Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de out de 2008

Feminicídio ao vivo: o que nos clama Eloá

(FONTE: Agência de Informação Frei Tito para a América Latina www.adital.com.br)Vocês conhecem Maria da Penha? Falo da mulher ativista que inspirou a criação da lei que recebeu o seu nome. *Ela e Maria Dolores de Brito escreveram a oportuna reflexão sobre o caso Eloá: "Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira. No Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970, as denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra suas parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto da defesa da honra, e desenvolveram- se ações de movimentos feministas e democráticos pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema vai emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela sociedade por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres. O assassinato de Ângela Diniz, em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a absolvição do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma reação pela defesa "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam um crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o relacionamento amoroso, e a inconformidade do assassino com este fim. Essa decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino. Outro crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a campanha "quem ama não mata". Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual. Um crime em que não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo, da vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o "extremo de um continuum de terror anti-feminino" , incluindo várias formas de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações, agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado. Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato [1] é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho para os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de violência de gênero contra as mulheres. Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das Delegacias de Apoio às Mulheres - DEAMs, que hoje somam 339 no país, o surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de apoio que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando trabalho de denúncia e conscientizaçã o social para o combate e prevenção dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência doméstica contra as mulheres. Mas, ainda assim, as violências e o feminicídio continuam a acontecer. Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram vítimas de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005, 118 mortes e em 2004, mais 105 casos [2]. As mulheres estão num caminho de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do patriarcado continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso que toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas que sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades, desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?" Notas: [1] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006. [2] Dados disponíveis em: http://www.patricia galvao.org. br/apc-aa- patriciagalvao/ home/noticias. ... =1076 * Maria Dolores é Socióloga, professora da Universidade Federal do Ceará / Maria da Penha é inspiradora do nome da Lei Federal 11340/2006 e colaboradora de Honra da Coordenadoria de Políticas para Mulheres da Prefeitura de Mulheres

30 de out de 2008

Negros e racismo em Cuba

(Carta aberta de Carlos Moore sobre o lançamento de seu livro de memórias, Pichón. Originalmente em inglês, tradução livre de Memória Lélia Gonzales). "No dia 1º de novembro, será lançado nos Estados Unidos o livro de memórias de Carlos Moore, PICHÓN, aguardado há muito tempo. Nele, Moore narra o grande conflito que surgiu, desde cedo, no seio da Revolução Cubana: a raiz da destruição, pelo regime revolucionário castrista, do Movimento Negro Cubano que, na época, era dirigido por grandes intelectuais do nível de Walterio Carbonell e de Juán José Betancourt Bencomo. O Professor Carbonell (que passou oito anos nos campos de trabalho e nos manicômios cubanos) faleceu no mês de abril de 2008, em Cuba, completamente esquecido. O Professor Betancourt Bencomo teve de fugir para o estrangeiro e morreu pouco depois na cidade de Nova Iorque. Os outros militantes foram internados nos campos de trabalho forçado. Trata-se de uma página brutal e desconhecida da Revolução cubana. PICHÓN é um documento-testemunho histórico sem igual! Como um gesto de solidariedade com essa obra -- que será publicada sem o apoio das grandes redes de distribuição multinacionais, como explica o próprio autor em sua Carta Aberta a seus/suas amigos/as, abaixo, se faz necessário que no dia 1º de novembro de 2008, todas/os as/os militantes, que puderem, adquiram o livro através da , distribuidor exclusivo desta obra. Além da importância de Carlos Moore, como intelectual negro, pensador e militante da causa negra com atuação e reconhecimento internacional, nosso movimento no acesso a “amazon” e aquisição da obra é a expressão de um gesto de solidariedade de militantes afro-brasileiros com o povo, também majoritariamente negro, de Cuba e uma homenagem à memória daqueles que sofreram, ou morreram, para defender as reivindicações sócio-raciais que temos levantado como bandeira" (Memória Lélia Gonzales). O vídeo clip de PICHÓN está no Youtube, no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=4HavT4uD-MM. (Uma carta a meus Amigos espalhados pelo mundo, por: Carlos Moore). "Esta carta é para meus amigos e minhas amigas pessoais no mundo; para aqueles/as que, de um modo ou de outro, me conheceram nos últimos quarenta anos; pessoas que sabem exatamente o que tenho agüentado e sabem, também, a que me oponho no que diz respeito a meus princípios e opções políticas. E isso tem a ver com o destino de Pichón, meu livro de memórias, um trabalho árduo ao qual me dediquei por vinte e cinco anos, escrevendo em muitos países onde residi com minha família, enquanto vivi nas condições de exílio que você bem conhece.Pichón está programado para ser publicado nos Estado Unidos da América e no Canadá no dia 1 de novembro de 2008. Porém, deixe-me fazer um alerta sobre o fato de que não será comercializado por quaisquer das cadeias de livrarias principais que dominam a distribuição de livros. Assim, não espere encontrar Pichón em qualquer lugar, na data do lançamento, a não ser on-line, na Amazon.com Isto está relacionado ao espaço que as funções econômicas globais, resultantes de decisões corporativas, fazem, julgando o que é comercialmente lucrativo, à custa da informação socialmente pertinente. E Pichón é, precisamente, informação socialmente pertinente!O clima atual no comércio de livros imprime um controle sem precedente nas mãos de alguns conglomerados e corporações multinacionais, enquanto que o número de independentes capazes de uma publicação autônoma vai diminuindo cada vez mais. É uma atmosfera totalmente desfavorável para livros como Pichón. Eu acredito que Pichón é da categoria de livros que tratam de assuntos sociais e históricos sérios, que tratam do modo como a sociedade trabalha e como a ordem mundial atual pode afetar gravemente as vidas de indivíduos e, ao cabo, as vidas de milhões das pessoas.O controle monolítico da produção do livro e a indústria de distribuição significa que sempre há menos diversidade nos estoques das livrarias, com cada vez maior quantia de pensadores sendo controlados por poucos, quais sejam as grandes editoras. Os pequenos editores independentes estão sempre em franca desvantagem. A lógica que permite que isto aconteça é simples: livrarias têm a expectativa de grandes descontos, e as editoras podem ter de pagar até dezenas de milhares de dólares por títulos que serão expostos em destaque nas lojas. Então, inevitavelmente a concentração será feita naqueles materiais de reconhecido e seguro retorno financeiro, e praticamente nenhum autor negro se enquadra nessa categoria.Por conseguinte, há uma seleção rigorosa de livros escritos por autores negros e disponíveis nas lojas. A maioria dos que estão nessa situação, são provavelmente colocados em prateleiras "separadas", como “assuntos negros” e não ao lado dos assuntos de interesse geral (ou seja “não negros”), nos quais os autores são simplesmente organizados em ordem alfabética de A a Z. O que o público em geral raramente sabe é que esses “livros de negros” ou “de assuntos negros” só conseguem ser admitidos nas lojas quando são sujeitados a esse tipo de catalogação e estratégia de “visibilidade” que os torna invisíveis. É um “segredo declarado” onde o espaço reservado para os/as escritores/as negros/as é freqüentemente em um canto qualquer ou atrás de outras obras; próximo ou atrás dos estudos sobre as mulheres.Em outras palavras, o tratamento dado aos “livros de negros” ou aos “assuntos de negros” identifica os parâmetros de exclusão, de “guetização” e de marginalização impostos pela grande economia mundial. Escritores, distribuidores e vendedores normalmente já “sabem” que “os autores minoritários”, que produzem “assuntos minoritários” não serão comprados, que o leitor “comum” não tem interesse neles. Da mesma forma, algumas pessoas afirmam que minorias não contam quando se trata de grandes números. A indústria do cinema tem trabalhado com a mesma falácia, até que Melvin Van Peebles mudou essa lógica com o filme baseado nele mesmo, intitulado “Sweet Sweetback’s Baadassss Song”. Lembra-se? Nosso inconformado Spike Lee seguiu o exemplo, quebrando records com seu trabalho de baixo-custo “She’s Gotta Have It.” Se lembra? Embora a indústria chamada “popular” continue considerando o grande equívoco de que livros ou filmes feitos por negros e outros grupos “minoritários” dizem respeito tão somente a negros e, automaticamente, têm limitações de marketing e de mercado, estou convencido que Pichón – que destrói mitos que têm perdurado por muito tempo e que abre a porta para o entendimento de um dos maiores fenômenos políticos do século XX, é relevante para todos.As decisões corporativas que mantêm um livro desse porte longe do alcance do público são conseqüências desse tipo de globalização que ocorre por meio de fusões, aquisições e consolidações que empurram os pequenos e médios produtores para fora. Esse processo, que começou nos anos 1980, coloca o destino dos livros à mercê de monstruosos monopólios mega-multinacionais. São eles que agora determinam, para nós, o que é comprado ou lido.Você entenderá por que eu, como um indivíduo, vislumbro essa como a opção viável para exercitar meu direito de ser ouvido, alcançando uma grande audiência que merece uma oportunidade para conhecer Pichón: eu envio esse apelo a você, pedindo seu apoio por uma rede alternativa que confia no comércio on-line, pelos seguintes motivos: 1 - A internet pode ser milagrosa. Ferramenta democratizada, ela possibilita que vozes contrárias, fora do poder instituído, sejam ouvidas sem censura, sem qualquer impedimento burocrático. Eu preciso da ajuda de meus amigos, e dos amigos de meus amigos, criando um informal “olho no olho”, uma campanha de promoção que venha da base. Só desse modo, Pichón poderá sair do anonimato e os assuntos de que trata poderão ser conhecidos por um público consciente e ávido por eles.Eu tenho vivido em exílio. 2 - Eu sempre lutei contra as desigualdades. Minhas visões políticas nunca foram comuns, nem coincidiram com os interesses de qualquer situação de poder pré-estabelecido (do “status quo”). Acostumei-me a estar atrás das trincheiras. Mas nesse momento, eu preciso de você comigo, para ajudar-me a tirar da marginalidade esta história não contada, mas verdadeira, sobre uma Cuba negra que existe sob a Revolução. Nós podemos alcançar isso no boca a boca, por e-mail, através dos blogs, dos filmes do YouTube e das salas de conversa na internet. O território on-line é o lugar onde a batalha contra a censura, contra o corporativismo pode ser ganha.Três dias antes de os americanos darem o mais histórico voto de suas vidas, na eleição presidencial de 4 de novembro de 2008, eu lhe peço que lance um outro amável voto, em nome do direito de vozes negras cubanas independentes que precisam ser ouvidas. Entre on-line na amazon.com, no dia 1 de novembro, o dia de publicação de Pichón. Ajudando a tirar o livro da invisibilidade, você participa de um processo de democratização de Cuba que, esperamos, possa conduzir, finalmente, a maioria dos cubanos ao poder.Meu humilde desejo para Pichón é que possa informar e contribuir para um caminho novo nas relações cubanas, e que aponte alguns possíveis caminhos novos de negociar com o mundo. Dê um voto para a transformação democrática e pacífica de Cuba!Por favor, vote em Pichón, no dia 1 de novembro de 2008!Com carinho e muita gratidão, em nome de um mundo melhor para nós tudo." Carlos MOORE (sítio oficial: www.drcarlosmoore.com)

28 de out de 2008

Poeminha 7

Ai Manoel,/ Salva-me!/ Atira um bote/ Que o desespero me traga./ Aprendida a lição da faca,/ A delicadeza também não veio abrir a manhã./ Ensina-me um assobio,/ Para chamar de volta o azul do azul./ Dá-me um concerto de beija-flores,/ Para solfejar meu céu./ Dá-me o silêncio de tuas pedras,/ Serena o grito, meu Pai./ Eu, guardador de águas,/ Inda não aprendi a ser rio./ Ai minha Mãe,/ Socorra-me,/ Tanta ignorãça me devasta./ Abrasa de entendimento o peito./ Imanta as grandezas do ínfimo/ Traz de volta as asas.

27 de out de 2008

Poeminha 6

Hoje quero Michael Jackson no ouvido/ Não o mutante/ O Jackson Five/ Menino que ninava os grandes/ Aliviava da gente o peso do mundo/ Num tempo em que o mundo não lhe pesava tanto/ Quero um funk na veia/ Não o proibidão/ Um funk da Tigrona/ Que exorcize meus demônios e quebre meu barraco/ Quero o colo de Elizete/ Seu amor sem pudor/ E sem concessão/ Seu mar de erres/ Seu canto de mastigar a palavra/ E mitigar a dor

26 de out de 2008

Três poeminhas do desterro

(Poeminha 5). Chorei/ Seis lágrimas/ Seis segundos/ Seis minutos/ Cala-boca à lamúria do ego/ Ao sofrimento corrosivo/ Jeito breve de apoucar a dor/ No confim dela

24 de out de 2008

Obras de escritoras e intelectuais negras serão debatidas na UFBA, em Salvador

(Texto de divulgação): "Por séculos as mulheres foram representadas através de imagens de santa ou de devassa, representações que negavam qualquer possibilidade de outros modelos. Com as mulheres negras os sistemas de representação foram ainda mais cruéis, tentaram invisibilizá-las representando-as como corpos a serem usufruídos pelas tradições eurocêntricas para o trabalho ou para a atividade sexual. Entretanto, elas exerceram atividades importantes na vida social e cultural do Brasil e da diáspora desde que aqui chegaram: comerciantes, zeladoras dos cultos religiosos, ativistas em revoltas e rebeliões, poetas, ganhadeiras, professoras, mães, entre outras, foram algumas das funções exercidas pelas mulheres negras no processo de insubmissão à fixidez dos discursos de representação discriminatórios. A invisibilização torna-se mais intensa quando as mulheres negras começam invadir as privilegiadas áreas do chamado saber intelectual e levam o prosaico, o cotidiano e privado para o interior de suas elaborações teóricas e artísticas. Em geral, seus textos são ignorados ou depreciados. O Seminário Escritoras e Intelectuais Negras visa a trazer para cena escritoras e intelectuais negras contemporâneas que se apossam da linguagem escrita e através dela expõem suas idéias, sentimentos e demandas. Serão apresentadas as obras das seguintes autoras: Alzira Rufino, Carolina de Jesus, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo, Geni Guimarães, Heloísa Pires Lima e Lélia Gonzales." No Instituto de Letras da UFBA, dia 29/10, sala 08 - labimagem, das 15:00 às 18:00hs.

22 de out de 2008

Cooperifa faz chover livros na periferia de São Paulo

(Texto de divulgação). "Hoje (22/10) a Cooperifa vai dar 300 livros de presente para os frequentadores e poetas do sarau, mais DVDs, kits 1 da Sul e documentários + surpresas, tudo isso só para comemorar o aniversário de sete anos de atividades poéticas na periferia de São Paulo". Às 20:30 no Bar do Zé Batidão. Rua Bartolomeu dos Santos, 797 Chácara Santana. Informações: (11) 72074748.

Premiação à Léa Garcia, dia 24/10, no Rio de Janeiro

21 de out de 2008

Conceição Evaristo lança antologia poética em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro

A obra: Memória, feminilidade e resistência negra. Esta é a tônica de Poemas da recordação e outros movimentos, antologia poética com 44 poemas da consagrada escritora afro-mineira Conceição Evaristo, que inaugura a Coleção Vozes da Diáspora Negra (Nandyala Editora). Tecendo os fios de suas vivências pessoais e coletivas, a poeta convida o leitor a mergulhar em profundas "águas-lembranças", espelho hídrico do qual emergem imagens e vozes femininas a revelar uma tessitura poética inscrita na ancestralidade, "nova velha seiva" que "borda os tempos do viver". Assim, avó, tia, mãe e filha performatizam a "letra-desenho" de vidas traçadas em sonhos e esperanças, apesar da dor, do banzo, da fome e do frio que habitam o cotidiano de sujeitos negros em exclusão sócio-racial. Restaurados poeticamente, corpos femininos reamanhecem esperançosos, como "força-motriz" reativa aos naufrágios da vida. Do fundo das águas da memória, esses sujeitos revisam suas relações com corpos masculinos, numa mescla de lirismo e repulsa; ao mesmo tempo, percebem suas interações com outros corpos femininos. Com essa fluidez e intensidade, Conceição Evaristo vivifica e teima em afirmar ao leitor, uma vez mais, sua habilidade e excelência na configuração das linhas do seu corpo-linguagem, cosido "por mãos ancestrais". (Iris Maria da Costa Amâncio, PUC Minas). A autora: Conceição Evaristo (Maria da Conceição Evaristo de Brito) nasceu em 29 de Novembro de 1946, em Belo Horizonte /MG. É a segunda filha em uma família de 9 filhos. Em 73, após terminar o antigo Curso Normal, no Instituto de Educação de Minas Gerais, emigra para o Rio de Janeiro e, por meio de concurso, ingressa no magistério público. Conjugando trabalhos e estudos, forma-se em Português-Literaturas pela UFRJ. Mais tarde, já viúva e cuidando de sua especial menina, Ainá Evaristo de Brito, torna-se Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/Rio e inicia seu curso de Doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Sua estréia na literatura acontece em 1990, na série Cadernos Negros – antologia editada anualmente pelo Grupo Quilombhoje, de São Paulo, um coletivo de escritores afro-brasileiros reunidos, desde 1978. A partir de então, seus textos vêm obtendo cada vez mais leitores e pesquisadores nacionais e estrangeiros. Além de Cadernos Negros e de antologias literárias e críticas brasileiras, seus textos aparecem nas seguintes antologias: Schwarze prosa, Alemanha(1993); Moving beyond boundaries: international dimension of black women’s writing(1995); Women righting – Afro-brazilian Women’s Short Fiction, Inglaterra(2005) ; Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995); Callaloo, vols. 18 e 30 (1995,2008); Fourteen female voices from Brazil(2002), Estados Unidos; Chimurenga People (2007), África do Sul; Brasil-África: como se o mar fosse mentira, Brasil/Angola(2006). Conceição Evaristo tem participado de eventos internacionais de literatura e já se apresentou como palestrante: na Áustria, Porto Rico e nos Estados Unidos. Suas obras individuais - Ponciá Vicêncio (2003/2006) e Becos da Memória (2006) representam uma excelente contribuição ao leitor contemporâneo. O romance Ponciá Vicêncio, indicado para o Vestibular 2008 da UFMG, do CEFET/BH e de mais quatro faculdades mineiras, ainda compõe a lista das obras indicadas para o vestibular da Universidade Estadual de Londrina 2008/2009. Em 2007 e em 2008, depois de uma calorosa recepção em 2003, devido ao seu conto “Ana Davenga” ter sido incluído em uma antologia americana de escritoras brasileiras, a autora retorna a convite a várias instituições americanas, para o lançamento da versão em inglês de seu romance Ponciá Vicêncio, traduzido para a língua inglesa, pela Host Publications, Texas, Estados Unidos. Oriunda de família em que o hábito de contar histórias sempre se fez presente, Conceição Evaristo afirma que a sua escrita nasce primeiramente do contato profundo que sempre teve com uma oralidade presente nas culturas afro-brasileiras. A transmissão dessa herança cultivada no interior de sua família se configura principalmente na pessoa de sua mãe, Joana Josefina Evaristo, assim como nas narrativas, em que ela ouvia da tia, hoje falecida, Maria Filomena da Silva. Contar e ouvir histórias, do mesmo modo como a observação atenta do cotidiano, mais o exercício prazeroso da leitura, é base para a construção de seus contos, poemas, romances e até mesmo seus ensaios. A crítica: "Em conhecida entrevista, Conceição Evaristo revelou a natureza íntima de sua criação literária através de uma única e sonora palavra: escrevivência. Ao assumir que sua escrita – seja em prosa ou poesia – está definitivamente comprometida com sua existência, ela nos brinda com uma obra contaminada pela angústia coletiva, testemunha da opressão de classe, gênero e raça, mas porta-voz da esperança de novos tempos. Esta literatura de autoria assumidamente negra – ao mesmo tempo projeto político e social, testemunho e ficção – inscreve-se de forma definitiva na literatura contemporânea, e contém as marcas identitárias das mulheres que reescrevem a história literária brasileira." (Constância Lima Duarte, UFMG). "Estou aqui feliz com a notícia do lançamento - FINALMENTE!!! - desse livro de poemas, há tanto tempo esperado. No dia 23, estarei aqui da Alemanha, acompanhando em pensamento mais esta vitória. De vocês duas!! Fico muito grata à Editora NANDYALA por essa iniciativa, importante e necessária. Seus poemas, Conceição, fazem parte do que a literatura brasileira de mais significativo produziu, não só no campo da poesia afro-brasileira, não só no campo da poesia de expressão feminina, na literatura brasileira em geral. Sempre fui desta opinião; cada leitura que faço de certos poemas é uma renovada emoção." (Moema Parente Augel Bielefeld, Alemanha).

Luiz Ruffato lança "O livro das impossibilidades", no Rio de Janeiro

20 de out de 2008

Racismo é o inimigo à espreita de Obama

(Sérgio Dávila, da Folha de São Paulo). "Na Virgínia, um folheto que começou a ser enviado na última semana pelo Partido Republicano traz uma foto que é um close nos olhos de um homem e a frase: "Os EUA têm de olhar o mal nos olhos e não piscar jamais". A pessoa na foto é negra. Na Califórnia, um grupo do partido distribui notas falsas de dez dólares com a foto do democrata Barack Obama adornada por uma melancia, costelas de porco e frango frito, alimentos que o estereótipo racista associa aos negros nos EUA. Na quinta, em Ohio, Samuel Wurzelbacher, que ganhou 15 minutos de fama como Joe, o encanador, disse que Obama "sapateava como Sammy Davis Jr." -a gíria "sapatear", em inglês, quer dizer evitar ir direto ao assunto. A comparação com o cantor negro (1925-90) levou a blogosfera progressista a passar a acusá-lo de racista. Por mais que ambas as campanhas tenham evitado o assunto e, se confrontadas, diminuído seu peso, o racismo permeia esta corrida presidencial americana. Qual o tamanho dele, o quanto mudou nos últimos anos nos EUA e que peso terá no dia 4 de novembro são perguntas que pesquisadores e acadêmicos tentam responder conforme o pleito se aproxima. "O racismo pode ter o peso nesse ciclo eleitoral presidencial que o aborto teve em 2000 e 2004", disse à Folha David Epstein, professor de ciência política da Universidade Columbia, de Nova York. "Deve mobilizar grupos de pessoas que normalmente não votariam [o voto nos EUA não é obrigatório] a ir às urnas votar contra Barack Obama." No passado, plebiscitos sobre o aborto levaram grupos conservadores a sair de casa e votar, o que ajudou George W. Bush. A diferença, crê o acadêmico, autor de dois estudos sobre racismo e eleições, é que desta vez os grupos não terão força para mudar o resultado. Não há consenso sobre quão marginais seriam. Fala-se do "efeito Bradley" -cálculo feito a partir de um caso real por cientistas políticos como Paul Sniderman, de Stanford, segundo o qual negros que disputam cargos executivos nos EUA devem ter entre cinco a sete pontos descontados das pesquisas de intenção de voto. Esse seria o total de "racistas enrustidos", que declaram um voto ao pesquisador e agem de outra maneira nas urnas. Em 1982, o democrata negro Tom Bradley liderava com folga as pesquisas para o governo da Califórnia, que disputava com o republicano branco George Deukmejian. No dia da votação, perdeu. Obama lidera os levantamentos nacionais hoje com média de 6,9 pontos. Os tempos mudaram, defende Epstein e outros. Para eles, o fato de Obama se vender como um candidato "pós-racial" e ter uma grande base de eleitores jovens para quem raça não é fator determinante faz com que o "efeito Bradley" tire apenas entre 1 e 2 pontos das pesquisas. Sniderman é cético: "Ainda há muitos racistas neste país". Outro motivo seria a crise econômica, que "embranqueceria" Obama -o eleitor conecta McCain a Bush, a quem culpa pela situação. "A certa altura, a preocupação com a economia supera o desconforto de alguns em relação a Obama", disse Camille Zubinski Charles, especialista em questões raciais da Universidade da Pensilvânia. Como ninguém responderia à pergunta "você é racista?", levantamentos tentam medir a questão com questões indiretas, como colocar o item "raça" na lista de "fatores que o levaram a se decidir". Na Virgínia Ocidental, um dos Estados com menor índice de renda e escolaridade e a maior porcentagem de brancos (96%) dos EUA, Obama obteve seu pior resultado nas prévias partidárias, 25% ante 67% de Hillary Clinton. Indagados em pesquisa qual fator levaram mais em conta na hora de votar, 35% responderam: "raça". É um exemplo extremo, mas não o único. Na quarta, o veterano senador democrata John Murtha, da Pensilvânia, veio a público dizer que o racismo faria com que a vitória de Obama em seu Estado fosse por uma margem mais apertada do que mostram as pesquisas. Outra forma de aferir o grau de preconceito é analisar as respostas espontâneas de eleitores democratas ou independentes como motivo para não votar em Obama. A persistência de itens como "não é igual a mim" ou "tem idéias diferentes" acende a luz vermelha. Esse tipo de medo do "diferente" foi detectado cedo pela campanha republicana e serviu de base para a onda recente de ataques negativos ao democrata. Um dos anúncios pergunta: "Quem é o verdadeiro Barack Obama?" Num dos comícios, alguém gritou: "Matem-no!" Por conta disso, o congressista John Lewis, líder histórico dos direitos civis dos negros, comparou McCain ao governador sulista George Wallace (1919-1998), que defendia o segregacionismo. A comparação fez com que McCain pedisse retratação a Lewis e Obama. O democrata se recusou. Na única vez que tocou mais diretamente no assunto racismo, no semestre passado, Obama afirmou: 'Eles vão dizer que eu não sou parecido com os presidentes nas notas de dólar'".

17 de out de 2008

Por uma mídia responsável e não-discriminatória - Carta aberta a Henrique Goldman e à Revista TRIP

(Da revista Forum) - "As organizações e redes dos movimentos feministas, de mulheres, de comunicação e de direitos humanos subscritas manifestam seu total REPÚDIO e INDIGNAÇÃO diante do desrespeito e das violações de direitos praticadas pelo colunista Henrique Goldman e pela Revista TRIP com a publicação do texto "Carta aberta para Luisa" (Edição impressa #170, de 29.09.2008, também disponível no endereço eletrônico http://revistatrip.uol.com.br/coluna/conteudo.php?i=25613), em que o referido colunista “pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos”. Para quem imaginava um “pedido de desculpas públicas”, o teor da coluna viola os princípios da normativa nacional e internacional de direitos humanos, especialmente o respeito à dignidade da pessoa humana, bem como qualquer parâmetro ético na comunicação. Reproduz na mídia padrões de conduta baseados na premissa da superioridade masculina e nos papéis estereotipados para o homem e a mulher, que legitimam e exacerbam a discriminação e violência contra todas mulheres, principalmentes contra as pobres e negras, como são em sua grande maioria as empregadas das famílias brasileiras. Sem qualquer avaliação ou responsabilidade no antecedente e no conseqüente, em relação ao que se publica e como se publica – ainda mais em se tratando de violência sexual contra as empregadas domésticas, o que envolve a discriminação e violência de gênero, classe e étnico-racial –, a Revista TRIP e o colunista, somente em 10.10.2008, e após um turbilhão de manifestações indignadas, justificam na internet tratar-se “de um texto de ficção”, pedem desculpas “por não ter apontado o caráter ficcional do texto” e dizem considerar “inaceitável qualquer forma de assédio ou violência sexual”. Inobstante tal “justificativa”, revistas como a TRIP e quaisquer outros meios de comunicação não podem seguir se furtando às suas responsabilidades sociais com o teor do que veiculam, pois são conhecedoras do poder que têm, da polêmica que geram e, com isso, do quanto mais vendem e ganham às custas da humilhação da dignidade alheia, diga-se, em especial, das mulheres. Isso beiraria à leviandade e má-fé. A “Carta aberta para Luisa”, fictícia ou não, evidencia: 1. a banalização da violência contra as mulheres; 2. a utilização da violência contra as mulheres como produto, para auferir lucro; 3. a compreensão da violência sexual contra as mulheres como uma ação de menor dano, a ponto de ser tratada com deboche pelo autor. A coluna de Goldman não apenas evidencia a banalidade da violência contra a mulher mas o quanto o seu autor não parece reconhecer que a (es)história contada configura o "concurso de pessoas", na prática do crime de estupro, previsto no art.213 do Código Penal, cuja pena varia de seis a dez anos de reclusão, e a trata de forma rasteira e leviana. "Transar contra a vontade dela" nada mais é do que um eufemismo para o conhecido verbo "estuprar". Acrescente-se ao caso mais uma circunstância agravante, prevista no artigo 61, "f" do nosso Código Penal: "com abuso de autoridade ou prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade". Ademais, esperar que “Luisa” possa "rir do que aconteceu" mostra o quanto essas práticas violentas ainda são tratadas como piadas no Brasil – apesar da conquista da Lei Maria da Penha. O mais provável é que nenhuma “Luisa”, e nenhuma outra mulher que sofre uma violência dessa natureza, jamais conseguirá rir do que aconteceu e esse trauma a acompanhará por toda a vida. Certamente, ela se lembra muito bem do autor da violência. O autor, além de caracterizar um “patético pedido de desculpas” em uma “nova violação de direitos”, sequer foi capaz de ir além, deixando alguns questionamentos sobre o final dessa história. “Luisa” continuou trabalhando na casa? Seria obrigada a ver o seu patrão/agressor todos os dias? Ela foi demitida por alguma razão não dita? Ela engravidou do Henrique ou de seu amigo Adalberto? Será que teve que fazer um aborto? Pior do que a hipocrisia do texto é saber que a Revista TRIP compartilha das mesmas opiniões, não só ao publicá-lo mas ao apresentar o colunista como aquele que se tornou "mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos". Repugnante, lamentável e igualmente violento. E ao justificar-se como texto ficcional, retiram essa qualificação. Os danos, no entanto, já foram causados. Agora cabe repará-los. Por isso, as organizações, entidades e movimentos sociais abaixo-assinados solicitam a publicação desta Carta Aberta na próxima edição de TRIP, entendendo que cabe a essa revista e ao colunista Henrique Goldman uma RETRATAÇÃO PÚBLICA formal, não somente às "Luísas" que representam as mulheres que sofrem ou sofreram alguma forma de violência sexual mas a toda a sociedade brasileira que não compactua com esse tipo de mídia veiculada e não tolera esses atos criminosos, de discriminação e violência de gênero, classe e étnico-racial, produzidos e reproduzidos cotidianamente. Que a violência e a violação de direitos humanos sejam reconhecidas e assumidas. Não se trata de uma "bad trip" ou de um texto infeliz mal interpretado; trata-se de misoginia, machismo, sexismo, racismo, classismo, discriminação, falta de compreensão das violências estruturais e seus mecanismos de reprodução, ofensa à dignidade humana, e não só de uma pessoa. Isso afeta e molda a cultura de toda uma sociedade. Sociedade esta que queremos transformar, para que seja mais igualitária, justa e democrática." Para assinar a petição vá ao endereço: http://www.petitiononline.com/mulheres/petition

16 de out de 2008

Wole Soyinka

Há 22 anos, dia 16 de outubro de 1986, Wole Soyinka recebia o Prêmio Nobel de Literatura. A ele, nossa reverência de sempre. (Wole Soyinka - Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre). "Wole Soyinka (n. 13 de julho de 1934 -) é um escritor da (Nigéria). Soyinka foi agraciado com o Nobel de Literatura em 1986. Muitas pessoas o consideram o dramaturgo mais notável da África. Soyinka nasceu em uma família humilde de origem iorubá em Abeokuta, Nigéria. Ele fez o primário escolar em Abeokuta e o secundário no Government College, em Ibadan. Soyinka fez faculdade na University College (1952-1954), em Ibadan, e na University of Leeds (1954-1957), na Inglaterra, onde ele se formou com menção honrosa em Literatura inglesa. Ele trabalhou no Teatro da corte real (Royal Court Theater) em Londres antes de retornar a Nigéria para se dedicar ao estudo da dramaturgia africana. Soyinka lecionou nas universidade de Lagos e Ife (tornando-se professor de Literatura comparativa nesta instituição de ensino em 1975). Soyinka participou ativamente na história política da Nigéria. Em 1967, durante a Guerra civil nigeriana, ele foi preso pelo Governo federal mantido em confinamento solitário na prisão por suas tentativas de mediar a paz entre os partidos em guerra. Na prisão ele escreveu poemas que mais tarde viriam a ser publicados em uma coleção sob o título Poems from Prison. Soyinka foi liberado vinte e dois meses mais tarde após haver se formado uma conscientização internacional sobre a sua situação. Mais tarde ele recontou a sua experiência no confinamento em um livro: The Man Died: Prison Notes. Soyinka tem criticado abertamente as administrações da Nigéria e de tiranias políticas mundo afora, inclusive fez denúncias contra o regime de Mugabe de Zimbabwe. Muitos de seus escritos tratam do que ele chama de "the oppressive boot and the irrelevance of the colour of the foot that wears it", ou seja, parafraseando: o coturno opressivo e a irrelevância da cor do pé que a calça. Essas formas de pensar e de se expressar tem causado grande risco de vida ao autor, especialmente durante o governo do ditador nigeriano Sani Abacha (1993-1998). Durante a ditadura do General Abacha, Soyinka se retirou de seu país de origem em exílio voluntário (passando a maioria desse tempo nos Estados Unidos onde lecionou na University of Emory, na cidade de Atlanta. Quando do retorno do governo civil na Nigéria, em 1999, Soyinka aceitou emérito da Ife (agora Obafemi Awolowo University, mas somente com a condição de que nenhum dos ex generais do regime prévio jamais fossem designados como chanceller da universidade no futuro. Após algum tempo na África, ele passou a ocupar a cadeira Elias Ghanem Professor of Creative Writing no Departamento de inglês da University of Nevada, na cidade de Las Vegas, Estados Unidos". (Do sítio Parlamento Europeu, entrevista com Wole Soyinka, o primeiro Nobel da Literatura africano Cultura - 12-09-2008 - 11:13) Wole Soyinka, escritor e poeta nigeriano, Nobel da Literatura em 1986, esteve presente na semana africana. Durante a sua intervenção na reunião dedicada ao diálogo intercultural, Soyinka insistiu firmemente na necessidade de julgar os responsáveis por violações dos direitos humanos. Detido diversas vezes na Nigéria pelas suas críticas às forças militares e governamentais, o escritor dedica grande parte da sua obra à corrupção, à tirania, ao culto da personalidade e aos ditadores africanos. Quais são, na sua opinião, os factores mais importantes no diálogo intercultural? "O diálogo intercultural é um fenómeno humano. O que está em causa é a forma de pôr em prática e de melhorar esse diálogo. Espero que a comunidade internacional já tenha percebido que a hierarquia de culturas não existe. O reconhecimento das culturas desconhecidas ou estranhas avançou muito e há um conhecimento cada vez melhor dos fenómenos culturais. Isso significa que é necessário desenvolver e melhorar os mecanismos de troca cultural". O seu trabalho está muito ligado a alguns temas políticos em África, como a corrupção e o abuso de poder. Qual é, no seu entender, o papel dos escritores na sociedade?"Voltamos à questão da interacção cultural e é evidente que cada cultura tem as suas prioridades. De certa maneira, a política encontra sempre uma forma de ocupar o seu próprio espaço nos programas culturais. As pessoas continuam a questionar-se sobre o papel do indivíduo na comunidade. Acredito que a cultura, seja sob a forma de literatura, poesia, prosa, romance, em África ou na Rússia, possa estar sempre impregnada de elementos socio-políticos. É como a água: encontra sempre o seu nível". O que significam, para si, os mecanismos de troca entre culturas? "Vou dar um exemplo concreto: o British Council e a Alliance Française enviam esporadicamente grupos de teatro a África, designadamente à Nigéria, para actuações e debates. Em seguida, os grupos nigerianos podem viajar para o estrangeiro e dar a conhecer ao público novos idiomas teatrais. Basta participar numa destas acções para constatar a forma enriquecedora como as pessoas abrem os seus horizontes. Um outro exemplo é o fenómeno da internacionalização dos festivais locais. Na minha Universidade organizamos um festival denominado "Máscaras, Mascaradas e Marionetas". Foi uma oportunidade de introduzir os nigerianos às tradições de máscaras do resto do mundo. Convidámos o Japão, a China e os países escandinavos. Muitos nigerianos não sabiam que existe uma tradição de máscaras nesses países e pensavam que era uma tradição exclusivamente africana. Foi duplamente útil para os nigerianos porque, como sabemos, o fundamentalismo religioso está a limitar a compreensão entre culturas e os horizontes das pessoas. Muitos cristãos e muçulmanos nigerianos, incluindo os próprios estudantes, ainda acreditam que as máscaras são um sinal de feiticismo, de paganismo e de barbárie". Como se sente por participar na semana africana do Parlamento Europeu? "Como é que me sinto? Em casa! Enquanto a Nigéria esteve em crise, eu costumava visitar e conversar com os deputados ao Parlamento Europeu. Agora que as coisas parecem ter estabilizado, entendi o convite como uma forma de regressar aqui e agradecer o apoio do Parlamento Europeu durante a última ditadura na Nigéria. Geralmente sou convidado em momentos de crise na Nigéria e espero nunca mais ter que voltar nessas circunstâncias. Mas estou muito feliz por estar aqui novamente". REF.: 20080904STO36282.

15 de out de 2008

Paulina Chiziane e Amélia Dalomba, conosco em novembro

As escritoras Paulina Chiziane (a moçambicana sorridente) e Amélia Dalomba (a angolana ao microfone) estarão no Brasil no início de novembro, para participar de eventos literários. Da Paulina já divulgamos alguma coisa aqui no blogue, já sabemos que é uma mulher forte, de opiniões contundentes, demolidoras, às vezes. Da Amélia postarei uma entrevista concedida em Angola e disponível nos sítios de busca, logo a seguir. Posso adiantar que tive o prazer de conhecê-la na PUC Contagem, MG, em agosto de 2006 e tenho o seu "Espigas do Sahel", autografado. Antes de nos encontrarmos na mesa literária que dividiríamos, eu a vi pelos corredores e sabia quem era ela. Corri para me apresentar e tentar desfrutar uns minutos exclusivos de interação com a poeta, mas qual nada, aguardei por uns 15 ou 20 minutos e nada de conseguir falar com Amélia Dalomba, dona deste sobrenome sonoro e lindo. Ocorre que ela estava em conversa animada e transcendente com uma moça brasileira que parecia partilhar com ela a mesma fé. Eu me comportei direitinho, segundo aprendi na Tradição, como uma africana mais nova (pouca coisa) diante de uma africana mais velha que tratava de assuntos seguramente mais importantes que os meus. Esperei e quando chegou a minha vez, ela se desculpou e delicada despediu-se de mim, pois alguém a chamava para outro compromisso. No dia seguinte aconteceu a nossa mesa e li, tímida, um texto do Tridente pra ela, "A velha na soleira da porta" - Terminaram de aprontá-la e foi colocada na porta para receber os convidados. Só os homens. Tradição Balanta. Durante sete dias ficará ali, dia e noite, noite e dia, recepcionando os visitantes. Sempre homens. As crianças passarão pela rua, rirão e farão comentários, mas não se atreverão a chegar perto. Algumas mulheres ficarão curiosas, principalmente as de fora, que se perguntarão porque só os homens podem ir até lá. Ela receberá presentes levados pelos homens e eles conversarão com ela. Conversas cujo teor ninguém saberá. Depois de sete dias ela sairá da casa onde viveu. E descansará. Em paz. - A timidez apareceu também porque a Amélia é uma trovadora vigorosa, da melhor estirpe das Griotes* do oeste da África e das Cantopoetas das tradições Banto no Brasil(posso chamá-la assim, Edimilson?). Como verão na entrevista abaixo, o entrevistador chega a sugerir que Amélia cante profissionalmente. Contudo, recebi um comentário doce e cheio de sorrisos e ainda um exemplar do Espigas. Amélia Dalomba fará um recital poético dia 07 de novembro, às 16:00hs, na Fliporto, cujo tema central deste ano serão as literaturas africanas. Paulina Chiziane fala no mesmo dia, na mesma programação, também em Porto de Galinhas, PE, uma hora antes de Amélia. Dois dias antes, Paulina estará em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, num encontro em que escritores de Língua Portuguesa discutem violência na literatura (Dia 05/11, às 19:00, entrada franca, mas com limitação de lugares - 11 32565270). *Griote: feminino de Griot, espécie de corporação profissional compreendendo músicos, cantores e também sábios genealogistas itinerantes ou ligados a algumas famílias cuja história cantavam e celebravam (Amadou Hampâté Bâ). Costumanos falar apenas dos Griots, os homens, mas existiram e existem importantes Griotes, mulheres.Entrevista de Isaquiel Cori a Amélia Dalomba. "É uma das vozes femininas que mais se fazem ouvir na literatura angolana. Encantadora e declamadora vibrante, a sua presença é amiúde requisitada nos mais importantes saraus culturais luandenses. A sua poesia, patente nos dois livros que publicou (Ânsia e Sacrossanto Refúgio), pela força, sinceridade e sensibilidade aguçada que irradia, impôs-se rapidamente e catapultou-a à condição de uma das mais importantes poetisas angolanas. Contestando o rótulo fácil de cultora de uma poesia feminista, afirma, categoricamente, e com toda a verdade, que também canta o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Nascida em Novembro de 1961, em Cabinda, instala-se em Luanda em 1981. É sua opinião que "a poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho". E, mais do que nunca, tem a convicção de que Angola terá 'um futuro melhor'." Pergunta - Nasce em Cabinda em Novembro de 1961. Foi lá que começou a escrever? Resposta - Sim. Por volta dos 13 anos, com o incentivo de professores e família. P - Quais são as influências ou motivações que a impulsionaram para a criação literária e, mais concretamente, para a poesia? R - Talvez o facto de ter tido pais que cantavam, contavam histórias e estórias e nos punham a contar as estrelas e a descobrir imagens nas nuvens. P - Quais foram as leituras decisivas que mais peso terão tido na sua formação cultural e poética? R - Camões e Gil Vicente, as estórias da carochina e do Capuchinho Vermelho e tantas outras referências, como Tchekov, Gorki, Alexandre Dumas, Neto, Jacinto e Viriato, enfim... P - Fale-nos do ambiente cultural, social e político reinante em Cabinda durante a sua adolescência... R - Cabinda não era totalmente diferente do resto dos territórios colonizados. A diferença substancial estava no facto de ter sido uma zona franca, o que originava uma baixa de preços substanciais, nos produtos básicos. Há que sublinhar que o movimento cultural era intenso. No que toca à música, por exemplo, vários agrupamentos musicais locais faziam a festa das populações, muitas vezes sem concorrência doutras paragens. A noite colonial era do mesmo tom, textura e embrutamento, no que toca à dignificação dos naturais, logicamente. P - Quando e em que circunstâncias vem a Luanda? R - Venho viver para Luanda por volta de 81, devido à transferência do meu companheiro. P - Como define a poesia? R - Poesia é a expressão sublimada das inquietações do espírito, isto é, do nosso corpo etéreo... P - Para que serve a poesia? R - Para a expurgação de penas, alheias e nossas, como um grito, uma gargalhada, um ponto de afirmação, interrogação, reticências, ponto e ponto e vírgula, das nossas vivências... Enfim, um continuado exercício de percepção... P - Essas palavras são suas: "Que / tortura / a cada / Instante / Ah / Se não fosse / Essa mania / De escrever / Poemas / que / dão / alento // Acho / Amor / que morreria / por ser / tão grande / esse tormento". E também essas: "Sacrossanto refúgio". Essas palavras significarão que, para si, a poesia é o território da sua realização pessoal, o local aonde vai buscar forças e ânimo para viver? R - Não. Conheço muitos e brilhantes leitores que se identificam com o que escrevo. A poesia para mim é apenas um complemento na busca da minha paz profunda. P - A transformação da poesia em "sacrossanto refúgio" significará a deificação da poesia, a elevação da poesia a entidade divina? A poesia, digamos assim, é o seu Deus? R - É um refúgio sagrado, em alguns momentos, mas também pode ser um guarda-chuva, guarda-sol, uns óculos escuros, uma máscara cirúrgica ou de carnaval... P - Acredita que existe uma poesia feminina? A existir, ela seria criada apenas por mulheres? R - Não. Alguns aspectos de vivências, próprias, como a maternidade, algumas expressões passivas dos sentimentos, podem identificar o sexo de quem escreve?... Talvez. Ainda ontem escrevi a letra de uma canção, para ser interpretada por homens... Acho a poesia assexuada... e procurar doentiamente destrinçá-la pelo sexo da letra é, no mínimo, deselegante. P - Por vezes, a sua poesia faz abertamente a apologia das causas femininas. A Amélia Dalomba assume-se como feminista? R- Canto, também, o choro das crianças, a degradação social e o remetimento dos povos à ignorância. Será que me poderia inventar um rótulo para isso? Se sim, agradeço. P - Como vê a poesia angolana hoje? Nela, o que mais lhe fascina? R - A poesia angolana está a ganhar cada vez mais o mistério fabuloso da sublimação da palavra e do sonho... E fascina-me precisamente este aspecto. Muito embora, amiúde, os leitores exijam mais comunicabilidade. Só que ninguém poderá no acato da criação preocupar-se com isso, mas uma coisa é certa: a mensagem fica sempre no subconsciente e acredito que não a deixaremos por mãos alheias... P - Diga-nos a sua opinião sobre: a poesia de Ruy Duarte de Carvalho, José Luís Mendonça, João Melo, João Tala, Conceição Cristóvão, Lopito Feijó; a música de Dog Murras, Paulo Flores, Carlos Burity, Euclides da Lomba; a pintura de Viteix, Álvaro Macieira, Tona, Marcela Costa. R - A sua pergunta é bastante condicionada. Porquê? Qualquer um dos nomes citados simboliza uma potência no mundo das artes angolanas, dentro do seu género, sua época, seu público. Só que citou apenas uma mulher e sabe tanto quanto eu que em todas as esferas da criação elas estão presentes já em número e qualidade respeitáveis. Enfim... deixo aos críticos a abordagem analítica mais profunda de todas estas figuras da cultura angolana. P - Acredita que a literatura pode ajudar a mudar a vida e o mundo? R – Acredito, sim. Germano Almeida, de Cabo Verde, é prova disso, com o seu livro O Dia das Calças Roladas, e mais um outro recente que já não me recordo o título... P - A edição de livros tende a crescer, mas nota-se uma confrangedora falta de leitores, na medida em que até edições de 500 exemplares ficam anos e anos nas prateleiras das livrarias. O que poderia ser feito, do seu ponto de vista, para mudar essa situação? R - Enquanto o Estado Angolano não subvencionar o livro, as prateleiras continuarão abarrotadas, a formação dos Angolanos deficiente, pois, enquanto isto não acontecer e quem de direito não agir no sentido de priorizar a formação do indivíduo, é injusto o que se ouve muitas vezes, a atribuição de culpas aos escritores... P - Como cidadã e poetisa, tem fé num futuro radioso para Angola? R - Perder a fé em Angola, nunca! Estaríamos todos mortos. Temos que acreditar e fazer por isso. Um futuro melhor! P - Nesse mundo cada vez mais globalizado, em que aparentemente tudo ou quase tudo parece já ter sido inventado, o que é que os escritores angolanos podem acrescentar de novo? R - Angola ainda é virgem em muitos aspectos. Temos muito para pesquisar, para o melhoramento da nossa expressão artística. E para isso é preciso humildade, identidade cultural e coerência de valores. Há muito a fazer... P - Neste nosso continente africano ameaçado pela pobreza extrema e doenças endémicas como o SIDA, e não só, e ainda pelas guerras, há algum espaço para optimismo quanto ao futuro? R - Ao longo da história da humanidade, ciclicamente, pestes assolaram os humanóides. Por isso, devemos sem pânico cuidar da prevenção e cuidados primários, para evitar a disseminação. Sabemos que tudo isso passa por medidas dos Estados, na formação das consciências, no combate e no apoio às organizações da sociedade civil... E alguma serenidade, como uma questão de auto defesa, até... P - Pode dizer-nos das suas próximas novidades literárias? R - São só projectos. Deskuanzados**, mas ricos de sonhos e manuscritos. P - Sabemos que também tem uma inclinação para a música. Para quando um disco seu? R - Como gravar um disco?! Se ainda não fiz nem uma terça parte do que devia em relação à poesia, como meter-me em outra empreitada, que, sinceramente, ainda não estaria à altura? Tenho letras e melodias que, se alguém quisesse fazer-me o favor de ouvir e cantar, já seria muito." **Kuanza é a moeda de Angola, quando Amélia diz "deskuanzados", então, imagino que fale sobre projetos ainda sem fundos para execução.

13 de out de 2008

Bolsas para professores da rede pública em universidades públicas

(Por Angela Pinho, da sucursal da Folha de São Paulo, em Brasília). "O Ministério da Educação irá destinar no ano que vem R$ 1 bilhão para financiar a graduação e especialização de professores da educação básica em universidades públicas. Parte do dinheiro será destinada a instituições superiores federais, estaduais e municipais para custear a abertura de novas vagas; outra será utilizada no pagamento de bolsas para os professores universitários que assumirem mais turmas de licenciatura; e outra parte para bolsas para os docentes do ensino básico. Duas mil bolsas -no valor de R$ 1.200- já foram oferecidas neste ano. A meta do governo é que o número chegue a cerca de 10 mil bolsas em 2012. O ministro Fernando Haddad disse esperar atingir 300 mil professores sem graduação e 300 mil sem formação na área específica em que lecionam -ele citou o exemplo de 20 mil professores de matemática formados em pedagogia. As principais deficiências estão em química e biologia. Além de aumentar a escala da formação, outro objetivo da criação do sistema, segundo Haddad, é ampliar o número de professores da rede pública formados no ensino superior público -hoje, estima-se que essa seja a origem de apenas 15% dos docentes. "Sabemos que há boas instituições particulares, mas as avaliações mostram que a maioria das boas instituições formadoras são as públicas", disse o ministro, que afirmou ser simpático também à idéia de um concurso nacional para o magistério. A minuta do decreto que cria o sistema nacional de professores prevê ainda a possibilidade de dar aos profissionais da rede pública acesso prioritário às instituições de ensino superior. Na prática, caberá às universidades decidir se adotam ou não a reserva de vagas, já que elas têm autonomia. Segundo o secretário de Educação a Distância do ministério, Carlos Eduardo Bielschowsky, a UFBA (Universidade Federal da Bahia) é uma das instituições que optou pelo sistema, com turmas específicas para docentes. O número de vagas a ser oferecidos e as áreas do conhecimento abrangidas pelo sistema deverão ser definidos em cada Estado por um colegiado formado por representantes do MEC, dos professores, dos governos estaduais e municipais e das universidades públicas da unidade da federação. De acordo com Bielschowsky, 20 Estados já começaram a fazer planos para identificar suas deficiências. São Paulo não está entre eles. A secretaria paulista informou, via assessoria de imprensa, que uma comissão do órgão analisará o projeto federal para decidir se adere a ele ou não. A pasta lembrou ter anunciado nesta semana um projeto de formação a distância para 110 mil docentes da sua rede. Haddad disse esperar a adesão de todos os Estados, que poderiam economizar dinheiro -para ele, os programas de formação de professores são muitas vezes malfeitos e ainda assim custosos. A minuta do decreto que cria o sistema nacional de formação de professores ficará aberto a consulta pública até 24 de novembro. O texto está no site do MEC (portal.mec.gov.br); sugestões podem ser enviados pelo e-mail formacao.magisterio@capes.gov.br."

12 de out de 2008

Carta aberta à Luisa, respostada por ela

Carta aberta para Luisa (Por: Henrique Goldman) "Oi Luisa, Será que você lembra de mim? Sou filho da dona Fany, do Bom Retiro. Provavelmente você lembra, mas talvez por desgosto tenha removido aquela absurda tarde da memória. Só me permito lembrar - lavando estes panos sujos assim tão publicamente - porque o mundo é cheio de Luisas. Porque já se passaram 32 anos e porque, lamentavelmente, o que aconteceu entre nós não é tão incomum. Quantos anos você tinha? Vinte, trinta? De onde você era? Quem você era? Só sei que você era empregada de casa, que teus seios eram fartos e que eu tinha 14 anos. Você era tímida e já trabalhava em casa há algumas semanas quando a Sheilinha, uma colega de classe, me disse que você já tinha trabalhado na casa da família dela e que você "dava para um motorista de táxi". A idéia de que você "dava" não saiu da minha cabeça, e você começou a estrelar obsessivamente todas as minhas punhetas. De tarde eu fi cava rondando pela área de serviço enquanto você lavava a roupa. Era um tesão incontrolável, afl ito, desesperado e covarde. Eu nunca gostei daquele bosta do Adalberto e não me perdôo por tê-lo envolvido nessa história. Até hoje, nas poucas reuniões da turma do colégio Renascença, eu o evito. Mas ele era maior e mais corajoso, e eu recorri a ele. Sinto muito remorso, Luisa, pelo que fizemos. Meus pais e irmãs tinham saído e você estava varrendo a sala quando eu e o Adalberto demos o bote. Não lembro qual foi o nosso papo, mas imagino que tenha sido a coisa mais ridícula do mundo. Pedimos, insistimos sem parar para que você "desse" para nós. CASA-GRANDE E SENZALA Lembro de poucos detalhes. Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego. O Adalberto, é claro, foi o primeiro. Subi numa escada e fi quei olhando através da janelinha do cubículo que era o teu quarto. Depois fui eu. Não foi bom, Luisa. Na hora do vamos ver fi quei envergonhado e não rolou legal. Até hoje me envergonho. Muito. Espero que você esteja bem. Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você hoje possa rir do que aconteceu. Desculpas, Luisa. Henrique". *Henrique Goldman, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos. Fonte (e link para comentários): http://revistatrip.uol.com.br/coluna/conteudo.php?i=25613 Resposta da Luisa: Oi Henrique, li sua carta na revista Trip na casa da minha patroa. O filho dela de 14 anos foi quem veio me mostrar e brincou: “será que foi você, Luisa?” Sim, fui eu. Oh crueldade do destino, mas não deixei ele saber. Na hora fingi que não me interessei, mas assim que ele saiu pra jogar playstation com os amigos, peguei a revista e corri pro banheiro. Passou um filme na minha cabeça, Henrique, eu me lembro de tudo, sim. O motorista de táxi eu conheci na escola noturna, saí com ele algumas vezes, mas não cheguei a dar, não. Não foi por falta de insistência, nem de vontade, minha e dele, mas ele sabia que eu era virgem e tinha medo que eu engravidasse, não queria problemas com minha família. Quando ele me viu de barriga, chorou, não sei se de raiva ou tristeza, nunca mais falou comigo. Também a gente se mudou logo dali, meus pais não suportaram a vergonha de ter uma filha barriguda. A sua mãe ajudou muito, muito mesmo, com conselhos, pra eu retomar o juízo, e com dinheiro pra mudança. Até quando a menina nasceu, minha mãe dizia que D. Fany era uma patroa muito boa, que eu não tinha sabido aproveitar. Depois ela cresceu e os olhos ficaram muito parecidos com os seus, minha mãe deixou de elogiar a sua. A coisa que mais me lembro, Henrique, é que você pegou do chão o tapete e jogou na minha cara, disse que olhando pra ela não ia conseguir. Foi como um filme, Henrique, eu não esqueço. Minha filha faz faculdade de Direito e estágio na Defensoria Pública. É uma moça bonita, inteligente e feliz, não precisou passar pelas coisas que passei. Hoje tenho 48 anos, mas pareço ter pelo menos 60. Não devo ter mudado muito, quando tinha 16, você me dava 30. Vou pedir a revista emprestada e levar pra menina ler, pena que não tenha foto sua.

11 de out de 2008

Cartola 100 anos!

Dez mil visitas em três meses

De mil vistas em três meses teve o blogue. Três meses e seis dias para ser exata. É um bom número, um ótimo número. Nem nos meus delírios mais otimistas imaginava que o blogue fosse assim prestigiado. Nunca é demais agradecer às pessoas que me honram e alegram com sua passagem por aqui. Agradecida! Essas visitas, companhias constantes, fortalecem o compromisso de escrever diariamente ou pelo menos postar com essa periodicidade, sempre que possível, para também ser fiel a quem vem à casa todos os dias, religiosamente. Não deixo de me espantar porque não sou leitora assídua de blogues e freqüento muito a web por obrigação de ofício, menos por prazer, propriamente. Confesso que gosto mais de ler em papel. Alimentar o blogue é um exercício constante de aprimoramento da escrita e de consolidação de um espaço de diálogo e de afirmação de uma perspectiva artivista. Não faço parte da geração que tem prazeres supremos com o fazer blogueiro, para mim, trata-se de um espaço estratégico, pouco mais que isso. O grande prazer está em escrever e publicar em papel. Sou antiga. De toda forma, já temos 104 visitas diárias, em média, desde a instalação do contador de visitas, fato que me honra e alegra. Os acessos num só dia continuam oscilando entre 110 e 160. Tem crescido o número de países visitantes e também o número de visitas por país. O campeão é Portugal, seguido por Estados Unidos, Angola, Moçambique e França. Angola e Moçambique me alegram sobremaneira, pois, além de serem irmãos mais velhos, ancestrais mesmo, onde estão nossas raízes, os dois países não gozam de grandes facilidades tecnológicas. Isto torna ainda mais significativa a presença dos manos velhos. Fico curiosa para saber quem são meus leitores e leitoras, gostaria que houvesse mais participação/interação de quem lê com os textos e idéias, mas, as coisas são como são. De minha parte persigo o objetivo de fazer um blogue melhor e mais dinâmico a cada dia, com notícias, textos e idéias que continuem a interessar essa audiência tão fiel e simpática. É isto. São apenas umas palavrinhas para registrar um número simbólico e importante que anima a continuidade do trabalho.

9 de out de 2008

Desconcerto, livro novo de Claudinei Vieira

“Porque os contos de Claudinei inventariam o cotidiano sulamericano neste fim de século marcado pela exclusão, o cotidiano mais pedestre e brasileiro no qual supostamente ninguém parece interessado. A começar dele próprio e de seus personagens. Assim é que com uma linguagem desprovida de emoção, uma linguagem fria – dos inventários, dos relatórios, onde não faltam cifras, números, estatísticas – o narrador se aproxima dos seus temas e personagens com um olhar paradoxalmente compassivo, humano, solidário, e este é o grande achado literário de Claudinei Vieira: a combinação da linguagem fria à visada quente, mixando imprevistamente objetividade e compaixão. Razão e sensibilidade. Pelas artes e manhas de uma poética extremamente original.” Do prefácio de Márcia Denser ao ‘Desconcerto’, de Claudinei Vieira

7 de out de 2008

"Cinderelas, lobos e um príncipe encantado" - um filme crítico e sensível sobre o turismo sexual no Brasil

Num dia deste setembro, estranhamente invernal, fui à zona portuária do Rio, a convite do amigo Joel Zito Araújo, comentar o filme “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado”, seu último documentário, lançado no Festival Internacional de Cinema do Rio. Foi muito significativo abordar o tema do turismo sexual numa bela casa de cinema, localizada na Gamboa, onde escavações acidentais encontram ossos de negros, às dezenas. Lembremos que no Brasil, até pouco antes do advento da República, só os católicos, batizados, tinham direito a enterro em cemitérios públicos. As negras e negros mortos, não-católicos, tinham seus corpos jogados fora, literalmente, ou, enterrados em cemitérios clandestinos, como os existentes ali, na Gamboa. Por isso foram criadas muitas das irmandades de pretos, para enterrar o povo negro escravizado e egresso da escravidão, que não tinha como prover um sepultamento digno para si. Este, pagava dízimo às irmandades, e assim, ao longo da vida, o povo negro comprava o direito de morrer com dignidade ou, pelo menos, de ser enterrado como gente. É significativo porque “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado” fala de pessoas mortas-vivas, de meninas “rachadas ao meio por dois reais”, como alertou um taxista indignado com a exploração sexual de crianças, de gente que perde a alma e segue vivendo. Esta é a minha leitura do filme, a obra é aberta e possibilita inúmeras outras. Percebi no Joel entrevistador, o rigor do pesquisador acadêmico, ou seja, aquele que mesmo interagindo e, seguramente, discordando de várias atitudes e posicionamentos, mantém os silêncios necessários para que o entrevistado se solte e revele aquilo que nos choca, nos estarrece, pois nos coloca dentro da boca do jacaré, do gringo “100% jacaré”, ou do cabeleireiro-lobo, em pele de cordeiro. Todo cuidado é pouco com as fotografias ingênuas tiradas com e por gente desconhecida, o monstrengo-jacaré, por exemplo, usa fotografias tiradas ao lado de gente séria, do mundo da arte, principalmente, para comprovar qualidade e idoneidade de suas amizades no Brasil. Entretanto, o silêncio do pesquisador não significa neutralidade. O autor-diretor se posiciona ao incentivar, pela anuência silenciosa, que os jacarés sintam-se à vontade e arreganhem os dentes. Em outros momentos faz uso de ironia fina, em comentários sutis, quase imperceptíveis. Cabe à assistência, além de cuidar da própria defesa, o engajamento nas políticas públicas para proteger, no mínimo, às crianças e aos adolescentes da exploração sexual. Há o exemplo irado do motorista de táxi, cuja região de trabalho é zona de prostituição infantil. Ele revela coisas que os juizes reacionários, Oxalá não se configurem também como abusadores de crianças e adolescentes, consideram “normais”, ou seja, as estratégias de sedução praticadas por crianças que, na opinião deles, comportam-se como "mulherzinhas, mulheres em miniatura", justificando a absolvição de homens adultos que as exploram sexualmente. São muitos os pontos importantes do filme e não tenho a intenção de abarcá-los, apenas gostaria de destacar dois: o complexo mosaico racial e de exercícios eróticos e afetivos apresentado e o nó górdio do racismo e dos estereótipos internalizados pelas pessoas que são alvo do racismo. Para colocar mais pimenta no molho da complexidade, trago um comentário feito no meu blogue à guisa da reprodução do artigo crítico de Carlos Alberto Mattos sobre o Cinderelas, publicado em outro sítio. O texto é de Samya, uma garota que conheci em Paris, no verão de 2006. Diz ela: (...) “Tua critica (refere-se ao texto de Carlos Mattos) me fez lembrar um episodio que me chocou profundamente quando estava na Itália. Eu morava na casa da família do Eric, um marfinês que conheci no Brasil e que se tornou minha família. Pois então, morávamos em Roma e um dia estava na casa de uma amiga brasileira e estávamos jantando amigavelmente entre mulheres, logo depois da janta disse que eu tinha que sair, pois iria me encontrar com o Eric e com os primos dele. Uma das brasileiras presentes decidiu me dar uns conselhos, me disse que eu "não precisa disso", não precisava continuar saindo com esses pretos pois além de branca eu nem era feia e poderia, tranqüilamente, arrumar um italiano, um homem branco, pois saindo com esses pretos eu perderia completamente o valor (leia-se valor de mercado). Eu me senti profundamente insultada, como mulher e como ser humano. Então o meu valor se media pela cor do homem que estava ao meu lado? E na Europa eu tinha finalmente a possibilidade de ser alguém, de ter um marido branco. Essa é só uma das muitas histórias de racismo, de negação e de profundo complexo de inferioridade que vivi e continuo vivendo nos meus anos por aqui, como a história da brasileira que saiu da um ótimo apartamento na periferia de Paris para morar num quartinho de 9m2 no centro, onde ela podia finalmente se livrar desses vizinhos estrangeiros que nada mais eram que franceses, que por pecado carregavam um nome árabe ou africano. Desculpe aí o desabafo, mas às vezes preciso exorcizar um pouco” (...) Samya remete-nos ao filme, ao depoimento do italiano branco, cujo bordão é “toda brasileira é considerada puta na Itália”, mesmo num jantar entre amigas brasileiras, ao que parece. Afinal, como declarou Márcia, a dançarina, aparentemente bem-sucedida em Berlim, toda brasileira (leia-se migrante) faz o que é preciso, se vira como pode na hora da necessidade. O entrevistado vem ao Brasil fazer sexo com as mulheres brasileiras, mas é crítico e contrário ao turismo sexual. Ao turismo exagerado, pelo menos. Acha que o Estado deve intervir para moralizar a coisa, mas quer manter seu sexozinho básico, quem sabe, feito até com crianças e adolescentes? As uniões de sucesso entre brasileiras negras e alemães brancos, quer sejam os casamentos estáveis, vividos na Alemanha, quer sejam as uniões fugazes em terras brasileiras, enquanto dure o visto de turista e as sucessivas renovações, levam-nos a pensar nos diferentes tipos de expectativa e concepção de casamento por parte de mulheres e homens envolvidos. Os homens são unânimes em declarar que as mulheres escolhidas são menos severas, mais doces, carinhosas e permissivas do que aquelas (européias) que talvez os tenham rejeitado, ou com as quais eles não tenham desejado se relacionar. As mulheres, por sua vez, destacam, direta ou indiretamente, o conforto material oferecido por aqueles homens. Mas, ao cabo, são cinderelas que encontraram seus príncipes encantados e o filme, corretamente, se abstém de julgá-las. Para comentar o segundo ponto, parto do discurso extremamente racializado e aparentemente inofensivo do cabeleireiro (branco) cearense e da travesti (socialmente branca) sobre a preferência dos gringos pelas “neguinhas”. O cabeleireiro destila aquilo que o brasileiro branco médio, heterossexual ou gay, pensa sobre as mulheres negras. O entrevistador se mantém em silêncio, constrangido e cúmplice, mas seu silêncio diz tanto, chega a doer. O resultado é revelador, não foi preciso perguntar nada, o cabeleireiro abre o coração ressentido. Ele diz mais ou menos assim: “nem eu (que sou branco e tenho cabelo liso) consigo ir pra Europa com um bofe desses e, essas neguinhas, do cabelo bem pixaim, conseguem. E ainda vêm aqui, no meu salão, esnobar, me esnobar. Vêm alisar o cabelo pixaim e me apressam (a mim, que sou branco) porque o avião já está quase saindo para a Europa”. Depois tenta aliviar o veneno com o ineficaz antídoto de declarar-se sem preconceitos, além de admirador da cultura e das divas negras, na verdade, ele “só fala das coisas como elas realmente são”. Ora, ora, essa “neguinha” humilhada quer se vingar e diz, hipoteticamente: “você, branco, me humilha, me chama de neguinha do cabelo pixaim, mas é do meu sexo que os gringos gostam, eu sou a mais gostosa, a mais fogosa”. É por essas e outras que quando as ativistas negras tentam desconstruir o imaginário da negra sexualmente vulcânica, sempre aparece uma mulher negra comum que reclama porque com isso tiraríamos "a única coisa boa" que elas têm, ou seja, a ilusão de que são gostosas e vulcânicas, superiores em pelo menos uma instância da vida e isso as tornaria insuperavelmente desejáveis. Mas não nos iludamos, será que as negras são mesmo isso tudo e os gringos as procuram por este motivo ou porque elas topam tudo???? E topam porque não têm nada, porque todas as misérias sociais agravadas, escandalizadas e reverberadas pelo racismo, as depauperaram de tal forma, que as leva a aceitar qualquer coisa, qualquer gringo. Afinal, em muitos depoimentos, as mulheres contam que os gringos com os quais fazem programas no Brasil são pobretões na Europa, trabalhadores cujos salários em Euro não lhes permite comprar os bens e serviços que o Real lhes proporciona aqui. Essas mulheres brasileiras tão inferiorizadas e carentes dão um up grade na masculinidade combalida de boa parte dos turistas sexuais. Pesquisas feitas com os michês baianos durante a década de 90, brancos e negros, mostram que os negros são mais procurados pelos gringos por dois motivos: fazem sexo inseguro sem reclamar e cobram mais barato. O mesmo vale para as prostitutas negras. Seriam estes michês e prostitutas negros mais requisitados por serem mesmo “quentes” ou por serem permissivos? Quem sabe, uma permissividade em brasa, como efeito indelével do racismo. Por fim, o Joel corrigiu um desvio na minha rota interpretativa. Havia entendido, por conversas anteriores, que a força motriz do filme fora um olhar sobre o exercício da sexualidade transversalizado pelo racismo, nada disso. A motivação foi totalmente racial. Joel propôs-se a investigar os dados quantitativos, comprovadores de que 75% das mulheres envolvidas com o turismo sexual são afro-descendentes. O resultado contundente da pesquisa está em “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado”, um documentário vital para iniciar as pessoas na complexidade humana, racial e econômica do tema.

6 de out de 2008

Mais um lançamento da Edições Toró

(Por Allan da Rosa). "Salve, povo. Licença. Edições Toró convida pro lançamento do livro “Um Segredo no Céu da Boca – pra nossa mulecada”. Este livro traz o trabalho e a artimanha, o tempero e a modelagem de 23 autores da COOPERIFA, um sonho de carinho e de revide que toda quarta-feira à noite sangra, chora e brinca num boteco das margens da zona sul paulistana, há 7 primaveras. No livro moram, dançando, 23 canetas da casa, juntadas no balaio de desenhar textos pra nossa mulecada. São contos, rimas, pinturas... Será que o livro e a mulecada daqui cabem na cerca da palavra “infanto-juvenil”? Nesse termo “infanto-juvenil” ? É um livro feito a várias mãos. Um conseguiu a manteiga, outro untou a forma, mais uma cuidava do forno enquanto um batia a massa. E um ia lavando a louça enquanto outra ia bolando a cobertura. Agora taí o bolo de mulecagem. Te convidamos pra partilhar esse segredo, (segredo já alastrado? que é essa pegada de palavrear na beira) e celebrar a esperança na versação do sarau com nóis. Com tiragem pequena e distribuída pelos autores, é capaz de se esgotar a cota muito rápido, então se puder cola mesmo no lançamento pra catar o teu. As orelhas do livro sorriram, tinindo, quando ouviram a sugestão que ele seria o melhor presente pra essa onda de dia das crianças." Dia 08/10/08, às 21 horas, Rua Bartolomeu dos Santos, 797 . Jd.Guarujá. Tel: 11 - 5891-7403.

Ainda insistem, mas preconceito não é sinônimo de racismo

Sobre as lições do racismo: 1 - O "preconceito" (racial) teria confundido uma sambista com uma cientista e, por isso (esperadamente), ela teria sido barrada ao entrar em estabelecimento público. Naturaliza-se a suposta superioridade da cientista em relação à sambista e seria então um ultrage que aquela fosse confundida com esta; 2 - Para a cientista cabe o genérico enaltecedor do título, "mulher brasileira". Assim, um receptor desatento esquece que ambas, a suposta "mulata de escola de samba" e a outra, a cientista reconhecida, são uma só, uma mulher negra; 3 - Os títulos acadêmicos e o prêmio redimiriam a cientista da humilhação racial e ela se tornaria digna de ser entronizada naquele espaço público; 4 - Mantem-se intacto e reificado o estereótico das sambistas como lascivas e provedoras de sexo farto e fácil. 5 - O racismo, sistema ideológico que hierarquiza racialmente os seres humanos e produz mecanismos (preconceitos, estereótipos, desigualdades)para que os considerados superiores mantenham suas posições de poder,ao mesmo tempo em que ratificam a subalternização de outros, permanece firme, forte, vivo e voraz. E dissimulado!

4 de out de 2008

Nas livrarias: livro de Angélica Basthi sobre Pelé

Pelé - Estrela Negra em Campos Verdes (biografia): "Os dribles, as jogadas geniais, o enorme talento com a bola e os gols inesquecíveis fizeram de Pelé um mito. O menino pobre que nasceu Edson Arantes do Nascimento e era carinhosamente chamado de Dico na cidade de Três Corações, em Minas Gerais, alçou vôos inimagináveis para um garoto negro da época. Aqui, podemos acompanhar uma história de glórias, de alguém que brilhou intensamente como estrela negra em campos verdes, mas também uma história humana, de uma pessoa como todas as outras, com os altos e baixos que a vida impõe. Este livro narra o seu percurso. Uma trajetória marcada pela fama e o sucesso, que o levaram a ser cultuado como figura máxima do futebol - ou, para ser preciso, como verdadeiro sinônimo do esporte - em todos os quadrantes do planeta. Isto durante décadas, sem que sua retirada dos gramados, há mais de 30 anos, tenha afetado a popularidade de Pelé nem diminuído sua aura de eterno campeão. Pelé enfrentou dificuldades de ordem econômica, familiar, afetiva. Teve problemas com os filhos, sofreu baques comerciais, viveu o fim de dois casamentos e alguns tórridos romances públicos. Saiu-se, como todo mundo, às vezes melhor, às vezes pior. Na média, uma trajetória digna e bonita, com alguns tropeços e muitas grandezas. Agora, às vésperas de completar 68 anos, Pelé ressurge como personagem múltiplo e complexo, idolatrado por milhões de admiradores ao redor do mundo e profundamente brasileiro - sempre fiel ao menino negro que, ainda conhecido como Dico, saiu com a familia de Três Corações para conquistar o mundo. É o que este livro relata, com graça e leveza, a partir de uma vasta e rigorosa pesquisa documental." (Texto de divulgação).

3 de out de 2008

O texto da professora Luana

(Por *Luana Santos). "São cinco da manhã. Hora de acordar. Há tempo apenas para um banho rápido e um café. Até chegar na Escola Estadual Djalma Marques, na periferia de Ribeirão das Neves, serão dois ônibus e uma hora de viagem. Depois desse longo percurso é preciso andar um pouco mais pelas ruas sem asfalto do bairro Florença. A paisagem predominante é a de casas inacabadas, esgoto a céu aberto, pequenos comércios e muitas, muitas igrejas de variadas denominações. O Djalma é uma escola nova, tem pouco mais de quatro anos. Logo à entrada é vê-se a deterioração do prédio. Vidros e portas quebradas. Nas salas de aula a situação se repete com as mesas e cadeiras. A quadra ainda não ficou pronta. Segundo a coordenadora pedagógica, a biblioteca foi criada apenas para que houvesse o cargo de bibliotecária, e os poucos livros que tem devem ficar sempre trancados. A escola conta com câmeras por todos os lados para reforçar a segurança. Sete da manhã. Na sala dos professores entre as conversas, a insatisfação pelo descaso das autoridades com a educação, os problemas do dia anterior, e pedidos de proteção para mais um dia de aula. O sino toca. Os alunos sabem que precisam formar filas para a oração do Pai Nosso. É necessária uma longa espera. Fico em dúvida sobre quem fala mais: a coordenadora aos berros exigindo silêncio ou os alunos dispersos, sem muito interesse em rezar a oração que o Senhor os ensinou. Finalmente a oração é feita e as turmas são conduzidas pelos professores até a sala de aula. Até às 11:30 serão cinco turmas: quinta, sexta, sétima e oitavas séries, num total de quase 200 alunos. Indisciplina, desinteresse e agressões fazem parte do cotidiano do Djalma. De quem é a culpa? Como disse Ferreira Gullar “Uma sociedade fundada sobre a injustiça educa para a injustiça.” Entro na sala da 701. Uma turma com 40 alunos. A mais cheia, a mais bagunceira, a mais difícil, enfim, a mais tudo. De que forma sensibilizar esses alunos provenientes de famílias desestruturadas, expostos de forma cruel às mazelas sociais, sem perspectivas, sedentos de carinho e afeto? Penso que Dom Pedro II esteja muito distante deles, talvez uma das causas do desinteresse pelas aulas. Resolvo então dar uma pausa no conteúdo e levo para sala de aula "Luana"**, crônica que narra a violência urbana que assola os jovens das periferias do Brasil. Distribuo o texto e ouço reclamações quanto ao tamanho. Insisto para que eles leiam, encontro espaço para falar da importância do ato de ler e digo que o texto é muito bacana, que eles vão gostar. Não consigo acreditar no que vejo. Todos os alunos lendo. Alguns têm dificuldade na leitura. Outros mais afoitos interrompem a leitura a todo o momento, querendo saber se aquela "Luana" sou eu. Não respondo, peço somente que eles continuem a leitura. Percebo que em cada parágrafo os alunos parecem estar vendo/ouvindo/vivendo aquilo tudo. “Luana” é real, “Luana” está próxima, certamente ao lado de cada um deles. Ao final da leitura um misto de incredulidade e tristeza: “Nossa, que triste professora, a Luana morreu”. Iniciado o debate acerca do texto a maioria está ansiosa para falar. Ora Luana é culpada, ora inocente. É difícil contê-los. É difícil conter-me. Fico emocionada. Pela primeira vez em dois meses consigo me aproximar dos meninos, consigo que eles participem da aula. Como na escola os materiais são precários, nem sempre é possível deixar os textos com os alunos. Dessa vez não teve jeito, alguns pediram que deixasse o texto com eles. Tive a sensação de estar começando uma longa caminhada. Não posso desistir. É preciso quebrar as amarras da opressão que imperam na sala de aula. Quimera, utopia, ilusão? Ainda não sei. Prefiro acreditar que nem tudo está perdido. * Luana Santos é professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais." ** “Luana” foi publicado no livro “Cada Tridente em seu lugar” de Cidinha da Silva, pela Mazza Edições.

2 de out de 2008

Vai saber

(Letra e música de Adriana Calcanhoto). "Não vá pensando que determinou/Sobre o que só o amor pode saber/Só porque disse que não me quer/Não quer dizer que não vá querer/Pois tudo que se sabe do amor/É que ele gosta muito de mudar/E pode aparecer onde ninguém ousaria supor/Só porque disse que de mim não pode gostar/Não quer dizer que não tenha do que duvidar/Pensando bem, pode mesmo/ Chegar a se arrepender/E pode ser então que seja tarde demais/Vai saber?"

1 de out de 2008

Das coisas trazidas pela primavera - III

(Poeminha 4). Soubesse que querias tão pouco/ Teria aberto apenas as portas do corpo/ De pronto te daria um poema/ E te pouparia do meu frêmito poético de existir/ A sete chaves guardaria o coração/ A catorze, trancaria a alma/ Protegeria do teu sol/Com vinte e uma copas de copaíba/ Meu infinito