Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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24 de abr de 2012

170 mil de cachê para Gabriel o Pensador e mil reais para cada escritor convidado





Fabrício Carpinejar cancela participação na Feira do Livro de Bento Gonçalves -
Escritor protesta contra cachê de R$ 170 mil pago ao rapper Gabriel o Pensador, patrono desta edição do evento.





Veja a íntegra da carta:


Querida Coordenação da Feira:

estou cancelando minha participação na 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves. Lamento fazer isso por todo amor que guardo pelos leitores da cidade.

É meu protesto pelo cachê absolutamente excessivo de R$ 170 mil destinado a Gabriel O Pensador. O artista (que eu admiro) não tem culpa de pedir o valor, porém a Prefeitura tem inteira responsabilidade de acatá-lo e não informá-lo da real capacidade cultural do município. O anúncio de pagamento ao músico é uma afronta às vésperas de pleito eleitoral.

Literatura não deve ser feita para atrair público, e sim para formar público.

Feira do Livro não é uma Oktoberfest, uma Fenavinho, uma plataforma popular de shows musicais e apresentações midiáticas. Feira é intensificar leituras em escolas e universidades ao longo do ano para propiciar debates e mesa-redondas com escritores durante uma semana.

Uma receita simples e imbatível: ler e comentar, ler e discutir, ler e produzir idéias coletivamente e transformar o pensamento.

O escândalo ? trazer grandes nomes com dinheiro público a preços estratosféricos ? é sempre a forma mais rápida de projeção nacional. A literatura é o modo mais lento, entretanto, com efeitos definitivos e perenes.

Quantas bibliotecas poderiam ser construídas com esse cachê? Quantas feiras poderiam ser realizadas com esse cachê?

Pense, querida coordenação, que o cachê é o equivalente a uma primeira parcela para fazer a Escola Municipal Infantil Paulo Freire, que acaba de ser inaugurada no Loteamento Panorâmico, no bairro São Roque, em Bento Gonçalves, para atender 240 crianças em turno integral.

Nas conversas telefônicas com a produção da Feira, aceitamos um valor padrão de R$ 1.000,00 (um mil reais), devido à alegação de que não haveria exceção, de que se tratava de uma regra extensiva aos demais participantes. A organização lamentou que não teria condições de exceder determinada quantia por limitação de orçamento. Vejo, infelizmente, que a Feira estava economizando com os autores gaúchos para pagar uma atração nacional.

Cuidado, a ilusão custa mais caro do que o sonho.

Grato,

abraço,

Fabrício Carpinejar

20 de abr de 2012

Salão do Livro de Suzano

Ontem participei do Salão do Livro de Suzano em dois momentos, uma roda de conversa e uma entrevista sobre minha trajetória literária. A prática da leitura prossegue como desafio, lemos muito pouco, mesmo dentre as participantes de uma feira literária, professoras, a maioria. E, como não lemos, temos limitações e dificuldades para falar de livros e de literatura. Não conseguimos virar a chave da convenção e conversar com uma mulher negra que escreve, a partir do lugar de escritora, continuamos enxergando apenas a ativista, como se a produção literária fosse um detalhe pouco significativo. E olha que se trata de uma literatura imbricada na vida cotidiana marcada pelas assimetrias raciais e de gênero, mas, mesmo assim, é um esforço amazônico manter ou trazer o foco da conversa para a produção literária. É preciso ler, minha gente! É preciso ler! Durante a entrevista, Conceição Evaristo, parceira de mesa, brilhou em noite inspiradíssima. Novamente, certas perguntas e intervenções-clichê dirigidas a escritoras negras foram feitas e respondidas da maneira possível. Algumas divergências entre mim e Conceição apareceram e foram discutidas com civilidade e elegância. Ah... como é bom conversar com uma pessoa que não grita ou manipula o microfone para impor ideias. No mais, uma papo ótimo com dois garotos ao fim do evento, quando pude discorrer mais sobre o imperativo de destruir a camisa de força que querem nos impor para abordar a literatura negra, explico: um modelo de abordagem que tenta impor o que devemos dizer como escritoras e escritores negros. Para finalizar, acertei participações nos sarau Literatura Nossa (Suzano), em maio e no aniversário do Marginaliaria, em junho. Em tempo: também em junho, visitarei o Sarau dos Mesquiteiros.

18 de abr de 2012

Paulina Chiziane critica imagem do Brasil vendida a Moçambique

(Deu no Correio Nagô). Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana Brasília - "Temos medo do Brasil." Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF). Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país. "Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem- sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo", criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país. "De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal", sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país. A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. "Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular", detacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições. Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir. "Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres", disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento. "Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras", disse Paulina. "Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas", disse Paulina. Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia, de autoria da escritora moçambicana.

16 de abr de 2012

Me leva, Calunga, me leva...

(Por: Cidinha da Silva). Acabo de assistir A travessia da Calunga Grande, espetáculo da Cia. Livre, e a Cabine de Controle não me deixa dormir. São os olhos do Grande Irmão, desnudados desde 1984, que reaparecem aterrorizantes. É a transmutação da Cabine de Controle. O texto é muito bom, bem construído, tem fio condutor e sabe onde vai chegar. Difere de um modelo que vem se tornando norma, pelo qual mata-se o ditador-dramaturgo, o ditador-diretor, e coloca-se no lugar dos perfis ditatoriais um texto frouxo, uma colagem esquizofrênica codinominada liberdade de criação coletiva. Os atores, e aqui falo mesmo dos homens, são excelentes, pelo menos quatro deles: Eduardo Silva, Sidney Santiago, Raoni Garcia e o pregoeiro, cujo nome escapou. A pesquisa dos mitos iorubá e gregos é consistente e vê-se que, de fato, sustenta com solidez o trabalho cênico do grupo. A música, percussão e piano, ele, também um instrumento percussivo, são discretos e dialogam com o todo. O problema é a Cabine de Controle presente na concepção/condução do espetáculo e nas revelações do público. No navio negreiro, cenário da peça, ocorre uma cena especial de agonia: um leilão de peças humanas. Reproduz-se o clima de um pregão escravocrata e a Cabine de Controle dentro dos expectadores desnuda-se em risos participativos cada vez mais sonoros, encorajados pelas manifestações divertidas em cadeia. Texto e atores demonstram habilidades louváveis no sentido de trazer o público para a cena, mas, mais do que eles, é a Cabine de Controle, a atriz onipresente! Vejamos: o pregoeiro apresenta jocosamente as peças em leilão, convida o público a utilizar patacas recebidas na entrada do espetáculo para comprá-las. A audiência atende ao chamado, participa entusiasticamente. Ao concretizar a venda, o pregoeiro imprime o brasão do comprador nas costas da peça adquirida. Para representar a situação, um bife de carne vermelha é colocado no ombro da peça da vez e o ferro quente é aplicado. A cena materializa veracidade e violência quase indescritíveis. O público consegue rir! O riso prossegue quando o pedaço de carne marcado a ferro é entregue numa pequena bandeja em mãos de cada comprador – é o certificado de posse! As peças compradas, cada uma com uma reação – de dor, ódio, medo, desespero, resignação – posicionam-se à frente dos compradores e, apenas nesse momento, parece que alguns percebem a falta de graça da cena. Um escravizado com expressão de ódio insiste em falar a própria língua, talvez o suahili, pois na frase há palavras banto, ditas com sonoridade árabe. Como recurso último da opressão, o protagonista é calado por uma mordaça de ferro. Boa parte do público pára de rir, mas um risinho ou outro, mesmo tímido, ainda é ouvido. Por fim, o escravizado amordaçado encara o comprador, fulmina-o com o olhar, único canal de expressão aberto em seu rosto. O algoz encolhe-se na cadeira, a Cabine de Controle foi ameaçada. Desculpem-me meus colegas de platéia, se sou velha, ranzinza, não tenho senso de humor e não sei rir de uma “simples ficção”, mas ali não vi graça, só agonia, dor e a presença acachapante da Cabine de Controle no barco Fortuna Tropical e em vocês, como parte eficiente da cena. A compreensão da Cabine de Controle é uma questão de ponto de vista e de vista de um ponto. O lugar de onde vejo o mundo é aquele da canção de Congada: “quando eu saí de casa / minha mãe me incomendô / oh... minha fia, ocê num apanha / que seu pai nunca panhô.” Processos educativos demoram toda uma vida, bem sei, mas há que haver celeridade para desconstruir a Cabine de Controle em todos os seus funestos mecanismos de garantia de poder e privilégios para os que sempre estiveram na condução do leme e sua descendência. Há que educar pelas nossas lentes, de objetividade mais profunda. Há que opor o sangue das lágrimas e do corpo do povo africano derramado na Calunga Grande, ao sal das lágrimas de Portugal no mar de Pessoa. À pena e ao teclado, meu povo! Ao palco! Às telas! Simbora escrever a nossa história! Simbora matar de morte matada, a Cabine de Controle!

11 de abr de 2012

Bom papo na segunda, dia 16 de abril

Cidinha da Silva no Salão do Livro de Suzano

Estarei no Salão Internacional do Livro de Suzano, dia 19/04/2012, em dois momentos: às 17:00, no stand Ciranda Lilás, do Instituto Patrícia Galvão, abordarei o tema "Romance infanto-juvenil gênero e raça". Kuami, meu romance de 2011, será a obra em destaque. Às 19:00 falo sobre meu percurso literário, em mesa compartilhada com Conceição Evaristo. Durante todo o evento (13 a 22/04/2012), meus livros serão comercializados no stand Ciranda Lilás. Apareçam!

9 de abr de 2012

Você já leu poemas em braile?

(Divulgação)."As possibilidades de leituras extrapolam o poder dos olhos. Recentemente lançamos "O olho da mulher", de Giocconda Belli no Sarau. Nem nos demos conta da energia por detrás dessa "visão poética" e já nos deparamos com um autor cego, o Valdivino Lucas que nos dará o prazer de ler seu primeiro lançamento: "Parte de Mim". Transcrito para o braile o livro promete uma incursão para extrapolar os sentidos da visão. Se os físicos dizem que para haver imagem, deve haver luz, vale-nos a provocação de que Nesta quarta feira, o princípio da poesia é justamente a escuridão dos olhos comuns. Venham, e experimente adentrar num desconhecido. À luta, à voz! Rogério Coelho."

3 de abr de 2012

Desde que o samba é samba, novo romance de Paulo Lins, em breve, nas livrarias!

Por Maria Carolina Maia. "Brancura, não. O tema é samba. Engana-se quem, nas primeiras páginas, imaginar que o protagonista de Desde que o Samba É Samba (Planeta, 336 páginas, 39,90 reais), livro que o carioca Paulo Lins lança dia 9 de abril, é o sambista Brancura (1908?-1935?). Como em seu romance de estreia, o memorável Cidade de Deus, lançado há quinze anos, não há neste livro um personagem principal, e sim um tema que é "protagonista". E se lá a grande questão era a violência nas favelas cariocas, aqui a questão é o samba, a sua reinvenção – ou invenção, como prefere o autor – por mestres e malandros no Rio de Janeiro, a criação da primeira escola por bambas como Ismael Silva (a Deixa Falar, em 1928) e o surgimento da umbanda, em 1908. Se não como se deram os fatos, ao menos como Paulo Lins os imaginou. Enquanto passa uma temporada no Rio trabalhando com o diretor Luiz Fernando Carvalho em Suburbia, série com estreia prevista para o segundo semestre na Globo, Lins fala em primeira mão a VEJA sobre o novo livro e seu método de criação. Com ajuda de duas assistentes contratadas por ele mesmo, o escritor fez uma extensa pesquisa para escrever Desde que o Samba É Samba, com incursões na zona do baixo meretrício carioca e em terreiros de umbanda – ele chegou a gravar conversas com médiuns (supostamente) incorporados, daí o nome de Caboclo Ubiratan, entidade da religião, figurar entre aqueles a quem dirige seus agradecimentos ao final do livro. “Cheguei a pesquisar a ficha policial de alguns personagens. O Ismael Silva, por exemplo, foi preso uns dois anos porque atirou numa pessoa. Muitos também eram presos só por fazer samba”, conta. De Silva, no entanto, Lins não cita a prisão. Em vez dela, cita a sífilis e crava, com todas as letras e gírias, que o músico era homossexual – suspeita que sempre ficou no terreno dos boatos. Foi assim, recortando e colando casos reais e ficcionais, que ele construiu o livro. Alguns personagens, como a prostituta Valdirene e o português Sodré, foram criados para dar tramas ao romance – Valdirene e Sodré, por exemplo, formam um triângulo amoroso com Brancura. “Verdade mesmo é a invenção do samba”, afirma Lins. O escritor, que conta ter composto dois sambas-enredo ainda adolescente, para um bloco de rua da Cidade de Deus, deu início a Desde que o Samba É Samba em 2005. Mas, como passava por um grande bloqueio criativo após o estouro do primeiro romance, transportado para o cinema por Fernando Meirelles e vendido para mais de 20 países, interrompeu e retomou diversas vezes o projeto, até finalizá-lo na virada de 2011 para 2012. O bloqueio vinha, em parte, pelo receio de não repetir o sucesso de Cidade de Deus. Desde que o Samba É Samba é, de fato, um livro menor que o anterior, especialmente porque, na reta final, dá a impressão de perder o fio condutor. Nas primeiras 200 páginas, o triângulo amoroso Brancura-Valdirene-Sodré domina a narrativa, intercalando-se com histórias de Ismael Silva (como a sua descoberta por Francisco Alves, o rei da voz) e Bide (a invenção do surdo e a recriação do tamborim), e imprimindo ritmo ao livro. Depois, porém, o triângulo dá lugar à narração, sem sobressaltos ou surpresas, da criação de Deixa Falar, a primeira escola de samba do país, e da ascensão do ritmo de Bide e Silva entre os ilustrados, como Mário de Andrade (também taxado de gay), Manuel Bandeira, Carmem Miranda e o já citado Francisco Alves. Ao mesmo tempo, Desde que o Samba É Samba tem um texto que, assim como o de Cidade de Deus, se candidata a uma adaptação, seja para a TV, seja para o cinema. Lins escreve de um modo fluido, como se fizesse um roteiro. De temática popular, próxima inclusive à de Jorge Amado, o romance é uma aposta da editora Planeta, que comprou o passe de Lins da Companhia das Letras por 100.000 dólares em 2004. O livro sai com uma tiragem de 100.000 cópias. No segundo semestre, a editora deve lançar um título infantojuvenil do escritor. Mas foi sobre Desde que o Samba É Samba, seu segundo romance adulto, que Paulo Lins falou ao site de VEJA. Confira abaixo os melhores momentos da conversa. Você teve um bloqueio criativo de cerca de dez anos após o estouro de Cidade de Deus. O lançamento de Desde que o Samba É Samba provoca muita ansiedade? Eu fiquei ansioso até entregar o livro aos meus leitores – como Heloísa Buarque de Holanda (especialista em literatura), Luiz Eduardo Soares (ex-secretário de Segurança do Rio e autor de Elite da Tropa, livro que deu origem ao filme Tropa de Elite), Cabelo Saad (artista plástico, dá nome a um personagem secundário em Desde que o Samba É Samba), Maria Elisa Cevasco (professora da USP), Marcelo Paixão (professor de Economia Social da UFRJ), Eduardo Assis Duarte (critico literário e professor da UFMG), João Batista Vargens (professor de árabe e samba da UFRJ) e Bianca Ramoneda (jornalista). Esse pessoal fez uma revisão do livro para mim. A Heloísa, principalmente. Ela acompanhou quase toda a construção do livro, leu as primeiras páginas, depois, quando eu tinha acabado de escrever, ela leu de novo e pediu que eu cortasse alguma coisa e mudasse o final do livro. Eu reescrevi algumas passagens por sugestão dela, que achou que eu tinha perdido a mão ali. Ela é muito sincera comigo. No fim, ela gostou e fez a contra-capa. Desde que o Samba É Samba, pelo seu universo, tem um quê de Jorge Amado. Além de seus leitores, o escritor baiano também foi uma referência para o livro? Jorge Amado é um autor de que gosto muito, e enquanto fazia o livro de fato dialoguei com ele, como dialoguei com as obras de Marçal de Aquino, Ferrez, o Arnaldo Antunes, e mesmo Cabelo, que é artista plástico. Vi uma adaptação teatral de Capitães da Areia e reli Mar Morto. Ainda folheei os livros Jubiabá e Gabriela, para rever alguns personagens. O tema do meu novo romance se aproxima do universo do Jorge Amado, porque fala de tias baianas que migraram para o Rio de Janeiro no começo do século XX, tem sexo, candomblé e umbanda. Eu precisava rever sua obra, sobretudo Capitães da Areia, em que a polícia prende a imagem de Xangô. Você lê bastante enquanto escreve? Depende. Durante as pausas que dou na escrita, leio romances. Mas, quando estou escrevendo, costumo ler poesia. No caso de Desde que o Samba É Samba, também escutei muita música enquanto escrevia, e a música é uma forma de poesia falada. A poesia ajuda a escrever o romance porque é mais concisa, dá uma precisão maior para escrever, para construir personagens sem muita gordura. Eu gosto disso, de dizer quem é o personagem em poucas palavras, numa só frase. A poesia também dá mais impacto à linguagem. A poesia é a verdade, quem falou isso foi o Paulo Leminsky. Você vê que, quando os poetas vão editar seus livros, eles não deixam que se mexa em nenhuma palavra. Porque a poesia é feita de precisão, não tem nem um pouco a mais nem um pouco a menos. Cada palavra tem seu lugar certo. Por falar em samba, no livro você toma partido do Rio de Janeiro, em detrimento da Bahia, na invenção do ritmo. E o que muitos historiadores contam é que o samba nasceu na Bahia e chegou ao Rio com os baianos que migraram para lá, depois foi se transformando... Mas que sambista tem na Bahia? Cadê o Zeca (Pagodinho) de lá? O samba nasceu no Rio. Quem fala que nasceu na Bahia não tem conhecimento da história. Além de ouvir samba enquanto escrevia, você fez mais algum tipo de laboratório ou pesquisa? Sim. Eu não sou filho de santo nem iniciado ou médium, mas fui muitas vezes à umbanda, que eu já conhecia desde novo, porque minha mãe freqüentava, para pegar mais detalhes do culto. Conversei com várias entidades em sessões de umbanda e até gravei algumas conversas, coloquei a visão deles no livro, foi um trabalho etnográfico maravilhoso, com ajuda de duas assistentes. Não pesquisei a fundo nenhum livro de umbanda, fiz trabalho de campo. Também fui à zona do baixo meretrício conversar com prostitutas. Li sobre tudo, também. Mas, apesar da pesquisa, você toma muita liberdade com os fatos e os personagens. A liberdade foi maior do que em Cidade de Deus, também feito a partir de pesquisas? Ah, com os dois tomei bastante liberdade. Eu me joguei, você tem de se jogar. Tudo o que eu podia falar, falei. Não tive nenhuma barreira. Com personagens como Ismael Silva e Mario de Andrade, considerados gays por boatos, a liberdade é clara. Eles são assumidíssimos em Desde que o Samba É Samba. Algumas pessoas com quem falei no Rio, durante a pesquisa, comentaram sobre a homossexualidade do Ismael Silva. Fiquei na dúvida se colocava isso ou não no livro. Quando voltei a São Paulo, onde moro hoje, veio a notícia daquele jovem que foi agredido na avenida Paulista com uma lâmpada fluorescente. Aí, decidi botar no livro que o Silva era gay. Porque tudo isso é preconceito – a agressão na rua a um homossexual e o silêncio sobre a sexualidade de uma figura histórica. Você tem receio de que algum familiar reclame da abordagem do livro? Ah, não, não tenho medo disso, não. Não posso construir um trabalho pensando nisso, eu tenho de ser livre para falar o que quiser, sem preconceitos. E a editora, depois de lido o livro, disse para eu não me preocupar, que não teria problemas. Desde que o Samba É Samba mostra um Rio de Janeiro muito diferente daquele de Cidade de Deus. Você queria de certa forma resgatar um outro Rio? Sou movido por questões sociais. Quando eu fiz Cidade de Deus, eu queria que diminuísse a violência no Brasil. E, quando escrevi Desde que o Samba É Samba, eu queria fazer justiça aos grandes artistas que fizeram o samba. Quanto ao Rio antigo, a violência era aparentemente menor, mas existia de outras formas. O negro estava saindo da escravidão, era ainda submisso e perseguido. O racismo era uma coisa normal. O livro tem menos violência porque eu não toco nesse assunto. Em Cidade de Deus, o tema era a própria violência. Em Desde que o Samba É Samba, o foco é a produção cultural de um povo. O que importa no livro é a virada, o samba e a umbanda como questões estruturais, como a força de uma cultura vai de encontro com o preconceito e o racismo. Por outro lado, Desde que o Samba É Samba mostra as raízes da violência que se verá em Cidade de Deus: policial vendendo arma, carregamento de maconha chegando. Sim, o samba nasceu em um mundo marginal, na periferia em torno da praça Onze de Junho, na zona do baixo meretrício, ali no Estácio. O samba era marginal como era o funk há alguns anos. A Marquês de Sapucaí, que hoje é passarela de samba, era uma área marginal. O negro livre, recém-libertado, era marginal. O Estado já era ausente ali. Ausente, não. O Estado era bandido. Era corrupto como sempre foi. A polícia matou um garoto aqui no Rio com tiro de fuzil. O Estado é assassino. E era pior com os negros."

2 de abr de 2012

Quatro poetisas da poesia preta paulistana

(Por Renata Felinto) As obras fundamentais de Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) e de Conceição Evaristo e, sem dúvida, de outras escritoras que estão criando Brasil afora como Dinha, Miriam Alves, Cristiane Sobral, Alzira Rufino, Elisa Lucinda, Geni Guimarães, Cidinha da Silva, entre outras, semearam frutos em terras paulistanas. A literatura pensada, imaginada e idealizada por mulheres afrodescendentes não é nascente: é viva, pulsante e crescente. Basta dar uma passada em qualquer dia da semana pelos vários saraus que vêm brotando cidade af(l)ora. Neles, temas como amor, relacionamento, sociedade, política, ancestralidade, memórias, existência, entre outros, demarcam as produções de mulheres pretas dos vários cantos de São Paulo. Mulheres que frutificam a criação, representam as personas de mães, companheiras, amantes profissionais, cidadãs e “escrevevivem”. Apresentamos aqui quatro delas: Elizandra Souza, Priscila Preta, Raquel Almeida e Tula Pilar. Três paulistanas de nascimento e uma de coração que em suas produções têm como bases comuns a oralidade na qual avós, pais e outros parentes (re) contam e (re) criam suas próprias trajetórias, suas referências; a tradição dos cordéis que se relacionam com as questões de oralidade e identidade; a cultura hip hop e de periferia, juntamente com as trocas e descobertas feitas nos saraus que frequentam: e, o ser feminino, que dia a dia se aprende a ser, mulher negra, preta. Elizandra Souza ou Mjiba, tem 28 anos é jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, desde 2010 e redatora da Agenda Cultural da Periferia (Ação Educativa). Ah, e retomando as leis que durante séculos tentaram restringir o acesso de negros e mestiços aos meios de ensino formais, Elizandra foi aluna cotista (PROUNI). Agora, só no século 21, é que as leis estão mudando e tentando minimizar o grande prejuízo sofrido pela população afrodescendente. Sua família mudou-se de São Paulo para Nova Sorue (BA), quando Elizandra tinha dois anos. Cidade de origem de seus familiares, Nova Sorue exerceu grande influência estética na moça. Deste período, carrega belas memórias, e como a poesia do cotidiano corre pelo seu sangue, ela as intitulou de “Sorriso amargo e lágrima doce”, sintetizando os momentos de visita à casa dos avôs que moravam numa fazenda, e a vontade de se deliciar saboreando castanha de caju, maça e bolacha recheada, pequenos prazeres de criança. A literatura estava presente em sua família via os livretos de cordéis da coleção de sua Tia Zefinha que, vez ou outra, contava uma história para os sobrinhos. O seu interesse pela literatura surgiu quando, ainda menina, se juntava à sua irmã para ler pequenos livros e histórias em quadrinhos, tentando, deste modo, se esquivar do trabalho doméstico. Foi na escola que tomou contato com a poesia de Castro Alves (1847 - 1871) e de outros poetas do período romântico. De volta a São Paulo, em 1996, conheceu a cultura hip hop e, pouco tempo depois, passou a produzir o fanzine. Sua relação com a oralidade, com os cordéis, com a cultura hip hop e o fanzine, tudo isso junto e misturado, despertou em Elizandra o desejo de escrever poesias. Nesta época passou a adotar o codinome Mjiba, que significa “jovem mulher revolucionária” nomeando as mulheres que participaram da luta armada pela independência de Zimbábue. Conheceu, e se apaixonou pelo termo, após ler o livro “Zenzele – Uma carta para a minha filha” (1996) da escritora de Zimbabue, J. Nozipo Mairare. As suas poesias versam sobre muitas temáticas como negritude, identidade, racismo, pois como disse Elizandra: “utilizo a minha escrita como luta política, como forma de conscientização”. Mas, considera que uma das “maiores lutas do século é o amor”. Tem pensando sobre as dificuldades para a concretização das relações de amor e de respeito mútuo entre homens e mulheres negras, mais que isso, na solidão que vive a mulher negra numa sociedade na qual homens brancos e negros desejam o amor advindo do padrão de beleza feminino cristalizado. Sobre as dores e prazeres de ser mulher, Elizandra se posiciona: Sangre mais uma vez!/ Expila do seu corpo/ O embrião não fecundado/ Junte todo o amargor/ E sangre outra vez!/ É dolorido/, Mas sinta com intensidade essa cólica/ Esse mal estar/ Mas sangre mais uma vez!/ Sangre nessa hipócrita sociedade/ Junte todas as dores expelidas/ Retire da calcinha/ Esse absorvente enxarquecido/ E jogue fora todos esses sangrados/ Mas Menstrue e Ação! MenstruAção Elizandra já teve seus poemas publicados em várias coletâneas e antologias, como dos Cadernos Negros e possui um livro escrito em parceria com o poeta Akins Kintê e editado pela Edições Toró, chamado Punga (2007), para quem se interessar por conhecer seu trabalho. Quem desejar conhecê-la ao vivo e a versos pode tentar encontrá-la no Sarau da Cooperifa, que ocorre todas as quartas no Bar do Zé Batidão, no Jardim Guarujá, zona sul de São Paulo. A preocupação com a saúde emocional e amorosa da mulher negra em nossa sociedade machista, sexista e racista, também é uma das preocupações e temas da poeta Priscila Santos Martins, ou Priscila Preta. Com 27 anos de idade, a poeta, formada no curso de Comunicação das Artes do Corpo da PUC (SP) também é atriz e fundadora da Companhia de Arte Negra As Capulanas. O nome Priscila Preta apareceu nas escolas privadas nas quais estudou como forma de distingui-la da maioria de “Priscilas” brancas, uma vez que era, geralmente a única negra. Conheceu a literatura escrita ainda criança, pois por obter boas notas era presenteada com livros. Entretanto, foi ao ter aulas com um professor de literatura que também era músico que despertou para a cena artística multimídia (artes cênicas, música e literatura), já que além da criação de textos, o professor promovia a encenação das histórias cunhadas por seus alunos. O que não faz um bom professor na vida das pessoas... As impressões e vivências cotidianas são referenciais para a sua produção artística, como a prática de sua avó Maria que era benzedeira: “... tudo que ela fazia pra mim era muito mágico, eu observava a dança de suas mãos com a arruda molhada na água com sal, ela falava palavras que nunca consegui entender e depois batia a arruda nas mãos da pessoa... Eu via isso muitas vezes no mesmo dia, mas não me cansava de ver e de ser benzida também... E eu ficava ali me apaixonando cada minuto por ela”. A poeta de aparência forte e corpulenta, que por vezes parece até estar pronta para a guerra, em verdade é puro coração. Apesar de em sua poesia trazer a tona vários temas, são as paixões do corpo que dominam a sua escrita atualmente: homem e mulher, sensualidade e erotismo. Preto que boca é essa?/ Vem falar aqui nas minhas ruas/ Nuas escuras/ Deixa eu provar dessa boca berinjela/ Crua/ Carnuda/ Deixa eu me achar nesse céu molhado/ Deitar nesse travesseiro algodão doce/ Preto que boca é essa?/ Seca minha língua/ Ostra minha pérola/ Espera na esquina/ Corre pro ponto/ Chega/ A.C.O.N.C.H.E.GAAAA... Enú Yanjú Priscila acredita que a poesia hoje é uma nova forma de (re) ver a vida, “Criar outros desenhos”. Ainda no início de sua carreira como poeta, ela acredita que a poesia possa se apresentar como uma forma de minimizar a depreciação histórica do corpo, psique e coração da mulher negra, tornando-a protagonista, ao menos de suas criações. “A mulher preta durante muito tempo foi privada de muitas coisas. A liberdade é vigiada por alisantes, posturas e estigmas. Somos consideradas fogosas e muitas vezes não temos a oportunidade de fazer amor, apenas se dar pro encontro, pra troca... A poesia é minha bomba, uma forma de explodir os grandes prédios culturais do racismo, do machismo, das relações de poder e construir ocas não ocas... Casas que tenham pessoas, trocas e principalmente circularidade”. Com seus poemas publicados em antologias como a III Antologia do Sarau na Brasa (2011), que frequenta há algum tempo, também pode ser vista declamando nos saraus da Cooperifa, do Binho e Elo da Corrente. Prefere ser chamada de poeta, afinal, como disse: “A palavra já é feminina”. E por falar no sarau Elo da Corrente, foi Raquel Almeida da Silva, de 24 anos, que o organizou, em 2007, juntamente com outros escritores. Formada, como ela mesma explica, pelas histórias de sua família, pelas músicas e leituras que faz, pelas relações de amizade e afeto que construiu, pelas pesquisas que realiza, Raquel Almeida, como é conhecida, assim como Elizandra, também teve na literatura de cordel uma de suas primeiras referências. O Almeida de seu sobrenome e que adotou como nome artístico é uma homenagem à sua avó após ter percebido o quanto ela valorizava o sobrenome que carregava. No caso de Raquel, também aparece um tio conhecedor de literatura de cordel que juntava os sobrinhos para recitar e realizar performances e cantorias. Alias, a música também está muito presente em sua vida familiar. Ela se recorda também de que havia muita musicalidade em seu cotidiano: “... me lembro que em todas as atividades feitas em casa, comida, limpeza, construção da casa, meu pai em especifico, cantava musicas conhecidas e no meio disso inventava canções, minha família tem uma coisa curiosa em tudo que faz, faz cantando, é engraçado (risos)”. Quando pequena observava sua mãe escrevendo poesias de forma tímida e passou a escrever também, em um caderninho, porém, ainda como um exercício, sem se preocupar com o ato da criação, da temática. A avó, o tio, o avô, a mãe. É evidente que a questão familiar é muito importante tanto na vida quanto no processo criativo de Raquel. Muitos familiares são citados e são referenciais quando ela fala tanto de suas influências quanto de suas memórias. A sensibilidade em adotar o sobrenome que sua avó tanto se orgulhava demonstra este vínculo ancestral, que tem também a função de localizar os indivíduos nesta contemporaneidade que tem privilegiado valores individualistas. As bases de Raquel são os que estão antes dela, os que lhes dão chão, seus antepassados. Preciso beber da fonte ancestral/ Comer feijão com farinha/ Amassado entre os dedos/ Peixe com coco e dendê/ Preciso beber dessa fonte/ Tomar banho de manjericão/ Me encolher no seu colo/ Pedindo proteção/ Preciso me alimentar dessa fonte/ Ouvir suas historias/ Transmiti-las em sonho e orgulho/ Me embalar nas tuas lembranças/ Colher frutos futuros/ Preciso beber dessa fonte/ Fonte materna de inspiração/ Prudência/ Fazer reverencia/ És a ave que escuta os ancestrais e a descendência/ Preciso beber da tua fonte... Preciso beber da fonte ancestral Dentre as leituras de sua formação estão livros de suspense, infantis, filosóficos, e, mais uma vez, a música em forma de poesia, nas letras de rap dos Racionais MCs, que os vizinhos ouviam em alto e bom som e que seu pai achava que era música de marginal, de bandido. Proibindo seus filhos de ouvirem. Depois leu o livro do Preto Ghóez “Sociedade do Código de Barras” (2006), outro mundo que se abriu: “...li e fiquei inquieta demais, inconformada, sei lá, acho que foi um estalo que me despertou pra varias coisas”. Pensa na poesia como um instrumento de transformação com maior poder de abrangência do que as manifestações violentas, especialmente quando o assunto é a questão racial: “... vejo que muitos conflitos e preconceitos que eu passava na infância e na adolescência sobre a identidade racial, ainda são tão presentes e agressivos nos dias de hoje, mas falar em forma de gritos, esbravejando militância nem sempre atinge quem realmente queremos, a poesia tem sido um dos meios de transmitir isso, gritando ou não”. Para Raquel apesar do potencial transformador da poesia, é muito importante que as pessoas passem a se informar, a ler mais e a conhecer a história do país, pois sem o autoconhecimento não haverá transformação, mudança. E essa ação deve começar com o espaço no qual vivemos. Para conhecer Raquel basta ir ao sarau Elo da Corrente, em Pirituba, e no Poesia na Brasa, na Brasilândia. Ainda é possível tomar contato com seu trabalho por meio do livro Duas Gerações - Sobrevivendo no Gueto (2008), feito em parceria com a poeta Soninha M.A.Z.O, pelo selo Elo da Corrente Edições. A poeta, ou melhor, poetisa, prefere ser chamada desta forma porque, segundo ela, esta palavra “afirma uma escrita feminina”. Dentro deste grupo de quatro poetas, ou poetisas, Tula Pilar Ferreira, nascida em Leopoldina (MG), é a mais experiente, portanto, com uma potência feminina muito latente. A sua maneira de se mover no mundo é lascivamente feminina. A primeira vez que a vi, em 2010, no Sarau do Binho, ela apresentava uma coreografia a partir da dança do ventre, inclusive, trajada a caráter. Foi impressionante observar como os sorrisos nervosos e as brincadeiras de alguns frequentadores eram mais um mecanismo para mascarar a libido despertada pela apresentação sensual. Sim, temos problema em falar sobre sexo e desejo de uma maneira natural. Mas, a mulher é poderosa! Formada pela vida e participante de várias oficinas e cursos livres é conhecida em São Paulo por “Pilar”, nome pelo qual lhe tratava um ex-patrão de origem espanhola. Na infância, criada em casa de pessoas com alto poder aquisitivo, teve acesso a várias leituras próprias do universo da criança das fábulas e contos de fadas europeus às aventuras dos personagens infantis de Monteiro Lobato (1882 - 1948), com os quais ficava fascinada. Se lembra até de ter estudado um pouquinho de inglês nesta época: “Tinha uma moça americana que me ensinava tudo o que perguntava, guardo na memória até hoje”. Criação de moça grã-fina. Começou a escrever, tanto influenciada pela miríade de livros aos quais tinha acesso quanto por seu próprio desejo pessoal. Entretanto, tem consciência de que as histórias que leu a inspiraram profundamente, apesar de muitas vezes não permitirem que ela mergulhasse nas águas da leitura: “... rasgavam tudo e me mandavam trabalhar, fazer algum serviço... Eu era a menina pobre que lia todos os dias enquanto limpava”. Foi a leitura do livro Negras Raízes (1976), de Alex Haley, que a direcionou para as temáticas relacionadas à sua origem afrodescendente e lhe trouxe sabor amargo para a vida, descobrir a maneira como os escravizados norte-americanos foram tratados foi um choque. Também se identificou com o livro A Cor Púrpura (1982), de Alice Walker: “... a história dela é parecida com a minha e de minhas irmãs”. Pilar poderia ser uma pessoa amargurada pelos percalços da vida, entretanto, é das pessoas mais positivas que conheço. Suas poesias refletem esta maneira não vitimizada de ver o mundo e falam sobre o erotismo e sensualidade e também sobre família. Acredita que a poesia está aí para quem quiser, porém que poucos conseguem compreende-la e que, por vezes, apreciar poesia ou ser poeta, pode se tornar um motivo de chacotas tanto por parte de “ricos e pobres, negros e brancos, acadêmicos ou não”. Pilar é mãe, amante, mulher. Isso é o mais fascinante em Pilar, como poucas mulheres, pretas ou não, ela consegue ser tudo isso: a “Oxum-Vênus-Negra” nessa preta é forte! Mas, ela aconselha, ele educa e prepara para vida, como as coisas deveriam ser: Ai moleque/ Ouça o que sua mãe diz/ Tome banho/ Limpe o ouvido e o nariz/ Agora não é hora de jogar essa bola/ Não enrola, vai pra escola./ Seja inteligente/ Não faça prova copiando cola/ Caminhando ou de lotação/ Vá pedindo informação/ Pra chegar ao curso (grátis/) Lá no Capão/ À tarde tem obrigação/ Cuidar do irmão... Trecho da poesia Se Liga Moleque NOTAS DE RODAPÉ As mulheres/ As meninas/ As moças/ As mães e as tias da periferia/ Querem homens profundamente/ Mais educados educadores/ Mais pensantes pensadores/ Mais elegantes não só reprodutores/ Mais generosos e não geniosos/ Mais humanos cidadãos/ Porque a história tem seu ciclos sim/ E tudo se renova de olhos atentos/ E principalmente as avós/ Querem homens que enterrem seus mortos. FAZ MUITO TEMPO, poema presente no livro Negrices em Flor (Edições Toró, 2007), de autoria da poetisa Maria Tereza, paulistana da Nova Cachoeirinha falecida em janeiro de 2012 de uma doença pouco conhecida e, no mínimo, com nome curioso: Síndrome Poems. ESCREVEVIVEM Conjugação do termo escrevivência, cunhado pela escritora Conceição Evaristo para sintetizar e amalgamar os sentidos sobre as noções de vivência, ancestralidade, negritude e feminilidade. Fonte: http://omenelick2ato.com/poesia/poetizar-o-ser-feminino/ http://omenelick2ato.com/poesia/poetizar-o-ser-feminino/

1 de abr de 2012

Diga-me com quem tu andas e eu direi quem tu és! Viu, Caetano?

Para quem não se lembra ou não a conhece, esta é Yvonne Maggie, que recebeu e recebe substantivos financiamentos públicos para dissecar o negro brasileiro em pesquisas acadêmicas e foi a principal articuladora do manifesto dos intelectuais contrários à adoção de cotas para negros, nas universidades públicas do Brasil. O homem é o Demóstenes Torres, cujos crimes dominam as páginas de política e, em breve, migrarão para as páginas policiais

Desarquivando o Brasil: O luto numa terra de cadáveres insepultos

Por Idelber Avelar: "Convocada pela jornalista Niara de Oliveira , reúne-se a partir de ontem até o dia 02 de abril, em vários blogs, a 5ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, um esforço de cobrança, reflexão e ativismo sobre os rumos da nossa memória como país. Nos termos da convocação : O objetivo dessa blogagem continua sendo a abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, a investigação dos crimes e violações de direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra cidadãos, a localização dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos, e a revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente os torturadores, além de responsabilizar o próprio Estado pelos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento forçado no período entre 1964 e 1979. Chamo a atenção especialmente para as vinte e seis impressionantes postagens de Pádua Fernandes, que vão desde a crítica literária até o trabalho de arquivo, passando pela teoria do Direito. Contribuirei escrevendo um pouco sobre um tema relacionado, e ao qual eu dediquei um livro : o luto pelos mortos. Em marcado contraste com outros países, no Brasil ainda não nos foi possível fazer o luto pelos nossos mortos. O luto, esse processo de reconciliação e aceitação do caráter irreversível da perda, depende, acima de tudo, da existência do cadáver. A morte sem cadáver, sem atestado de óbito, sem o registro de seu acontecer, sem responsabilização, invariavelmente lança o sobrevivente àquele processo que poderíamos chamar de luto suspenso – em que o sujeito, mesmo convicto da perda, não pode processá-la, pois falta-lhe o rastro material que fundamenta o luto. Esse rastro, essa marca, é fundamental, pois ela é tanto a garantia de que poderá ser realizado o sepultamento simbólico como a garantia de que o sujeito poderá processar sua perda sem ser acossado pelos fantasmas de que está abandonando e traindo o objeto amado que se foi. Muito mais que qualquer outro país que eu conheça, o Brasil é uma terra de cadáveres insepultos. Trinta e dois anos se passaram desde a volta dos exilados e a promulgação da Lei da Anistia. Desde então, os governos militar, peemedebista, collorido, tucano e petistas se sucederam sem que se realizasse um única ação estatal de julgamento e punição dos responsáveis pelas torturas, execuções, violações acontecidas durante a ditadura militar. O nosso trabalho de luto é incompleto e precário, pois falta-lhe o essencial: o reconhecimento institucional, na pólis, do evento acontecido, e a responsabilização de seus agentes. Freud acreditava que o trabalho do luto tinha um prazo definido para se cumprir e, na ausência de uma resolução, o sujeito estaria condenado à melancolia – aquele estado em que, incapaz de superar a perda, o sujeito se confunde com o objeto perdido. A melancolia não é necessariamente a tristeza. Na realidade, ela pode, inclusive, mascarar-se num estado eufórico, que tenta encontrar conquistas compensatórias, que vão, aqui no caso, do crescimento do PIB aos números da produção de soja. O passado, no entanto, não cessa de inscrever-se. E quanto mais o passado se inscreve sem ser resolvido, mais energia libidinal o sujeito terá que dispender no sufocamento da demanda de resolução. É o que Freud chamou de luto triunfante, que descreve exatamente, ao modo de ver, o processo vivido pelo Brasil. Nessa forma de luto incompleto, pendente e negacionista, o sujeito triunfa – imaginariamente – sobre um objeto perdido que lhe permanece oculto. Esta tem sido uma modalidade de luto brasileira por excelência. Nossa morada é a desmemória. Jamais reparamos as vítimas da escravidão, contentando-nos com a construção de mitologias da mestiçagem e da cordialidade racial, enquanto os negros continuavam sofrendo na pele a realidade da discriminação e da violência. Jamais nos encarregamos do legado de memória deixado pelo genocídio das populações ameríndias, convenientemente esquecidas para que se impusesse o programa da ordem e do progresso. Nunca fizemos luto genuíno pelos cadáveres e corpos mutilados do Estado Novo, soterrados sob o mito do varguismo nacional e popular que foi propagado até mesmo pelos comunistas que haviam sido suas vítimas preferenciais. Hoje, curiosamente, muitos dos que concordariam com as três frases anteriores repetem o mesmo paradigma com relação aos crimes da ditadura militar. O importante é “olhar pra frente”, nos dizem, ignorando ou escondendo o fato de que quem carrega cadáveres insepultos nas costas jamais poderá olhar pra frente, só pra baixo. Pouquíssimo trabalho de memória e de reparação foi feito no Brasil ante as vítimas do genocídio ameríndio, da escravidão, da ditadura do Estado Novo. Que não contentemos, mais uma vez, em varrer a sujeira do passado para debaixo do tapete."