Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

31 de dez de 2008

Paz, amor, alegria e luz do entendimento em 2009

Queria ter escrito uma retrospectiva de 2008 porque valeu a pena vivê-lo. Outra vez, a vida me ofereceu mais do que esperava num curto período de tempo. Sobrou nuns campos e faltou noutros, deve ser um jeito dela equilibrar as coisas. Em breve escreverei o anunciado retrospecto, por ora descanso na desaceleração, meu presente desde meados de dezembro. Agradeço a todas as pessoas que estiveram comigo durante o plano de vôo (ainda com acento, a reforma ortográfica vige a partir de primeiro de janeiro), em qualquer momento dele, cada etapa foi importante. Deixo duas imagens da amiga e artista plástica Iléa Ferraz. "Música", excerto de sua obra que muito me encanta e "Revoada para Barack", pintado na madrugada de 04 para 05 de novembro de 2008, como parte da comoção mundial das pessoas de boa vontade pela eleição de Barack Obama, como Presidente dos Estados Unidos. Um bom início de ano para nós. Ashé!

30 de dez de 2008

Obama e os convidados ilustres para a posse em 20 de janeiro

(Fonte: portal Terra). "Milhares de negros americanos que arriscaram suas vidas no movimento dos direitos civis estarão no mês de janeiro em Washington para a posse de Barack Obama. No meio desta multidão, poucos estarão mais orgulhosos que um pequeno grupo de pioneiros, convidados especiais que encararam uma violenta reação racista há mais de 50 anos, quando lutaram contra a segregação racial nas escolas dos EUA. Chamados de "Os Nove de Little Rock", eles foram espancados, humilhados e ameaçados de morte diariamente por meses após se matricularem em uma escola branca do Arkansas. As informações são do The Guardian Melba Patillo, um dos nove, disse que está "honrado" que Barack Obama achou adequado convidá-lo. "Obama disse que aspirou subir os degraus da Casa Branca porque os Nove de Little Rock subiram as escadas da Central High School", declarou ao The Guardian. Todos os integrantes do grupo seguem vivos e alguns ainda moram em Little Rock, outros se espalharam pelos EUA e foram até à Suécia, seguindo carreira como banqueiros, psicólogos e funcionários públicos. Os nove se conheceram apenas quando se matricularam na Central High School, em 1957, seguindo decisão da Suprema Corte americana, que determinou a inconstitucionalidade da segregação entre negros e brancos nas escolas. Quando apareceram no prestigiado colégio, todos em idades entre 14 ou 15 anos, depararam com hordas de brancos hostis. Os estudantes e seus pais promoveram uma violenta reação de ódio, e o goverandor do Arkansas ordenou que soldados da Guarda Nacional barrassem sua entrada na escola. Em um ato que repercutiu pelo mundo, o Presidente Eisenhower destacou tropas nacionais para que protegessem os nove e garantissem sua entrada. A partir disso, os adolescentes puderam ir às aulas, mas foram acossados diariamente. "Nos davam socos, chutes, jogavam bolas de neve com pedras dentro sobre nós. Éramos chamados de tudo que é coisa e ameaçados de morte", disse Brown ao The Guardian. Eram nove estudantes negros entre 1.900 brancos. "Era bem difícil de lidar, mas não fugimos. Sabíamos que tínhamos o direito de estar ali. Tudo o que queríamos era igualdade no acesso ao melhor ensino e a chance do sonho americano", disse Carlotta Walls, a mais nova entre os nove, ao The Guardian. Ela agora vive em Colorado. Eles foram premiados com uma medalha de ouro pelo Presidente Bill Clinton em 1999, mas a coroação de sua batalha será no dia 20 de janeiro".

29 de dez de 2008

Romancistas contemporâneos mascam clichês

(Por Ronald Augusto - poesia-pau.blogspot.com ). "A literatura participa do conjunto das manifestações artísticas. Já nem sei se uma afirmação como essa ainda provoca algum embaraço à maioria das grandes editoras. Mas aqui a reitero e digo ainda que a literatura degenera quando dá as costas ao seu impulso de arte, ou quando se censura nela essa vocação para a multiplicidade de sentidos. Com efeito, para a literatura importa mais a releitura do que a leitura. Para o ponto de vista atacadista do mercado livreiro-editorial interessa a “leitura” enquanto confirmação do apetite de um público consumidor que demanda o livro na perspectiva de uma mercadoria-entretenimento. E a ampliação da venda/leitura per capita de livros é a razão de ser, a carcaça conceitual ao redor da qual volitam as boas e más intenções sejam de editoras, sejam de ocasionais políticas públicas, ou ainda de vozes que repetem clichês decadentistas ou multiculturais em torno ao assunto. No entanto, o que conforma a literatura, numa época multimídia como a atual, ainda como alvo de interesse, inclusive em suas manifestações mais antiquárias, é, talvez — e à revelia mesmo da horizontalidade democrática —, a releitura, que é radical ou transversal. Reler, portanto, é mais importante do que ler, isto é, no sentido em que nesta imagem de releitura que proponho está implicado um tranco de qualidades que se cruzam e se atritam, ou a idéia de uma leitura algo expropriativa que se pretende criadora e desobediente com vistas à continuidade da literatura. Depois de Guimarães Rosa, por exemplo, abandonei a leitura de romances. Concordo que em função disto me vejo obrigado a não desprezar o tanto de prejuízo e o tanto de vantagem incrustados solertemente na escolha. Mas, por outro lado, a recusa até agora tem sido recompensadora. Prefiro reler o prosador mineiro ou Machado de Assis, o maior de todos, a ler o romancista da vez elogiado pelos suplementos culturais ou bancado pelos prêmios literários. O que importa, em fim de contas, é o desejo de produzir linguagem conjugado com a leitura de prazer. O literário em sua dimensão de “desautomatização da vida psíquica” não tem que ser associado à utilidade, mas sim à fruição. A prosa da contemporaneidade se limita mais com os interesses do mercado livreiro-editorial e da retórica cult do sujeito mais ou menos letrado e suas “inofensivas” imposturas, do que com a poesia, as artes visuais ou a música. Se o haikai, segundo Paulo Franchetti, significa “dizer pouco com pouco”, essa prosa sem viscosidade que a nossa época vem nos ministrando, se especializa em não ultrapassar o parco e o parvo, não obstante o dispendioso, o redundante com que se honora no lance de pôr em movimento seu discurso de platitudes. Alguns exemplos: “Súbito a porta se abre e entram os dois médicos”; “Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam — uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas”; “...alguma coisa misturada a uma espécie furiosa de ódio”; “...como vingança e válvula de escape”; “...olhando o céu azul do outro lado da janela”; “...a idéia de que algumas coisas são de fato irremediáveis...”; etc. etc. etc. Assim, por essas vias e por esses descaminhos conjuro para essa discussão o mais recente vencedor do Jabuti na categoria romance, Cristóvão Tezza, autor dos excertos acima citados. Certamente esses recortes não dizem toda verdade acerca do premiado livro. Por outro lado, nem é a obra em si mesma ou a eventual singularidade de linguagem que ela teria a nos oferecer — quando de fato não oferece —, o que está em foco aqui, mas o que ela simboliza por metonímia. Uma prosa com soluções discursivas feito essas esboçadas há pouco, faz soar uma espécie de sineta pavloviana, mais atendendo do que condicionando o paladar do leitor para algo com o qual ele, de antemão, já sente uma necessária propensão a identificar-se. Por fim, o leitor agradece ao prosador facilitador por este não lhe ter ministrado nada além do que ele aprendera a precisar dentro do hábito do menor esforço. Diante de uma tal peça literária ou de sua mancha gráfica na página, e, diga-se de passagem, ainda a uma distância improvável a qualquer leitura, mesmo assim, o leitor teria a garantia de sua satisfação; quem sabe dissera: “Emoção à vista!”. A obra dos seus sonhos se apresentaria, para usar um conceito da semiótica, como um índice; um “sinal de fumaça” indicando o fogo da comunhão emocional com a qual o leitor se depararia, sem dúvida, logo depois da próxima curva, ou no próximo virar de folha. Mas, o texto criativo, a contrapelo do que está descrito antes, deveria ser uma terra de ninguém. Um lugar nunca conquistado. Se Poe, ao inventar o conto policial, inventou o raciocínio e o modelo de sensibilidade do leitor da narrativa policial, um romance como esse, O filho eterno, saído da pena de Cristóvão Tezza, inventa ou irriga os quereres do leitor preguiçoso que faz jus ao pouco em função do pouco esforço que o discurso romanesco lhe pede em troca. Em O filho eterno, romance que, segundo o próprio autor, se filia à tradição da literatura confessional, onde se encarece a fusão dos gêneros biográfico, reflexivo e ficcional, o leitor desta “obra libertadora” (como alguns já começam a apresentá-la) acompanha os transes do protagonista que tem um filho com síndrome de Down. O tema é de “forte apelo emocional”, mas a virtual resenha-chapa conclui que o prosador se safa da armadilha com “coragem e brilhantismo”. Temos, então, o dado biográfico no centro da sedução textual. Corruptora relação isomórfica entre escritor e leitor. Com efeito, o leitor no redemoinho da hipnose romanesca, “tocado” pela façanha do autor que alcança uma integração entre a literatura e a vida, expurga de si, por espelhismo, as interdições, os preconceitos e os sentimentos contraditórios relativos ao tema. O leitor, sombra do autor, se livra também de um fantasma, da idéia de que havia um ponto cego em sua vida a respeito do qual ele não tinha consciência. O leitor é ajudado enquanto se deleita. Filho sempiterno de uma tradição literária que robustece seu espírito. Cristóvão Tezza nos faculta o acesso a mais um romance que reifica inadvertidamente na percepção do consumidor contemporâneo o gênero como um simulacro de emoção que requer uma narratividade naturalista para atingir seus objetivos. A idéia de que tal simulacro anuncia/antecipa ao leitor a emoção que ele “naturalmente” encontrará durante a leitura, confirma a estrutura (que deveria ser fugidia) da prosa de ficção, antes de qualquer coisa, como a chave léxica de uma experiência sensório-emotiva não mais irredutível apenas a esse leitor. Pois como o insumo emocional, no final das contas, se torna um clichê, isto é, uma reação causal a um comando de condicionamento, evento medíocre, porque produto de uma cadeia de convenções de estilo destinada a não cansar o seu público mais crédulo do que crítico, todos estariam aptos a compartilhar esta emoção, por assim dizer, automática, inercial. A telenovela é, em outro âmbito, o melhor exemplo de um “simulacro audiovisual da sentimentalidade” que anuncia ao telespectador (enquanto o adestra para) emoções certas e imperdíveis. Satisfação garantida. O leitor fiel se extravia numa confusão entre o imaginário e o real. No entanto, pelo simples fato de ser uma representação da vida, a literatura não se confunde absolutamente com esta, nem lhe pode fazer as vezes. Segundo José Paulo Paes, a literatura “trata-se, antes, de um prolongamento, de um complemento dela, mesmo porque já se disse que a arte existe porque a vida não basta”. A vida é um defeito na pureza do construto estético que, por seu turno, tem lá as suas impurezas, claro que de outra ordem. Por fim, ao contrário de alguns blogueiros e pseudo-críticos que preferem manter silêncio sobre livros que não possam elogiar, entendo que o texto é um gesto de comunicação, portanto, é um evento em que o leitor está necessariamente implicado. O leitor fecha, ou abre dependendo do ponto de partida, o circuito dialógico. E o leitor (mesmo o mais ingênuo, crítico ou chato) tem bastante a ver com o processo da significação, na medida em que, por dever do ofício, a recepção é transformadora. À liberdade de criação do autor, podemos propor uma equivalente liberdade de leitura crítico-criativa que inere ao desejo de linguagem do leitor. A crítica não é senão um exercício de leitura. Uma leitura possível. Deixando de parte o cinismo risonho desses que escolhem a omissão descolada e transigente, calando ao invés de falar diante da razão que empalidece, seria útil lembrá-los do seguinte: sempre que escrevemos uma peça literária nos vemos implicados (às vezes à revelia do nosso desejo) num debate de formas e idéias que diz respeito a nós e aos nossos pares, que exige a interferência deles e a nossa réplica futura. Vivemos morrendo e aprendendo na troca conspícua de resenhas e livros com os nossos iguais e adversários, nossos leitores baudelairianos".

28 de dez de 2008

Produto Obama

(Por: Míriam Leitão, em "O Globo"). "Barack Obama virou commodity e está em liquidação nos EUA. Anúncio na televisão avisa que a porcelana decorativa da eleição de Obama está por um preço especial; o “New York Times” anuncia promoção da sua primeira página com o famoso “Barreira racial cai em vitória decisiva” e oferece xícaras com a foto do presidente. O rosto dele é onipresente nos shoppings, nas ruas, nas livrarias. A história do menino de pai africano e mãe americana, que vê o pai apenas uma vez, vai à África atrás de suas origens, faz carreira política de sucesso e se torna presidente já tem uma versão em livro infantil. Michelle, que no começo da campanha era criticada por declarações que não cabiam no figurino de primeira-dama, já tem biografia nas bancas das livrarias. Fotos da nova primeira-família estão à venda em bancas, lojas de rua e boas casas do ramo. No Central Park se pode comprar uma fotomontagem em que o ex-presidente John Kennedy e o reverendo Martin Luther King olham para Obama, que está no meio dos dois. Pode-se também ter uma versão mais negativa. Os três estão juntos, mas Kennedy e King olham para lados opostos e estão de costas para Obama. Camisetas com frases e fotos, chaveirinhos, bolas, pode-se comprar qualquer coisa com o sucesso da temporada. Nas livrarias, o primeiro livro autobiográfico de Obama está na estante de assuntos afro-americanos. Na Universidade de Columbia, está na estante dos mais vendidos do ano naquela livraria. O produto Obama vende bem neste início do que os economistas, em coro, projetam ser a pior crise desde a grande depressão. Enquanto Obama virou commodity em bolha de consumo, o presidente em exercício prepara a mais patética saída do cargo da história recente americana. Na Casa Branca, o fantasma que ronda George W. Bush é o de Herbert Hoover, o presidente que deixou a terra arrasada para o sucessor Franklin D. Roosevelt. Mas Bush ainda sonha com uma saída honrosa, e convoca fantasmas mais ilustres. Disse num discurso recente que tudo começou com um George W. — no caso, W de Washington — e está terminando o governo de outro George W. Difícil entender o sentido da convocação histórica. Bush, nos últimos tempos, tem dado entrevistas introspectivas, admitindo erros, com voz de lamento, ar de fim de feira. Nada está terminando, a não ser esse infeliz governo, que tem uma dramática coleção de erros em todas as áreas. O tom de algumas entrevistas permite imaginar que ele já começou a sofrer de uma espécie de DPG, depressão pós-governo. O governo Bush não é ruim apenas porque termina em crise econômica ou em duas guerras inconclusas. Ele foi ruim sistematicamente pelas escolhas que fez em diversas áreas. “Comprem, últimos dias, encomendem agora”, avisa o vendedor das porcelanas decorativas com as fotos do presidente eleito. Depois de terminado o prazo, informa o anúncio, os pratos serão queimados. “Essa é a última chance de guardar esse momento histórico.” E a propaganda termina com depoimentos de famílias brancas e negras dizendo que não pensavam em ver tão cedo um evento como esse. O evento é a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Ele chega após uma longa trajetória de avanços na formação de canais de ascensão que criaram uma elite negra poderosa. Obama está longe de ser avis rara. São inúmeras as histórias de sucesso e muitos os afro-americanos prontos para postos de comando no país, como mostram várias de suas nomeações. Mas a distância ainda é imensa e há estatísticas assustadoras. Como no Brasil, quem mais está em risco é o jovem do sexo masculino entre 16 e 24 anos. Um dado espantoso está no livro recém-lançado (ainda sem tradução no Brasil) “Waiting for Lightning to Strike. The Fundamentals of Black Politics”, do escritor Kevin Alexander Gray: “Nacionalmente, um em cada três jovens negros de 16 a 24 anos está sob algum tipo de supervisão da Justiça Criminal. Há dez anos era um em cada quatro.” Gray, intelectual da velha esquerda negra americana, foi diretor da campanha de Jesse Jackson. Ele alerta que, a partir da escolha de Obama nas primárias, começou a se fazer um imenso silêncio nos EUA sobre a trajetória do movimento negro. O ponto dele é que, agora, fala-se de cada detalhe da saga pessoal de Obama, como se isso resumisse e resolvesse tudo; como se não houvesse um longo e doloroso processo ainda inconcluso, e assustadores sinais de perigo. Sobre Obama pesam expectativas demais. Ele terá que consertar uma economia em frangalhos, encerrar guerras pantanosas e passar por testes de desempenho que são maiores para ele. Na rica Manhattan, o ambiente sombrio de crise parece ser mais visível do que na ensolarada e latina Miami. Na Flórida, as lojas cheias, os engarrafamentos nos shoppings e as filas nos caixas mostram a face de uma economia mais normal. Mesmo na Flórida, onde Obama ganhou com margem menor de votos, os partidários de McCain já recolheram seus cartazes e ressentimentos, e aguardam o novo governo. Nas duas cidades, tão diferentes em tudo, há um ponto em comum: o rosto de Obama virou produto que alavanca vendas".

26 de dez de 2008

Juiz Federal torna-se favorável às cotas para negros(as)

(Publicado no "SimplesRap / Notícias", Salvador, BA, por: William Douglas, juiz federal (RJ), mestre em Direito (UGF), especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ), professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis). "Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que "antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia". Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação. Quem procurar meus artigos, verá que no início era contra as cotas para negros, defendendo – com boas razões, eu creio – que seria mais razoável e menos complicado reservá-las apenas para os oriundos de escolas públicas. Escrevo hoje para dizer que não penso mais assim. As cotas para negros também devem existir. E digo mais: a urgência de sua consolidação e aperfeiçoamento é extraordinária. Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição da República é pródiga em planos de igualdade, de correção de injustiças, de construção de uma sociedade mais justa. Quem quiser, nela encontrará todos os fundamentos que precisa. A Constituição de 1988 pode ser usada como se queira, mas me parece evidente que a sua intenção é, de fato, tornar esse país melhor e mais decente. Desde sempre as leis reservaram privilégios para os abastados, não sendo de se exasperarem as classes dominantes se, umas poucas vezes ao menos, sesmarias, capitanias hereditárias, cartórios e financiamentos se dirigirem aos mais necessitados. Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos dado que ambos os lados os têm em boa monta, e o valor pessoal e a competência dos contendores desse assunto comprovam que há gente de bem, capaz, bem intencionada, honesta e com bons fundamentos dos dois lados da cerca: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos. Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, "guru dos concursos" e qualquer outro adjetivo a que me proponha: as cotas para negros devem ser mantidas e aperfeiçoadas. E meu melhor argumento para isso é aquele que me convenceu a trocar de lado: "passar um dia na cadeia". Professor de técnicas de estudo, há nove anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular para a EDUCAFRO, pré-vestibular para negros e carentes. Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular "para negros", aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG por entender que isso seria uma contribuição que poderia ajudar, ou seja, aulas, doação de livros, incentivo. Sempre foi complicado chegar lá e dizer minha antiga opinião contra cotas para negros, mas fazia minha parte com as aulas e livros. E nessa convivência fui descobrindo que se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda. Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de "chão de fábrica", fui pobre quando menino, remediado quando adolescente. Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil. Sei o que é não ter dinheiro, nem portas, nem espaço. Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio. Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país. Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos num colégio onde não há um aluno negro sequer, onde há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola esse ano, escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado. Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de Ballet. A outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas. A filha da empregada, que ajudo quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas das princesas negras com vestidos compatíveis, e armários, e escolas compatíveis, nesse país imenso. A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E se não cresse em Deus como creio, saberia que com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não está bem resolvido. O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas à teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras, e também para os príncipes dessa cor de pele. Não que tenha nada contra o bem estar da minha menina: os avós e os pais dela deram (e dão) muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. Eu direi para minha filha que a sua similar mais pobre deve ter alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem honesto tratar as duas da mesma forma só ao completarem quinze anos, mas sim uma desmesurada e cruel maldade, para não escolher palavras mais adequadas. Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco. Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos jurídicos, embora eu os conheça, foi passar não um, mas vários "dias na cadeia". Na cadeia deles, os pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que experimentei um pouco só quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido. Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem faze-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia "na cadeia". Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio. Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito. Aliás, também fui contra por muito tempo. Mas peço uma reflexão nessa semana: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que freqüenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa "passar um dia na cadeia" antes de firmar uma posição coerente não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente. Nada me convenceu, amigos, senão a realidade, senão os meninos e meninas querendo estudar ao invés de qualquer outra coisa, querendo vencer, querendo uma chance. Ah, sim, "os negros vão atrapalhar a universidade, baixar seu nível", conheço esse argumento e ele sempre me preocupou, confesso. Mas os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior, e menor a média de faltas do que as de quem nunca precisou das cotas. Curiosamente, negros ricos e não cotistas faltam mais às aulas do que negros pobres que precisaram das cotas. A explicação é simples: apesar de tudo a menos por tanto tempo, e talvez por isso, eles se agarram com tanta fé e garra ao pouco que lhe dão, que suas notas são melhores do que a média de quem não teve tanta dificuldade para pavimentar seu chão. Somos todos humanos, e todos frágeis e toscos: apenas precisamos dar chance para todos. Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que podemos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade. Se você não concorda, respeito, mas só se você passar um dia conosco "na cadeia". Vendo e sentindo o que você verá e sentirá naquele meio, ou você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades, ou ao menos uma chance. Não para minha filha, ou a sua, elas não precisarão ser heroínas e nós já conseguimos para elas uma estrada. Queremos um caminho para passar quem não está tendo chance alguma, ao menos chance honesta. Daqui a alguns poucos anos, se vierem as cotas, a realidade será outra. Uma melhor. E queremos você conosco nessa história. Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo para com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Seja como for, por ideal, egoísmo (de proteger o mundo onde vão morar nossos filhos), ou por passar alguns dias por ano "na cadeia" com meninos pobres, negros, amarelos, pardos, brancos, é que aposto meus olhos azuis dizendo que precisamos das cotas, agora. E, claro, financiar os meninos pobres, negros, pardos, amarelos e brancos, para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país comum, pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo. Então, como diria Roberto Lyra, em uma de suas falas, "O sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor." Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Ou fique a favor, ou pelo menos visite a cadeia".

25 de dez de 2008

(Direto do Paladar de Palavra).

"Assim canta meu galo"

(Por: Elisa Lucinda). Daquele natal lá de casa da minha infância,/ guardo o batimento cardíaco daquela véspera./ A surpresa dos presentes sobre os sapatinhos,/ o cheiro de plástico novo que vinha da carne cheirosa e macia das bonecas novas,/ a alegria dos meus irmãos,/ guardo o meu pai pintando a casa nas anti-vésperas/ que moram nos começos de dezembro,/ guardo o peru gostoso com farofa/ e todo o teatro da tragédia que antecedia sua morte para a nossa ceia./ (Sou da horda dos humanos que comemoram assim essa passagem),/ por isso vos falo:/ Guardo a certeza do vestido novo/ e uma música que castigava muito meu coração,/ a ponto de eu chorar, como até hoje o faz:/ “Eu pensei que todo o mundo fosse filho de Papai Noel.../ Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dá?”/ Abria logo meu brinquedo de chorar./ Essa música toca na praça pública da infância, da minha vida,/ num alto falante que até hoje me leva a ponto de soluçar./ Sei lá./ Parecia que nessa hora o mundo todo ficava pensando que era bom./ E o mundo ficava mesmo bom./ Parece, até hoje!/ Mesmo sabendo que se aproveita do sonho de ser bom,/ de fazer o bem, de caprichar considerando a existência do outro,/ se aproveita disso para se fazer comercial./ A cegueira do dinheiro./ A cegueira mais banal./ Enfraquece o movimento./ Meu sentimento é de que muitos, muitos natais moram em mim./ Penso que foi uma aula de esperança que eu recebi./ Como na minha infância ser pobre não era ser miserável,/ no Brasil capixaba que me cabia,/ eu pensava que quando ouvia aquela canção/ ”Eu pensei que todo o mundo fosse filho de Papai Noel”,/ me fazia crer que ele era uma espécie de Deus da justiça/ e certamente daria brinquedos para as crianças pobres também./ E era verdade./ Nas casas pobres da minha cidade,/ também tinha o retrato da alegria no quintal ou no terreiro em frente a casa./ Eu via meninos e meninas pobrezinhos,/ com a renda bem distribuidinha em forma de brinquedos mais simples,/ mais baratinhos e por isso mesmo,/ mais brinquedo assim./ Natal pode ser aula de solidariedade da vida então!/ Que coraçãozinho de criança iria acreditar que não?/ Quem que iria supor que a injustiça golpeasse ainda tanto?/ Posto isto, fora as severas palmadas de minha avó,/ poucas vezes me encontrei com a tristeza quando eu era criança./ Poucas vezes me encontrei com um pouco da estupidez/ que minha ingenuidade sabia sobre o mundo/ e um pouco da brutalidade desse mesmo mundo./ Achava que existia algum horror,/ mas nunca a ponto do mal poder vencer a batalha./ Por isso cresci fabricante de sonho e querendo aprender a produzir a paz./ (Sou da horda dos humanos que acha que pode mudar o jogo)./ Como sou errante,/ guardo essa sensação reluzente/ de pisca-pisca na árvore agradando a memória./ Guardo essa glória - o bordado em ponto-cheio e ponto- atrás,/ tramado ao jardim da toalha./ Dessa data guardo esse desejo de alegria,/ de agasalho, de fartura em todas as mesas do mundo./ E guardo essa madrugada para o dia principal, ardendo no meu peito!/ E é desse jeito./ Ainda dá pra salvar o mundo./ Todo o homem, em qualquer tempo, pode estar a ponto de renascer!/ Tudo pode ser sonhado antes de acontecer./ Já passa de 2000, quase 2010, você não vê?/ Canta, meu galo, canta,/ palavras existem para esclarecer!/ Agora, dentro do batimento cardíaco desta véspera,/ mas na madrugada daquela hora,/ vontade me dá que se receitasse versos para o mundo tomar,/ o mundo é um menino que nos escreve uma carta,/ pedindo para a gente dele cuidar./ Ainda hoje, quando faço isso que acabo de escrever,/ me sinto eu papel Noel sobre o telhado,/ portando esse poema para você e tendo que chegar com ele vivo às tuas mãos,/ antes do amanhecer. (Elisa Lucinda. Natal de 2008).

Presente do ano velho: Tridente no Literal

O poeta Ronald Augusto publicou o "Cidinha, leia só pra mim!", no Portal Literal. Os amigos nos levam a lugares que não imaginamos. Rola uma votação e dependendo do número de votos alcançado, o texto é arquivado no Portal e fica disponível para outras leituras. Se for do gosto de vocês, dêem uma passadinha por lá e, se tiverem vontade, votem. Copiei do Literal, a bela imagem da artista Rosa Marques, "linhas de força", que abre alas para o texto. Bom feriado.

23 de dez de 2008

Curso de verão "Transgressões poéticas", com Ronald Augusto, em Porto Alegre

De 06 a 22 de janeiro de 2009, terças e quintas, das 19h às 21h, na Palavraria – Livraria-Café. Informações & Inscrições: Com Ronald Augusto, pelos telefones 51 3336 2969 e 9948 0569. ronaldaugustoc@yahoo.com.br / www.poesia-pau.blogspot.com "Nos seis encontros em que o curso se estrutura, será demonstrado todo um pervagar transgressivo no interior da tradição literária. Três tópicos compõem o curso, a saber: a) a transgressão discursiva; b) a transgressão da visualidade; e c) a transgressão da intransitividade. Um tópico a cada dois encontros. Os sucessos e os fracassos da alta modernidade e da contemporaneidade ajudaram a levar ao limite invenções discursivas como as de Joyce, Guimarães Rosa e Paulo Leminski. Esses autores experimentam um barroquismo onde a hibridez se torna uma categoria importante no literário e, inclusive, na concepção moderna de cultura. A partir de Mallarmé a poesia, de uma arte eminentemente temporal, passa a trabalhar o espaço e a visualidade como elementos constitutivos do seu fazer estético. O sentido do poema, do texto literário é uma conquista do leitor-colaborador. A idéia de “obra aberta” supõe um fruidor mais participativo. Não existe o texto hermético em si mesmo: a leitura é o desejo de linguagem convertido em vontade de interpretação. Alguns tópicos a serem debatidos no curso: 1) Amostragem da (inclusive remota) poesia visual. 2) Brás Cubas de Machado de Assis (romance intersemiótico). 3) Un Coup de Dés (1897), poema onde Mallarmé introduz o elemento espacial numa arte a princípio temporal. 4) Poesia Barroca do passado e de agora-agora. 5) A beleza do difícil em poesia. 7) Poesia não-verbal. 8) A prosa galática. Valor: Cr$ 250,00 à vista. Ou em duas vezes de Cr$ 150,00. Sobre o poeta-professor: Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No assoalho duro (2007). É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis www.editoraeblis.blogspot.com. Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature: a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore: The Johns Hopkins University Press (1995; 2007), Dichtungsring - Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2008, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de. Artigos e/ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura: Babel (SC/SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS); Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e. e. cummings (MG); Revista ATO (MG); Revista RODA - Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG); www.sibila.com.br; www.overmundo.com.br; www.revista.criterio.nom.br; www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org; entre outros. Despacha nos blogs: www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.blogspot.com. Ministra oficinas e cursos de poesia e é integrante do grupo os poETs: www.ospoets.com.br Palavraria – Livraria-Café. Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim, 90420-111 – Porto Alegre – RS Telefone 51 3268 4260. palavraria@palavraria.com.br

22 de dez de 2008

Autônomos Futebol Clube

(Do blogue Paladar de Palavra ). Nota da editora do blogue: a pergunta sobre racismo no futebol brasileiro tem um preâmbulo equivocado, o qual não referendamos, bem como as incursões piadistas que demonizam os homens, ao invés de discutir os temas com mais profundidade."Criado por punks e anarquistas, desde 1º de maio de 2006, existe na Grande São Paulo um time de futebol autogestionado, com espírito anárquico. O Autônomos Futebol Clube, ou "Auto", como é carinhosamente chamado por seus "fãs". "Um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria", explica Kadj Oman, um dos fundadores do clube. Na entrevista a seguir, ele fala, com a espontaneidade e malandragem libertária de um bom boleiro varzeano, do Autônomos FC e do esporte mais popular do país, cada vez mais industrializado e burocratizado pelos interesses materiais. Mas que, também, sob sol e chuva, terra batida, bola improvisada, descalços, resiste, alegra e encanta nas mais diversas "peladas" das periferias e rincões miseráveis do Brasil. Confira o bate-bola: Agência de Notícias Anarquistas (ANA) - Fale um pouco sobre o Autônomos Futebol Clube, sua organização e objetivos, em que contexto ele surge... Kadj Oman - Bom, no fim de 2005, eu comecei a organizar um campeonato de futebol de salão que se chamava Copa Autonomia. Nele, não havia juiz e as regras eram poucas. Fizemos 10 edições dessa copa sem nenhum problema. Mulheres jogavam, crianças, a gente se divertia (inclusive, dá pra ver o vídeo da 1ª edição do torneio procurando pelo nome no YouTube). Aí, no Carnaval Revolução de 2006, em Belo Horizonte (MG), acabei participando de uma palestra/bate-papo sobre futebol e revolução, e conheci o Mau, o Jão e a Mix, do Ativismo ABC. Compartilhando um pouco das nossas angústias sobre o punk e o futebol, tivemos a idéia de fazer algo nesse sentido quando voltássemos. Aí eu aproveitei que na Copa Autonomia tinha um pessoal interessado na idéia e fundamos o time, pra jogar futebol society, no início. Foi uma época de muitas alegrias e muitas derrotas, tirando as amizades que surgiram. Jogaram suíços (5 ao mesmo tempo, de uma banda de ska), argentinos, australianos, canadenses, colombianos. E muitos brasileiros, punks ou não, afeitos ao ideal de autogestão. Mas o society era mercadológico demais pra gente, e então fomos pra várzea, onde mais e mais gente foi se interessando pelo time e ele cresceu. Hoje temos dois quadros e um time "júnior", composto por alunos de um dos zagueiros do time. Sobre a organização, bem, a gente divide tudo, desde lavar os uniformes até ficar de gandula nos jogos, passando pela vaquinha pra pagar o campo em que jogamos, que é alugado. E os objetivos sempre foram o de resgatar o futebol com alegria, mais espontâneo, menos mercadológico, sem se fechar a qualquer um que concordasse com a idéia de autogestão. Faz pouco mais de um mês, traçamos um estatuto, já que o time está cada vez maior e a gente não quer perder o objetivo principal dele, que é se divertir. Lógico que jogamos pra ganhar, até porque fazer as coisas você mesmo pra gente significa fazer o melhor possível, mostrar o quão bom se pode ser assim. Mas não colocamos a vitória acima de tudo - aliás, só nos últimos 4 meses que o time passou a ganhar mais do que perder mesmo. ANA - E que história é essa de futebol autogestionado? Oman - Pra ser justo, toda a várzea é meio que autogestionada. Surgem campos onde quer que haja um pedacinho de terreno, por mais que a metrópole engula espaços e vomite de volta o futebol society e o futsal, além do profissional, é claro. Mas no nosso caso, a autogestão passa por uma questão estrutural, de não ter presidente, diretor, tesoureiro, nada. Temos sim capitão, técnico, goleiros, laterais-direitos, porque isso não tem a ver com hierarquia necessariamente, e sim com aptidões ou gostos pessoais por jogar aqui ou ali, ou fazer essa ou aquela função. E divulgamos essa idéia de autogestão por onde jogamos, distribuindo panfletos ou no boca-a-boca mesmo. Alguns jogadores que estão com a gente, inclusive, eram de times que enfrentamos e que gostaram do nosso jeito de lidar com as coisas. Então a nossa autogestão é tentar ser o mais livre possível dentro do que se quer ser, mas respeitando os princípios básicos e as responsabilidades inerentes a todo projeto coletivo, como chegar na hora, colaborar com a grana sempre que necessário etc. Claro que no meio disso tudo às vezes surgem conflitos, mas o que seria a vida sem conflitos? ANA - E qual a relação do Autônomos FC com o anarquismo? A cor do uniforme é mera coincidência? (risos) Oman - (risos) É não é não. Acontece que o time foi fundado por punks e anarquistas, então na hora de escolher o escudo e as cores do uniforme isso contou. Mas conforme foi crescendo, o Auto (apelido carinhoso do time) foi se abrindo. Nunca foi um time explicitamente anarquista, mas sempre foi um time com ideal autogestionário, anti-racista, anti-fascista, contra o futebol mercadoria. Na verdade, os fundadores e boa parte do time, hoje, é de românticos, que ainda enxerga o futebol como uma crônica continuamente narrada a muitas vozes sobre a vida. Até banda de "rock'n'gol" o time gerou, a Fora de Jogo, que toca trajada com os uniformes do time e fala de futebol (sob uma ótica política) em todas as suas músicas. Além de que, convenhamos, preto e vermelho é uma combinação de cores das mais bonitas que existe. Os anarquistas, além de tudo, sempre tiveram bom senso estético. (risos) ANA - Como explicar um anarquista ser fanático por futebol, por um time profissional, que cada vez mais são verdadeiros instrumentos capitalistas de manipulação, consumo e controle social? Ou assim como o amor não tem explicação? (risos) Oman - Olha, explicação mesmo acho que não tem. A gente cresce gostando de futebol, aprende nele e com ele a se expressar, a se entender no meio de um coletivo (a torcida), acaba virando um dos nossos primeiros lugares de socialização. E como é o único que é contínuo pela vida toda, difícil se desligar dele. Até porque existiram muitos times anarquistas na história, o começo do futebol é operário, e ele é mais do que tudo uma festa popular. No início do século anarquistas aqui em São Paulo nomeavam suas equipes de "Flor" ou "Estrela". Então, sempre que você encontrar um boteco ou padaria com esse nome, são grandes as chances de ele ter um passado anarquista. (risos) E se o profissional é cada vez mais instrumento de controle, ele permite também nas suas brechas diversos tipos de encontros essencialmente anti-capitalistas, pró-ócio, pró-festa. A Gaviões da Fiel, torcida do Corinthians, por exemplo, se aproximou do MST nos últimos anos, dos Sem-Teto, promove festivais de cinema político, entre outras coisas. Temos que tomar cuidado pra não tomar a festa do povo por ópio, esse velho clichê, porque não é simples assim. O futebol foi apropriado pelo capital, assim como todo o resto, mas o próprio capital, contraditório que é, recria possibilidades dentro do profissional mesmo de ir contra ele (um bom exemplo, embora já meio distante temporalmente, é a Democracia Corinthiana). Cabe encontrar essas brechas, aproveitá-las, aprofundá-las. Durante toda a sua história o futebol opôs controle à festa, foi usado para dominar de um lado e para contra-atacar o domínio de outro. São tantas as histórias possíveis de serem contadas dentro do futebol... Um livro legal sobre isso é o "A Dança dos Deuses - Futebol, Sociedade, Cultura", do historiador Hilário Franco Júnior. O que podemos e devemos fazer é continuar a contá-las, do nosso jeito, sem deixar que as vendam como mero produto descartável. ANA - Será mesmo que o futebol profissional recria possibilidades de ir contra ele mesmo? Não acredito. O futebol profissional brasileiro está tomado pela maracatuia, pelo mercado, pelo negócio, vide Rede Globo, CBF´s, Trafic´s, Adidas e por aí vai. E por outro lado, os jogadores profissionais, na sua maioria, são despolitizados, sem atitude, vão à mercê dos dirigentes, cartolas. E no grosso as torcidas organizadas não são muito diferentes disso tudo não, também vão a reboque de políticos, dirigentes, cartolas... Na Itália, e em outras partes da Europa, que foi criado um movimento interessante por vários grupos "Ultras", chamado "Contra o Futebol Moderno", que luta contra as condições precárias dos estádios, ingressos caros, partidas sendo jogados em horários não-tradicionais, jogadores sendo vendidos como mercadoria, a comercialização excessiva no futebol etc. As torcidas uniformizadas do Brasil poderiam seguir esse exemplo, não? Oman - Não vou te dizer que o profissional dá possibilidades o tempo todo de se ir contra ele, mas as recria vez ou outra sim. Se está envolto em tudo isso que foi mencionado, me diga, em que é diferente de qualquer outra esfera da sociedade? Tudo foi apropriado pelo capital, as relações sociais baseadas na venda são quase totalitárias, então as brechas são mesmo pequenas, ainda mais em um país onde as organizações sociais são tão marginalizadas e politicamente tão superficiais (não todas). As organizadas seguem o mesmo caminho. Não dá pra esperar delas uma postura que nenhum (ou quase nenhum) outro movimento organizado da sociedade toma, como essa de ir contra o futebol moderno. As poucas torcidas que vejo tentando seguir algum exemplo de fora acabam copiando as formas estéticas, as faixas, os gritos de guerra, mas não o conteúdo das reivindicações. Mas mesmo assim há organizadas indo contra sim. Um exemplo é a Resistência Coral, do Ferroviáio do Ceará, abertamente anti-capitalista, que leva faixas com dizeres como "paz entre as torcidas, guerra ao Estado". Normalmente são torcidas menores, frutos de movimentos pequenos, como em geral é o anarquismo e o anti-capitalismo no Brasil. Mesmo assim, nas grandes torcidas aparecem às vezes manifestações nesse sentido. Já citei a Gaviões, que este ano levou faixas contra o preço dos ingressos nos jogos fora de casa do Corinthians. A Mancha Verde, do Palmeiras, também recentemente protestou contra o preço dos ingressos no estádio do clube. Eu acredito que os próprios constrangimentos que o capital imprime junta pessoas em direção a lutas por direitos básicos. Essa história da Copa 2014 e seus estádios a la européia vai dar pano pra manga. Já dá, aliás. Ano passado, acompanhando a final da Taça Brahma no estádio do Palmeiras, vi um monte de gente de Itapevi, cidade periférica da Grande São Paulo, se deslumbrando com o Setor Visa, pedaço do estádio com preços altos e cheio de mordomias. Outras pessoas, ao mesmo tempo, achavam aquilo absurdo, porque elitizava o estádio. A força das organizadas, que a mídia insiste em colocar na violência e na coerção, na verdade reside no fato de que elas são aglutinadoras de gente da periferia, que é quem mais sofre com as restrições do capital. Disso sempre pode surgir algo. E há de lembrar também que na mesma Europa contra o futebol moderno estão torcidas neonazistas, que também são contra o futebol moderno, obviamente por outros motivos. A Eurocopa desse ano mostrou neonazistas croatas com faixas com esses dizeres. Então, temos sempre que pensar as possibilidades dentro das realidades históricas, sociais, políticas de cada lugar. Não dá pra querer no Brasil a força de um movimento anarquista organizado como o grego, por exemplo, do dia pra noite. Mas nem por isso não existem possibilidades ou se deve jogar fora o que há. ANA - Num papo sobre "Cultura e Futebol", um crítico de arte e amante do futebol disse: "Anabolizado ao máximo pelas táticas e pelo preparo físico, o jogo vem mudando um pouco de figura, atenuando seus componentes anárquicos e tendendo à exacerbação de seus aspectos mais previsíveis. No fundo, o desafio aqui é o mesmo da arte. Disfarçada de permissiva, vivemos uma época obsessiva pelo controle, ainda que o nome do controle, muitas vezes, seja obediência tática, desempenho, pró-atividade, boa administração." E aí, a indústria do futebol está matando a criatividade, espontaneidade do futebol? O que pensa disso tudo? Oman - Isso é verdadeiro se falamos de futebol profissional, e em boa parte do amador, também, que acaba se tornando cada vez mais um "espelho quebrado" disso tudo. Mas o futebol sempre se reinventou a todo tempo, independentemente do tanto de controle (tecnológico ou não) que o capital tentou impor sobre ele. No começo ele era um jogo de drible de nobres ingleses. Os operários o transformaram em um jogo de passe, e assim ele chegou aqui. Com esse jogo de passe o Uruguai, viajando de forma precária, conquistou duas Olimpíadas na Europa na década de 20. Por aqui, estudantes e a elite começaram a jogar só entre si, mas não demorou para a maioria de negros, caipiras, indígenas e trabalhadores rurais adaptar o jogo pra sua realidade, cheia de entreveros a serem "driblados". E surgiu o futebol brasileiro, baseado no drible, cujos expoentes máximos são Pelé e Garrincha. Garrincha que já se tentou domar desde a Copa de 58, inclusive, mas a quem tiveram de se render depois do insosso empate em 0 a 0 com o País de Gales na segunda rodada. Se formos falar de várzea, então, veremos que o próprio capital recria o futebol. Acaba com os campos no centro da metrópole pra urbanizá-la. Expulsa trabalhadores e pobres para as periferias não-urbanizadas. E lá os campos pipocam novamente. E assim vai. Já nos estádios a coisa não vai tão bem, com a vigilância ostensiva cada vez maior, querendo transformar torcedor em mero consumidor e torcida organizada em bandido violento, quando se é muito mais que isso. A Copa 2014 vai representar um momento drástico nesse embate. Torço para que até lá estejamos fortes o suficiente pra ao menos sermos ouvidos contra essa transformação do estádio em shopping center. ANA - Falando em arte. No Brasil há poucos livros abordando o futebol. Vocês não projetam lançar algo neste sentido? Oman - Pessoalmente estou terminando um trabalho acadêmico sobre o futebol contemporâneo na metrópole de São Paulo, mas isso não tem a ver com o time, embora eu fale dele na pesquisa. E na verdade a produção de livros (e filmes) sobre o futebol tem crescido no país, está se re-descobrindo que o esporte é uma expressão da própria sociedade, às vezes artística, às vezes não. Porém, no time, temos algumas pessoas que não só gostam de escrever como fazem isso regularmente acerca do futebol. Quem sabe você mesmo não está lançando uma idéia muito boa pra gente? Por exemplo, costumamos noticiar nossos jogos na lista de e-mails como se fossem notícias de jornais inventados, "A Plebe", "O Povo" e coisas assim. Isso pode dar coisa boa, rapaz! Inclusive, no site que sempre projetamos e nunca fazemos, essas coisas vão constar com certeza. ANA - Recentemente quando esteve em São Paulo, John Zerzan comentou que tinha sido lançado um livro nos Estados Unidos que abordava "anarquismo, comunismo e futebol". Se eu não estou equivocado, o título do livro é "Revolution: The Girly Gay Commie Soccer Threat To The American Way Of Life". Oman - É que o "soccer" nos EUA tem outra perspectiva. É esporte da classe média, das mulheres, dos gays, dos latinos. Das minorias. O povão lá acompanha os esportes de pontuação alta, basquete, futebol americano, hóquei. Isso gera bizarrices como mães que obrigam seus filhos a jogar futebol de capacete porque cabecear a bola pode machucar. Não é coincidência que nesses seriados de TV paga feitos pra classe média as mães sempre levem seus filhos para o futebol, ou que tantos filmes infantis sejam feitos sobre futebol onde uma menina ou um cachorro são os protagonistas principais e os filmes sempre são leves, pretensamente divertidos. Já os filmes sobre basquete ou futebol americano envolvem histórias viris, de superação a todo custo, de exaltação do amor à camisa (ou a pátria), temas muito mais povão por lá. Os Simpsons têm um episódio em que sacaneiam o futebol, mostrado como um jogo em que se fica passando a bola e não acontece nada e no final as torcidas vandalizam o estádio. Então por lá pode ser que os anarquistas ou comunistas vejam no esporte algo mais "libertário" simplesmente por ser contra os valores esportivos tradicionais. Mas isso está longe de ser necessariamente verdadeiro. Tem um livro de um jornalista americano apaixonado por futebol chamado "Como o Futebol Explica o Mundo" em que em um dos capítulos ele fala dessa coisa do "soccer" por lá, a discriminação, esse tratamento como esporte de filhinho-de-mamãe e de latinos, de inimigos da pátria. Vale conferir. ANA - Você sabia que o libertário Albert Camus, teve uma breve carreira de goleiro de futebol, interrompida aos 17 anos quando contraiu tuberculose nas ruas de Argel? Uma vez perguntado por um jornalista sobre a importância do futebol em sua vida, ele respondeu: "O que eu sei sobre a moral e as obrigações de um homem devo ao tempo em que joguei futebol..." Oman - Sim, inclusive esse assunto esteve em pauta entre a gente faz pouquíssimo tempo. A Argélia tem também, inclusive, uma outra história sobre futebol muito bacana: quando da guerra pela independência, um grupo de jogadores argelinos, alguns profissionais em clubes franceses, abandonaram suas equipes e fizeram amistosos pelo mundo em prol da causa argelina. Essa "seleção" foi até reconhecida pela FIFA, antes mesmo do país, assim como acontece com a Palestina hoje. Ficaram conhecido como "Revolutionnáire XI", ou "Revolucionário Onze", numa tradução livre. O Camus com certeza devia andar lado a lado com eles. E essa frase dele sintetiza muito bem como o futebol é representação da vida, da guerra, da arte, da sociedade. ANA - Há algum filme sobre futebol que você goste, destacaria? Oman - Olha, eu particularmente sou muito deslumbrado com filmes de futebol, mesmo os bobos. Tem um patrocinado pela Adidas que chama "Gol! O Sonho Impossível", onde um mexicano ilegal nos EUA consegue ir jogar pelo Newcastle, da Inglaterra. É bem bobo, mas me diverte. Já filmes sérios, acho o do Garrincha bom, e os dois "Boleiros" interessantes. Mas não destacaria nenhum deles em especial, são mais crônicas apaixonadas do que qualquer coisa. Legais pra se apaixonar, nem tanto pra fazer uma crítica sobre o futebol. Deixo claro que essa é a minha opinião, não sei se outras pessoas do time pensam assim. Tem gente que gostou desse filme novo aí, ?Linha de Passe?. Eu não assisti, tenho um certo ranço com essa coisa de cineasta brasileiro que faz filme do tipo "vejam a nossa pobreza, que sofrida, que bonita, que romântica" pra europeu ver, filme que sempre tem um final poeticamente feliz. Já documentários, tem um que eu acho muito bom, argentino, que chama "A Outra Copa" e mostra todas as dificuldades da equipe de "futebol de rua" (ou seja, moradores de rua que jogam) da Argentina em ir para a Copa do Mundo da "categoria" na Suécia (site do torneio: http://homeless.worldcup.org/). Um detalhe desse campeonato é que a Itália ganhou duas ou três vezes. Só que o time italiano é formado por latinos (brasileiros, argentinos, uruguaios), que foram pra lá e viraram moradores de rua. E tem também filmes bons onde o futebol é pano de fundo: "Fora do Jogo", do Irã, sobre mulheres que querem assistir a um jogo da seleção e são barradas; "Crônicas de Uma Fuga", argentino, muito bom, sobre um goleiro que é preso pela ditadura confundido com um militante político e elabora um jeito de fugir (o final é dos mais lindos que já vi em filmes); "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", pra mim um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos, que tem tanto o futebol profissional como o futebol de várzea como pano de fundo, com um negro como goleiro do time dos judeus no bairro do Bom Retiro; e tem um que o Jão citou mas eu nunca vi que chama "Pra frente Brasil". Por fim, tem um documentário uruguaio não tão bom chamado "Aparte", sobre moradores das periferias que, entre outras coisas, são catadores de latinhas, onde há uma presença do futebol muito forte, tendo inclusive imagens de um jogo de várzea só de mulheres, coisa rara de se ver na vida e na arte. ANA - É cada vez maior a presença feminina no universo do futebol, assim como a violência no futebol, entre as torcidas, ou grupo de torcedores pressionando agressivamente dirigentes, técnicos, jogadores... Contudo, raramente vemos mulheres nessas brigas, confusões. O fato é que os homens são um bando de idiotas mesmo? (risos) Oman - (risos) Creio que a cultura masculina é mais permeada de agressividade e babaquices do que a feminina, mas de uma forma geral essa violência é resultado de muitas outras violências anteriores, como o preço dos ingressos, dos alimentos, o tratamento dispensado pela polícia, a localização dos estádios em centros nobres onde a entrada dos torcedores não é permitida em dias comuns. Já a entrada das mulheres no jogo não é bem uma entrada, é uma volta, pelo menos em alguns lugares. Aqui em São Paulo, por exemplo, no começo do futebol de várzea os clubes de bairro tinham departamentos femininos constituídos que eram responsáveis pela confecção e manutenção de bandeiras e troféus, ensino e execução do hino do clube, organização das festas que aconteciam junto aos jogos... O futebol era pano de fundo pra festa popular, muito mais do que um mero jogo. Festa feita por comunidades organizadas, que serviram de base para as próprias torcidas contemporâneas. E falando nelas, é importante também lembrar que a violência desses grupos organizados é só uma parte do que eles representam, a parte que serve pra mídia e pras instituições do futebol enfiarem goela abaixo a transformação do futebol em mercadoria, do torcedor em consumidor, cada um sentadinho quietinho na sua cadeira ou em frente à TV, consumindo. Um mecanismo de controle sobre uma das poucas coisas que o trabalhador, o pobre, o povo, enfim, tem como sendo dele, como intocável, independente de qualquer situação social ou econômica - até por isso a agressividade nas cobranças a dirigentes e jogadores, cobrança que às vezes lembra mesmo a de consumidores, mas que na maioria das vezes é a voz de quem está descontente com o tratamento dado a algo coletivo, um sentimento mesmo, aliás, dos poucos sentimentos que permanece num mundo onde tudo muda tão rápido. ANA - Você acha que o futebol feminino não cresce no Brasil por causa do machismo, do preconceito? Como você diz, as mulheres historicamente sempre foram tratadas como subalternas, com papeis bem definidos, raramente como protagonistas do futebol, do jogo... Homem é uma desgraça mesmo. (risos) Oman - (risos) É, não dá pra descartar a imbecilidade masculina nesse processo, mas acho que é algo mais econômico do que só cultural. Não dá dinheiro, então não cresce. O futebol feminino profissional é amador, na verdade. Mas por incrível que pareça no começo do futebol na Inglaterra existiam ligas de futebol feminino! Sumiram logo, mas existiram. No Brasil, eu acho que ao menos ultimamente a seleção feminina trouxe mais orgulho pros torcedores do que a masculina, até porque ela é mais humana, mais sofrida, mais cheia de sentimentos. O grande problema é que o crescimento que se espera do futebol feminino é o crescimento econômico, da profissionalização, da mercadoria. E esse não vai acontecer tão cedo - e eu, particularmente, nem sei se seria algo completamente bom. Mas se o tênis virou moda depois do Guga, tudo pode acontecer. Até porque em todos os esportes a presença feminina cresce e a distância entre os recordes masculinos e femininos diminui. Mas voltando pro futebol, um dos zagueiros do time, que é professor, ficou sabendo que há um projeto pra 2009 de começar times de futebol feminino em todas as escolas estaduais de São Paulo. E no Auto, nossa mascote é a Mafalda, do Quino, pela postura contestadora dela e porque a maioria da nossa "torcida" acaba sendo das namoradas, mulheres, irmãs, então a homenagem a elas é mais do que justa. E se tiver meninas querendo formar um quadro feminino do Auto, por favor, apresentem-se! Nas poucas vezes em que jogamos futebol de salão houveram meninas jogando conosco. Não fazemos um time misto só porque isso é impossível na várzea. Mas um dia, quem sabe, dá pra tentar sim! ANA - Como você vê essa história dos jogadores profissionais, em sua maioria, rezarem aos gritos um "Pai Nosso" antes dos jogos? Vocês do Autônomos FC fazem isso também? (risos) Oman - (risos) Bom, eu vejo como um ritual herdado da várzea, onde todo time faz isso também. No Autônomos não fazemos isso, embora já tenhamos feito de sacanagem umas duas vezes, tentando ver se assim a gente não perdia. Não adiantou, parece que Deus não gosta muito de nós. (risos) No lugar de rezar a gente entoa um canto em homenagem à torcida. Dá pra ver isso nesse vídeo aqui, uma espécie de mini-documentário sobre o time: http://fiztv.uol.com.br/f/Video/assista/16751/0 ANA - Vocês já se imaginaram participando de um "Mundialito de Futebol Anti-Racista", desses que acontece na Europa, que reúne times de várias partes do mundo? (risos) Oman - Cara, conhecemos isso esse ano através de uma equipe amadora anti-fascista inglesa que nos mandou um e-mail! Morremos de vontade de ir, mas não há condições financeiras pra isso. Em compensação, chamamos essa equipe pra jogos por aqui e eles aceitaram, agora estamos vendo quando eles poderão fazer isso, se poderão mesmo, como faremos. Com certeza se eles vierem será um momento único por aqui, novo, até uma oportunidade de encontro com organizadas, equipes amadoras, torcedores pra uma troca de experiências. ANA - Uma coisa que sempre me chamou a atenção no futebol profissional é o fato de muitos jogadores negros, com "cara de nordestinos", se casarem com loiras, mulheres brancas. Quem exemplifica isso muito bem é o maior astro do futebol de todos os tempos, Pelé. Aliás, a única filha que ele teve com uma mulher negra até hoje ele não assumiu, muito pelo contrário, sempre se esquivou da história. É um mito dizer que no futebol brasileiro não há racismo? Oman - Está longe de ser mito, muito longe mesmo! O futebol faz parte da sociedade, e se a sociedade é racista, é claro que no futebol isso vai aparecer. Não tem Obama ou Hamilton que mudem isso. (risos) Só pra dar um exemplo mais recente, o Felipe, goleiro do Corinthians, quando foi rebaixado pelo Vitória-BA foi chamado de macaco preguiçoso por um dirigente do time, que ele processou (o caso, até onde sei, está na Justiça ainda). Isso sem falar nas histórias passadas, de jogador negro passando pó-de-arroz na cara. É claro que o capital não vê cor quando o jogador dá lucro, mas ali no cotidiano dos jogadores, no dia-a-dia, rola racismo o tempo todo. Na Copa de 1958 o time que jogou os dois primeiros jogos só tinha brancos, fruto do preconceito adquirido na Copa de 50 quando o goleiro negro Barbosa foi culpado pela perda do título. Então isso vem de longe, desde o começo da bola rolando por aqui, do embate entre times da elite e times da várzea, que opunham fundamentalmente brancos a negros, pobres, mestiços, caipiras. Isso foi inclusive usado de desculpa pelos times da elite para não mais disputar jogos contra os times que aceitavam esses jogadores. O que acabou sendo mau negócio pra eles, porque perderam qualidade técnica e público (que na época eram a maior fonte de renda) e acabaram falindo. Veja só que coisa, o próprio processo capitalista no futebol fez os times pobres falirem os ricos. Mas o racismo continuou, está aí até hoje. O Pelé, pra mim, em termos raciais, é um Michael Jackson que não tentou se pintar de branco, nada mais do que isso. Sou Maradona mil vezes. (risos) ANA - Para finalizar, quais os projetos futuros? Pretendem organizar algum evento com exposições, debates e palestras em torno do futebol? Oman - Então, a vinda dos ingleses (a equipes se chama Easton Cowboys&Cowgirls, existe há mais de década e tem vários esportes, não só futebol, com participação feminina) nos deu a idéia e a vontade pra algo nesse sentido. Queremos chamar o pessoal da Resistência Coral e quem mais se sinta interessado pra participar também. Mas mesmo que eles não venham, acho que em 2009 devemos fazer algo nesse sentido. Esse ano fizemos um debate no Ativismo ABC sobre futebol e política, mas teve muito pouca gente. Queremos repetir isso em breve sim. Enquanto isso continuamos jogando na várzea, conhecendo e sendo conhecido. E quem sabe mais pra frente não conseguimos marcar uns jogos interestaduais? Soubemos que aí na Baixada Santista o pessoal libertário joga na praia às vezes, em Santa Catarina o pessoal do Passe Livre tem um time também... quem sabe uma liga de futebol autogestionário não se configura daqui uns anos? (risos) E tem também o "Auto Júnior", que acabamos de formar com a molecada, todos da extrema zona sul. Queremos levar eles pra outras coisas além de jogos, é um projeto que está começando e no qual estamos bastante empolgados. Por fim, temos o sonho de um dia ter um campo nosso, um terreno baldio qualquer, comprado ou cedido, pra poder fazer as coisas ainda mais do nosso jeito, levar os projetos adiante e colocar o time numa situação de maior presença no tempo e no espaço da cidade. Se alguém que estiver lendo isso tiver como e quiser ajudar, entre em contato! ANA - Alguma coisa mais? Valeu! Oman - Cara, queria agradecer muito em nome do time por esse espaço. O movimento anarquista no Brasil sempre teve muito preconceito com o futebol, é muito bom ter um espaço desse pra falar. O futebol sempre foi do povo por aqui, o capital destruiu isso e encobriu a história. É importante pra qualquer movimento que se pretende social se aproximar e entender melhor as coisas do povo, então que o futebol possa ser visto com mais carinho no meio libertário. E desculpa se eu falei demais, mas é que o tema propicia muita conversa... Por fim, um abraço pra todo mundo e quem se interessar pode entrar em contato com a gente, pra jogar, pra torcer, pra convidar ou planejar eventos, estamos aí! Abraços autogestionários"! Contato: autonomosfc@gmail.com Blogs: http://autonomosfc.10.forumer.com/ e http://autonomosfc.blogspot.com/

19 de dez de 2008

Sobre os espetáculos: Hospital da gente, Ensaio sobre Carolina e Besouro Cordão-de- ouro

Ventos novos no encontro entre tradição e ruptura, por: *Antônio Rogério Toscano) "Os ares de janeiro soaram como em uma trombeta e, quase visionários, deram o anúncio: João das Neves chegava a São Paulo no início de 2008 com seu brilhante “Besouro Cordão-de-Ouro” e (ainda não se sabia àquela altura, mas) foi o arauto de um jorro de desejos que por aqui se articulava, silenciosamente, desde o ano anterior. Este jorro/desabrochar emergiu com suor forte de trabalho árduo e com rara beleza, no decorrer da temporada, em espetáculos criados por artistas locais jovens, ávidos por desenterrar dos escombros do esquecimento o depoimento vívido de sujeitos marginalizados e escondidos sob a sombra da histórica distinção racial (e social) vigente(s) no país da mais tardia (e até mesmo atual) escravatura. Um dos sinais notáveis em todos estes novíssimos projetos (envolvidos, coincidentemente ou não, com buscas afinadas com as de “Besouro Cordão-de-Ouro”, em que quase a totalidade de performers / atores / cantores / dançarinos é constituída por artistas negros esmerilhados por repertório da tradição popular) se faz visível na tentativa rigorosa de estabelecer parâmetros de experimentalismo em suas formalizações cênicas. Encruzilhados entre a tradição (com resgate de materiais que pressupõem uma idéia de trajetória histórica da miséria e que fazem chegar ao presente a resultante de processos contraditórios e complexos derivados do passado) e o desejo de configurar procedimentos de renovação e de apontamento de caminhos formais experimentais, pelo menos dois grupos importantes surgiram, despontando no circuito teatral com contundentes provocações teatrais avizinhadas (tanto por proximidades evidentes como também por diferenças gritantes) às trazidas pelo vanguardeiro, e profundo conhecedor de tradições, João das Neves. Foi o caso de Os Crespos, coletivo formado exclusivamente por atores negros ainda em fase de formação (recentemente convidados por Frank Castorf a integrar sua montagem brasileira de Nelson Rodrigues/Heiner Müller e que foram fundadores, enquanto atuaram e estudaram na Escola de Arte Dramática da USP, um núcleo de estudos voltado para o debate das questões urgentes do artista brasileiro negro) e que tem diretor negro trabalhando em seu primeiro espetáculo com materiais textuais extraídos da literatura escrita por autora negra e pobre. E foi o caso do grupo Clariô, que constituiu na cidade de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a ocupação de um espaço próprio de pesquisa e de exibição (uma casa simples, na Rua Santa Luzia, ao número 96, radical e intensamente cenografada com estruturas rústicas, típicas das favelas e de comunidades periféricas) e que deu impulso a uma cena originalíssima nascida a partir do estudo de uma série de contos do escritor nordestino Marcelino Freire. Aqui, nem todos são negros (nem atores e nem demais criadores), como nos casos anteriores, mas apenas atrizes (negras ou não) ocupam a cena para dar voz à dor própria das mulheres vitimadas pela sociabilidade miserável e à percepção feminina dos horrores deste mundo. A identificação com um projeto formal nascido da exclusão e da leitura crítica da opressão é o que entrelaça o parentesco estético. Não passou despercebida, em cada uma destas temporadas, a grande afluência de público negro nas respectivas apresentações – ainda que em ambos os casos o uso do espaço alternativo limitasse a presença a poucos espectadores, confrontados a uma cena feita de alto teor de contato e troca, em um jogo concebido com forte recorte épico. A maturação dos canais de debate sobre a consciência negra no Brasil (inclusive através do teatro) tem fomentado a recente modificação da auto-estima deste público e, com isso, ocorre aos poucos a amplificação do espectro social que passa a friccionar seu imaginário com o contágio provocado por idéias teatrais. Nestes casos específicos, em que tais projetos não se localizam em palcos criados por projetos culturais vinculados ao (ou dependentes do) poder público, a procura espontânea por espectadores negros revela a necessidade de expressão acumulada pelo tempo histórico e que encontra poucos canais para o escoamento desta sensibilidade. Se no “Besouro...”, a legenda do capoeirista baiano, narrada pelo texto do sambista Paulo César Pinheiro (quem ainda ouvir o canto sagrado de Clara Nunes, necessariamente há que se deparar com sua poesia), constrói-se com requinte musical e proposição também épica – aliada às fortes tinturas rituais, em uma mestiçagem formal que beira o limite da teatralidade, habitante mesmo da fronteira com as diversas espetacularidades recuperadas da vivíssima cultura popular de origem africana, da dança extática à percussão, das capoeiras aos candomblés –; em “Ensaio sobre Carolina” (de Os Crespos) e em “Hospital da Gente” (do Clariô) uma descrição conceitual semelhante pode ser aplicada. Mas há diferenças. Elas se tornam evidentes. E podem e devem ser ressaltadas. Dentre muitas: 1) a plasticidade ensaística, com pendor conceitual e uso de mídias referenciais, além da um tanto arrogante influência germanista em “Ensaio sobre Carolina” – afinal, Os Crespos apresentaram um ensaio aberto do espetáculo dirigido por José Fernando de Azevedo na Volksbühne, em 2008; e 2) a crueza da poesia, que não faz esforços para evitar um metódico sabor grotesco, presente em histórias curtas e em fragmentos de narratividade urbana que ocupam os vários cômodos da “casa do povo” do Taboão da Serra, capitaneada pela direção firme de Mário Pazzini, em “Hospital da Gente”. As variações apontam, em geral, para territórios mais cosmopolistas, menos mitificados, dotados de um horror típico da metrópole. E, mais detidamente, dão suporte e vazão à virulência dos textos enfurecidos e dulcíssimos de Marcelino Freire (www.eraodito.blogspot.com), tanto de “Angu de Sangue” (2000), quanto de “Balé-Ralé” (2003) e de “Contos Negreiros” (2006) – ainda não tinha sido lançado o seu novo “Rasif / Mar Que Arrebenta” (2008), que já se tornou espetáculo em Recife e exercício cênico na Escola Livre de Teatro de Santo André –, como se lê na formalização do tristíssimo “Hospital da Gente”. Ou mesmo no cinismo crítico das perucas loiras e nas demais citações da marcante intertextualidade de “Ensaio sobre Carolina” (que desde o título repõe procedimentos de certa tradição conceitual). Tais distâncias também são necessárias para dar provas à originalidade dos novos projetos. Mais que tudo, colaboram para filtrar e formatar, com princípios e postulados neo-brechtianos, a devida embocadura da voz excluída transposta à cena. Voz que, na sua origem, no caso dos Crespos, deriva da simplicidade tocante e por vezes rancorosa (para além da compreensível revolta sustentada por sua tenebrosa realidade social), do diário “O Quarto de Despejo”, escrito pela catadora de papel Carolina Maria de Jesus, figura ímpar que se tornou celebridade a partir dos anos 1960, quando teve seus escritos publicados em livro e compreendidos, curiosamente, como literatura documentária de contestação. Em “Hospital da Gente”, a voz é a do autor que expõe que sua escrita não é feita sobre a violência , mas sob a violência - Marcelino Freire. freqüentemente explica que escreve para se vingar dos maus tratos recebidos. Coincidências, recorrências e derivações existem e não são poucas. Chegam a mapear quase-citações (já que seus processos criativos foram simultâneos e não há razões para pensar em influência direta) à matricialidade de João das Neves, sintomas que são de um pequeno e importante zeitgeist local. De “Besouro Cordão-de-Ouro” (e a ecoar em seus quase-filhotes), espanta o princípio gerador, que orbita em torno de um centro dolorido, entretanto dialeticamente festivo: sobretudo, a requintada abordagem da identidade negra (em tema e forma, e sob o impacto da potência expressiva de performers também negros e, justamente por isso, pouco ou nada reconhecíveis pelo público, apesar de suas admiráveis trajetórias artísticas), que desloca o olhar do espectador dos focos costumeiros e o faz migrar para as periferias do espaço, do tempo e do pensamento convencionais, por territórios poéticos ainda não mapeados, em que os valores se alteram, em que a ética se refaz constantemente, sob o prisma da experiência acumulada na vivência próxima e diária, costumeira, da violência. Mas não estão descritos aqui espetáculos violentos e, muito menos, cultivadores de nenhum tipo de glamourização da sensibilidade aturdida e anestesiada do homem contemporâneo. São, pelo contrário, composições delicadas, armazenadas com cenas de raro lirismo, que emergem da suspensão grotesca e da representação rarefeita, mais vinculada à presentificação performática que ao drama. Palavras de densidade sutil escorrem da expressão de corpos negros mais interessados em dar potência poética à pura presença no espaço-tempo do jogo do que em mimetizar o que já aparece com força razoável na temática aviltante. Não há reiteração, mas caminhos abertos à interpretação, por parte de espectadores ativados crítica e poeticamente. Da hibridação conceitual, “Ensaio sobre Carolina” faz migrar a busca do olhar do campo fabular convencional para a sobreposição de imagens, em sólido mosaico feito de fragmentos que demonstram sua contundência por si mesmos. Já as cenas independentes de “Hospital da Gente” indiciam um universo plural, irredutivelmente controverso, que passa a rasteira na lógica do senso-comum e faz o horror transbordar da sutileza e da apreensão do que é, inegociavelmente, complexo. Os atores que aqui despontaram, especialmente Naruna Costa, Martinha Soares e Natalia Kesper (de “Hospital da Gente”), além de Mawusi Tulani, Sidney Santiago, Gal Quaresma e Lucélia Sérgio (de “Ensaio sobre Carolina”), deixam entrever um cenário muito poderoso para as realizações futuras das duas companhias. Precisão e domínio técnico não lhes faltam. Prometem conquistar o mesmo impacto cênico que Maurício Tizumba, Sérgio Pererê, Iléa Ferraz ou Cridemar Aquino em “Besouro Cordão-de-Ouro”, sob a direção do criador de “O Último Carro” (1976). Em todos eles, o pesquisador que anseia pela renovação está sempre pautado e avalizado pelo comprometimento com o conhecimento conceitual dos materiais que construíram o presente. De quebra, demonstram uma coragem incomum em relação aos projetos das novas gerações. Coragem que diz respeito à auto-afirmação, ao depoimento e à superação de barreiras sócio-econômicas brutais. Há uma fábula oriental em que a Coragem é representada por uma pequena planta que teima em nascer e florescer, mesmo sob condições adversas, em um terreno tórrido e seco, no deserto das possibilidades. Nesta pequena alegoria zen, a semente-quase-pedra, ali deixada há milênios, poderia permanecer por toda a eternidade sem germinar e o conforto desta permanência seria acalentado pelo medo e pela covardia reinantes no entorno árido, sem vida. Sem transformação, tudo ficaria como antes e ninguém correria risco algum. Para sempre... Mas, com força extraída sabe-se lá de onde, a semente um dia teima em rasgar sua casca para crescer, verde, sem auxílio de nada que não seja sua própria reserva de água e alimento para dar forma ao novo, à renovação. O entorno, ainda que pouco, muda completamente a sua paisagem. Em meio ao horror, emerge o belo, corajosamente. Não bastasse a petulância de germinar, ainda é preciso arranjar espaço para as folhagens e, depois, para a flor, que desabrocha perfumada no jardim seco do horror. Nas duas ocasiões, em que os atores negros de “Ensaio sobre Carolina” ou quando as meninas fortes de “Hospital da Gente” abriram suas temporadas para o público, em ensaio-aberto na Alemanha-pós-queda-do-muro ou na longa temporada quando-não-tiver-chuva-porque-alaga nas ruas duras de Taboão da Serra, a sensação pulsante é a de que, como atos de Coragem, de vigor político, um outro campo começa a se desenhar por aquele teatro voltado para a criação de novos olhares. De modo semelhante a “Besouro Cordão-de-Ouro”, um chamado à releitura (e ao redimensionamento) do que seja o lugar atual da expressão teatral está sendo lançado. Dioniso, no centro de uma gira negra (ou sufi, a depender do texto de Marcelino Freire), em que a macumba e seus tambores também almejam a iluminação através da vivência da poesia e da coragem zen, da narrativa brechtiana ou da performatização multimidiática, é a divindade que aponta o oriente: no cenário desta cena, o novo rito se faz, autêntico, celebrando a renovação que floresce quando se reconhece, amorosamente, a tradição a partir da qual se formou e a necessidade de revitalização dos desertos do presente. Após os aplausos, o grito: Evoé"! (*Antônio Rogério Toscano é dramaturgo e professor de teoria do teatro na ELT, na EAD e na PUC-São Paulo).

16 de dez de 2008

Cidinha, leia só pra mim

(Por Ronald Augusto). "O século 19 é o momento onde o leitor, como diz Walter Benjamin, assume o seu “papel de cliente”. Em outras palavras, temos um mercado editorial que se expande e que identifica neste segmento humano tanto um público potencialmente fiel como uma classe de interlocutores que por diversos modos dará continuação às produções da série literária. Talvez por isso mesmo, não obstante a existência de grandes poetas (Baudelaire, Rimbaud, Poe, Cruz e Sousa...), a prosa tenha se consagrado como o gênero por excelência do período. Com efeito, desde então o tempo vem provando que os prosadores têm uma noção mais ou menos clara da clientela a que servem, ao contrário dos poetas que, no se disporem a apresentar sua identidade como “a voz” por detrás da linguagem, mesmo assim costumam apreciar mais o solilóquio do que qualquer outra coisa. Ou seja, o leitor lhe parece uma entidade excessiva ou um mal necessário com o qual ele tem de se haver muito a contragosto já que, à revelia da sua vontade, o texto só se completa no instante da leitura. Assim sendo, para o poeta, pouco importa quem é e como reage esse leitor frente aos seus estímulos. O poeta o despreza por secundário, pois do seu ponto de vista o que está em jogo, em primeiro lugar, é o sucesso estético e não comunicativo do poema. Modelo do prosador que por assim dizer “sabe com quem está falando”, Machado de Assis, por exemplo, se dirige o tempo todo ao seu divino leitor, dá-lhe vivos piparotes. Chega ao requinte de, eventualmente, e num gesto contraproducente (no sentido em que põe em causa a noção hoje comum de que o cliente sempre deve ser bem atendido) acordar o leitor da hipnose romanesca, frustrando-lhe o gozo da fantasia refinada, em relação à qual se sente seu beneficiário natural. O leitor é sacudido em sua expectativa de que fará parte de um pacto comunicativo sem ruído, pensado de maneira a apenas ratificar sua inteligência de receptor privilegiado. Machado não atende à piscadela de olhos desse letrado indeciso entre o Império e a República. O leitor é trapaceado, mas esta é a regra do jogo e da ginga machadianas. Machado de Assis re-inventa o (seu) leitor formando-o, ou melhor, temperando-o na ironia e na acídia da metalinguagem. O romance não é mais aquele. Pois essas reflexões a propósito dos flertes baudelairianos e da capoeira machadiana entre o prosador e o leitor, começaram a me ocorrer em parte durante a leitura de algumas narrativas de Cada tridente em seu lugar e outras crônicas (Instituto Kuanza, 2006) de Cidinha da Silva. Vale lembrar: embora seu trajeto textual se componha de diversas obras, a autora faz com esse livro a estréia nos domínios do propriamente literário. É verdade, por outro lado, que Cidinha publicou mais recentemente outro conjunto de textos (Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor? Mazza Edições, 2008) que escapa também da área onde seu nome e seus trabalhos intelectuais se tornaram anteriormente mais conhecidos: Cidinha é historiadora de formação e pesquisadora em educação, raça, gênero e juventude. É autora de artigos e ensaios publicados no Brasil e no exterior em que aborda esses mesmos temas. Os dois livros mencionados de Cidinha da Silva que buscam expressamente a pegada mais literária são, no entanto, bem diferentes. O último, uma reunião de contos, permanece mais rente à tradição dos prosadores que escrevem sabendo que terão uma audiência predisposta a acompanhá-lo, inclusive porque o uso da metáfora dando conta de alguém que pretende “bater o tambor” sugere um chamamento, uma advertência, ou no mínimo um pedido de atenção a outrem. Por outro lado, Cada tridente em seu lugar..., constitui um apanhado mais híbrido de formulações textuais. Não obstante seu aspecto um tanto indecidível — tanto que a autora chama mesmo algumas peças de crônicas, gênero em constante vir-a-ser — não há dúvida de que se trata de prosa da melhor espécie. É isso, mesmo: prosa. E sem complexo de inferioridade com relação à poesia. Prosa poética, proesia, poema em prosa, etc., nada disso! Mas Cidinha paradoxalmente não bate tambor nesta obra inaugural. Ela não se deixa levar nem pelo solilóquio (característico do poeta) nem pela garantia de um público cativo (cuja continuidade tende a tornar a relação entre o prosador e o leitor um tanto corruptora). Não obstante a contemporaneidade dos temas de Cada tridente em seu lugar e outras crônicas, a saber, o multiculturalismo, o homoerotismo e o politicamente correto — felizmente aqui, ainda que com alguma timidez, sendo objeto de questionamento —, Cidinha parece optar por um registro discursivo mais afeito ao negaceio e ao negativo com parcimônia; ouve-se uma voz átona, e até certo ponto indireta. Um pervagar ágil, não cerimonioso, pelas ficções de gênero, de raça e cultura do nosso pensamento presente. Uma enunciação a meia voz. Ou seja, por de trás da sua prosa temos um escritor e não um performer falando a plenos pulmões das questões ideológicas do nosso tempo. Exemplifico. No texto “Xena e Maria Bonita” Cidinha da Silva investiga e ironiza as razões e os contra-sensos das pessoas que acham que “bicho também é gente”, que usam os animais para compensar lacunas afetivas ou que tratam essas “criaturas” como crianças mimadas, etc. Notar no trecho a seguir a feliz solução trocadilhesca incrustada na situação a propósito da antinomia entre os conceitos de “selvagem” e “doméstico”: "E quando o bicho fica olhando o casal transar ou se imiscui no meio dele? Sente ciúmes. Reclama do carinho que uma pessoa faz na outra. Grita que também quer. É estranho! Se é pra fazer um negócio pan-sexual que seja pelo menos com outras pessoas. Às vezes, aquilo que prometia ser uma noite de sexo selvagem é obliterado por um animal doméstico". Recentemente, num debate com outros escritores tive a oportunidade de ouvir a autora lendo seus textos. E nesta arte Cidinha encontrou a música da sua linguagem. Desconheço, hoje, um outro escritor que leia tão bem e com tanta elegância o seu próprio texto quanto Cidinha da Silva. Acho que essa experiência é que me lava a dizer que ela almeja falar com um leitor de cada vez. Não para melhor convencê-lo do que quer que seja, mas para por meio desse “particular” solicitado, no detalhe, mostrar-lhe feito Ismael Silva o canto sempre renovado do seu aprendizado. O saber do samba. Uma crença corpórea na voz lírica reprisando o rito da transmissão oral num mundo onde tudo se tornou simulação, começando pela linguagem. Leio alheio Cada tridente em seu lugar e outras crônicas, e sou outro porque agora me leio: sou eu-Cidinha lendo só para mim, e suas palavras prestam escuta ao meu silêncio. Por que a atenção, devotada a quem quer que seja, é hoje uma faculdade que não pode ser desperdiçada. Através da conquista dos seus meios expressivos, Cidinha revela o afeto que não falha na conquista da confiança de um leitor desejoso de ouvir o narrador empregar também o tom à boca pequena. O drama de cada pessoa e o seu melos re-encenados na tranqüilidade do mais íntimo do leitor-colaborador, o contrário da afirmação concludente, essa subjetividade que se aplica em ser linguagem, que se publica às custas de uma linguagem que é tempo, reiteração: o que cabe à literatura. Cidinha, eu peço bis". ("Negro engole grego", poema visual de Ronald Augusto www.poesia-pau.blogspot.com )

15 de dez de 2008

Angola é aqui!

Nas bancas o N. 39 da Revista de História da Biblioteca Nacional apresenta o dossiê Angola-Brasil e anuncia na capa: "Angola é aqui - nossa história africana". Foi o que me chamou a atenção, depois da imagem de duas jovens angolanas com roupas tradicionais e torso desnudo. Abri a revista e li a apresentação do Professor Carlos Serrano, analisei a contextualização da foto, segundo ele, trata-se de duas jovens não casadas e é costume em sua etnia (Herero, subgrupo Kuvale do sul de Angola) que se vistam assim - "naturalmente, não há qualquer sentido de sedução, como se poderia traduzir no Ocidente", argumenta. Lá, não é Professor? Devo dizer que a foto da capa me incomoda, justamente pelos vários "sentidos de sedução" que a escolha de uma imagem como esta (jovens negras africanas de torso nu) tem no Ocidente e especialmente no Brasil. Mas... os textos são bons, trazem, como é característica da publicação, um debate historiográfico atualizado e crítico, livre de pseudo-neutralidades. Destaco o excelente "Com quantos escravos se constrói um país", de Luiz Felipe de Alencastro. Em síntese: "portugueses e holandeses sabiam: o Brasil não era viável sem Angola. A riqueza daqui se fez à custa da destruição de lá".

Cruz e Sousa: Dante negro do Brasil será lançado no Rio de Janeiro

Clic na imagem para ampliá-la.

Cadernos Negros volume 31 - poemas afro-brasileiros terá lançamento em São Paulo

Autores: Ademiro Alves (Sacolinha), Claudia Walleska, Cuti, Dirce Pereira do Prado, Edson Robson, Elio Ferreira Esmeralda Ribeiro, Fausto Antônio, Jamu Minka, Luís Carlos de Oliveira, Márcio Barbosa, Mel Adún, Miriam Alves, Mooslim, Rubens Augusto, Ruimar Batista, Sergio Ballouk, Sidney de Paula Oliveira e Tico de Souza. Performance das atrizes Mafalda Pequenino e Luciana. Participações especiais: Helton Fesan e Johnson Light. (Texto de divulgação, escrito pelos organizadores): "É isso aí. Em 2008 Cadernos Negros está celebrando três décadas de existência. Foi com a ajuda de todos aqueles que apoiam o trabalho, comprando, lendo, discutindo, recomendando os livros, é que esse feito foi possível. Mas a expectativa em relação às iniciativas negras é de que elas cheguem até um certo ponto e parem. Nós optamos por prosseguir, e queremos continuar contando com você. Em março realizamos um seminário sobre Cadernos Negros com o apoio da Seppir, assim como a edição de um livro comemorativo. Agora continuamos nossa série, feita de forma cooperativa e independente sempre. O 31 nasce desse espírito que norteou todos os outros livros da série: autofinanciado, batalhado, suado... Nasce na raça mesmo! E queremos que você venha celebrar esse nascimento conosco. Providenciamos um local maior, para acomodar a todos, pra ninguém ficar de fora. Mas chegue no horário. Venha fazer parte dessa história. Venha e traga o seu axé! Obs.: o traje é à vontade, mas se puder, venha com uma roupa afro". Dia 18 de dezembro de 2008, às 19:30. Na Faculdade das Américas, à rua Augusta, 973 (a três quadras do metrô Consolação), São Paulo.

Lançamento de "O Casulo" - 10a edição, jornal de literatura contemporânea, em São Paulo

13 de dez de 2008

Chave de ouro em BH

Celebrar é mais, muito mais que a festa do consumo ao final de cada ano. Pode parecer filofia barata, mas é um respiro demarcar este espaço entre tantos pacotes e laços de presentes, e felicitações sem ânimo e sinceridade. Estou a caminho de duas celebrações em Belo Horizonte. Celebrações do ano de trabalho que se encerra, do processo e das conquistas, das vitórias e do que está por vir. Celebrações por meio do trabalho. No dia 17/12 terei a honra de lançar o Tambor no Sarau da ColetiVoz, iniciativa arrojada do amigo Rogério Coelho. O pessoal do S3M - Sobreviventes do Terceiro Mundo, mesmo sem me conhecer, topou dividir o palco comigo, no dia importantíssimo do lançamento do primeiro CD. Estou empenhada para me colocar à altura do coração aberto deles. O Rogério produziu um material de divulgação tri-generoso, como vocês verão abaixo. Deixo o meu agradecimento a toda a moçada do ColetiVoz. No dia 20/12 participo de outro sarau, desta feita organizado pelo Anderson Feliciano, amigo novo que tem trazido várias surpresas para minha vida. Uma delas, este "sarau-homenagem" organizado por ele e por um grupo de amigos para mim. Sentiu o peso da camisa? Participar de coisas assim, em Belo Horizonte, o lugar onde nasci e me criei, como a gente diz por lá, me traz uma alegria especial, porque, como se sabe, é difícil uma santa de casa fazer milagre, ainda mais quando é belorizontina. Gratíssima, Anderson e companhia. (Por: Rogério Coelho) S3M – sobreviventes do Terceiro Mundo. Influenciados pelas musicas dos grupos RZO, Ao Cubo e Sabotage, o S3M nasceu em meados de 2006, no IEMG (Instituto de Educação de Minas Gerais). Em parceria com a direção do colégio, foi realizado em Maio de 2006 um projeto de redução de danos. Bem sucedido, o grupo resolveu a compor musicas no ritmo de rap com uma leve mistura de soul. Produzindo suas próprias musicas, o S3M teve iniciativa de distribuição do trabalho em portas de shows, escolas, bares e principalmente em periferias de toda região metropolitana. A partir de então vieram os convites para cantar em eventos culturais, casas noturnas, bares, escolas, faculdades, igrejas, etc... Destacando show realizado em Paraíso do Tocantins e Palmas no estado do Tocantins, em Janeiro de 2008. Hoje com a formação inicial de Kdu dos Anjos e DJefão, o grupo lança seu 1° disco. A poesia que salva. Kdu dos anjos é grande parceiro da Coletivoz. Foi um dos caras que brilhou os olhos quando falei e convidei para o projeto. Agarrou a idéia sem mesmo me conhecer. “Tudo pela cultura popular”, como sempre diz. Sem demagogia, a vida desse garoto tem sido uma verdadeira maratona cultural. Envolvido nos projetos do Fica Vivo, onde é oficineiro, vem revelando talentos. As oficinas de Rap, poesia, funk e Miami trazem à tona grandes produções culturais de adolescentes e crianças que facilmente se perderiam nas mãos do tráfico. Um grande agitador da cultura da periferia! Assim eu o definiria, se não fosse a vontade de dizer que antes dessa missão, Kdu dos anjos (como se não bastasse o nome abençoado) é símbolo de atitude e portador de grande humanidade. Vocifera contra o sistema; esbraveja contra injustiça em suas letras, com a mesma facilidade sensível de falar de amor, e das lembranças carinhosas que trazem as “presilhas” pretas da amada que se foi. Cidinha da Silva: o cronos da escrita crônica. Além de grande amiga, Cidinha da Silva é uma escritora efervescente. Uma grande intelectual contemporânea que confessa escrever pelos cotovelos: projetos, blog (http://www.cidinhadasilva.blogspot.com/), artigos, peças de teatro e outras escritas e afins, todas as escritas comprometidas com a crônica e seu cotidiano. As viagens pelo Brasil para o lançamento do querido “tambor” – como chama carinhosamente o livro – faz com que as redes de sua literatura ganhem dimensão e potência. A força poética declarada em sua fala e atitude transforma qualquer escrita ou encontro convencional em uma produção gostosa de se apreciar. Sua literatura também explora os dissabores, os desamores, as questões raciais e de gênero com uma fúria declarada, porém travestida pela leveza e sensibilidade da palavra. Convido a todos a ouvir e aprender com esta grande personalidade brasileira – seja pela literatura, pela cultura negra ou pela diversidade sexual. Mulher que se torna para mim, e para muitos, uma referência grandiosa, seja pela literatura ousada, seja pelo olhar sobre os diversos lados da exclusão do nosso país. À luta, à voz! Rogério Coelho.