cidinha percebo que sua narrativa é meio armadilha. Por detrás de histórias curtas, humor sutil, ironias leves, o que se percebe é que no livro há uma solidão que caracteriza todos os personagens e suas mais diversificadas relações: afetivas, sociais, urbanas, notívagas. A narrativa de Cidinha trata de seres miúdos, não cria heróis, mocinhas, bandidos. Seus personagens são líricos porque são comuns, porque nada têm além de suas vidas triviais, cotidianas. Não são artistas, não são invenções. Eles somos nós, são os anônimos que encontramos nas ruas, nos ônibus, nos bares e casas de diversões feitas para quem trabalha, come, dorme, mas também sonha. Talvez por isso, a leitura de Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! crie em nós uma certa intimidade risonha e delicada com cada personagem. Porque eles se apresentam como somos: solitários, em busca de afetos e companhia e ao mesmo tempo engraçados. Cidinha brinca com eles e por extensão com seus leitores ao tirar o falso glamour da existência. Em cada conto parece que encontramos um amigo, um vizinho, alguém que conhecemos, ou somos nós mesmos: humanos, patéticos, humorados, frustrados, vencedores, felizes, sós. Bater o tambor representa a capacidade de sair, de libertar-se, de buscar, mesmo que isso signifique voltar solitário. Após a leitura final, eu fechei o livro sorrindo e me dizendo;- vou bater meu tambor, ora, ta pensando o quê?” Mas eu sei, está lá no livro: o que resta muitas vezes é a solidão, acompanhada de uma boa dose de bom humor". Glória Azevedo é doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília- UnB e mestre em Literatura Brasileira também pela UnB. Professora de Literatura Brasileira na Universidade Federal dô Tocantins- UFT, escreve poesias e contos aos quais chama de "exercícios voluntários de solidão involuntária". É editora do blogue www.orisodemedusa.blogspot.com

Cidinha no III Encontro de Literatura Periférica de Francisco Morato, São Paulo

10 de jun de 2008

Cris Pereira no Distrito Federal

Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces, um bom livro

O Tambor tem feito muitas coisas comigo, uma delas é me forçar a estudar temas ligados ao corpo. Várias pessoas que o lêem e, principalmente, escrevem sobre ele, falam da corporalidade exacerbada nos textos. Juro que não percebi quando escrevi, muito menos foi algo intencional e agora estou estudando um pouco para entender essas leituras. Também porque começo a ser chamada para falar a partir desse enfoque e, para não dar vexame, estou me inteirando de umas discussões arejadas que graçam por aí. Foi assim que cheguei ao livro “Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces”, organizado com competência e sensibilidade pelo Professor da UFMG, Marcos Antônio Alexandre. A publicação é da Mazza Edições, 2007, e foi um presente recebido da editora, que muito me acrescentou, diga-se. A parte I do livro chamada “memória e escrevivência” é aberta por um texto fulminante da escritora Conceição Evaristo. Quanta coragem para contar as próprias escrivivências. Depois, Eduardo Assis, também professor da UFMG e autor de Machado de Assis afro-descendente ( Pallas/ Crisálida, 2007), comenta o obra de Conceição Evaristo, com destaque para Ponciá Vicêncio, romance da Mazza Edições, adotado no vestibular da UFMG, em 2007. Dentre outras passagens interessantes, há uma sobre Úrsula, publicação de Maria Firmina dos Reis, de 1859. Diz ele: “O texto de Maria Firmina dos Reis, a exemplo da poesia satírica de seu contemporâneo Luiz Gama, destoa cabalmente do projeto literário romântico, empenhado na missão conservadora de unir o país assolado pelas recentes revoltas separatistas, através do reforço literário das narrativas e dos conceitos de nação e de identidade nacional. O texto de Úrsula, ao contrário das ficções de fundação comuns em seu tempo, recusa-se a propagar a ideologia de uma identidade nacional uma e coesa, que apaga as diferenças e naturaliza hierarquias. Em vez disso, enfatiza a diferença étnica transformada em desigualdade social e subalternizada pelo escravismo. Ao colocar o negro como referência axiológica de seu texto, verdadeiro exemplo para personagens e leitores brancos; e ao inscrever senhores e escravos como “filhos de Deus” e “irmãos” perante os desígnios divinos, a escritora maranhense apropria-se da moral hegemônica para desmascarar o rebaixamento dos afrodescendentes” (p.28). O texto que conclui a primeira parte é de Florentina Souza, estudiosa de literatura negra ou afro-brasileira, como costuma nomeá-la, e professora da UFBA, “Memória e performance nas culturas afro-brasileiras”, no qual afirma e comprova que “o corpo negro em performance tem sido estudado na contemporaneidade como reinvenção de imagens pelo diálogo entre imaginário e memória, que se tornam amplificadores para vozes e reivindicações, às vezes, desprestigiadas” (p.35). A segunda parte do livro, “O corpo em performance, a arte e a poesia: o profano e o sagrado”, é aberta por um texto magistral de Zeca Ligiéro, professor de teatro na UNIRIO e coordenador do Núcleo de Estudos das Performances Afro-ameríndias, naquela mesma universidade. O texto se chama “Artes do corpo: desenhando um espaço sagrado” e aborda a obra de Aleijadinho e Mestre Valentim, as africanidades presentes nelas e o quanto alguns renomados artistas brasileiros beberam das artes africanas para criar suas inovações. Aprendi bastante. Vejam um trecho sobre a obra de Valentim: “O conjunto de animais (jacarés e garças), esculpidos e fundidos em bronze pelo próprio artista (Valentim), de forma pioneira em nossas terras, refletem o seu gosto pela fauna brasileira e um certo conhecimento esotérico africano. Para a pesquisadora Ana Carvalho, ‘o magnífico conjunto representando dois jacarés entrelaçados em posição de movimento e transitoriedade’ são ‘representados seguindo as regras do naturalismo ótico, da multiplicidade harmônica dos ritmos e das gradações de superfície da estética rococó”. A escolha de um par de jacarés apresenta aspectos passíveis de uma interpretação a partir dos valores culturais africanos, pois, nesse antigo continente, os crocodilos são considerados animais sagrados, símbolos de fertilidade e de renovação da vida. A forma como estão dispostos e entrelaçam seus rabos extrapola o naturalismo rococó num geometrismo atípico dessa escola e que remete a uma linguagem simbólica. Não foi por acaso que o autor escolheu esse réptil para de sua mandíbula verter a água da fonte. Possivelmente, o artista teria o conhecimento da entidade Dan, do antigo Daomé, ou Dambala, do Haiti, também e no Brasil conhecido como Oxumarê, Orixá representado por duas serpentes que se cruzam representando a dualidade do sagrado: as duas energias vitais. Tudo indica que sua escolha não foi aleatória” (p.47). Há inda vários ótimos artigos, comentarei apenas mais três em pôste futuro: “Palavra poética em transe/trânsito: manifestações pelos sete buracos da minha cabeça”, de Jussara Santos; “Do verde de Oxóssi ao ouro de Oxum: o ritual religioso na poética de José Carlos Limeira”, de Zoraide Portela Silva e “Performance-cidadã” de Anízio Vieira.

9 de jun de 2008

Marina Silva estréia como colunista da Folha de São Paulo

(Da Folha de S.Paulo, em Brasília). "Menos de um mês após deixar o cargo de ministra do Meio Ambiente do governo Lula, a senadora Marina Silva (PT-AC) estréia amanhã (hoje) como colunista da Folha. Reconhecida como a principal voz da Amazônia, ela quer escrever sobre temas ligados ao desenvolvimento sustentável. "A coluna não será monotemática", afirma. Maria Osmarina Marina Silva de Souza Vaz de Lima, 50, nasceu na Amazônia. Alfabetizada aos 16 anos, formou-se em história, cursou especialização em teoria psicanalítica, freqüentou aulas de direito e relações internacionais e termina agora curso de psicopedagogia. Marina deixou a região de Breu Velho (AC) em 1975 e fez curso de alfabetização de adultos e supletivo. Ajudou a fundar a CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Acre. A atividade parlamentar começaria em 1988, como vereadora em Rio Branco. Em 1995, chegou ao Senado. Em 2002, foi reeleita para o atual mandato de senadora, mas saiu para assumir o ministério. Deixou o posto ao se ver sem apoio de Lula para enfrentar pressões do agronegócio contra o combate ao desmatamento". (Em legítima defesa, por: Marina Silva) "INICIO MINHA participação neste espaço com enorme sentido de responsabilidade. Tenho a oportunidade diferenciada de usar um dos bens culturais mais preciosos: a exposição de idéias, base para o diálogo. Gostaria de compartilhá-la com os leitores e de, juntos, pensarmos o Brasil e reunirmos forças para ajudar a transformá-lo. Para começo de conversa, trato de um entrave para o crescimento do país: a postura ambígua do Estado frente ao nosso incomparável patrimônio natural. O Estado brasileiro criou medidas de proteção ambiental, muitas vezes em situações difíceis. Esse acúmulo alcança hoje limiar estratégico de inserção da variável ambiental no coração do processo de desenvolvimento. A sociedade entende esse momento, apóia, demanda. Diante disso, o Estado não pode se encolher diante do ponto a que ele mesmo chegou. Movimentos retrógrados, saudosistas do tempo da terra sem lei, fazem pressões e recebem acenos de possíveis flexibilizações. Mas a sociedade bloqueia e restringe esses acordos. A Amazônia é o maior exemplo. A opinião pública mantém o debate, banca o combate ao desmatamento, dá suporte para a manutenção da lei do licenciamento e para a não-flexibilização da legislação ambiental. O certo é que o Estado, em todos os seus níveis, não consegue utilizar o grande capital político de que dispõe para acompanhar o pique da sociedade. Ela cresceu, passou a perceber seus problemas de maneira mais complexa. O Estado cresceu, mas não amadureceu. Há agora uma discussão importante que resume tudo: é preciso dinheiro para implementar as medidas e normas criadas, porém a relatoria ambiental do Orçamento que está sendo discutido no Congresso foi entregue à bancada ruralista, cuja oposição às medidas de combate ao desmatamento é conhecida. Talvez tenha havido uma negociação para assegurar aos aliados a relatoria das agendas de aceleração do crescimento. E o meio ambiente parece não ter tido a mesma prioridade. Boa parte do Estado ainda vê na política ambiental um mal necessário. Fala-se em compatibilizar desenvolvimento e meio ambiente, como se fossem adversários a serem conciliados. O Brasil não tem que compatibilizar, tem que buscar um crescimento econômico cuja concepção já contenha a conservação ambiental. Que não veja as áreas preservadas como partes "retiradas da produção" e, sim, como imprescindíveis à produção equilibrada e com alguma noção de bem público. Isso é possível? Se não for, para um país que ainda tem 60% do seu território com florestas, então é mesmo hora de aumentamos, em legítima defesa, nosso estado de alerta". contatomarinasilva@uol.com.br

6 de jun de 2008

Obama mudou ótica dos EUA sobre raça

(Deu na Folha de São Paulo, por Andrea Murta) "Para especialista em relações raciais, momento é o mais marcante desde movimento por direitos civis. Inicialmente se identificando como "um candidato que por acaso é negro", Barack Obama bem que tentou, mas não foi capaz de impedir que a temática racial emergisse na campanha -e voltasse ao centro do debate agora. Mas, apesar dos temores de que o preconceito esmagasse suas chances, o que se viu foi "um homem que, sozinho, mudou a forma como se pensa em raça" nos EUA. É o que afirmou à Folha William Wilson, professor da Universidade Harvard, negro e autor de "The Declining Significance of Race" (A importância decrescente da raça, University of Chicago Press, 1978). Leia a entrevista que ele concedeu, por telefone, de Harvard. FOLHA - Os EUA estão prontos para um presidente negro? WILLIAM WILSON - Sim. Acho que Obama vai vencer John McCain em novembro. Esse homem conseguiu sozinho mudar a forma como pensamos em raça neste país. Sua campanha e candidatura só perdem para o movimento pelos direitos civis como o mais positivo e significativo acontecimento na história das relações raciais americanas desde que estou vivo -obviamente sem contar o fim da escravidão. FOLHA - Houve uma mudança estrutural na sociedade que abrisse o caminho para um negro? WILSON - Não creio. Foi o tipo de mensagem que ele enviou -de inclusão, integração, união- que ecoou fortemente entre setores significativos da população branca. Agora, uma vitória seria incrivelmente simbólica. A resignação tem sido a resposta-padrão para discriminação e desrespeito persistentes que os negros enfrentam neste país. Isso pode mudar com a eleição. FOLHA - A ex-deputada Geraldine Ferraro, pró-Hillary Clinton, sugeriu que ele só ficou na frente por ser negro. A raça chegou a ajudar? WILSON - Não. Foi uma pequena desvantagem, porque se tornou um tema significativo lá pelo meio da campanha. Os comentários de Jeremiah Wright, ex-pastor de Obama, sobre divisão racial nos EUA circularam muito. Mas ele foi capaz de superar as divisões raciais com sua mensagem. Foi um político extremamente esperto, que fez os americanos pensarem mais sobre unidade do que sobre divisão. Se fosse branco, suas chances seriam ainda melhores, devido a sua habilidade de articular questões de uma maneira com a qual a maior parte da população se identifica. FOLHA - A imagem de "candidato que por acaso é negro" é boa? WILSON - Inicialmente, eu me preocupei com o fato de ele ter deixado a questão racial em segundo plano, o que poderia alienar eleitores e líderes negros. Mas esse temor foi infundado, porque assim que a população negra se tocou que esse homem tinha realmente uma chance, deu a ele liberdade para prosseguir como quisesse. Me lembro de uma vez que dei uma palestra na Universidade Notre Dame (em Indiana) e um taxista negro me buscou no aeroporto. Ele estava furioso com o reverendo e ativista negro Jesse Jackson, que criticou Obama por não abordar tanto a questão negra. Ele disse: "Qual o problema com Jackson? Como Obama pode vencer se só falar aos negros? Deixe o homem ser eleito, depois ele trata disso". Fique impressionado com a sofisticação dos eleitores negros, que sabiam que Obama precisava ter apelo com uma audiência maior. FOLHA - Mas há temores de que ele não consiga conquistar a classe operária branca... WILSON - Antes das primárias de Ohio e do Texas, em março, ele estava conquistando esses eleitores. Em Virgínia, em Wisconsin e outros, teve bons resultados entre a classe operária branca. Aí vieram propaganda ideológica e incidentes negativos. Foram várias mensagens racialmente codificadas, e Obama perdeu seu "momentum". Mas acho que com mais tempo para oferecer sua mensagem, poderá sanar isso. Não é que ele seja incapaz de conquistá-los, é que teve de superar mensagens negativas em vez de apresentar propostas. FOLHA - O lingüista e ativista político progressista Noam Chomsky disse que os republicanos vão acabar com Obama com tais mensagens... WILSON - É verdade que os republicanos colocarão sua máquina de propaganda negativa contra ele, mas uma das vantagens da disputa que teve com Hillary Clinton nas primárias é que muitos dos pontos negativos já foram usados. O discurso de Obama em resposta à controvérsia sobre Wright, por exemplo, foi um momento definidor. Foi um dos mais importantes discursos sobre raça da história americana. Os republicanos tentarão, mas não conseguirão reavivar com a mesma força debates como esse".

5 de jun de 2008

Fogo Morto

Fui atrás do Fogo Morto para entender o Cidade de Deus. Explico: Paulo Lins, autor deste, declara em inúmeras entrevistas - “quem quiser entender Cidade de Deus”, seu primeiro livro de ficção, “deve ler Fogo Morto, de Zé Lins do Rego, tá tudo ali”. Vou ver se está mesmo. Cidade de Deus - 1a edição, sem as alterações sofridas para evitar mais processos pecuniários movidos por figuras reais que inspiraram personagens e, ingenuamente, como uma homenagem, o Paulo utilizou os nomes – aguarda sua vez na fila de leituras. É um autor monumental, o Zé Lins. O autor e a obra me ajudam a pensar o conceito de literatura negra que ando perseguindo, a entender a necessidade dela. Trata-se de uma busca para explicar a mim mesma, para me explicar aos outros e me dar explicações. Neste livro, o Fogo Morto, a compreensão se dá pela ausência, pela invisibilidade, pela falta de significado do negro no retrato do real dos engenhos de cana, pós-abolição da escravatura, desenhado por Zé Lins. Na segunda parte da obra, “O engenho de seu Lula”, em especial, é chocante o desprezo à figura do negro na narrativa, marcada por nulidade e falta de ação estarrecedoras. Talvez o autor tenha sido realista ao extremo ao descrever a forma como os negros eram tratados no engenho do seu Lula e por seu Lula, emblema maior do conservadorismo e da saudade atávica dos tempos da escravidão, acalentada por escravizadores e seus herdeiros. Mas não deixa de atarantar o juízo. Nem autor, nem narrador humanizam os negros em qualquer mínimo aspecto, só existe a aquiescência à servidão. Na primeira parte, “O mestre José Amaro”, reservava-se ainda algum lampejo de humanidade para os personagens negros. Mas, na segunda... diz o texto, à página 137: “Os negros do capitão tinham fama. Diziam que no Santa Fé, negro só comia uma vez por dia, que couro comia nas suas costas, nos castigos tremendos. O fato era que a escravatura do Santa Fé não andava nas festas do Pilar, não vivia no coco como a do Santa Rosa. Negro do Santa Fé era de verdade besta de carga. O capitão dizia ele mesmo que negro era só para o trabalho. Ele não era negro e vivia de manhã à noite fazendo sua obrigação”. Depois à página 140: “Nas mãos do Capitão Tomás tudo rendia, tudo dava dinheiro. É verdade que tinha uma mulher que era metade do seu esforço. Cuidava ela dos negros, cosia o algodãozinho para vestir-lhes, fazia-lhe o angu, assava-lhes a carne. A sua escravatura era de gente boa. Trouxera do Ingá negros de bom calibre. Nunca comprara peça barata, resto de gente que só lhe desse trabalho. Negro ruim e barato deixava para os pechincheiros. Queria povo para o trabalho, negro que parisse braços e mais braços para os seus partidos”. Depois, à página 148: “E começou o Santa Fé a girar em torno do cabriolé. Tomás era homem simples, mas gostava de mostrar aos senhores de engenho da Ribeira que não era o camumbembe que eles pensavam. Tinha filha que tocava piano e genro que possuía cabriolé. O primo preparou-se para a viagem. Levou quatro negros a Goiana, e numa tarde de verão, com o Santa Fé moendo, entrou de cercado adentro a carruagem de Luís César de Holanda Chacon. Fora uma festa igual aquela da chegada do piano. Uns foram acompanhar o carro desde Itambé até ali. Na areia do tabuleiro as rodas se enterravam fundo. Braços de negros, de curiosos, empurravam o carro. Para os cavalos cansados havia negros que os substituíam (grifo meu). E, finalmente, à página 176: “Lembrava-se do negro Nicolau. Ainda hoje ele passava ali pela porta do engenho e não parava para dar duas palavras. Apanhou como negro ruim por ordem do Lula. E as negras velhas de sua mãe? Germana, Luísa, Joana, todas se foram de uma vez para sempre. Nem uma só vez voltaram ao Santa Fé para uma visita. Sabia que a cozinha do Santa Rosa vivia cheia de negros da escravatura. Em todos os engenhos haviam ficado escravos que não quiseram abandonar os senhores, que amavam os senhores como se fossem criaturas da casa-grande. Ali não paravam. E até eram tidos como inimigos. Via aquele Nicolau, já bem velho, passar pela porta e mal tirar o chapéu. Parecia um negro de longe, que nunca parara no engenho”. É tudo tão atual, embora a edição lida seja de 1957 (Casa Garraux e José Olympio Editora) e a primeira publicação de Fogo Morto date de 1943. Devíamos ser gratos por estarmos vivos, por não terem nos mandado de volta à África – isso nos dizem por ideogramas, os detratores das ações afirmativas. É, literatura negra é preciso!