Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de dez de 2010

Lula diz que quer seguir na política sem ser candidato

(Deu no Estadão). "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje, em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, que pretende continuar contribuindo na política sem precisar ser candidato. Ao comentar uma pesquisa feita em Pernambuco sobre o alto índice de aceitação de seu governo, Lula afirmou ter mais de 95% de bom e ótimo e disse que, com tamanho desempenho, 'só um doido' é que poderia querer voltar para a Presidência da República. 'Só um doido é que poderia querer voltar, porque essa performance Deus não dá de presente duas vezes para uma pessoa não. É um para cada um, meu filho', afirmou. 'Eu agora tenho que trabalhar para a Dilma ter a mesma sorte que eu tive, de ter a mesma relação com o povo que eu tive. E eu sei que ela é uma mulher guerreira, que ela tem disposição', disse. O presidente reafirmou a decisão de querer descansar e passar para frente aquilo que aprendeu no exercício do cargo. 'Tem muitas coisas boas que aconteceram neste País que eu quero socializar com a África e com a América Latina. E eu quero viajar muito pelo Brasil ainda. Sou um retirante nordestino que sei de onde eu saí, sei para onde vou voltar, sei como vive esse povo. E eu vou continuar contribuindo na política sem precisar ser candidato.' Lula condenou a antecipação do debate eleitoral e disse que a presidente eleita, Dilma Rousseff, pegou o país a 120 quilômetros por hora e que ela vai pisar ainda mais no acelerador. 'Para que ficar discutindo 2014, 2018, 2050? Vamos discutir 2011. O que interessa é discutir 2011. A Dilminha vai pegar esse País a 120 por hora. Ela parece que gosta de corrida', afirmou. '(Dilma) Vai apertar um pouquinho o acelerador e nós vamos correr mais rápido, gerar mais emprego, mais renda. Eu acho que o Brasil precisa deixar para discutir eleições quando tiver nas eleições. Só quem tem interesse de discutir eleição agora são meus adversários. Eles estão doidinhos para discutir eleição. Nós não queremos. A Dilma foi eleita para governar, não para discutir eleição.' E numa indireta ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmou: 'Eu deixei a Presidência para me calar e não para ficar discutindo eleição. Eu disse para você que quero ensinar como um ex-presidente tem que se comportar. E vou dar mais essa lição aos palpiteiros, que quando foram governo não fizeram e depois que ficaram de fora acham que sabem muitas coisas', concluiu".

22 de dez de 2010

Mãe Beata de Yemonjá, uma biografia

Sinopse: "Este livro é um longo depoimento dessa mulher que é fonte de inspiração e referência moral para tanta gente. O processo de criação partiu de uma série de entrevistas realizadas por Haroldo Costa em várias visitas à casa de Mãe Beata. Mãe Beata de Yemonjá escreve contos, poemas e relata histórias sedutoras sobre o mundo místico dos orixás e a vivência dos ancestrais. Antenada com tudo o que se passa em várias partes do globo, ela tem opinião formada, não se importando muitas vezes de ir contra a maré - especialmente quando se trata de direitos básicos da cidadania da mulher e das minorias, raciais ou sexuais. Hoje é uma referência, como guia espiritual e ideológica, não só para a comunidade negra do Brasil, mas também para outros povos. Com sua sabedoria, Mãe Beata ganhou o mundo. É sempre saudada com entusiasmo em palestras, seminários e conferências no Brasil e no exterior. Haroldo Costa relata um fato que aconteceu em Cuba e que lhe despertou grande emoção: "Tive a alegria de constatar isso pessoalmente, em maio de 2008, quando estávamos em Havana para participar do evento Cuba Disco cujo tema era a Diáspora Africana. Nunca havia estado com ela antes, se bem que já conhecia muito sobre a sua personalidade e sua importância no âmbito da comunidade religiosa e intelectual. A precisão e a elegância da sua dissertação, a sabedoria mansa, o movimento do seu corpo nas danças rituais compunham um quadro de extrema beleza que me fez pensar na riqueza que é a nossa herança cultural, um bem comum de todos nós, brasileiros." Aqui podemos conhecer um pouco mais das memórias e realizações de Mãe Beata, que revelam parte de acontecimentos marcantes de sua vida e de sua família, como de tantas outras originadas na África. Vale ressaltar também que a tradição da oralidade é habilmente explorada por Haroldo Costa, dando voz a Mãe Beata para ela mesma contar sua história em primeira pessoa, com graça, sensibilidade e verdade".

21 de dez de 2010

Manifesto de intelectuais e pesquisadores/as ativistas em apoio a Luiza Bairros para a Seppir

Prezados/as Após a confirmação da indicação da socióloga e ativista Luiza Bairros para a SEPPIR, encaminho abaixo e em anexo um Manifesto de intelectuais e pesquisadores/as ativistas em apoio a Luiza Bairros para a Seppir. Apresento em seguida o primeiro conjunto de assinaturas. Segue o link para o Manifesto: http://www.peticaopublica.com.br/?pi=bairros1 Pretendemos entregá-lo à Presidente e à Secretária logo depois da posse. Cordialmente Alex Ratts – antropólogo – LaGENTE e NEAAD/UFG "Nós, intelectuais, pesquisadores/as e ativistas que trabalhamos nas Instituições de Ensino Superior (IES), públicas e privadas, no campo das relações étnico-raciais, da história e ensino de história da África e dos descendentes de africanos no Brasil, das políticas públicas para a diminuição das desigualdades de raça e gênero entre as quais as Ações Afirmativas para a população negra, manifestamos o nosso apoio à indicação da socióloga Luiza Bairros para ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial por sua reconhecida trajetória de ativismo, estudos e gestão pública. A professora e socióloga Luiza Bairros é reconhecida com uma intelectual com uma contribuição original e profunda no referido campo de estudos e atuação desde o final dos anos 70. Trata-se de umas das principais intelectuais de sua geração, juntando-se as gerações anteriores de intelectuais negros no campo da militância e da reflexão acadêmica, como Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento, Eduardo de Oliveira e Oliveira, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Milton Santos, Neusa Santos Souza e outros. São históricas, portanto, as articulações entre ativismo e reflexão acadêmica, sendo a socióloga Luiza Bairros uma das expoentes. Avaliamos a importância da liderança de Luiza Bairros e colocamos a disposição dela e da SEPPIR a contribuição acadêmica e intelectual (não somente realizadas em espaços das universidades) de um conjunto de pesquisadores/as que nas últimas décadas têm contribuído na reflexão sobre as desigualdades sócio-raciais e as formas de superação. Neste sentido, indicamos nossa vontade e empenho em ampliar e aprofundar as possibilidades de articulação da gestão pública com a produção intelectual e a pesquisa nesse campo, particularmente o que se volta para interpretações e análises do pertencimento étnico-racial como fundamental para o entendimento das desigualdades sociais, do racismo em intersecção com o sexismo, a homofobia e outras formas desumanização e da construção coletiva e individual de pessoas negras como sujeitos históricos. Aproveitamos a oportunidade para relembrar os acordos de combate às desigualdades raciais firmados pelo governo brasileiro na última década tanto em foro nacional quanto internacional, o que será possível principalmente pelo destaque a ser dado à SEPPIR no próximo governo no que diz respeito tanto à alocação de recursos quanto à nomeação de uma pessoa historicamente comprometida com o ideal de transformar o Brasil num país equânime, que, reconheça e respeite as diferenças. Proposições: 1 - Ampliação do orçamento da SEPPIR; 2 - Ampliação do quadro qualificado da SEPPIR para desencadear, liderar e sustentar as ações de transversalização do enfrentamento ao racismo via políticas públicas; 3 - Comprometimento da Presidente e de todo o governo com o anti-racismo: liderança e sinergia com diferentes setores das políticas e sociais; 4 - Diálogo democrático com diferentes setores da sociedade civil, em especial os movimentos sociais; 5 - Necessidade urgente de redução das taxas desproporcionais de mortalidade da população negra, em especial, jovens homens e mulheres; 6 - Efetivação das políticas públicas previstas para as comunidades remanescentes de quilombo; 7 - Apoio às ações afirmativas para a população negra na educação e no trabalho; 8 - Apoio à pesquisa na área de relações raciais em intersecção com gênero e outras categorias e variáveis".

20 de dez de 2010

Telma peitou o sistema do livro-enlatado

(Deu no Brasil de Fato, por Sidnei Schneider). Escritora despejada do apartamento, depois de viver alguns anos do seu trabalho, denuncia na Feira do Livro de Porto Alegre o sistema literário e a ação dos monopólios. "O que a escritora e mestre em literatura Telma Scherer fez na Feira do Livro de Porto Alegre, através da denúncia da casinha de cachorro do escritor e da elegância das bolinhas de sabão da sua performance, foi apontar o dedo na testa dos lançadores de livros estrangeiros enlatados, que acabam por definir toda a cadeia produtiva do livro no Brasil, com reflexos nas feiras e bienais, nas editoras e livrarias, e na vida de todo escritor e leitor. Ao dizer aos policiais e ao público que a truculenta ação daqueles estava “mandando as pessoas para casa ler Dan Brown”, ela sabia do que falava. Também, quando declarou nas entrevistas que o protesto não era “contra uma pessoa ou instituição”, mas “contra o sistema literário”, e “se o chapéu serviu em alguém” não podia fazer nada. Perdoem-me alguns amigos, mas o alcance desse protesto não pode ser reduzido ao espaço geográfico de uma praça ou cidade. Minimizá-lo assim é ainda nos deixar levar por um sentimento provinciano a ser superado. Há cerca de um par de décadas, corporações globais com uma prática de arrasa quarteirão passaram a jogar pesado no mercado nacional, um dos maiores do mundo apesar do ainda reduzido hábito de leitura dos brasileiros. Setor altamente monopolizado, os doze maiores grupos editoriais do planeta, segundo pesquisa da consultoria Euromonitor, são responsáveis por 52% das vendas em 19 países de grande mercado, incluído o Brasil. Os quatro maiores (Bertelsmann, Thompson, Pearson e Vivendi) detêm 36%. O monopólio francês Vivendi (Laboratório Roche, Nestlé, Água Perrier, Pure Life) controla aqui as editoras Ática e Scipione, desnacionalizando o setor do livro didático. A transnacional Santillana, espanhola como as editoras Planeta e Oceano, é dona da Moderna, também especializada em livros didáticos, e controla 75% da Objetiva. O grupo Record (editoras Record, Bertrand, Civilização Brasileira, José Olympio, Best Seller e Verus) seguidamente é sondado pelo capital estrangeiro, para o qual não existem barreiras legais, como no Canadá. Desde 2003, das dez maiores editoras locais, sete são estrangeiras. Editando uma enxurrada de publicações de baixa qualidade, esses grupos têm comprado o passe de escritores brasileiros importantes, mas nada garante que não os abandonem na primeira oportunidade. Com campanhas milionárias de divulgação, fazem o seu produto, papel encadernado com textos pífios, aparecer nos grandes jornais, revistas semanais ou pseudoculturais e programas de tevê. O até então desconhecido autor internacional será objeto de entrevistas e, se possível, comparecerá a feiras e bienais do livro. De maneira que até o único jornal de uma cidade pequena, impotente ante a avalanche, vai tomar espontaneamente esse livro como tema. Essa ação, pensada globalmente desde fora do nosso país, acaba fazendo com que o distribuidor aposte mais nesses títulos (se já não for oligopolizado), a megastore os priorize nas suas geralmente péssimas revistas, grande parte dos livreiros (os guerreiros da cultura e do saber estão minguados, mas ainda existem) os coloque nas vitrines ou nas bancas de alguma feira. Ficando prejudicada a literatura brasileira e o que de bom poderia nos chegar de fora. O leitor, de sua parte, compra um livro do qual pelo menos já ouviu falar. A inocência nos impede de pensar que o jabaculê corre solto para que o produto se afirme e comece a aparecer na lista dos mais vendidos da Veja. A mensagem da lista é clara: se todo mundo está comprando o livro deve ser bom, compre-o também. Assim, depois de algum tempo, o que era mera sugestão começa a se aproximar da realidade de vendas, mesmo que o leitor depois se frustre ou nem leia o livro, como demonstram pesquisas em outros países. No dia em que escrevo, sem entrar no mérito de cada obra, dos vinte livros de ficção mais vendidos, apenas quatro são de autores brasileiros. A tiragem gigantesca dos livros enlatados barateia o custo gráfico-editorial unitário do produto para bem menos do que 10% do preço de capa, sem nenhum reflexo para o consumidor. Ao contrário, quanto mais dominam a área, mais livres se sentem para colocar o preço que quiserem, nunca transferindo a isenção de impostos a que o livro faz jus. Na verdade, encarecem o custo de produção e o preço final de todos os outros livros editados no país. Como? Vejamos: depois do furacão global de alto faturamento, sobra o quê para o “mercado”? Tentar colocar edições de mil a três mil exemplares em todo o país, sem nenhum carro chefe de vendas como uma vez o foram Jorge Amado e Erico Verissimo, e, mais recentemente, um ou outro como Cristóvão Tezza, ao conseguir emplacar uma edição (este pela Record, o maior grupo editorial de literatura do país). Em escala pequena, uma atividade muito mais trabalhosa, e o que é pior, em condições completamente injustas quanto à publicidade. Edições pequenas saem unitariamente mais caras, e para vendê-las, pagar as contas e obter um mínimo de retorno, também não são oferecidas por um valor menor. Além de tudo, muitas empresas quebram e são engolidas. O autor brasileiro, que recebe apenas 10% do preço do livro vendido, não raro é convidado a esperar ou a renegociar o pouco que lhe caberia. Quando não, a pagar à editora para ser publicado. O país perde com a menor circulação de idéias e da verdadeira arte literária. O escritor, o poeta, aquele que trabalha três, cinco, dez anos para finalizar uma obra, mesmo tendo conquistado o apreço dos leitores e o seu espaço enquanto autor reconhecido, como é que fica? Ou vai trabalhar em outra área ou vai ficar sem condições de vida, semelhante ao que aconteceu a Telma. Exceções existem, mas dependem exageradamente da visibilidade do autor na mídia, quase sempre os que nela trabalham. Assim, se você, depois de alguns anos tentando viver da escrita, perdeu a sua casa, os seus móveis, teve que enviar os livros para a casa dos pais no interior e, o pior do pior, ficou sem local de trabalho para, como no caso de Telma, terminar um romance, deve agradecer aos céus, e não ir para a Feira do Livro com uma performance artística que sensibilize o público. Esse é o recado de quem chamou a Brigada Militar. A nota oficial da Câmara Rio-Grandense do Livro, endossando a versão de que a Brigada Militar foi chamada por “mãe e filho cadeirante que não conseguiram prosseguir em um corredor do evento” não é das mais edificantes que essa instituição já emitiu. Os policiais talvez não tenham entendido o recado de Telma, mas seguramente ele não estava fora do alcance dos organizadores da Feira. Melhor avaliar bem de que lado se está nesse jogo: do lado das corporações, submetendo-se a elas, e correndo o risco de mais tarde ser engolido, na medida em que cada vez mais compram empresas brasileiras em dificuldades, ou do lado dos escritores e produtores, da arte e da literatura, e da própria economia nacional. Em suma, da civilização ou do que leva à barbárie. Não dá para fazer nada? Dá sim, a grande repercussão do caso e a solidariedade que Telma recebeu o demonstram. E o novo governo federal precisa tratar urgentemente da questão livro. Pode demorar um pouquinho resolver tudo isso, mas já nos livramos de coisas bem piores como sabe o leitor". (Sidnei Schneider é poeta, tradutor e contista).

18 de dez de 2010

À flor da pele, um espetáculo de Ismael Ivo, em Salvador

O Balé Teatro Castro Alves (BTCA) encerra no domingo, 19 de dezembro, o Panorama BTCA 2010, uma retrospectiva das montagens realizadas neste ano pela companhia. Esta última performance do ano integrará o projeto Domingo no TCA, que desde 2007 apresenta grandes espetáculos ao preço popular de R$ 1,00 (inteira), vendidos no mesmo dia, a partir das 9 horas, com acesso imediato do público. O BTCA apresentará a coreografia À Flor da Pele, criação de Ismael Ivo, um dos mais renomados profissionais da dança em todo o mundo. O espetáculo terá início às 11 horas e contará com a participação especial da Orquestra 2 de Julho, integrante do Neojibá, executando a trilha sonora, formada por obras do compositor austríaco Gustav Mahler. Também no domingo, haverá o lançamento do Catálogo BTCA 30 Anos, publicação comemorativa às três décadas de existência da companhia, que serão completados em 2011. O catálogo será disponibilizado para instituições ligadas à cultura, principalmente das áreas de dança e artes cênicas. As entidades interessadas devem enviar um e-mail para btca@tca.ba.gov.br. Os representantes de instituições que estiverem presente à apresentação do BTCA no domingo poderão fazer a solicitação no local, preenchendo uma ficha de cadastro. O Panorama BTCA 2010 teve início nos dias 4 e 5 de dezembro, com a montagem 1POR1PRAUM, criada pelo diretor artístico da companhia, Jorge Vermelho, sob supervisão da coreógrafa Renata Melo. Já no dia 16, foi apresentada a coreografia A Quem Possa Interessar, criada por Henrique Rodovalho. HISTÓRIA Produzido pela Secretaria de Cultura do Estado, Fundação Cultural, Teatro Castro Alves e BTCA, o Catálogo BTCA 30 anos reúne textos e imagens que resgatam a história da companhia baiana, criada em 1º de abril de 1981, como a quinta companhia oficial de dança do país e a primeira do Norte/Nordeste. Personalidades ligadas à dança, como Lia Robatto, Lia Rodrigues e Ana Teixeira, contribuem com depoimentos para o Catálogo, que destaca, ainda, os últimos quatro anos, quando a companhia deixou de ser apenas um grupo de dança, para se tornar um grande centro de criação, com os bailarinos atuando também como criadores, colaborando com as montagens do balé com as suas experiências individuais. Tal processo visou não somente ao fortalecimento do BTCA, como também valorizar o caráter já identificado ao longo do tempo, com exemplos dados por bailarinos que deixaram a companhia e passaram a desenvolver projetos próprios e relevantes na área da dança, como a bailarina e coreógrafa Cristina Castro, que criou em 1998 a Cia Vila Dança, e Eliana Pedroso, bailarina e produtora, que criou e dirigiu o Ateliê de Coreógrafos Brasileiros. À FLOR DA PELE Uma coreografia de Ismael Ivo, um dos mais renomados profissionais da dança em todo o mundo, sob direção artística de Jorge Vermelho, a montagem estreou no final de outubro na Sala Principal, durante o Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia (Fiac). As apresentações contaram com a Orquestra 2 de Julho, integrante do Neojibá, responsável pela execução da trilha sonora composta por obras de Gustav Mahler. O espetáculo À Flor da Pele tem como proposta utilizar o corpo como um passaporte e como um documento do tempo atual, identificador de momentos importantes de mudanças. Qual o fato ou situação na vida de cada um, onde você se depara num beco sem saída? Qual o evento mais marcante onde a vida de cada um dá uma guinada? Para o bem ou mal, somos forçados a rever coisas, mudar, transformar, fazer metamorfoses. O que faz você ser o que você é está escrito no seu corpo. Um corpo que em face de reconhecer sua existência e condição mortal usa a arte da dança para deixar uma mensagem e dança uma batalha para deixar marcas profundas.

14 de dez de 2010

Mazembe, primeiro time africano em uma final de mundial interclubes de futebol

Desculpe, Tinga, mas o povo sofrido da República Democrática do Congo merecia esta vitória insofismável! Embora a imprensa esportiva aqui no Brasil, com problemas no cotovelo, ande dizendo que o time de vocês deu vexame, passou vergonha... vimos jogos diferentes! Eu vi um Mazembe aguerrido, técnico e eficiente. Como resultado, ganhou o jogo. Qual é o problema? Será o fato de os meninos serem pretos, fortes e africanos? Avante, África!Já somos especialistas em zebras. O Internacional já foi, que venha o Internazionale.

A ocupação da Seppir por Luíza Bairros significa um novo tempo?

(Por Fátima Oliveira). "Leio a indicação da socióloga Luíza Bairros como a carta de alforria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Luíza Bairros não precisou do meu apoio para ser indicada ministra do governo Dilma Rousseff. Nem eu esperava que precisasse. Entendo como prerrogativa presidencial escolher livremente quem ocupa qualquer cadeira de seu ministério, pois ser ministra (o) é cargo de confiança da chefia do Executivo. Aliás, eu não me dou nenhum milímetro a mais de importância, além da condição de cidadã. E está de bom tamanho. Logo, não me arvoro de querer ser a régua de qualquer escolha do primeiro ou do último escalão da Presidência da República. Todavia, na condição e a partir do meu olhar de cidadã, exerço o direito de externar a minha opinião, inclusive sobre a composição ministerial. Numa boa! Quem credenciou Luíza Bairros para ocupar a Seppir foi a sua ilibada história de vida, sua dedicação descomunal à luta feminista e antirracista, desde que eu a conheço, nem sei de quando, mas faz tempo... A Seppir está em boas mãos. A notícia é alívio e alvíssaras. Parabenizo a presidente pelo acertado tino da escolha de uma ministra da categoria moral, técnica e política de Luíza Bairros. Ao escolhê-la, Dilma Rousseff fez um gol de placa. Se há um "ministério da Dilma" que será ocupado (e o termo é "ocupação"...) por quem entende do riscado de sua pasta é a Seppir... Ela e Dilma Rousseff são parecidíssimas: firmes como rochas e dotadas da inquebrantável têmpera do bambu. Se o passado de alguém é parâmetro para especular sobre o futuro, antevejo novos tempos para a Seppir, sobretudo o cumprimento do seu papel original. E nunca mais o vergonhoso e repugnante amontoado de caixinhas de interesses de algumas forças políticas que atuam no varejo e desordenamente; cada uma mandando em sua semana; os deuses e o diabo tomando conta do resto; e servindo de chacota na Esplanada dos Ministérios - não só por racismo em seu sentido lato, mas também pela escassa habilidade técnica e política de grande parte de ocupantes de cargos de DAS não desprezíveis! A minha expectativa é que o tempo Seppir-gueto-latifúndio está morto e sepultado! E Luíza Bairros sabe perfeitamente do que falo. Se eu a conheço bem, assistiremos a uma refundação da Seppir. Como negra liberta e altiva, de tutano nas pernas e cabelo na venta, dará tchau caso não tenha apoio presidencial irrestrito para mandar em seu pedaço - da escolha de pessoas confiáveis para o provimento dos cargos a não emprestar o prestígio do seu nome para acobertar quem não dá conta do recado, pois a sua reputação não foi escrita nas dunas. Está dada a largada da corrida pelas disputas de cargos na Seppir por quem acha que só perdeu os anéis e quer conservar os dedos. E ela será bruta, sem dó e sem senso de limites. Segura, Luíza! Das montanhas de Minas, penso que chegou a hora de a Seppir fazer política: mandar convalescer em casa quem teve os dedos decepados e montar uma equipe de excelência para tornar a Seppir um espaço, no Executivo federal, de poder de prestígio que lê a realidade sob a perspectiva antirracista; elabora e propõe políticas de combate ao racismo para os demais ministérios, ao mesmo tempo em que monitora as ações da alçada de cada um. Se o governo Dilma pensa assim, indicou a pessoa talhada para tanto. Luíza Bairros tem o perfil de quem pode concretizar a carta de alforria da Seppir em benefício do povo negro brasileiro".

13 de dez de 2010

O terremoto no Haiti trouxe mais violações e gestações indesejadas

(Por Maye Primera Enviada especial a Porto Príncipe - Haiti). "O índice de gestações na área metropolitana de Porto Príncipe subiu e 4% para 12% As parturientes que não gritam no Hospital Isaïe Jeanty de Porto Príncipe, cantam. Cantam a primeira coisa que lhes vem à garganta. Cantam "konpa", esse ritmo entre a "soka" e o "reggae" que tanto toca na rádio haitiana e que os candidatos usam para buscar votos. Cantam caídas ao chão, nos corredores. Cantam até merecer, a poucos minutos de trazer mais um filho ao mundo, uma das seis únicas camas que há na sala de partos. Depois, com a criança, vem o silêncio. E se não houver complicações depois de seis horas, estão de volta à rua, buscando uma maneira de voltar para casa. Após o terremoto de janeiro passado, a música se multiplicou nas maternidades da capital haitiana. Nos últimos dez meses o índice anual de gravidezes na área metropolitana de Porto Príncipe, a mais afetada pelo terremoto, aumentou de 4% para 12%, de acordo com os números do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA na sigla em inglês). O Hospital Isaïe Jeanty está para arrebentar, e elas também. Há oito mulheres em trabalho de parto ainda sentadas na sala de espera, tentando ritmar a respiração. Outras seis estão no corredor, deitadas no chão, secando com um trapo o líquido que brota de seu corpo. Em condições normais, uma parturiente com cinco centímetros de dilatação estaria hospitalizada. Neste hospital sem leitos suficientes elas são deitadas quando atingem os oito cm de dilatação, quando a criança já está para nascer. Pelo menos não contraíram cólera. No centro para o tratamento da epidemia da Médicos Sem Fronteiras, que funciona no pátio do hospital, há todos os dias dez mulheres ligadas a bolsas de soro, nuas, com espasmos, vomitando. Quase todas perderam seus bebês. O doutor Felipe Rojas López, chileno de 27 anos, é um dos médicos que as atende: "As grávidas chegam aqui em condições muito ruins, e com esse nível de desidratação o fluxo de sangue para o feto é precário. Por isso a maioria dos bebês morre no útero e é preciso tirá-los". Os que nascem vivos sempre precisam ser reanimados; as mães dos que nascem mortos também. Mas nem para todas foi uma boa notícia a chegada de mais um filho à casa. "Cerca de dois terços dessas gravidezes são indesejadas. E em 1% dos casos houve violência sexual no momento da concepção", diz Igor Bosc, representante no Haiti do Fundo de População das Nações Unidas. Até 2005 a violação intrafamiliar não era considerada crime neste país. Para alguns dos homens haitianos que vivem nos acampamentos de refugiados, ainda não é. As violações de mulheres e meninas, enquanto vão às latrinas ou buscar água à noite, é cada vez mais frequente. O terremoto de 12 de janeiro destruiu a maior prisão do país e milhares de presos ficaram livres. Durante aquelas noites de janeiro os acampamentos estiveram mais inseguros que nunca. Mas a maioria das mulheres não admite que foi violada. Muitas nem sequer se atrevem a admitir que vivem em um refúgio, quando aos nove meses se registram na maternidade. Dão os endereços das casas que já não existem, as que desabaram durante o terremoto. Medianite Benjamin Paul, a enfermeira de plantão nesta segunda-feira à tarde no Isaïe Jeanty, faz o teste: tenta procurar uma mulher que viva em um acampamento entre as 14 novas mães que esperam para ir para casa. Volta com a resposta: "Preferem não dizer que vivem nos acampamentos porque têm vergonha. Sabem que as que vivem lá estão estigmatizadas e não querem sentir rejeição". Só Maigala Fiseme, 34 anos, os ombros cobertos por uma pele muito fina, diz que sim: ela vive no acampamento Boutillier, muito perto do bairro de Carrefour, onde sua casa desapareceu em 12 de janeiro. Maigala nunca trabalhou e seu parceiro - "Como poderia dizer?", pensa enquanto procura a palavra apropriada -, seu parceiro se dedica a remover escombros em busca de vigas, metais em geral que possa vender por peso. Este que vai ter seria seu terceiro filho, se os dois anteriores estivessem com ela: a primeira morreu há anos, muito pequena; o segundo vive com seu pai, fora do Haiti. Agora não lembra a sensação de quando soube que estava grávida. "Foi muito sofrimento, do corpo e da vida." E já decidiu como vai chamá-lo? Se for homem, Gerson. E se nascer menina, Maigardine. Esse é o único instante em que Maigala sorri". Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

11 de dez de 2010

Luiza Bairros no Governo Dilma

"A atual secretária estadual da Promoção da Igualdade Racial, a socióloga gaúcha Luiza Bairros, acaba de ser confirmada ministra da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial do governo Dilma Rousseff. A indicação é uma vitória do Movimento Negro baiano, principalmente das mulheres negras, do governador Jaques Wagner, que se comprometeu com o movimento negro antes das eleições em fazer gestões junto à presidente eleita para que a Sepir viesse para a Bahia depois de oito anos de governo Lula, quando ficou entre Rio e São Paulo, e também do grupo do deputado federal baiano Luis Alberto, um dos nomes que haviam sido cogitados para assumir o cargo. A nomeação do primeiro nome da Bahia para o ministério Dilma atende à exigência de gênero feita pela presidente. Bairros será a primeira mulher negra do governo Dilma. Neste momento, Bairros se encontra no evento do Topa, que acontece na Assembleia Legislativa, ao lado do presidente Lula, recebendo muitos cumprimentos". Fonte: Política Livre

7 de dez de 2010

Cidinha da Silva no V Encontro de Arte de Matriz Africana

(Texto de divulgação). "O Encontro de Arte de Matriz Africana, realizado ininterruptamente desde 2006, tem se firmado no calendário cultural da cidade de Porto Alegre, trazendo uma reflexão sobre o momento atual da arte negra e da diversidade cultural brasileira. Este ano, o Encontro foi contemplado com o Prêmio FUNARTE Festivais de Artes Cênicas. Organizado pelo Caixa-Preta, o Encontro de Arte de Matriz Africana é uma celebração à brasilidade, marcada pela afirmação das múltiplas identidades populares e das tendências contemporâneas de companhias de teatro e dança negras no Brasil. Visa a promover uma aproximação entre as diversas modalidades artísticas de matriz africana: teatro, dança, artes plásticas e cinema do Rio Grande do Sul e do Brasil, possibilitando a troca de experiências, pesquisas estéticas e conhecimentos, ocupando espaços tradicionais dedicados as artes cênicas. Desde sua primeira edição, o Encontro tem a curadoria de Jessé Oliveira, diretor do Grupo Caixa-Preta, responsável pela concepção e coordenação do evento. Nesta edição, estarão presentes os seguintes espetáculos: Orirê (12), Os Sete Ventos (09), O Cheiro da Feijoada (12), e Cia. de Dança de Rubens Barbot (10), do Rio de Janeiro; Ponto Riscado (11), de Belo Horizonte; Negro de Estimação (08), de Recife; O Samba do Crioulo Doido (09), de São Paulo, junto aos espetáculos gaúchos Chão (10), Dois Nós na Noite (12), E Se África (11), Minas de Conceição Evaristo (10), Negrinho do Pastoreio (11) e o espetáculo musical Estandarte do Samba (11). Também serão realizadas oficinas com Gil Amâncio (BH), Carmen Luz (RJ) e Edson Cardoso (DF) e debates com Julio Moracen (Cuba), Ângelo Flávio e Evani Tavares (Salvador), Cuti e Maria Gal (SP), Cidinha da Silva (RJ), Wagner Carvalho (Berlin), e Cristiane Sobral (DF). Ainda está prevista a estréia de Dois Nós na Noite, de Cuti, com o Grupo Caixa-Preta, interpretação de Adriana Rodrigues e participação especial de Márcio Oliveira e direção de Jessé Oliveira. Durante o Encontro será lançada a Revista Matriz, dedicada às artes de performance afro-brasileiras com artigos e ensaios dos mais importes investigadores da arte negra brasileira. Entre os nomes que já estiveram no Encontro, desde sua primeira edição, podem ser citados: Rui Moreira (BH), Edson Cardoso (DF), Luiz de Abreu, Maria Gal, Jose Fernando Azevedo, Sidney Santiago (SP), Toni Edson (Florianópolis), Evani Tavares, Ângelo Flávio (Salvador), Hilton Cobra (RJ), Julio Moracen (Cuba) Daniel Amaro (Pelotas), Cia Os Crespos (SP), entre outros. Todas as atividades artísticas são gratuitas para o público nos seguintes locais: Teatro de Arena, Teatro Renascença, Sala Álvaro Moreyra e Teatro de Câmara Túlio Piva". A Cia. de Rubens Barbot, que há 15 anos não se apresneta em Porto Alegre, é atração no dia 10, no Renascença (Foto: Divulgação) Ficha Técnica - Realização: Grupo Caixa-Preta e Associação dos Amigos do Teatro de Arena / Financiamento: FUNARTE / Parcerias: Associação dos Amigos do Teatro de Arena - Teatro de Arena - CAC – Coord. de Artes Cênicas / Secretaria Municipal da Cultura Porto Alegre - Xirê – Jogodedança - Africanamente / Coprodução: Yahya Produções Artísticas / Coordenação geral e curadoria: Jessé Oliveira / Coordenação de produção: Nina Fola / Assistente de Produção: Mário Oliveira / Coordenação dos debates: Vera Lopes / Coordenação de recepção: Josiane Acosta / Logística de espaços: Adriana Rodrigues / Organização de oficinas e palcos: Robson Duarte / Técnica: Miguel Tamarajó (Jacka) - Paulo Rodriguez

Cidinha da Silva no Quilombaque, em São Paulo, dia 12/12

Sobre Nilismo e Negritude, do Camaronês Celestin Mongá

(Por Sérgio São Bernardo). "Acabo de ler o livro Nilismo e Negritude do Camaronês Celestin Mongá. Acho uma boa leitura para os nossos continuados dias de diáspora e busca de sentido identitário e emancipatório. Um debate que aparecerá num futuro próximo face aos novos caminhos trilhados por nós mesmos nos últimos anos. Mongá traça um relato muito singular e amplo de sua visão sobre a África moderna. Uma desmontagem propositada das perspectivas essencialistas, culturalistas e desenvolvimentistas que povoam a África e a diáspora nas últimas décadas. Citando Senghor, Mongá faz seu acerto de contas sobre a sua África: ousa a refletir sobre uma herança frágil e cética fundada na afirmação da negritude e na negação ao colonialismo; admite precisar entender este momento pós-revolucionario e buscar o modo como os de sua geração devem seguir e conquistar a vida digna a partir desse lugar. Um lugar amplo e diverso que não sintetiza a África unida que pensamos existir; de uma superação de um nilismo ascético desumano e festivo quem tem nos proporcionado em alguns momentos traços de quietude e conformação. Em Nilismo e Negritude, Mongá fala com destreza e abrangência filo-antropológica de uma África contemporânea por meio de uma viagem ao cotidiano. Divaga sobre a auto-estima, as heranças coloniais, a culinária, a ética, a religião e a sexualidade. E ainda comenta acidamente sobre as responsabilidades dos governos despóticos e programas autoritários que têm perpetuado altos índices de miserabilidade na África pós revolucionária sustentada por uma elite negra, esclarecida e rica. Entretanto, o autor aprende com suas próprias contradições e acaba por aceitar de modo paradoxal os ensinamentos sobre a economia do casamento, do uso do corpo e da morte como substratos legítimos de uma África reinventada pelos africanos da atualidade. Aqui nos trópicos, muita coisa tem acontecido e revelado consistências e fragilidades, aberturas e fechamentos. A história de luta e resistência é plasmada em recorrentes abandonos da identidade e da incapacidade de homogeneização ideológica. Algo que podemos chamar de um nilismo negro brasileiro. Cada um traça, em suas individualizadas dezenas de partidos, grupos e subtendências, a osmótica partilha do programa salvacionista e os transformam em poderes os mais distintos e valorativos. Ninguém está errado. Até porque, parte do que fizemos na episteme da luta emancipatória no Brasil tem nos trazido mais vitórias do que derrotas. Então, o caminho histórico não é de todo desprezível. Temos um debate que precisa ser refeito permanentemente para além de onde nos encontramos agora, num fosso intranqüilo em face dos discursos da identidade nacional, da miscigenação e da cordialidade corroborado por altos índices de pobreza e violência. Parece que estamos lá adiante, entretanto, nosso irmão está lá atrás e não sabemos se o esperamos ou continuamos avançando. Na diáspora nacionalista afro-brasileira todos ostentam gestos e valores pensando estar dando mais um passo para algo que seja grandioso e que servirá a todos. Outros simulam jogos e negociam interesses, os mais plurais, aliados às identidades não necessariamente sócio-raciais e/ou emancipatórias. Tenho ouvido e presenciado muitas opiniões que se confrontam na tática e, depois, se dialetizam na estratégia e vice versa. Existe uma persistência romântica de que tudo que fazemos deva ser homogêneo e universalista. Do mesmo modo, a nossa herança metafísica e imanente agora tem nos dado, provisoriamente, um ar de resistência e protagonismo político frente a um Estado que teima em não saber a distinção preconizada por Chateau Mouffe de que uma coisa é o diálogo entre o Estado e a Igreja, outra é o diálogo entre política e religião. Esta quadratura dicotômica tem sido o novo cenário da luta política na América Ibérica e nós estamos usando. Mongá fala, citando Mudimbe, que a invenção da África forçou um diálogo inexistente entre um essencialismo identitário e um universalismo racionalista. Isso o levou a admitir que o futuro planetário, o papel do continente africano e sua diáspora ainda estão por ser empreendidos. Uma parte do mundo emergente está mesmo usando este jargão e revisitando a África do futuro. Uma odisséia afropolitana que ainda não chegou. Hall insiste na idéia de que o etnocentrismo nos coloca no fosso da afirmação fundamentalista da diferença, naturalizando-a. Como se exstivessémos esperando um projeto em andamento, algo próximo da inexorável historicidade redentora em nossos olhos de ver o passado. E ao citar Octávio Paz, traz um “senão” de que o que nos distingue não é a originalidade, e sim a originalidade de nossas criações. O nilismo negro reina na diáspora, numa África reinventada e real. Algo do que Mongá reflete está acontecendo aqui conosco. Diversas modalidades de representações e manifestações têm estimulado a construção de vagões que trafegam em trilhos ora de um essencialismo pragmático, ora de um culturalismo estatizante. Todavia, paradoxalmente, temos ocupado mais espaços públicos e privados. Certos arranjos existenciais e mecanismos de defesa - ou seja, uma estratégia Jeje/Banto/Nagô que nos mantém preservados - dialogam com uma dose de afirmação identitária para além do sagrado e do profano que nos semantizou. Uma parafernália simbólico/material que nos fez alargar as opções táticas e hoje, mesmo que queiramos, não saberemos sair disso sem dissensões. Entretanto, o mundo nos olha com olhos de quem soube sair do pior e escolheu modos singulares de continuarmos vivos. Temos um dilema ético político: como falar para todos os negros sendo seus representantes? E não sendo seus representantes, quais acordos possíveis para representar a todos ou a sua maioria? E representando a poucos, como querer um projeto para muitos? Qual o papel dos negros que estão no governo ou que são de partido político? Qual o papel dos que estão fora, ou são de ONGs, ou outras organizações independentes? Existe uma fenda gramsciana que pode nos dar uma saída para um projeto que integre ação política por dentro e uma ação política por fora? Qual o papel político das religiões teogônicas afro-brasileiras? Qual o papel do marxismo na luta negra brasileira? Qual o sentido estratégico da lutas dos quilombolas, empresários e empreendedores negros, mulheres e juventude no Brasil de hoje. Estas são as nossas perguntas. No entanto, o nilismo negro tem feito muitos estragos e êxitos, e à revelia da tradição etnocêntrica que nos orienta, muitos estão ocupando espaços na sociedade e estão assumindo seu niilismo negro nas faculdades nas empresas, no sexo, nas periferias, no governo, na religião, na cultura e em dezenas de outras atividades da vida pública e privada. Decidindo ao seu gosto, a cara da esfera publica e seus representantes no cenário político. Ainda estamos por saber qual será o nosso caminho: se um socialismo negro, uma sociedade multicultural de caráter maximalista ou uma sociedade liberal de convivência integracionista. Creio que a nossa luta política ainda seja a de superar o nilismo e buscar referências, as mais grandiosas e eficazes que possam nos levar para horizontes e lugares ( não ouso dar nomes ) de justiça, democracia, liberdade e alcance equitativos de comida, dinheiro, solidariedade e felicidade. Busquemos, então, a originalidade em nossas criações". (O livro: Nilismo e Negritude, Celestin Mongá, Martins Fontes, 2010).

Dia 14/12 encerramento do ano de trabalho na Suburbano Convicto, em São Paulo

6 de dez de 2010

Negro foi mal representado nos quadrinhos, segundo pesquisa

(Por Paulo Ramos / Do UOL). "Mais de 200 cidades brasileiras celebraram no 20 de novembro passado, o Dia da Consciência Negra, data criada para discutir o papel do negro na sociedade brasileira. Esse papel se refletiu também nas histórias em quadrinhos, como mostra um doutorado desenvolvido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O estudo, feito pelo pesquisador Nobu Chinen, releva que o negro historicamente foi muito mal representado na produção nacional. "Qualitativamente, os personagens eram quase sempre estereotipados e ocupavam papéis de pouco destaque. Quantitativamente, sempre foram muito poucos", diz. Segundo o mapeamento de Chinen, a primeira aparição de um negro nos quadrinhos brasileiros foi em "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte". Criada pelo ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869, a história trazia um negro como auxiliar do protagonista (imagem mostrada no início desta postagem). Na primeira metade do século 20, outros nomes importantes se incorporariam ao rol de personagens negros: Lamparina, de J. Carlos, Azeitona, de Luiz Sá, o Gibi, da Globo. Na leitura de Chinen, o cenário estereotipado vem mudando nos últimos anos. Mas ainda é pouco, se comparada proporção entre personagens assim e a população negra do país. A ideia da pesquisa surgiu em 2005, durante um curso sobre quadrinhos que Chinen fez na Gibiteca Henfil, no Centro Cultural São Paulo. Inicialmente, tinha um pouco de receio de enfrentar o estudo. O medo é que uma abordagem mais séria sobre a área nublasse o prazer da leitura descompromissada. O tema falou mais alto e se tornou um mestrado. Na qualificação, etapa que antecede a defesa do estudo, a banca sugeriu tornar a pesquisa num doutorado, e não num mestrado. Assim foi feito. Desde junho do ano passado, vem finalizando a investigação do doutorado. A programação dele é defender até o final deste ano. Paulistano descendente de japoneses, Nobu Chinen trabalhou muito tempo na área de publicidade, sua formação universitária. Hoje, é professor universitário e redator. Tem também uma atuação destacada nos bastidores de projetos editorias e de eventos sobre quadrinhos - é um dos integrantes da comissão organizadora do Troféu HQMix. Nesta entrevista ao blog, o pesquisador, de 49 anos, antecipa as conclusões do estudo que tem feito na Universidade de São Paulo. A conversa começa justamente com a reflexão proposta neste Dia da Consciência Negra, a forma como os negros foram tratados na sociedade brasileira. Blog dos quadrinhos - Como o negro foi - e ainda é - representado nos quadrinhos brasileiros? Nobu Chinen - Como na totalidade das manifestações artísticas e culturais, o negro era representado como alguém inferior, boçalizado, ocupando funções socialmente pouco valorizadas. Invariavelmente era o serviçal, o menino de recados, o ajudante. Temos como exemplos do início do século 20 o Benjamin, criado por José Loureiro para a revista O Tico-tico; e Lamparina, do J. Carlos. Nas poucas vezes em que era protagonista de uma série, o negro ocupava os papéis nos quais lhe era permitido se destacar, como nos esportes. No aspecto gráfico-visual, também predominava uma estilização grotesca, estereotipada. Os lábios exagerados, os olhos esbugalhados e expressões simiescas. Aqui é preciso fazer uma ressalva e, como pesquisador, sinto que é uma arena delicada porque muitos quadrinhos, como expressão do humor gráfico, têm por característica o traço caricatural e exagerado, portanto, é complicado estabelecer o limite entre o que é o cômico e o ofensivo/preconceituoso. Sempre cito como exemplo o famoso trio Reco-reco, Bolão e Azeitona, criado por Luiz Sá, na década de 30 [imagem abaixo]. O autor retrata seus três personagens de forma exagerada e em situações que os mandamentos do politicamente correto certamente condenariam. Mas não vejo um preconceito específico contra um ou outro grupo social. O Luiz Sá esculachava todo mundo sem distinção. Blog - Houve, ao longo das décadas, alguma mudança nessa caracterização? Chinen - Meu trabalho defende, justamente, que sim. Ocorreu uma evolução significativa na maneira como o negro vem sendo representado nos quadrinhos. Tomei como base um trabalho muito interessante, o livro "Black Image in the Comics", de Fredrick Strömberg, que aborda essa trajetória, transpondo, naturalmente, para a realidade brasileira. Tenho a sorte de viver em um momento privilegiado nesse aspecto. Nos últimos anos, foram publicadas várias histórias em quadrinhos que trazem negros como protagonistas, e posso citar como exemplos a personagem infantil Luana, uma iniciativa de Aroldo Macedo e realizada por vários autores; e Aú, o capoeirista, do Flávio Luiz. Também surgiram trabalhos em quadrinhos que resgatam a participação dos negros em episódios históricos como os álbuns "Chibata", de Hemeterio e Olinto Gadelha; "Revolta dos Alfaiates", do Mauricio Pestana; e "Balaiada", de Iramir Araújo, Ronilson Freire e Beto Nicácio. E há vários outros. Se tivesse feito meu projeto há quatro ou cinco anos, quando foi originalmente pensado, teria perdido a chance de incluir boa parte desse precioso material. Blog - Há caracterizações recorrentes na literatura em quadrinhos brasileira, como o escravo, para ficar em um caso. Houve mudanças na forma de representação dessas personagens ao longo do tempo? Chinen - Esse é um ponto interessante porque só é possível fazer juízo de valor de um fenômeno se existe massa crítica. É muito difícil estabelecer se houve uma mudança quando se dispõe de um universo limitado, uma vez que não existiram muitos personagens negros. O que posso dizer é que quase sempre os personagens negros tinham papéis subalternos, de criados e empregados. E isso prevaleceu durante décadas. Tomando como referência a série Nhô Quim, de Angelo Agostini, que muitos estudiosos consideram a primeira história em quadrinhos no Brasil, já na primeira vinheta, de 1869, aparece um personagem negro, o Benedito, que é o criado do Nhô Quim. Isso seria “natural”, considerando que ainda vivíamos na época anterior à abolição. Mas esse padrão se repete nos personagens do início do século 20 e vai se manter até recentemente. É mais ou menos como ocorreu com as telenovelas em que, até poucos anos atrás, os negros só tinham papel de empregados, cozinheiras e motoristas. Felizmente isso mudou muito. Blog - Na sua leitura, ocorreram casos de preconceito em relação ao modo como o negro foi representado nos quadrinhos? Chinen - Sem dúvida. Ao relegar o negro a papéis inferiores, como já havia citado, os quadrinhos e a mídia de modo geral também ajudavam a alimentar um sistema discriminatório. Na minha opinião, o exemplo mais chocante é a personagem Lamparina, representada quase como um animal [imagem abaixo]. E olha que eu sou um grande admirador do trabalho do J. Carlos, um dos maiores artistas gráficos que este país já teve. Muitas vezes, para defender casos como esse, usa-se a desculpa de que “mas naquela época era assim que se fazia”. Esse é um sintoma (acho que esse termo é apropriado porque preconceito não deixa de ser um câncer social) do quanto a nossa sociedade é preconceituosa. Numa das disciplinas da pós-graduação, pude conhecer autores que tratam bem dessa questão e um deles alerta que o grande perigo é passarmos a achar natural uma representação nitidamente preconceituosa, disseminada pela classe dominante. Blog - Há algum personagem mais marcante ao longo dessa trajetória? Chinen - Segundo os estudiosos que pesquisei, o personagem negro mais importante e de maior sucesso foi o Pererê, do Ziraldo. Teve revista própria nos anos 1960, ganhou álbuns de coletâneas em anos posteriores e virou até série de TV com atores. O curioso é que o Pererê simboliza o que chamo de primeiro paradoxo do negro nos quadrinhos brasileiros porque trata-se de uma entidade folclórica, um ser mítico, ainda que as histórias do Ziraldo o tenham humanizado. Ou seja, o negro já figura pouco nos quadrinhos e quando aparece é um ser que não existe. Apenas para completar: o segundo paradoxo é o Gibi, o mascote que batizou uma publicação que fez tanto sucesso que se tornou sinônimo de revista em quadrinhos, mas que nunca apareceu como personagem. Gibi, etimologicamente, significa menino negro. É importante não confundir esse Gibi com o Giby, o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros, criado pelo incansável J. Carlos, em 1907. Aparentemente, não existe relação entre um e outro. Blog - O fato de você ser descendente de japoneses - outro grupo étnico, tal qual o negro - tem alguma relação com o tema escolhido para a pesquisa? Chinen - Não. A última coisa que gostaria de dar ao meu trabalho é um caráter político ou ideológico. Não que eu seja contra, pelo contrário, mas não é a minha linha. Já tinha decidido que ia trabalhar com um tema brasileiro e já me incomodavam os dois paradoxos que apontei. Acho que isso já direcionou o meu trabalho. Só que uma coisa que não dá para negar é que se existe uma etnia injustiçada, uma vez que a nossa raça é a humana, são os negros. Fazer um trabalho que permitisse a reflexão sobre essa injustiça já por si, seria um motivo bem legal. A professora Sonia Luyten, uma das primeiras pessoas no mundo a estudar os mangás, disse que enfrentou muitas barreiras porque os japoneses estranhavam uma “gaijin” se dedicando a um tema que pretensamente era deles e me encorajou nesse aspecto. Ela me disse “se uma loira ítalo-brasileira como eu pode estudar mangás, por que um japonês não pode estudar os negros nos quadrinhos?”. Foi um incentivo e tanto".

5 de dez de 2010

Belo Horizonte abre museu sobre a mineiridade

(Por Rodrigo Vizeu). "Quadros que lembram as pinturas falantes dos filmes de Harry Potter explicam a Inconfidência Mineira. Uma sala mal-assombrada conta a história de Belo Horizonte a partir de lendas urbanas. Essas atrações estão expostas a partir desta quarta-feira na capital mineira, no Memorial Minas Gerais, sobre a cultura e a história do Estado. Marcado pela interatividade e pela tecnologia, o local lembra os museus do Futebol e da Língua Portuguesa, em São Paulo. Segundo o museógrafo Gringo Cardia, criador do espaço, o foco é o entretenimento. "Não sei nem se é um museu", diz. O Memorial tem 31 salas que mostram as "faces" da mineiridade, como as cidades históricas, as fazendas, a mineração, o artesanato, a música, entre outros. A arquitetura barroca é apresentada em um vídeo narrado por Fernanda Montenegro que é exibido em uma sala de cinema de estilo barroco. Há espaço também sobre mineiros ilustres, como Carlos Drummond de Andrade e Sebastião Salgado. Outra atração é um mapa de Minas sensível ao toque com informações sobre os 853 municípios do Estado. Um espaço conta a história de tradicionais famílias mineiras. Haverá um estúdio em que os visitantes com famílias do Estado poderão gravar depoimentos. A grande vedete é a sala em que telas em vídeo emolduradas trazem atores interpretando figuras da Inconfidência, como Tiradentes. Elas discutem entre si. Sentados em poltronas, os visitantes precisam se virar de um lado para o outro para acompanhar a conversa. Bancado e gerido pela Vale, o Memorial custou à mineradora R$ 27 milhões. O governo mineiro pagou outros R$ 5 milhões. O museu funciona no antigo prédio da Secretaria da Fazenda. A visita é gratuita, mas até 28 de janeiro deverão ser agendadas pelo telefone (0XX31) 3343-7317, das 9h às 19h. O Memorial fica na Praça da Liberdade, no bairro Funcionários, em Belo Horizonte". Curiosíssima fico, para saber, como nós, pessoas negras de Minas, seremos representadas nessa História. Imagino! Vou conferir e depois conto a vocês.

4 de dez de 2010

O alçapão da poesia reabre as portas para os próximos saraus

(Por Raquel Almeida e Michel Yakini). "Dia 02/12 foi um dos saraus mais marcantes e lindos que já fizemos... A concentração começou desde cedo, Michel e Santista indo até a subprefeitura de Pirituba pra tentar agilizar alguma coisa em relação ao fechamento do bar, sem resultados, infelizmente.... Depois teve a limpeza no terreno, pois como estamos construindo o espaço Elo da Corrente, os materiais de construção estão todos no quintal tivemos que fazer uma limpeza grande e colocamos lona por conta do tempo instável. Logo mais começaram a chegar @s parceir@s de outros saraus e movimentos que vieram protestar conosco contra o lacre no bar do Santista. O sarau começou... Muita poesia, muitas palavras animadoras, muita música, os poetas, mais inspirados do que nunca.... Uns 40 minutos de sarau a chuva começou a cair, primeiro na massiota, tímida.... Logo mais veio a enxurrada. Como uma das caracteristicas do bar do Santista é ficarmos todos juntos pelo espaço ser pequeno, ontem não foi diferente, ficamos todos unidos sobre a proteção da lona, que não resistiu ao peso da água.... Correria para que os instrumentos e o som não molhassem..... O SARAU??? Continuou com a poesia de Chellmi, e depois com muita música, pois a chuva veio lavar e levar embora toda energia ruim.... Ou seja, tomamos banho de chuva, cantamos, festejamos, pois nosso protesto é feito com sorriso, com dança, batuque, e muita, mais muita mesmo AMIZADE!!! Queremos agradecer a tod@s que chegaram pra somar com a gente, os que vieram e os que não puderam vir mais mandaram energias positivas.... Semana que vem esperamos que o bar esteja aberto aberto pra podermos festejar, e se ainda não estiver o sarau será feito novamente no quintal, na rua ou na chuva"... (Para ler todo o texto clic aqui). Em tempo: o alçapão da poesia foi reaberto ontem. Axé!

3 de dez de 2010

Pentes e Tridente na gráfica

A editora me informa que estão na gráfica a 3a edição do Tridente (mil exemplares) e a primeira reimpressão do Pentes (4.000 exemplares), destinada a atender à compra institucional realizada pela PBH - Prefeitura de Belo Horizonte, para a mochila do estudante 2011. Estou contente, muito contente. A literatura tem me dado mais e me levado mais longe (num ritmo veloz) do que imaginei no melhor dos meus sonhos. É prosseguir assim e vencer os novos desafios - parece chavão, mas não encontro outro jeito de falar sobre o que se avizinha. De resto, finalizo um conto infantil encomendado por editora e retomo o trabalho com o pequeno livro de crônicas para a Literatura Marginal, editora do amigo Ferréz. Como últimos compromissos de trabalho literário deste 2010, passo três dias em Porto Alegre no V Encontro de Arte de Matriz Africana, promovido pelo grupo de teatro Caixa Preta, com curadoria do amigo Jessé Oliveira. Na oportunidade será lançada uma revista, na qual contribuí com artigo sobre meu processo de criação. Encerro o ano em São Paulo com quatro compromissos: dia 11/12 vou bater um papo sobre "narrativas estéticas produzidas nos bailes blacks, as tendências visualizantes dos discursos na atualidade e as ciências humanas e da imagem como conhecimentos estruturantes da percepção visual, social e cultural bem como do espaço urbano". Ufa! Complexo, como disse à Lúcia Helena, organizadora do " B(l)ack is Beautiful ou Sou fei@ mas to ma Moda? - O olhar, uns flashes, o som," patrocinado pela Rede Naional de Artes Visuais Funarte 7ª Edição. Dia 12/12 sigo para Perus, onde debato minha obra, com ênfase no Pentes, com os amigos e amigos dos amigos do Quilombaque (por favor, qualquer semelhança com a facção é apenas coincidência; nesse campo não temos partido). O pessoal do Elo da Corrente e do Poesia na Brasa já confirmou presença, vai ser da hora, como se diz em Sampa. No dia 13/12 sigo para a zona Norte, Cachoeirinha, e converso com um grupo de jovens leitores e leitoras articulado pelas valorosas companheiras da organização Frida Kallo, que otimizaram uma sala do poupa-tempo e a estão transformando em sala de leitura. Sinto-me honrada por ser a primeira autora a passar por lá. Dia 14/12 lanço o Pentes e o Colonos na livraria Suburbano Convicto, do amigo Alessandro Buzo, no Bexiga. E assim fecho este frutífero 2010 com chave de ouro. Um ano de abundância. Ano de Mutalambô. Vejo vocês em um desses eventos.

A noção da amizade na era do Facebook

(Por Enrique Fibla Gutiérrez). "Há uns dias estreou na Espanha (e estréia hoje no Brasil) "A Rede Social", o filme de David Fincher sobre o nascimento do Facebook, plataforma web que define perfeitamente a sociedade da informação do século XXI. Mais além da indubitável qualidade do filme, a sequência reaviva o interesse não somente sobre o tema da vida privada, mas também o significado do conceito de amizade na era da internet. Em uma das principais cenas do filme, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg se dispõe a celebrar o número de um milhão de usuários da plataforma enquanto enfrenta uma demanda judicial interpolada por seu único amigo até agora. O advogado deste amigo o alfineta com ironia: “seu melhor amigo está pedindo 600 milhões de dólares”. Pouco depois, voltamos à sede do Facebook, onde o jovem começa a assistir a uma festa e comemorará o êxito de conseguir ficar totalmente sozinho no escritório. Como pode o fundador de uma das ferramentas sociais mais importantes dos nossos tempos ser uma pessoa evidentemente anti-social? Na minha opinião, diz muito sobre o que é considerada atualmente a amizade, um conceito que tem sido distorcido a ponto de depender exclusivamente de um clique do mouse. A palavra amigo provém do latim amicus, que deriva, por sua vez, da palavra amore, amor. Trata-se, portanto, de uma relação entre duas pessoas cuja chave reside no mútuo entendimento e respeito. Mas, sobretudo, embasa-se na existência de uma intimidade com o outro que nos permite compartilhar o que nos alegra e nos atormenta de maneira totalmente próxima. Abrimo-nos à amizade porque necessitamos compartilhar o que passa pela nossa cabeça, estabelecendo um vínculo de confiança sem o qual estaríamos perdidos. Um amigo não é o mesmo que um conhecido, alguém a quem também respeitamos mas não confiamos o suficiente para nos abrirmos e de quem somente conhecemos superficialmente, mas nunca em profundidade. A confusão vem com a aparição das redes sociais na Internet, um tipo de simulacro de nossas relações pessoais onde um cria um alter ego virtual a partir de pequenos retalhos de informação pessoal, fotografias e comentários sobre o que fazemos, deixamos de fazer e do que gostamos. A natureza expansiva da rede faz com que a única maneira de participar do jogo virtual seja aumentando constantemente nosso número de amigos. Solicitando a aceitação de pessoas das quais não conhecemos nada. Se faz possível o impensável, já que podemos chegar a entrar em contato com gente que simplesmente não teríamos conhecido de outra maneira. Essa ampliação até o infinito de nosso mapa social é certamente positivo, já que provoca encontros, choques e conexões que, de uma maneira ou outra, geram novos conhecimentos e ideias. Ao mesmo tempo, entretanto, impulsiona uma cultura de superficialidade que preocupa pelo desapego com a realidade provocado pela ferramenta. As novas relações que estabelecemos graças à ausência de barreiras físicas na Internet se baseiam na máxima do “disparo”, em vez da seleção. Nesse ponto, gostaria de recordar uma citação do escritor Augusto Monterroso que diz: “Desde que começou a falar, o homem não encontrou nada mais gratificante que uma amizade capaz de escutá-lo com interesse, seja para a dor como para a felicidade”. O importante dessa frase é que ressalta a transcendência do interesse e, por extensão, da profundidade de um vínculo para considerá-lo como tal. Nossas amizades virtuais correspondem a esse pensamento? Duvido muito. Sobretudo porque tudo que podemos conhecer do outro e vice-versa não é nada mais do que uma construção, uma máscara por trás da qual não há um rosto, mas simplesmente nada. Não se exige o exercício da sinceridade que implica toda amizade verdadeira, um processo no qual não resta outra coisa se não mostrarmos como somos. Tampouco recai sobre nós responsabilidade alguma e assim, isentos de deveres, nos encanta nos sentirmos participantes fortes do simulacro social que propõe o Facebook. O processo de amizade se automatiza, passando a depender de uma breve janela de aceitação como início da relação e com constantes opções de valorizar aquilo que se valoriza por meio de botões pré-configurados do estilo “gosto”, não gosto” etc. Essa racionalização/automatização da amizade é o procedimento que segue Mark Zuckerberg no filme. Mostra-se infinitamente mais fácil entender as relações pessoais como uma série de algoritmos de zeros e uns que dão forma a esta ou aquela opinião da web. Essa redução não implica uma necessidade de simpatizar com o outro, mas sim uma dissecação lógica que permita determinar gostos, medos e afinidades sem ter que perguntar, somente consultar o que o computador já fez por nós. A tecnologia se converte em um meio que nega a interpessoalidade mas permite uma comunicação eficazmente imediata. Agora, que tipo de comunicação se consegue estabelecer? Neste ponto, remeto ao excelente ensaio de Gilles Lipovetsky “A era do vazio”, onde define um ato de narcisismo como “a expressão gratuita, a primazia do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença pelos conteúdos, a reabsorção lúdica do sentido, a comunicação sem objetivo nem público, o emissor convertido em principal receptor”. Desta maneira podemos definir a amizade segundo as redes sociais como um paradoxo ato de narcisismo, realizado a partir da solidão de um computador e onde o que interessa não é conhecer o outro,, mas sim construir minuciosamente uma identidade em perpétua mutação, diante da qual conhecemos a comunidade virtual. De certa maneira esta é a conclusão final de David Fincher em “A rede social”, a sensação de que depois de duas horas de filme somos incapazes de fazer uma ideia clara de quem é Mark Zuckerberg. Mas não por falta de habilidade do diretor, mas como uma exemplificação máxima da incapacidade de construir uma identidade clara de alguém que se escondeu toda a sua vida atrás da Internet. Façamos o teste agora de tentar imaginar quem são todas essas pessoas que temos como amigos em nossas contas. Provavelmente só reconheceremos uns poucos, que casualmente serão nossos amigos mais próximos. Não pretendo demonizar uma ferramenta tão útil como o Facebook, que eu mesmo uso assiduamente, mas sim alertar sobre essa redução do conceito de amizade, que nos leva a utilizar a dita palavra com rapidez para denominar relações cibernéticas que merecem outro termo. Quiçá seja simplesmente uma questão de terminologia, mas sem o simplesmente".

2 de dez de 2010

Mulheres MCs na área

Mulher e literatura

Os donos da mídia estão nervosos

(Por *Laurindo Leal Filho). "A Veja andou atrás do blogueiro Renato Rovai querendo saber como foi feita a articulação para que o presidente Lula concedesse uma entrevista a blogs de diferentes pontos do Brasil. Estão preocupadíssimos. O blogueiro Renato Rovai contou durante o curso anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, realizado semana passada no Rio, que a Veja andou atrás dele querendo saber como foi feita a articulação para que o presidente Lula concedesse uma entrevista a blogs de diferentes pontos do Brasil. Estão preocupadíssimos. À essa informação somam-se as matérias dos jornalões e de algumas emissoras de TV sobre a coletiva, sempre distorcidas, tentando ridicularizar entrevistado e entrevistadores. O SBT chegou a realizar uma edição cuidadosa daquele encontro destacando as questões menos relevantes da conversa para culminar com um encerramento digno de se tornar exemplo de mau jornalismo. Ao ressaltar o problema da inexistência de leis no Brasil que garantam o direito de resposta, tratado na entrevista, o jornal do SBT fechou a matéria dizendo que qualquer um que se sinta prejudicado pela mídia tem amplos caminhos legais para contestação (em outras palavras). Com o que nem o ministro Ayres Brito, do Supremo, ídolo da grande mídia, concorda. Jornalões e televisões ficaram nervosos ao perceberem que eles não são mais o único canal existente de contato entre os governantes e a sociedade. Às conquistas do governo Lula soma-se mais essa, importante e pouco percebida. E é ela que permite entender melhor o apoio inédito dado ao atual governo e, também, a vitória da candidata Dilma Roussef. Lula, como presidente da República, teve a percepção nítida de que se fosse contar apenas com a mídia tradicional para se dirigir à sociedade estaria perdido. A experiência de muitos anos de contato com esses meios, como líder sindical e depois político, deu a ele a possibilidade de entendê-los com muita clareza. Essa percepção é que explica o contato pessoal, quase diário, do presidente com públicos das mais diferentes camadas sociais, dispensando intermediários. Colunistas o criticavam dizendo que ele deveria viajar menos e dar mais expediente no palácio. Mas ele sabia muito bem o que estava fazendo. Se não fizesse dessa forma corria o risco de não chegar ao fim do mandato. Mas uma coisa era o presidente ter consciência de sua alta capacidade de comunicador e outra, quase heróica, era não ter preguiça de colocá-la em prática a toda hora em qualquer canto do pais e mesmo do mundo. Confesso que me preocupei com sua saúde em alguns momentos do mandato. Especialmente naquela semana em que ele saía do sul do país, participava de evento no Recife e de lá rumava para a Suíça. Não me surpreendi quando a pressão arterial subiu, afinal não era para menos. Mas foi essa disposição para o trabalho que virou o jogo. Um trabalho que poderia ter sido mais ameno se houvesse uma mídia menos partidarizada e mais diversificada. Sem ela o presidente foi para o sacrifício. Pesquisadores nas áreas de história e comunicação já tem um excelente campo de estudos daqui para frente. Comparar, por exemplo, a cobertura jornalística do governo Lula com suas realizações. O descompasso será enorme. As inúmeras conquistas alcançadas ficariam escondidas se o presidente não fosse às ruas, às praças, às conferências setoriais de nível nacional, aos congressos e reuniões de trabalhadores para contar de viva voz e cara-a-cara o que o seu governo vinha fazendo. A NBR, televisão do governo federal, tem tudo gravado. É um excelente acervo para futuras pesquisas. Curioso lembrar as várias teses publicadas sobre a sociedade mediatizada, onde se tenta demonstrar como os meios de comunicação estabelecem os limites do espaço público e fazem a intermediação entre governos e sociedade. Pois não é que o governo Lula rompeu até mesmo com essas teorias. Passou por cima dos meios, transmitiu diretamente suas mensagens e deixou nervosos os empresários da comunicação e os seus fiéis funcionários, abalados com a perda do monopólio da transmissão de mensagens. Está dada, ao final deste governo, mais uma lição. Governos populares não podem ficar sujeitos ao filtro ideológico da mídia para se relacionarem com a sociedade. Mas também não pode depender apenas de comunicadores excepcionais como é caso do presidente Lula. Se outros surgirem ótimo. Mas uma sociedade democrática não pode ficar contando com o acaso. Daí a importância dos blogueiros, dos jornais regionais, das emissoras comunitárias e de uma futura legislação da mídia que garanta espaços para vozes divergentes do pensamento único atual". *Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).

1 de dez de 2010

Carlos Moore em Salvador e em Belo Horizonte

Fotos do Pentes em Madureira

A Sub-Prefeitura de Pirituba sub-repticiamente lacrou o alçapão da poesia...

"Hoje a tarde estavamos passando pelo bairro, a caminho do Sarau do Metrô, e observamos que o Bar do Santista, nossa casa, estava fechado, como isso não é comum, se tratando de uma terça-feira a tarde, ligamos na casa do Claudio Santista para saber o que aconteceu e sua esposa nos informou que o bar havia sido fechado e lacrado, com um comunicado oficial colocado na parede, pela sub-prefeitura de Pirituba. Assim que terminamos nossa apresentação, retornamos para Pirituba, direto a casa do Claudio Santista, para saber maiores detalhes do acontecido. O Santista nos disse que a subprefeitura não explicou a causa que gerou a ordem de fechamento e que por isso ele deveria comparecer na sub para obter esclarecimento do caso e qual medida adotar. O curioso é que o Bar do Santista e uma Serralheria foram os unicos comércios que receberam essa visita, entre dezenas que existem no Jardim Monte Alegre, sendo na esmagadora maioria bares, ou seja, porque somente esses dois comercios foram lacrados??? Amanhã iremos acompanhar o Santista na Subprefeitura para saber maiores detalhes e reestabelecer, o quanto antes, esse espaço, que é muito além de um simples bar que funciona há mais de uma década na região, mas também é a base do sustento familiar de duas casas (do Santista e da Dona Silvia e também do Diogo, Priscila e do pequeno Kauan), ponto de encontro e descontração de diversos amigos na comunidade, sede de um dos unicos e importante acontecimento cultural no bairro que é o nosso Sarau Elo da Corrente, com três anos e meio de atividade e centenas de eventos realizados, além disso, é esse mesmo espaço abriga uma biblioteca com mais de 600 titulos ofecerendo emprestimo de livros aos moradores. Um bar que contribui para que Pirituba seja uma referência positiva na região, reconhecida nacionalmente, seja pelos seus frequentadores, pelo movimento de literatura periférica, pelo parceiros Brasil e mundo afora, ou pelas diversas midias e setores publicos que registraram ou contemplaram essa iniciativa que faz morada nesse bar-centro-cultural. Por isso estamos convocando todos os amigos e parceiros a comparecerem em nosso próximo encontro, que acontecerá independente do que acontecer até a próxima quinta (dia 02), pois nossa literatura é litera-rua e não vai sucumbir nesse momento de atenção e ação. Faremos um sarau como ato de repudio ao fechamento do nosso espaço e de apoio ao poeta Claudio Santista e a todos que afagam as sementes que brotam naquele corredor poético. Assim que soubermos mais detalhes a respeito dessa situação comunicaremos a todos para saber qual tipo de passada será necessária nesse caminho. Então" ... (Foto: Guma). SARAU ELO DA CORRENTE 02/12 (Quinta -Feira), 20 horas, Concentração em frente ao Bar do Santista. Rua Jurubim, 788 -A Jardim Monte Alegre - Pirituba

30 de nov de 2010

Lançamento de Retratos do Brasil Homossexual, em São Paulo

Bença, novo espetáculo do Bando de Teatro Olodum, no Rio de Janeiro

(Texto de divulgação). "A Tradição e tecnologia integram-se e permitem até que os atores contracenem com “personagens” da vida real trazidos através de suas projeções. E isso graças aos registros em vídeo dos encontros e entrevistas realizados na etapa anterior do projeto. O Bando de Teatro Olodum já faz parte da história do teatro baiano. Nascido no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, a companhia, formada por atores exclusivamente negros, é considerada a mais consolidada do atual cenário teatral baiano. É uma das poucas a manter um corpo estável, com elenco, diretores e técnicos. Em sua trajetória, o Bando construiu e consolidou uma dramaturgia e estética próprias, tendo o negro e sua tradição sociocultural como matéria-prima de seus espetáculos". Local: Espaço Tom Jobim Cultura e Meio Ambiente. Rua Jardim Botânico, 1008, Jardim Botânico - Rio de Janeiro.

29 de nov de 2010

Não é sobre você que devemos falar

(Por: Ana Maria Gonçalves). "Monteiro Lobato: um homem com um projeto para além do seu tempo - Caçadas de Pedrinho, publicado em 1933, teve origem em A caçada da onça, de 1924. Portanto, poucas décadas após a abolição da escravatura, que aconteceu sem que houvesse qualquer ação que reabilitasse a figura do negro, que durante séculos havia sido rebaixada para se justificasse moralmente a escravidão, e sem um processo que incorporasse os novos libertos ao tecido da sociedade brasileira. Os ex-escravos continuaram relegados à condição de cidadãos de segunda classe e o preconceito era aceito com total normalidade. Eles representavam o cisco incômodo grudado à retina, o "corpo imperfeito" dentro de uma sociedade que, a todo custo, buscava maneiras de encobri-lo, desbotá-lo ou eliminá-lo, contando com a colaboração de médicos, políticos, religiosos e outros homens influentes daquela ápoca. Um desses homens foi o médico Renato Kehl, propagador no Brasil das idéias do sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, que defendia a "superioridade racial e correlacionava as raças humanas com as espécies animais, baseando-se em critérios anatômicos como a cor da pele e o formato do crânio", segundo o livro Raça Pura, - Uma história da eugenia no Brasil e no mundo, de Pietra Diwan para a Editora Contexto. Renato Kehl reuniu ao seu redor uma ampla rede de intelectuais, com quem trocava correspondência e ideias constantemente, todos adeptos, defensores e propagadores da eugenia, assim definida por ele em 1917: "É a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias". Em 1918 foi fundada a Sociedade Eugênica de São Paulo - SESP, contando com cerca de 140 associados, entre médicos e membros de diversos setores da sociedade que estavam dispostos a "discutir a nacionalidade a partir de questões biológicas e sociais", tendo em sua diretoria figuras importantes como Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Renato Kehl, T. H. de Alvarenga, Xavier da Silveira, Arhur Neiva, Franco da Rocha e Rubião Meira. A sociedade, suas reuniões e ideias eram amplamente divulgadas e festejadas pela imprensa, e seus membros publicavam em jornais de grande circulação como Jornal do Commercio, Correio Paulistano e O Estado de São Paulo. Lobato, como um homem de seu tempo, não ficaria imune ao movimento, e em abril de 1918 escreve a Renato Kehl: "Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente "eugênico", pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular." Era o início de uma grande amizade e de uma correspondência ininterrupta até pelo menos 1946, dois anos antes da morte de Monteiro Lobato. Os eugenistas agiam em várias frentes, como a questão sanitária/higienista, que Lobato trata em Urupês, livro de contos onde nasce o famoso personagem Jeca Tatu, ou a racial, sobre a qual me aterei tomando como ponto de partida outro trecho de uma das cartas de Monteiro Lobato a Renato Kehl: "Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. [...] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato." O livro mencionado é O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926, que Lobato escreveu pensando em sua publicação nos Estados Unidos, para onde ele se mudou para ocupar o cargo de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato comenta: "Um romance americano, isto é, editável nos Estados Unidos(...). Meio à Wells, com visão do futuro. O clou será o choque da raça negra com a branca, quando a primeira, cujo índice de proliferação é maior, alcançar a raça branca e batê-la nas urnas, elegendo um presidente negro! Acontecem coisas tremendas, mas vence por fim a inteligência do branco. Consegue por meio de raios N. inventados pelo professor Brown, esterilizar os negros sem que estes se dêem pela coisa".Resumindo bastante, as coisas tremendas são: em 2.228, três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos, que pretende reeleger o presidente Kerlog, o partido das mulheres, que concorre com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy. Com a divisão dos brancos entre homens e mulheres, os negros se tornam maioria e Jim Roy é eleito. Não se conformando com a derrota, homens e mulheres brancos se unem e usam "a inteligência" para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos. A composição dos partidos políticos parece ter sido inspirada por um dos livros preferidos de Lobato, que sempre o recomendava aos amigos, o L’Homme et les Sociètes (1881) de Gustave Le Bon. Nesse livro, Le Bon diz que os seres humanos foram criados de maneira desigual, condena a miscigenação como fator de degradação racial e afirma que as mulheres, de qualquer raça, são inferiores até mesmo aos homens de raças inferiores. Lobato acreditava que tinha encontrado a fórmula para ficar milionário, como diz em 1926: "Minhas esperanças estão todas na América. Mas o 'Choque' só em fins de janeiro estará traduzido para o inglês, de modo que só lá pelo segundo semestre verei dólares. Mas os verei e à beça, já não resta a menor dúvida". Com o sucesso do livro, ele esperava também difundir no Brasil a ideia da segregação racial, nos moldes americanos, mas logo teve suas esperanças frustradas, como confidência ao amigo Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Deve ter sido uma grande decepção para Lobato e seus projetos grandiosos, visto que, em carta de 1930, também a Godofredo Rangel, ele admite fazer uso da literatura para se dizer o que não pode ser dito às claras: "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente". Achei importante contextualizar esse livro porque acredito que todos que estão me lendo são adultos, alfabetizados, com um certo nível cultural e, portanto, público alvo desse romance adulto de Monteiro Lobato. Sendo assim, peço que me respondam com sinceridade: quantos de vocês teriam sido capazes de, sem qualquer auxílio, sem qualquer contextualização, realmente entender o que há por trás de O Choque das raças ou o presidente negro? Digo isso porque me lembro que, na época das eleições americanas, estávamos quase todos (sim, eu também, antes de ler o livro) louvando a genialidade do visionário e moderno Monteiro Lobato em prever que os Estados Unidos, um dia, elegeriam um presidente negro, que tinha concorrido primeiro com uma mulher branca e depois com um homem branco. Mas há também o que está por detrás das palavras, das intenções, e achei importante contextualizá-las, mesmo sendo nós adultos, educados, socialmente privilegiados. O lugar do outro - Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: "............ ...........", "............ .............. ...... .. ....". Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu "defeito": "............. ............", "................. ..............". Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: "macaca de carvão", "carne preta" ou "urubu fedorento", tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde "negra" também é vocativo. Sim, sei que "não se fala mais assim", que "os tempos eram outros". Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida: Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: "Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista", ou "Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse", ou "Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista", ou "Eu acho que não tem nada de ofensivo", ou "Eu me recuso a ver Lobato como racista", ou "Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer". Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio - é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você. Esse é um assunto sério, para ser discutido por profissionais que estejam familiarizados com racismo, educação infantil e capacitação de professores, e que inclusive podem contar com o respaldo do Estatuto da Criança e do Adolescente, instituído em 1990 pela Lei 8.069. Destaco dois artigos do Capítulo II - Do Direito à Liberdade, ao Respeito e à Dignidade: Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis. Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. Combate ao racismo no Brasil: ‘Só porque eu sou preta elas falam que não tomo banho. Ficam me xingando de preta cor de carvão. Ela me xingou de preta fedida. Eu contei à professora e ela não fez nada'' [Por que não querem brincar com ela]‘‘Porque sou preta. A gente estava brincando de mamãe. A Catarina branca falou: eu não vou ser tia dela (da própria criança que está narrando). A Camila, que é branca, não tem nojo de mim''. A pesquisadora pergunta: ‘‘E as outras crianças têm nojo de você?'' Responde a garota: ‘‘Têm''. Depoimento de crianças de 6 anos no livro "Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: racismo, discriminação e preconceito na educação infantil", de Eliane Cavalleiro - Editora Contexto Colocando-se no centro da discussão, como se a "censura" não existente ao livro de Lobato as ofendesse pessoalmente, e como se fosse só isso que importasse nessa discussão, tenho visto várias pessoas fazendo os comentários mais absurdos, inclusive interpretando e manipulando outros textos ficcionais de Lobato para provar que ele não era racista, ou que era apenas um homem do seu tempo. Algo muito importante que não devemos nos esquecer é que nós também somos homens e mulheres do nosso tempo, e que a todo momento estamos decidindo o que a História escreverá sobre nós. Tenho visto também levarem a discussão para o cenário político, no rastro de um processo eleitoral que fez aflorar medos e sentimentos antes restritos ao lugar da vergonha, dizendo que a "censura" à obra de Lobato é mais um ato de um governo autoritário que quer estabelecer a doutrina de pensamento no Brasil, eliminando o livre-pensar e interferindo na sagrada relação de leitores com seus livros. Dizem ainda que, continuando assim, daqui a pouco estaremos proibindo a leitura de Os Sertões, Macunaíma, Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, Odisséia, Dom Casmurro etc, esquecendo-se de que, para fins de comparação, esses livros também teriam que ser distribuídos para o mesmo público, nas mesmas condições. Às vezes parece-me mais uma estratégia para, mais uma vez, mudar de assunto, tirar o foco do racismo e embolar o meio de campo com outros tabus mais democráticos como o estupro, o incesto, a traição, a violência, a xenofobia, a homofobia ou o aborto. Tabus que, afinal de contas, podem dizer respeitos a todos nós, sejamos brancos ou negros. Sim, há que se lutar em várias frentes, mas hoje peço que todos apaguem um pouco os holofotes que jogaram sobre si mesmos e suas liberdades cerceadas, concentrem-se nas palavra "racismo" e "criança", mesmo que possa parecer inaceitável vê-las assim, uma tão pertinho da outra, dêem uma olhada no árduo e necessário processo que nos permite questionar, nos dias de hoje e dentro da lei, se Caçadas de Pedrinho é mesmo um livro indicado para discutir racismo nas salas de aula brasileiras. Os motivos do parecer - De acordo com a Coordenação Geral de Material Didático do MEC, a avaliação das obras que compõem o Programa Nacional Biblioteca da Escola são feitas por especialistas de acordo com os seguintes critérios: "(...) a qualidade textual, a adequação temática, a ausência de preconceitos, estereótipos ou doutrinações, a qualidade gráfica e o potencial de leitura considerando o público-alvo". A simples aplicação dos critérios já seria suficiente para que o livro Caçadas de Pedrinho deixasse de fazer parte da lista do MEC. No parecer apresentado ao Conselho Nacional da Educação pela Secretaria da Educação do Distrito Federal, a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, salienta que o livro faz “menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos”. Destaco alguns: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou na árvore que nem uma macaca de carvão”, ou (ao falar de um possível ataque por parte de onças) "Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta", ou "E aves, desde o negro urubu fedorento até essa joia de asas que se chama beija-flor". Muita gente diz que contextualizar a presença no texto de trechos e expressões como essas seria menosprezar a inteligência de nossas crianças, que entenderiam imediatamente que não se faz mais isso, que a nossa sociedade se transformou e que atitudes assim são condenáveis. Aos que pensam assim, seria importante também levar em conta que "macaco", "carvão", "urubu" e "fedorento" ainda são xingamentos bastante usados contra os negros, inclusive em "inocentes brincadeiras" infantis durante os recreios nas nossas escolas por esse Brasil afora. E não apenas nas escolas, pois também são ouvidos nas ruas, nos ambientes de trabalho, nos estádios de futebol, nas delegacias de polícia e até mesmo nos olhares dos que pensam assim mas que, por medo da lei, não ousam dizer. Apesar disso, em reconhecimento ao importante caráter literário da obra de Monteiro Lobato, optou-se por sugerir que a obra fosse contextualizada e somente adotada por educadores que tenham compreensão dos processos geradores do racismo brasileiro. Como se fosse um problema fácil de compreender. Pensando aqui com meus botões, sou capaz de me lembrar de inúmeras obras infanto-juvenis que valorizam o negro e tratam racismo com a seriedade e o respeito que o assunto merece, e que foram editadas principalmente depois da Lei 10.639/03, que inclui nos ensinos fundamental e médio a História e a herança africanas. Posso estar errada, mas me parece que Caçadas de Pedrinho entrou para o Programa Nacional Biblioteca da Escola antes disso; sendo o contrário, pela lei, nem deveria ter entrado. Há maneiras muito mais saudáveis, responsáveis e produtivas de se levar o tema para dentro da escola sem ter que expor as crianças ao fogo para lhes mostrar que queima; e sem brigada de incêndio por perto. Isso é maldade, ou desconhecimento de causa. A causa - a luta pela igualdade de oportunidades no Brasil - Vou relembrar apenas fatos dos períodos mais recentes, que talvez tenham sido vividos e esquecidos, ou simplesmente ignorados, pela maioria das pessoas que hoje brada contra o "politicamente correto" da esquerda brasileira. Um breve histórico das últimas três décadas e meia: 1984 - o governo do General João Batista de Oliveira Figueiredo decreta a Serra da Barriga, onde tinha existido o Quilombo dos Palmares, como Patrimônio Histórico Brasileiro, num ato que reconhece, pela primeira vez, a resistência e a luta do negro contra a escravidão. 1988 - Durante as comemorações pelo Centenário da Abolição, o governo de José Sarney cria a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, que terá como meta apoiar e desenvolver iniciativas que auxiliem a ascensão social da população negra. Ainda nesse ano é promulgada a nova Constituição que, no seu artigo 5º, XLII, reconhece o racismo como crime inafiançável e imprescritível, ao mesmo tempo em que abre caminho para se estabelecer a legalidade das ações afirmativas, ao legislar sobre direitos sociais, reconhecendo os problemas de restrições em relação aos portadores de deficiências e de discriminação racial, étnica e de gênero. 1995 - durante o governo de FHC adota-se a primeira política de cotas, estabelecendo que as mulheres devem ocupar 30% das vagas para as candidaturas de todos os partidos. Nesse mesmo ano, em novembro, acontece em Brasília a Marcha Zumbi contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, quando foi entregue ao governo o Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, com as seguintes sugestões: incorporar o quesito cor em diversos sistemas de informação; estabelecer incentivos fiscais às empresas que adotarem programas de promoção da igualdade racial; instalar, no âmbito do Ministério do Trabalho, a Câmara Permanente de Promoção da Igualdade, que deverá se ocupar de diagnósticos e proposição de políticas de promoção da igualdade no trabalho; regulamentar o artigo da Constituição Federal que prevê a proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei; implementar a Convenção Sobre Eliminação da Discriminação Racial no Ensino; conceder bolsas remuneradas para adolescentes negros de baixa renda, para o acesso e conclusão do primeiro e segundo graus; desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta; assegurar a representação proporcional dos grupos étnicos raciais nas campanhas de comunicação do governo e de entidades que com ele mantenham relações econômicas e políticas. Como resposta, em 20 de novembro de 1995, Fernando Henrique Cardoso cria, por decreto, o Grupo de Trabalho Interministerial - GTI - composto por oito membros da sociedade civil pertencentes ao Movimento Negro, oito membros de Ministérios governamentais e dois de Secretarias, encarregados de propor ações de combate à discriminação racial, promover políticas governamentais antidiscriminatórias e de consolidação da cidadania da população negra e apoiar iniciativas públicas e privadas com a mesma finalidade. Como base para o GTI foram utilizados vários tratados internacionais, como a Convenção n.111, da Organização Internacional do Trabalho - OIT, assinada pelo então presidente Costa e Silva naquela fatídico ano de 1968, no qual o país se comprometia, sem ter cumprido, a formular e implementar políticas nacionais de promoção da igualdade de oportunidades e de tratamento no mercado de trabalho. Somente após pressão e protestos da sociedade civil e da Central Única dos Trabalhadores, é então criado o Grupo de Trabalho para Eliminação da Discriminação no Emprego e na Ocupação - GTEDEO, composto por representantes do Poder Executivo e de entidades patronais e sindicais, também no ano de 1995. 1996 - A recém criada Secretaria de Direitos Humanos lança, em 13 de maio, o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNHD, que tinha entre seus objetivos "desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta", "formular políticas compensatórias que promovam social e economicamente a comunidade negra" e "apoiar as ações da iniciativa privada que realizem discriminação positiva". 2002 - no final do governo de Fernando Henrique Cardoso foi lançado o II Plano Nacional de Direitos Humanos, que reconhece os males e os efeitos ainda vigentes causados pela escravidão, então tratada como crime contra a humanidade. 2003 - o governo de Luiz Inácio Lula da Silva promulga o decreto que reconhece a competência do Comitê Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial - CERD, para analisar denúncias de violação de direitos humanos, como previsto no art. 14 da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 7 de março de 1966. Também em 2003 é criada a Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial - SEPIR e, subordinada a ela, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial - CNPIR, visando apoio não apenas à população negra, mas também a outros segmentos étnicos da população brasileira, combatendo o racismo, o preconceito e a discriminação racial, e tendo como meta reduzir as desigualdades econômica, financeira, social, política e cultural, envolvendo e coordenando o trabalho conjunto de vários Ministérios. Nesse mesmo ano também é alterada a Lei 9.394, de 1996, que estabelece as diretrizes da educação nacional, para, através da Lei 10.639/03, incluir no currículo dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, segundo seu artigo 26-A, I, "estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil." 2010 - entra em validade o Estatuto da Igualdade Racial que, entre outras coisas, define o que é discriminação racial ("distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em etnia, descendência ou origem nacional"), desigualdade racial ("situações injustificadas de diferenciação de acesso e oportunidades em virtude de etnia, descendência ou origem nacional"), e regula ações referentes às áreas educacional, de propriedade rural, comunidades quilombolas, trabalhista, cultural, religiosa, violência policial etc. A "caçada" a Caçadas de Pedrinho - Acima estão apenas alguns dos "melhores momentos" da luta contra o racismo e a desigualdade. Há vários outros que deixo de fora por não estarem diretamente ligados ao caso. Eu quis apenas mostrar que o parecer do MEC não é baseado em mero capricho de um cidadão que se sentiu ofendido pelas passagens racistas de Caçadas de Pedrinho, mas conta com o respaldo legal, moral e sensível de ativistas e educadores que há anos estão lutando para estabelecer políticas que combatam o racismo e promovam a formação não apenas de alunos, mas de cidadãos. Em junho de 2010, o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto (Técnico em Gestão Educacional da Secretaria do Estado da Educação do Distrito Federal, mestrando da UnB em Educação e Políticas Públicas: Gênero, Raça/Etnia e Juventude, na linha de pesquisa em Educação das Relações Raciais) encaminhou à SEPPIR denúncia de conteúdo racista no livro Caçadas de Pedrinho. A SEPPIR, por sua vez, achando a denúncia procedente, protocolou-a no Conselho Nacional de Educação. Foi providenciado um parecer técnico, por pedido da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), realizado pela técnica Maria Auxiliadora Lopes, que é subcoordenadora de Educação Quilombola do MEC, e aprovado pelo Diretor de Educação para a Diversidade, Sr. Armênio Bello Schimdt. O parecer técnico diz assim: "A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. Isso não quer dizer que o fascínio de ouvir e contar histórias devam ser esquecidos; deve, na verdade, ser estimulado, mas há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro." Em outro momento: "Diante do exposto, conclui-se que as discussões pedagógicas e políticas e as indagações apresentadas pelo requerente ao analisar o livro Caçadas de Pedrinho estão de acordo com o contexto atual do Estado brasileiro, o qual assume a política pública antirracista como uma política de Estado, baseada na Constituição Federal de 1988, que prevê no seu artigo 5º, inciso XLII, que a prática do racismo é crime inafiançável e imprescritível. É nesse contexto que se encontram as instituições escolares públicas e privadas, as quais, de acordo com a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), são orientadas legalmente, tanto no artigo 26 quanto no artigo 26A (alterado pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008), a implementarem nos currículos do Ensino Fundamental e no Ensino Médio o estudo das contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígena, africana e européia, assim como a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena." Não há censura, boicote ou banimento. O parecer técnico fala sobre orientação, contextualização, preparo do educador para trabalhar a obra na sala de aula. Ouvi pessoas bradando contra uma possível nota acrescentada ao livro, dizendo que isso em si já seria uma mordaça ou um desrespeito à obra de Lobato. Será que isso valeria também para a nota existente no livro, alertando as crianças que já não é mais politicamente correto atirar em onças? É assim: "Caçadas de Pedrinho teve origem no livro A caçada da onça, escrito em 1924 por Monteiro Lobato. Mais tarde resolveu ampliar a história que chegou às livrarias em 1933 com o novo nome. Essa grande aventura da turma do Sitio do Picapau Amarelo acontece em um tempo em que os animais silvestres ainda não estavam protegidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), nem a onça era uma espécie ameaçada de extinção, como nos dias de hoje." (p. 19). Não que eu tenha nada contra as coitadas das onças, espécie ameaçada de extinção, mas será que as crianças não mereceriam também um pouco mais de consideração? O próprio Lobato, depois de ser acusado de ofender os camponeses com sua caracterização de Jeca Tatu como o responsável por sua própria miséria, reconhece o erro e pede desculpas públicas através do jornal O Estado de São Paulo, escrevendo também o mea-culpa que passaria a integrar a quarta edição de Urupês, em 1818: "Eu ignorava que eras assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharada cruel que te faz feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não". Ou seja, o próprio Lobato, nesse caso, levou em consideração o que é dito em uma de suas frases mais citadas por quem quer demonstrar a importância dos livros na formação de uma sociedade: "Um país se faz de homens e livros". Não devemos nos esquecer que, tanto na frase como no ato citado acima, ele coloca o homem em primeiro lugar. Outras contextualizações - Não é a primeira vez que uma obra considerada clássica sofre críticas ou até mesmo revisões por causa de seu conteúdo racista. Aconteceu, por exemplo, com o álbum "Tintim no Congo", do belga Hergé. Publicadas a partir de 1930, as tirinhas reunidas nesse álbum contam as histórias de Tintim em um Congo ocupado pela Bélgica. Por parte de Hergé, a obra foi revisada duas vezes, a primeira em 1946 e a segunda em 1970, reduzindo o comportamento paternalista dos belgas e suavizando algumas características mais caricaturadas dos personagens negros. Para justificá-las, Hergé declarou que as tiras tinham sido escritas "sob forte influência da época colonial", chamando-as de seu "pecado da juventude". O álbum revisado é publicado hoje no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora de Caçadas de Pedrinho, e traz a seguinte nota de contextualização: "Neste retrato do Congo Belga, hoje República Democrática do Congo, o jovem Hermé reproduz as atitudes colonialistas da época. Ele próprio admitiu que pintou o o povo africano de acordo com os estereótipos burgueses e paternalistas daquele tempo - uma interpretação que muitos leitores de hoje podem achar ofensiva. O mesmo se pode dizer do tratamento que dá à caçada de animais.” Tintim na França - matéria reproduzida da France Presse e publicada na Folha de São Paulo, em 24/09/2007, conta que o O Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas contra o racismo, solicitou à editora Casterman que incluísse em suas edições de Tintim um alerta sobre o conteúdo e contra os preconceitos raciais. Outras organizações, como o Conselho Representante das Associações Negras (CRAN) já tinham se manifestado contra o álbum anteriormente, chegando a solicitar, inclusive, que a editora parasse de publicá-lo. Segundo Patrick Lozès, presidente da CRAN, "os estereótipos sobre os negros são particularmente numerosos" e "os negros são mostrados como imbecis e até mesmo os cachorros e os animais falam francês melhor". Tintim na Inglaterra - em julho de 2007, depois de pronunciamento da Comissão Britânica pela Igualdade das Raças (BCRE), acusando o álbum de racista, uma das grandes redes de livrarias Britânicas resolveu passá-lo da prateleira de livros infantis para a prateleira de livros para adultos, reconhecendo que os congoleses são tratados como "indígenas selvagens parecidos com macacos e que falam como imbecis". Alguns anos antes, a editora britânica de Tintim no Congo, a Egmont, tinha se recusado a editar o álbum, voltando atrás por pressão de leitores, mas publicando-o com uma tarja de advertência sobre seu conteúdo ofensivo. Tintim na Bélgica - um congolês, estudante da Universidade Livre de Bruxelas, entrou na justiça belga com queixa-denúncia e solicitação para que o álbum fosse retirado de circulação. Tintim nos Estados Unidos - o álbum Tintim no Congo foi retirado das prateleiras da Biblioteca do Brooklyn, em Nova York, ficando disponível apenas para consulta solicitada. Adaptações e a integridade de um clássico - Creio que alguns dos que hoje exaltam a genialidade do escritor Monteiro Lobato podem não tê-lo lido de fato, conhecendo seu universo através das diversas adaptações de suas obras para a televisão. Esses, com certeza, conhecem uma versão completamente filtrada do conteúdo dos livros; e seria interessante ficarem atentos os que reclamam de censura e de ditadura do politicamente correto. Segundo matéria do Estado de São Paulo em 01/11/2010, uma parceria entre a produtora Mixer e a Rede Globo levará ao ar em outubro de 2011 uma temporada em animação de 26 episódios baseada no Sítio do Picapau Amarelo. Em entrevista ao jornal, o diretor executivo da Mixer contou que "resquícios escravocratas em referência a Tia Nastácia serão eliminados da versão". Outra mudança, segundo ele, é em relação ao pó de pirlimpimpim: "No original, eles aspiravam o pó e 'viajavam'. Na versão dos anos 80, eles jogavam o pó uns sobre os outros. Ainda não decidimos como será agora". Ou seja, desde que foi para a televisão, a obra de Monteiro Lobato tem sido adaptada, suavizada, contaminada pelo "politicamente correto". Talvez seja essa a "lembrança" de boa parte dos que dizem não ver racismo na obra de Lobato. Não seria o caso de brigar para que as referências racistas sejam mantidas, porque assim os pais também podem discutir racismo com os filhos que assistem TV Globinho? Ou que o pó de pirlimpimpim volte a ser cheirado para que as crianças, em contato com uma possível incitação ao consumo de drogas e sem nenhuma orientação, descubram por si só que aquilo é errado? Ou é ilegal, como também o é a adoção no Programa Nacional Biblioteca da Escola de obras que não obedeçam ao critério de ausência de preconceitos e estereótipos ou doutrinações. Mesmo assim, o MEC pede apenas um preparo do educador, uma nota explicativa, uma contextualização. E as pessoas, principalmente as brancas, dizem que não pode, que é um absurdo, um desrespeito com o autor. Desrespeito maior é não se colocar no lugar das crianças negras matriculadas no ensino público médio e fundamental, é não entender que uma nota explicativa que seja, uma palavrinha condenando o que nela causa tanta dor, pode não fazer diferença nenhuma na vida de adultos, brancos, classe média ou alta e crianças matriculadas em escolas particulares; mas fará uma diferença enorme nas vidas de quem nem é levado em conta quando se decide sobre o que pode ou não pode ferir seus sentimentos. Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como "macaca de carvão", "urubu fedorento", "beiço", "carne preta", seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: "O vício do cachimbo deixa a boca torta". *Ana Maria Gonçalves, negra, escritora, autora de Um defeito de cor 20 de novembro de 2010 - Dia da Consciência Negra.