Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de set de 2008

Das coisas trazidas pela primavera - II

(Poeminha 3). Amor bom mesmo/ Não deixa opção/ Sufoca, não vivê-lo/ Arde, não consumá-lo/ Ensurdece e cega/ Não lhe dar atenção/ Mas o danado era uma queijeira cheia de furos/ O trabalho/ A tese/ A distância/ O custo-benefício do amor (Menina-vagalume). Verde, avanço/ Amarelo, paro/ Vermelho, não respeito/ Quando ilumina o túnel, sigo/ Quando toca o sol/ Acendo e brilho/ Entrego ao coração dela/ O inventário da minha saudade:/ Mãos entrelaçadas/ A correr pelos laços/ Dos nós/ Dos dedos/ A dança da SeráQuê!/ Rosto grudado/ Cabeça com cabeça/ A fuçar as gavetas de Clarice/ Rod Stewart/ Clássicos das divas negras/ Que depois cantam as mesmas músicas/ Enquanto inventario a saudade/ Deponho armas e escudos/ Desarmo arapucas/ E podo meus espinhos

29 de set de 2008

Das coisas trazidas pela primavera: cinco poeminhas

(Poeminha 1). Se passar um ônibus vermelho/ Ela me ama, quer apostar?/ Ah... assim não tem graça/ Vermelha é a cor dessa frota/ Sem graça é você/ Não tem poesia nem para colorir um sonho (Poeminha 2). Namoro as cartas/ Enquanto não posso namorar contigo/ Escrevo-as com esmero/ Reescrevo, corrijo/ Trato de me aviar/ Às prestações

27 de set de 2008

"Passeios pela floresta" - primeira crítica ao Cinderelas, de Joel Zito Araújo

(Por Carlos Alberto Mattos, no sítio "Críticos"). "A referência a contos de fadas não poderia ser mais adequada às tantas histórias de fantasia, gratificação e terror que fazem a teia do turismo sexual no Brasil. Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado nos dá um painel expressivo desse intercâmbio de ilusões, degradação e abismos culturais, mas também alguns exemplos de final mais ou menos feliz. Na ponte entre Roma, o Nordeste brasileiro e Berlim, Joel Zito Araújo encontrou pessoas transbordantes de sinceridade, seja italianos e alemães encantados pela disponibilidade e até o caráter “econômico” da mulher brasileira, seja baianas e cearenses fascinadas pela perspectiva de ter um gringo que as retire “dessa vida” nem que seja por uns poucos dias de pseudo-casamento. Alguns casos tocam o horror, como o de Ana Madonna, barbaramente torturada numa espelunca do Suriname, ou da menor que entrava em motéis de Fortaleza escondida no porta-malas de turistas estrangeiros. Outros casos beiram a tragicomédia, como a baiana fogosa que, decepcionada com as cobertas separadas e a perda de interesse sexual do marido alemão, ganhou como consolo um colete de água quente. Joel Zito é ótimo entrevistador, incisivo e delicado ao mesmo tempo. Seu foco de interesse vai da questão racial (ele é autor do também ótimo A Negação do Brasil) aos dilemas afetivos, diferenças de comportamento e à dimensão política desse aspecto das nossas, digamos, relações internacionais. Se a qualidade dos depoimentos é excelente, ficam ainda melhores no quadro de situações que o diretor conseguiu armar diante da câmera. Fica nítida a compreensão de que a temperatura dramática se eleva quando se tem diversos personagens ao mesmo tempo dentro do quadro. Os exemplos se multiplicam no filme: a adolescente prostituta e miserável que se enrosca na mãe passiva como um animal assustado; o agenciador alemão confraternizando com sua “família” de vistosas mulatas brasileiras; o casal germano-brasileiro que desfia seus lucros e perdas para Joel Zito; os divertidos relatos de um cabelereiro e um travesti durante uma sessão de penteado. O filme não usa nenhum discurso que possa reduzir a complexidade do assunto. A senadora Patricia Saboya chega a comover-se enquanto fala de sua luta pela erradicação do turismo sexual, mas boa parte das mulheres envolvidas coloca a questão em termos de carência. Todo tipo de carência: emocional, financeira, de informação. Nesse sentido, não há muita diferença entre as que procuram ser felizes para sempre ao lado de um príncipe encantado e as que entregam o corpo em troca do próximo prato de comida. Quem não entender isso que atire a primeira pedra". DOM (28/9) 22:30 Odeon Petrobras [OD015]. SEG (29/9) 10:30 Odeon Petrobras [OD016]. TER (30/9) 13:00 Est Vivo Gávea 3 [GV316]. TER (30/9) 19:30 Est Vivo Gávea 3 [GV319].

26 de set de 2008

Encontro com o escritor, em Salvador

"Mãe Stella de Oxossi é uma das primeiras ialorixás a assumir publicamente uma postura de combate ao sincretismo religioso. Quinta matriarca do Ilê Axé Opô Afonjá, ela é considerada uma liderança espiritual, tendo seu sacerdócio marcado por grandes realizações, como a criação de um museu, de uma biblioteca e de uma escola de ensino fundamental no Terreiro. Este que foi tombado como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1999. Em 2005, ao completar oitenta anos, Mãe Stella recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia". (Fonte: Assessoria de Comunicação – Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura).

Introdução à palestra de Ângela Davis, em Salvador

(Por: Luiza Bairros*, em Salvador, Salão da Reitoria da UFBA, 06 de agosto de 2008. Fonte: Irohin.) "Apenas ontem à noite fui convidada para fazer esta pequena introdução à palestra de Ângela Davis. Isso significa que não tive tempo suficiente para desenvolver um texto sobre a importância da visitante, que perpassa uma multiplicidade de aspectos: a projeção internacional da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970; o impacto de sua trajetória sobre as escolhas das mulheres negras, em especial as que decidiram dedicar suas vidas às varias formas de ativismo político; a sua influência na nossa percepção sobre o que é e como se expressa a beleza negra; o seu exemplo como intelectual pública e intelectual acadêmica que, com a força de suas idéias, confronta a sistemática negação do racismo à nossa capacidade de produzir conhecimento fora dos cânones que dominam o pensamento acadêmico. Na impossibilidade de cobrir todos, ou alguns destes aspectos, decidi recorrer a textos que eu já tinha escrito antes, fazendo aqui uma breve atualização sobre o que tem acontecido com a política racial brasileira, desde a última vez que encontramos Ângela Davis. Foi em dezembro de 1997, em São Luis do Maranhão, na I Jornada Cultural Lélia Gonzalez, realizada pelo Grupo de Mulheres Negras Mãe Andreza, com o apoio da Fundação Cultural Palmares, então presidida por Dulce Pereira. A Jornada foi pensada por suas organizadoras como um espaço de dialogo, convivência, reflexão, de lazer e troca entre militantes e profissionais de diversas áreas. Desde 1997, muita coisa mudou na política racial brasileira. Multiplicaram-se as formas de organização do Movimento Negro, porque também se definiram novas formas de manifestar politicamente nosso existir enquanto negros nessa sociedade: existe um maior número de grupos de mulheres, quilombolas, jovens, gays e lésbicas, estudantes, religiosos de matriz africana, pesquisadores, entre outras. Desde 1997, tornou-se mais evidente o fato de que já não e mais possível ‘naturalizar’ tanto os privilégios de ser branco , como as desvantagens de ser negro no Brasil. O discurso da democracia racial já não tem forças para sustentar o consenso que existia nas elites, de direita e de esquerda, sobre as formas de pensar a sociedade brasileira em termos raciais como algo harmonioso e indiferente á condição racial dos indivíduos. Ate por isso, entre as elites, hoje, também não há propostas consensuais de tratamento do racismo e das desigualdades raciais. Tanto é assim que as conquistas em relação às ações afirmativas, o fato novo dos anos 2000, com menos de cinco anos de existência, têm estado sob constante ataque. Exemplos disso são as manobras judiciais para considerar como inconstitucionais as cotas para estudantes negros nas universidades públicas; a não implementação da lei nacional da educação que, desde 2003, tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no sistema educacional; a falta de incentivos para a criação de áreas técnicas de atenção à saúde da população negra nos estados e municípios; a desqualificação do direito à terra da s comunidades quilombolas. Os conflitos envolvendo questões como as exemplificadas acima ocorrem apesar da proliferação nos últimos anos de órgãos governamentais de promoção da igualdade racial, tanto no governo federal como nas esferas estadual e municipal. A existência mesma desses órgãos, que marca nossa entrada no mundo das políticas públicas, é freqüentemente colocada em questão pelos setores conservadores. Estes não percebem que estas estruturas governamentais têm que existir, porque nós mulheres e homens negros, comprometidos com os destinos de nosso povo, ainda não temos uma representação político-institucional condizente com o nosso peso na formação deste país. ou seja, porque ainda não estamos proporcionalmente representados na Câmara dos Deputados, nas Assembléias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores. Porque ainda não temos mulheres e homens negros como governadores e prefeitos, como membros do judiciário, que sejam porta-vozes e defensores intransigentes de nossos direitos. A verdade é que, hoje, o debate sobre a questão racial adquiriu uma visibilidade inusitada, por força da ação do Movimento Negro e da reação daqueles (as) que, agora, livres dos limites impostos pela etiqueta racialmente democrática, manifestam suas posições e comportamentos racistas, sem disfarces. E é isso também que explica o fato de nos últimos anos terem crescido assustadoramente os assassinatos de jovens negros, geralmente em conseqüência do racismo institucional. É isso que também explica o fato de que o aumento de nossa presença nas universidades brasileiras, e na Bahia não é diferente, ainda seja acompanhado pelo assassinato intelectual praticado por setores de um professorado majoritariamente branco, que continua negando aos estudantes negros a capacidade de aprender e gerar conhecimentos; que continua estabelecendo uma falsa oposição entre o saber militante e o saber acadêmico, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, aceitam para o grupo racial dominante a possibilidade de constituírem seus próprios intelectuais orgânicos. Em 1997, nos encontramos com cerca de 70 mulheres negras de várias partes do país e, naquela oportunidade, pudemos exercitar formas de conviver com respeito em meio às diferenças. Mais do que isso, pudemos entender que nossa experiência na diáspora africana, nos caminhos traçados pela ação política dos negros no Brasil e nos Estados Unidos é que tornaram possível a convergência das contribuições de Lélia Gonzalez e de Ângela Davis. O potencial transformador daquele momento não se restringiu apenas a quem dele participou – da Bahia, Luiza Bairros, Vilma Reis, Dete Lima e Valdecir Nascimento. Foi capaz de influenciar gerações de militantes que surgiram posteriormente, como no caso de Raquel Barreto, que também foi rapper no Rio de Janeiro, que em 2005 concluiu seu mestrado em História Social da Cultura, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, apresentando um estudo comparado entre Lélia Gonzalez e Ângela Davis, que analisa as experiências e a formação de intelectuais públicas e ativistas da diáspora nos Estados Unidos e Brasil. Como relatei brevemente, a política racial no Brasil hoje é outra; ao contrário da primeira vez, sua nova visita ao Brasil é promovida por uma universidade, onde negras intelectuais orgânicas nem sempre são legitimadas, respeitadas no seu fazer acadêmico. Mas, apesar disso, ou até por isso, acreditamos que sua passagem por aqui será capaz de produzir outros frutos que fortaleçam o nosso existir enquanto mulheres e homens negros aqui, agora e no futuro da luta anti-racista no Brasil e no mundo." * Secretária de Promoção da Igualdade Racial do Governo do Estado da Bahia.

25 de set de 2008

Fátima Oliveira fala ao Estado de Minas sobre as Damas do Sertão

(Por: Carlos Herculano Lopes) "A médica Fátima Oliveira lançou, recentemente, o romance Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras (Mazza Edições), no qual histórias de amor se entrelaçam com a trajetória de tia Lali, sertaneja que tem o dom de cantar incelências, encomendar almas e amparar seus irmãos na hora da morte. "Há carpideiras em todo o mundo. Carpir é um rito de passagem, uma prática da religiosidade popular ainda presente em muitos lugares do Brasil, sobretudo nas regiões suburbanas e rurais do sertão. O choro das carpideiras é um dom e é real. Nada de falsidade, de teatral", afirma a autora a Carlos Herculano Lopes. Carlos Herculano: Como surgiu a idéia de escrever sobre as carpideiras? Fátima Oliveira: A inspiração de um romance é complexa, latente e pulsa na gente, sem que detectemos exatamente de onde vem. É difícil de dizer a hora do clique, da eureca. É uma inquietação que aparece, desaparece... Um vai-e-volta que delicia e também angustia... Que traz alegrias, mas também sofrimentos. É algo que jorra, que brota e vai num crescendo... É um vendaval. E a gente no meio dele, durante todo o tempo em que escreve, aprendendo a ter a flexibilidade do bambu, que enverga, mas não quebra... As benzedeiras, rezadeiras, tiradeiras de benditos e cantadeiras de incelências estão em minha história de vida, com suas doces magias, seus poderes inexplicáveis, seus segredos e mistérios, que dão um ar solene e mágico ao sertão... Prantear um morto cantando "incelência" é um dom, uma arte, uma deferência. Escrevi o romance para compartilhar um aspecto belo, inquietante e envolvente do sertão, que explode na religiosidade das carpideiras, mulheres simples, aparentemente comuns, porém lindas e sensuais, e que adoram perfumes. Carlos Herculano: Sua história se baseou em fatos reais, ou é pura ficção? Fátima O. É uma obra de ficção, na qual, deliberadamente, enfatizei a concepção filosófica de que a vida é travessia, exibindo minhas raízes e vivências sertanejas. É uma história de amor. Fala de amores e de prazeres, ancorado no cotidiano de carpideiras. Todavia, tenho a convicção de que escrevemos sobre o que impregna a nossa mente, consciente ou inconscientemente. Muitos fatos, ambientações, isto é, os cenários descritos e pedaços da própria história podem ter muito de minhas vivências. Não sei dizer quais. Mas não tenho dúvida de que fui inspirada por carpideiras que conheci em minha infância e adolescência; e outras com quem conversei quando escrevia o livro. Todas, mulheres donas de si. Livres. E cheirosas. Muito cheirosas. Carlos H. Em sua cidade natal, Graça Aranha, no sertão maranhense, onde nasceu, você chegou a conviver com as carpideiras? Fátima O. Fui criada tendo medo de alma. Muito medo. Mas em Graça Aranha, ir às sentinelas – a prática de velar os mortos – era uma obrigação. E quem não fosse, era certo que o defunto viria puxar o pé à noite. Era o jeito ir, desde bem pequena. Lá as sentinelas, existem, ou existiam, pois não vou lá há mais de 25 anos, como pontos de encontros. Impressionava-me muito como mulheres, em geral analfabetas, no máximo de "pouca leitura", que falavam um dialeto do português, rezavam ladainha em latim! Quando adolescente ganhei um missal. Em latim, é claro. E tive a oportunidade de conferir que elas falavam era em latim mesmo. Desde então as imagens daquelas mulheres fazem parte de mim. Calos H. Qual é a importância delas em pleno século 21? Fátima O. A carpideira é reconhecida como rezadeira, é vista como portadora de um dom, entendida como uma pessoa que tem acesso a Deus. Logo, tem poderes respeitáveis. Mulher sábia, desvenda mistérios do âmbito do sobrenatural e exerce a função de cuidadora espiritual. Isto é, de protetora. Como decorrência, goza de prestígio. Muito prestígio. É assim em todo o mundo. Nada a ver com acreditar ou não em seus dons. Elas apenas existem. E se impõem com suas presenças imponentes na hora do sofrimento. E mitigam nossas dores. Compreendo que o dom de carpir é parte de uma visão filosófica de que a vida é travessia e o viver é sempre um estar indo". (Mulher sábia, desvenda mistérios do âmbito do sobrenatural e exerce a função de cuidadora espiritual. Estado de Minas, sábado, 20 de setembro de 2008. Caderno PENSAR, página 2).

24 de set de 2008

Cinderelas, lobos e um príncipe encantado, novo longa de Joel Zito Araújo estréia no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro

(Divulgação): "Apesar dos alertas, dificuldades e perigos, jovens mulheres brasileiras ao entrarem no mundo do turismo sexual acreditam que vão mudar de vida e sonham com o seu príncipe encantado. E uma minoria até consegue encontrar um grande amor e casar. O filme CINDERELAS, LOBOS e UM PRÍNCIPE ENCANTADO vai do nordeste brasileiro a Roma e Berlim em busca dos imaginários sexuais, raciais e de poder entre as jovens cinderelas do sul e os lobos do norte. SESSÕES DE EXIBIÇÃO: Domingo, dia 28/9, às 22h30, no Cine Odeon Petrobras Sessão de gala para convidados – dia 28 de setembro, domingo, às 22h30, no Cine Odeon Petrobras. Segunda, dia 29/9, às 10h30, no Cine Odeon Petrobras (após sessão, debate com os realizadores). Obs. Sessão popular a R$ 2,00. Terça, dia 30/9, às 13h, no Estação Vivo Gávea 3. Terça, dia 30/9, às 19h30, no Estação Vivo Gávea 3. PRÍNCIPE ENCANTADO: “Muitas mulheres saem do Brasil levando na cabeça o sonho de conseguir alguém para se casar”, afirma Márcia Cristine de Oliveira, da Associação Curumins. Diario do Nordeste (20/1/2007). ´ELE É MEU NAMORADO!´ "Estrangeiros se aproximam das mulheres utilizando o artifício do namoro para levá-las para se prostituir na Europa".Diario do Nordeste (19/1/2007) "DE FORMA OPOSTA AO QUE ACONTECE NO BRASIL, NA ITÁLIA, E NA EUROPA EM GERAL, SE TEM A IMAGEM DA MULHER E DO HOMEM NEGRO COMO UMA RAÇA SUPERIOR DO PONTO DE VISTA SEXUAL. Então, o fato de ele vir para cá ... é um elemento muito forte que estimula e aumenta a auto-estima da pessoa". (Antonino –Observatório de Turismo Sexual – Natal/ RN) VÍTIMA É FEMINILIZADA. "O relatório Situação da População Mundial 2006, divulgado em julho pelas Nações Unidas, revelou uma tendência à “feminilização” da migração mundial. “As mulheres que estão desesperadas para encontrar trabalho – mesmo que isso signifique relocar-se em outro país – são presas fáceis para traficantes". MILHÕES DE CRIANÇAS SUJEITAS A EXPLORAÇÃO SEXUAL. "Um documento da organização humanitária "Save the Children" (...)revela que 1,2 milhões de crianças são anualmente vítimas de tráfico e 1,8 milhões são vítimas de abusos como a prostituição, pornografia ou turismo sexual". Agência Ecclesia (27/03/2007).

23 de set de 2008

Você tem medo das palavras, Macabéa?

(Por: Glória Azevedo): "Quase nunca vejo TV, mas algumas vezes, para dar ibope à solidão, resolvo zapear por alguns canais e, numa dessas empreitadas, deparo-me com uma escritora sendo entrevistada por uma sorridente repórter no canal Futura. As perguntas eram sobre o processo de criação da autora, os títulos dos livros- muito bons- e a predominância dos contos sobre os romances. Tudo risonhamente respondido. A repórter passa então a falar sobre a narradora, em primeira pessoa, de um livro cujo casal protagonista são duas moças. As perguntas foram clássicas: se não foi difícil narrar em primeira pessoa com uma voz lésbica, se ela não teve medo de ser confundida com uma delas e se ela sofreu algum problema. A sorridente e sofisticada autora falou que antes de escrever o romance reuniu a família: marido e mãe, não chamou o pai porque este já estava morto. Família reunida, ela falou que iria escrever um livro, narrado em primeira pessoa, cujo casal eram duas mulheres, mas que a moça a quem ela daria voz não teria nada a ver com ela. Falou que a mãe retirou-se da sala e que o marido “deu força”, que era o papel dela como escritora (ou seja, o marido a autorizou). Falou também que por causa do livro ela sofreu um certo assédio das leitoras. Tudo isso foi comentado sorrindo e a repórter também sorria, talvez as duas se desculpassem e se justificassem para @s leitor@s do establishment temário brasileiro. A repórter e ela reforçaram a coragem de se criar uma narradora em primeira pessoa, lésbica! E eu, à medida que as ouvia, me espantava: como pode @m escrit@r, achar que tod@s @s mortais leitor@s confundirão narrad@r em primeira pessoa com @ própri@ autor@? Será que isso não é subestimar o poder de abstração e de separação entre ficção e realidade? Tá certo que hoje existem com muita propriedade os estudos sobre a escrita autobiográfica, mas isso são estudos acadêmicos em torno da obra de determinad@ aut@r,só que daí para uma escritora contemporânea ao escrever um romance “ lesbiano” ter que antes quase pedir a autorização da família, já é demais. Estive pensando: e se a autora tivesse criado uma narradora em primeira pessoa que fosse uma assassina, uma corrupta, ladra, serial killer, prostituta, ninfomaníaca, ela teria que comunicar à sua família que iria criar tal personagem e pedir que, pelo amor de Deus, não a confundissem com a personagem? Ela também correria o risco de ser confundida como tal pel@s leitor@s? E porque ser confundida com uma lésbica pode ser constrangedor e vergonhoso? A escritora bem que poderia ter dado um outro rumo à entrevista, poderia ter se posicionado como autora reflexiva sobre as relações sociais e de poder na literatura e na vida. É uma pena que o lesbianismo na literatura ainda seja tabu e que vozes importantes da contemporaneidade reproduzam, sem o perceber, um medo velado de serem confundidas (ou seria insultadas?) como lésbicas. Que bom seria se a escritora, quando da entrevista, tivesse falado no seu livro como processo de ficção atrelado à realidade, que aproveitasse para falar sobre a importância do seu livro ao tratar de um tema tabu, proibido e relegado à invisibilidade na literatura brasileira. Se usasse a entrevista para falar na importância da diversidade de temas das relações amorosas e das identidades na ficção. Se discutisse a construção dessas personagens no seu livro e se tivesse falado como se sentiu gratificada, enquanto escritora, ao ver se aproximarem leitoras surpresas e felizes com a feitura de um livro que aborda as relações amorosas entre mulheres. Mas não, a fala da autora foi um acerto de contas: sou casada, pedi licença à minha mãe e ao meu marido e não sou lésbica. Confesso que quando li o livro não confundi a voz narrativa em primeira pessoa com a própria escritora. E não é porque tenho formação em Letras, trabalho com literatura e leio Bakthin teorizando sobre as vozes do romance. Não confundi porque sou leitora e porque sei que entre voz narrativa e autoria vai uma certa separação e que @ aut@r quando faz autobiografia o faz deliberadamente. Mesmo assim, vale a pena ler o romance: é um livro bem escrito e maduro. excelente ficção, como não poderia deixar de ser. Ah, e se fosse autobiografia,também não seria problema algum, seria tão somente a perfeita problemática literária misturada à realidade. Afinal, é como diz Kafka:"tudo o que não é literatura me aborrece". (Olhos de Glória Azevedo, a autora). www.orisodemedusa.blogspot.com

22 de set de 2008

Ruth Guimarães assume vaga na Academia Paulista de Letras, aos 88 anos

A escritora Ruth Guimarães tomou posse na Academia Paulista de Letras dia 18 de setembro, às 19h, em cerimônia no teatro do colégio Dante Alighieri. Nascida em Cachoeira Paulista, ela foi eleita imortal em 5 de junho. Seu primeiro romance foi "Água Funda", lançado em 1946, Ruth tem, portanto, 62 anos de vida literária ininterrupta. Constam do seu currículo outros 47 livros de contos, pesquisas folclóricas e traduções. "Com o romance "Água Funda", Ruth Guimarães oferece uma intensa e deliciosa viagem pelo universo caipira da fazenda Olhos D'água, localizada em uma cidadezinha do interior mineiro, aos pés da Serra da Mantiqueira. O mundo de atimosfera mágica por onde desfilam senhores e sinhás, contadores de casos, ou causos, e no qual a superstição e o sobrenatural, muitas vezes orientam a vida cotidiana" (apresentação da autora feita por Oswaldo de Camargo, durante debate no Museu Afro Brasil, em 2007). Ruth Guimarães por ela mesma: "Minha formação é totalmente anônima, mergulhada na literatura brasileira, uma literatura sem escolha. Aliás, todos nós brasileiros estudamos literatura de uma maneira desorganizada; a gente lê o que quer, o que gosta, os professores dão um texto aqui, outro ali, nada sistematizado, com um sentido e programação. Quando nós chegamos ao fim, se é que a gente pode dizer ao fim, temos uma espécie de formação mista; assim como somos um povo mestiço, todo cheio de misturas de todo jeito, a nossa literatura também é toda feita de pedaços de textos, de arrumações aqui e ali. Não há nada que nos torne inteiriços, inteiros. Minha literatura é isso também. Eu conto a história da roça, de gente da roça, do caipira. Eu também sou caipira, modéstia à parte. Eu não me importei muito se havia uma tendência, ou se havia uma inclinação para contar a história do preto; como eu também sou misturada, o meu livro é misturado. Como eu sou brasileira, nesse sentido de brasileiro todo um pouco para lá, um pouco para cá, o meu livro também é assim, um pouco para lá, um pouco para cá (...)Nós precisamos saber da raiz negra de onde viemos. A história negra está por fazer,a literatura negra está por fazer, a poesia está por fazer. Eu, depois de velha, resolvi pesquisar e, para isso, eu estou contando e escrevendo histórias, tentando fazer um fabulário brasileiro, não só com pesquisa entre negros, mas entre o povo, todo o nosso povo e, ocasionalmente, quando se faz o estudo aí a gente separa: isso daqui para lá é dos pretos, isto de lá para cá é de todo mundo. Muita gente já fez esses estudos e até descobriram uma coisa muito bonita, muito gratificante para a gente: que todas aquelas qualidades do povo brasileiro, aquele povo igual, alegre, que aceita, que aguenta os trancos, que passa por tudo quanto é ruindade neste mundo, essa qualidade boa, excelente, que faz de nós um povo único no mundo, nós devemos aos negros. Os negros é que são assim, aguentaram e continuam aguentando; não sei se são muito pacientes. Se for medir por mim, porque o homem é a medida do homem, se for medir por mim, essa qualidade de paciência nós não temos. Eu não tenho paciência. Não sou uma criatura paciente, mas sou uma criatura alegre, graças aos meus ascendentes negros. E agora, depois de muito velha, estou fazendo pesquisa e procurando o rastro do negro na nossa literatura de povo e na nossa alegria de contar histórias. "Água Funda" é um livro engraçado, livro da vida de todos os dias, é um livro de acontecências. Qualquer vida dá uma água funda, qualquer um de nós escreve um diário e conta aquelas coisas de todos os dias e vai sair uma água funda. Porque a verdade do livro, a legria, o que o livro tem de bom, de literário, é que ele é um livro de todos os dias, que acontece na vida de cada um. A gente procura o que tem na Água Funda; nada, nem água. Claro, eu aprendi português em primeiro lugar, que é uma coisa que eu receito para os neo-escritores: que façam o favor de aprender português em primeiro lugar para depois escrever sua água funda. Estou sempre brigando por isso, aliás, eu sou professora, sou pela competência; se alguém vai escrever um livro, que leia os bons autores, que estude os bons autores, que assista aos bons filmes, que converse com gente que sabe falar, que viva a sua vida bastante e bem. Viva a vida completamente. Emocionalmente a pessoa tem que estar apta" (excertos de depoimento de Ruth Guimarães concedido ao seminário "Encontro de Gerações", promovido pelo Museu Afro Brasil, em 2007).

21 de set de 2008

"Literatura infanto-juvenil: adeus à infância perversa", nas Quartinhas de Aruá, em Salvador

Lançamento da Coleção: Sankofa - Matrizes Africanas da Cultura Brasileira, no Rio, dia 23/09

(Sinopse): "A Editora Selo Negro, do Grupo Editorial Summus, apresenta os dois primeiros volumes da Coleção "Sankofa - Matrizes Africanas da Cultura Brasiliera". Em A matriz africana no mundo (volume 1), Elisa Larkin Nascimento faz um resumo da pesquisa pioneira de Cheikh Anta Diop e seus seguidores, que comprovam a influência da matriz negro-africana em todo o mundo, desde a Antigüidade até os tempos modernos. O escritor ganense Michael Hamenoo, bem como os angolanos Francisco Romão de Oliveira e Ismael Diogo da Silva, contribuem com análises do legado colonial e da África contemporânea. Elisa Larkin Nascimento e Carlos Moore Wedderburn apresentam uma visão geral das lutas pan-africanas na África e na diáspora americana. Anani Dzidzienyo aborda a questão das relações internacionais entre África e diáspora, focalizando o Brasil. Cultura em movimento - Matrizes africanas e ativismo no Brasil (volume 2) trata do legado cultural e da tradição de resistência dos descendentes de africanos no Brasil. Este livro reúne ensaios e depoimentos sobre várias dimensões e aspectos. Nei Lopes e Beatriz Nascimento trazem uma perspectiva sobre o legado dos ancestrais bantos e malês; Elisa Larkin Nascimento, Joel Rufino e Abdias Nascimento, assinando pelo Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi, esboçam uma pequena história das lutas afro-brasileiras do século XX. A questão da educação no Brasil como tema fundamental da vida e da luta dos afro-descendentes é tema de relatórios de fóruns de educadores que a abordam no seu aspecto teórico e prático. Três educadoras - Vera Regina Triumpho, Silvany Euclêncio e Piedade Marques - trazem depoimentos ricos sobre a sua experiência com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, modificada pela Lei nº 10.639 de 2003". Dia 23 de setembro, às 18:30, no Museu da República, à rua do Catete, 153.

18 de set de 2008

A herança pós-colonial renasce: os branqueadores de pele e as operações para arredondar traços faciais triunfam na Ásia e na África

(Por: Lali Cambra e Ana G. Rojas, de El País; tradução Luiz Roberto Mendes Gonçalves). "A promessa é clarear a pele um ou dois ou três tons. Milhões de mulheres - e cada vez mais homens - de todo o mundo transformaram os cremes que dizem branquear a pele em um filão para a indústria cosmética. Consciente disso, esta os anuncia de forma agressiva e sem rodeios, especialmente na Índia e nos países do Sudeste Asiático, o que lhe concedeu a duvidosa honra de ser acusada de abandeirar uma nova - e multimilionária - vanguarda racista: branco é bonito; negro é vergonhoso. Uma herança maldita, mas ainda em vigor nas sociedades pós-coloniais. Isto é, na maior parte do mundo. Como amostra, um símbolo. O anúncio de White Beauty (beleza branca), um creme da Pond's da filial indiana da Unilever. Priyanka Chopra (na foto à direita), uma das atrizes mais bonitas e famosas de Bollywood, sofre porque seu namorado, Saif Ali Khan, o herói indiano do momento, foi embora com a outra bonita da filmagem, Neha Dhupla. A garota abandonada vai recuperar seu amor quando conseguir ter uma pele mais pálida - graças, é claro, a White Beauty. O desenvolvimento desse famoso triângulo amoroso, anunciado em capítulos na televisão indiana, reabriu o debate sobre a grande obsessão pela pele branca nesse país, cuja maioria da população tem pele escura. "É um escândalo, é um comercial muito racista que aumenta os preconceitos pela cor da pele", diz Subashini Ali, presidente da Aidwa, ala feminista do Partido Comunista da Índia, promotora da campanha contra o comercial. Para Unilever da Índia, "não há intenção de discriminar de maneira alguma. Como empresa valorizamos e respeitamos a diversidade de necessidades e aspirações de nossos clientes", diz seu porta-voz, Prasad Pradhan, que lembra que na Índia se usam tradicionalmente remédios caseiros para branquear a pele, e por isso a companhia só está trazendo um produto que o mercado demanda. Para o professor da Escola de Administração Ross da Universidade de Michigan, estudioso da campanha da Unilever, Aneel Karnani, por sua vez, o anúncio reforça antigos preconceitos, "e não tradições inexistentes". Karnani mostra-se preocupado também pelo sexismo da publicidade - "a mulher tem de estar bonita para satisfazer o homem" -, e lembra que a Unilever no Ocidente comercializa a marca Dove, responsável por uma campanha para "libertar a nova geração de estereótipos de beleza". O anúncio na Índia acionou os alarmes por se tratar de três superestrelas. Mas não é o primeiro nem o único. Os cremes branqueadores enchem as prateleiras das lojas indianas, acessíveis a todos os bolsos, começando desde o equivalente a menos de 1 euro até várias dezenas de euros por um tubo de creme. E a grande maioria tem comerciais deslumbrantes. Uma infinidade de marcas locais, mas também Nivea, L'Oreal, Procter and Gamble, The Body Shop, Avon, Clinique ou Revlon comercializam seus produtos. É que o mercado indiano gasta em "cuidados da pele" mais de US$ 640 milhões por ano, segundo um estudo de mercado da AC Nielsen, uma cifra que não pára de crescer a passos agigantados. Os analistas consultados por El País mostram sua preocupação pela facilidade com que esse racismo global - e seus anúncios - é aceito nos países asiáticos e do Pacífico, entre os quais se destacam China, Japão, Filipinas e Coréia. Neste último, a cirurgia estética nas pálpebras para conseguir olhos arredondados é a mais procurada. Nos EUA, essa operação é a terceira cirurgia estética mais procurada, só depois da lipoaspiração e do aumento dos seios. "Em muitos países asiáticos, ter a pele branca era uma característica feminina, mas hoje, com campanhas agressivas e racistas, também é um sinal de modernidade aceito por toda a sociedade", explica Amina Mire, professora do Departamento de Antropologia e Sociologia da Universidade de Carleton, Canadá. O mercado de branqueadores está, segundo Mire, perfeitamente assentado no continente asiático, o terceiro em lucros depois dos EUA e da Europa (onde são comercializados para mulheres brancas como produtos antiidade ou antimanchas). Para Margaret Hunter, especialista em políticas raciais e de gênero da Universidade Mills da Califórnia, esse novo racismo global, originado por ideologias coloniais (as pessoas de raças mistas de compleição mais branca tinham situações privilegiadas em relação às mais escuras, por ter trabalhos protegidos dos raios de sol) e por um racismo interiorizado nas antigas colônias, e incentivado também por visões de uma nova ordem mundial. Este tem como premissa a exportação por parte dos EUA e de sua mídia da beleza branca e, ocasionalmente, a de mulheres negras de pele clara (e quanto mais clara melhor, vista a recente polêmica criada pelo suposto branqueamento, através do software Photoshop, da pele da cantora Beyoncé em um anúncio da L'Oreal). Em todo o mundo, "na televisão, cinema, Internet ou imprensa se prefere a mulher loura e branca não mais como ideal cultural, mas como imperativo cultural", diz Hunter. Estudos obtidos por ela indicam que nos EUA latinos e afro-americanos de pele mais clara têm maior acesso ao trabalho, status, dinheiro ou para encontrar parceiro(a). Algo que também ocorre na Índia, onde as mulheres mais morenas têm mais problemas para encontrar marido e seu dote encarece. Nas sessões de anúncios de casamento, onde os pais buscam parceiros para seus filhos, a palavra "fair" (pele branca) sobressai em todos os anúncios. "Quero ter uma pele mais branca para ser mais aceito. Assim terei uma namorada mais bonita e meus ganhos aumentarão porque serei mais carismático", diz um jovem visto em um mercado de Nova Déli comprando "Fair and Handsome" (branco e bonito), um dos produtos destinados ao público masculino. Apesar de o desejo de embranquecer a pele cruzar o espectro social, é entre as classes médias e baixas que a indústria tem mais adeptos. Isso é o que mais critica também o professor Karnani: "Os produtos são vendidos para gente jovem e impressionável e para mulheres pobres, às quais vendem embalagens econômicas. É exploração. Isso não é potencializar a mulher, potencializar a mulher é fazê-la sentir-se bem do modo como nasceu, de forma que não sinta que tem de comprar esse produto. E, além disso, à diferença do comprimento do cabelo, de ser mais ou menos gorda, a cor da pele é impossível de mudar". Para outros, a questão não tem nada a ver com supremacia racial: "A obsessão por ser branco na Índia não tem viés racista, é só um conceito de beleza, todo mundo quer o que não pode ter", diz uma estudiosa de comportamento do consumidor em Nova Déli, que prefere não dar seu nome. Esse aumento no consumo de cosméticos não se limita aos subcontinente indiano e ao continente asiático. Nos EUA também se pratica, embora em menor medida, devido ao vigor do movimento pelos direitos civis entre a população negra. Segundo Amina Mire, assim como na África "onde o branqueamento foi associado à opressão colonial branca e os que o praticam são acusados de ter complexo de inferioridade, de se odiar. Por isso é praticado às escondidas". Como branquear a pele é motivo de vergonha, os produtos são vendidos clandestinamente. "A África é o lixo dos cremes tóxicos, portanto mais baratos", afirma Mire, que acrescenta que como as pessoas os usam às escondidas só chegam ao médico quando os produtos tóxicos já causaram danos às vezes irreparáveis. Tanto Mire quanto Hunter lembram que muitos países africanos proibiram o uso de determinados produtos por seu risco à saúde (em 2004 a Tanzânia proibiu 83 marcas diferentes, embora em muitos países continuem sendo encontradas sem dificuldade em mercados ou em vendedores ambulantes) e realizaram campanhas para promover a beleza estética africana, o que, segundo Hunter, é "um trabalho crucial, já que a mensagem de superioridade branca satura o mercado".

17 de set de 2008

Projeto cria Universidade Luso-Afro-Brasileira

(Da Agência Câmara). "A Câmara analisa o Projeto de Lei 3891/08, do Executivo, que cria a Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab). O objetivo da instituição será formar recursos humanos que possam desenvolver a integração entre o Brasil e os demais países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), especialmente os africanos. Além do Brasil, integram a CPLP: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. A Unilab será instalada na cidade de Redenção (CE), a 63 Km de Fortaleza. Redenção foi a primeira cidade brasileira a libertar todos os escravos, em 1883. Atualmente, a cidade tem cerca de 26 mil habitantes, segundo dados da prefeitura. De acordo com a proposta, a instituição de ensino superior deverá pautar sua atuação pela cooperação internacional e pelo intercâmbio acadêmico e solidário com países membros da CPLP. Seleção e cursos. Os cursos da Unilab serão ministrados preferencialmente em áreas de interesse mútuo do Brasil e dos demais países da CPLP, com ênfase em temas que envolvam formação de professores, desenvolvimento agrário, processos de gestão, saúde pública, entre outros. O processo de seleção dos alunos, para o qual poderão se candidatar cidadãos de todos os países da CPLP, deverá garantir concorrência em igualdade de condições para todos os candidatos. Esses princípios também nortearão o processo seletivo do quadro de professores da Unilab, com seleção aberta para profissionais de todos os países. Cargos e custos. De acordo com o Executivo, a implantação da Unilab está estimada em R$ 189 milhões para as despesas com pessoal e custeio. A proposta prevê a criação de 358 cargos efetivos, que serão preenchidos por concurso público. Serão 150 professores, 69 técnicos administrativos de nível superior e 139 técnicos administrativos de nível médio. Depois de preenchidos todos esses cargos, o governo estima, a partir de 2012, despesas com pessoal de R$ 38,628 milhões. O projeto prevê ainda a criação de 37 cargos de direção, incluídos os de reitor e vice-reitor, e 130 funções gratificadas. Para esses cargos, o governo estima impacto orçamentário de R$ 3,160 milhões. Tramitação. O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Educação e Cultura; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. " Íntegra da proposta: - PL-3891/2008.

12 de set de 2008

Griô Produções e programa Latinidades, na TV de Brasília

(Informe publicitário) "Atenção, atenção senhoras e senhores! No dia 12 de setembro estréia o programa Latinidades, que será produzido pela Griô Produções www.grio.art.br e transmitido, ao vivo, pela TV Cidade Livre. Latinidades é uma casa latino-americana, cheia de cores, ritmos, sabores e idéias, onde as pessoas se encontrarão infalivelmente. Também um espaço para debate e circulação da produção cultural independente da América Latina. E, por que não, oportunidade pra mostrar quanta latinidade tem no sangue de brasileiras e brasileiros e alimentar, assim, o sentimento de pertencimento e identificação com a cultura do continente. Além de dar visibilidade ao mosaico cultural de diversidades que gritam pela América Latina, Latinidades vai levantar importantes debates sobre políticas públicas culturais, financiamentos, produção independente, circulação dos produtos culturais, visibilidade às iniciativas de cooperação cultural, entre outras questões correlacionadas. E, já que a primeira edição do programa será no mês de setembro, quando comemoramos, no Brasil, a Proclamação da Independência, Latinidades traz o debate Independência ou Morte. Vamos falar de questões que permeiam o universo de produtoras e produtores de cinema, teatro, artes plásticas, música e literatura em torno do tema produção cultural independente. Latinidades tem produção Griô, apresentação Camila Guerra, Chaia Dechen e Jaqueline Fernandes. Vinhetas e créditos Ignore Por Favor e Chaia Dechen e trilha sonora de Márcio Hofmann. Latinidades veste Negress e as cabeleiras são feitas por Mel.alina Brads, Priscila Portugal. O programa será ao vivo, todas as sextas-feiras, às 16h30min na TV Cidade Livre, canal 8 da net. Você também poderá acessar Latinidades, em tempo real, pelo site www.tvcomunitariadf.com.br. A TV Cidade Livre é um veículo de comunicação democrático, sem fins lucrativos e voltado à participação da sociedade na televisão brasileira. A Tv oferece uma programação alternativa e revolucionária. Para contribuir com o direito de liberdade de expressão e promoção da cidadania, busca o apoio dos diversos segmentos da sociedade. Griô produções é uma produtora social que tem como missão estimular a produção cultural, dando visibilidade aos artistas nos meios de comunicação. No âmbito internacional busca aproximação com os demais países latino-americanos, na perspectiva de integração e intercâmbios. Formada por mulheres, Griô Produções trabalha também no sentido de dar visibilidade à força feminina manifestada nos palcos, nas ruas, no dia-a-dia, na construção social." informações: 55 61 85714531 Jaqueline Fernandes; 55 61 81680291 Chaia Dechen; grioproducoes@gmail.com Quando a conheci, Chaia tinha uns 18 ou 19 anos, estava começando um curso universitário, morava em Londres (onde nasceu e foi criada pela mãe brasileira)e sonhava vir morar no Brasil e produzir audiovisuais. Depois vi sua passagem relâmpago por um coletivo de Artivismo no DF (Aquilombando) e agora vem essa boa notícia da produtora. Fico muito feliz em ver gente jovem concretizando sonhos e desejo vida longa à Griô.

10 de set de 2008

Ressonâncias de uma resenha

Transcrevo abaixo os comentários enviados por leitores(as) sobre a resenha que fiz do "Encontros na travessia"...,livro da Fátima Oliveira, publicado também no sítio literário Lima Coelho. Fiquei bastante contente e agradeço a generosidade das mensagens. Precisamos divulgar nossas produções, se não o fizermos, ninguém o fará por nós. Cidinha, que fôlego! Comentário Enviado Por: Jorge Em: 08/9/2008. Escrevi no Blog da Cidinha: Cidinha querida, gracias! Quanto a: "Sou obrigada a dizer que duvido do cumprimento da promessa feita na dedicatória, embora promessa seja dívida. A obra é dedicada ao neto e à neta da autora que reclamam do tempo excessivo despendido pela avó no computador. Ela os tranqüiliza e assegura que não a disputarão mais com a máquina, ou, 'com nenhum livro', pois sente que 'Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras' é o livro que sonhou escrever. Diz ela: 'É meu legado de fragmentos da memória cultural da gente simples e do cantar dos grilos do sertão que eu desejo que um dia vocês aprendam a amar.' Não sei não." (...) Cidinha, a Brígida é uma personagem linda e corajosa demais para uma pobre mortal, como eu, se aventurar pelo que ela carrega no peito e na mente. Porém eu a conheço muito. Ela foi inspirada numa mulher que conheci, cuja história de amor é a mesmíssima. O povo do sertão convivia bem com ela e sua amada. Jamais vi qualquer pessoa pedir explicações. Era natural aquelas duas mulheres vivendo juntas e criando a filharada de ambas. É que as mulheres que conheci possuíam uma renca de filhos. Acho que cinco de uma e quatro da outra.7/9/08 20:07 Comentário Enviado Por: Fátima Oliveira Em: 08/9/2008. Imagine se não vou querer ler este livro. Cidinha, que resenha maravilhosa!Comentário Enviado Por: Rogéria Bezerra Em: 08/9/2008. Cara Cidinha, a tua resenha só engradece o livro de Fátima Oliveira. Livro bom, já aprendi a duras penas', é aquele que, por um outro motivo, leitores se sentem tentados a desejar que não acabe, ou querem dar mais presença ou fôlego a algum dos personagens. O seu caso com a Brígida . Estou ansioso para ler o livro.Comentário Enviado Por: Fabrício Moraes Em: 08/9/2008. Estamos em outro plano literário! Inauguramos outro tempo na escrita que compromete em dizer com arte a experiência do nosso povo! Bela resenha! Realmente, quem lê o livro fica contente em poder compartilhar de toda essa humanidade das carpideiras. O projeto civilizatório hegemônico insiste no engessamentos do afeto, do desejo e das crenças, mas a humanidade é complexa e resiste em todos os tempos! As carpideiras são expressões dessa resistência. Rezam com muita fé uma “incelência” que as Igrejas da matriz judaico-cristã continuam tendo dificuldade em compreender, pois o que prendem no seu sentido é mesmo essa força avassaladora de uma humanidade plural. Adorei ler a sua resenha, porque amei ler o livro de Fátima Oliveira e escrever o prefácio! Parabéns, Cidinha! Comentário Enviado Por: Erisvaldo Pereira dos Santos Em: 07/9/2008. Já estou com o meu exemplar nas mãos. Estou lendo aos poucos e um dia comentarei a "jóia" com bastante vagar. A resenha de Cidinha está perfeita. Desde já concordei com uma afirmação: Fátima não vai cumprir a promessa de parar. Vai ficar devendo mais esta aos netos. Muito bem, Cidinha. Perfeito o teu texto-resenha.Comentário Enviado Por: Leila Jalul Em: 07/9/2008. Parabéns Cidinha. Achei uma resenha emocionante. Comentário Enviado Por: Maria do Rosário Almeida Em: 07/9/2008. Excelente resenha. Comentário Enviado Por: Patrícia Barbosa Em: 07/9/2008. Sensacional! Comentário Enviado Por: Marta Ferraz Em: 07/9/2008. Cidinha, que resenhista maravilhosa é você! Comentário Enviado Por: Joelma Cabral Em: 07/9/2008. Cidinha, a tarefa pode ter sido complexa, mas você estourou a boca do balão, minha querida. Parabéns.Comentário Enviado Por: Charles Lamounier Em: 07/9/2008. Graaande Cidinha! Comentário Enviado Por: Beth Lobo Em: 07/9/2008. Que lindeza de resenha. Comentário Enviado Por: Helenice Freitas Em: 07/9/2008. Puzt, que resenha Cidinha. Eu juro que vou ler este livro. Comentário Enviado Por: Lúcia Viana Em: 07/9/2008. Cidinha, a autora do livro, Fátima Oliveira é arretadíssima, mas a resenhista não fica atrás. Como gostei! Comentário Enviado Por: Brenda Lucchesi Em: 07/9/2008. A resenha de Cidinha da Silva sobre o livro de Fátima Oliveira é simplesmente genial. Ela não esgota o assunto mas incentiva a busca pelo livro. Dá vontade de ler o trem chamado “Reencontros na Travessia: a tradição das carpideiras” depressinha, antes que esgote. Comentário Enviado Por: Eurico de Andrade Em: 06/9/2008.

9 de set de 2008

E vai rolar a festa... espero por vocês na USP, dia 11/09!

Cada tempo em seu lugar

(Música de Gilberto Gil - trechos) - (...) "Agora deve estar chegando a hora de ir descansar / Um velho sábio na Bahia recomendou "Devagar" / Não posso me esquecer que um dia / Houve em que eu nem estava aqui / Se eu ando por aí correndo, ao menos / Eu vou aprendendo um jeito de não ter mais aonde ir / Ô-ô,ô-ô / Cada tempo em seu lugar / Ô-ô,ô-ô / A velocidade, quando for bom / A saudade quando for melhor / Solidão: / Quando a desilusão chegar".

8 de set de 2008

Sobre o contador de visitas 2

Dia 05 de setembro de 2008 o contador de visitas completou dois meses de instalação no blogue e 5.668 visitas. Até aquele momento tínhamos a média de 95 visitas por dia, embora individualmente, desde o dia 15 de agosto estejamos tendo mais de 100 visitas diárias, alcançando 160 como teto. Esse número significativo de acessos deve-se, seguramente, aos sítios literários e outros para os quais escrevo, aos amigos e amigas que, generosamente, conectam meu blogue aos seus respectivos blogues e sítios, aos leitores e leitoras dos meus livros, diletos acompanhantes da minha produção no blogue, e aos professores, professoras e estudantes que acessam meu blogue como fonte de pesquisa. A vocês todos(as) agradeço pelo carinho, constância da presença e apoio na divulgação. Em resposta a uma pergunta freqüente, digo que não escrevo todos os dias, mas procuro postar uma matéria a cada dia. O método de trabalho adotado facilita a seleção de algum material de gaveta, a partir da leitura semanal de jornais e revistas, na Internet e impressos, da grande imprensa e da imprensa alternativa. Esses textos são postados paulatinamente, com o objetivo de informar meu público-leitor sobre os temas artivistas que me empolgam ou convocam à uma tomada de posição. Nesse ínterim, escrevo e burilo meus próprios textos: artigos de opinião, resenhas de livros e notícias relativas à minha trajetória literária. É certo que gostaria de escrever mais, bem mais, mas o tempo não me permite fazê-lo com a qualidade desejada, então opto por escrever menos, reescrever e editar a cada leitura, mesmo que o texto já esteja publicado. Adoto a perspectiva de que “menos é mais” para não embaçar os olhos de vocês com textos atravancados e mal escritos, porque feitos às carreiras, sem tempo para descansar e revisar. É que fazer literatura se assemelha a fazer pão. Você sova, sova, mas a massa exige descanso para crescer e conquistar a forma e beleza desejadas.

6 de set de 2008

Um encontro com Fátima Oliveira

É tarefa complexa resenhar o livro “Reencontros na Travessia: a tradição das carpideiras”, segundo romance de Fátima Oliveira, e dizer coisas fundamentais sobre a obra, depois do excelente prefácio de Erisvaldo Pereira dos Santos. Ela, doutora das Ciências Médicas, ele, doutor das Ciências Humanas. Mas, do que trata a boa Medicina, senão do essencialmente humano? Inicialmente, observo que o objeto-livro “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” é muito bem cuidado, bonito, gostoso de ver, além de despertar a vontade de folhear. O livro traz uma peculiaridade, a orelha foi escrita pela própria autora. A escolha parece indicar que ela, Fátima Oliveira, poderá apresentá-lo melhor do que qualquer outra pessoa. Corajoso, isto, pois existe uma linha tênue entre a propriedade e a arrogância. Fiquei com a sensação de que Fátima demarcou, por este caminho, o caráter intimista do texto – que não deve ser compreendido como sinônimo de autobiografia. Fátima desdenha o risco de “explicar o texto” ou tentar completá-lo, como se ele não tivesse dito tudo o que tinha a dizer por si mesmo e anuncia o romance, introduz o tema, convida o leitor e a leitora a promover certos olhares, a atentar para o fundamento do bendito “tirado”, para a incelência cantada por ela ao escrever esta obra deliciosa. Sou obrigada a dizer que duvido do cumprimento da promessa feita na dedicatória, embora promessa seja dívida. A obra é dedicada ao neto e à neta da autora que reclamam do tempo excessivo despendido pela avó no computador. Ela os tranqüiliza e assegura que não a disputarão mais com a máquina, ou, “com nenhum livro”, pois sente que “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” é o livro que sonhou escrever. Diz ela: “É meu legado de fragmentos da memória cultural da gente simples e do cantar dos grilos do sertão que eu desejo que um dia vocês aprendam a amar.” Não sei não. Suponhamos que Brígida, por exemplo, personagem riquíssima e pouco explorada, apareça à Fátima em sonho e reapareça outras vezes cobrando um tratamento mais detido, um conto. Duvido que Fátima teime. Brígida e sua história são irresistíveis, quanta humanidade, dor e amor, encerram: sertaneja casada com um sertanejo tem com ele quatro filhos, apaixona-se por uma mulher e o coração não lhe deixa outra opção, senão, viver aquele amor. Deixa o marido e os filhos e vai amar por inteiro a mulher amada. Vivem a felicidade possível, por vários anos, até que a mulher amada se apaixona por outra e, desta vez, é o coração da amada de Brígida quem impõe outro caminho. E ela vai viver integralmente o novo amor, deixa Brígida sozinha (abandonada à própria sorte?) e assume todas as responsabilidades pela nova amada, que a família espanca quase à morte ao dar-se conta do proibido. Depois do troca-troca, a mulher-foco do amor de Brígida e da outra, escolhe relacionar-se com ambas. Em casas separadas, pelo menos. Fátima Oliveira tem uma dívida com Brígida e um compromisso com os netos (me lembra minha consciência). Acordo firmado com criança é coisa da maior seriedade. Mas Brígida insistirá, percebi a tenacidade dela. E que marido seria aquele que não matou a mulher para “lavar a honra”, como ainda hoje é costume? Parece-me também uma personagem interessante. E a relação de Brígida com os filhos? Quem compreendeu? Quem a destratou? Quem continuou a amá-la? Lá na frente, uma das filhas de Brígida comparece ao casamento de Cacá, trabalha na festa ao lado da mãe, é uma pista, mas e os outros três? E como será o sentimento de passar de “matriz à filial”, experimentado por Brígida, para usar expressão da própria narradora? Tudo isso vivido no grupo das carpideiras, naquele cotidiano miúdo de novenas, umas nas casas das outras. Santas deusas dos Grotões dos Bezerras é matéria ficcional rica por demais para ser desperdiçada. Brígida merece mais do que um conto, merece uma novela, um romance. E se o compromisso com os netos falar mais alto, olha que roubo o argumento e crio uma história do meu jeito. Na construção do texto literário, Fátima não é abandonada pela mulher de Ciência que é, pelo olhar investigador, antropológico, documentarista. Opta por explicitar suas fontes de pesquisa (jornais, livros, Internet), as mais das vezes apresentadas como investigação feita pelas personagens e com literais notas de rodapé. Vai que alguém se interesse em pesquisar as carpideiras por métodos científicos que desemboquem numa monografia, dissertação ou tese? Nunca se sabe. Por outro lado, a atitude não deixa de configurar uma planta baixa do romance, expressão emprestada de Autran Dourado, que detalha ao leitor o método de trabalho da autora, seus caminhos, a orientação do foco narrativo das personagens, dentre outras escolhas. Fátima, como autora, também se mostra uma “mulher de ciência”, no sentido da sabedoria popular, uma mulher que sabe das coisas, pois, com habilidade de bordadeira, aprendida com Chiquinha de Dorinha, Mariana de dona Socorro e Zuleide, suas personagens, põe o conhecimento sistematizado, fruto do uso de métodos investigativos de comprovação da realidade, a serviço da validação e da documentação da Ciência do Povo. Mais do que nunca, compreendo a escolha do prefaciador: um doutor em educação, professor universitário e sacerdote de religião de matriz africana, um homem de muita ciência sobre o nascimento e a morte. Eta, Fátima Oliveira arretada! A divisão dos capítulos do livro é muito feliz e ajuda quem lê a organizar todas as informações oferecidas. Encantou-me, particularmente, o “Na trilha das carpideiras e dos rituais de carpir”, não tanto pela documentação da presença da arte de carpir em várias cidades do Brasil, mas pelo detalhamento da vida e da personalidade de cada carpideira do grupo (irmandade) de mãe Lali. No todo da obra, há um clima de sensualidade bem urdido e mesclado com outras tantas expressões de amor. A história é bem narrada, os conflitos internos abundam, diálogos se entrecruzam e tudo se resolve de maneira criativa e bem articulada sob a batuta da autora, apaixonada pela obra que escreveu, mas que conseguiu manter a lucidez ao escrever, ao contrário do que costuma acontecer quando entramos no alfa da paixão. Deve ser por isso que li em algum lugar, um depoimento de Fátima dando conta de que a personagem Cacá, em vários momentos, chocou sua moralidade. Para nossa sorte, Fátima é Lúcida e Cacá desvairada. Quanto ao capítulo “As primeiras cenas da Grotões dos Bezerras Filmes”, há problemas de estrutura. Nota-se a existência de cortes que não foram bem suturados, criaram-se vazios e passagens abruptas no texto que merecem ser corrigidos. Nos três capítulos seguintes, últimos do livro, há declarações de amor variadas: de Cacá para Pablo e vice-versa – o casal apaixonado do romance; de pais para filhas e destas para os pais - nesse momento do texto, as figuras masculinas, mais discretas, sempre, crescem maravilhosamente em sua humanidade -; do homem e da mulher para a terra, para o sertão que vive neles e no qual vivem. Há também demonstrações comoventes de respeito, valorização e promoção dos saberes de outrem; solidariedade entre as pessoas, lealdade a princípios, valores e às pessoas, com o compromisso inarredável de promover dignidade em suas vidas. Não bastasse a beleza e humanidade dos capítulos finais, estes se prestariam também a ser utilizados como cartilha pelo vasto contingente de pessoas que trabalham com a idéia de voluntariado nas empresas e na sociedade civil. É que Cacá, por meio de seu exemplo de gestão, ensina como se faz. Ela oferece o melhor de si para o povo de Grotões dos Bezerras. É uma artista e como tal, ajuda o povo a reconhecer, valorizar e transmitir sua arte aos mais novos, garantindo, inclusive, as condições materiais para que a transmissão de conhecimento ocorra e os talentos emerjam. Cacá dá os exemplos fundamentais junto com as receitas de comidas típicas dos Grotões dos Bezerras e do povo simples do sertão, é só seguir.

5 de set de 2008

Paulina Chiziane e uma visão critico-moçambicana do acordo ortográfico da Língua Portuguesa

(Do Caderno Cultural de Maputo, por Gil Felipe) "O ACORDO Ortográfico da Língua Portuguesa é um instrumento regulador na escrita do idioma oficial de Moçambique e sete outros países membros de uma organização que comunicam entre si em português. O documento foi assinado a 16 de Dezembro de 1990 por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, mas não podia entrar em vigor por não ter sido ratificado por todos os países. Porém, numa cimeira da CPLP havida em Brasília, em 2002, foi aprovada uma alteração aos estatutos que permitem a entrada em vigor de qualquer acordo desde que seja ratificado por pelo menos três países, passando a vigorar nesses Estados-membro, o que fez com que, até ao presente, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe tenham aprovado quer o Acordo Ortográfico quer o respectivo Protocolo Modificativo, estando oficialmente em vigor nestes três países desde Janeiro.Moçambique já prometeu ratificar o acordo, em finais do ano passado (2007), faltando saber precisamente quando é que o fará. Apesar de não haver avançado datas, ficou claro que o Governo moçambicano não colocará entraves ao “sim” à alteração da ortografia do português no nosso país. Ora, esta eminente aceitação do acordo pelas autoridades moçambicanas levanta algumas preocupações na nossa sociedade, uma vez que este acordo é, em si, uma fonte de desacordo no seio dos Estados-membros da CPLP. Recentemente entrevistámos a escritora Paulina Chiziane, que, tal como muitos moçambicanos, tem na actual ortografia do português um instrumento fundamental para passar as suas mensagens. Sobre o acordo em si, a autora que tem como mais recente livro o romance “O Alegre Canto da Perdiz”, afirma que “é algo confuso”. “O acordo ortográfico apenas me cria confusão. Eu defino a língua portuguesa como a minha viola e com ela quero tocar as músicas que quero. Se tenho que tocar com regras fixas ou se tenho que me adaptar, acho que isso é um problema menor. O acordo em si consiste, no fundo, em tirar o ‘c’ do facto ou o ‘p’ do óptimo. Se for só isso é pode ser um problema menor. Mas o que me preocupa são os efeitos colaterais dessa corrida por um acordo ortográfico”, comenta a escritora, questionando de seguida: “quantos dicionários Moçambique terá que comprar de novo? Quantos livros terá que mandar rescrever? Quantos livros de escola terão que ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que valerá a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um ‘c’ e um ‘p’ do que está escrito?” A escritora diz não recear problemas – se se confirmar a alteração ortográfica – em adaptar-se a novas regras. Contudo, convida a sociedade, a começar pelos centros de decisão do nosso país, para repararem nos efeitos colaterais de uma aceitação de um instrumento que mesmo em Portugal não colhe consenso. “Esteticamente não me afecta muito mudar de ortografia, porque será apenas uma questão de adaptação. Olhemos bem para o que temos como acervo literário do país. Teremos que trocar tudo! Tudo, incluindo os livros que os miúdos têm nas bibliotecas ou que os pais os guardam ou mesmo as Bíblias, que são lidas por vários milhões de nós, só por causa de um simples acordo ortográfico. Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”. A recomendação de Paulina Chiziane para os centros decisórios do país em relação ao acordo ortográfico é de que se pense “no que é bom para o nosso bolso, para os cofres do Estado, porque não há cooperação que vai suportar este capricho”. A nossa entrevistada denuncia o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa como uma bola que está a ser jogada a dois eixos do Atlântico: Portugal e Brasil. “É claramente a estes dois países que este assunto interessa. Nós não nos deveríamos concentrar nisso, porque temos muito mais com que nos preocupar. Nós e os outros (países da CPLP, exceptuando lusos e brasileiros) estão a ser arrastados. Quem é que quer ser dono de quem?”, indaga. “O projecto da lusofonia é do nosso antigo inimigo comum, mas de repente aparece o Brasil com muito mais força, porque tem também os seus interesses. É de facto um jogo de potências para o qual não sei se nós, como moçambicanos, de uma maneira geral, estamos preparados para participarmos nela. Acho que somos demasiado pobres para perdermos energias com isso, quando devemos fazer muito mais”.Se tivesse que escolher, Paulina Chiziane não defenderia exactamente a manutenção da actual ortografia, “porque aceito o direito que a língua tem para evoluir e não podemos parar no tempo”. Está contra – clarifica – “fazer um acordo porque algum sector acha que se tem que tirar, como já disse, um ‘c’ ou um ‘p’ de determinadas palavras. E contra a atitude dos governantes em embarcar nessa sem a necessária avaliação dos efeitos colaterais”. PORQUE É QUE TENHO QUE SER LUSÓFONA? Um único instrumento aparentemente une os países que fazem parte da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), o idioma que todos eles têm como oficial. Erradamente, se tem dito que se trata de uma comunidade de mais de 200 milhões de falante. Errado porque, por exemplo em Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, nem todos têm o português como “sua” língua. Ou seja, o idioma luso não é usado na comunicação pela totalidade dos seus habitantes. Só no nosso país, estimamos que, pelo menos, 30 por cento dos cerca de 20 milhões de habitantes que somos não tem domínio da língua portuguesa. Polémica dos números à parte, Paulina Chiziane é uma cidadã céptica quanto ao andamento e utilidade da CPLP. “Quando ouvi falar da CPLP antes pensei que era uma coisa bonita, mas hoje cada vez que me falam, falam-me também da lusofonia e por isso chamam-nos cidadãos lusófonos. Eu já sou africana, sou moçambicana, ainda vou ser lusófona? O que é isso? O que é que é que estas organizações querem? Não sei”.A escritora afirma recear que esta organização e outras similares venha trabalhar na recolonização de uma mente que já está colonizada. “Quando se está na lusofonia, é preciso falar lusofonicamente. Se eu e o meu povo não sabemos falar o luso, como é que vamos falar lusofonicamente? Então, não gosto muito e tenho medo destas instituições”, sublinha. “Dizem que sou escritora e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance. Eu apenas conto estórias”. Estas palavras pertencem à escritora que mais livros ofereceu à literatura. Mas a qual literatura? Moçambicana? Não, não, porque esta ainda não existe, segundo Paulina Chiziane. “Não penso que possamos dizer que temos uma literatura moçambicana, ou seja que se identifique como tal. Nós estamos todos os dias à procura de estéticas de isto ou daquilo para escrevermos ou para abordarmos a literatura. Os nossos modelos de aprendizagem ainda são os europeus. Até que ponto nos esforçamos por fazer reviver a estética tradicional moçambicana?” Este questionamento é resposta a um outro, que colocámos a Paulina Chiziane, sobre a literatura moçambicana. “Esta não é uma crítica que faço aos outros, pois eu também sou alvo dela. Reparemos numa coisa: a música é diferente da escrita, porque o músico, pelo menos, canta na sua língua”, explica a escritora, segundo quem “para você poder ser bom na literatura, salvo algumas e raras excepções, tem que escrever em modelos de A, ou de b, ou de C. Ora, bolas, que eu saiba, na nossa estética tradicional, quando se vai contar um grande conto, primeiro começa-se pelos ditados ou provérbios, etc. Essa é a estética da minha terra. Eu sou muitas vezes criticada e os meus críticos dizem e escrevem que ‘a Paulina escreve coisas que não têm forma’. E eu pergunto, forma de quê? Já foi muito bom eu aprender a ler e a escrever uma língua que não é originariamente nossa”, comenta. Na opinião desta proeminente escritora, os autores moçambicanos e muitos outros de outros países africanos – de expressão portuguesa e não só – têm, ainda que de forma inconsciente, escrito em modelos que lembram os europeus. Defendendo a ideia de que a literatura moçambicana é algo que ainda está por nascer, “porque os nossos escritos não nos identificam suficientemente como moçambicanos, fora as histórias que contamos”, Paulina Chiziane é de opinião que se devia investir na criação de um modelo de escrita nosso, baseado, por exemplo, na forma como são apresentados os contos orais. “Escrevemos na língua do outro, na estética do outro e ainda não investimos na busca da nossa própria estética. Atenção, eu própria estou inclusa nesta crítica”. “Não tenho muitas boas palavras para explicar bem o que quero dizer, mas posso dar o exemplo de uma viola: é um instrumento europeu, ao alcance de qualquer indivíduo no mundo. O chinês compra-a e faz acordes chineses, portanto que o identificam. O moçambicano compra-a e faz acordes ou chopes, da marrabenta ou de todas as outras coisas que nós somos na música. O árabe idem, dedilhando o seu som”, comenta. “Neste momento a nossa viola é a língua portuguesa. O que é que nós fazemos com a língua portuguesa em Moçambique? Eu escrevo na língua portuguesa e ainda me pedem para usar a estética da escrita da língua portuguesa. Por amor de Deus!”, desabafa a autora, que se considera escritora, mas que, segundo ela, ainda não atingiu maturidade para chamar-se a si mesma escritora moçambicana."

4 de set de 2008

O poder humanizador da poesia

Vem sendo veiculado pela TV Senado, programa literário de entrevista com a escritora Adélia Prado, gravado em São Paulo, dia 06 de agosto passado. Estive lá e não consegui entrar, sala pequena e gente demais pleiteando um lugar. Assisti pelo telão e socializo agora minhas anotações. Antes, contudo, confidencio-lhes que conheci Adélia quando tinha uns 18 anos. Cheguei em casa num domingo à noite, liguei a TV e lá estava ela, a entrevistada de um programa da extinta Rede Manchete, chamado Persona. Roberto D’Ávila o apresentava naquele formato de sempre, que só muda de nome e de canal televisivo. Não é uma crítica, só um comentário, afinal, o entrevistador é ótimo e a fórmula se mantém porque é boa. Bem, aquele belo rosto redondo tomava conta da tela e a boca dizia um poema que me marcou para a eternidade: “quando nasci/um anjo anunciou/vai carregar bandeira/fardo pesado pra mulher (...) vai se coxo na vida/é maldição pra homem/ mulher é desdobrável/ eu sou.” Eu que não consigo decorar nada, nem o que escrevo, guardei aqueles versos como prece. Nunca mais fui a mesma. Durante a semana seguinte toca a procurar o livro da Adélia nos sebos, Bagagem. Encontrei, comprei e li, reli, li, reli e quedei-me irremediavelmente apaixonada por ela. E decorei trechos de outros poemas, disponíveis em meus arquivos mentais até hoje. Assisti palestras, conferências, “Dona Doida”, encenada pela Fernanda Montenegro, mas só vi Adélia de pertinho, muitos anos depois. Foi no ano passado, durante a apresentação de uma peça sobre obra do Mia Couto, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Acompanhei o Pablo e a Mazza, da Mazza Edições. O coitado do Pablo deve ter ficado com o braço roxo, tal a força com que o cutuquei para, muda, apontar Adélia Prado que passava. Superada a dúvida dilacerante – ir ou não ir, incomodar ou não um ídolo num momento de gente comum – assumi meu papel de fã e fui até lá entregar a ela um exemplar do Tridente, antes do programa da noite começar, logicamente. É dispensável contar minha falta de jeito para abordá-la, coisa de fã idiota. Por fim, deixei o livro e voltei ao meu posto trupicando nas pessoas que lotavam a sala e de lá fiquei olhando Adélia a folheá-lo. Mas, descontado meu nervosismo, a culpa dos tropeços não foi minha, a sala era horrivelmente desconfortável. O Mia Couto que também estava lá, quando deu umas palavrinhas de saudação à platéia e louvor ao grupo de teatro, apresentou Adélia, agradeceu presença tão distinta, falou do quanto gosta da literatura Adeliana e só aí, um monte de gente desavisada se deu conta de que aquela respeitável senhora era Adélia Prado. O panfleto de divulgação da entrevista que assisti há algumas semanas dizia: “Ler Adélia Prado é um presente. Ouvir Adélia Prado falando sobre 'o poder humanizador da poesia' é uma oportunidade rara.” Assino em baixo. Quem tiver a chance de assistir o programa pela TV Senado, faça-o, vale a pena. (Trechos da entrevista): A arte se justifica pela poesia que contém (...); Quando em arte se fala de beleza, fala-se da forma, não da boniteza. Arte é para a inteligência do coração, não para a nossa inteligência lógica (...); A forma não é o que está se mostrando, mas o como se mostra (...); Qualquer coisa é a casa da poesia, ela pousa onde lhe apraz (...) Toda obra me oferece um espelho, faz com que eu me reconheça nela. A obra de arte dá significação e sentido à minha vida. Nós somos finitos, a obra de arte, não; ela não passa. A obra de arte segura o tempo para nós. Somos fragmentários, o que mais nos aproxima do todo, da unicidade, enquanto estamos vivos é a obra de arte. A arte procura a beleza que se revela. Há pessoas que vão olhar as flores e o céu estrelado depois de tê-los visto no poema (...); Nada mais comum em nós do que nossos afetos (...); A retórica é quando a expressão do sentimento é maior do que ele. Você diz tanto que ama que a pessoa desconfia (...); Quem tem a cabeça nas nuvens é caso de psicologia e não de poesia – a arte não aliena ninguém, ela traz para a realidade (...); A poesia, não sendo lógica, me dá o peixe sem ter que entender o anzol. A arte para dar não é econômica, é generosa. Só é econômica na hora de fazer, não cabem enfeites (...); Ninguém descreve o ato criador (...); Quando você escreve algo que está pedindo pra ser escrito, é mais fácil, depois é só cortar (...); A insistência no cotidiano é porque a gente só tem ele – a cada um de nós cabe a vida comum (...); Nada mais comum em nós do que os nossos afetos. Toda felicidade ou infelicidade humana tem a ver com os afetos (...); A educação pela arte é amorosa”. Um diretor de teatro fez lá uma pergunta sobre a transcendência da criação e coisa e tal. Alardeou o espetáculo que ora dirige, baseado em poemas da Adélia. Ela o olhou surpresa (minha interpretação do olhar dela) e eu pensei: “o gaiato vem usar a presença da escritora pra fazer propaganda da peça e direitos autorais, necas”. Lembrei-me de Ângela Davis, na São Luís do Maranhão de 1997, quando a vi receber um livro de sua lavra para autógrafo. Era publicação desconhecida para ela. A Pantera Negra pensou bastante antes de autografá-lo e chegou a discutir com a dona do livro se o faria ou não. O caso é que a moça era comunista e a convenceu de que o grupo editor da obra, também comunista, o fez na década de 1970, no Uruguai, se não me trai a lembrança, de maneira clandestina, correndo riscos, porque era estratégico dar circulação àquele pensamento revolucionário, em espanhol. Então, Ângela Davis, convencida da nobreza de propósitos da publicação, autografou. Na verdade foi uma lembrança torta, porque na atitude do diretor parece ter havido apenas esperteza, e, mais uma vez, a autora é quem menos lucra na cadeia produtiva de uma obra bem sucedida. E segue o rio, a poesia continua humanizando a vida de quem se permite senti-la.

3 de set de 2008

Literaturas africana e afro-brasileira na prática pedagógica

Recebi um exemplar de “Literaturas africanas e afro-brasileira na prática pedagógica” (Autêntuca, 2008), organizado por Íris Amâncio e outras autoras mineiras. A coletânea nasce da constatação de que existe “uma ausência da discussão sobre África e questão afro-brasileira nos currículos de formação inicial de professores e mostra como, por meio da Literatura e do conhecimento da rica produção literária africana e afro-brasileira, professores e professoras podem encontrar caminhos pedagógicos para tratarem de temáticas referentes a esse universo na sala de aula e no ambiente escolar. Além de mostrar como a literatura pode ser uma ferramenta para efetivação da Lei N.o 10.639/03 e também como o docente pode articular as literaturas africanas e afro-brasileira. O livro propõe atividades pedagógicas e uma reflexão sobre o cotidiano escolar, que deve privilegiar a educação da diferença e ser fomentador de uma mentalidade sem preconceitos e estereótipos” (trechos da orelha do livro). A meu ver, o maior mérito da obra é reunir excertos de diversos autores e autoras africanos de língua portuguesa, nem sempre de fácil acesso ao leitor, tais como: Amílcar Cabral, Hélder Proença, Abdulai Sila, Odete Semedo e Vasco Cabral, de Guiné Bissau; Ovídio Martins, Manuel Lopes e Onésimo Silveira, de Cabo Verde; Alda do Espírito Santo, Costa Alegre, e Francisco José Tenreiro de São Tomé e Príncipe; Cordeiro da Matta, Agostinho Neto, Alda Lara, Rui Duarte de Carvalho, António Jacinto, José Luandino Vieira e Ondjaki, de Angola; José Craveirinha, Noémia de Souza e Paulina Chiziane, de Moçambique. Dentre os autores e autoras brasileiros, estou lá com o meu Derreal! (Cada tridente em seu lugar, 2a edição), já publicado aqui no blogue, na boa companhia de Mirian Alves, Conceição Evaristo e Maria Firmina dos Reis.

1 de set de 2008

“O sonho americano” - discurso de Obama traduzido para o português

Discurso pronunciado pelo senador democrata Barack Obama na Convenção Nacional Democrata, no estádio Invesco, em Denver (Colorado), dia 29/08/08. (Por: João Cláudio Garcia - Correio Braziliense) ”Para o presidente Dean (Howard Dean, presidente do Partido Democrata) e meu grande amigo Dick Durbin, e para todos os meus caros cidadãos desta grande nação. Com profunda gratidão e humildade, eu aceito sua indicação para a presidência dos Estados Unidos. Deixem-me expressar meus agradecimentos à histórica lista de candidatos que me acompanharam nesta jornada, e especialmente àquela que viajou mais longe — uma campeã pelos trabalhadores americanos e uma inspiração para as minhas filhas e as suas —, Hillary Rodham Clinton (ex-primeira-dama). Para o presidente (Bill) Clinton, que na noite passada fez uma defesa da mudança como só ele poderia; para Ted Kennedy (senador), que incorpora o espírito do serviço; e para o próximo vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, eu lhes agradeço. Eu sou grato por terminar esta jornada com um dos estadistas mais finos de nossos tempos, um homem de fino trato — seja com os líderes mundiais ou os condutores do trem Amtrak que ele ainda toma todas as noites. Para o amor da minha vida, nossa próxima primeira-dama, Michelle Obama, e para Sasha e Malia — eu amo vocês tanto e sou tão orgulhoso de vocês. Quatro anos atrás eu surgi diante de vocês e contei minha história — da breve união entre um jovem homem do Quênia e uma jovem mulher do Kansas que não eram conhecidos, mas dividiram uma crença de que, na América, seus filhos poderiam alcançar o que eles colocassem em suas mentes. É essa promessa que sempre distinguiu este país — que por meio do trabalho duro e do sacrifício, cada um de nós pode buscar nossos sonhos individuais, mas ainda nos unirmos como uma família americana, para assegurarmos que a próxima geração poderá perseguir os sonhos dela também. Por isso, estou aqui nesta noite. Porque por 232 anos, em cada momento quando aquele sonho estava em perigo, homens e mulheres comuns — estudantes e soldados, fazendeiros e professores, enfermeiras e porteiros — encontraram a coragem para mantê-lo vivo. Nós nos encontramos em um desses momentos decisivos — um momento em que nossa nação está em guerra, nossa economia está uma baderna, e a esperança tem sido ameaçada uma vez mais. Nesta noite, mais americanos estão desempregados ou mais estão trabalhando cada vez mais duro por menos. Mais de vocês têm perdido suas casas e mais ainda estão assistindo suas casas serem desvalorizadas. Mais de vocês têm carros que vocês não podem se permitir dirigir, cartões de crédito que não podem pagar, e educação que está além de seu alcance. Esses desafios não são todos frutos do governo. Mas a falha em responder a eles é o resultado direto de uma política fracassada em Washington e de políticas falhas de George W. Bush. América, nós somos melhores do que fomos nesses últimos anos. Somos um país melhor do que isso. Este país é mais decente do que um em que uma mulher em Ohio, à beira da aposentadoria, se encontra a uma doença do desastre depois de uma vida inteira de trabalho duro. Este país é mais generoso do que um em que um homem em Indiana tem de empacotar o equipamento com o qual ele trabalhou por 20 anos e assisti-lo ser embarcado para a China, e depois engasgar enquanto explica como se sentiu um fracassado quando foi para casa contar à família. Nós somos mais misericordiosos do que um governo que deixa veteranos dormirem em nossas ruas e famílias escorregarem para a pobreza; que se senta sobre as mãos enquanto uma grande cidade norte-americana afoga bem diante de seus olhos. Nesta noite, digo ao povo americano, aos democratas, republicanos e independentes ao longo desta grande terra — basta! Esse momento — essa eleição — é nossa chance de manter, no século 21, o sonho americano vivo. Porque na próxima semana, em Minnesota, o mesmo partido que deu a vocês dois mandatos de George Bush e Dick Cheney pedirá a este país um terceiro (mandato). E nós estamos aqui porque amamos este país demais para deixar que os próximos quatro anos sejam parecidos como os últimos oito. Em 4 de novembro, devemos nos levantar e dizer: “Oito anos bastam”. Agora, deixe-me ser bem claro. O candidato republicano, John McCain, vestiu o uniforme de nosso país com bravura e distinção, e por isso nós devemos a ele nossa gratidão e nosso respeito. E na próxima semana, nós também ouviremos relatos sobre aquelas ocasiões em que ele discordou do partido, como prova de que pode trazer a mudança que precisamos. Mas a história é clara: John McCain tem votado com George Bush em 90% do tempo. O senador McCain gosta de falar sobre discernimento, mas, sinceramente, o que dizer sobre discernimento dele você pensa que George Bush tem sido correto em mais de 90% do tempo? Eu não sei sobre vocês, mas eu não estou pronto para aceitar apenas 10% de chance de mudança. A verdade é que, em assunto após assunto que fariam diferença em nossas vidas — no acesso à saúde, na educação e na economia —, o senador McCain tem sido tudo menos independente. Ele disse que nossa economia teve “grande progresso” sob este presidente. Ele disse que os fundamentos da economia são fortes. E quando um de seus principais conselheiros — o homem que escreveu seu plano econômico — falava sobre a preocupação que os americanos estão sentindo, ele disse que nós estávamos apenas sofrendo de uma “recessão mental”, e que nós tínhamos nos tornado, e eu repito suas aspas, “uma nação de chorões”. Uma nação de chorões? Diga isso para os orgulhosos trabalhadores da indústria automobilística de Michigan que, após descobrirem que ela estava fechando, compareceram todos os dias ao emprego e trabalharam duro como nunca, porque eles sabiam que havia pessoas que contavam com os freios que eles fabricavam. Diga isso às famílias de soldados que carregam nos ombros seu fardo, silenciosamente, enquanto assistem seus entes queridos saírem para a terceira, a quarta ou a quinta rodada de serviço militar. Esses não são chorões. Eles trabalham duro, voltam e continuam indo sem reclamar. Esses são os americanos que eu conheço. Agora, eu não creio que o senador McCain não se importe com o que está acontecendo na vida dos americanos. Eu apenas acho que ele não saiba. Por que ele definiria como classe média alguém que ganha menos de US$ 5 milhões por ano? Como poderia propor centenas de bilhões em cortes de impostos para grandes corporações e empresas de petróleo, mas nenhum centavo de alívio de taxas para mais de 100 milhões de americanos? Como poderia oferecer um plano de saúde que atualmente taxa os benefícios das pessoas, ou um plano de educação que nada faz para ajudar as famílias a pagarem a universidade, ou um plano que privatizaria a previdência social e prejudicaria sua aposentadoria? Não é porque John McCain não se importa. É porque John McCain não entende isso. Por mais de duas décadas, ele se submeteu àquela velha e desacreditada filosofia republicana — dar mais e mais para aqueles que têm mais e aquela esperança escorregadia para todos os demais. Em Washington, eles chamam isso de “Sociedade de Posse”, mas o que ela realmente significa é: você está por sua própria conta. Desempregado? Má sorte. Sem acesso à saúde? O mercado vai consertar isso. Nascido na pobreza? Saia de lá você mesmo com suas próprias botas, ainda que você não tenha botas. Você está por sua própria conta. Bem, é hora de eles provarem de seu próprio fracasso. É hora de mudarmos a América. Você vê, nós, democratas, temos uma noção muito diferente do que constitui o progresso nesse país. Nós medimos o progresso por quantas pessoas podem encontrar um trabalho que pague o aluguel; se você pode pôr um dinheirinho extra no fim de cada mês para algum dia assistir ao seu filho receber o diploma da universidade. Nós medimos o progresso nos 23 milhões de novos empregos que criamos quando Bill Clinton era presidente — quando a média das famílias americanas viu sua renda aumentar US$ 7,5 mil, em vez de diminuir US$ 2 mil no governo de George Bush. Nós medimos a força de nossa economia não pelo número de bilionários que nós temos ou pelos lucros da Fortune 500 (lista anual que apresenta as 500 maiores corporações dos Estados Unidos), mas pelo fato de alguém com uma boa idéia poder arriscar e começar um novo negócio, ou se a garçonete que vive de gorjetas pode tirar uma folga para cuidar de um filho doente sem perder seu emprego — uma economia que honre a dignidade do trabalho. Os fundamentos que usamos para a força da economia são se nós estamos vivenciando aquele sonho básico que tornou este país grande — o sonho que é a única razão pela qual estou aqui hoje. Porque nos rostos daqueles jovens veteranos que voltaram do Iraque e do Afeganistão eu vejo meu avô, que se alistou após o ataque a Pearl Harbor, marchou no Exército de Patton (General George S. Patton, comandante das tropas norte-americanas na Segunda Guerra Mundial) e foi recompensado por uma nação grata com a chance de ir à universidade pela Lei GI (lei que forneceu educação universitária aos veteranos que retornaram da Segunda Guerra, também chamada de Lei de Reajustamento de Soldados). Nos rostos daqueles jovens estudantes que dormem apenas três horas antes de trabalharem no turno noturno, eu penso em minha mãe, que criou minha irmã e a mim por conta própria, enquanto ela trabalhava e concluía seu curso; que uma vez pregou rótulos em comida mas ainda foi capaz de nos mandar para as melhores escolas do país com a ajuda de bolsas estudantis. Quando eu ouço outro trabalhador me dizer que a sua fábrica foi fechada, me lembro de todos os homens e mulheres do Sul de Chicago, pelos quais eu lutei duas décadas atrás, depois que a fábrica de aço local fechou. E quando eu ouço uma mulher falar sobre as dificuldades de começar o seu próprio negócio, penso em minha avó, que construiu seu caminho desde quando era secretária até se tornar uma gerente-média, depois de anos sem ser promovida por ser mulher. Foi ela quem me ensinou sobre o que é trabalhar duro. Foi ela que abriu mão de comprar um carro novo ou um novo vestido para ela para me dar uma vida melhor. Ela investiu tudo o que ela tinha em mim. E, uma vez que ela não pode mais viajar, sei que ela está me assistindo hoje, e hoje a noite também é dela. Não sei que tipo de vida John McCain pensa que uma celebridade leva, mas essa tem sido a minha. Esses são os meus heróis. As histórias deles me formaram. E é em nome deles que eu pretendo vencer essa eleição e manter vivo o nosso sonhos como presidente dos Estados Unidos. Qual é o sonho? É um sonho que diz que cada um de nós tem a liberdade de fazer de suas vidas o que quiser, mas que também tem a obrigação de tratar uns aos outros com dignidade e respeito. É um sonho que diz que o mercado deve recompensar a motivação e a inovação e gerar crescimento, mas que os empresários devem estar à altura de suas responsabilidades de criar empregos na América, estar atento aos trabalhadores americanos e seguir as nossas regras. Nosso é o sonho que diz que o governo não pode resolver todos os nossos problemas, mas o que ele deve fazer é o que não podemos fazer por nós mesmos — nos proteger do mal e garantir a cada criança uma educação decente; manter nossa água limpa e os nossos brinquedos seguros; investir em novas escolas, novas estradas e em ciência e tecnologia. Nosso governo deve trabalhar por nós, não contra nós. Deve nos ajudar, não nos ferir. Ele deve garantir oportunidade não só para aqueles que têm mais dinheiro e influência, mas para todo americano que quer trabalhar. Esse é o sonho americano — a idéia que nós somos responsáveis por nós mesmos, mas que também crescemos ou caímos como uma nação; a certeza fundamental de que eu sou responsável pelo meu irmão; sou responsável pela minha irmã. Esse é o sonho que precisamos manter. Essa é a mudança que nós precisamos agora. Então, me deixe explicar exatamente o que essa mudança vai significar se eu for eleito presidente. Mudança significa uma tarifa tributária que não recompensa os lobistas que a criaram, mas os trabalhadores americanos e os pequenos empresários que necessitam. Ao contrário de John McCain, vou parar de conceder redução de impostos para as grandes corporações que criam empregos no exterior e começar a concedê-la às empresas que criam bons empregos aqui, na América. Vou eliminar os impostos sobre ganho de capital dos pequenos empresários e dos iniciantes que vão criar os empregos bem remunerados e de alta tecnologia de amanhã. Eu vou cortar os impostos — cortar os impostos — de 95% das famílias trabalhadoras. Porque, em uma economia como essa, a última coisa que devemos fazer é aumentar a tributação sobre a classe média. E, pelo bem de nossa economia, de nossa segurança e do futuro de nosso planeta, vou estabelecer uma meta clara como presidente: em 10 anos, nós finalmente encerraremos nossa dependência de petróleo do Oriente Médio. Washington vem falando sobre a nossa dependência do petróleo nos últimos 30 anos, e John McCain está lá há 26 anos. Nesse tempo, ele disse “não” aos limites para aumentar eficiência no consumo de combustível dos carros, disse “não” aos investimentos em energia renovável, “não” aos combustíveis renováveis. E hoje, nós importamos o triplo da quantidade de petróleo do que quando o senador McCain assumiu. Agora é hora de acabar com essa dependência e entender que perfurar (poços de petróleo) é uma medida quebra-galho, não uma solução a longo prazo. Nem está perto de ser. Como presidente, vou explorar nossas reservas de gás natural, investir em tecnologia limpa e buscar formas de aproveitar, de forma segura, a energia nuclear. Vou ajudar a reestruturação de nossa indústria de automóveis, para que os carros com consumo eficiente de combustível do futuro comecem a ser feitos agora na América. Vamos tornar fácil o acesso da população americana a esse tipo de carro. E vamos investir US$ 150 bilhões, nos próximos dez anos, em fontes de energia acessível e renovável — energia eólica e energia solar e a próxima geração de biocombustíveis; um investimento que vai levar a novas indústrias e a cinco milhões de novos empregos que pagam bem e que não poderão nunca ser terceirizados. América, agora não é hora para pequenos projetos. Agora é hora para finalmente encarar nossa obrigação moral de oferecer a cada criança uma educação muito superior, porque será preciso nada menos do que isso para competir na economia global. Michelle e eu só estamos aqui hoje porque tivemos acesso a educação. E eu não vou me acomodar em uma América onde algumas crianças não tenham essa chance. Vou investir na educação infantil. Vou recrutar um exército de novos professores, e pagar a eles salários altos, dar a eles mais apoio. Em troca, pedirei nível educacional mais elevado e cumprimento da expectativas. E manteremos nosso sonho para cada jovem americano — se você se compromete a servir nossa comunidade e nosso país, garantiremos que você pode ter acesso ao ensino superior. Agora é hora de manter o sonho de assistência médica acessível e ampla para cada americano. Se você tem seguro médico, meu projeto vai reduzir suas despesas. Se você não tem, você terá oportunidade de conseguir um tipo de cobertura igual ao que membros do Congresso concedem a eles mesmos. Como uma pessoa que assistiu à própria mãe discutir com seguradoras enquanto ela estava na cama, morrendo de câncer, eu vou garantir que essas empresas parem de discriminar aqueles que estão doentes e tanto precisam de ajuda. Agora é hora de ajudar famílias com remuneração mesmo durante os dias de afastamento por problema de saúde, com uma licença-família, porque ninguém na América deve escolher entre manter o emprego ou cuidar de uma criança ou um parente enfermo. Agora é hora de mudar nossas leis de falência, para que sua aposentadoria fique protegida dos bônus destinados aos executivos de empresas. É hora de proteger a seguridade social para as futuras gerações. E agora é hora de manter a esperança de um pagamento igual para dias de trabalho iguais, porque eu quero que minhas filhas tenham exatamente as mesmas oportunidades de seus filhos. Agora, muitos desses planos custarão dinheiro. É por isso que eu determinei como vou pagar cada centavo — combatendo desvios nas empresas e paraísos fiscais que não ajudam a América a crescer. Mas também vou me debruçar sobre o orçamento federal, linha por linha, eliminando projetos que não funcionam e levando adiante aqueles que precisamos que funcionem melhor e custem menos — porque não podemos enfrentar os desafios do século 21 com uma burocracia do século 20. Democratas, precisamos admitir também que para realizar o sonho americano será necessário mais que dinheiro. Será necessário um senso renovado de responsabilidade de cada um de nós para descobrir novamente o que John F. Kennedy chamou de nossa “força intelectual e moral”. Sim, o governo deve ser líder para nos levar à independência energética, mas cada um de nós deve fazer sua parte para tornar nossas casas e nosso local de trabalho mais eficientes. Sim, devemos construir mais escadas para o sucesso de jovens que entram no mundo do crime e desespero. Mas também devemos reconhecer que programas, sozinhos, não podem substituir os pais, que o governo não pode desligar a televisão e convencer uma criança a fazer o dever de casa, que os pais devem assumir mais responsabilidade para dar o amor e a orientação dos quais os filhos precisam. Responsabilidade individual e responsabilidade mútua — essa é a essência do sonho americano. E assim como nós mantemos nosso sonho para a próxima geração aqui no país, também devemos manter o sonho americano no exterior. Se John McCain quer debater sobre quem tem o temperamento, e o discernimento, para servir como próximo comandante-chefe, esse é um debate para o qual estou pronto. Enquanto o senador McCain voltava sua atenção para o Iraque poucos dias depois do 11 de setembro, eu me mantive contra essa guerra por saber que ela nos distrairia das reais ameaças que estão diante de nós. Quando John McCain disse que nós poderíamos apenas “nos atolarmos” no Afeganistão, eu pedi mais recursos e mais tropas pata terminar a luta contra os terroristas que verdadeiramente nos atacaram no 11 de setembro. E deixei claro que devemos pegar Osama bin Laden e seus colaboradores se os tivermos ao alcance. John McCain gosta de dizer que perseguirá Bin Laden até nos portões do inferno — mas não vai nem à caverna onde Bin Laden está. Hoje, mesmo enquanto meu apelo para que um calendário de retirada de nossos militares do Iraque encontra eco no governo iraquiano e em integrantes do governo Bush, mesmo quando ficamos sabendo que o Iraque tem um superávit de US$ 79 bilhões — enquanto mergulhamos em déficits —, John McCain se mantém sozinho em sua rejeição para pôr um fim nessa guerra sem sentido. Esse não é o discernimento que precisamos. Isso não tornará a América mais segura. Precisamos de um presidente que possa enfrentar as ameaças do futuro e não continue propagando as mesmas idéias do passado. Você não derrotará uma rede terrorista que opera em 80 países ocupando o Iraque. Você não protegerá Israel e conterá o Irã apenas falando duro em Washington. Você não pode ficar verdadeiramente ao lado da Geórgia quando deteriorou nossas mais antigas alianças. Se John McCain quer seguir George Bush com mais palavras duras e estratégias ruins, essa é a escolha dele — mas não é a mudança da qual precisamos. Somos o partido de Roosevelt. Somos o partido de Kennedy. Então, não me diga que os democratas não defenderão este país. Não me diga que os democratas não nos darão segurança. A política externa de Bush e McCain consumiu o legado que gerações de americanos — democratas e republicanos — construíram, e estamos aqui para recuperar esse legado. Como comandante-chefe, eu nunca hesitarei em defender esta nação, mas só enviarei tropas para caminhos difíceis com uma missão clara e um compromisso sagrado de dar a eles os equipamentos que precisam no campo de batalha e os cuidados e benefícios que merecem ao voltar para casa. Terminarei essa guerra no Iraque de forma responsável, e encerrarei a luta contra a Al-Qaeda e o Talibã no Afeganistão. Reconstruirei nossas Forças Armadas para enfrentar futuros conflitos. Mas também renovarei a diplomacia dura e direta que pode impedir o Irã de obter armas nucleares e suprimir a agressão russa. Formarei novas parcerias para derrotar as ameaças do século 21: terrorismo e proliferação de armas nucleares; pobreza e genocídio; mudança climática e doenças. E vou restaurar nossa atitude moral, de maneira que a América volte a ser a última e a melhor esperança para todos os que são chamados pela causa da liberdade, que anseiam por viver em paz e aspiram a um futuro melhor. Essas são as políticas que adotarei. E, nas próximas semanas, estou ansioso por discuti-las com John McCain. O que não vou fazer é dizer que o senador toma posições segundo seus propósitos políticos. Porque uma das coisas que temos de mudar na nossa política é a idéia de que as pessoas não podem discordar sem questionar o caráter e o patriotismo umas das outras. Os tempos são muito sérios, as apostas são muito altas para continuarmos seguindo o mesmo script do partidarismo. Portanto, vamos convir que o patriotismo não tem legenda. Eu amo este país, como vocês e como John McCain. Os homens e mulheres que servem ao país nos campos de batalha podem ser democratas, republicanos ou independentes, mas eles lutaram juntos e sangraram juntos, e alguns morreram juntos sob a mesma orgulhosa bandeira. Eles não serviram à América “azul” ou à América “vermelha” — serviram aos Estados Unidos da América. Portanto, temos boas notícias para você, John McCain. Todos nós colocamos o país em primeiro lugar. América, o nosso trabalho não será fácil. Os desafios que confrontamos requerem escolhas difíceis, e tanto democratas quanto republicanos terão de jogar for a as idéias e a política do passado. Porque parte do que se perdeu nos últimos oito anos não pode ser medido em termos de salários perdidos ou déficits comerciais maiores. O que também se perdeu foi nosso senso de propósitos comuns — nosso senso de um propósito mais elevado. E é isso que temos de restaurar. Podemos não concordar sobre o aborto, mas certamente podemos estar de acordo quanto a reduzir o número de gravidez indesejadas neste país. A realidade do porte de armas de fogo pode ser diferente para caçadores na região rural de Ohio e para os que são castigados pela violência das gangues em Cleveland, mas não venham me dizer que não podemos manter intacta a Segunda Emenda constitucional e ao mesmo tempo manter os fuzis AK-47 longe das mãos dos criminosos. Sei que existem diferenças sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas certamente podemos concordar em que nossos irmãos e irmãs gays e lésbicas merecem poder visitar a pessoa que amam no hospital, e viver a vida deles livres de discriminação. A imigração desata paixões, mas não conheço ninguém que saia ganhando quando uma mãe é separada do filho pequeno, ou quando um empregador rebaixa os salários dos americanos contratando trabalhadores ilegais. Isso também é parte da promessa americana — a promessa de uma democracia na qual podemos encontrar força e benevolência para construir pontes sobre o que nos divide e nos unir em esforços comuns. Sei que existem aqueles que desprezam essas crenças como se não passassem de conversa fácil. Eles afirmam que a nossa insistência em defender algo maior, mais firme e mais honesto na vida pública pe apenas um cavalo de Tróia para aumentar os impostos e abandonar valores tradicionais. E é isso que se deveria esperar. Porque, se você não tem idéias novas, então você usa a tática de assustar os eleitores. Se você não tem um histórico sobre o qual caminhar, então você pinta o oponente como alguém de quem as pessoas deveriam fugir. É possível fazer uma grande eleição com coisas pequenas. E vocês sabem o quê — porque já funcionou antes. Porque essas coisas alimentam o cinismo de todos nós em relação ao governo. Quando Washington não funciona, todas as promessas parecem ocas. Se as esperanças são varridas, uma e outra vez, então o melhor é deixar de ter esperanças e ficar com o que você já conhece. Eu entendo. Eu sei que não sou o candidato mais provável para esse cargo. Não tenho o pedigree típico, nem fiz minha carreira nos salões de Washington. Mas estou diante de vocês, nesta noite, porque pela América inteira alguma coisa está se levantando. O que a turma do “não” é incapaz de entender é que nesta eleição o assunto nunca fui eu. O assunto são vocês. Por 18 longos meses, vocês se levantaram, um a um, para dizer que basta dessa política do passado. Vocês entendem que, nesta eleição, o maior risco que se poderia assumir seria tentar repetir a mesma velha política, com os mesmos velhos atores, e esperar um resultado diferente. Vocês demonstraram aquilo que a história nos ensina — que em momentos de definição, como este, a mudança de que precisamos não virá de Washington. Ela chegará a Washington. A mudança acontece porque o povo americano exige, porque ele se levanta e insiste em novas idéias e novos líderes, uma nova política para um novo tempo. América, este é um desses momentos. Acredito que, difícil como possa ser, a mudança de que precisamos está vindo. Porque eu vi. Porque eu vivi. Eu vi em Illinois, quando garantimos assistência médica para mais crianças e transferimos mais famílias dos benefícios da previdência para o mundo do trabalho. Eu vi em Washington, quando trabalhamos unidos, por sobre as divisões partidárias, para tornar o governo mais aberto e manter os lobistas sob controle, para cuidar melhor dos veteranos de guerra e manter armas nucleares longe das mãos dos terroristas. E eu vi isso nesta campanha. Nos jovens que votaram pela primeira vez, e nos que voltaram a se envolver depois de tanto tempo. Nos republicanos que nunca pensaram que fossem um dia participar de uma primária democrata, e participaram. Nos trabalhadores que preferem reduzir a jornada diária de trabalho a ver os amigos perderem o emprego, nos soldados que se realistaram depois de sofrer uma mutilação, nos bons vizinhos que abrigam um estranho em casa quando um furacão provoca enchentes. Este nosso país tem mais riquezas do que qualquer outro, mas não é isso que nos faz ricos. Temos a força militar mais poderosa do mundo, mas não é isso que nos faz fortes. Nossas universidades e nossa cultura são invejadas pelo mundo, mas não é isso que continua a trazer o mundo para as nossas costas. Em vez disso, é o espírito americano, é a promessa americana que nos empurra para a frente mesmo quando o caminho é incerto; que nos une apesar de nossas diferenças; que nos leva a fixar o olhar não naquilo que está à vista, mas naquele lugar melhor que ainda não foi avistado. Essa promessa é a nossa grande herança. É a promessa que faço às minhas filhas quando as coloco para dormir, a promessa que vocês fazem aos seus filhos — uma promessa que guiou imigrantes através dos oceanos e levou os pioneiros a viajar para o Oeste. Uma promessa que levou trabalhadores aos piquetes e mulheres a desafiar as balas. E foi essa promessa que, hoje há exatamente 45 anos, levou americanos de todos os cantos do país para o Obelisco de Washington, diante do Memorial de Lincoln, para ouvir um jovem pastor da Geórgia falar do seu sonho. Os homens e mulheres que se reuniram ali poderiam ter ouvido muita coisa. Poderiam ter ouvido palavras de ódio e discórdia. Poderiam ter dito a eles que sucumbissem ao medo e à frustração de tantos sonhos negados. Mas, em vez disso, o que ouviram — gente de todos os credos e todas as cores, de todos os setores sociais — foi que, na América, nosso destino está inextricavelmente ligado. Que nossos sonhos podem ser um único sonho. “Não podemos caminhar sozinhos”, disse o pastor. “E, à medida que caminhamos, temos de fazer a promessa de que vamos caminhar sempre para a frente. Não podemos voltar para trás.” América, não podemos retroceder. Não com tanta coisa por fazer. Não com tantas crianças para educar, tantos veteranos para cuidar. Não com uma economia para ajustar, cidades para reconstruir e fazendas para salvar. Não com tantas famílias para proteger e tantas vidas para consertar. América, não podemos retroceder. Não podemos caminhar sozinhos. Neste momento, nesta eleição, temos de nos comprometer uma vez mais a caminhar para o futuro. Vamos manter aquela promessa — a promessa americana — e, como dizem as Escrituras, segurar com firmeza, sem hesitar, a esperança que confessamos. Obrigado, Deus abençoe vocês e Deus abençoe os Estados Unidos da América”. http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_4/2008/08/29/noticia_interna,id_sessao=4&id_noticia=28239/noticia_interna.shtml?