Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de jun de 2009

Água e óleo

As notícias da indústria do entretenimento aqueceram o início do inverno brasileiro. Particularmente aquelas advindas de seu principal movimentador de recursos, o futebol europeu. Em duas semanas, um clube de futebol movimentou 159 milhões de euros (432 milhões de reais) na transação de dois jogadores, o brasileiro Kaká, comprado pelo Real Madrid ao Milan por 65 milhões de euros ou 177 milhões de reais e, uma semana depois, a venda do português Cristiano Ronaldo pelo Manchester United ao mesmo Real Madrid, por 94 milhões de euros ou 255 milhões de reais. São números astronômicos, mas compatíveis com os bilhões de euros que o futebol gera por ano. A Fifa, por exemplo, movimenta mais dinheiro do que muitos países, além de ser uma das instituições mais ricas e poderosas do mundo. Enquanto isso, no futebol brasileiro, quatro jogadores do Flamengo, Adriano (o Imperador), Bruno, Ibsen e Emerson, resolvem, solidariamente, arcar com o salário do companheiro Alex Cruz até o final do ano, já que o clube o havia posto em lista de dispensa por falta de recursos para honrar salários. Outros dois companheiros, ao saberem da atitude solidária, juntaram-se a ela, a saber, Petkovic e Léo Moura. O valor do salário do moço? A bagatela de seis mil reais mensais, mil reaizinhos menos no gordo salário de cada um dos seis jogadores. Depois de sairmos dos números estratosféricos e posicionarmos a conversa em bases reais, podemos passar ao tema da literatura, ainda que sujeitos a traumas, porque os números continuarão discrepantes. Vejamos: mil exemplares de um livro que custe vinte reais perfazem vinte mil reais, certo? Destes, o autor ou autora tem direito a 10%, dois mil reais, portanto. Errou se você pensou que esse dinheiro é pago quando você assina o contrato, não, não, doce ilusão. O dinheiro vem pingadinho na sua conta, de ano em ano, de dois em dois anos e mesmo ao fim do terceiro ou quarto ano, em condições normais de pressão e temperatura, o autor ou autora ainda terá um bom número de livros no estoque da editora para vender. Um escritor disse um dia desses que é mais fácil esconder um cadáver do que vender mil livros. Você está se perguntando o porquê dessa lamúria toda, não é? Respondo: o primeiro porquê é o meu eterno choque com os números do futebol, seis mil reais mensais constituem um salário, ridículo, digamos. Depois, chega-me a notícia de que os ilustradores de livros para crianças e adolescentes estão se reunindo para reivindicar maior participação nas obras que ilustram, querem ganhar algo como direito autoral. Já deixaram nítido que não pleiteiam dividir o parco percentual dos autores (ufa!), mas querem um pedaço maior do bolo. É justo, é muito justo, é justíssimo. Resta ver como as editoras, aquelas que juram de pés juntos que não ganham dinheiro comercializando livros, reagirão. Afinal, o que couber aos ilustradores deverá sair da parte maior do bolo, ou seja, daquilo que até hoje tem sido delas, as editoras. Estamos de olho, não admitiremos nenhum centavo menos nos nossos míseros 10%.

29 de jun de 2009

Um pouco do poeta Ronald Augusto

Numa madrugada dessas, de rolê pelo blogue do Ronald, encontrei a entrevista abaixo e resolvi postá-la aqui, para que meus leitores e leitoras conheçam um pouco mais do querido poeta gaúcho. Minha história de amizade com ele teve poucos encontros presenciais até o momento, na verdade só houve um encontro, o primeiro, quando nos conhecemos em Juiz de Fora, terra de cariocas do brejo, não faz ainda um ano. Eu chegava ao hotel, cansada de uma palestra que havia feito à tarde, depois de uma viagem de ônibus Rio-Juiz de Fora pela manhã, e alguém me cumprimenta. Quando me viro, era o Ronald. Eu não o conhecia, mas sabia que ele era ele, tanto pela obra, quanto porque já havíamos trocado umas gentilezas via blogue. Apenas nos cumprimentamos e combinamos de nos encontrar na recepção do hotel dali a vinte minutos para seguirmos até a UFJF, onde participaríamos de uma mesa de escritores. O Ronald tem aquele humor ácido da gauchada, já comentei isso aqui, e uma de suas intervenções ferinas me fez rir e deixou pelo meio do caminho, umas lágrimas que ameacei derramar num momento de maior emoção. Ouvimos as leituras dos nossos textos e trocamos impressões, jantamos juntos, conversamos no café do dia seguinte e a isso se restringiu nossa troca presencial. Neste encontro, dei um exemplar do Tridente para o Ronald e umas semanas depois fui presenteada com a resenha mais arguta que alguém poderia fazer sobre o livro, com direito a receber aviso da publicação do texto pelas teclas do Edimilson, amigo querido de ambos. Mais recentemente o Ronald leu e comentou meu livro novo, o Pentes, além de um comentário inusitado, fez outros, mais simples, me ajudando a resolver algumas cenas e a precisar o vocabulário. Então, é isso, conheçam um pouco mais do poeta e amigo Ronald Augusto. Trecho de uma entrevista antiga de Ronald Augusto(2006) concedida ao poeta Carlos Besen que capitaneava o website Algaravária. Por que poeta? Ronald Augusto - Lá pelos meus 12 ou 13 anos, minha mãe me escolheu como o ouvinte primeiro de seus poemas. Aquilo para mim foi uma tortura. Ela lia, entusiasmada, os seus versos. Meu jeito quieto e reflexivo ou minha condição de filho mais velho, talvez tenham lhe sugerido a idéia de que eu seria o leitor/ouvinte adequado. Fiquei sem palavras. Era tudo muito chato. Uns três anos depois, escrevi meus primeiros versos. Que lição tiro disso? Nenhuma. Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E do primeiro para o último? RA - Duas perguntas que suscitam respostas intermináveis. Mas, não vou dar essa alegria ao divino internauta. Escrevi muito e li, durante algum tempo, só Manuel Bandeira. Depois dos poemas motivados pelas paixões da adolescência, resolvi sondar a real qualidade do que eu vinha escrevendo. Entrei em concursos literários. Em 1979, um poema meu mereceu menção de “destaque” num certame que envolvia várias etapas ao longo de um ano. Fiquei feliz porque o júri era composto, aos meus olhos, pelos melhores poetas da época: Mario Quintana, Heitor Saldanha e Carlos Nejar. Ao final do concurso uma antologia foi publicada e lá estava o meu poema. Minha estréia em livro. Meu primeiro livro não foi o primeiro, é que antes dele (1980, 1981), “pirado” com a poesia marginal, editei livrinhos em xerox bem vagabundos e participei de intervenções-bomba de “autores independentes” na Feira do Livro de Porto Alegre. O leão de chácara da Feira aparecia para expulsar a patota. Numa dessas, o Heitor Saldanha foi visitar os poetas marginais para prestar sua solidariedade, e folheando os precários livretos, abriu o meu e elogiou com entusiasmo as imagens e metáforas que encontrara. Isto para mim serviu como o empurrão definitivo: pronto, eu era um poeta, meio hippie, mas poeta. Mas, Homem ao Rubro, de 1983, é que foi, de fato, o meu livro inaugural. Eu tinha 22 anos. De lá até agora, é como diz Borges, a cada novo livro, acho que tento reescrevê-lo. Quais livros fizeram parte de sua formação? Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?RA - A obra capital para a minha formação é a de Manuel Bandeira. Sua poesia é tanto mallarmeana, quanto antropofágica, isto é, Bandeira consegue dosar anti-poesia e poesia pura em seu percurso textual; suas traduções, que vão desde o barroco da poeta mexicana Sor Juana Ines de la Cruz (séc. 17), passando pelo poeta e ativista negro Langston Hughes (1902-1967) e chegando até os “poemas à maneira de...”, que gosto de interpretar como exemplos de traduções heterodoxas, onde o velho Manu (como o chamava Mário de Andrade) inventa, por exemplo, um poema afivelando a máscara de e. e. cummings. Também adoro sua prosa voltada às questões da poesia, isto é, sua metalinguagem. Itinerário de Pasárgada é um livro incomparável. Outros livros: A Commedia de Dante, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, Museu de Tudo de João Cabral de Melo Neto, etc. Nada de especial. Teve algum incentivador? RA - Que eu saiba, não. Sempre associei a imagem do chato à do incentivador. Hoje em dia há a figura do motivador, pior ainda. O incentivador esconde um moralista. Prefiro os opostos e complementares: o admirador e o crítico. Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores? Como foi e é o diálogo com outros escritores?RA - Escritor que dá conselhos não merece crédito. O diálogo com os outros escritores não difere muito daquilo que acontece com qualquer pessoa que vive em sociedade, é preciso que haja afinidades eletivas. A expressão parece pernóstica, mas é isso. E é comum acontecer que o seu melhor amigo seja um torcedor obtuso do time adversário. E tem aquele cara para quem a gente dá “bom dia” não se sabe bem porquê, o sujeito não fede nem cheira. Vá de retro. Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo? RA - Quando fiz curso de interpretação teatral (fiz e, por enquanto, não nego), escrevi textos dramáticos. Passou. Na mesma época, década de 80, também escrevi alguns contos. Passou também. Com que se “inspira” para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema? Quando escreve, qual o efeito estético visado? RA - Geralmente aquilo que me “inspira” é alguma solução de linguagem que hesita, como diz Valéry, entre som e sentido, uma paronomásia, para usar um conceito de Roman Jakobson. Qualquer coisa pode se tornar matéria para um poema. Do contrário, eu estaria jogando as minhas fichas no anacronismo da “poesia pura”. Um poema se faz com metáforas boas. Dependendo da situação, nenhuma metáfora é a melhor saída. Aliás, em minha opinião, a metáfora representa o kitsch da função poética. Qualquer resposta criativa no trato com a linguagem que coloque em cheque a sua naturalização (da metáfora) e os medianeiros da metaforização indecorosa, será válida. Eu viso um poema que suscite muitas e contraditórias leituras. Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? E mais: guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente? RA - Homem ao Rubro foi um livro escrito a partir desta perspectiva, da reescritura em abismo. Hoje em dia, sou mais atraído pelos poemas “errados e estropiados”, como diz o poeta Mauro Faccioni, da Ilha do Desterro. Não guardo, não. Também não tenho livros engavetados. Minha produção é mirrada. Atualmente, considero que tenho dois livros in progress, só. Livro pronto, na gaveta, acho que nenhum. Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros? RA - Algumas cidades e alguns livros. Passei minha infância no Rio de Janeiro, mais exatamente em Niterói. Depois, durante a crise dos meus 30 anos, morei em Salvador/BA. Ambas são cidades fundamentais para mim. Mas, é claro que tudo depende da leitura, do nosso ponto de vista de forasteiro. E as cidades estão na base das mitologias da modernidade. Baudelaire, T. S. Eliot, Oswald de Andrade, etc., todos os grandes poetas do cânone ocidental leram o livro das cidades. Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras? RA - Não, acho que não. Talvez porque me assuste um pouco a questão da repetição ou da auto-imitação, estou sempre tentando experimentar lances novos. Não chega a ser uma idéia, mas a minha divisa é: experimentação.

27 de jun de 2009

Apenas uma fã

Os Jackson Five foram os primeiros ídolos do meu panteão, ainda bem criança, antes de aprender a ler. Tive o privilégio de assistir o desenho animado na TV, acho que na mesma época do Harlem Globe Throters e também do Scoobydo. Só uns anos depois Gil e Milton ganharam espaço na minha galeria e como os Jackson, nunca saíram. Guardei a lembrança do grupo de irmãos cantores e aos 11 anos, Michael Jackson entrou sozinho, de forma arrasadora em minha vida, com o álbum de 79 e aquele gritinho atrás do smoking de mangas dobradas, meias brancas e sapatos pretos. Thriller, mais tarde, encantou o mundo e também ao Milton que fez uma gravação belíssima no disco Crooner, no qual canta músicas que gosta de ouvir e cantar em casa. E por toda a década de 80 ouvi o Michael, deixando guardados os Jackson. Em 93 fui assisti-lo em São Paulo, primeira e única vez a entrar num estádio de futebol cheio. Houve um artigo do Arnaldo Antunes tão generoso e compreensivo com as transformações do Michael, algo como alguém que fazia do próprio corpo um campo de experimentações tecnológicas e estéticas. Eu que sempre olhara os Titãs com olhos tortos, naquele momento descobri o Arnaldo, por causa do olhar dirigido pelo ex-Titã ao Michael. É óbvio que as datas se misturam e minha proposta não é fazer uma cronologia, apenas escrever alto sobre minha relação com o Michael, no dia seguinte ao seu desaparecimento. Sempre fui fã dele, desde criança, desde a minha infância e dele infante. Entretanto, algo se rompeu na admiração pelo Michael inteiro, por causa das acusações de abuso sexual a crianças, mesmo com a absolvição alcançada no segundo caso. E no primeiro, houve aquele acordo espúrio e escandaloso com a família do garoto para retirar a acusação. Coitado do menino, com uma família daquelas, não poderia mesmo esperar proteção e justiça. Hoje, a vizinha torturadora de criança gritava com a filha de dez anos, durante a briga mais intensa do dia: “você vai ver o que é bom, você acaba me matando. Não viu o Michael Jackson? Morreu com 50 anos, sua mãe vai morrer com 45 e você vai ser a culpada e vai morar com a sua madrasta! Você vai ver o que é bom, ser criada pela madrasta!” O que a vizinha e o Michael têm em comum? Ela é completamente infeliz e o Michael também o era. E acho que a perplexidade e a comoção mundial pela morte precoce do Sol do mundo pop, aquele que conquistou os símbolos midiáticos e celebrativos que a vida contemporânea glamouriza – dinheiro, bens, poder de ditar moda -, que tornou-se um refém-dependente das dores de ser quem era, escondem um elemento do inconsciente coletivo das últimas décadas do século XX e deste XXI. Ora, se Ele, o único, múltiplo e solar, morreu tão jovem e sem ter sido feliz, o que o mundo reservará a nós, simples mortais?

26 de jun de 2009

De Bob Dylan a Bob Marley - um samba provocação

(De Gilberto Gil). "Quando Bob Dylan se tornou cristão/ Fez um disco de reggae por compensação/ Abandonava o povo de Israel/ E a ele retornava pela contramão/ Quando os povos d'África chegaram aqui/ Não tinham liberdade de religião/ Adotaram Senhor do Bonfim:/ Tanto resistência, quanto rendição/ Quando, hoje, alguns preferem condenar/ O sincretismo e a miscigenação/ Parece que o fazem por ignorar/ Os modos caprichosos da paixão/ Paixão, que habita o coração da natureza-mãe/ E que desloca a história em suas mutações/ Que explica o fato da Branca de Neve amar/ Não a um, mas a todos os sete anões/ Eu cá me ponho a meditar/ Pela mania da compreensão/ Ainda hoje andei tentando decifrar/ Algo que li que estava escrito numa pichação/ Que agora eu resolvi cantar/ Neste samba em forma de refrão:/ "Bob Marley morreu/ Porque além de negro era judeu/ Michael Jackson ainda resiste/ Porque além de branco ficou triste"

25 de jun de 2009

Mais um caso de racismo no futebol brasileiro

Mais um caso de racismo no futebol brasileiro. Desta feita entre o Maxi López, jogador branco-argentino do Grêmio e Elicarlos, jogador negro-mineiro do Cruzeiro, durante a semi-final da Libertadores, jogada ontem, dia 24/06/09. Maxi chamou Eli de macaco e o agredido fez queixa na delegacia de polícia. Ânimos exaltados, ônibus de gaúchos interceptado, deslocamento até a delegacia para depoimentos. O técnico do Grêmio, exaltado, minimiza a agressão racial, sequer a menciona quando comenta o assunto na imprensa. Lembra o meu querido Presidente Lula ao dizer que a crise no Senado não é uma questão nacional. É a voz do comandante, guardadas as devidas proporções de alcance dos comandados, tentando descaraterizar a gravidade dos fatos. O mais irritante na atitude do técnico, Paulo Autuori, civilizado por um currículo de bem sucedidas atuações profissionais fora do Brasil, é a forma como ele desanca as terras tupiniquins, como se um um bando de energúmenos, fôssemos todos. "O Brasil precisa se tornar um país sério, sabemos que isso não vai dar em nada". Este tipo de declaração costuma fazer algum sentido na boca de quem luta contra o racismo, não na boca daqueles que pretendem fazê-lo inexistir pelo argumento de (pretensa)autoridade. Ai, ai, fico exaurida dessas histórias. Já dissemos tanto, já fizemos tanto e volta e meia é isso, o mesmo filme. Estou cansada mesmo, não continuarei desperdiçando minhas sinapses com esse assunto ou com esses personagens. Publico abaixo uma cronicazinha rasa que escrevi há algum tempo sobre o tema do racismo no futebol. (Jogo de cena!) – Viu a mesa esportiva de domingo à noite? – Eu não assisto a esses programecos de futebol. Um bando de homens desinteressantes falando de juízas e bandeirinhas e daqueles marmanjos que correm atrás da bola. Falam mal das conversas das mulheres em salões de beleza, mas mesa-redonda de futebol é igualzinho, pura fofoca e frivolidade. – Calma, calma. Perguntei porque teve mais um caso de racismo. – Grande novidade. Desde que os times não aceitavam jogadores negros até hoje, quase nada mudou. Pouco adiantou ter reis e príncipes negros no gramado: Leônidas, o Diamante Negro, inventor da bicicleta no futebol; Domingos da Guia, o zagueiro mais eficiente e craque de bola do mundo; Didi, o príncipe etíope; Garrincha, sem adjetivos; Pelé, o rei do futebol. Adiantou de quê? Os argentinos continuam nos chamando de los macaquitos e nos campos brasileiros nos chamam de macacos. – Não, mas parece desta vez vai ter punição. – Duvido. – Pelo menos a imprensa desportiva brasileira está tendo outra postura, saiu de cima do muro. – Eu quero é prova. Qual é a bola da vez? – O Antonio Carlos, aquele ex-zagueiro da Seleção, chamou o Jeovânio, jogador negro de um time do Sul, de macaco e alisou o braço, num gesto característico de referência à cor da pele. – E você acha que vai dar em alguma coisa? Li num jornal de esportes que no Tribunal ele declarou que alisou o braço em resposta à provocação do jogador adversário que o teria atacado dizendo que ele encerrava a carreira num timinho. Ele teria feito o gesto numa declaração de que “aquela pele vestiu a camisa de muitos clubes grandes”. Pode? Me engana que eu gosto e sou idiota. No final do jogo ele havia dito que alisou o braço pra mostrar ao juiz que estava arranhado. No Tribunal ainda deu uma de ingênuo – cínico, isso sim – e disse que não sabia que o gesto de alisar o braço (depois de chamar um negro de macaco) tinha conotação racista. O pessoal até riu. – É, mas a imprensa tá cobrando. Os dirigentes e técnicos fazem corpo mole, mas o pessoal dos jornais e da TV não tá dando trégua. Parece que as manifestações anti-racismo durante a Copa do Mundo surtiram efeito. Aliás, você viu as intervenções do pessoal da Frente 3 de Fevereiro? – Vi sim, muito legal. São aqueles artistas paulistanos que criaram um coletivo de arte anti-racismo e batizaram o grupo com a data da morte do dentista negro Flávio Ferreira Santanna, assassinado pela polícia. Segundo os matadores, o pobre foi “confundido” com um bandido em fuga. – Esses mesmos. Eles levaram faixas gigantescas para os estádios questionando a correção do Estado e a passividade do povo ao definir e aceitar que certas áreas das cidades alemãs não são aconselháveis para negros e migrantes, porque ataques racistas podem acontecer. Ora, ora, o Estado precisa coibir o racismo e não garantir lugares públicos para que ele seja exercido com tranqüilidade. – Corajosa, essa moçada. – E as entrevistas que eles fizeram com guardas que queriam discriminá-los nos estádios? – Irado! – Mas aqui no Brasil, não sei não. O trabalho deles que apareceu nas televisões do mundo todo, nos canais de cá, nem foi mostrado. E esse caso do Jeovânio deve ser arquivado. O agressor foi jogador da Seleção. Não viu o Luxemburgo dando declaração de apoio a ele, dizendo que a imprensa o está transformando em “bode expiatório”? “Afinal, o Brasil é um país de mulatos.” Isso tudo conta. – Parece que você tinha razão, saiu a sentença. – Diga aí. – Cento e vinte dias de suspensão por agressão, a tal cotovelada na cabeça do Jeovânio. Tem mais. Quatro jogos de suspensão por comportamento antidesportivo. – Veja que descaracterização deslavada, o crime de racismo se transformou em comportamento antidesportivo. Parece piada de mau gosto. Eu não disse? Bola pra frente e viva a Frente 3 de Fevereiro!

24 de jun de 2009

III Fórum Nacional de Performance acontece em Salvador de 6 a 9 de julho e homenageia Léa Garcia e Ruth de souza

(Texto de divulgação). "As reflexões e propostas para a valorização da dança e teatro negro tem cenário e palco próprios: o III Fórum Nacional de Performance Negra que acontecerá em Salvador/BA de 6 a 9 de julho, no Teatro Vila Velha. O evento deverá reunir cerca de 200 pessoas entre representantes de Grupos e Companhias negras, pesquisadores e artistas de todas as regiões do Brasil em torno de objetivos alicerçados em uma prática artístico-cultural que, nos seus modos de criação e de reflexão, reafirmem a dimensão dinâmica das matrizes afro-brasileiras. Nesta terceira edição o evento homenageará as atrizes Léa Garcia e Ruth de Souza, o ator Zózimo Bubul e o poeta Solano Trindade (post-mortem). O III Fórum Nacional de Performance Negra é uma realização conjunta da Cia. dos Comuns (RJ) e do Bando de Teatro Olodum (BA). A abertura do evento deverá contar com as presenças dos ministros da Cultura, Juca Ferreira e do Secretário da Promoção da Igualdade (SEPPIR) Edson Santos; dos presidentes da Fundação Palmares, Zulu Araújo, e da Funarte, Sérgio Mamberte, além dos secretários da Identidade e da Diversidade, Américo Córdula, da Cultura do Estado da Bahia, Márcio Meirelles e da secretária da Igualdade da Bahia, Luiza Bairros. O evento já se firmou como um referencial do teatro e danças negras do Brasil, com intenção de promover a criação de políticas públicas específicas para esse segmento e, neste ano, foram programadas palestras com Sueli Carneiro (Brasil), Julio Moracen (Cuba), Paulo Lis (Brasil), e Cleyde Morgan (EUA); oficinas de teatro como o dramaturgo e ator Ângelo Flávio; com o diretor teatral e jornalista Luiz Marfuz; de música, com o cantor e compositor Jarbas Bittencourt; e com o músico ator e diretor artístico Gil Amâncio. As oficinas de dança ficarão com o bailarino e coreógrafo Zebrinha, com o professor e bailarino Clyde Margon; sobre figurino com Biza Viana; iluminação, com Jorginho de Carvalho (precussor da iluminação teatral no país); sonorização, Filipe Pires; e programação visual, com o artista plástico Gá. Também foram programas atividades em Grupos de Trabalho que contribuirão para o intercâmbio dos/as representantes regionais. Ainda estão previstas no Fórum apresentações e performances de teatro e dança e manifestações populares de matriz africana. Entre as apresentações estão: Shire Oba, com direção Fernanda Júlia, encenada pelo Grupo de Teatro Nata que por meio de um discurso poético, festeja a magia e os encantos da tradição afro baiana, presente no culto aos Orixás. a peça Silêncio, dirigida por Hilton Cobra e encenado pela Cia dos Comuns que questiona a platéia sobre o que passa pela mente de uma pessoa que durante toda sua existência sente que a qualquer momento poderá ser vítima do racismo. Silêncio é o quarto espetáculo do repertório da Cia dos Comuns, responsável pela encenação de Candaces - A reconstrução do fogo (2003) que recebeu o Prêmio Shell de Teatro - categoria música, sendo este espetáculo considerado um dos 10 melhores do ano pela crítica teatral. Receita é terceiro espetáculo a ser apresentado durante o III Fórum Nacional de Performance Negra. Receita é um solo com o bailarino Rui Moreira da Cia Será Quê? – com coreografia Henrique Rodovalho e é um encontro com a subjetividade do olhar e do movimento."

23 de jun de 2009

A cota de sucesso da turma do ProUni

(Por: Elio Gaspari, na Folha de 17/06/2009). "A DEMOFOBIA pedagógica perdeu mais uma para a teimosa insubordinação dos jovens pobres e negros. Ao longo dos últimos anos o elitismo convencional ensinou que, se um sistema de COTAS levasse estudantes negros para as universidades públicas, eles não seriam capazes de acompanhar as aulas e acabariam fugindo das escolas. Lorota. Cinco anos de vigência das COTAS na UFRJ e na Federal da Bahia ensinaram que os cotistas conseguem um desempenho médio equivalente ao dos demais estudantes, com menor taxa de evasão. Quando Nosso Guia criou o PROUNI, abrindo o sistema de bolsas em faculdades privadas para jovens de baixa renda (põe baixa nisso, 1,5 salário mínimo per capita de renda familiar para a bolsa integral), com COTAS para negros, foi acusado de nivelar por baixo o acesso ao ENSINO SUPERIOR. De novo, especulou-se que os pobres, por serem pobres, teriam dificuldade para se manter nas escolas. Os repórteres Denise Menchen e Antonio Gois contaram que, pela segunda vez em dois anos, o desempenho dos bolsistas do PROUNI ficou acima da média dos demais estudantes que prestaram o Provão. Em 2004, os beneficiados foram cerca de 130 mil jovens que dificilmente chegariam ao ENSINO SUPERIOR (45% dos bolsistas do PROUNI são afrodescendentes, ou descendentes de escravos, para quem não gosta da expressão). O DEM (ex-PFL) e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino foram ao Supremo Tribunal Federal, arguindo a inconstitucionalida de dos mecanismos do PROUNI. Sustentam que a preferência pelos estudantes pobres e as COTAS para negros (igualmente pobres) ofendiam a noção segundo a qual todos são iguais perante a lei. O caso ainda não foi julgado pelo tribunal, mas já foi relatado pelo ministro Carlos Ayres Britto, em voto memorável. Ele lembrou um trecho da Oração aos Moços de Rui Barbosa: "Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real". A "Oração aos Moços" é de 1921, quando Rui já prevalecera com sua contribuição abolicionista. A discussão em torno do sistema de acesso dos afrodescendentes às universidades teve a virtude de chamar a atenção para o passado e para a esplêndida produção historiográfica sobre a situação do negro brasileiro no final do século 19. Acaba de sair um livro exemplar dessa qualidade, é "O jogo da Dissimulação - Abolição e Cidadania Negra no Brasil", da professora Wlamyra de Albuquerque, da Federal da Bahia. Ela mostra o que foi o peso da cor. Dezesseis negros africanos que chegaram à Bahia em 1877 para comerciar foram deportados, apesar de serem súditos britânicos. Negros ingleses negros eram, e o Brasil não seria o lugar deles. A professora Albuquerque transcreve em seu livro uma carta de escravos libertos endereçada a Rui Barbosa em 1889, um ano depois da Abolição. Nela havia um pleito, que demorou para começar a ser atendido, mas que o DEM e os donos de faculdades ainda lutam para derrubar: "Nossos filhos jazem imersos em profundas trevas. É preciso esclarecê-los e guiá-los por meio da instrução". A comissão pedia o cumprimento de uma lei de 1871 que prometia educação para os libertos. Mais de cem anos depois, iniciativas como o PROUNI mostraram não só que isso era possível mas que, surgindo a oportunidade, a garotada faria bonito."

22 de jun de 2009

A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo

(Deu na revista Época, por Eliane Blum). Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”. Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho. Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse. A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.” A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam? Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ” Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva. Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo. Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto. Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia. “Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.

20 de jun de 2009

“Só quero contar uma história que nunca foi contada", declara Mumia Abu-Jamal sobre seu livro novo

(Jailhouse Lawyers: Prisoners Defending Prisoners v. the U.S.A. (Advogados na Prisão: Presos que Defendem Presos vs. os Estados Unidos), City Lights Books, 2009).> "O sexto livro escrito por Mumia Abu-Jamal desde o corredor da morte é publicado justamente no momento em que a Suprema Corte dos Estados Unidos lhe fecha a porta na cara, rejeitando um pedido de recurso de Mumia para que fosse repetida a fase do veredito do seu julgamento de 1982, e a campanha para executá-lo novamente se renova. O livro foi apresentado em 24 de abril na Filadélfia, Nova York, Oakland, Detroit, Boston, Houston, Portland, Los Angeles, Seattle, Olympia, Baltimore e Washington D.C., para festejar seu aniversário e abrir uma nova etapa na batalha por sua vida e liberdade. Conta-nos que existem dezenas de milhares de presos advogados nas prisões dos Estados Unidos. Pouco conhecidos no mundo fora dos muros, são homens e mulheres que demandam seus próprios casos, defendem outros presos ou levantam ações para efetuar mudanças nas condições das prisões. Com agudeza, respeito, empatia e humor, Mumia apresenta as palavras e vivências de uma trintena deles, alguns que ele conheceu pessoalmente nas prisões da Pensilvânia e outros que lhe têm enviado cartas ou respostas a suas pesquisas. A maioria, batalha em terreno alienígena, porque não tiveram estudos formais em Direito antes de ingressar na prisão; são autodidatas e têm aprendido a lei sob a tutoria de outros presos com mais experiência. Diz Mumia: “Não se tem se esquecido de lutar. Não se tem se esquecido de resistir. Não se tem se esquecido de ajudar aos demais, em muitos casos as pessoas mais indefesas. E não se tem se esquecido de ganhar... Algumas destas pessoas têm salvado a vida de outras, literalmente. Outras têm mudado as regras do jogo”. Para agradecer-lhes seus serviços em proteger a Constituição, as autoridades freqüentemente castigam estes advogados mais que a qualquer outro grupo de presos. Neste livro, conhecemos Steve Evans, que estudou direito por conta própria e ensinou muitos outros presos como disputar um caso – a todos, menos os informantes e violadores de crianças. Seu aluno Warren Henderson teve que aprender a ler na prisão, antes de estudar Direito, mas tão grande era sua paixão para a leitura que roubou centenas de livros para realizar seu sonho de organizar uma biblioteca em seu bairro ao sair da prisão, e em várias ocasiões teve êxito em defender-se. Midge DeLuca, que sofria de câncer, decidiu ajudar as outras presas doentes depois de ler uma linha de sua poetisa favorita, Audre Lorde: “Só nossos silêncios nos lastimarão”. Também tomamos conhecimento de vários rebeldes, revolucionários e presos políticos, inclusive os integrantes e simpatizantes da organização MOVE, que desafiaram a autoridade dos Tribunais rotundamente em uma longa série de julgamentos; Rashaan Brooks-Bey, organizador de greves e outras ações pelos direitos dos presos, que junto com seus companheiros Russell Maroon Shoatz, Robert Joyner e Kareem Howard, enfrentaram o juiz diretamente e exigiram a prisão dos policiais; Martin Sostre, o legendário organizador da livraria Afro-Asiática em Buffalo, NY, que influenciou no pensamento de muitos outros presos; Iron Thunderhorse, batalhador incansável pelos direitos dos presos, agora, cego; e Ed Mead, originalmente um preso social que se tornou ativista pelos direitos dos presos, depois integrante da Brigada George Jackson e co-fundador da Prison Legal News. Diante do desprezo dos juízes e promotores, da extrema falta de recursos, e da apatia pública, os advogados, desde a prisão, freqüentemente perdem seus casos, mas também tem alcançado impressionantes vitórias. -- No estado da Pensilvânia, Richard Mayberry começou suas batalhas para se auto-representar em meados dos anos 60, e apesar dos duros castigos em função disso, teve que ultrapassar alguns obstáculos para fazê-lo. Também ganhou uma causa em 1978, que resultou em drásticas mudanças nas prisões de vários estados no campo da saúde, superlotação e banimento de castigos, como as “jaulas de vidro”, entre muitas outras coisas. -- Em 1971, David Ruiz levantou uma ação contra o sistema carcerário do estado do Texas, operado como uma plantação de escravos, que resultou em extensas reformas ordenadas pelo juiz William Wayne Justice. -- Na Pensilvânia no princípio dos anos 80, uma ação apresentada por Rashaan Brooks-Bey de parte de todos os presos conseguiu que uma unidade repressiva fosse fechada na prisão de Pittsburgh. Os presos ganharam duas horas de exercício ao ar livre em lugar de quinze minutos, serviço de lavanderia, tampas para as bandejas de comida, e uma proibição da prática de desnudá-los quatro vezes a cada vez que recebessem visitas. -- No estado da Califórnia, Jane Dorotik moveu apelações que resultaram na liberdade de um bom número de mulheres falsamente presas na penitenciária de Chowchilla. Seu caso está destacado em um capítulo dedicado ao trabalho de várias presas advogadas ante o tremendo aumento de encarceramento de mulheres, 300% em anos recentes. -- Barry “Running Bear” Gibbs (o Osso) conseguiu que sua própria sentença de morte fosse revogada, igualmente as de outros dois presos. Recorda-se de como se sentiu quando um dos jovens lhe contou as boas noticias. Disse Osso: “Salvar a vida de alguém por meio de tinta e papel é uma experiência gratificante e inesquecível”. -- A vergonhosa condenação de 9 dos integrantes da organização MOVE, desde 30 a 100 anos de prisão em 1978, foi seguida por una assombrosa vitória para a organização em 1981, quando Mo e John África se defenderam com êxito contra acusações de posse de armas e explosivos. Suas táticas pouco comuns incluíram uma intimação a seus 9 companheiros presos para dar depoimentos sobre os propósitos de sua luta, o bom caráter de John África e a traição das testemunhas de acusação, mais um discurso final de John África sobre a beleza e a sobrevivência da Mãe Terra. O jurado, com lágrimas nos olhos, os inocentou completamente. --Uns meses depois, o simpatizante do MOVE, Abdul Jon, conseguiu a revogação temporária das acusações de agressão com lesões contra ele, Jeanette e Theresa África, quando foram eles os que sofreram uma brutal agressão da polícia. Seus argumentos sinceros e lógicos tornaram risíveis os altissonantes (e falsos) argumentos da promotoria. Ainda que fosse uma vitória menor, conta Mumia, dá o sabor da longa série de processos contra o MOVE. Mumia assinala a ironia de que ainda que John África fosse absolvido por um jurado da posse de armas e explosivos, ele foi assassinado em 13 de maio de 1985, junto com Theresa África e outros 9 integrantes do MOVE, com explosivos obtidos ilegalmente pelo governo dos Estados Unidos para bombardear a casa coletiva do MOVE. Sem dúvida, nenhum agente local ou federal foi julgado pelo crime. A única pessoa acusada, julgada e condenada a 7 anos por “incitar um motím” foi Ramona África, que “se atreveu a sobreviver a matança.” Se não houvesse movido seu próprio caso, provavelmente teria passado muitos anos mais na prisão, dadas todas as acusações iniciais contra ela. Para Mumia, não cabe dúvidas de que, ao fim e ao cabo, a lei é o que diz o juiz. Em um capítulo interessante, explora várias definições da lei, inclusive a do homem conhecido como “o avatar do capitalismo ocidental”, Adan Smith: “A lei e os governos podem se considerar... como uma combinação dos ricos para oprimir aos pobres para conservar para eles a desigualdade dos bens, os quais de outra maneira estariam destruídos pelos assaltos dos pobres, aqueles, que se não fossem impedidos pelo governo, muito rapidamente reduziriam aos demais a uma igualdade com eles através da violência aberta”. Sem dúvida, para os presos, a lei não é uma teoria ou uma idéia, porque vivem a brutal realidade. Alem disso, os que conhecem a história afro-americana nos Estados Unidos sabem que milhões de pessoas foram escravizadas legalmente. Houve leis distintas para os Africanos chamadas “Códigos de Escravos”, os quais reapareceram depois da Guerra Civil como “Códigos Negros” que penalizaram condutas como a vagabundagem, posse de armas, ausência de trabalho, gestos ou atos insultantes. Mumia sustenta que precisamente porque os advogados, desde a prisão, haviam desafiado a utilização da lei como instrumento de dominação, o ex-presidente Bill Clinton, em 1996, efetivou a aprovação de uma lei que limita os direitos dos presos para encaminhar apelações ou ações, e proíbe as indenizações punitivas por danos e prejuízos psicológicos ou mentais, em violação da Convenção Contra a Tortura. Aos “Códigos de Escravos” e aos “Códigos Negros”, comenta Mumia, se somam agora os “Códigos de Prisão”. Naturalmente, o livro revela muitos aspectos das condições nas prisões dos Estados Unidos, inclusive a tortura praticada ali: “O que milhões de pessoas vimos nas reflexões espeluzantes do Iraque não era outra coisa que uma edição exterior da realidade das prisões estadunidenses: lugares de tortura, humilhação e abuso -práticas exportadas dos infernos domésticos deste país a outros no estrangeiro”. Em que se distinguem os advogados licenciados em Direito e os advogados da prisão? O conservadorismo inerente a profissão, explica Mumia, se remonta aos dias quando os licenciados eram vistos como instrumentos da Coroa Britânica que só trabalhavam para os ricos. “Dos 56 homens que firmaram a Declaração de Independência (nenhuma mulher assinou) em 1776, 29 deles, ou aproximadamente 52 por cento, eram advogados ou juízes. Estabeleceram uma estrutura legal que protegia a propriedade, mas que depreciava a liberdade -pelo menos a liberdade do povo africano escravizado. Os advogados trouxeram com eles uma sensibilidade que está no coração da profissão, um conservadorismo inato”. De fato, os três primeiros presidentes de Estados Unidos eram aristocratas, ainda que sem título, e donos de escravos. “Estabeleceram uma estrutura legal para proteger a riqueza e o privilégio de sua classe”. Hoje em dia quando os advogados se apresentam, não são “oficiais da comunidade”, se não “oficiais da corte”. Sua lealdade não é ao acusado se não “a corte, ao banco, ao trono civil”. Isto explica, em parte, a grande distância entre o licenciado e seu cliente e a falta de confiança que o cliente lhe tem. É quase impossível que uma pessoa pobre tenha um bom advogado e ainda más difícil quando o acusado não seja branco. Os advogados desde a prisão, sem dúvida, têm uma relação diferente com o Estado. Em uns casos, até os advogados muito progressistas têm tomado o lado do Estado contra eles. Esclarece Mumia que em meio a histeria pós 9/11 sobre o anthrax, vários estados aprovaram leis que permitiram ao Estado abrir correio legal sem contar com a presença dos presos, em violação da Primeira Emenda da Constituição. A medida foi negociada com o apoio da liberal União Americana de Liberdades Civis (ACLU), mas, por fim, revogada graças aos duros esforços de três advogados desde a prisão -Derrick Dale Fontroy, Theodore Savage, e Aaron C. Wheeler. Por outro lado, é raro que os advogados desde a prisão negociem um caso. Não têm lealdade à corte, não são licenciados, e não têm ninguém a quem vender-se. Não são parte do “clube”. Com todo o apreço que Mumia têm aos advogados retratados neste livro, ele também assinala os limites de seus esforços. Aos finais dos anos 70, Delbert África lhe havia avisado de uma perigosa armadilha. Explicou-lhe que o problema reside em que muitos destes presos estudam a lei, acreditam na lei, acreditam que se aplica a eles, e quando se dão conta que o Sistema não segue suas próprias leis, que, ao contrário, a lei se faz e se rompe de acordo com o desejo dos juízes, enlouquecem. Mumia afirma haver conhecido uns presos que enlouqueceram precisamente por esta razão. Também conheceu uns que tem abusado dos presos que representam. Sem dúvida, o limite mais forte que ele assinala é a insuficiência de seus bons esforços para conseguirem mudanças fundamentais no sistema carcerário. Para acabar com este sistema, qualquer esforço para utilizar a lei contra o poder têm que ser parte de amplos movimentos dentro e fora das prisões para transformar a sociedade. Humilde, como sempre, Mumia apenas menciona seus próprios esforços como advogado autodidata que tem ajudado a outros presos a sair da prisão. Um deles é Harold Wilson, que escolheu o nome Amin e agora participa na campanha para libertar Mumia Abu-Jamal. Foi um dos convidados a falar no evento de 24 de abril passado na cidade de Nova York." (Este livro de Mumia Abu-Jamal está em promoção na citylights.com, por $11,87. Tradução > Juvei agência de notícias anarquistas-ana).

19 de jun de 2009

Oficina de criação poética com Ronald Augusto, em Porto Alegre

"Inicia no dia 2 de julho a Oficina de criação poética com o escritor Ronald Augusto. Os encontros acontecerão semanalmente, sempre às quintas-feiras, das 19h às 21h. Serão abordados conceitos e apresentadas propostas para aumentar o repertório e o desempenho da escrita criativa. Além de reforçar o valor da literatura como forma de ampliar a subjetividade e divulgar a riqueza da produção literária brasileira, a atividade pretende auxiliar os participantes a identificar no interior do poema (ou do texto) os elementos da função poética da linguagem. Ou seja, a ler, na obra literária, o que está de fato escrito desde um ponto de vista de forma-e-fundo, e não aquilo que se gostaria de ler. Ronald Augusto também trabalhará elementos como sonoridade, rima, ritmo, imagem, e outras figuras de linguagem. Mostrará como perceber que forma e conteúdo são inseparáveis, bem como a tomar consciência de que literatura - e a poesia mais ainda não é uma janela para o real, mas propõe um sentido provável para ele." Oficina de criação poética | 20 horas. Com o poeta Ronald Augusto. Quando: De 2 de julho a 3 de setembro de 2009, às quintas-feiras, das 19h às 21h. Informações / inscrições: http://www.fundacaoecarta.org.br/cap/linguagem_oficinas.asp Ronald Augusto é um escritor que atua em inúmeras áreas: é poeta, músico (integra a banda os poETs), letrista (parceiro de Marcelo Delacroix), ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicadas em revistas literárias, bem como em antologias, como: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue EUA (1995), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras. Entre essas publicações, um estudo referente à obra de Cruz e Sousa mereceu destaque e por este trabalho o escritor recebeu a Medalha de Mérito conferida pela Comissão Estadual para Celebração do Centenário de Morte de Cruz e Sousa. Além dessa premiação, ele recebeu ainda o Troféu Vasco Prado, conferido pela 9ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em agosto de 2001; e o Prêmio Apesul Revelação Literária, em 1979. Atualmente, Ronald Augusto realiza palestras, oficinas e cursos sobre música e poesia contemporânea e visual. Em 2007, ao lado do poeta Ronaldo Machado, criou a Editora Éblis, voltada para a poesia. É editor associado do site www.sibila.com.br. Entre suas principais publicações estão Homem ao rubro (1983), Puya, com a primeira edição em 1987; e ainda um dos seus mais recentes trabalhos, que recebeu o nome de Confissões Aplicadas (2004). Recentemente publicou pela editora Éblis o livro de poemas No assoalho Duro (2007).

18 de jun de 2009

Concurso para organizações e grupos de mulheres jovens na área de direitos humanos

Para começar o dia, peço desculpas aos (às) visitantes assíduos pela irregularidade das postagens e sigo explicando o motivo. Ainda não completei o primeiro mês num trabalho novo, o qual gosto muito, mas toma a maior parte do meu tempo. O que resta divido entre outros trabalhos já começados, a literatura - leitura, estudos, escrita e acompanhamento do processo editorial do livro novo; o descanso, a adaptação à cultura de trabalho das cariocas (tão diferente da minha, mineira paulistanamente formatada) e as outras coisas da vida. Muita coisa para pouco tempo, assim, escrever e pesquisar para manter a freqüência diária do blogue não tem sido possível e, é honesto dizer que não sei se voltará a ser. Portanto, sintam-se à vontade caso queiram espaçar as visitas por este espaço da blogosfera. Aproveito o espaço para divulgar o primeiro projeto coordenado por mim no novo trabalho. Trata-se do Edital do XI Concurso de dotação do ELAS - Fundo de Investimento Social, dirigido aos grupos e organizações de mulheres jovens do país (18 a 29 anos), no escopo do Consorcio Latino Americano e do Caribe de Fundos de Mulheres, com a parceria do Fondo Alquimia do Chile e do Fondo de Mujeres del Sur (Argentina, Paraguai, Uruguai) e com o apoio do UNIFEM - Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher. Todos os estados brasileiros podem participar e as inscrições para a seleção serão encerradas dia 15 de julho de 2009. Para saber mais e acessar o edital e o formulário de inscrição, vá até www.fundosocialelas.org Boa sorte!

17 de jun de 2009

Vida longa à moçada do Elo da Corrente!

O Sarau Elo da Corrente, não vou mentir, é a minha casa. Ali me sinto entre pessoas muito queridas e o amigo Michel, sempre generoso, é de um afeto comovente. Gosto da liberdade da dinâmica; do tempo que quem escreve tem para ler textos um pouco maiores; da transmissão do Sarau pela rádio comunitária e de imaginar reações de diversos sujeitos em casa, ao ouvir certos textos; da possibilidade de voltar e mostrar mais alguma coisa, quando a fila de leituras não está tão grande. Sempre que passo por São Paulo em dia de Elo da Corrente apareço por lá e, quando possível, com algo inédito. É um clima intimista que me agrada muito. Vida longa, amigos! Nestes dois anos aconteceram: 78 saraus no mesmo local; 22 lançamentos de livros; transmissão ao vivo pela Rádio Urbanos; criação de um selo editorial independente, com cerca de dez livros publicados e de uma biblioteca comunitária no bar do Cláudio Santista, que hospeda o Sarau. Exibição de filmes, teatro, música e realização de debates. Saraus em escolas, faculdades e centros culturais.

12 de jun de 2009

Cinco Vezes Favela, Agora Por Nós Mesmos.

(Por: Renata Sequeira). "Quarenta anos depois do filme Cinco Vezes Favelas ter entrado em cartaz, a favela foi cenário de vários filmes e temas de diversos documentários. Cada diretor traz a sua visão do que é a favela, mas faltava o olhar de quem a conhece de perto. Com essa idéia na cabeça, 229 moradores de diferentes comunidades participaram das oficinas de cinema e alguns irão se integrar a equipe do filme “Cinco Vezes Favela, Agora Por Nós Mesmos”. As oficinas que aconteceram durante os meses de abril e maio contaram com a presença de grandes nomes do cinema nacional como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e Fernando Meirelles que apresentaram o universo de uma produção cinematográfica. A turma foi dividida em diferentes áreas como: direção, produção, figurino e fotografia e os escolhidos já começam a trabalhar no início do junho. “É uma grande oportunidade para todos. A oficina nos permitiu conhecer de perto como funciona a estrutura de um filme e para nós é uma forma de democratizar o audiovisual, já que o cinema é feito exclusivamente pelas classes média e alta”, conta Wagner Novais, um dos sete diretores do filme, durante o encerramento do curso, que aconteceu nesta segunda-feira, 25, no Cine Odeon, na Cinelândia. Para Cacá Diegues, que coordenou as oficinas e produzirá o novo filme, a escolha da equipe, que vai participar das filmagens, será muito difícil: “Eu estou surpreso com o enorme empenho de todos. Esses jovens estão antenados com o seu tempo e têm uma curiosidade cinematográfica muito aguçada. A qualidade dos roteiros desenvolvidos por eles já mostram isso". O roteiro dos cinco episódios foi feito de forma coletiva, depois que a turma escolheu, por votação, o argumento que deveria ser roteirizado e filmado. Os diretores foram escolhidos em instituições (Observatório Favelas, CUFA, AfroReggae, Nós do Morro e Cinemaneiro) que já oferecem atividades relacionadas ao audiovisual. Cadu Barcellos, morador da Maré e integrante do Observatório de Favelas, escreveu e vai dirigir o episódio “Deixa Voar”. Ele quer mostrar as barreiras imaginárias colocadas em favelas com mais de uma facção criminosa. “Eu vou contar a história de um menino que estava soltando pipa e que acabou voando para uma comunidade de uma facção rival e ele resolve ir até lá. A idéia é mostrar essa barreira imaginária e passar uma mensagem de que ninguém é proibido de ir e vir”, conta o jovem. Já Manaira Carneiro e Wagner Novais, diretores do episódio “Fonte de renda”, querem contar a história de um jovem negro que vai para a faculdade. “Queremos abordar o cotidiano de um jovem morador de favela que consegue entrar na faculdade e todas as questões que enfrenta no seu dia-a-dia. Nosso intuito é falar de um personagem de cabeça erguida e cheio de autoestima”, explica Wagner. A expectativa em torno dos filmes é grande, como ressalta Cacá Diegues: “Não tenho nada contra filmes de cineastas de classe média sobre as favelas cariocas, eu mesmo já fiz alguns. Mas os filmes feitos pelos próprios moradores serão necessariamente diferentes; o ponto de vista deles é de quem vive e testemunha esse cotidiano. É desse novo olhar que espero que surja uma contribuição importante para este momento do cinema brasileiro”, conclui Cacá que, em 1961 dirigiu o episódio “Escola de samba, alegria de viver”. Manaira e Wagner são exemplos de como esses jovens respiram cinema. A primeira oficina que fizeram foi no ano de 2002 no projeto Cinemaneiro, que oferece audiovisual às comunidades do entorno da Linha Amarela. “Eu até agora não trabalhei com outra coisa, que não o cinema. Alguns resolveram entrar para a faculdade de cinema, outros não, mas em comum, todos correm atrás”, conta a menina que conciliou as oficinas, que acontecia todos os dias, com as aulas de Estudos da Mídia, na UFF. “A gente se mistura e cada um ajuda o outro. É assim que acontecem as coisas aqui. Essa fase agora é mais tensa, porque estamos escolhendo os atores que farão o filme. Eles não precisam necessariamente morar em favela, o critério para a escolha vai ser a qualidade para que o filme fique bom”, afirma Wagner. Além da parceria, eles têm o sonho de viver do cinema. “Eu acredito que agora as pessoas estão mais abertas para esse tipo de filme, que é importante para a construção da nossa identidade”, opina Wagner. “Na década de 60, o Cinema Novo imprimiu uma nova forma dos cineastas brasileiros fazerem cinema e retratarem a realidade do país. O Cinco Vezes Favela teve uma razão de ser naquela época. Era preciso mostrar como as pessoas viviam. A favela era um enorme problema social pouco registrado em imagens naquela época. Hoje, ela está mais integrada a cidade. Não precisamos mais mostrar o que é a favela, o nosso desafio é retratá-la através de um outro ponto de vista. É a hora da gente se representar”, fala Manaira."

9 de jun de 2009

Nigéria: a terceira maior indústria de filmes do mundo

(Do portal Terra, por: Ana Paula Sousa ) "Que Hollywood é a maior indústria de cinema mundial, todo mundo sabe. Que Bollywood, a máquina de fazer filmes indiana é a segunda, muita gente sabe. Mas quem apostaria que a Nigéria aparece em terceiro lugar nesse ranking? Pois o país africano produziu, em 2007, nada menos que dois mil títulos. Entre 1997 e 2005, foram feitos 6.221 filmes. Para escoar essa produção existem, no país, cerca de 500 mil locadoras de vídeo e distribuidoras. O caso das indústrias audiovisuais de Nigéria e Gana foi apresentado por Alessandra Meleiro, pós-doutoranda pela Universidade de Londres e pesquisadora do Cebrap, no V Encontro de Estudos da Cultura (Enecult), em Salvador. A vasta produção de filmes na Nigéria e em Gana tem, segundo Alessandra, influenciado outros países do continente, que também começam a olhar para o mercado cultural como uma possibilidade concreta. “Na Nigéria, o governo começou a dar apoio a essa produção”, diz a pesquisadora. “Mas, claro, os desafios ainda são muitos.” O video-maker Socrate Safo, de Gana, mexe em dezenas de filmes piratas De acordo com ela, há problemas de pirataria, baixa qualidade técnica, falta de infra-estrutura em todos os elos da cadeia e também ausência de escolas para preparar os profissionais. Boa parte dos vídeos nigerianos tem um quê de amadorismo. Mas, de alguma maneira, esse formato atende ao gosto do público, aos anseios de entretenimento da população. Como escreve Françoise Balogun, num dos livros da coleção Cinema no Mundo (Escrituras/Iniciativa Cultural), os filmes africanos, durante muito tempo, dependiam da ajuda financeira externa. “Isso levou a uma cinematografia em sintonia com os filmes de arte ocidentais, não necessariamente bem recebidos pelas massas africanas”, pontua Françoise. “O vídeo é uma resposta econômica a um desejo por imagens que sejam compreensíveis ao grande público”, aposta. Os filmes costumam mesclar comédia, suspense e ação. Geralmente, são longos, com três horas ou mais. E os blockbusters costumam ser seriados. “Hoje, todas as salas de cinema têm projetor de vídeo para poder atender a essa demanda”, diz Alessandra. “O vídeo começou como fenômeno urbano, mas rapidamente se espalhou pelo campo. Os vídeos de Gana são vendidos em sites e locadoras que atendem imigrantes africanos na Europa ou nos Estados Unidos.” Cabe observar que, lá, tudo é pirateado. Além disso, a lógica do mercado segue, estruturalmente, os princípios norte-americanos. “O produtor é o distribuidor e também o exibidor. O produtor, ao investir num filme, já tem o ponto de distribuição”, conta a pesquisadora. No fim, todos os filmes se pagam. Trata-se, ainda assim, de um mercado que movimenta a economia e que nos oferece lições sobre a produção alternativa de imagens num mundo marcado por um cinema hegemônico. “Gana e Nigéria enfatizam a participação do setor cultural na erradicação da pobreza”, diz Alessandra. “E, além dos filmes populares, há também os filmes de autor, que chegam a festivais internacionais e chamam cada vez mais atenção.”

7 de jun de 2009

Pesquisa revela que os homossexuais são o grupo que sofre mais discriminação nas escolas de Brasília

(Deu na Folha de 07/06/09, por: Jorge Werthein e Miriam Abramovay). "AS CIÊNCIAS biológicas, humanas e sociais avançam, e seus estudos fornecem, cada vez mais, elementos para derrubar mitos, tabus e preconceitos. Mesmo quando não apresentam resultados conclusivos, elas apontam para concepções e percepções mais razoáveis que as do senso comum, muitas vezes carregado de equívocos. No caso da homossexualidade, a biologia e a psicologia indicam, há muito, que não se trata de doença física, tampouco mental, como se tentou demonstrar durante anos. A sociologia e a antropologia, por sua vez, já demonstraram que as identidades sexuais são construções humanas, e sua aceitação e rejeição variam conforme tempo e espaço, ou seja, são relativas. Curiosamente, essas ideias parecem não ter ainda penetrado suficientemen te no seio da maioria das sociedades. O desvio de um padrão de comportamento sexual continua provocando estigma e discriminação. Mais uma pesquisa demonstra que as ciências têm passos mais céleres do que a sociedade em geral. Lançado há poucos dias em Brasília, sob os auspícios da Secretaria da Educação do Distrito Federal e da Ritla (Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana), o estudo "Revelando Tramas, Descobrindo Segredos: Violência e Convivência nas Escolas" apresenta dados e depoimentos que explicitam, uma vez mais, a homofobia no ambiente escolar. As autoras da pesquisa não têm dúvidas -até porque já realizaram estudos semelhantes em outros Estados- de que o problema afeta escolas de todo o país. Trata-se, portanto, de um fenômeno nacional e, certamente, internacional, como o comprovam outros tantos estudos, depoimentos e denúncias mundo afora. Para ter uma ideia, a recente pesquisa revela que os homossexuais são o g rupo que sofre mais discriminação nas escolas de Brasília: 63,1% dos entrevistados (em uma amostra de 10 mil estudantes e de 1.500 professores) alegam já ter visto pessoas que são (ou são tidas como) homossexuais sofrerem preconceito. Mais da metade dos professores também afirmam já ter presenciado cenas discriminatórias contra homossexuais nas escolas. O dado torna-se mais chocante quando 44,4% dos meninos e 15% das meninas afirmam que não gostariam de ter colega homossexual na sala de aula. É muito. E é grave. Cumpre reconhecer que o Brasil tem discutido a questão da homofobia. A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República lançou, no último dia 14 de maio, o "Plano Nacional de Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais", que contém 50 diretrizes e ações necessárias para garantir a igualdade de direitos e o pleno exercício da cidadania a esse segmento da sociedade brasileira. No entanto, a escola avança de forma muito mais lenta, como se observa na recente pesquisa. Apelidos grotescos, maus-tratos, ofensas e ameaças são constantes, implicando sofrimentos maiores. A pesquisa mostra também que, quando o tema é ser ou parecer homossexual, a violência é banalizada, naturalizada, não é vista como um grave problema, mas como brincadeira. Não há a percepção do desrespeito. As consequências da discriminação e do preconceito podem ser decisivas no desempenho escolar e para a autoestima dos estudantes. Sabe-se que eles perdem o interesse pela escola, como foi verificado na pesquisa, ou são transferidos constantemente de sala, de colégio, e a reprovação e o abandono escolar acabam sendo uma constante. A homofobia nas escolas, aliás, merece atenção especial no contexto de uma questão mais ampla, que a abrange: a das violências no ambiente escolar. Esse problema não tem recebido, ainda, a atençà £o devida por parte das autoridades responsáveis pela implementação de políticas públicas (a preocupação recente do governo do DF é uma das poucas exceções), e os educadores em geral mostram-se espantados e assustados. Urge que pais, professores, estudantes e funcionários das instituições de ensino organizem-se para construir ferramentas e estratégias pedagógicas de enfrentamento da homofobia no ambiente escolar, bem como das demais formas de estigma, preconceito e discriminação. Afinal, não há como negar o problema. É preciso que a sociedade avance e torne seu comportamento adequado ao que há de mais atual nas ciências biológicas, humanas e sociais."

1 de jun de 2009

História da África na sala de aula

PROGRAMAÇÃO: 7h30 – Credenciamento. 8h30 – Abertura: apresentação digital: “Novas bases para o ensino de História da África no Brasil” Carlos Moore Wedderburn (Universidade de Kingston, Jamaica) Coordenação: Iris Amâncio (NANDYALA Editora). 9h – Mesa-redonda: “O ensino de História da África” - “A História da África em manuais didáticos dos Países Africanos de Língua Portuguesa” Aracy Alves Martins – UFMG/Educação - “Representações sobre a África em livros didáticos brasileiros de História” Alex de Oliveira Fernandes (Prefeitura Municipal de Contagem – PMC/SEDUC) - “Impactos do ensino de História da África sobre o imaginário político-social brasileiro” Marcos Antônio Cardoso (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte – PBH/FCRCN) Coordenação: Prof. Frederico de Assis Cardoso (UNA/Pedagogia) 10h30 – Chá de Caxinde e Bate-papo Afro. 11h – Mesa-redonda: “História, identidade e prática pedagógica.” - “O papel da história e dos processos sociais na construção da identidade” Stefânie Arca Garrido Loureiro (PUC Minas/Psicologia) - “História da África e identidade negra brasileira” Dalmir Francisco (UFMG/Comunicação) - “Identidades culturais africanas: cosmovisão, tradição oral e ensino de História da África” Rosa Margarida de Carvalho Rocha (PBH/SEEMG) Coordenação: Iris Amâncio (NANDYALA Editora). 12h30 – Sessão de Autógrafos “Pedagogia da diferença: a tradição oral africana como subsídio para a prática pedagógica” (Rosa Margarida de Carvalho Rocha) “Identidade étnica em re-construção” (Stefânie Arca Garrido Loureiro).