Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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24 de fev de 2011

Movimento marca ato para tentar derrubar presidente de Angola

"As rebeliões populares no Oriente Médio estimularam a articulação de um movimento, em Angola, para derrubar o presidente José Eduardo dos Santos, há 32 anos no poder. Sucessor de Agostinho Neto, um dos ícones da luta pela Independência, Santos assumiu em 1979 a presidência do País e do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). Em 1992, passou por um tumultuado pleito, o qual reacendeu a guerra civil. Com a nova Constituição, a próxima eleição presidencial está prevista para 2012. O manifesto "A Nova Revolução do Povo Angolano" se espalha nas redes sociais, repercute em jornais online dos países de língua portuguesa e foi amplificado por uma nota da Agência France-Presse. "Em toda Angola, vamos marchar com cartazes exigindo a saída do Ze Du, seus ministros e companheiros corruptos", anunciam. O ato central está marcado para o Largo da Independência, em Luanda, no dia 7 de março. A combustão pode vingar, mas existe no povo angolano um sentimento de cansaço, depois de uma longa e devastadora guerra civil, encerrada somente em 2002. Terra Magazine procurou ouvir os líderes do movimento e trocou e-mails com "Agostinho Jonas Roberto dos Santos", que se apresenta como principal organizador dos protestos. Ele usa um pseudônimo que agrega os nomes de personagens da história contemporânea de Angola: Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e o próprio José Eduardo dos Santos. Preferiu não se identificar e afirma que não há outros manifestantes por trás do nome. "Eles vão matar alguns de nós, mas no fim não vão conseguir matar-nos todos", diz. - Entendemos que a mídia e algumas pessoas dentre o povo angolano estão preocupados com a minha cara e eu garanto-lhe que darei a cara no momento propício porque ainda estamos na fase de mobilização das massas. Assinada por Sergio Ngueve dos Santos, uma carta foi dirigida ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, com o pedido de "ajuda e observação". Há divisão entre os opositores angolanos. Em entrevista a uma rádio, o jornalista e ativista Rafael Marques, que mantém um site anti-corrupção, criticou o manifesto e disse que teme "um banho de sangue", pois "os angolanos são profundos praticantes e conhecedores da violência". "É preciso estruturar a sociedade no sentido de se preparar para o pós-Eduardo dos Santos", defendeu Marques. O líder anônimo, que não se assume como Sergio Ngueve dos Santos, garante que o movimento é composto por membros de todos os partidos políticos do País, mas não possui um caráter político-partidário. No centro das exigências, a realização de eleições periódicas e o fim da era "Zé Du". - Estamos cansados desta ditadura de quase 32 anos e queremos ser liderados por vários líderes em cada 5 ou 10 anos, o que acreditamos será uma verdadeira democracia, visto que o país será dirigido por diferentes pessoas com visões diferentes para o bem do povo angolano. O MPLA já se pronunciou contra o movimento, o que sugere a expectativa de uma dura repressão aos anunciados protestos em Luanda e no resto de Angola. Criticado por causa de sua longevidade no poder, além dos casos de corrupção no governo, Santos tem o controle das Forças Armadas e conta com uma força simbólica sobre o País. Nesta entrevista, o líder reconhece o desejo de paz do povo angolano. Entretanto, argumenta que os jovens possuem outra mentalidade: - Um jovem angolano disse, e com razão, que o povo de Angola já não é aquele povo de 20 anos atrás. Atualmente conhecemos a besta que vamos derrubar e não somos intimidados pelas ameaças mesquinhas do corrupto Dino Matross (secretário-geral do MPLA). Confira a entrevista. Terra Magazine - Agostinho Jonas Roberto dos Santos é um nome composto de lideranças políticas angolanas: Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e Eduardo dos Santos. Quantas lideranças estão por trás do atual movimento? Por que a preferência pelo anonimato no manifesto "Nova Revolução Angolana"? "Agostinho dos Santos" - O pseudônimo Agostinho Jonas Roberto dos Santos pertence a um só indivíduo que é o lider deste movimento. O movimento foi formado por jovens angolanos. A escolha do nome tem caráter simbólico, baseando-se na sequência de vida e morte dos protagonistas, sem querendo desejar a morte de José Eduardo dos Santos. O MRPLA não pertence a nenhum partido político angolano (lê 'about' em www.revolucaoangolana.webs.com), mas representamos o conjunto do povo angolano pela nossa diversidade provincial, tribal, racial, cultural, e muito mais. Entendemos que a mídia e algumas pessoas dentre o povo angolano estão preocupados com a minha cara e eu garanto-lhe que darei a cara no momento propício porque ainda estamos na fase de mobilização das massas e seria precoce e perigoso mostrar a cara. Vocês acham que uma movimento pela substituição do presidente José Eduardo dos Santos, que está há 32 anos no poder, tem as mesmas chances de prosperar que os protestos no Egito, na Tunísia e na Líbia? Acreditamos na mudança, principalmente porque estamos cansados das injustiças e da falta de interesse dos nossos governantes que para além de perpectuarem a exploração ao povo, perderam o sentido de criatividade e inovação. Estamos cansados desta ditadura de quase 32 anos e queremos ser liderados por vários líderes em cada 5 ou 10 anos, o que acreditamos será uma verdadeira democracia, visto que o país será dirigido por diferentes pessoas com visões diferentes para o bem do povo angolano. Não existe um cansaço do povo angolano com confrontos políticos, depois de uma longa guerra civil? O desejo de paz não deve enfraquecer o movimento? De princípio também pensamos assim, mas agora temos uma percepção diferente daquilo que é o nosso povo. Um jovem angolano disse, e com razão, que o povo de Angola já não é aquele povo de 20 anos atrás. Atualmente conhecemos a besta que vamos derrubar e não somos intimidados pelas ameaças mesquinhas do corrupto Dino Matross. O manifesto do movimento tem sido espalhado, principalmente, pela internet. Mas a penetração da internet não é grande em Angola. Como tem sido feita a mobilização para o ato de 7 de março? A mobilização em Angola está a ser feita em forma de passe-a-palavra (NR: boca a boca) e debates nos bairros, cidades em todo o pais. Estamos satisfeitos com a campanha que fizemos até agora porque não só no país mas os angolanos na diáspora (Alemanha, Brasil, EUA, Canadá, França, a associação da mulher angolana no Reino Unido (Omal), estão todos ao nosso lado. Os jovens no país são a nossa maior força nesta causa. Também tenho de realçar que a Constituição que o próprio governo elaborou garante-nos o direito de manifestação em lugares públicos SEM NENHUM AVISO, eu cito "reuniões e manifestações em lugares públicos carecem de prévia comunicação à autoridade competente". Como o movimento avalia o governo de José Eduardo dos Santos? Este governo gaba-se em ser sócio-democrático mas os seus atos, que foram uma experiência dolorosa para o povo angolano, define a verdadeira face do regime ditador de José Eduardo dos Santos. É um governo que não trouxe nada de melhor, repito, nada de melhor ao povo angolano. Lideranças do MPLA já defenderam medidas duras contra a manifestação. Vocês temem uma repressão violenta do governo? Uma repressão violenta é esperada pelo povo angolano, mas a nossa voz falará mais alto e os nossos atos irão remover o regime ditador de José Eduardo dos Santos. Eles vão matar alguns de nós, mas no fim não vão conseguir matar-nos todos. Viva o povo lutador de Angola. Vocês integram algum agrupamento político-partidário? Não nos integramos a nenhum agrupamento político-partidário, mas o nosso grupo está composto por angolanos de todos os partidos políticos angolanos. Este grupo não é político, mas sim um movimento de todo o povo de Angola que está a lutar na defesa genuína dos interesses do povo angolano. O movimento do povo apela a todos os militantes e partidos políticos de Angola, incluindo o MPLA, a se juntarem a esta revolução para o bem comum de todos os Angolanos. Também apelamos aos nossos irmãos da Polícia Nacional e as Forças Armadas Angolanas a se juntarem ao povo porque acreditamos que eles também são vitimas deste regime ditador. Fonte: Terra Magazine www.terramagazine.terra.com.br

19 de fev de 2011

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo, Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133). Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente". Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha". Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura. Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)". No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter. O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes. A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30). Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas. Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo. Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura. Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar. Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio". Com pesar, e em retribuição ao seu afeto, Ana Maria Gonçalves Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

Nandyala lança livro em Cabo Verde

13 de fev de 2011

Pirâmide invertida

(Por Silvio Mieli, do jornal Brasil de Fato). "O cartunista Carlos Latuff, sempre muito inspirado, desenhou o presidente Hosni Moubarak desplugando o mundo do Egito, representado por um mapa de onde saía a tomada de um modem ligado ao Globo. Só que do mapa surgia um braço forte que, por sua vez, desplugava o presidente do Egito. O Egito e sua cultura milenar já conheceram vários tipos de redes sociais. O império dos faraós e seus escribas; as passagens de Homero, Alexandre, César, Marco Antônio, Augusto, Pitágoras, Napoleão; a influência muçulmana; as configurações desenhadas pelo nefasto colonialismo britânico e pela delicada situação geopolítica com Israel. Só que agora estamos falando de um país com 67% da população abaixo dos 30 anos e 90% de jovens desempregados. É dentro desse contexto que Ahmad Maher organizou na primavera de 2008 um grupo de discussões na internet para apoiar a paralisação dos trabalhadores da cidade industrial de El-Mahalla El-Kubra. O coletivo pediu a todos que no dia 6 de abril, data da greve, usassem a cor preta e ficassem em casa em apoio aos grevistas. Facebook, twitter, flickr, blogs e outros recursos entraram em ação para cobrir a greve, denunciar os abusos da polícia e proteger juridicamente os ameaçados. Movimentos como o do “6 de abril” foram potencializados pelo levante tunisiano. E por mais que os seus fundadores digam o contrário, as chamadas “redes sociais” não nasceram para instigar sublevações. Facebook, twitter foram subvertidos pela base da pirâmide social egípcia para este fim. O resultado é um movimento profundamente marcado pelo anarquismo digital: a internet ajudou a encher as ruas, que por sua vez se auto-organizam sem lideranças e hierarquias palpáveis (ainda que forças político/religiosas queiram instrumentalizá-las). A própria população cerca a biblioteca de Alexandria e o museu do Cairo para protegê-los de saques. Diante deste novo cenário ciberpolítico, censurar os egípcios seria como impedir a troca de arquivos mp3. As pirâmides estão de cabeça para baixo. E Guy Debord, um dos artífices de maio de 1968, estava certo quando dizia que é um momento belíssimo aquele no qual se dá vida a um assalto contra a ordem do mundo. Desde o seu início, quase imperceptível, já sabemos que dentro em breve, o que quer que aconteça, nada será como antes".

1 de fev de 2011

Ministra Luiza Bairros em entrevista ao portal Áfricas

(Por: Luís Michel Françoso Fotos: Elói Correia/Agecom). "Em entrevista concedida ao Portal Áfricas, ontem (31), a Ministra Luiza Bairros, 57, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR/PR) comentou sobre suas principais metas agora à frente de cargo executivo no governo federal. A atual ministra ocupava anteriormente cargo titular na Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia (Sepromi), residindo na cidade de Salvador. A ministra Luiza Bairros nasceu no Estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre, é socióloga, e militou no Movimento Negro Unificado (MNU). Sobre os investimentos do ministério nos Clubes Sociais Negros a ministra destacou a estratégia de ampliar a relação da SEPPIR com a Fundação Cultural Palmares como forma de fortalecer o programa “Clubes Sociais Negros”. Confira abaixo entrevista. Áfricas – Quais as suas principais metas enquanto ministra da Igualdade Racial? Ministra Luiza Bairros - Este período dos três primeiros meses do ano é um momento importante para delinear os principais rumos da gestão da SEPPIR, estamos agora no final de janeiro terminando o processo de transição. Venho defendendo que a SEPPIR deve pensar três eixos na atual gestão o primeiro diz respeito à sua organização interna, onde é preciso fazer alguns rearranjos do seu funcionamento, tendo em vista as metas do atual governo da presidente Dilma Roussef (PT) que são erradicação da miséria, educação, saúde e segurança pública. O segundo eixo é o da relação da SEPPIR com os demais ministérios e o terceiro é o da relação do nosso ministério com a sociedade civil, que acontece principalmente através do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), já estamos com a proposta da primeira reunião do conselho ser no início do mês de março. Queremos ainda convocar setores do movimento negro organizados que não estejam representados no atual conselho, mas com atuação de referência na sociedade civil, como por exemplo, as redes de profissionais militantes da área de saúde e a Associação Brasileira de Pesquisadores (as) Negros (as) (ABPN). Áfricas – Qual a posição da senhora frente ao processo de implementação do Estatuto da Igualdade Racial no que diz respeito a política de cotas? Ministra Luiza Bairros - A relação é de apoio incondicional ao instrumento das cotas, é algo válido para a questão da igualdade racial, são ferramentas que provocam mudanças significativas em nossa realidade. Cada vez mais este instrumento das cotas está sendo legitimado como medida importante para a questão racial no Brasil. Agora os movimentos sociais organizados precisam estar atentos para o processo que está no Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do Partido Democrata (DEM), contrário às cotas, para que não percamos o direito das cotas nas instituições universitárias do país. (O Partido Democratas (DEM) ajuizou ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a utilização de critérios raciais para o acesso em universidades públicas) Áfricas – Desde 2005 os municípios aderem ao Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial (FIPIR), que por sua vez se constituiu enquanto espaço importante de geração de políticas raciais no campo institucional. Qual a expectativa de investimentos no FIPIR? Ministra Luiza Bairros - Houve por parte da SEPPIR um grande investimento no inicio da sua existência no FIPIR (Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial), a nossa intenção é de também oferecer investimentos. Pois o que acontece é que existe uma dificuldade das políticas propostas em nível federal conseguirem serem identificadas pelas populações nos municípios. E o FIPIR proporciona isso, possibilita que exista um diálogo entre gestores públicos das esferas federal, estadual e municipal. Iremos ainda consultar o nosso orçamento, para ver se podemos viabilizar a realização de convênios com governos para investir no fortalecimento dos órgãos do Fórum. Áfricas – Quais serão as políticas da SEPPIR voltadas as mídias alternativas que tem como foco o debate sobre a questão racial? Ministra Luiza Bairros - Existe uma demanda muito grande e os investimentos a serem realizados dependem do diálogo que iremos efetuar com estes setores da sociedade. Temos uma proposta de criarmos editais específicos, voltados para estas ferramentas de comunicação que contribuem para o aprofundamento de debates importantes no Brasil, esta é uma proposta que está sendo analisada. Considero de maior importância à existência destas mídias alternativas, porque contribuem de modo contrário à veiculação da visão por vezes distorcida da mídia nacional. Áfricas – Qual a opinião da senhora sobre a polêmica em torno de trechos da obra “Caçada de Pedrinho”, de Monteiro Lobato? Ministra Luiza Bairros - Em primeiro lugar acho que está questão foi tratada sem profundidade por alguns setores acerca do parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE), pois o parecer foi todo coerente com a política de diretrizes de distribuição de livros didáticos nas escolas. O livro do Monteiro Lobato, por exemplo, já contava com algumas contextualizações, agora acredito que devam ser incluídas contextualizações que comentem sobre o fato de que o livro foi escrito em uma época em que o racismo vigorava no país há muito tempo, e os estudantes precisam ser informados disto. Pretendo neste mês de fevereiro me reunir com o ministro da Educação para gerarmos uma posição de consenso em torno do tema.