Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de ago de 2008

Escola Elisa Lucinda de Poesia Viva e Casa Poema, no Rio de Janeiro

(Boletim Casa Poema nº 01, de 22/08/2008, por Elisa Lucinda). "Olá, meus queridos. As coisas estão, poeticamente, indo muito bem. Como vocês sabem, a Casa Poema acaba de nascer! É linda, como vocês podem ver. Digamos que a Casa Poema seja um país, e cada coisa que nela acontece é um Estado. Assim, nessa patriazinha se pode encontrar cursos livres e workshops de Poesia Falada para profissionais liberais, estudantes de qualquer área, e, especificamente para professores, e cursos de formação humanista para profissionais de Recursos Humanos. Peço atenção especial para o curso para crianças, pois considero a poesia matéria fundamental na educação de um ser humano. São tantas as vantagens, tantas as virtudes que se pode desenvolver, aprender e criar como aluno dela que ainda que eu me esforce o máximo, correrei o risco de não ser fiel ao infinito de sua fertilidade. A saber: aumenta o repertório de palavras; ilumina o vocabulário; promove o domínio da língua; melhora a escrita; aprofunda o entendimento de todo tipo leitura; estimula a memória; é uma excelente porta de entrada para o mundo da literatura; informa sobre conhecimento gerais, uma vez que a poesia é interdisciplinar; desenvolve nossa capacidade de encenação; limpa esse olhar sobre a vida; acorda nossa relação com o nosso próprio corpo e as palavras que traduzem suas emoções; amplia nosso conhecimento sobre o ser humano, e como os poetas acabam por traduzir as aspirações de paz e de amor da humanidade, a atividade da leitura poética e disseminação de seu poder é, por sua origem, uma atividade anti-bélica, uma promotora permanente da paz, que educa eticamente o ser humano, inspira a solidariedade, dá exemplo de sinceridade, honestidade e humildade, uma vez que, seja por êxtase de alegria, por angústia da dúvida, pelo pranto de uma dor, o poeta é um homem que se confessa. E quem não quiser fazer aula de poesia? Bem, pode vir à Casa para assistir os recitais, uma peça de teatro, no nosso Teatro Possível, com 60 lugares, pode pleitear um horário para ensaios do seu projeto ou peça... Mas eu, se fosse você, faria aula de Filosofia com Viviane Mosé, em setembro, aqui. No mais, como estamos nascendo, muita coisa boa ainda está por vir, e as parcerias são benvindas. Já temos um ninhozinho da Casa Poema em Salvador, São Paulo e Jundiaí. A equipe Casa Poema é formada por gente que vale ouro. É gente que deixa a patroa da gente ser a dona Poesia. Bem, não posso mais conversar. Estou indo agora para a Bienal de São Paulo lançar o livro A Poesia do Encontro, feito a quatro mãos com o iluminado e emocionante educador Rubem Alves. Te vejo lá? Beijos, Elisa Lucinda. A Escola Lucinda de Poesia Viva agora tem sede em São Paulo no Teatro da Vila – Rua Jericó, 256 – Vila Madalena. As atividades para as novas turmas começam com workshop de 15 à 19 de setembro; Informações – (11) 96227966 – 4586 3294. A Escola Lucinda de Poesia Viva agora tem sede em Salvador, em parceria com a ONG Cipó. As atividades para as novas turmas começam com workshop de 08 a 12 de setembro; Informações – (71) 8840 9551. E mais, no mês de setembro: Elisa Lucinda em Ilhabela, Caraguatatuba, São Manuel, Piraju, Fartura e Taquarituba".

Estréia documentário sobre o Sarau da Cooperifa

A DGT Filmes e Cine SESC convidam para o lançamento do documentário "POVO LINDO, POVO INTELIGENTE!" - O Sarau da Cooperifa, de Sérgio Galiardi e maurício Falcão. Dia 1 de setembro às 21hs. Após a exibição haverá coquetel com a presença dos poetas da Cooperifa e realizadores do projeto. Entrada franca. O CINE SESC fica à rua Augusta, 2075, Jardins.

29 de ago de 2008

Livros infantis de duas editoras suecas trocam papéis para refletir sociedade mais libertária

(Por: Claudia Varejão Wallin, de Estocolmo para a BBC Brasil). "Duas editoras de livros infantis estão provocando um debate na Suécia com uma série de novas publicações que desafiam os conceitos tradicionais de família e os papéis normalmente atribuídos a meninos e meninas. Nos livros, meninos usam sandálias cor-de-rosa, meninas querem ser bombeiros e cientistas quando crescerem, e papai não é necessariamente quem sai para trabalhar enquanto a mamãe fica em casa cuidando do jantar. "Nosso objetivo é dar às crianças a liberdade de criar sua própria identidade, sem padrões pré-concebidos e sem preconceitos de sexo, raça e sexualidade", disse à BBC Brasil a escritora Karin Salmson, co-fundadora da editora Vilda. Nestas novas coleções infantis, as crianças também podem ter dois pais ou duas mães - casais do mesmo sexo aparecem em vários livros -, ou ser filhos de mães solteiras. "Famílias com pais gays, mães solteiras e crianças adotadas também são famílias normais. Temos várias assim na Suécia, mas esta realidade não está refletida nos livros infantis. Mostrá-las em histórias nas quais o enredo não é simplesmente sobre famílias gays ou mães solteiras demonstra que essas famílias existem, que são normais e que precisam ser aceitas", enfatiza Karin Salmson, que acaba de lançar uma coleção de seis livros infantis. No livro "Magic, Cilla & Baby", de Eva Lundgren, o menino Kasper é ruim de bola e o garoto Olle gosta de maquiagem, enquanto a menina Inger é famosa por seus gols de placa no hóquei e a amiga Ellinor passa os dias tocando guitarra elétrica. Em "Sandaler" ("Sandálias"), o personagem Imannuel é um menino que adora seus sapatos cor-de-rosa. "Queremos quebrar as regras rígidas que determinam o que um menino e uma menina devem ser ou fazer, e ampliar os horizontes da criança", acrescenta a co-fundadora da editora Vilda, que é casada e tem três filhos. A Vilda e outra editora menor, chamada Olika, foram lançadas no ano passado com a meta declarada de promover os valores liberais da Suécia entre a nova geração. A filosofia das editoras reflete em grande parte as atitudes na Suécia, considerado um dos países mais avançados e liberais em questões de igualdade sexual e direitos de minorias. Mas alguns críticos estão questionando os métodos adotados pela Vilda e a Olika. Um dos ilustradores da Olika, Per Gustavsson, criticou publicamente a solicitação da editora para mudar a cor da camiseta de uma menina, que na ilustração original era cor-de-rosa. No jornal Svenska Dagbladet, a crítica literária Lena Kåreland reconheceu que as novas coleções infantis estão despertando interesse, e que livros que questionam os papéis atribuídos aos sexos exercem uma função importante. Mas ela adverte que a ânsia de fazer livros "politicamente corretos" não deve comprometer a qualidade literária. "Simplesmente trocar os papéis e colocar os homens atrás do fogão e mulheres ao volante do carro não significa alcançar mudancas profundas. O risco de contar uma história de caráter moralizante é grande", enfatizou Lena em sua coluna no jornal. A crítica literária do jornal Dagens Nyheter foi mais ácida: "Para estas editoras, os seus valores são sua prioridade principal, e na minha opinião esta é simplesmente uma abordagem errada para fazer bons livros infantis", disse Lotta Olsson. "Se o objetivo de uma história infantil é promover uma idéia e alterar as atitudes e o comportamento das crianças, os lados artístico e literário do livro tendem a sofrer", acrescentou ela. Para Karin Salmson e a co-fundadora da editora Olika, Marie Tomicic, as críticas demonstram um "elitismo cultural" que não reflete a ampla aceitação que os livros estão obtendo entre os pais. "Os críticos falam de qualidade literária como se qualidade fosse algo estático. Mas a qualidade pode ser alcançada de diversas maneiras. Queremos mostrar às crianças que o mundo pode ser muito maior do que elas pensavam", diz Karin Salmson".

28 de ago de 2008

Monografia de conclusão de graduação sobre o Tridente, 1a edição, será apresentada na UNEB – Alagoinhas, BA

Terminei a leitura da monografia de conclusão do curso de Letras, na Universidade do Estado da Bahia, campus Alagoinhas, escrita por Ana Cléa Campos, na qual o Tridente é objeto de reflexão. É um trabalho corajoso, pois a autora se propôs a estabelecer diálogo entre autores e obras muito diferentes, localizados em tempos distintos: Aloísio Azevedo, autor de “O mulato”, de 1881, e eu, autora de “Cada tridente em seu lugar e outras crônicas”, de 2006. A base da comparação é a crítica social percebida por Cléa nas duas obras. Não entrarei no mérito do texto, até porque, o trabalho ainda está em construção e será avaliado pela Universidade. Cabe-me falar sobre o sentimento de alegria abrigado em mim, a partir da iniciativa. No primeiro e único contato pessoal mantido com Ana Cléa, perguntei como chegara ao Tridente. Respondeu-me que fora por indicação de um professor que ouvira a leitura feita por mim, de “A coleção de dicionários de capadura na estante”, em Salvador-2006, durante o “II Encontro de Intelectuais Negros, Africanos e da Diáspora”. Segundo ela, o texto foi detalhadamente apresentado e discutido em sala de aula e, tal foi a identidade de um grupo de estudantes e do próprio professor com a crônica que, quando teve o livro nas mãos pela primeira vez, foi difícil acostumar-se com o título, pois, já o tratava - ao livro - como “A coleção de dicionários de capadura na estante”. O trabalho literário tem me ensinado a relativizar o tempo, assim, estou menos iludida por meu poder de aprisioná-lo em definições. Cautelosa, então, arrisco-me a dizer que tenho a sensação de que o Tridente seguirá como marca importante em minha produção. Existem lá umas perolazinhas que a mim são muito caras, porque rolaram macias na estrada e soltaram faíscas indicando o caminho. Deixo meu agradecimento à Ana Cléa e minha torcida para que seu caminho acadêmico seja virtuoso. (Arte: Iléa Ferraz).

26 de ago de 2008

Para quem souber ler

Cerveja e mulher de graça até as 23:00hs, anunciava o reclame. Show de samba com Dudu Nobre, não era baile funk, como você pensou. Cerveja por um real, a noite toda. Faltou anunciar o preço das mulheres.

Curso de música afro-cubana, em São Paulo

25 de ago de 2008

Joaquim Barbosa: "enganou-se quem esperava um negro submisso no STF"

(Da Folha de São Paulo, por Frederico Vasconcelos)."ENGANARAM-SE os que pensavam que o Supremo Tribunal Federal iria ter um negro submisso, subserviente", diz o ministro Joaquim Barbosa, ao comentar os desentendimentos com alguns de seus pares -como Marco Aurélio, Gilmar Mendes e Eros Grau. Ele atribui os atritos à defesa que faz de "princípios caros à sociedade", como o combate à corrupção. Barbosa entrou em choque com ministros tidos como "liberais" em julgamentos da Operação Anaconda. Ficou conhecido popularmente como relator do inquérito do mensalão e recentemente discutiu com Eros Grau sobre a liberação de um preso da Operação Satiagraha. Joaquim Barbosa nega que seja "encrenqueiro" e diz não se sentir isolado no tribunal, onde "não costuma silenciar quando presencia algo errado". Ele critica, por exemplo, os advogados de "certas elites" que monopolizam a agenda do Judiciário -inclusive no Supremo-, marcando audiências para pedir que seus processos sejam julgados com prioridade, na frente de outros que entraram na Corte há mais tempo. Barbosa recebeu a Folha quarta-feira, em seu gabinete, onde concedeu entrevista em pé, durante cerca de uma hora. Ele sofre de dores crônicas na coluna, incômodo que se agrava quando fica sentado nas cinco sessões semanais na Corte. FOLHA - A mídia o aponta como o ministro que mais se desentende com os colegas. O sr. é uma pessoa de temperamento difícil? JOAQUIM BARBOSA - Engano pensar que sou uma pessoa que tem dificuldade de relacionamento, uma pessoa difícil. Eu sou uma pessoa altiva, independente e que diz tudo que quer. Se enganaram os que pensavam que, com a minha chegada ao Supremo Tribunal Federal, a Corte iria ter um negro submisso. Isso eu não sou e nunca fui desde a mais tenra idade. E tenho certeza de que é isso que desagrada a tanta gente. No Brasil, o que as pessoas esperam de um negro é exatamente esse comportamento subserviente, submisso. Isso eu combato com todas as armas. FOLHA - Gilmar Mendes chegou a dizer que o sr. "tem complexo". A ministra Carmen Lúcia insinuou que haveria um "salto social", com sua evidência no caso do mensalão. Como o sr. recebe esses comentários? BARBOSA - A imprensa se esquece de dizer quais foram as razões pelas quais eu tive certos desentendimentos. Quase sempre foram desentendimentos nos quais eu estava defendendo princípios caros à sociedade brasileira, como o combate à corrupção no próprio Poder Judiciário. Sem aquela briga com o ministro Marco Aurélio, o caso Anaconda não teria condenação e cumprimento de penas pelos réus. FOLHA - No julgamento de uma ação da Anaconda houve o comentário de que o sr. teria "complexo"... BARBOSA - Achei apropriado naquele momento dar uma resposta dura. Falaram que eu sou encrenqueiro. Eu tenho amigos espalhados pelo Brasil e pelo mundo inteiro. São pessoas decentes. E eu não costumo silenciar quando presencio algo de errado, ainda que no âmbito do tribunal ao qual eu pertenço. FOLHA - O sr. se sente isolado no Supremo? BARBOSA - Nem um pouco. Eu tenho meu leque de amizades, que são pessoas que têm afinidades comigo, com aquilo que eu gosto, que não necessariamente coincide com o gosto da maioria do tribunal. Mas tenho boa relação com ministros. FOLHA - Uma crítica recorrente é que o Supremo favorece as elites. Como o sr. vê essa observação? BARBOSA - Eu ainda não amadureci a minha reflexão sobre isso. Mas há uma coisa que me perturba, que me deixa desconfortável aqui no tribunal e na Justiça brasileira como um todo. É o fato de que certas elites, certas categorias monopolizam, sim, a agenda dos tribunais. Isso não quer dizer que eu esteja de acordo com a frase de que o tribunal favorece as elites. Monopolizam a agenda. FOLHA - Como isso ocorre? BARBOSA - Nós temos na Justiça brasileira o sistema de preferência, tido como a coisa mais natural do mundo. O advogado pede audiência, chega aqui e pede uma preferência para julgar o caso dele. O que é essa preferência? Na maioria dos casos, é passar o caso dele na frente de outros que deram entrada no tribunal há mais tempo. Se o juiz não estiver atento a isso, só julgará casos de interesse de certas elites, sim. Quem é recebido nos tribunais pelos juízes são os representantes das classes mais bem situadas. Eu não posso avalizar inteiramente essa frase [de que o Supremo favorece as elites], mas acho que um país em que a Justiça está completamente abarrotada tem que ter atenção muito grande para esse perigo de que a agenda dos tribunais seja monopolizada por certos segmentos sociais. Basta prestar a atenção, durante cada ano, no tempo que o STF gasta julgando questões de interesse corporativo. É enorme. FOLHA - O sr. costuma receber advogados em seu gabinete? BARBOSA - Recebo, mas nenhum advogado, por mais importante que ele seja, monopoliza o meu gabinete [o ministro informa que concedeu 244 audiências, em 2006 e 2007]. FOLHA - Sua decisão de quebrar o sigilo do inquérito do mensalão contribuiu para a abertura do Supremo à sociedade. Quais os aspectos positivos e negativos dessa exposição? BARBOSA - Eu acho que o lado bom é o pedagógico. Aproxima o tribunal da sociedade. Quebra com uma tradição tipicamente brasileira, ainda forte, de o juiz estar distante do cidadão. O tribunal entra nos lares dos brasileiros. As questões importantes da cidadania são debatidas, são absorvidas pelo cidadão. Acho isso muito positivo. O lado negativo disso é que essa superexposição traz uma carga de pressão muito grande em cima do tribunal. Essa hiper-exposição atrai cada vez mais demandas para o Supremo. Uma tendência natural de outros poderes e de segmentos da sociedade é pensar que tudo pode ser resolvido no Supremo. Não é tão fácil assim vir até o Supremo, e é extremamente caro. FOLHA - Diante das decisões recentes do tribunal, alguns juízes dizem que o Supremo está se distanciando da sociedade, do mundo real. BARBOSA - Teoricamente, acho que isso possa existir. Não quero falar sobre decisões. Em tese, o juiz não pode se desgrudar da sociedade. Ele não pode desprezar os valores mais caros da sociedade na qual opera. Seria suprema arrogância -e isso eu noto em alguns juízes brasileiros- achar que não interessa o que a sociedade pensa sobre determinadas decisões. O juiz é fruto do seu meio. Seria o supra-sumo da arrogância entender que o juiz poderia ter uma escala de valores que não leve em conta o sentimento da sociedade sobre questões que lhe são trazidas para decidir. Em um sistema judiciário que não leva em consideração o sentimento da sociedade sobre determinadas questões, a tendência é ele perder credibilidade e se transformar em monstrengo inútil, do ponto de vista institucional, a médio ou longo prazo. FOLHA - O Supremo carece de especialistas em direito penal? BARBOSA - Eu discordo. O Supremo não precisa de especialistas em direito penal. É verdade que na atual composição não há especialistas em direito penal. Mas uma pessoa com uma boa formação em direito público, com uma boa formação humanística, uma boa visão de mundo, que não seja paroquial, é isso que se espera do membro de uma Corte Suprema e não uma especialização exacerbada nesta ou naquela matéria. O que se espera é, sobretudo, prudência. Uma clara visão da sociedade. FOLHA - Quantos membros do Supremo já interrogaram réus? BARBOSA - Isso é irrelevante. Eu presido quatro grandes processos criminais, jamais vistos na história do tribunal. Eu não vou interrogar ninguém. Eu delego. Eu não preciso interrogar. A lei me dá esse poder. Não é uma corte para resolver questões pontuais. É um tribunal que julga casos com profunda repercussão na sociedade. Aqui não se cuida do varejo. Já interroguei réus. Fui procurador da República por 19 anos. Minha especialização é direito público, mas isso é bobagem, não tem a menor relevância. FOLHA - Em que medida o foro privilegiado dificulta uma avaliação mais precisa do Supremo? BARBOSA - Eu acho o foro privilegiado nefasto. O foro privilegiado e outras medidas são processos de racionalização da impunidade. Já disse e repito. FOLHA - O Supremo é mais rigoroso para receber denúncias de crimes de colarinho branco? BARBOSA - O Supremo é bem mais rigoroso em matéria penal em geral. O tribunal tem a tradição de mais rigor, nesses últimos anos. Vejamos o caso do mensalão. Com a importância do STF, com o número de causas e problemas seríssimos que tem para resolver, é racional que o tribunal gaste cinco dias inteiros só para julgar o recebimento de uma denúncia? Com todas as dificuldades que o Brasil inteiro assistiu ao vivo? O recebimento de uma denúncia como aquela, no primeiro grau, seria um despacho de duas páginas.

23 de ago de 2008

Um pouco do novo romance de Fátima Oliveira

A Mazza Edições e Fátima Oliveira receberão pessoas amigas, amantes da literatura e a imprensa, na celebração por mais um romance da autora, dia 25 de agosto, às 19:00, no aconchego do restaurante Cozinha de Minas (Rua Gonçalves Dia, 45 - Funcionários - Belo Horizonte - MG) Mais informações: Mazza Edições www.mazzaedicoes.com.br edmazza@hotmail.com ou edmazza@uai.com.br Fone/fax: (55-31) 3481-0591. "Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras conta uma história de amor. De Cacá e Pablo. E nela, muitas outras histórias de amor serão desvendadas, tendo como lastro a vida da Tia Lali, uma carpideira sertaneja que, nas palavras de Cacá, foi “uma das mulheres mais interessantes que conheci em minha vida. Negra, pobre e solteirona por opção, tia Lali não foi enterrada, foi plantada. E a força de sua fé fertilizará este chão”. Através do amor de Cacá e Pablo, vislumbraremos a história de inúmeras mulheres anônimas que, desde tempos imemoriais, têm como missão reverenciar os mortos, por meio de louvores dos cantos chamados de incelências (orações cantadas nas sentinelas) no sertão brasileiro. Longe de serem beatas encurvadas pelo peso da idéia do pecado, são mulheres por inteiro. Livres. Ouça uma das personagens do livro, a carpideira Socorrinha: “Mas não pense que a mulherzada vive assim sem um consolo. Não pode! Ninguém agüenta. A carne pede. Ou tem um homem que todo mundo sabe, ou tem um homem ou uma mulher incubada. Sem responder ao que o corpo pede, é que não se fica. Isso eu te garanto. Carinho faz parte da vida”. A palavra carpideira é derivada do verbo carpir, do latim carpere (arrancar cabelos e barbas em sinal de dor). As carpideiras portam o dom de carpir, presente na cultura de diferentes povos, em todo o mundo, pois carpir é um ritual antiqüíssimo de encomendar o corpo de quem morreu para que sua alma ascenda aos céus. É um rito de passagem do mundo terreno para a eternidade. Não é encenação e nem choro falso. Ser carpideira é um dom, o de chorar e de cantar incelências para encomendar almas para o outro mundo, pois a morte para as carpideiras também integra a visão filosófica de que, sendo a vida uma travessia, a morte também é parte da travessia, já que viver é sempre um estar indo"... “Orelhas” do livro Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras, pela autora: "Eu sou uma eterna apaixonada pelo sertão. Em Grande Sertão: Veredas, obra magistral de Guimarães Rosa, há uma chave simbólica que nos impregna da realidade de que o Brasil são muitos e as disparidades regionais em muito definem o cotidiano feminino, já que, para ele, o sertão é “ora é particular, pequeno e próximo; ora universal e infinito, pois o sertão é o mundo”. Ou, melhor ainda, “o sertão é dentro da gente”. A minha paixão pelo sertão permite que o sertão viva em mim. E eu o carrego, sempre. Onde estou, está o sertão. Nascida no médio sertão maranhense, em Graça Aranha – em sua origem Baixão dos Priquitos (periquitos?), que à época em que nasci (1953) se chamava Palestina, povoado do município de São Domingos do Maranhão – Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras, de algum modo, é uma ode ao sertão, pois é ambientado em Grotões dos Bezerras – cidade imaginária, que pode ser qualquer lugar no sertão –, com sua gente simples, seus sistemas de moralidades, baseados na lei da reciprocidade; suas parteiras; suas fés que se agigantam no romance, provocando alumbramento por intermédio das benzedeiras, rezadeiras, tiradeiras de benditos e de ladainha em latim, e também cantadeiras de incelências; e suas festas memoráveis, nas quais a comida faz parte dos rituais festivos. Sem falar que a “comida do sertão” encerra um patrimônio cultural de valor incomensurável, com suas receitas seculares, as do cotidiano e as de festas – as chamadas refeições fidalgas, de banquetes. Ao contar a história do amor de Cacá e Pablo, sinto que “tirei” um bendito, cantei uma incelência, enfim imaginei uma deferência às “mulheres rosianas” do mundo – mulheres sábias que reconhecem os meandros das “neblinas de Siruiz” e nos mostram que o direito de decidir sobre o próprio corpo, como um direito democrático, e o direito ao prazer são inerentes à natureza, à cotidianidade e à intimidade das mulheres, desde sempre. “Se alembre”, isto é o sertão! Saiba: no sertão é assim. A minha paixão pelo sertão, esse “desertão” que vive em meu peito, que conforta e acaricia o meu viver – que, no dizer de rosiólogos, “é uma paisagem mental. É o pensamento sobre o Brasil. O sertão é aquela região selvagem onde se formam as nossas idéias” –, pariu Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras". Fátima Oliveira, médica, feminista, escreve uma coluna semanal no Jornal O Tempo (Belo Horizonte, MG), desde 3 de abril de 2002. É autora das seguintes obras: Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995, atualizada em 2004); Bioética: uma face da cidadania (Moderna, 1997, atualizada em 2004); Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza Edições, 1998); Transgênicos: o direito de saber e a liberdade de escolher (Mazza Edições, 2000); O estado da arte da Reprodução Humana Assistida em 2002 e Clonagem e manipulação genética humana: mitos, realidade, perspectivas e delírios (CNDM/MJ, 2002); Saúde da população Negra, Brasil 2001 (OMS-OPS, 2002); e do romance A hora do Angelus (Mazza Edições, 2005)".

Curso História e Cultura Africanas, em Saõ Paulo

Edições Toró

(Convite da Edições Toró) "Salve, Povo. Licença. Na instiga e afins de reflexões e estéticas fertilizantes, com a satisfação salgada de suor, Edições Toró se manifesta e convida pra colar com nossas presenças em vídeo e rádio, em livro, versação e debate. Quilombolas letras riscadas nos tropicões dos ônibus e nos giros da África paulistana. Doces sonhos de revide necessário, trançando estrelas milenares e estórias urgentes. Vem brasear com a gente na partilha de encher mais essa laje e morar na intenção que agasalha, na intuição que se espalha. Quais são as ervas que a gente pode colher no quintal da literatura? Pra ontem e pra depois de amanhã? Qual que é a calma, o dendê, o raio que se desata com a leitura e a escrita? Pra que literatura das beiras? Pra que existir na saúde e no 220 das páginas e recitais? Vem com nóis que a gente tá longe de descobrir, mas tá tentando. Com a palavra, peça nossa da alma, elementar. Com seus labirintos, chamegos, varandas e crenças. Invadindo sossegados sonhos de academia e gabinete, desempelotando esse mingau há tanto tempo servido na Casa Grande, mas atiçado, mulecado e chorado em volta de nossas fogueiras. Salve a guerrerage de bom coração, ligeira, criança e engenheira. Salve, salve. Chega com a gente". CINEMA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS-METRAGENS DE SÃO PAULO “Vaguei os livros, me sujei com a merda toda” – de Akins Kinte, Mateus Subverso e Allan da Rosa Aborda os estereótipos e a ausência gritante de autores e personagens negros na literatura, que fomentam no estudante preto profundo desgosto pelos livros; Toca a escrita de matriz afro, brasileira e mundial; O HipHop e sua trança com as páginas pretas paulistanas; A atual literatura da ladeira, que na ginga e frutifica pelas periferias de São Paulo hoje. Sessão Carta 3, acompanhado de “Panteras Negras”(1968), de Agnes Varda. *Sábado 23/08 - 22h, no Cine Unibanco Arteplex, sala 5. R. Frei Caneca, 569, 3º piso, Cerqueira César. * Segunda 25/08 - 22h, na Cinemateca (sessão especial + apresentação do recital “ Versos Pretos: poesia, berimbau e pandeiro”). Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, próximo ao metrô Vila Mariana. * Terça 26/08 - 17h – no Cine Olido. Av. São João, 473 - Centro. * Quarta 27/08 - 11h – na FAAP (sessão especial + debate). Rua Alagoas, 903 - Higienópolis. --------------- LIVROS – BIENAL DO LIVRO/ANHEMBI * Sábado 23/08, às 13 horas: Debate no Salão de Idéias, com Sérgio Vaz, Alessandro Buzo, Allan da Rosa e Sacolinha. Mediação do jornalista Chico Pìnheiro. -às 16 horas: Lançamento de “Da Cabula”-(dramaturgia), no estande da Global Editora -às 19 horas: Lançamento de “Zagaia”-(infanto-juvenil), no estande da Editora DCL -------------------- RÁDIO Programa “Nas Ruas da Literatura”. Rádio USP FM - freqüência 93,7 Todos os sábados e domingos, das 11hs às 12hs (antes do clássico “O samba pede passagem”, de Moisés da Rocha), de agosto a outubro/2006.. Pesquisa musical, produção e edição: Mateus Subverso Pesquisa histórica e literária, roteiro, locução e versação: Allan da Rosa. Participações especialíssimas: Elis e Maria Tereza. Série ganhadora do PAC/2006 da Secretaria Estadual de Cultura de SP. Prêmio “Programas de áudio para promoção da literatura”. Traz biografias, poesia e prosa de 24 escritores africanos, sul-americanos, antilhanos, mais autores negros e nordestinos do Brasil. Os textos caminham pela fronteira entre a escrita e a oralidade, mesclados a ritmos e melodias, instrumentos e harmonias, próprias de seus países, regiões e quebradas. Destacam-se dois programas que não abordam autores, mas estórias ancestrais comunitárias: “Contos populares de Angola” e “Mitos indígenas de criação do mundo”. * 30/08 - Plínio Marcos e Gioconda Belli (Nicarágua). * 31/08 - Carolina de Jesus e Mia Couto (Moçambique). * 06/09 - Patativa do Assaré e Ana Paula Tavares (Angola). * 07/09 - Mário Benedetti (Uruguai) e Mitos indígenas de criação do mundo. * 13/09 - Solano Trindade e Contos populares de Angola. * 14/09 - Noêmia de Souza (Moçambique) e Eduardo Galeano (Uruguai).

22 de ago de 2008

Dias anônimos (texto inédito)

Fui assistir a uma leitura dramática e mudaram o programa, o show musical do encerramento aconteceu primeiro, para evitar o esvaziamento da platéia. Bom instrumentista, o músico cantou uns sambas de própria lavra, letras racialmente afirmadas, politicamente conscientes, mas sem a poesia apresentada por despretensiosos sambinhas de amor ou dor-de-cotovelo, dos quais, talvez, ele seja crítico. Lutar com palavras é a luta mais vã, nos alertara Drummond. Encontro uma de minhas mestras no teatro, a quem entrego um exemplar do Tambor. Atenta, examina a capa, as imagens, o tipo de letras do título, lê dois contos e faz várias críticas, todas fundamentadas e quando tento explicar uma escolha, apenas uma, ela me interrompe: “sem retórica, por favor”. Ela faz aquelas abordagens cirúrgicas, na jugular, sem anestesia. Sinto mesmo que lutar com palavras é a luta mais vã, mas me alegro, foram críticas de quem acredita no potencial de amadurecimento da pessoa criticada e refuta, a ferro e fogo, a condescendência. Queria comentar muitas coisas, mas meu tempo anda sem tempo, meu coração premido pelo juízo e os dias vividos sem a infinitude daqueles plenos de amor, não deixam marca ou lembrança. São dias anônimos de Maria ninguém, vividos pela obrigação de viver. Das Olimpíadas não dou notícia como torcedora, apenas observo alguns resultados. Poderia até dizer que não acompanho as competições em solidariedade ao Dalai Lama, ao povo do Tibet, não seria totalmente verdadeiro, tampouco cem por cento mentiroso. O que pega mesmo é a falta de tempo. Mas vi que três jamaicanas subiram ao pódio nos cem metros rasos, uma em primeiro e duas em segundo lugar, empatadas, foi lindo. Dois etíopes ganharam os duzentos metros - se prestei atenção à modalidade -, ouro e prata. O Brasil passou pela China na semi do vôlei feminino, mas as cubanas caíram frente aos Estados Unidos, assim, perdemos a chance de ouvir a Virna incentivando as brasileiras no hipotético jogo decisivo, agora das arquibancadas ou como comentarista, “vamos gente, vamos acabar com essas nega”. O que mais sobre as Olimpíadas 2008? Ah, o tratamento dado a Ketllyn Quadros, a judoca negra brasiliense que ao surpreender o mundo do esporte pela superação de adversárias muito fortes, ganhar uma medalha de bronze e não chorar no tatame ou ao recebê-la, foi apelidada de “a mulher de gelo”. Intrigante! Muitos atletas choram quando premiados, outros tantos, não, e isso não significa que sejam mais ou menos humanos. Constrangedoras foram as explicações exigidas dela para a secura de lágrimas. Pressionada, a pobre chegou a dizer que “estava feliz, mas não sabia demonstrar”. E aquele sorriso lindo, aquele brilho nos olhos, diziam o quê? O Thiago Pereira não chorou quando ganhou aquela profusão de medalhas no PAN de 2007, e olha que foram umas cinco ou seis, e não vi ninguém perguntando a ele por que não chorava, mesmo que PAN seja PAN e Olimpíada seja Olimpíada. Minha bola de cristal pode estar embaçada, mas vejo no horizonte a velha lenga-lenga sub-reptícia de que Ketllyn deveria chorar, porque deve ter passado por inúmeras dificuldades para chegar até ali e blá-blá-blá... é a exceção, não foi talhada para vencer e venceu, superando “dificuldades atávicas”. Thiagos, Hipólitos, Cielos e Schidts foram talhados para a vitória, podem chorar ou não, galantear a namorada com a medalha, ou ter qualquer outra reação. Vindo deles, tudo é aceitável e admirável como expressão de humanidade. Ednanci, minha judoca favorita, não ganhou medalha e fiquei triste. Jadel Gregório também não. Aliás, alguém precisa avisar aos comentaristas brasileiros que o Jadel se islamizou, há quase dez anos, desde então, o antigo Jardel mudou o nome para Jadel. Entretanto, insistem em chamá-lo pelo nome antigo, numa negação flagrante de quem Jadel é. Por fim, assisti o segundo tempo e a prorrogação do jogo decisivo do futebol feminino. Bravas canarinhas! Lembrei-me da Seleção de 82 e porquê já gostei tanto de futebol.

19 de ago de 2008

Entrevista da Cidinha

(Entrevista concedida à estudante de Letras, Ana Cléa Campos, da UNEB-Alagoinhas, BA) Cidinha, fale um pouco da sua obra “Cada tridente em seu lugar e outras crônicas”, como se deu a construção e a seleção de crônicas para a mesma! Cidinha:Durante o segundo semestre de 2005 escrevi regularmente para um boletim eletrônico. Eu gostava muito do que escrevia e os(as) leitores(as) também. No final daquele ano, achei que tinha um volume de trabalho desafiador para publicar um livro. Durante os meses de janeiro a março de 2006, enxuguei os textos já prontos e escrevi novos. Depois, organizei-os como livro, mas só tive certeza da publicação, quando apresentei o conjunto de histórias curtas ao amigo e escritor Marcelino Freire, que, entre uma viagem e outra e suas dezenas de afazeres literários, teve a generosidade de lê-las e fez o seguinte comentário: “pode publicar, você tem texto”. Marcelino sugeriu que eu cortasse várias crônicas, por diferentes motivos: ora não estavam suficientemente trabalhadas, ora eram datadas, noutros momentos eram ruins mesmo. Acatei a todas as sugestões de cortes e também uma certa edição nos textos que permaneceram. Mudei também o título, por sugestão do Marcelino, posso dizer mesmo, que ele batizou o livro. Editar o Tridente de maneira independente, sem uma editora à frente foi muito importante, pois tive contato com cada etapa da produção de um livro, começando pela escritura propriamente, passando pelos diversos tipos e momentos de revisão, por todo o processo gráfico e também pela parte de registro da obra. Isso tudo me possibilitou o domínio do processo de construção do objeto-livro, com todas as escolhas e resultados decorrentes. Muito importante também foi aprender quanto custa produzir um objeto-livro. Nestes tempos em que as editoras oferecem “parceria” aos autores e autoras, o que significa dizer, propõem que estes(as) arquem com “parte” dos custos de edição, é fundamental saber o custo final de um livro. Logo de início pude perceber que a maioria das editoras que adota este tipo de procedimento, na verdade, tira todos os custos do trabalho gráfico da tal “parte” custeada pelo(a) escritor(a), que, por desconhecimento dos números, não sabe o quanto está pagando. O Tridente é dividido em três partes, cada uma com dez textos e isto também foi sugestão do Marcelino para ratificarmos o título do livro. As crônicas são transversalizadas por quatro temas centrais: relações raciais e de gênero, religiosidade de matriz africana e sexualidade. No meu segundo livro “Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!”, os temas predominantes são gênero e sexualidade e, nos dois casos, os temas regeram a organização das obras. Nos próximos livros de histórias curtas quero trabalhar de maneira diferente, quero escrever apenas, soltar a pena e criar, os temas, serão todos aqueles que me forem caros, entretanto, não pretendo que orientem minha escritura. Em alguns estabelecimentos de ensino e por alguns leitores sua obra é considerada como literatura marginal, me fale o que você pensa sobre essa classificação. Você concorda? Cidinha: O cânone literário, os(as) analistas e leitores(as) têm o direito de classificar minha obra como quiserem, de acordo com os parâmetros orientadores do seu campo de análise, nesse sentido, podem classificar minha produção como literatura marginal, mas isto não ecoa em mim. Eu não sou, não me considero, nem me intitulo, uma escritora marginal, tampouco escrevo literatura marginal. Explico: há pelo menos dois sentidos correntes de literatura marginal, um, estabelecido pelo cânone, que considera marginal toda a literatura que os estudos culturais tão bem têm retratado, ou seja, aquela produzida por mulheres, gays, lésbicas, indígenas, moradores de periferias, negros, outros grupos raciais e étnicos, etc, etc, etc... Este repertório canônico não me traduz e produz uma limitação a um certo lugar, um emparedamento na margem, numa livre interpretação de Cruz e Souza. Eu aspiro os rizomas de Delleuze-Guatarri, não caibo na margem, ela é muito pequena pra mim. Outro sentido significativo de literatura marginal tem sido construído pelos guerreiros e guerreiras da literatura periférica brasileira, que escrevem a partir das periferias das grandes cidades do país e afirmam, num exercício amazônico de ressignificação poética, que "escrevem literatura marginal porque estão às margens da cidade”. A meu juízo, a literatura marginal ou periférica inaugurada no Brasil por “Cidade de Deus”, de Paulo Lins e “Capão pecado”, do Ferréz, mais especificamente por este e pelas pessoas às quais inspirou, fala de um lugar geo-político-afetivo. É um jeito de morar, viver e produzir literatura na favela e nas periferias, para a favela e com a favela, usando as armas do amor e a flecha-caneta na guerra pela palavra. O lugar geográfico periferia é de suma importância para que os integrantes da literatura marginal ou periférica emitam sua voz. Ali tudo começa, a partir dali tudo se desenvolve. Eu não moro na periferia, não tenho meu coração plantado nesse lugar político, transito por lá, vou buscar perfume e deixar minhas flores, mas emito minha voz de outro lugar, do lugar de uma escritora negra, atenta a todos os lugares (reais e simbólicos) pelos quais as pessoas negras transitam, periféricos ou não. Minha literatura pretende alcançar todo mundo, não quer falar (apenas) “de dentro pra dentro”, tampouco aceita o emparedamento da margem para se auto-definir. Eu me identifico com a literatura periférica, respeito e admiro, mas não a integro. Acompanho, sou solidária e bem recebida, os escritores e escritoras marginais ou periféricos demonstram respeito por meu trabalho e o acolhem, estamos juntos, mas temos diferentes perspectivas e jeitos de circular pelo mundo literário. Fale um pouco sobre você, quem é Cidinha da Silva? Cidinha:Sou mineira, de Belo Horizonte, a primeira bisneta, neta e filha do meu tronco materno, o que definiu quase tudo na minha vida. Já li muita poesia e hoje releio um pouco do que li antes e leio o que ainda não li dos autores que gosto. Tenho pouca paciência com o pessoal que acha que escrever poemas é fácil e por isso se dedica ao gênero. Acho dificílimo, acho que poesia exige apuro não só de linguagem, mas sentidos finos para perceber e apresentar o mundo, mais do que o tal sentimento aos borbotões que inunda resmas de papel e telas por aí. Estou me constituindo como prosadora e cada vez mais, acho que a poesia é fundamental em tudo. A segunda edição de seu livro foi publicada por qual motivo? E as mudanças estabelecidas, quais foram as razões? Cidinha:Até a publicação da primeira edição do Tridente, eu caracterizava tudo que estava ali escrito como crônica, talvez por não ter uma definição precisa do que era um conto, ou provavelmente por não ter a fluidez necessária para compreendê-lo em sua promiscuidade fronteiriça. À medida que as pessoas foram lendo e avaliando o trabalho, chegaram vários comentários, principalmente vindos de escritores(as) e gente ligada à literatura, mencionando meus contos. A surpresa do princípio foi se transformando em incômodo, pois, como é que eu havia escrito contos e os chamava de crônica? Embora Mário de Andrade tenha dito que o texto é aquilo que o autor quiser que ele seja - é o autor quem define o gênero da própria produção -, eu me sentia muito desconfortável. Fato é que eu não estava mais segura de que tudo aquilo era “só” crônica mesmo. Concomitantemente, o livro tinha uma saída muito boa, vendia bem e ainda outros fatores propugnaram a 2a edição. Um deles foi a seleção do Tridente para compor o kit-étnico-racial de livros da Secretaria de Educação da Prefeitura de Belo Horizonte, 2007. Isso esgotaria os exemplares restantes e ainda havia muitos lugares aguardando o lançamento do livro. A editora Maria Mazarello, da Mazza Edições, havia me convidado meses antes para escrever para uma série de literatura infantil da editora. Redimensionei o convite e propus a ela a feitura da segunda edição revisada do Tridente, ela aceitou e nesta nova edição, resolvi todas as minhas insatisfações com a primeira. A começar pelo título, do qual saiu a expressão “e outras crônicas”, porque àquela altura, eu mesma estava convencida de que ali havia também contos. Cortei oito textos que já haviam cumprido seu papel e que, juntamente com o acréscimo de três outros, deixaram o livro mais redondo. Acrescentei uma capa belíssima, desenhada pela amiga e artista plástica de Brasília, Lia Maria, e um prefácio crítico do Mestre e amigo, Edimilson de Almeida Pereira. Além disso, produzi um encarte com sugestões de atividades pedagógicas para cada texto, visando aprofundar o diálogo com o significativo número de educadores(as) que já trabalhava com a obra. Cumpre-me dizer que a compra do Tridente pela Prefeitura de Belo Horizonte não se efetivou, infelizmente, porque a distribuidora responsável pela venda perdeu o dia do pregão. A despeito disso, a primeira edição esgotou-se rapidamente e após dez meses de lançamento fizemos a segunda edição. O que você me diz sobre o incentivo aos novos escritores brasileiros? Cidinha: Trata-se de tema tão complexo, escolherei apenas três aspectos para tratar superficialmente aqui, quer sejam: os concursos de literatura, as editoras periféricas independentes e os blogues literários, enquanto incentivadores da produção e participação de um certo grupo de escritores(as) que a mim interessa mais de perto, os(as) escritores(as) negros(as). Quando observamos o número de pessoas e trabalhos inscritos em concursos literários, nos damos conta do quanto se escreve no Brasil, bem como da quantidade amazônica de autores(as) em busca de publicação/divulgação/reconhecimento do próprio trabalho literário. E trata-se de valorização buscada em um meio muito criticado, os concursos, aos quais se acusa, por exemplo, de serem viciados. Particularmente, costumo mensurar a qualidade do concurso pelo júri, que diz muito sobre o tipo de escritura que terá vez. Críticos mais ácidos e mais acadêmicos chegam a dizer que os concursos premiam a mediocridade. Se considerarmos este ponto de vista, nem valeria a pena participar deles. A participação de escritores(as) negros(as) sob qualquer das perspectivas citadas é muito pequena e afirmo isto a partir de conversas informais e da observação de alguns concursos, por exemplo, o Portugal-Telecon 2008, do qual integrei o corpo de jurados da primeira etapa seletiva. É um concurso bem interessante, no qual todas as fases são públicas e podem ser acompanhadas pela Internet, dos livros inscritos aos nomes do júri. A regra básica é que os livros concorrentes tenham sido publicados em 1a edição no ano anterior, em língua portuguesa e também tenham o registro internacional de publicação, o ISBN. No caso brasileiro este registro é feito pela Biblioteca Nacional. Tenho diversos amigos e conhecidos negros, autores e autoras de livros de literatura publicados em 2007, em tese, aptos a se inscrever, mas não o fizeram. Como justificativa, alguns(as) acusam a inexistência de espaço nesses concursos para a “nossa literatura”, outros esperam que as editoras se movam e os inscreva - acreditam que autor deva escrever, apenas, outras tarefas seriam menores e caberiam à editora -, outros desprezam os concursos, outros, integrantes das editoras independentes, por exemplo, mesmo que quisessem, não poderiam se inscrever, porque, por sua vez, desprezam o “tal ISBN” e não fazem o registro. Assim, seguimos invisibilizados(as) em mais esse espaço literário, por motivos que também são nossos e, arrisco dizer que os concursos literários não têm atuado como incentivadores da maioria dos novos escritores e escritoras negros. As editoras periféricas independentes, a seu turno, têm se constituído em espaços importantes de uma produção literária inovadora, protagonizada por jovens autoras e autores negros, ainda que o pertencimento racial não esteja no centro do discurso literário e político da maior parte desse grupo. Entretanto, destacam-se pelo menos duas características singulares nestes novos escritores e escritoras, quer sejam: uma salutar diversificação de gêneros publicados que passa pelas histórias curtas, poesia, dramaturgia e também romance, aliado à publicação de obras individuais, rompendo com uma prática bastante comum das escritoras e escritores negros dos anos 80 e 90, de publicarem em coletâneas. Opta-se por este tipo de arranjo coletivo devido à falta de oportunidade de publicação de obras individuais, por uma estratégia de diminuição de custos e, ou, por exercício do senso de oportunidade, pois, várias dessas coletâneas foram organizadas e editadas por pesquisadores brasilianistas fora do Brasil. Fato é que esse grupo de novas escritoras e escritores negros, regidos pela batuta da literatura periférica, tem a ousadia de publicar livros individuais, feitos na periferia e com o objetivo maior de formar público na periferia, tanto para a própria literatura, quanto para a literatura em geral. Por fim, um breve comentário sobre a constituição de blogues literários com fator de incentivo e, ou, consolidação do trabalho literário de novas escritoras e escritores negros. Observo raríssimos blogues desses(as) autores(as) na blogosfera e os motivos podem variar da falta de domínio das ferramentas tecnológicas a um juízo de valor negativo da ferramenta, tendo no entremeio amplas possibilidades explicativas, às quais não saberia abordar agora. Particularmente, acredito e invisto no blogue com um instrumento de divulgação do meu trabalho literário, bem como de uma perspectiva de ARTIVISMO que me é cara, também de ampliação e consolidação de um público específico via Web. Nos meus estudos faço uma comparação da sua obra com a obra “O mulato” de Aluízio de Azevedo, você conhece o romance? O que você me diz dessa obra? E você discorda ou concorda do estilo e linha de expressão sobre o preconceito racial e social de um modo geral expresso e debatido por Aluísio de Azevedo? Cidinha: Eu conhecia o autor e o livro, mas não o havia lido, li agora, para responder a esta questão. Trata-se de um romance datado, não é? Pareceu-me que o autor é mais incisivo ao fotografar outros aspectos das relações sociais hierárquicas, abusivas e autoritárias, de uma sociedade escravocrata em franca deterioração, do que no detalhamento das relações raciais nesta sociedade. Os abusos perpetrados pela Igreja Católica e pelos poderosos, os vícios de uma província colonizada e atrasada, são mais bem explorados do que o dilema racial, por exemplo. Raimundo sempre fora tratado como negro, desde os apelidos recebidos em Lisbôa, mas ainda assim, sequer intuía (estando no seio de sociedades escravocratas, a lisboeta e depois a carioca e a ludovicense) sua ascendência negra. É algo surreal. Um descendente de negro naquele contexto podia negar e camuflar de todas as formas a própria ascendência africana, mas não haveria como não percebê-la, face a tal tez fortemente morena e os cabelos crespos, descritos pelo próprio autor do realismo-naturalismo, para não falar nos aspectos subjetivos . A obra tem os méritos de ter sido escrita por um jovem de vinte e poucos anos, crítico social perspicaz; por ter inaugurado um campo de escritura e por ter se insurgido contra uma mentalidade colonizada, ainda que idealizasse a européia, ao sugerir que lá, Raimundo se fez um homem feliz e respeitado. Na leitura da sua obra foi possível observar seu respeito aos mais experientes e seu conhecimento de meandro sobre respeito religioso, e a sua preocupação com a cultura e hábitos da sociedade de um modo geral. Fale sobre sua religião e o seu respeito com a mesma, não esquecendo de se posicionar sobre a diversidade religiosa do Brasil e a importância de saber conviver com essa variedade! Cidinha: Prezo muito na minha obra, o espaço estruturante dado aos valores de matriz africana, que podem ser notados explicitamente nos textos ou em certos detalhes, postos ali para serem percebidos por quem os olha com olhos de ver. No cenário da literatura contemporânea, há vários autores e autoras que têm a memória como principal referência de escritura, não é o meu caso. Até o momento, nos dois livros que publiquei, vinha observando muito o cotidiano e deste exercício surgiu a maioria dos meus textos. Não sei se continuarei assim, principalmente se vier a investir na criação de textos mais longos, a ver nas próximas publicações. Quanto à religiosidade, as religiões de matriz africana pautam-se pela pluralidade, pelo respeito a outras manifestações religiosas e, minimamente, exigem o mesmo respeito que dispensam às outras.

18 de ago de 2008

Manifesto da voz coletiva - sarau da ColetiVoz

(Por: Rogério Coelho, também na foto) "A palavra "Manifesto" aqui, não sei se pelo respeito, ou se pelo diálogo possível com os assuntos de mesmo gênero, tão transformadores deste e de outros séculos, representa, antes de mais nada, uma defesa. A defesa de um patrimônio. Em primeiro lugar, defesa da língua, nosso português-brasileiro, como patrimônio cultural; como patrimônio identitário; como patrimônio do povo brasileiro. E depois, e não menos importante, a defesa do direito à voz. A voz como um conjunto de valores, que se estreitam no poder da fala. A voz como agente transformador da sociedade contemporânea; como único meio capaz de dialogar com qualquer discurso hegemônico, como bem nos mostra o nosso grande sábio eiluminado guru de todos os tempos Milton Santos brasileiro. E aqui, não poderíamos deixar de dizer que esta voz emerge de um único lugar: da grande periferia das cidades brasileiras. A produção cultural multifacetada, pluralizada, híbrida, diversa, marginal, que está, cada vez mais, a olhar orgulhosa nos olhos de qualquer outra produção que se diga superior. Tão versátil é o manifesto, que sua defesa é desenfreada: seja pela beleza ou pela desigualdade; pela riqueza ou pela humanidade; pela pobreza ou pela dignidade. Podemos perceber o equívoco da relação entre esses elementos, que deveriam ter apenas a função de definir parâmetros: altos e baixos; grande e pequeno, etc. Porém, aprendendo a ressignificar todos eles, sob o conglomerado de vozes de que se faz/refaz a periferia, desnudamos o sentido óbvio das relações. O que nos permite pensar em uma escala diferente de valores, desvirtuando o compromisso, e possibilitando o fato de dada riqueza estar sob o extremo oposto da humanidade. É assim mesmo, de modo dúbio, imbricado, conturbado, entrelaçado, transculturado é que se estabelecem as relações desse coletivo periférico; dessa voz coletiva. E talvez, por isso mesmo, é que nos concentramos, com o grafite, com o rap, com a poesia, com a literatura periférica/marginal, na função de desestruturar, desestabelecer, desprivatizar, destituir, desarticular, para conseguirmos desbravar, descobrir, desodiar, despirocar e desvairar num gozar coletivo. Há uma urgência absurda de que esse gozo aconteça. De que surjam, mais e mais, o que tomo a liberdade de chamar de "instituições de vozes marginais": duelo de Rappers, eventos culturais e saraus sobre/nas periferias, a memorável Cooperifa, porta-voz de longa data, entre outros. O sarau da Coletivoz é mais um grito, que deseja união desses movimentos contra o silêncio de exclusão. A Coletivoz, que no híbrido da voz do coletivo, também revela a pretensão dos coletivos, dos grupos e guetos, que têm necessidade de escancarar toda a sua complex(c)idade, e toda denúncia contra o descaso do poder público, de um sistema maior, em relação à margem. Assim, na Coletivoz, o ato maior é o poder da palavra, aquela que impera no momento final. Nua e crua, a palavra é o verbo e o prato de comida; é o beijo doce e o choro de desespero; é o repente macio e o Rap de repente; ora a cor, ora o som estridente; de dia a mão, à noite o colo. Pois, é a palavra, com toda sua incapacidade de conclusão; com toda sua incompletude, é que coloca a todos nós na condição mais digna do ser humano: como seres inacabados que somos. À luta, à voz". http://coletivoz.blogspot.com/ ONDE: BAR DO ZÉ HERCULANO. AV.Carmelita Coelho da Rocha, 158 (esquina com Rua Carminha Guimarães). Bairro Independência - Belo Horizonte (região do Barreiro). De ônibus: Na estação do Barreiro, pegar o 330 A, e descer no segundo ponto depois a Escola Estadual Domingas Mª de Almeida. De carro: Vindo pelo anel Rodoviário, em direção ao Betânia, entrar na Via do Minério e seguir até a Av. Senador Levindo coelho, e seguir até o final, no Bairro Independência (igreja São joão Batista). Pontos de referência: E.E. Domingas Maria de Alameida, Supermercado Popular, Igreja São Francisco de Assis. Quando: A partir do dia 10/09, toda Quarta-feira, às 19:30hs. TELEFONES: (31) 3387-1228 / 3331-5890 / 8881-5890

17 de ago de 2008

"Olha pro céu meu amor"

Hoje me lembrei de um poetamigo antigo que poetou um muro assim:"apaga a rua que a lua tá linda!"

"É doce morrer no mar"

15 de ago de 2008

Negro olhar: 1o ciclo de leituras dramatizadas com autores e artistas negros

"A CAIXA Cultural recebe, de 19 a 22 de agosto, no Teatro Nelson Rodrigues, o projeto “Negro Olhar”, que reúne literatura, artes cênicas, música e debates sob o ponto de vista do artista afro-descendente. Participarão do evento talentos anônimos e profissionais consagrados do ramo da dramaturgia, entre eles Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Lea Garcia, Fabrício Boliveira, Julio Wenceslau, Juliana Alves, Dani Ornellas, Silvio Guindani e Haroldo Costa. O projeto “Negro Olhar” reflete não apenas sobre as questões políticas, sociais e culturais do negro, mas também a respeito das diferentes formas de colonização, da luta pela libertação e das conquistas e reconhecimento do espaço social deste povo, a partir da leitura dramatizada das obras de autores como Abdias Nascimento, August Wilson, Adrienne Kennedy e Laugston Hughes, todos autores negros, assim como o elenco e os diretores que integram o espetáculo. “Diante da necessidade de ampliar o campo de ação do artista negro no Brasil e promover um intercambio literário entre as duas Américas, o projeto pretende unir no palco artistas consagrados a novos talentos para a leitura dramatizada de autores americanos e brasileiros. Enaltecer os grandes artistas e abrir caminho para os novos é enriquecer e muito a cultura nacional”, afirma a atriz e idealizadora do projeto, Tatiana Tiburcio. Abrindo a programação, no dia 19 de agosto, será realizada a leitura dramatizada do texto “Sortilégio – mistério negro”, de Abdias do Nascimento, intelectual de grande importância para a reflexão sobre a questão do negro na sociedade brasileira, fundador do Teatro Experimental Negro (TEN). “Sortilégio – mistério negro” é uma fábula moral sobre a situação do negro no Brasil. Seguindo a programação, dia 20, será a vez da leitura de “O traseiro Negro de Ma Raney” (Ma Rainey’s Black Bottom), de August Wilson, considerado o mais elogiado dramaturgo americano negro contemporâneo, cujas obras relatam a experiência dos afro-americanos nos EUA no século XX. No dia 21, será apresentada a peça “As Respostas da Coruja” (The Owl Answers), da autora norte-americana Adrienne Kannedy, tida como uma das percussoras do feminismo negro, uma vez que suas peças travam diálogo principalmente com a problemática da mulher negra norte-americana. A leitura da tragicomédia “O Tamborim da Glória”, de Langston Hughes, um dos mais importantes poetas e militantes da poesia negra nos Estados Unidos, do século XX, encerra, no dia 22, a temporada do projeto. Além das leituras dramatizadas seguidas de debate, o evento também apresenta um vídeo sobre a obra e o autor de cada peça e o show do músico Rocino Crispim em “Misto Negro”, um apanhado de novas composições de samba de raiz, resgate de sambas já consagrados e chorinhos inesquecíveis, nos quatro dias do evento. O projeto “Negro Olhar” foi aprovado pelo edital 2007 de ocupação dos espaços da CAIXA Cultural". (Fotos: Ruth de Souza e Léa Garcia). SERVIÇO Negro Olhar - 1º Ciclo de leituras dramatizadas com autores e artistas negros. Local: CAIXA Cultural RJ - Teatro Nelson Rodrigues. Endereço: AV. Chile, 230 (anexo) Centro. Tel.: 21 2262-0942/5483 – Site www.caixa.gov.br/caixacultural. ENTRADA FRANCA. PROGRAMAÇÃO Dia 19 (terça-feira), 19h:Vídeo sobre o autor e sua obra Leitura dramatizada “Sortilégio – mistério negro”, de Abdias do Nascimento. Direção: Tatiana Tiburcio. Elenco: Lea Garcia, Sidcley Batista, Tatiana Henrique, Silvia Castro, Daniela Tibau, Érika Ferreira e Tatiana Tiburcio. Percussão: Sr Hélio e Alex. Debate com o diretor e o elenco. Show de Rocino Crispim em “Misto Negro”. Dia 20 (quarta-feira), 19h:Vídeo sobre o autor e sua obra Leitura dramatizada “O traseiro Negro de Ma Raney”, de August Wilson. Direção: Haroldo Costa. Elenco: Juliana Alves, Gabriel Sant’anna, Érika Ferreira, Sidcley Batista, Julio Wenceslau, Claudio Sásil, Bruno Fagoti, Toni Araújo e Silvio Guindani. Debate com o diretor e o elenco. Show de Rocino Crispim em “Misto Negro”. Dia 21 (quinta-feira), 19h:Vídeo sobre o autor e sua obra Leitura dramatizada “As Respostas da Coruja”, de Adrianne Kennedy. Direção: Julio Wenceslau. Elenco: Daniela Ornellas, Cláudio Sásil, Nice Simeão, Gabriel Sant'Anna, Sidclay Batista e Júlio Wenceslau. Debate com o diretor e o elenco. Show de Rocino Crispim em “Misto Negro” Dia 22 (sexta-feira), 19h:Vídeo sobre o autor e sua obra. Leitura dramatizada “Tamborim da Glória”, de Langston Hughes. Direção: Milton Gonçalves. Elenco: Ruth de Souza, Fabrício Boliveira, Dani Ornellas, Tatiana Henrique, Silvio Guindani, Juliana Alves, Daniela Tibau, Sidcley Batista, Claudio Sásil e Gizelle de Jesus. Debate com o diretor e o elenco. Show de Rocino Crispim em “Misto Negro”.

13 de ago de 2008

Estrada e caminho

Papo de barbearia

O Clube do Bolinha tem segredos que as Luluzinhas dificilmente desvendam. A Marieta agora está infiltrada. Às quintas e sextas cuida das unhas dos homens na barbearia do Neco. Tá pensando o quê? A febre do metrossexual já chegou a esse reduto masculino também. E sabe homem como é, tem partes do corpo que só uma mulher pode pegar. Um companheiro de espécie pode fazer-lhe a barba, cortar-lhe os cabelos, aparar-lhe as costeletas, mas nas mãos, pés, coxas, costas, espinhas e cravos só uma mulher pode mexer. Não chega a ser estranho, faz sentido, já imaginou um marmanjo fazendo as unhas de outro? Coisa de viado trabalhar como manicure. O macho que é macho acha que certas funções são de exclusividade feminina. Fazer pé e mão, massagear as costas, espremer coisas líquidas, pastosas e sólidas de cravos, espinhas e demais erupções cutâneas, por exemplo, são típicas funções de mulher. Só há uma exceção para o macho clássico, as coxas. Essa é uma parte do corpo masculino à qual as mulheres costumam tocar na hora do sexo, mas o massagista do time de futebol tem prerrogativa para fazê-lo a qualquer momento. A atuação da Marieta no campo inimigo tem-nos permitido devassar o indevassável. Eles já se acostumaram à presença dela. Discreta, sempre com aquela cara de paisagem de folhinha. Profissional, muito profissional, que a Marieta não abre mão de sê-lo. Tudo muito esterilizado. Técnica de extração de cutícula e tratamento de unha encravada indolor. Bases opacas, porque os rapazes gostam de um detalhe na ponta dos dedos, mas sem afetação. E os meninos soltam o verbo como se ela não estivesse ali. Às vezes abrem o coração para ela. Discretamente, pedem conselhos para lidar com as transformações do corpo e da alma das filhas adolescentes e mesmo adultas. Cuidar dos filhos é mais fácil, sempre foi. Antes dava-se dinheiro para que eles conhecessem as prostitutas, hoje a contribuição paterna destina-se ao custeio de camisinhas. Filho homem é só mais um bode no mundo. O problema é a cabrita que ele tem em casa. E como comedor, ele sabe o que os outros da espécie pensam. Coitada da sua filhinha. É por isso que tanto homem enfarta quando as filhas chegam à adolescência. Mas passemos aos casos, pois sei que meninos e meninas estão curiosos para saber o que uns falam sobre as outras. Além do Neco, dono do estabelecimento, um auxiliar e a Marieta, havia cinco homens na barbearia. O que estava sentado na cadeira, com a cara cheia de sabão, começou a contar um caso presenciado (ouvido) em um motel. Diz que o casal tinha acabado de estacionar o carro e entrar no quarto. Não tinha dado nem tempo de tirar a roupa e a mulher gemia como se nos primeiros vinte minutos da partida o time dela já tivesse metido três. Não, meu, três minutos de jogo, ou seja, a bola, se tocada direitinho, ainda não tinha chegado à grande área e a mulher gemendo daquele jeito? Truco! Seis! O sujeito é um pato. Vamos e venhamos, ela tava fingindo. Pra segurar um placar daquele o cara tinha de ser uma potência e ela diferente de todas as outras, porque dispensava a chatice da partida preliminar. Eu não sei não, viu??? Mas pode até ser. Mulher é que nem futebol, uma caixinha de surpresas. Outro dia saí com uma colega minha da pós-graduação e fomos pra um motel. Eu tinha dez contos pra gasolina e o dinheiro pra pagar uma hora de putaria. Só fui mesmo porque eu tava na fissura e ela, dando mole. Se eu não como depois ia ficar falado pelos corredores da universidade. Mas tive dúvida, porque aquela ali parecia que demorava e eu não queria pagar o mico de ter de acabar antes da hora (dela) ou, dizer que não passei no caixa eletrônico e o cartão de crédito, deixei em casa pra não gastar. Porque só um mané casado pra pagar motel com cartão de crédito, né não? Mas o caso é que a mulher parecia o Etna em erupção. Mas mesmo rápido eu tava preocupado com o relógio e quando eu ia fazer o gol, ela disse, espera. Mas esperar o que minha egüinha pocotó? Ela vira de costas e eu firme, mantendo a concentração pra fazer o gol. Aí rapaz, ela gostou do negócio da pocotó e gemeu como uma égua no cio: arromba meu cu!!! Hahaha, e você? Ele não disse nada, só franziu a testa e abriu os braços, mas todo mundo entendeu que ele brochou. Vê se homem tá acostumado com uma mulher determinada desse tipo? Teve um outro que se empolgou e naquelas de mostrar que era mais macho do que todos os outros multiplicados, contou uma de difícil deglutição. Disse que cinco contra um não era com ele. Para mexer ali, só se fosse mulher. Era um cara home, pôrra. E, por não gostar de pegar no próprio bilau, ele aprendeu a urinar sentado. Pode? Mas no dia que a Marieta contou o caso de seu Olímpio, foi o maior segredo do clube já revelado. Ele estava muito preocupado com a filha de vinte e cinco anos, pois estava saindo com um homem branco de sessenta e cinco, mais velho que ele. Disse ao pé do ouvido da Marieta que eles procuram as negras, quando o apito já não toca tanto. É o mesmo efeito de uma gemada de ovo de pata. Levanta até defunto. Marieta minimizou a gravidade do assunto e mencionou o Gaetano Velasques, aquele ator famoso, que também está namorando uma moça negra, uns quarenta anos mais nova que ele. E eles se dão superbem. Ela saiu na capa de várias revistas durante o carnaval, como a musa negra dele. Mais um passo no harmonioso sistema de integração racial do Brasil. Importa o respeito, o amor, a consideração. Mas seu Olímpio não se consolava. Insistia em ver a filha como uma gemada de ovo de pata (Do livro Cada tridente em seu lugar).

12 de ago de 2008

Hutúz Filme Festival 2008

Apresentação. Artigo 1: O Hutúz Filme Festival é um evento que tem como característica determinante a exibição de obras cinematográficas que abordem a cultura hip hop e suas vertentes, visando estabelecer um intercâmbio entre música e imagem. Onde acontece? Artigo 2:A sexta edição do Hutúz Filme Festival acontece em novembro, de 2008, no cinema Odeon BR, Cinelândia, Rio de Janeiro. Podem participar do festival obras de todos os formatos, durações e gêneros desde que se encaixem à proposta do evento. Regras para as inscrições. Artigo 3: a) As inscrições são gratuitas e devem ser feitas apenas pelo site: www.hutuz.com.br. A ficha de inscrição deve ser preenchida com os dados que serão publicados no catálogo do festival, caso o filme seja selecionado. Para inscrever sua obra no Hutúz Filme Festival o realizador deve conhecer e concordar com os termos que constam neste edital. As inscrições estarão abertas de 14 de janeiro a 26 de setembro de 2008. b) Ao inscrever uma obra, o produtor estará se responsabilizando legalmente pela veracidade das informações, assim como pelos direitos autorais de titularidade e de liberação para exibição pública de seu trabalho. Assim, para fazer parte do Hutúz Filme Festival 2008 é necessário: b.1 - estar de acordo com regras e regulamentações a seguir; b.2 - preencher corretamente o formulário de inscrição on line; b.3 - enviar a autorização para exibição do filme inscrito, assinada, munida de uma cópia do documento de Identidade com foto, sendo este um atestado de que o autor/produtor da obra inscrita entende e aceita o regulamento. c) Os filmes devem estar identificados com o nome para exibição. Não há limite de obras inscritas para cada realizador. Em caso de inscrição de mais de um trabalho, estes poderão estar na mesma mídia, desde que devidamente identificados. d) Os realizadores das obras internacionais precisam enviar junto com os itens acima, o script da obra. O que enviar? Artigo 5: a) Após a inscrição online, o realizador deve remeter, num envelope pardo ou branco, uma (1) cópia do filme em DVD e /ou fita MINIDV, com a autorização assinada, e cd de fotos para divulgação e da equipe (no mínino duas) para a produção do Hutúz Filme Festival. b) Para os realizadores de filmes em película 35 mm, pedimos que nos envie apenas a autorização e o cd com fotos, após avaliação dos documentos solicitados, caberá a curadoria avaliar se a obra entrará ou não no festival. Caso seja selecionada, uma copia do material será solicitada. c) As cópias dos filmes deverão, obrigatoriamente, ser postadas até o dia 26 de setembro. As despesas de envio do DVD/MINIDV/PELICULA para seleção, bem como as cópias dos trabalhos selecionados e materiais de divulgação, ficarão a cargo do realizador/produtor. Devolução do material. Artigo 7:Após a seleção, o Hutúz Filme Festival se responsabilizará pelos custos de armazenamento e devolução das cópias em 35mm dos filmes exibidos no evento, que será feita imediatamente após a realização do Hutúz Filme Festival, para o endereço indicado na ficha de inscrição. Cópias de exibição em MINIDV e DVD não serão devolvidas, passando a fazer parte do acervo do Hutúz Filme Festival. Resultado. Artigo 9: O resultado da seleção do Hutúz Filme Festival será publicado em 31 de outubro de 2008 no site do evento, www.hutuz.com.br. Todos os inscritos receberão o resultado também por e-mail. Endereço para o envio da obra: Hutúz Cultura LTDA: Produção Hutúz Filme Festival. Rua Carvalho de Souza, n°137 sala 111 – Madureira Rio de Janeiro – RJ. CEP. 21350-180. Tel. 3015-5927 / 3015-7113 Gleice.madureira.rio@cufa.org.br A ficha de inscrição apenas deverá ser preenchida em caso de concordância com este regulamento.

10 de ago de 2008

Saiu o aguardado Rasif do Marcelino!

(Nas águas fortes de Rasif, por Eduardo Araújo Teixeira) (“É preciso inocular no corpo da escrita o veneno, o mal . Essa perversão é o sal da literatura.” João Gilberto Noll). "Se em Contos negreiros, o escritor Marcelino Freire questionava a noção de igualdade racial no Brasil (a cordialidade como produto de uma síntese feliz e festiva entre índios, negros e brancos estrangeiros), Rasif, mar que arrebenta, sua nova antologia de contos, busca outros territórios. O título rascante do livro carece de alguma explicação. Recife vem do árabe, Rasif: terreno de lajes, estrada composta de rochedos. Já Pernambuco, origina-se no tupi-guarani, paranã-puca: “onde o mar se arrebenta”. Deste violento embate entre pedra e mar, emerge Rasif, mar que arrebenta. Dezessete contos, ou melhor, “cirandas, cirandinhas” (assim o autor as nomeou no índice) compõem Rasif, um desnorteio de ritmos bem traduzido na linguagem lírica e ríspida, dura e sutil, bela e grotesca, deste autor que embaralha ainda mais os limites da narração. Cada palavra é ponderada, valendo sílaba a sílaba, aspirando a poemas. Pensemos, por isso, a pertinência da denominação “ciranda” para os contos. Na origem do termo está sarand, palavra hispano-árabe que em sua evolução rumo à forma portuguesa conheceu as formas zaranda e çaranda. Para um livro que mira o oriente, mas que tem Recife, Pernambuco como ponto de partida para pensar o mundo, ciranda aponta para um volteio de temas, escolha, união, dança e embate. Isto porque “ciranda” dá nome a uma peneira grossa, mas também define o canto e a dança de roda adulta ou infantil (e lembremos a profusão de crianças que abarca esta obra). O livro vai além dos limites de Recife e Pernambuco, já que as fronteiras dos contos se distendem para novos territórios. Partindo da etimologia de Recife, surgem contos que tematizam conflitos e põem em pauta uma Arábia sem mistificação, sem orientalismo. Aqui e lá vivem amores, desejos, estilhaços, guerras, explosões. As Arábias são mais um motivo para olhar o mundo que se vê invadido, que se sente deslocado num mundo cada vez mais vertiginoso. Os árabes invadem Rasif até mesmo na dedicatória (“para Asfora, Benuthe, Hatoum, Nassar, Nazarian, Salomão e Snege”), mas alarga-se em contos como “O meu homem-bomba”, “We speak English”, e está implícita no desejo assassino de menino de “Maracabul”, cujo sonho maior é possuir uma arma. Os estilhaços ferozes e infelizes da violência e da guerra estão também em “Amor cristão” e “Da paz”. Do mesmo modo que o árabe, a “língua indígena” vai dar no intérprete que traduz, no conto “Tupi-guarani”, as reivindicações dos índios que, furiosos, invadem o teatro Amazonas. As palavras ameríndias guiam o autor, com sua sonoridade, e vão dar numa proliferação de toponímia, nomes de bichos, lugares, costumes e sons, num livro entranhado em contos que dialogam e distendem-se como no conto que abre o livro, “Para Iemanjá”. Nele, o mar (e as águas) é leitmotiv de Rasif e além de ser um canto de louvação à orixá-senhora das águas, denuncia a dessacralização da natureza, o desrespeito e a ação assassina do homem. O lirismo de “Para Iemanjá” é dos mais imensos: “Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo. Esse breu. Peixes entulhados. Assassinados. Minha Rainha (...) Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha. /Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo” (...) (p.21). Muitos reconhecerão no livro a dicção coloquial e urbana dos narradores; o tema da violência; a obsessão pelo solilóquio repleto de ambigüidades. Trata-se de uma linguagem que busca aproximar-se da letra de canção; canção que, na modernidade, vai se irmanar ao sample e ao canto-desafio do rap: “O medo, aqui, não é brinquedo, pode crer. / Pá-pá-pá. / Gostoso roubar e sumir pelos buracos do barraco. Pelo rio e pela lama. Gritar um assalto, um assalto, um assalto. Cercado de PM por todos os lados. Ilhado na Ilha do Maruim. Na boca do guaiamum. /Papai Noel vai entender o meu pedido. Quero um revólver comprido, de cano longo. /Socorro! /Socorro!” (“Maracabul”, p.41). Marcelino Freire trabalha com uma frase quebrada, que em estilhaços se faz quase versejada, já que se encontra posta no martelo do cordel, sincopada na récita do repente: “Saudades da bernúncia. Saudades da zabumba. Do Zé do Vale e Zé Pereira. Do Zé Limeira. Saudades do violão e da viola. Saudades da graviola. Pitanga, umbu. Cajá, maracujá. /Saudades da Lia. Da lua de Itamaracá. Saudades do Cariri, Sertão do Pajeú. (...)” (“O futuro que me espera”, p. 122). Em Rasif estão presentes as personagens que se constroem ao narrarem-se. São travestis, pedófilos, miseráveis indignados, assassinos militantes, gays passionais, pais indignados, crianças cruéis, todos unidos (ao lado de outros) para novos cantares. Afasta-se do clichê, da pobreza sofrida e explorada, seus personagens não revidam o que enfrentam, revelam suas carências, são impiedosos e cínicos. Marcelino Freire os constrói por meio da ironia (figura central em sua “poética” do desmascaro), por isso podem ser lidos de formas distintas. Para traduzir estas personagens, o autor faz uso das “falas-drama” que mimetizam tanto o universo interior quanto o exterior pelo “modo” que elas (aparentemente) diriam-se, conquistado o direito à voz. São “personalidades” que se convertem em trama ao executar o enredo de si mesmas. “Enredar-se”, neste sentido, adquire também o significado de “logro”. Não bastasse isto, o autor – cuja literatura se constrói à revelia do bom gosto e do politicamente correto - elege personagens marginais, seres de exceção, figuras cujo olhar viciado (da sociedade contemporânea) as converteu em “tipos”, “estereótipos”. Marcelino Freire assume o risco de traduzi-las de uma perspectiva interna, modus operandi experimentado (não sem algum constrangimento) por escritores de peso como Graciliano Ramos. A adesão de Marcelino Freire é, contudo, desapaixonada, oposta à perspectiva empática efetuada por João Guimarães Rosa. Adotando a ironia, a contradição, o paradoxo, ele desestabiliza as certezas, inserem singularidade para destroçar a visão pré-concebida. Estigmatizadas pela ordem social, suas personagens humanizam-se pela complexidade de sua paisagem interior. Sua estratégia é o foco narrativo em primeira pessoa, diálogos mais próximos de solilóquios, de monólogos interiores que se alteram para um fluxo de consciência no qual sobressai, pelo não-dito, “personalidades” que ao se contradizerem, revelam-se. O que poderia resultar numa estratégia narrativa de curto alcance, pelo risco de esgotar-se pela repetição (neste sentido, “Maracabul” é dentre todas a mais fraca, pelo curto alcance da configuração psicológica de menino; o mesmo podendo se dizer do discurso de “We speak English”, reduzido à sátira estilisticamente bem construída), resulta, por vezes, em excelentes contos. “I-no-cen-te”, talvez a narrativa mais arriscada do livro, é exemplo da força desta técnica. Sua trama constrói-se sub-repticiamente, por meio de um depoimento no qual o não-dito configura o crime, um discurso que pretensamente busca a conversão do réu em vítima. “I-no-cen-te”, em sua ambígua, irônica, e amoral tecitura, busca a afirmação e comprovação da inocência do criminoso diante da perversidade de sua vítima: “Aí o povo vai comentar: que é coisa pura. Uma nudez de candura. A maldade está no meu olhar. Eu é que não enxergo. Vejo além. Vejo desonesto. Vejo o que não está. Tenho um coração feio, que não se contém. Algo em mim precisa se exorcizar. Miolo mole, que não bate bem” (p.89). Rasif possui um tom mais melancólico e satírico do que as obras anteriores; em parte, por trazer personagens ainda mais isolados, desconfortáveis no lugar onde estão. Trata, igualmente, da perda de um olhar ingênuo sobre o mundo, e de falas soltas, incompreendidas, uma algaravia não-comunicativa. O melhor exemplo é “Chá”, sátira corrosiva que põe à roda da mesa, os imortais da academia de Letras cada vez mais surdos e senis. Entre xícaras de chá e torradinhas, eles discutem o destino da cadeira recentemente vaga de um “imortal” gagá: “(...) Deu derrame. A bolacha. Passa. Ficou caduquinho. Tira a roupa. O quê? Não estou ouvindo. Dizem que fica nuzinho. Nu? Nuzinho. Hum, hum. Deve ficar uma graça. Nuzinho. Só tem osso. De quê? Camomila. Hã? Não ouço. Ca-mo-mi-la. Obrigado. É a vida. (...)” (p. 81). Mesmo abrindo-se ao humor e ao nonsense, Marcelino Freire não arrefece em explicitar, com a ferocidade denunciadora das obras precedentes, que vivemos num mundo mal, atolado em injustiças das mais diversas esferas. Rasif é tudo isso, mas é também um livro de amor, um amor particularíssimo, selvagem, como explicitado no conto-vinheta “Amor cristão”: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca. (...)” (p. 77). O nonsense em Rasif comparece em contos como “Junior”, que traz um bebê que surpreende fascinado o pai com um travesti na cozinha de casa; em “Meu último natal”, apresenta-se apenas no insólito desfecho da narrativa sobre um menino, cujo propósito feroz é assassinar e roubar o Papai Noel. Este nonsense pode chegar a extremos de melancolia, como no beckettiano “Ponto.com.ponto”, que traz um sujeito num banco de praça, à espera (cega e interminável) de um possível amor agendado pela internet. As frases curtas, picotadas (ponto a ponto), procuram traduzir ao leitor esperança, impotência e crescente frustração do protagonista: “(...) O meu peito ziguezagueia. Cada passo da cidade de São Paulo. Sinto. Ela não vem. Depois de tanto tempo. Um, dois, três. Marcamos o encontro. Dentro da tarde, neste terceiro banco. A gente vai ser feliz. Depois de tanto tempo, meu amor. No computador. Marcamos. Este encontro real. (...)” (p. 116). Marcelino Freire esmera-se em tornar mais complexos os enredos de alguns contos de Rasif. “Os atores”, trama que mistura melodrama, suspense e tragédia, ilustra o tema da representação. No conto, um velho ator encena um crime passional. Protagonizando a peça ao lado de seu jovem amante, ele decide substituir a pistola falsa por outra verdadeira, tudo para que o rapaz, o mate diante da platéia. A narrativa inicia com a descrição da cena clímax da peça, seguindo em marcações, rubricas, pontuando intenções: “A última cena é assim: ele tira o revólver da gaveta, dispara à queima-roupa. E eu caio. Como um rei cairia. Ou a Petra. Ou a Phedra. Depois, Leocádio sopra um monólogo sem fim. E chora e ri. As cortinas fecham o espetáculo. E voltamos abraçados para os aplausos” (p. 67). Amalgamando lirismo e crueza (a exemplo do trecho anterior), Marcelino Freire dá vazão em Rasif a um estranho saudosismo da ingenuidade perdida, da infância, de uma natureza não-corrompida, de uma modernidade sem a vertigem do consumo. É o que se lê no diálogo indignado do motorista de “Sinal fechado”: “- A Guerra na Arábia Saudita, na Conchinchina, sei lá. A culpa é do carro. Do combustível. Do petróleo. Do gás. Da gasolina. (...) - Da guerra. Sim, da guerra. Da carnificina. Por que é que eles brigam, meu caro? Por causa do carro. Entendeu? A roda nos fodeu. Antes a gente vivesse no tempo do jumento. Até o jumento virou moto. Não viu? Um dia saiu na televisão” (p. 109). Em Rasif estão ainda presentes as zonas de conflitos dos afetos, os campos minados dos desejos; mas há, pela primeira vez nos enredos, finais felizes, saídas para o amor como se os personagens já pudessem aspirar a um futuro possível, menos torpe. É o caso de “Roupa suja”, em que uma empregada de lavanderia narra a uma amiga suas idas e vindas num terreiro feitas para conquistar o cliente executivo pelo qual se apaixonou. Num tom entre o obsceno e humorístico, a narrativa excede em referências ao universo do trabalho da narradora: “(...) Cheiroso, nem olhou para o meu alvoroço. Nem sequer um pensamento. Leve. Ele, dentro de uma bolha. Eu, tão rastejante. Nada, a partir daquela manhã, foi a mesma coisa. (...) Amor, Maria, amor./Sabe o que é isso?/Fragrância de flor. (...)” (p.57). Apaixonado pela sonoridade das palavras, o autor joga com som e sentido para enredar significados e efeitos novos na expressão. Isto faz com que por vezes, a trama seja o próprio discurso, tornando ainda mais difícil a classificação “contos” para textos como “Para Iemanjá”, “We speak English”, “Amor cristão” e “O futuro que me espera”. Estes funcionariam, à maneira de um álbum musical, como vinhetas para introdução de novos temas, outros andamentos. Isto por que Marcelino Freire deixa circular (cirandar) com rigor, elementos que unificam tematicamente Rasif e fazem ressoar um conto no outro: “Mamãe, este ano eu fui um bom menino, mas ano que vem eu quero ficar rico. Ter um carro-forte, um carro do ano. /Juro que não estou brincando”. (“Maracabul”, p. 43), “Aí o Leco resolveu matar o Papai Noel. De verdade. Dar uma pedrada na cabeça dele assim que ele chegasse. Não pela chaminé, que não havia. Pela janela do barraco.(...)” (“Meu último Natal”, p. 45). Contraditoriamente, faz uso do “lugar-comum”, de personagens estigmatizados, marginais que põe em primeiro plano e que, ao se expressarem, singularizam-se, ganhando em complexidade psicológica. Humaniza-os, assim, sem escamotear suas falhas de caráter, seus desvios morais, suas obsessões sexuais. Sua perspectiva é interna (daí o uso freqüente da primeira-pessoa), não-distanciada. Não se trata, porém, de uma adesão amorosa (à maneira de um Guimarães Rosa), tampouco amoral (sem julgamento explícito, como num Rubem Fonseca). Eles expressam e em seu próprio discurso explicitam ambiguamente suas contradições. Como o desfecho em que paisagens, nomes, paladares (termos predominantemente indígenas) fecham o livro com uma declaração de amor a Pernambuco, ao sertão, ao Brasil sem dor. Neste desfecho, há ecos de poemas do poeta Manuel Bandeira (cujos versos fecham o livro), textualmente citado no conto “Amigo do rei”, narrativa de um garoto cuja amor pela poesia faz aflorar o horror homofóbico do pai: “(...)Um pesadelo! Eu mato esse menino. Ah! Se mato. Que desgraça! Ele e esse tal de Manuel Bandeira. Suados e abraçados, em campo. (...)”(p. 98) Rasif retoma o tom poético em seu desfecho com “O futuro que me espera”, aspiração que soçobra os desencantos com a cidade grande, dissolve angústias, acena para uma felicidade futura resgatada do passado (interiorano?) quando a paz não se fazia reles discurso: “Saudades de tantas coisas. Que eu costurei a mala, levantei as paredes da caixa. Disse olhando os prédios de São Paulo. E a fumaça. Vou-me embora agora mesmo, de hoje não passa. Aqui nunca foi a minha terra”. (p. 123) Completando este salto, estão as ilustrações de Manu Maltez, gravuras em água forte que não ilustram os contos, mas que traduzem a fluidez do traçado desconcertante do artista, com figuras que oscilam num premente movimento, alterando-se de figuras humanas clássicas a animais e formas grotescas: impuros seres convertidos em mãos, feras míticas, aves que se convertem em onda, como a que ilustra a capa. Fortes águas, vozes de arrebentação. Rasif traz narrativas e formas que não se contém quietas, que precisam saltar, ganhar espaço no mundo. Rudes e acérrimos, subversivos, bailarinos, radicalmente negros (na contra-corrente da literatura noir), os contos de Marcelino Freire em Rasif, mar que arrebenta não se prestam ao limite do papel. Assentam mal, parecem não pertencer à classe da literatura que se imprime impunemente em nossos dias. Inquietantes, vertem sangue, dançam, batucam, aspiram o trânsito, o salto para fora do objeto-livro que os contêm. Por isso mesmo, faz-se válida a afirmação do autor de que seus contos são para serem lidos em voz alta. Acatemos essa voz, cantemos e cirandemos, sem pudor, nas águas fortes de Rasif" (fotos: capa do livro, Marcelino Freire, o autor e Manu Maltez, o ilustrador). Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000), BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial, e Contos Negreiros (Contos, 2005) pela Record, livro que venceu o prêmio Jabuti. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo.

9 de ago de 2008

O cobrador de ônibus e o deus-vaca

“Esse aí tá com o reino do céu garantido”, comenta o cobrador do ônibus, assim que o rapaz, cujas mãos acumulam a função de mãos e pés, termina sua cantoria e o pedido de apoio para exercitar sua arte. Olho a situação e penso que talvez se trate de mais uma vítima da poliomielite. O cobrador espia o céu, fixa-se em mim que estava a seu lado e comenta: “Sujeito de sorte, ele, a senhora já pensou o que é arder no fogo do inferno por toda a eternidade?”. Atordoada, respondo: “Não, não pensei”. Na certa ele estava penalizado com as limitações físicas do rapaz cantor e resolveu premiá-lo com a absolvição do inferno. Coitado, do cobrador. “A senhora tem religião?”, prossegue, antevendo não ser a minha a mesma dele. Afinal, aquele cabelo black power e um arco-íris na roupa. “Tenho”, respondo, louca para saber onde a prosa desaguaria. “Acredita em Deus?”, ele continua, desafiador. “Acredito!” Não o seu, penso. “Pois é, num vê aquele povo da Índia? Eles num acredita em Deus e adora vaca. Adorar santo já é uma ofensa ao senhor Jesus e adorar vaca, eu nem sei dizer o que é. Por isso aconteceu aquela desgraceira toda. Aquela chuva que não parava e o mar se voltou contra eles em ondas gigantes. O pastor falou na igreja e deu no Jornal Nacional também”. Compreendi que ele falava sobre os tsunami que surpreenderam o sudoeste da Ásia no início de 2005, e atribuía a catástrofe ambiental ao fato de os indianos considerarem a vaca um animal sagrado. Santa lobotomia, Batman. Perplexa, não sabia o que fazer, mas tentei explicar que a vaca é sagrada para a cultura indiana, assim como outros animais o são em diferentes culturas. Argumentei que na Indonésia, país muito afetado pela catástrofe, predomina o islamismo, 80% do país é muçulmano e não há adoração à vaca. Procuro sensibilizá-lo para o tema do respeito a outras religiões e gasto meu latim em vão. De nada adianta ilustrar a conversa narrando a existência de um templo em homenagem a Buda, considerado uma das sete maravilhas do mundo. Constituído por cinco quilômetros de rochas vulcânicas, firmemente encaixadas umas nas outras. Demorou setenta e cinco anos para ficar pronto. Falo dele com um símbolo imponente da busca humana por algo maior. Transbordo meu caldeirão de diversidade, mas de nada adianta. O rapaz é irredutível: “Deus-vaca na terra de Alá. Onde já se viu?”. Olho para ele com o rabo do olho, calada e impotente. Coloco o fone de ouvido e enquanto procuro uma estação de rádio que me agrade, ouço uma notícia que me devolve o ânimo. A repórter diz que o Tribunal de Justiça do Estado da Bahia condenou a Igreja Universal a pagar significativa indenização por usar imagem de mãe de santo para ofender o Candomblé. E o tema das religiões de matriz africana prossegue. Fala-se na reportagem também sobre a criação de um grupo de militares praticante dessas religiões dentro da corporação, com o objetivo de educar instituições e pessoas para o respeito às expressões religiosas de matriz africana. Olho para o cobrador e me convenço de que não vale a pena prosseguir na tentativa de demovê-lo do sectarismo. Mudo a estação de rádio, fecho os olhos e finjo dormir. (Do livro Cada tridente em seu lugar).

8 de ago de 2008

Um passo preto canta numa viagem de ônibus

No ônibus vazio, seguia tranqüila observando os resultados de três dias consecutivos de chuva de verão: muita lama, bueiros transbordando, barrancos caindo e sujeira geral. Em uma parada próxima ao final de linha, entra uma voz forte e melodiosa no coletivo, cantando uma composição de Jorge Versilo em uma interpretação a Emílio Santiago. Os versos tratavam do aprendizado proporcionado pela dor, concluindo que o amor era, simplesmente, o encontro das águas. Bonitas, a música e a voz. Estiquei o pescoço para ver quem era o cantor e não vi ninguém. Ouvi um barulho de tamancos e olhei para o chão. Então vi um rapaz negro com o tronco muito desenvolvido contrastando com as pernas finíssimas, dobradas, próximas às mãos, que faziam o papel dos pés. O moço cantava como o passo preto da minha infância, só que alegre e livre – o que é que eu vou fazer com esse fim de tarde, pra onde quer que eu olhe, lembro de você, não sei se fico aqui ou mudo de cidade (...). Bom repertório, pensei, dobrando os lábios daquele jeito que a gente dobra quando pensa. Enquanto cantava ele tirava a mão calçada com luvas de goleiro do tamanco esquerdo e a estendia a cada pessoa sentada. Tratei logo de pegar minha contribuição para o artista e mereci outro trecho de música. Parecia que ele adivinhava o sentimento da gente: confesso que chorei, não suportei a dor, é doloroso se perder um grande amor. Puxa véio, um pico de Jorge Aragão na artéria femoral. Overdose para qualquer coração. Lágrimas à parte, o moço seguia com seu sorriso largo e eu pensava: que diferença daqueles meninos que entram no ônibus em São Paulo com aquela ladainha insuportável – se-nho-res pas-sa-gei-ros, des-cul-pe in-co-mo-dar a vi-a-gem de vo-cês e toca a contar a saga da família de dez irmãos, pai desempregado e mãe com câncer, todos passando fome, só ele em condições de pedir, e pedir, como todo mundo sabia, era melhor do que roubar. Não satisfeito, o adolescente capricha mais um pouco na cara de dor de barriga e entoa uma música sertaneja qualquer, imitando o sertanejo do momento. E você ali, ouvindo, querendo colar a matraca do moleque com cimento e sentindo uma saudade desesperada das modas de viola de Pena Branca e Xavantinho. Mas aí volto para o ônibus em Salvador e reparo que, enquanto girava o corpo sobre as mãos, dirigindo-se à porta da frente para ir embora, o rapaz cantor reconhece uma amiga e começam a conversar. A voz dela é muito baixa e eu não entendo. Entretanto, ele fala alto, para alegria da minha curiosidade. Ele conta que na semana anterior tinha faltado à faculdade porque havia tido dois coágulos nas pernas e a dor, arretada, não o deixara sair de casa. Naquela semana, todavia, voltaria às aulas e à capoeira (balança o tronco cheio de ginga). Só pode ser angoleiro, concluí segura. Pulando sobre as mãos, ele se despede cantando uma canção do Luís Américo, sucesso nos anos 70: sou filho da véia, oh, eu não pego nada, a velha tem força, oh, na encruzilhada! (Do livro Cada tridente em seu lugar).