Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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28 de jan de 2009

Tambor em Belém do Pará, dia 31 de janeiro!

Não se admite

(Por: Michel da Silva) "Segundona. Sete e meia da manhã. Praça Ramos de Azevedo e um envelope com cinco currículos de baixo do braço. Tudo pra tentar sair da fila do desemprego. A fila de um prédio em frente da Galeria 24 de maio me pareceu convidativa. As vitrines me instigaram: “Quando ganhar meu primeiro pagamento vou comprar um tênis”. Mas primeiro um trampo. Então deixa pra lá o pensamento alheio. Achei um jornal. Dei uma folheada pra não pesar na consciência e li o seguinte anúncio: “CURSO PROFISSIONALIZANTE PARA OFFICE-BOY”. Amassei e joguei no lixo. Me lembrei do tempo que eu trampava de office-boy, detalhe: sem fazer curso nenhum. Trombava outros manos nos bancos e fliperamas da vida. Era muita idéia, tiração de sarro, uns rolês. Nosso lema era: “A gente ganha pouco, mas se diverte!” Naquela época eu concordava. No prédio o que mais tinha era agência, e o que menos tinha era emprego. Primeira sala: Mais uma filinha básica. Chegou a minha vez, a moça do balcão me olhou e disse: - "Aqui não pega currículo! Só faz cadastro"! - "Tá bom! Posso fazer"? - "É um real pra fazer o cadastro... Você vai ser visto por diversas empre"... Antes dela terminar, dei às costas. Segunda sala, no andar de cima: Sem fila. Resolvi entrar. Tirei um currículo do envelope e esperei. Um cara, quando me viu chegar, entrou numa sala fechada. A moça, que estava sentada, fingiu que não me viu. Chamei a atenção dela: - "Por favor"... Recebi na lata. - "Pra deixar currículo é cinqüenta centavos, moço"! Balancei a cabeça e fui embora. Caramba! Eu já vi situação em que você paga pra trabalhar, mas pra procurar? Fui embora. Na descida, vi dois manos comentando: - "Que sacanagem! Pagar pra arrumar emprego"! O outro foi além: - "Já ouvi falar que mesmo as agências que não cobram, só pegam currículo pra juntar uma cota boa e vender o papel, vai vendo"! Não agüentei, dei risada da conspiração. Firmeza! Fui a outro prédio na Barão de Itapetininga. Segui a indicação da placa, sobre o corpo de um senhor na rua. O outdoor humano anunciava 50 vagas para operador de telemarketing, inicio imediato. Me olho brilhou e corri pro endereço. Terceira sala: Mais fila. Na hora que fui atendido a menina do balcão olhou meu currículo e perguntou: - "Você tem experiência em carteira"? - "Não, mas trabalhei pra uma cooperativa. Era de operador também". - "Olha moço, pras vagas correspondentes, só estamos aceitando currículo de quem tem experiência". – Eu olhava pra ela e seu rosto parecia se derreter no mesmo ritmo da voz. Tentei manguear na rua de novo . Parei na banca de jornal para olhar as manchetes. Futebol meu time perdeu. Mega Sena acumulou. Greve do metrô. Corrupção na política. Caos nos aeroportos! Sem novidade. Queria mais que tudo explodisse! Pique Bin Landen! Mirei uma agência na Sete de abril. Quarta sala: Até que enfim a chama reascendeu. A moça do balcão mó atenciosa, leu meu currículo, disse que eu tinha perfil pra vaga. Nem precisei esperar muito. Já fui pra entrevista. “Agora vai virar” – pensei. Na salinha fui atendido por um outro cara. - "Bom dia, Paulo"! – falou olhando pra minha ficha - "Bom dia" - "Então, nos aprovamos seu currículo! Você foi selecionado pra fazer um treinamento de trinta dias e após o treinamento você inicia na empresa. Ok"? - "Tudo bem"!? Ele continuou com um sorriso largo: - "No final desses trinta dias você vai receber um certificado de conclusão do curso. O único custo é o material didático, 150 reais. Mas a vantagem é que você já está com a sua vaga garantida e mesmo que você não fique na nossa empresa, você vai ter um diploma de operador de telemarketing. O curso inicia amanhã, posso confirmar seu nome"?

27 de jan de 2009

Mais sobre o funk

(Deu na Bravo, por Gabriela Rassy, em janeiro 2009). "Quando se fala em funk carioca logo vem à mente a imagem hoje já estigmatizada de baixa qualidade artística, pornografia e incentivo ao crime. As razões desse preconceito são simples: boa parte da produção musical com a batida do funk não é divulgada, o ritmo ainda sofre muito preconceito e os MCs e DJs mal conseguem trabalhar por restrições da lei. Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto FGV Opinião, da Fundação Getulio Vargas, o funk movimenta R$ 120 milhões por ano só no Rio de Janeiro. A realização de bailes, no entanto, é restringida devido a uma lei fiscalizadora criada em maio de 2008 pelo ex-deputado Álvaro Lins, hoje cassado. Ela faz uma série de exigências que inviabilizam a realização das festas, entre as quais a necessidade da autorização por parte de um comandante de polícia. Os recentes projetos de lei redigidos pelo deputado federal Chico Alencar (PSOL-Rio) e pelos deputados estaduais Marcelo Freixo (PSOL-Rio) e Wagner Montes (PDT-Rio) pretendem tornar o funk uma manifestação cultural popular oficial e, assim, permitir o trabalho dos profissionais da área. Os projetos, no entanto, não anulariam os efeitos da lei de Lins, mas garantiriam uma mudança de eixo no tratamento dado pelo governo ao funk. O ritmo passaria a ser lidado no âmbito da política cultural. "O objetivo do projeto de lei é mais pedagógico do que legal, apenas fomenta a discussão, leva o debate ao governo, à imprensa. A mudança prática, com a lei aprovada, seria que a polícia não poderia mais impedir os bailes e festas", explicou Freixo, que pretende fazer emendas para modificar a lei de Lins. A situação dos profissionais do funk foi levada aos deputados pela Apafunk (Associação de Profissionais e Amigos do Funk), liderada pelo MC Leonardo, autor do Rap das Armas, que está na trilha sonora de Tropa de Elite. "O funk já está no calendário cultural da cidade e turistas procuram os bailes. Se não existem mais bailes, é por que muitos produtores são impedidos de trabalhar. Cultural o funk já é, queremos apenas legitimá-lo", disse o MC. Segundo o MC, o funk emprega 10 mil pessoas e isso equivale ao número de trabalhadores do ABC Paulista. "Não podemos fechar os olhos pra esses números", argumenta. "A política coloca a polícia contra os agentes culturais alegando que a linguagem da favela é criminal. Falam que é proibido o que a gente vê e o que a gente sente. Isso é censura", considera o MC. A antropóloga e docente da UFF (Universidade Federal Fluminense), Adriana Facina, acredita que a lei não tem o poder de mudar radicalmente a situação do funk. "A lei vai garantir que os trabalhadores tenham seus direitos garantidos. Ela não acaba com o preconceito, mas vai fazer com que ele não se traduza em perseguição policial e não impeça os jovens de trabalhar", disse. A necessidade de uma lei, no entanto, ainda é questionável. O jornalista Silvio Essinger, autor do livro Batidão - Uma História do Funk tem ressalvas. "O funk virou o que é mesmo com a perseguição policial e sofrendo todo tipo de ataque. Hoje ele é uma música original, referência para turistas europeus e americanos, que querem conhecer esse tipo de baile, que não existe em outros lugares do mundo", disse Essinger. O jornalista acredita no valor estético do funk que é feito fora do esquema das gravadoras e rádios, cujo ritmo é, segundo ele, genuinamente brasileiro, cheio de miscigenações. 'Não tem funk de laboratório, não tem jabá, não tem manipulação. Não sei o quanto essa lei pode beneficiar uma coisa que funciona tão bem, mas eu acho válido tudo que puder dar uma garantia de trabalho pra quem lida com o gênero', disse".

26 de jan de 2009

Nasce um ancestral

(Por: *Horácio Lopes de Moraes). "Tipo raro dos pampas, referência que seguramente figurará entre as mais importantes para nós negros riograndenses, mesmo sem evocar toda aquela querela do gaúcho macho bagual. Não foi preciso isso. Suas palavras mostraram a força que pode ter um negro apenas articulando pensamentos e nos deram a dimensão de quanto as nossas ações podem ser importantes pesquisando apenas uma data, dia 20 de novembro. Além disso, todos que o conheceram sabem que seus gestos tinham ingredientes fartos daquilo que alicerça qualquer relação de respeito e confiança [e que também muitos de nós temos a dificuldade em admitir que não possuímos]: humildade. Por si só, as ações do poeta são ensinamentos valiosos que, para mim, transcenderam sua obra. Durante nossos últimos encontros, isso ficou evidente. Na “Liga da Canela Preta”, dos tempos modernos, em novembro último, topo com o mestre me solicitando uma conversa e, ao vê-lo, vem à baila o que minha mãe alertava: “Ele não está bem, precisamos fazer algo.”. Em outro sentido, me recebe com seu sorriso peculiar, seu apertar de mão e seu aceno com a cabeça em tom positivo, talvez mais peculiares ainda, e me fala: "Olha, sei que estás atrasado para o jogo e acho que não vou ficar até que acabe. Gostaria de te dizer que separei uma lista com nomes africanos, como sugestão para o gurizão que está chegando..." Já com sérias dificuldades físicas de locomoção, o cabelo todo branco, alvíssimo, e sem o seu porte que, há poucos meses, erguia uma compostura saudável de um homem "experiente", Oliveira precisava daquele encontro amigo comigo, assim como com todas as outras pessoas com as quais julgava necessário fazê-lo antes de... Sim, com certeza ele sabia que poderia perder a luta no próximo “round”. O adversário, forte, não estava recuando e, muito pelo contrário, o fez reagir a contragosto dos seus pensamentos militantes para diminuir seu passo e cumprir o papel da despedida. Mais projetos e aspirações o poeta ainda guardava: o nosso próprio nazi-hino sulino ele ainda gostaria de ver atingido por sua lança, de lanceiro negro, e ver virar hino, de verdade. Ocorre que sair da travessia, na esmagadora maioria das vezes, não é como entrar nela a despeito da única certeza que temos em vida. De um lado se tem nove meses para prover condições tanto a nós quanto ao descendente; de outro, pode-se não ter sequer um instante para o último olhar, olhar que embaraça e faz confundir os sentidos de quem fica. De fato, ainda pude ter a chance de me encontrar novamente com o mestre, já no hospital, para que me sugerisse uma dica fundamental no nome que eu e minha mulher escolhemos para o nosso filho, Aluiatã, que nascerá em fevereiro. O nome escolhido, em verdade pela mãe, terminava indígena sem a mudança que, segundo Oliveira, poderia transformá-lo em um anagrama yorubá, para assim dar sentido a Aluiatan (A_lui_atan). Nesta ocasião, com muita dificuldade de manter-se acordado, fazia bastante esforço para não perder a linha de raciocínio enquanto dava explicações em torno do nome. “Apagava” por, até, minutos, mas voltava justamente do ponto onde havia parado, como que remoendo pensamentos tão profundos quanto o arcabouço de vida que acumulou durante todos esses anos. O professor... sempre a ensinar. E não é que nesse dia vi até novela! Como ele mesmo dizia, o prazer infame que havia adquirido durante esses dias de malogro, passava "no doze"[6], às oito da noite. Horário após o qual, no dia da visita, 30 de dezembro, eu e minha mãe decidimos nos despedir. Dia 1º de janeiro, à noite. Minha mãe atende ao telefone e vem em minha direção com a notícia no semblante: "não deu!". Pois aí é que pensei e, creio, Dona Vera concordará comigo: “deu sim, mãe!”. Nosso poeta soube, como um exímio atleta, passar o bastão. Homem com requintes da educação do interior, sim, ele fez questão de se despedir. A exemplo dos costumes que aprendeu, exerceu uma coerência que talvez explique seu próprio caráter, e que me impressiona muito. É algo que levarei adiante e que meu filho já trará engendrado no nome. É algo que a sociedade riograndense clama sem nem sequer se dar conta. É algo que o Brasil ainda verá transformado em feriado, em novembro. É algo de que, talvez, só o povo negro poderá dispor ao mundo com sua ancestralidade exclusivamente matriarcal. Uma coerência que também se percebe no ciclo que persevera a "passagem" entre nós, dando início a uma vida, ao passo que aconchega outra que, neste caso, faz jus a um grande nascimento. Dia 1º de janeiro de 2009: nasce nosso mais novo ancestral, o poeta digno da alcunha de lanceiro, negro, Oliveira Silveira". *Horácio Lopes de Moraes - Estudante de Arquitetura (UFRGS). Iniciou estudo, defendido no Salão de Iniciação Científica dessa instituição, sobre o negro e suas relações espaciais na cidade de Porto Alegre. É aluno de graduação do curso tecnológico de Gestão Pública-Facinter e bancário da CEF. Menção Honrosa no concurso para estudantes de arquitetura, promovido pela FENEA (Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil), em 2007, cujo tema era “habitação de interesse social’, ocasião em que fora trabalhado um conjunto de melhorias para o quilombo urbano da Família Silva.

24 de jan de 2009

Aviso aos navegantes

Tirei uns diazinhos de férias e pode ser que as postagens aconteçam ou não, nos próximos dias. Questões de humor, tempo e disponibilidade de computador. Embora tenha matérias de gaveta, haverá dias em que faltará a máquina. Volto à ativa, com regularidade, a partir de 4 de fevereiro. Até lá, instabilidade no ar.

23 de jan de 2009

Martin Luther King e Solano Trindade

(Texto de divulgação). "Este livro aborda a juventude e os momentos decisivos na formação deste líder pacifista. Relata suas primeiras experiências com a segregação racial e as reflexões que iriam conduzi-lo a uma posição de liderança equilibrada e original. Apresenta, ainda, momentos decisivos da história dos Estados Unidos, com reflexões sobre a questão do preconceito, fenômeno que ainda persiste não só na sociedade norte-americana como também na brasileira". Christy Whitman / tradução de Guca Domenico. (Texto de divulgação). "Considerado o maior poeta da negritude brasileira, o pernambucano Solano Trindade tem seus versos mais expressivos reunidos neste volume, que ganham um sabor especial com as ilustrações de sua filha Raquel Trindade". Seleção, organização e prefácio de Zenir Campos dos Reis. Editora Nova Alexandria

Sobre a poesia do Ricardo Aleixo

(Por: Manoel Ricardo de Lima; para ler o artigo completo - Um céu inteiro para nadar -, vá ao blogue do Ricardo Aleixo). "Certa leitura da poesia produzida no Brasil tende a uma espécie de padronização crítica “carioca” (sim, assim mesmo, entre aspas, claro), o que tende a uma repetição da geografia dos usos de Machado de Assis, algo entre a Glória e o Aterro, não tão mais longe que isso (...) E é o próprio Ricardo Aleixo, agora, ao publicar na coleção Elixir (num convite do designer gráfico Flávio Vignoli e com uma tiragem de 220 exemplares) o seu último livro, intitulado “Céu Inteiro”, quem aponta para um gesto que produz um desaparecimento desses lugares marcados, amém, e desses sintomas descompassados, coisa que sempre fez desde o seu “Trívio” até o seu “Máquina Zero” e, principalmente, no seu empenho político com o mundo para ampliar a distância, com a poesia, com as pessoas ao redor, que vai desde suas posturas – não abrir mão de tomar sentido e se posicionar, assumir a fala como um dizer e não como um escorrego nem muito menos como uma “articulação” ou uma “negociação”, como ainda sugere Heloísa Buarque – até, mais recente, com o seu LIRA (mais um destes espaços de afeto, lugares encantados, que este país produz sabe-se lá como, tal qual o Alpendre, em Fortaleza, o Torreão, em Porto Alegre etc). O LIRA, esticando o passo e a distância deste “Céu Inteiro”, no bonito bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte, perto da antiga esquina do Clube com suas canções sem tamanho, é um desdobramento de uma política de afetos. “Céu Inteiro”, então, é um livro magro, curto e delicado, folhas soltas dentro de uma suposta pasta cinza, com uma letra bordô, uma ferrugem dobrada ao meio numa linha de elástico vermelho usada para fechar e abrir a caixa. É um livro-parte de um projeto maior que vai se chamar “Modelos Vivos”. O livro foi feito numa recuperação da tipografia, a poesia em tipografia (como o gesto de Cleber Teixeira e sua Noa Noa), cinco lipogramas como as novelas de Lope de Vega das quais retira de cada uma delas uma vogal. E assim faz Ricardo,a cada poema uma ausência de uma das vogais. No canto das páginas, elas aparecem, uma a uma, como uma numeração, como uma rememoração das vogais de Rimbaud, como um outro poema, um poema de canto de página, de salto para fora, de silêncio e tremor. E assim começa o movimento desta afecção: “Céu inteiro. Do centro dele, pende o / velho sol, o que viu surgir o primeiro // dos nossos, o último. Tudo de que me / recordo: um sítio onde o único rumor // que se ouve é o gorjeio monótono dos / grous. Noite de breu, de negrume, liso // de pele de bicho com, é possível, o / mundo inteiro sob seu peso feroz. Seus // duplos. O medo, como é: o vulto oblíquo / de um olho cego entrevisto por dentro.” Ver por dentro, no vazio da placa de desvio, a caixa dentro da caixa como parte da queda, tudo passando aos saltos, num próximo segundo, sugestões de Ricardo Aleixo para a poesia, para ler a poesia como uma responsabilidade e não como quem pendura as mesmas fotografias nas mesmas paredes limpas, claras e fixas. A poesia, para Ricardo Aleixo, vem como desapropriação e com um céu inteiro para nadar".

22 de jan de 2009

Multimídia: arte feita de novas idéias

(Deu no ESTADO DE MINAS de 18/01/09). "A performance multimídia está em franca expansão. Arte contemporânea que promove encontros de linguagens – como dança, teatro, poesia, música e artes plásticas, entre outras categorias artísticas –, ela ainda não assumiu contornos de produção para atrair público numeroso, mas também não é esse seu objetivo, pelo menos na concepção dos novos artistas que investem na pesquisa desse cruzamento de ideias. Para eles, essencial é a possibilidade de investigar novas formas de expressão, que não encontram barreiras nem estabelecem limites entre os gêneros. Como aliado, apontam o uso de aparatos tecnológicos que favorecem a experimentação. Performer que participa do festival Verão Arte Contemporânea com a vídeoinstalação Série: Objetos vídeos, desenvolvida em parceria com Ronaldo Macedo Brandão, Tatu Guerra conta que seu primeiro contato com a abordagem multimídia foi no grupo Black Maria, onde atuava como percussionista, com Ricardo Aleixo e Gil Amâncio. Graduou-se em Belas artes, estudou animação, fez oficina de VJ e não parou mais de cruzar referências estéticas. Chico de Paula, DJ Rato e outros artistas também se aproximaram, para realização de novos projetos. No festival, ele e Brandão exploram a idéia de confinamento nos centros urbanos, por meio de dois objetos – ambos associam realidade e absurdo. O primeiro deles – um poço construído com tijolos – esconde uma pessoa, que pode ser vista por cima, pelo público. O outro objeto prende um rosto numa pilastra, em sistema de projeção de imagem que conta com dois monitores. Nos dois trabalhos, a sensação de clausura, própria da atualidade. Para Tatu, as obras não são uma provocação. “Não queremos questionar o comportamento. Apenas congelamos uma situação. Gosto dessa questão estética, de explorar a ideia de confinamento que está em todos os lados”, comenta. Com formação de ator-dançarino, Benjamin Abras conta com elementos da cultura popular como base de experimentação. Em processo de construção de novo espetáculo, ele adianta que capoeira, cantos ritualísticos, dança contemporânea e teatro serão reunidos pelo projeto. Ele também associa objetos na performance. “Com as artes plásticas é possível criar imagens dinâmicas, como extensões do corpo. São referências que aguçam a memória e o instinto de quem realiza e de quem assiste ao espetáculo”, comenta. Cantos de trabalho do candomblé, orações e ritos afrobrasileiros ganham novo significado com a abordagem do artista. A música também desempenha papel importante do desenvolvimento da cena. Ainda sem título, o espetáculo tem estreia prevista para o segundo semestre, na Igreja de São Jorge, no Centro de Belo Horizonte. O espaço físico ajuda o performer na associação de ideias. “Cada lugar tem uma história, e isso também precisa ser considerado como informação para a peça”, explica. Há mais de 10 anos envolvido com esse tipo de performance, ele conta que seus trabalhos são idealizados propositadamente para público pequeno, em espaços restritos. Para Benjamin, o número menor de pessoas possibilita melhor absorção do conteúdo. “Busco espaços alternativos, para que todo mundo consiga perceber essa relação da palavra com o corpo e as relações geradas a partir disso. Para ele, a arte não precisa necessariamente agradar, mas tem que provocar plateias e desconstruir conceitos. TATU GUERRA E RONALDO MACEDO –SÉRIE: OBJETOS VÍDEOS. Hall do Teatro Francisco Nunes, Av. Afonso Pena, s/nº, Centro, Parque Municipal. Diariamente, 20h. Artista e pesquisador apontado como um dos precursores do gênero no estado, o poeta Ricardo Aleixo diferencia a performance multimídia – que reúne som, palavra, vídeo e corpo sem que um elemento “contamine” o outro – da intermídia, que propõe junção qualitativa das artes, com fronteiras cada vez menos rígidas até a radicalização da ideia de não-distinção das categorias artísticas. “Na multimídia, elas são preservadas, enquanto na intermídia tudo muda numa rapidez absurda”, explica. A conceituação, ele atribui ao “esforço teórico” de Júlio Plaza, artista intermídia espanhol que se radicou no Brasil e morreu em São Paulo, em 2003. O interesse de Aleixo sobre a tema ocorreu nos anos 1980, influenciado por outra referência fundamental no gênero, o músico John Cage. “Sou mais um que se alimenta do que ele trouxe em termos de desestabilização das fronteiras”. Para o poeta, essa é uma proposta que se relaciona com o fim da diferenciação entre arte e vida, portanto, a pesquisa intermídia tem sentido essencialmente político na investigação do artista. No fim do ano passado, ele participou da Mostra Contemporânea de Arte Mineira em São Paulo, com a performance Barrocodelia, com direção e concepção compartilhada com Chico de Paula. Entre os convidados também participaram Gil Amâncio, Rui Moreira, Benjamin Abras, DJ Rato e Jorge dos Anjos. “Mais que amigos, eles são artistas habilitados para trabalhar nessa dimensão da pluralidade. A trajetória deles aponta para uma arte feita em Belo Horizonte, com rica história na prática intermídia”, elogia. Para Ricardo Aleixo, é lamentável a falta de espaços na cidade que reconheçam a importância da performance como linguagem e valorizem a pesquisa realizada pelos artistas. “Podem dizer que são altos os custos de montagem, por causa da utilização de equipamentos técnicos e tecnológicos. Mas isso responde apenas a um dos problemas. Em Belo Horizonte, a questão é de mentalidade. A cultura ainda ainda está com os olhos voltados para o passado”, avalia" (Rique Aleixo, de óculos escuros; Tatu Guerra com os outros óculos).

Blackitude na Bahia

20 de jan de 2009

Langston Hughes anteviu Obama no poder, há 85 anos

(Por: Carlos Marchi, do Estadão). "Ser negro, homossexual e comunista era uma conta muito alta para pagar nos Estados Unidos das décadas de 1930 a 1950. Mas Langston Hughes, que muitos consideram o maior poeta negro americano, pagou essa conta com juros, ao profetizar, com talento e brio, que os negros ocupariam o centro do poder - adivinhou Barack Obama há 85 anos. Desconhecido no Brasil, Langston foi um pilar cultural da luta pelos direitos civis e ajudou a disseminar, nos Estados Unidos, o conceito da negritude, criado pelo poeta e ex-presidente senegalês Léopold Sédar Senghor, e que teve suas raízes iniciais fincadas apenas na Europa ariana. O fenômeno Barack Obama começou a nascer em muitas fontes da alma negra americana, mas uma de suas raízes mais profundas é visível na obra de Langston. Só o seu poema I, Too, escrito em Gênova, Itália, em 1924, enquanto ele esperava um passaporte novo, é suficientemente premonitório para consagrá-lo como autor da mais singela certeza do dia em que os negros alcançariam o poder, simbolicamente sentados à mesa da sala. Nesse curto poema, Hughes parece relatar a própria saga do povo negro americano, das catacumbas do preconceito até a ascensão ao poder máximo. Talvez Obama não tivesse chegado à Presidência se fosse branco, mas ele nunca usou objetivamente a cor para ascender, nunca pretendeu encarnar uma revanche (ou vitória) dos negros americanos. Mas mesmo sem querer, acabou sendo o personagem da volta por cima, sem nunca ter sofrido na pele o impacto da segregação. Quando nasceu, em 1961, a união de seus pais jamais seria oficializada se o pai, um economista queniano negro, fosse americano, já que os casamentos inter-raciais estavam proibidos nos Estados Unidos. Em seu poema premonitório, escrito, 37 anos antes, Langston pregava a luta inflexível pelos direitos dos negros sem fraquejar no amor pela América, a mesma reverência à pátria que Obama, sem nunca ter enfrentado a aridez da segregação, exibe hoje. Langston separava as coisas. Os negros odiavam a segregação, mas amavam a sua pátria, os Estados Unidos, que eles, tão egoisticamente quanto os brancos, chamavam de "América", como se o continente descoberto por Colombo começasse nos grandes lagos e terminassem na trajetória do Rio Grande. A poética de Langston é errática, nesse sentido. No poema Christ in Alabama (década dos 30), imagina um "Cristo crioulo" pregado na "cruz do sul" (sul dos Estados Unidos, não sul do mundo). Já em Always the Same (idem), ele adere a um sentimento internacionalista e compara os negros das docas de Serra Leoa, das minas de diamante da África do Sul, das plantações de café do Haiti e de bananas na América Central, das cidades do Marrocos aos que sofrem nas ruas do Harlem. E sentencia: "(Sempre) Explorados, surrados, roubados, alvejados e mortos." Homossexual assumido, Langston respirava poesia. Próximo da morte, se perguntou o que é poesia. E respondeu-se: "É a alma humana por inteiro, espremida como um limão, gota por gota, gerando palavras atômicas." Cobrava que a poesia é uma arte a ser praticada no limite, como se as palavras devessem operar como o fio amolado da faca: "Enforque-se em suas próprias palavras, poeta; do contrário, você está morto." Distribuiu golpes desse gume cortante nas três grandes lutas que sustentou na vida - desde a esgrima com o pai para escolher a carreira até o enfrentamento das pérfidas barreiras da segregação e, por fim, a luta surda contra o preconceito à homossexualidade, numa época em que ela suscitava bem mais que um especulado ato imoral. James Mercer Langston Hughes nasceu em Joplin, Missouri, em 1902, de pais que já descendiam de casamentos inter-raciais, como Obama, mas foi criado na comunidade afro-americana, num ambiente bem diferente do personagem tardio de sua saga premonitória. Como a Obama, o poder não lhe era completamente estranho: seu tio-avô John Mercer Langston foi o primeiro negro a ser eleito para o congresso estadual da Virgínia. Ainda assim, quando se divorciou, seu pai, James Nathaniel Hughes, não suportou os dilemas da segregação: foi para o México e depois para Cuba (como o pai de Obama que também saiu dos EUA após divorciar-se da mulher, embora não tenha sido tangido por motivações raciais). A sua obra revela duas profundas conexões: uma, com o passado americano; outra com o que ele chamava de "maravilhoso mundo dos livros". Não sem razão. Morou em nove Estados americanos, além do México. Viajou o mundo muitas vezes, algumas como marinheiro, outras como artista. Foi um globe-trotter das artes. No México, dividiu quarto com o fotógrafo Henri Cartier-Bresson; na cobertura da Guerra Civil Espanhola, viajou com Nicolás Guillén. Em Paris, conheceu Pablo Neruda e Bertolt Brecht. Adiante, trabalharia com Kurt Weil. Conheceu muitos países da África, União Soviética, China, Japão. Na vida, foi marinheiro, florista, trabalhou em lavanderia, em criação de ostras e como assistente de historiador. Como Obama, que viveu um período com o padrasto na Indonésia, Langston também foi passar um tempo com o pai no México. Ele tinha só 17 anos e nesse período os dois discutiram muito sobre a carreira. O pai queria que ele estudasse engenharia numa universidade mexicana; ele queria ser escritor, profissão que o pai rechaçava. Langston venceu: entrou para a Lincoln University e, depois de formado, foi morar no Harlem, em Nova York, onde viveria por muito tempo e produziria a maior parte da sua obra - nesse aspecto, nada a ver com Obama, que nunca compartilhou espaços com as comunidades negras. Langston foi fortemente influenciado pelo movimento de renascimento do Harlem, que brotou em 1925. Por toda a vida criticaria com aspereza os princípios comportamentais da classe média negra americana, que evitava rechaçar os valores da cultura branca; para ele, os negros deveriam assumir valores de uma cultura ancestral essencialmente negra. Isso era claro no julgamento cortante que fazia das instituições criadas pelos brancos: "Que a Justiça é uma deusa cega/ é uma coisa que nós, negros, já sabíamos/ a bandagem que ela usa esconde duas chagas pustulentas/ onde antes, talvez, tenha havido olhos." Nos anos 1930, ele ajudou a fortalecer, nos Estados Unidos, o conceito de negritude, nascido para responder ao colonialismo europeu na África. Ao longo do século 20, publicou livros de poemas, ficção e não-ficção; engajou-se no Partido Comunista Americano e foi investigado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas. No Brasil, virou enfant-gaté das publicações de esquerda, como a Revista Acadêmica, editada por Murilo Miranda nos anos 1930, que divulgou seus primeiros trabalhos traduzidos para o português. Nos Estados Unidos, sendo não mais que um mulato, tornou-se ídolo dos negros. Mesmo sendo claramente um mestiço de cabelo levemente crespo, foi irreversível para Langston Hughes uma clara opção pelo engajamento como um artista e um cidadão afro-americano, muito antes que a expressão se consagrasse mundialmente. Não só por ter vivido no Harlem, mas por ter produzido uma obra que embalava a negritude e incensava a América - fundamento da ideia "a América para os negros", da qual Obama se tornou filho dileto. Suas cinzas estão depositadas sob um medalhão africano que reproduz uma cosmogonia, num jazigo incrustado no piso da entrada do auditório Langston Hughes, do Centro de Pesquisa de Cultura Negra Schomburg, no Harlem, bem no epicentro do universo que ajudou a tornar respeitado. Um Poema. EU, TAMBÉM - Eu também canto a América/ Eu sou o irmão mais escuro,/ Mandam-me comer na cozinha quando há visitas, mas rio-me,/ como bem e fico forte./ Amanhã, sentar-me-ei à mesa quando houver visitas./ Ninguém ousará dizer-me, então:/ "Vai comer na cozinha."/ Além disso, verão como sou belo e se envergonharão - eu também sou América". (Tradução de Abgar Renault).

19 de jan de 2009

Menos hipocrisia no tratamento do funk, por favor!

Em julho de 2008 postei no blogue um artigo intitulado "Funk carioca: crime ou cultura?" e faz-se oportuno apresentá-lo novamente. A parada é a seguinte: há uma uma polêmica em torno da reivindicação de produtores culturais do funk, para que o ritmo seja reconhecido como movimento cultural. O tema é vasto e muito, muito complexo. Para discorrer sobre ele, usarei o exemplo de um conhecido baile funk que acontece toda sexta-feira numa favela do Rio, numa rua a céu aberto. É a rua que dá entrada à favela. Ao chegar, como todos os que chegam, fui saudada assim: "olha aí, olha aí, tem maconha de cinco e maconha de 10; coca de 10 e coca de 15. Farinha da boa, djamba da melhor qualidade". Se é que gravei bem o valor das ofertas. Há os guardas (do tráfico), jovens e senhores (vi uns quatro que seguramente tinham mais de 30 anos)portando rádios transmissores e aquelas armas que não sei dizer os nomes. Só sei que estilhaçam as pessoas como os soldados israelenses têm feito com as crianças, em Gaza. Começo a subir a rua e fico assustada com a discrepância entre o número de homens e mulheres, estimo 2 mulheres para cada grupo de 8 homens. Também me choca o cheiro predominante de algo que não é crack, tampouco maconha, lembra o crack, mas não é, talvez seja "merla", como chamam em Brasília, "pasta-base", como chamam em Montevidéu. Nos dois lugares, trata-se da mistura do bolo fecal da cocaína com solventes químicos encontrados em produtos de limpeza. Imagine-se o estrago que isso provoca no sistema respiratório. Quando vou embora, umas duas horas depois, o motorista de táxi que tenta me extorquir, menciona os valores que o tráfico entrega semanalmente à polícia para ficar "na paz". Ah... esqueci de dizer que toca funk por lá, um som ensurdecedor, dezenas de caixas de som detonam diferentes músicas, todas com letras picantes, e pelo menos naquele dia não tocaram funks em elegia aos traficantes - também existem, bem sei. Mas o que é o funk nisso tudo? Um detalhe, meu bem, trilha sonora,nada mais. Os problemas daquela rua chamam-se: falta de políticas públicas que gerem trabalho, renda e educação para a juventude negra - desculpem-me por informá-los, mas os brancos ali não ultrapassavam os dedos dos pés e das mãos de uma ou duas pessoas -, além da atuação ilícita da polícia, em conluio com os traficantes, para ficarmos nas duas questões mais graves. E o funk nisso tudo? Apenas trilha sonora. Para verificar in loco, basta voltar lá aos sábados, dia seguinte ao baile funk, dia de ensaio da escola de samba tradicional, na quadra, há uns 300 metros da tal rua. Tudo estará lá como esteve na sexta (olha aí, olha aí, tem maconha de cinco e maconha de 10; coca de 10 e coca de 15. Farinha da boa, djamba da melhor qualidade ), faltará apenas o funk. Nos bailes convencionais, que acontecem nas quadras das demais comunidades, o projeto de lei pede proteção do Estado, porque o braço armado dele costuma aparecer apenas para extorquir e não para enfrentar donos de equipes de som, por exemplo, que lucram com a promoção de brigas entre garotos que, majoritariamente, não têm nada a ver com o tráfico (o soldado do tráfico vai para o baile vender drogas e para fazer a "segurança" do local, não vai para brigar), mas blefam uma suposta ligação à facção "X" ou "Y" para se impor, para "impressionar as meninas". Isso não é novidade nas favelas e periferias, desde os anos 90, a turma que estuda as "galeras e gangs juvenis" nas grandes cidades brasileiras, já apontou o fenômeno. A polícia e a justiça precisam atuar sobre os promotores das brigas e todos sabem quem eles são. No mais, deixemos de hipocrisia, dizer que o funk é responsável pela hipersexualização das crianças da favela, parece conversa pra boi dormir. Alguém se dispõe a fazer uma análise séria dos efeitos do "programa da Xuxa" ao longo de quase três décadas, na hipersexualização das crianças e adolescentes brasileiros, das favelas e de todos os outros meios sociais? Ainda na linha do fim da hipocrisia, não se trata de "impor uma definição de cultura", como advogam os puristas contrários ao projeto, mas sim, de uma estratégia para fazer com que o funk migre das páginas policiais - onde é posto, intencionalmente, de maneira racista, inclusive -, para as páginas de cultura. Cultura de massa, fruto da indústria cultural e, como tal, passível de críticas, como a música sertaneja, o pagode romântico e os roquezinhos dos ídolos pop e da garotada de Malhação, dentre outros. (Projeto quer definir funk como movimento cultural e gera polêmica - Fonte: Rádio Difusora). "Um projeto em tramitação na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro que propõe a definição do funk como movimento cultural a ser assegurado pelo poder público ganhou repercussão. O projeto elevaria o funk a uma espécie de “cultura protegida”. A proposta levou a uma tensão entre os aficionados pelo ritmo e aqueles que afirmam que as músicas encorajam o crime organizado e estimulam a sexualidade precoce entre crianças e adolescentes. O objetivo é que o funk deixe de ser tratado pela Secretaria de Segurança Pública, passando para as mãos da Secretaria de Cultura. Os defensores do projeto argumentam que o movimento é uma forma de expressar o cotidiano de comunidades carentes do Rio, reunindo mais de um milhão de jovens nos fins de semana. A proposta estabelece que “compete ao poder público assegurar a esse movimento a realização de suas manifestações próprias, como festas, bailes, reuniões, sem quaisquer regras discriminatórias” e proíbe “qualquer tipo de discriminação ou preconceito, seja de natureza social, racial , cultural ou administrativa” contra o movimento funk. O funk é objeto de outro projeto apresentado pelo deputado federal Chico Alencar (PSOL) na Câmara dos Deputados, em Brasília, em dezembro de 2008. Pela proposta, que também define o funk como forma de manifestação cultural popular, o poder público deverá garantir a proteção do movimento, assegurando a livre realização das festas e dos bailes para sua promoção. O projeto define também que a discriminação e o preconceito contra o movimento funk e seus integrantes estarão sujeitos às penas previstas em lei. O texto tramita em caráter conclusivo e ainda será analisado pelas comissões de Educação e Cultura, e de Constituição e Justiça e de Cidadania". (Artigo de Cidinha da Silva, postado no blogue em 07/07/08). O som dá medo. E prazer. Afirma a autora, a jovem Janaína Medeiros, na capa do livro. Minha primeira impressão foi de que o título da obra, o mesmo deste pôste, fosse apelativo, coisa de jornalista em busca de atenção para a matéria. Qual nada! Eu, fã de funk que sou, da música, da parte eletrônica, principalmente, – aquilo é “som de preto, de favelado e quando toca ninguém fica parado” -, me surpreendi com o processo cruel e insano de criminalização do funk no Rio de Janeiro. Dá medo, coisa orquestrada por demônios. No funk gosto também das meninas, Tati Quebra-Barraco e Deize Tigrona, duas grandes líderes, cada uma com estilo próprio. Gosto de Cidinho & Doca, autores do Rap da Felicidade (Eu só quero é ser feliz/andar tranqüilamente na favela onde eu nasci...) e me intriga a trajetória do polêmico Mr. Catra, talvez o nível de escolaridade mais elevado do funk. Num mundo onde a maioria das pessoas abandonou a escola para trabalhar muito cedo, logo depois de completar as quatro ou cinco primeiras séries, Catra chegou à universidade e desprezou o curso de Direito para ser artista. Foi roqueiro, rapper, até chegar a funkeiro, o Mr. Catra do funk, com muito orgulho. Além disso, empresário e promotor de eventos, gerador de trabalho remunerado pra moçada, direta e indiretamente (vendedores de cachorro-quente, churrasquinho de gato, outras comidas e bebidas, etc). Ah, e canta samba, e faz participações em disco dos Racionais e dos Raimundos. O cara é um liquidificador em pessoa. Faz muitos filhos também, tem doze, com sete mulheres diferentes. Esse é o mundo real. Um mundo que reúne até dois milhões de jovens (pretos e favelados) em cerca de 700 bailes por final de semana na cidade do Rio de Janeiro. Jovens que têm goteira em casa, quando têm telhado, experimentam a ausência de todos os serviços básicos, coisa que a classe média não poderia imaginar o que seja, e que, quando chega o final de semana, não querem falar sobre isto, demonstrar consciência social e política para regozijo nosso. Querem mesmo é colocar a calça apertadinha, no caso das meninas, e a bermuda larga, no caso dos meninos, rebolar bastante (os meninos destrancaram os quadris depois de findos os bailes de briga), soltar a voz e falar de sexo. Fazer sexo também, que ninguém é de ferro. Depois do baile voltam para a vida real. Vai vendo, como diz o pessoal da quebrada. A intenção do livro de Janaína foi “relatar como o funk tem sido criativo e persistente para sobreviver e derrubar preconceitos, apesar da mídia e a sociedade tentarem demonizá-lo e tornar seu público invisível (jovens negros, pobres e favelados). Mesmo sendo ele hiper visível nas ruas, nos pontos de ônibus, nas escolas, nas filas de emprego, nos sinais de trânsito” (p.10). Conseguiu. Numa analogia certeira e fundamentada, Janaína mostra como o samba e o funk sofreram perseguição da polícia quando ganharam notoriedade. Mas também, quais eram (são) os protagonistas de ambos? Nos surpreende com a informação de que mais gente do samba, além do contemporâneo e criativo Ivo Meireles da Mangueira, teve um caso de amor com o funk. Também era admirador do ritmo, o mítico Delegado, mestre-sala maior da verde-e-rosa e do carnaval brasileiro. Ele gostava de funk e chegou a dançá-lo. Dizia que era tudo a mesma coisa, samba e funk. Lembrei-me de Mestre Pastinha que afirmava ser Mestre Bimba (construído como seu principal opositor na concepção filosófica e gestual da Capoeira) tão angoleiro quanto ele. O lendário sambista Candeia também não escondia sua paixão pelo funk, mesmo tendo feito afirmações ideológico-musicais pró-samba em oposição ao funk, em atendimento a pressões do mercado fonográfico. O livro me ajudou a entender também, mais três ou quatro coisas fundamentais: historiou o processo de nacionalização do funk e de distensão com o Hip Hop, principalmente o de São Paulo, a partir do momento em que este incorpora ao seu discurso reivindicações do Movimento Negro e o funk, a seu turno, exacerba letras marcadas pelo escracho, duplo sentido e irreverência. Aprendi que os “bondes” (grupos de funkeiras e funkeiros que se apresentam e competem nos bailes) foram iniciados pelas mulheres, por Deize Tigrona, na Cidade de Deus, e que esses bondes tiveram papel fundamental para promover um modelo de baile no qual a violência foi substituída pela criatividade e pela sensualidade. Teve também papel definitivo nessa passagem da guerra à paz, a criminalização e conseqüente prisão dos promotores dos "bailes de briga" (donos de equipes de som). Os “bailes de briga” (Lado A/Lado B) foram exaustivamente mostrados pelo Globo Repórter da TV Globo, mas sem discutir a responsabilidade pela promoção da praça de guerra que em poucos anos ceifou a vida de dezenas de jovens e causou danos a centenas de outras. Pude entender as principais linhas políticas do funk (esta é a minha leitura politizada da coisa, a autora não adota a expressão): o funk irreverente, com duplo sentido; o funk consciente, com letras sociais e o “rap de contexto”, popularizado no asfalto como “proibidão”. Depois do fim dos bailes de corredor ou de briga, por volta de 1998, diz-nos Janaína que o funk consciente voltou a chamar a atenção da mídia de maneira negativa. “Suas letras faziam relatos de violência e convivência com o tráfico na realidade. E as melodias, muitas vezes, reproduziam o som dos tiroteios – constantes na favela e ouvidos pelos vizinhos do asfalto. Paralelamente, um pequeno segmento de funkeiros passou a produzir funks clandestinos dentro das comunidades, cujas letras exaltam traficantes locais e ridicularizam a corporação policial. Conhecidos como 'raps de contexto', eles têm autoria sempre clandestina e só tocam dentro dos chamados bailes de comunidade. Não demorou até que a imprensa tomasse conhecimento desse filão e o apelidasse de ‘proibidão’. Em pouco tempo, a mídia e a opinião pública puseram o funk consciente e os proibidões no mesmo saco. Isso só contribuiu para reforçar o preconceito contra o funk e o distanciar cada vez mais do reconhecimento como movimento cultural” (pp. 69 e 70). Para se defender das acusações de apologia ao crime, Mr. Catra afrima que: “Ninguém está incitando ninguém. Ninguém vira bandido por causa do funk. O funk é uma crônica. Junto com muito suingue, muita pancada, muita dança, muito suor. O que acontece é que as pessoas ainda não se acostumaram a conviver com a realidade dos outros, tá ligado?”

17 de jan de 2009

Edições Toró no ar

www.edicoestoro.net "São 21 programas de rádio sobre poesia e literatura africana, nordestina, sulamericana, negra e suburbana. Cada um com vinte minutos. Mais uns pedaços grandes dos 15 livros já publicados pelo selo Toró. Mais uma fieira de vídeos, que aumentará".

Ilu Obá 2009

Temática LGBT ausente dos livros didáticos

(Deu no Estadão, 15/01/09). "Os livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação (MEC) às escolas públicas ignoram a homossexualidade. É o que evidencia pesquisa da ONG Anis em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), financiada pelo Programa Nacional DST/AIDS do Ministério da Saúde e realizada nos últimos dois anos com 61 dos 98 livros didáticos de maior distribuição no ensino fundamental e médio. A pesquisa analisou também 24 dicionários distribuídos pelo MEC. Um deles usa as expressões "veado" e "pederasta" para definir o verbete GAY. Segundo a professora da UnB e coordenadora da pesquisa, Débora Diniz, o diagnóstico comprova a necessidade de uma política pública para a inserção do tema nos livros. "É preciso cuidar da diversidade educacional do País porque há muitas escolas onde o livro didático representa a centralidade do instrumento didático." A pesquisadora Tatiana Lionço, que participou do estudo, diz que apesar de o silêncio dos livros não poder ser caracterizado como homofobia, a ausência do tema reforça a orientação heterossexual como o único modelo na realidade apresentada aos alunos. "Não há um edital que oriente as editoras a falar sobre homossexualidade, o que contribui para o silêncio." Alexandre Santos, presidente da Associação da Parada de Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) - que conta com um grupo de pais que debatem temas como a ausência da homossexualidade na educação - diz que os dados da pesquisa são confirmados na realidade. "Minha filha hoje está no ensino médio e além de os livros não tratarem a homossexualidade, enfrentamos o preconceito dos professores que não são preparados para lidar com o tema." O MEC informou, por meio de assessoria de imprensa, que não teve acesso à pesquisa, mas reiterou que o Programa Nacional do Livro Didático é executado pela Secretaria de Educação Básica (SEB) e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, cabendo à SEB definir os critérios pelos quais as obras inscritas serão selecionadas, bem como coordenar o processo de avaliação pedagógica, realizado em parceria com universidades públicas. O ministério informou que não há regulamentações de educação sobre o tema homossexualidade, por isso a preocupação dos avaliadores é ver se não há preconceito. Os dicionários são avaliados da mesma forma que os livros didáticos, apenas com periodicidade diferente".

16 de jan de 2009

(Fonte: Paladar de palavra).

"Mostra que Mostra", em Contagem, MG

(Texto de divulgação). "Será realizado do dia 18 a 25 de janeiro em Contagem, o evento cultural "Mostra que Mostra". A mostra terá como atrações: teatro, circo, música e literatura. Também será realizado um seminário com o tema "Políticas Públicas de Cultura", em que será discutida a implantação de uma Lei de Fomento ou incentivo à cultura para o município de Contagem, que carece de iniciativas públicas incentivadoras. Além de todas atrações e discussões, a mostra também terá "o Ateliê do Encontro", bar aberto para intervenções artísticas e muita descontração. Esse evento é uma realização independente da Cia.Crônica em parceria com a Orabolas (design e comunicação) e a Coletivoz (Sarau de poesia), todas as atrações serão gratuitas já que, o objetivo é reforçar a cultura no Estado. Essa iniciativa tem como objetivo difundir a cultura, pois através de instrumentos como a arte poderemos aguçar o senso crítico da sociedade diante das injustiças. Em primeiro lugar o projeto “Mostra que Mostra” tem como objetivo, em sua primeira edição, INAUGURAR as ações da Cia. Crônica de Teatro. Inaugurar ainda o que toma-se a liberdade de chamar de “o teatro Crônico”; o fazer teatral crônico de ações, advindo de uma vivência calcada nos obstáculos que a cultura popular encontra para se destacar a partir de sua raiz. Estamos falando de uma produção cultural que tem a “margem” como referência: as grandes periferias do Brasil, seja o nordeste como periferia do Brasil, seja Contagem como periferia de BH e assim por diante. Além disso, a “Mostra que Mostra” é um evento Cultural que parte do principio básico proposto pela Cia. Crônica: o “encontro”, percebendo-o como ponto de interação fundamental para o desenvolvimento cênico/artístico, no sentido de realizar a comunicação e a interação direta com o público. Em segundo lugar, o projeto traz uma discussão sobre urgência de promover projetos culturais permanentes na cidade de Contagem no intuito de potencializar e estimular a ocupação do que chamamos de “espaços de referência”, para a pesquisa teatral e cultural: espaços públicos, tais como ruas, praças e parques. A proposta do projeto é a de realizar uma “Mostra” anualmente na cidade de Contagem sempre priorizando a comunicação com população e a formação, seja ela de público, do artista ou até mesmo dos espaços para referência cultural na cidade. Deste modo, visa se estabelecer a formação do artista, do público e de seu pensamento crítico. Em tais encontros serão realizados encontros de discussões, palestras, seminários, oficinas e ações especificas nas sedes de grupos da cidade, além de atrações como: música, dança, teatro, poesia, circo, cinema e etc. Buscando assim mais caminhos para a formação artística, com o intuito de estimular novas pesquisas e de criar espaços de experimentação. Pensa-se, para a continuidade do projeto, criar uma “mostra escola”, na intenção que os grupos das escolas da cidade tenham também um espaço para mostrar seus trabalhos, nesse primeiro momento esse espaço se da no Ateliê do Encontro. Assim, o projeto “Mostra que Mostra” pretende ser um momento de encontro, troca de pensamentos e construção de novos caminhos a serem percorridos, em busca de uma cultura cada vez mais popular e acessível a todos. Pretende ser um momento para reflexão sobre as políticas culturais da cidade, de ter um olhar sobre a produção cultural e também de ser um espaço construído a cada ano a partir das discussões. A mostra vem para somar aos outros movimentos já existentes na cidade, como o “Festival Nocional de Teatro” realizado pela Fetemig – Federação de Teatro de Minas Gerais, dentre outros como a “Roda de Palhaços” realizada pelo Teatro Terceira Margem". Equipe da Mostra: Concepção e Coordenação Geral: Jessé Duarte. Coordenação de Produção e Seminário: Rogerio Coelho. Coordenação do Ateliê do Encontro: João Carlos. Equipe do Ateliê do encontro: Vanessa Daniele, Lucas Pradino, Andersom e Lucas Urso. Coordenação da Equipe de Apoio: Kaká Araújo. Equipe de Apoio: Aline Magalhães, Kdu dos Anjos e João Carlos. Fotografia e vídeos: Aline Magalhães e Kaká Araújo. Assessoria de Comunicação,criação gráfica e design: Kaká Araújo. Produção e Realização: Cia. Crônica de Teatro. Endereços: Praça da Gloria: Rua dos Ingás, Eldorado (ao lado Big Shopping). Parque Ecológico do Eldorado: Rua das Paineiras, 1.722 – Eldorado (próximo ao Big Shopping). Ateliê psicodélandia: Rua Monsenhor Bicalho, 263 – Eldorado (Rua Paralela a Avenida José Faria da Rocha, altura do cruzamento com Avenida João César). Acesse: http://www.ciacronica.blogspot.com/ www.coletivoz.blogspot.com

15 de jan de 2009

Revista Roda - arte e cultura do atlântico negro

Recebi das mãos do editor e amigo Ricardo Aleixo, os números 5 (novembro/2007) e 6 (novembro/2008)da revista Roda - arte e cultura do atlântico negro, publicada pela Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. O trabalho gráfico e de edição artística, é, como de praxe, impecável, além de belo. A chegada de Janaina Cunha Melo à editoria adjunta da revista, também fez crescer o projeto. Entretanto, pareceu-me haver uma diferença substantiva entre os números 5 e 6, sendo o último, mais coeso. Talvez isto se deva à qualidade ímpar do homenageado, o poeta Sebastião Nunes, que surpreende e desconcerta com suas ideias e tiradas, imagens e poemas. Não sei. Sei que vale a pena ler e, quem sabe, comparar os dois números e verificar se o que digo tem algum fundamento.

Tenso equilíbrio na dança da sociedade

Lia o "Tenso equilíbrio na dança da sociedade" (Oragnização de Carmute Campelo, Sesc, 2005)na casa de um amigo que o utilizava para a dissertação de mestrado, precisei fazê-lo rapidamente. Escolhi quatro artigos: "Palavrarmas", do Ferréz; "Toma lá, dá cá", do Paulo Lins; "Caminhos das cidades", do Ivaldo Bertazzo e "A África encontra a América em São Paulo", do Anani Dzidzienyo, dentre os especialistas em antropologia, urbanismo e políticas públicas que escreveram. Os textos do livro constituem múltiplas abordagens do trabalho de dança desenvolvido por Ivaldo Bertazzo com garotas e garotos talentosos, moradores das periferias de São Paulo, no projeto "Dança Comunidade". Há também belíssimas fotos das várias etapas do projeto. Valmir Santos, na Folha de São Paulo, às vésperas da estréia do espetáculo em 2006, asseverou que: "Passo a passo, o coreógrafo Ivaldo Bertazzo constrói uma identidade possível para um teatro musical brasileiro mais original na incorporação da dança e da música. Desde o início da década, ele monta espetáculos corais que incluem estudantes das periferias de São Paulo e Rio de Janeiro. A partir de "Samwaad - Rua do Encontro" (2004), o projeto ganhou status de grupo, o Dança Comunidade, berço para profissionalização de jovens entre 14 e 29 anos. Eles podem enveredar pelo fazer artístico ou pelo trabalho social, por exemplo, o futuro dirá. Por enquanto, dançam para a pré-estréia nacional de "Milágrimas", na próxima quinta-feira, no teatro do Sesc Pinheiros em São Paulo. No palco, 41 dançarinos-cidadãos vinculados a sete ONGs (organizações não-governamentais) dos extremos da cidade. Fazem a travessia de uma ponte que os levam à cultura popular da África do Sul, por meio do canto e da dança. No mesmo caminho, com atalhos outros, o grupo chegou à Índia em "Samwaad". Não dá para pisar o continente africano sem falar de exclusão, com a qual o Brasil também se alinha. "Ouso dizer que a idéia desse trabalho é fazer a contaminação cultural do lado de lá, na periferia", diz Bertazzo, 56. Ao lidar com suas carências, afirma, os estudantes se revelam "soberbos em sua existência fresca, capazes de transformar qualquer coisa em algo imediatamente criativo". Bertazzo vê no jogo de cintura e deslocamento natural desses adolescentes pela cidade (trem, metrô, ônibus, a pé) potencial para ir mais longe. Daí o grau de exigência e aperfeiçoamento a cada novo espetáculo. Nos primeiros ensaios de "Samwaad", diz o coreógrafo, seus corpos comunicavam insegurança quanto à capacidade de se expressar diante do público. As amarras e as travas musculares foram diluídas aos poucos. "Isso era natural para quem tinha dúvida até em sair de casa para passear com os amigos na avenida Paulista, por causa do apartheid social monstruoso em que vivemos", diz Bertazzo. Agora, a identificação é mais direta em se tratando da cultura africana. "Milágrimas" quer transcender estereótipos de uma inclusão da periferia fixada na batida perfeita da lata. Quer ampliar o trânsito para além da base percussiva". Confesso que esperava mais dos textos escolhidos, o do Ferréz, achei burocrático; do Paulo Lins aguardava o brilho habitual do pensamento sensível e fiquei querendo mais; do Bertazzo tinha a expectativa de uma análise mais profunda da situação socio-econômica brasileira refletida na precariedade de acesso da maior parte da população aos bens culturais produzidos e à possibilidade de produzi-los, com qualidade e tecnologias adequadas. Só o artigo do Anani me tirou da letargia. Anani Dzidzienyo, um pensador e acadêmico africano (ganense) radicado nos EUA, é o primeiro afro-brasilianista de que temos notícias. Publica estudos sobre as questões raciais no Brasil desde 1970 (International Minority Rights Group, Inglaterra)e já orientou dezenas de estudantes universitários, em todos os níveis, sobre a temática. o artigo é objetivo, quase seco na análise das relações culturais entre o Brasil (negro e branco)e o continente africano, muito bom. Não posso comentar os demais artigos, por não tê-los lido, mas asseguro que, belo, o livro é. Tomara que os outros textos tenham dado conta das pretensões do título da obra.

Primeiro lançamento da Toró em 2009

14 de jan de 2009

Faculdades do ProUni dominam a lista das piores

(Fonte: JB on line de 11/01/09) "Setenta e seis instituições particulares que estão na lista dos 96 cursos superiores que obtiveram nota um, a menor possível, no último Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), participam do Programa Universidade para Todos (ProUni) oferecendo bolsas de estudos. Criado há quatro anos, o programa oferece bolsa integral para alunos cuja renda familiar per capita não ultrapasse R$ 622, e bolsas de 50% e 25% para alunos cuja renda familiar per capita não ultrapasse três salários mínimos. As instituições que aderem ao ProUni ficam livres do pagamento de quatro impostos: o Imposto de Renda de Pessoas Jurídica, a Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSSL), o PIS e o Cofins. A estimativa da Receita Federal é que a renúncia fiscal em 2007 chegou a quantia de R$ 126 milhões, metade do que deixou de ser arrecadado pelo Estado por causa da isenção do programa em 2006, R$ 264 milhões. Seleção rigorosa Especialistas em educação e integrantes de movimentos pelo acesso ao ensino não têm dúvidas que a criação do programa foi um avanço para a sociedade brasileira, mas acreditam que o governo deveria ser mais rigoroso e parar de financiar cursos de baixa qualidade. "Quase 60 mil alunos que não teriam condições de fazer curso superior já se formaram por causa do programa", afirma o coordenador do Movimento Sem Universidade, Sérgio Custódio. "Mas esse levantamento mostra a necessidade do MEC conceder bolsas apenas para cursos qualificados. Caso contrário, perdem todos. Os alunos que se formam nessas instituições e o Estado que desperdiçou recursos públicos." Custódio defende, também, que os alunos tenham acesso já na inscrição do ProUni às avaliações do curso que deseja ingressar. Para a professora da Universidade de Brasília (UnB) e conselheira do Conselho Nacional de Educação, Regina Vinhais, o governo deve manter bolsas em faculdades que ofereçam o mínimo de qualidade. Logo, instituições com notas 1 e 2 deveriam ser excluídas do programa. A secretária de Ensino Superior do MEC, Maria Paula Dallari, explica que a instituição só pode ser descredenciada depois de dois resultados insatisfatórios no Enade. Mas cada curso é avaliado a cada três anos. O problema é que até a reavaliação, outros alunos podem ingressar em cursos de baixa qualidade. "É errado imaginar que o MEC está esperando as reavaliações de braços cruzados", afirma a secretária. "É nossa obrigação melhorar os cursos para bolsistas e não-bolsistas. Já aplicamos sanções nos cursos de Direito, Pedagogia e Medicina. Não é um processo fácil porque temos 25 mil cursos".

A dança das editoras de quadrinhos no Brasil

(Por: Claudinei Vieira. Para acessar todo o artigo vá ao blogue do autor). "Quem não acompanhou as notícias dos últimos meses do mercado editorial de quadrinhos no Brasil está perdendo uma história emocionante, com vários lances de suspense, reviravoltas, esperanças frustradas, esperanças renovadas, quedas e novidades. O tom das notícias em sua maioria é de desânimo e ceticismo, não se enxerga futuro promissor. Eu não sei. É até engraçado eu dizer isso, pois meu normal é de ceticismo tremendo (em geral e com tudo). No entanto, apesar das expectativas ainda serem vagas e nebulosas, penso que o que está se abrindo são possibilidades interessantes que, se aproveitadas e melhor pensadas e trabalhadas, talvez signifiquem uma real mundança em nossa relação com os quadrinhos neste país. No mínimo, a consciência da necessidade (vou repetir, com maiúscula e aspas: “Necessidade”) dessa mudança. Ou, quem sabe, estas possibilidades não existam e eu esteja somente entusiasmado (ansioso, afobado, quase desesperado com a espera) com algumas publicações prometidas para daqui a pouco. Como disse, as notícias não são novas, mas só para situar a conversa: da Pixel saiu no final do ano passado um editor-chefe, Cassius Medauar, sob cuja gestão houve vários lançamentos importantes, a venda da editora para a Ediouro, e a conquista do prêmio HQMix, o ‘Nobel’ dos quadrinhos no Brasil, de Melhor Editora do ano passado. A saída foi confusa, e em sua carta de despedida publicada no blog da editora, anunciava discordâncias com uma suposta mudança de pensamento editorial. Apesar do desconforto, Medauar continuaria trabalhando com a Pixel, agora como uma espécie de assessor. A editora soltou um comunicado pela sua comunidade do orkut, dizendo que não haverá mudanças significativas (só teriam acontecido algumas “ações administrativas”), os lançamentos serão mantidos, e a linha de qualidade garantida. Apesar da tentativa de acalmar os ânimos, a carta é vaga, não confirma datas nem especifica os lançamentos para os próximos dias, e como bem enfatiza Paulo Ramos, em seu Blog dos Quadrinhos não foi publicada ainda nem no “site da editora nem no blog da Pixel, canais oficiais de divulgação da empresa na internet“. E o “Fábulas Pixel”, uma de suas revistas mensais, não saiu em dezembro“… A Conrad, que lançou ano passado dois portentos poderosos, ‘Chibata! - João Candido e a Revolta Que Abalou o Brasil’, de Hemeteiro e Olinto Gadelha, e o clássico finalmente editado no Brasil ‘Che - Os Últimos Dias de um Herói’, do escritor Oesterheldde e dos desenhistas Alberto e Enrique Breccia, vem diminuindo paulatinamente o ritmo de suas edições (várias estão atrasadas), está há meses negociando sua venda para alguma editora grande para mitigar um tanto de seus problemas financeiros. As conversas com a Ediouro não deram certo, agora estão tentando com a Companhia Editora Nacional. Por enquanto, ninguém diz como estão as negociações, o que só aumenta as incertezas. Vamos ver o que acontece (...) A Companhia das Letras assumiu um selo dedicado aos quadrinhos. É uma grande notícia, por certo! Assumem uma tendência que a editora já vinha tomando há algum tempo quando publicou, de forma esparsa, algumas obras fundamentais e belíssimas, como ‘Maus’ e ‘Persépolis’, mais recentemente a coleção completa do ‘Tintim’. O novo selo, Quadrinhos na Cia, apesar no nome bobo, publicará também autores nacionais, com alguns projetos muitíssimo interessantes (a ideia é de fomentar trabalhos com duplas nacionais, em parceria com a RT/Features; o primeiro já está definido: ‘Cachalote’, do escritor Daniel Galera e o desenhista Rafael Coutinho), e encaminhou uma lista de lançamentos importantes para este ano, como ‘Bottomless Belly Button’, de Dash Shaw; ’Jimmy Corrigan: the smartest kid on Earth’, de Chris Ware, e este aqui, uma das obras mais espetaculares dos últimos tempos, um romance gráfico magnifico, poético e surpreendente, ‘Blankets’, de Craig Thompson (o qual falarei com prazer e mais detalhes, mais pra frente). Caso minhas expectativas estejam corretas, a formação de um selo dedicado exclusivamente para quadrinhos por parte da Companhia das Letras pode significar muito mais do que à primeira vista pode parecer. Através de um pragmatismo pleno que foi se maturando ao longo dos anos (além das obras que já citei anteriormente, não nos esqueçamos das obras de Eisner!, por exemplo!) e trazendo a carga de seriedade que a editora carrega, há possibilidade de, afinal, no Brasil se formatar o pensamento das novelas gráficas como obras de arte, Desde que como projeto editorial consumado. Isto é, não somente como obras únicas e independentes. Não somente como exceções. Não somente como opções interessantes (ou até muito interessantes), e que se colocavam como representantes de um ramo um tanto ou quanto bizarro (quadrinhos!), embora não ’sérias’. Novelas gráficas encaradas como uma verdadeira linha editorial e colocadas no mesmo patamar de obras de literatura (as tais realmente ’sérias’!). Ter um selo desses, proveniente de uma editora do porte da Companhia das Letras tem o mesmo valor e o mesmo peso, em termos nacionais (e guardadas as devidas proporções, por favor) de obras de novelas gráficas nos Estados Unidos ganharem prêmios literários como o Guardian First Book Award ou até de jornalismo como o Pulitzer. Isso é um começo (um mero início) de que pode-se mudar o conceito e a recepção das obras de novelas gráficas, como nunca antes. Não acontece de forma casual. Não houve uma iluminação zen-budista nos editores da Companhia. Tudo isso faz parte do mesmo movimento e de uma intensíssima agitação em terras brasileiras. A Opera Graphic deixar de funcionar também faz parte da equação. Talvez se preocupar menos com o elevado e desproporcional luxo das edições em um país onde a quantidade de leitores é irrisória e a porcentagem dos que se dedicam a separar uma parte de seu dinheiro para novelas gráficas é ainda menor, quem sabe seja somente uma questão de bom senso. Espero não dar a impressão de detestar livros e edições luxuosamente encadernados e com primorosa (e custosas) publicações. Não sou nada contra. É maravilho tê-los em mãos. Eu só gostaria de maiores oportunidades de conseguir alguns. Claro que questão do preço também se relaciona com o respeito com os leitores (e com a possibilidade de se vender os exemplares, oras…). No ano passado, logo após o anúncio da criação do selo Quadrinhos na Companhia, o blog especializado em quadrinhos Gibizada perguntou a André Conti, editor responsável pelo Quadrinhos na Companhia, exatamente sobre isso: “Blankets” e “Jimmy Corrigan” (e “American Born Chinese”) serão publicados em edições únicas? Será possível publicar “Blankets” em uma edição não muito cara, já que o livro tem 600 páginas? André Conti: Os três livros serão publicados em volume único, e não devem passar dos R$ 50, o preço médio de um romance grande. Esses valores ainda não estão fechados, mas estamos trabalhando com essa margem.” Claro, cinquenta reais (caso seja mantida essa média) não é um preço barato, mas ainda assim está-se bem longe do que era praticado pela Opera Graphic. No entanto, o que mais gostei foi a comparação com ‘romances’, usado como exemplo para a avaliação. E, claro também, há que se pensar como isso vai realmente vai se efetivar, o que vai acontecer na prática. Quem viver, verá. E lerá".

13 de jan de 2009

Zagaia, de Allan da Rosa

Zagaia (Difusão Cultural do Livro, 2007) é a obra mais recente do prolífico Allan da Rosa. Logo na dedicatória, o autor alerta a que veio: “dedico este trampo pra juventude do Jabaquara, Americanópolis e Divisa Diadema. A quem muitas vezes só resta sela de cavalo xucro, escolas destroçadas, antenas mascaradas podres e degraus de um escadão da vida cheio de musgo e rachaduras. Mas que há de se organizar no levante, concentrar na vocação e fertilizar felicidade”. Mas, não nos enganemos, a dureza anunciada não espanta a poesia, ao contrário, a poesia de Zagaia revelará diamantes no cascalho. As ilustrações do Marcelo D’Salete são bonitas, bem feitas, mas tímidas e literais, pouco se soltam. Mesmo que sejam contundentes as imagens da falta de opção imposta aos que moram às margens do mundo – o hipnotismo exercido pela TV é a mais emblemática delas -, as ilustrações parecem repetir o texto, pouco surpreendem ou subvertem, faltou um pouquinho de asa. O menino Zagaia, em suas andanças pelo mundo, viu “criança sem umbigo” e só este verso sintetiza tratados e mais tratados sobre a falta. “Até serena nostalgia / Virar vermelho arrepio / Um pinote de agonia / Lhe assombrar o desafio / Mestre-sala sem bandeira / Sentiu peçonhento vazio”. São sextilhas as estrofes deste cordel romanesco, um trabalho de linguagem meticuloso feito pelo poeta. O próprio glossário, organizado por ele, é mais uma história contada com o requinte lingüístico da quebrada: “Zagaia é um romance versado, escrito e frutificado na tradição do cordel brasileiro. Trata das andanças de um jovem da periferia paulistana chegado do Norte de Minas com a família, vivente de sonhos dissolvidos nos corguinhos, dos apertos futucados pelos espinhos dos eternos trabalhos de emergência, recebendo merreca e convivendo com humilhações, ressecantes da alma (...) Taí a estória rimada e trançada nas realidades nossas, ardidas em nós moradores da sobrevivência. História ventada de fantasia, essa cor que move nossas paisagens secas e ajuda a organizar o tempo, botar pé e passo pras perspectivas”. E pensar que um grupo importante perdeu a chance de publicar “Zagaia” por entender que o formato cordel descaracteriza a literatura negra. Há mesmo ignorância para todos os gostos. O glossário avisa ainda que “o termo Zagaia nasceu na região onde é hoje o país do Congo. Significa “faca de ponta” ou “lança”, é instrumento de caça e de revide. Nalgumas ocasiões, espingardas escravistas foram combatidas com as zagaias afiadas, arremessadas ou de espetar de perto. Ainda hoje, no Nordeste do Brasil ou até mesmo nas periferias paulistanas e cariocas, em feiras, presídios e em turnos operários de linhas de produção, nas bocas do subúrbio zagaia significa faca artesanal”. Esbarro na falta de recursos teóricos para analisar a complexa sintaxe de Allan da Rosa, restam-me olhos atentos à sua poesia transbordante de dendê, cheiro de rosa, gosto de jiló e pimenta. Tal qual o mantra de Paulinho da Viola, aconselho: bebadosamba, bebadachama (de Allan da Rosa).

12 de jan de 2009

"Sobre as impurezas do branco"

A propósito do artigo abaixo, de autoria de Ives G. Martins, Sérgio São Bernardo, diretor do Instituto Pedra de Raio - Justiça Cidadã, escreveu um poema para o jurista, "As impurezas do branco". A luta racial recrudecerá ainda mais, não temos dúvidas, pois, pela primeira vez na História do Brasil (podem galhofar, não tenho problemas em usar uma expressão imortalizada pelo Presidente Lula), os donos do poder tremem e demontram temor, pois sentem os privilégios de seus netos e bisnetos ameaçados. Dos mais raivosos e insandecidos aos lobos em pele de cordeiro, todos saem da tumba, berram, esperneiam e atacam lastreados pelo stablisment. Acostumados(as) à guerra, não tememos, nem trememos, estamos prontos(as)! ("Tenha medo - você é branco!" por *Ives Gandra Martins). "Hoje, tenho eu a impressão de que o "cidadão comum e branco" é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afro descendentes, homossexuais ou se auto declarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos. Assim é que, se um branco, um índio e um afro descendente tiverem a mesma nota em um vestibular, pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior. Os índios, que, pela Constituição (art. 231), só deveriam ter direito às terras que ocupassem em 5 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado. Menos de meio milhão de índios brasileiros - não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também - passaram a ser donos de 15% do território nacional, enquanto os outros 185 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% dele.. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados. Aos 'quilombolas', que deveriam ser apenas os descendentes dos participantes de quilombos, e não os afro descendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito. Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Roussef o direito de ter um congresso financiado por dinheiro público, para realçar as suas tendências - algo que um cidadão comum jamais conseguiria! Os invasores de terras, que violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que o governo considera, mais que legítima, meritória a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse 'privilégio', porque cumpre a lei. Desertores, assaltantes de bancos e assassinos, que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para 'ressarcir' aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo ou se disseram perseguidos. E são tantas as discriminações, que é de perguntar: de que vale o inciso IV do art. 3º da Lei Suprema? Como modesto advogado, cidadão comum e branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço, nesta terra de castas e privilégios". ( *Ives Gandra da Silva Martins é renomado professor emérito das universidades Mackenzie e UNIFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército e presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo ). (“**As impurezas do branco” - para Ives Gandra da Silva Martins, por ***Sérgio São Bernardo). "Não tenha medo Ives./ O mundo está mudando e, com ele, suas certezas./ Ainda não dissemos que perderá suas redomas e brasões./ A alegria de seu mundo esvai-se/ Na continência de uma verdade que nos separa por vírgulas/ Não tenha medo de ser branco, Ives!/ Tenha antes a presunção de que ainda encontraremos,/ na encruzilhada,/ O sentido da existência das cores.../ Entre linhas curvas e impuras,/ Entre um longo e sórdido conto repetido/ Verá anunciada a negrura do branco/ Ives, você conhece o parágrafo segundo do artigo quinto da Constituição Federal? Diz o inverso do que diz o inciso quarto do artigo terceiro da mesma constituição... E aí, Ives? Que faremos? Faremos uma guerra civil? Uma Intifada? Um congresso nacional de brancos desterrados? Proibiremos pretos, índios, prostitutas e homossexuais de lutarem por direitos - ou, em plena crise, você guardará mais dinheiro para garantir aquela gorda previdência para seu filho e fugir para o pais de Obama? Ensinaram-lhe errado, Ives! E você, ensina errado a seus filhos! Pretos e indígenas não ocupam espaços de branco / Preto é presença de luz e branco é ausência de luz / apenas refletindo quem nela se projeta... / Não lhe disseram que as montanhas do oeste anunciam o povo que passará dos mundos subterrâneos para a luz branca e escarnecida da negrura do sol? Inventaram o preto / Inventaram a raça / Inventaram o branco / E inventaram a pureza, Ives! – Ives, a pureza não existe,/ Existe a lama da alma escancarando vida e luz / Inventaram as cotas e com elas disseram que os brancos não teriam mais poder para guardar para seus filhos nos próximos mil anos e você, Ives, desesperado, derrubou o café na mesa e disse: chega!! O que os meus construíram nos séculos não será destruído por portarias de universidades, nem por batuque de tambor. Então, Ives – tenha cuidado, não tenha medo! / Por ser brasileiro / Por ser professor / Por ser racista / Por ser rico / Por entender que chegou aonde chegou sem nenhum pretinho igualzinho a você / Que o incomodasse / Por não sentir remorso por escrever coisas que não interessam a milhões de brasileiros. Você não se envergonha de ter constituído uma riqueza à custa de uma sociedade injusta e miserável na qual, provavelmente, uma letra de seu enfadonho repertório de uma dogmática jurídica hipócrita custa milhões de casas para milhões de brasileiros brancos e pobres iguais a voce? O que importa saber, Ives? Você sabe o que é fundo de pasto, codó, carangondé? Então, nem me venha com essa tolice que o tributo que pagamos não pode ser vinculado aos gastos com política públicas. Daqui a alguns instantes - teremos mais pretos doutores e os brancos que inventaram o mundo chamarão os pretos, os índios, as putas e as bichas de donas do mundo, do dinheiro, das terras, das vagas nas universidades, da alegria, da vida e da morte! É simples! Como você tem mudado de posição ao longo de sua vida – sempre em volta de quem está com o poder instituído – declare-se preto Ives, e terá acesso a cotas – caso o seu amigo branco e a revista Veja não o denuncie no cartório de títulos e registro públicos. Como você parece não ter lido Heller e seus duplos padrões de justiça, Olhe os Oxés e veja se você vê os olhos que vêem. Como é um "intérprete autorizado", autorize as pessoas que lhe seguem os passos a entender mais de codó, de carangodé e de fundo de pasto... . Por isso, branco não é pureza, nem essência, nem permanência Branco é a celebração da morte que sempre vem... Obrigado, Ives! Por existir e existindo me fazer lembrar Drummond"! ( **Título homônimo do poema de Carlos Drummond de Andrade (1958); ***Sérgio São Bernardo é advogado e diretor do Instituto Pedra de Raio - justiça cidadã). (As impurezas do branco - Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco, 4a. ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1978 p. 20-2.) O homem: as viagens / O homem, bicho da Terra tão pequeno / chateia-se na Terra / lugar de muita miséria e pouca diversão,/ faz um foguete, uma cápsula, um módulo/ toca para a Lua/ desce cauteloso na Lua/ pisa na Lua/ planta bandeirola na Lua/ experimenta a Lua/ coloniza a Lua/ civiliza a Lua/ humaniza a Lua./ Lua humanizada: tão igual à Terra./ O homem chateia-se na Lua./ Vamos para Marte - ordena a suas máquinas./ Elas obedecem, o homem desce em Marte/ pisa em Marte/ experimenta/ coloniza/ civiliza/ humaniza Marte com engenho e arte./ Marte humanizado, que lugar quadrado./ Vamos a outra parte?/ Claro - diz o engenho/ sofisticado e dócil./ Vamos a Vênus./ O homem põe o pé em Vênus,/ vê o visto - é isto?/ idem/ idem/ idem./ O homem funde a cuca se não for a Júpiter/ proclamar justiça junto com injustiça/ repetir a fossa/ repetir o inquieto/ repetitório./ Outros planetas restam para outras colônias./ O espaço todo vira Terra-a-terra./ O homem chega ao Sol ou dá uma volta/ só para tever?/ Não-vê que ele inventa/ roupa insiderável de viver no Sol./ Pôe o pé e:/ mas que chato é o Sol, falso touro/ espanhol domado./ Restam outros sistemas fora/ do solar a colonizar./ Ao acabarem todos/ só resta ao homem (estará equipado?)/ a dificílima dangerosíssima viagem/ de si a si mesmo:/ pôr o pé no chão do seu coração/ experimentar/ colonizar/ civilizar/ humanizar/ o homem/ descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas/ a perene, insuspeitada alegria/ de com-viver.

Sarau Afro Mix, dias 13 e 15/01, em São Paulo

(Texto de divulgação): " Se você mora em São Paulo, queremos convidar você, familiares e amigos para participar do Sarau Afro Mix. Minipalestras: - A Poesia Afro e o Rap; Atualidade de Lima Barreto e O 13 de maio e a poesia afro-brasileira. Participações: Joyce Cavalcanti, Sergio Ballouk, Tico de Souza, Esmeralda Ribeiro, Helton Fesan e Márcio Barbosa. Haverá também a participação especial da cantora Lia Jones, do rapper Raphão Alaafin e de Cosme Nascimento na percussão. Haverá uma roda de poemas. Leve seus textos. Alguns poemas serão selecionados para fazer parte de um livreto. Datas: 13 de janeiro de 2009, das 16h às 18h. Local: CEU Caminho do Mar, na Av. Eng. Armando de Arruda Pereira, 5.241 – Jabaquara. Entrada Franca. 15 de janeiro de 2009, das 19h às 21h. Local: Casa de Cultura da Penha, Largo do Rosário, 20 – 3º andar. Entrada Franca. O objetivo do Sarau é refletir sobre os 120 anos de assinatura da lei áurea a partir do ponto de vista da literatura afro. O que mudou? Quais as perspectivas hoje? Como isso se reflete na poesia? É inegável que a poesia negra, que pode ser expressa de forma escrita, em livro, por exemplo, mas também no canto, como no rap, desempenha o papel de levar à reflexão, de estimular a ver o mundo com um outro olhar, a ver de forma nem melhor, nem pior, mas diferente. A literatura, assim como o hip hop e os blocos afros, tem procurado, nos últimos trinta anos, usar a tradição para fazer uma leitura do mundo moderno. Já a roda de poemas é um espaço aberto para a leitura/declamação de poesias, seja sobre quais temas forem. O importante é que a poesia transmita emoção. As primeiras edições do Sarau Afro Mix ocorreram em 2002, na Biblioteca Mário de Andrade, centro de Sampa. A participação é aberta, mas quem se inscrever até 12/01 pelo site www.quilombhoje.com.br vai ter direito a um certificado".

11 de jan de 2009

Mulheres da comunidade judaica manifestam-se na Embaixada de Israel (Canadá) em protesto contra os ataques genocidas em Gaza

(Fonte: Agências Aporrea). "Canadá, 8 de enero de 2009.- Un grupo de mujeres judías entraron el día de ayer al fuertemente custodiado consulado de Israel en Toronto y procedieron a realizar una protesta pacífica en contra de la masacre del estado hebrero en contra del pueblo palestino. "Israel pretende representar a todos los judíos del mundo, pero esas atricidades no son cometidas en nuestro nombre" aseguró la cineasta Cathy Gulkin, una de las manifestantes. "Hacemos un llamado a todos los judíos a no quedarse callados ante esta masacre y demandar que Israel detenga el bombardeo, salga de Gaza y haga una paz con justicia para los palestinos" agregó la académica y comentadora política Judy Rebick El grupo, que incluía intelectuales, académicos, estudiantes y pacifistas, fue arrestado y posteriormente liberado. "Hay muchos judíos en Canadá, USA, Europa e Israel que estamos avergonzados, que no quieremos que esta masacre se lleve acabo en su nuestro nombre" concluyó la Prof. Rebick. En otras partes del mundo, incluyendo Israel, y Nueva York, judíos han levantado su voz de indignación en contra de la brutalidad de la operación militar Israelí". (Fonte: Europa Press - Pacifistas israelíes exigen fin de la "masacre" y retirada de los soldados). "La influyente organización pacifista israelí Gush Shalom ha convocado una manifestación en Tel Aviv "contra la locura" en la Franja de Gaza y para reclamar el "fin de la masacre" y de los "crímenes de guerra", así como la retirada de los soldados israelíes de la región, según se lee en su página de Internet. La manifestación ha sido convocada para "poner fin" a la "masacre", el "derramiento de sangre", la "destrucción" y los "crímenes de guerra" y para conseguir "la retirada de los soldados" de la Franja de Gaza, así como para acabar con el bloqueo y reclamar la apertura de los pasos fronterizos. Según la organización, presidida por el ex militar y escritor Uri Avnery, "esta guerra es inhumana e innecesaria" y "no puede traer nada bueno a Israel". "La muerte de cientos de palestinos y la destrucción de las infraestructuras vitales en la Franja de Gaza son actos abomibles", aseveró. Ya el pasado 3 de enero marcharon cerca de 150 000 personas en distintas ciudades de Israel en repudio a la agresión israelí, ahora se espera una asistencia mucho mayor".

9 de jan de 2009

Tempo, tempos

(Por: Ricardo Aleixo). "Ponteiros – Fora de casa, estou sempre com um relógio atado ao pulso. Consulto-o a intervalos mais ou menos regulares. Trata-se, apropriadamente, de um tique, já que se alguém me pergunta “Que horas são?” não sei responder sem olhar de novo o simpático aparelho. Viver não é preciso, já diziam os argonautas portugueses, de acordo com Fernando Pessoa. Viver é ao léu. Não ligo para a metáfora “tempo”. Me agrada é a dança dos ponteiros. Música – O relógio mecânico e as barras de compasso são contemporâneos. Ambas as invenções datam de fins do século 14. Se é certo que a escuta regular da convenção “tempo” propiciou o surgimento da notação musical, estudiosos como o físico Géza Szamor (citado por Heloísa Valente no livro Os Cantos da Voz – Entre o Ruído e o Silêncio) afirmam que foi a música o parâmetro utilizado no estabelecimento da noção de “tempo medido”. Tomara! Quantas vezes saímos de casa para trabalhar baseados na duração da música que toca no rádio... Dizemos para nós mesmos, embalados por aqueles sons que já conhecemos de cor: “Quando acabar essa eu saio...” Viola – Uma das mais impressionantes instalações de Bill Viola intitula-se Heaven and Earth. Dois monitores de vídeo preto e branco, um suspenso sobre o outro, numa estrutura tipo coluna – mais um pouco e se tocariam – mostram imagens que se interpenetram, silenciosas: a mãe de Viola agonizante; o filho do artista nascendo, nove meses depois. No Eclesiastes (trad. Haroldo de Campos) se lê: “Geração-que-vai/ geração-que-vem/ e a terra/ durando para sempre”. Agoras – “Agora mesmo passa outro.” (Alguém, num ponto de ônibus). “Agora só depois de almoçar.” (Um adulto, para uma criança que insiste em ver televisão antes do almoço). “Agora mesmo fulano perguntou por você.” (Qualquer falante do português-brasileiro). “Agora você vai ver.” (Idem). “Tudo ao mesmo tempo agora.” (Arnaldo Antunes). “Passaram-se agoras” (Dorival Caymmi). “A imanência imediata do agora.” (Octavio Paz). Korf – A muitos que conheço agradaria um relógio como o de Korf, “não-personagem” do alemão Christian Morgenstern (1871-1914). O que singulariza tal relógio é o fato de, nele, os ponteiros girarem “em dois pares – um a mais”. Mais importante ainda, “giram também para trás.// Se marcam duas – marcam as dez; se apontam o três – apontam o nove”, bastando “fixá-los, sem viés”, que “o medo ao tempo se remove.” Não apenas o medo ao tempo é removido, comenta o poeta e tradutor Sebastião Uchoa Leite (que observa a existência, em Sylvie and Bruno, de Lewis Carroll, de “um relógio mágico que reverte a ação do tempo, de modo que os acontecimentos se passam de trás para frente”). Resulta da inusitada invenção de Korf nada menos que a “anulação do tempo”. A refutação do tempo – Eis uma tarefa que só aos grandes cabe cumprir. Borges, que amava Shopenhauer, assinaria de bom grado esta afirmação do filósofo alemão: “Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida, é uma posse que nenhum mal lhe pode arrebatar.” O tempo circular – “Aquele que acertou ontem a pedra que só hoje atirou.” Essa proeza se credita a Exu, o que propicia ou embaralha o comércio entre os deuses e os homens. Como é possível? Não é possível. Exu é o impossível. PS: Estes fragmentos são antigos, do ano 98 do século passado, e foram publicados pela primeira vez na coluna que mantive entre 1997 e 2002 no caderno “Magazine” do jornal O Tempo. Já os reproduzi no endereço anterior do jaguadarte, como hão de lembrar os mais memoriosos. Valho-me da existência deles para finalmente dar partida às postagens nesta posse que iconiza, vazia como tem estado, o meu desejo de silêncio, que só faz crescer em meio ao completo horror – o Mal – que o noticiário internacional nos lança na cara todos os dias, com os relatos das ações genocidas de Israel na Faixa de Gaza. É isso. É só isso".

Retrospectiva 2008

O campo literário foi um dos meus vales férteis em 2008. Tanta coisa boa frutificou, é certo que ao narrar, pularei algumas, e outras tantas, mais pessoais, guardo comigo. Começo agradecendo aos blogues e sítios que anexaram este blogue, pois isto potencializa a expansão do público leitor. Agradeço também às pessoas que me entrevistaram e possibilitaram o amadurecimento de algumas idéias. O Ronald Augusto, de Porto Alegre – RS, a Zélia Maria Vaz, a Vera Ferreira e o Rogério Coelho, todos de Belo Horizonte – MG, a Ana Cléa Campos, de Alagoinhas – BA, a Tânia Macedo, de São Paulo e a Glória Azevedo de Porto Novo – TO, escreveram sobre meu trabalho e contribuíram para divulga-lo. Gracias. Parcerias no cinema, noutras cenas audiovisuais e no teatro foram enunciadas ou chegaram a acontecer: com a Viviane Ferreira – SP, a Vera Lopes e o Jessé Oliveira – RS, a Companhia dos Comuns – RJ, o Rique Aleixo – MG, a Lea Garcia e a Iléa Ferraz, ambas do Rio de Janeiro. O Tridente e o Tambor me levaram a conhecer e/ou freqüentar espaços memoráveis como os bares do Cláudio Santista, em Pirituba – São Paulo e do Zé Herculano, no Independência - Belo Horizonte, palco dos saraus do Elo da Corrente e da ColetiVoz, respectivamente; a Casa das Rosas, em Sampa, onde eu só havia ido para prestigiar amigos e lançamentos; a Fundação Pedro Calmon e sua majestosa sala de espelhos, em Salvador; o Centro Afro-carioca de Cinema e o lendário cinema Odeon, no Rio de Janeiro, e também a biblioteca da COPAMARE – Cooperativa dos Catadores Autônomos de Papel e Aparas de Material Reaproveitável, em São Paulo. Meus livros me levaram também a participar de vários eventos importantes, dentre os quais destaco: a FLAP (Zona Franca – Viva La Conexión!) e o IV Congresso da ABEH – Associação Brasileira de Estudos Homoeróticos, em São Paulo e, por fim, o V COPENE – Congresso de Pesquisadores(as) Negros(as) em Goiânia. Dizer que tudo isso foi bom, é pouco, foi ótimo. Ashé! (Imagem: Iléa Ferraz).

8 de jan de 2009

O menino assentado no meio do mundo & outros contos

Este “O menino assentado no meio do mundo & outros contos” (FUNALFA Edições, 2003) é o segundo livro do Édimo de Almeida Pereira, escritor que conheci em Juiz de Fora, em novembro passado. Recebi o Menino das mãos do fabulador. Fabular é mais que contar histórias, mais que ser inventivo e criador, fabular é manufaturar a criação e a narrativa com o fio invisível da magia. Édimo é um artista da fábula. São seis os contos do livro, falarei do primeiro e do segundo, com os quais mais dialoguei. “Era uma vez um menino assentado no meio do mundo. Tudo o que ele fazia era ficar ali o tempo todo. Passavam-se os dias, vinham as noites e as noites passavam também. O menino sempre sem fazer nada, sem mover um só braço, um dedinho sequer. ___ Fico parado aqui porque não sei o que vim fazer neste mundo. Dizia a si mesmo o menino, já que era sozinho ali, parado no meio do mundo”. Assim começa o conto que dá título à obra e acrescentou complexidade às minhas reflexões sobre o suicídio: se não sei quem sou e não vejo sentido naquilo que faço, sinto um vazio que pode me levar à morte. E, se não tenho quem me ame para reconhecer meu lugar de importância no mundo, a morte sobrevém também. Embora tendo tudo isto, muita gente ainda se mata. Deve ser por estas, dentre outras, que em resposta à minha constatação de que escrevia literatura infantil-juvenil, o Édimo respondeu: “é aquela velha história, o que é a literatura infantil, para quem é a literatura infantil, eu escrevo literatura”... Por puro prazer li o conto três vezes, lerei outras tantas para entender os mistérios. “A fábula do girassol e da formiga”, segundo conto do livro, me transportou para as narrativas de ensinamento da tradição indiana, lidas há uma década. Uma mistura harmônica de lúdico despretensioso e busca da espiritualidade, algo além da promoção careta e literal de virtudes, que a gente costuma encontrar na literatura infantil e juvenil. “Ratataplim, ratataplam, ratataplim, ratataplam... Vinha pelo caminho uma formiga lava-pé, numa pressa que não tinha mais tamanho quando, de repente: ratataplim, ratataplam, tataplam, cataploft! Tropeçou em não se sabe lá o que, de um jeito tal, que acabou perdendo o traçado das pernas finas e foi cair a uns cinqüenta metros adiante – cinqüenta passos de formiga lava-pé -, lá fora do caminho. O que se seguiu a esse pequeno acidente foi uma série de ais! e de uis! Que eram da formiga e de mais alguém. É que o “não se sabe lá o que” não era “não se sabe lá o que coisa nenhuma”. Era, sim, uma semente de girassol que estava mergulhada na terra, tirando um sono momentos antes de a formiga surgir”. A semente e a formiga depois se tornarão amigas, como a gente espera, mas muita coisa acontecerá até que a amizade desabroche. E eu penso no amigo que volta de um país distante trazendo uma caixinha de Ferrero Rocher e se vai, num passo silencioso de formiga lava-pé, deixando a chave em baixo da porta e um escorredor de pratos sobre a pia, presente cheio de peças limpas.