Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de jul de 2012

Violência entre mulheres!

Por Cidinha da Silva

Eis que o improvável se torna público e apequenada não consigo intitular o texto como: “violência entre mulheres 

negras”.  Mas é disso que trata a carta pública de F., mulher negra, covardemente agredida por R., outra mulher 

negra, pelo menos duas vezes maior do que F.

Quando soube da história, contada por uma amiga do casal, não dimensionava os detalhes trazidos pela carta, que qualificam e tornam mais cruel a violência. Em síntese, por motivos indefensáveis, como qualquer motivo para devassar a privacidade alheia o é, R. invade o telefone celular de F., vasculha, encontra informações que lhe interessava encontrar e, em nome disso, passa às agressões verbais e físicas. Primeiro bate o telefone reiteradas vezes na cabeça de F., depois tenta estrangulá-la. F. foge e é perseguida dentro de sua própria casa. É ameaçada na frente dos netos, cujas idades variam entre 1 e 6 anos. Os netos também sofrem ameaças. Depois de fugir para a rua, quando as demais pessoas adultas da casa se inteiram do que se passava, F. é, finalmente, defendida por elas e, aliado a isso, pede socorro, por telefone, a outras mulheres. É socorrida e, ao que parece, a rede protetora acionada tomou a frente da situação para resolvê-la.


Passei a noite incomodada com o que imagino serem os sentimentos de uma mulher de 64 anos agredida pela ex-companheira, ainda que esta deva estar doente e necessite de tratamento, e confesso, que escrevo agora, porque preciso estar à altura da coragem dessa mulher digna que torna público o que vivenciou.
 

A violência física avilta tanto que tem efeito paralizante, nem sempre as pessoas violentadas conseguem se defender e muitas vezes, morrem.

Lembro-me da primeira vez que me deparei com a violência doméstica, tinha uns 13, 14 anos e um homem, casado com uma familiar distante, a agredia. Todo mundo comentava, mas ninguém tomava uma atitude para ampará-la. Eram tempos da briga entre marido e mulher, na qual não se metia a colher. Eu, sob protestos de alguns parentes que a julgavam culpada por apanhar, enfrentava o cara com o silêncio. Nas festas familiares não o cumprimentava, não conversava com ele, não ficava em ambientes nos quais ele estivesse. Um dia ele fez um gesto obsceno para mim. Eu me aproximei dele, enojada, e disse; “Se eu contar para o meu pai, você é um homem morto.” E ele riu um riso mais sinistro do que o gesto, e daquele momento em diante, temi pela filha dele, a quem ele deve, sim, ter abusado em diferentes momentos da infância, enquanto viveu. Por sorte, morreu cedo, o desgraçado.

Depois, quando tinha uns 19, 20 anos, ouvi dizer que meu melhor amigo havia espancado a companheira, que não era minha amiga. Quando a vi, por acaso, pedi desculpas pelo constrangimento da pergunta, mas indaguei se meu amigo a havia espancado e ela detalhou tudo. Nossa amizade começou ali e é forte até hoje. Telefonei para ele e pedi para nos encontrarmos. Obviamente, eu sabia que era tudo verdade, mas, por algum motivo que até hoje não sei explicar, eu precisava ouvir dele.
 

Chegamos ao Pop pastel da rua Rio de Janeiro e ele já sabia que não podia mais me abraçar, e me beijou a face, sem que eu retribuísse. Sentamos em silêncio e ele começou: “Eu te agradeço muito, porque todo mundo virou a cara pra mim. Ninguém é meu amigo de verdade. Ninguém quis ouvir a minha versão da história.” Eu o interrompi e disse: “Eu também não quero te ouvir, só quero resposta pra uma pergunta, isso eu quero ouvir da sua boca, você bateu nela?” “Há várias formas de violência”, ele respondeu. Eu insisti: “Não quero saber, quero saber se você bateu nela?” Ele não respondia diretamente à pergunta, insistia em falar dos comportamentos da companheira que supostamente o agrediam, todos relacionados à determinação e disciplina de uma mulher que foi trabalhadora doméstica e hoje é professora universitária, concursada em uma das melhores universidades públicas federais do país. Por fim, ele me perguntou: “O que você acha de uma mulher negra que chama a polícia para um homem negro, sabendo como a polícia nos trata, sabendo que o pai dos filhos dela iria para o pau de arara?” “Acho que ela está desesperada e se agarra a qualquer possibilidade para proteger a si e aos filhos.” “Você me conhece, eu nunca faria mal aos meus filhos.” “Não, eu não te conheço mais.” Ali acabou nossa amizade e, até hoje, passados 25 anos, nos cumprimentamos burocraticamente quando eventualmente nos encontramos. Soube, uns 15 anos depois do ocorrido, que ele havia agredido outra mulher negra, desta feita, uma ex-companheira que o sustentava. Quando jovem, ele ainda trabalhava.
 

Eis que agora, uma mulher negra agride a companheira e todas as nossas teorias explicativas da violência machista caem por terra (ou não). A violência intra-gênero é o meio do buraco, o mais fundo dele. E eu não tenho explicação! Tenho histórias para contar, pois F. não é caso isolado.

Há muitos anos acompanhei o caso de uma jovem integrante de organização de mulheres negras que afrontava algumas das mais-velhas com seu brilho, competência, vivacidade e também com sua arrogância. Tramou-se um plano para derrubá-la, uma acusação bem urdida de desvio de dinheiro, com o requinte de provas forjadas. Deu certo, parcialmente, mas a megera ardilosa, responsável pelo plano, não contava com a ação da companheira da jovem, que procurou a Manda-chuva e disse: “Manda-chuva, ela suporta tudo, mas se você desconfiar dela, ela morre!” E a magia do feitiço, quando revelada, começa a se desfazer e a Manda-chuva lembrou-se de quem era a jovem e de quem era a outra, e o mal foi desfeito – com demissões, na instituição parceira, como deveria ter acontecido também na instituição negra. Ali, ao contrário, todo mundo relevou o que a bandida fez, com mal-disfarçado regozijo. Fazia parte do jogo da política e ela era “daquele jeito mesmo”, tinha uma história de vida que justificava seu comportamento desonesto, desleal e criminoso, em última instância.
 

Essa coisa intra-gênero, realmente pega. Eu confesso que me vi explicando a atitude da espancadora de F. a um interlocutor, pelo histórico de violências sofridas na vida, a despeito, obviamente, de não absolvê-la. Mas o caso é que com um homem violento não explico nada, corto-lhe a cabeça e pronto. É uma contradição pesada, admito.

Creio que são essas contradições que levaram F. a permanecer tanto tempo com R., que nos levam a compreender e desculpar as idiossincrasias, os excessos e a psicose de quem amamos. Certamente a psicologia tem explicações mais densas e consistentes. Vôo até onde alcanço. Tenho um casal de amigos heterossexuais que, para mim, são a mostra cabal disso. Ele, um homem negro com histórico de inúmeras violências sofridas. Ela, uma moça bem nascida e bem educada, diferente da maioria das moças negras de sua geração e principalmente do seu local de nascimento. Um dia alguém me conta que ele a espancou e meu mundo caiu, dessa feita eu não podia acreditar. Então a porta-voz da má notícia argumenta que a família da moça rompeu relações com ela, o pai teria dito: “Minha filha, a educação que eu te dei não admite que homem algum te encoste a mão, nem eu! Se você apanha de um homem e escolhe manter-se ao lado dele, você não é mais a filha que eu eduquei.” E parece que, por uma questão de dignidade, os avós acabam se privando da convivência com o único neto. Eu, do lado de cá, não sei mais se continuo amiga deles. Depois de saber disso, nunca mais conversamos.
 

Antes desse fato, eu havia tomado conhecimento de que o agressor (meu contemporâneo em idade e ativismo) protegera um jovem espancador, membro de um grupo orientado por ele. O mais-velho procurou a jovem negra espancada pelo rapaz e a convenceu a não denunciá-lo, haja vista que o rapaz era um guerreiro valoroso e a denúncia macularia sua carreira política promissora.

Estou em choque. Não tenho respostas. Só situações e mais situações para narrar.
 
O alento nosso é contar com a coragem de F., que, ao denunciar a agressão e tomar as medidas cabíveis de auto-proteção, deflagrou um debate que, pelo menos no plano interno das organizações de mulheres lésbicas, ocorrerá.

Não tenho respostas, mas penso que devamos investir na delicadeza das relações humanas, na sutileza da entrega do afeto, no respeito construído nas trocas cotidianas. Além de tratar as psicoses! Nada de aceitar tapa na cara e pedir bis, na hora da pegada mais forte. Nada de aceitar que a companheira nos tome da mão o telefone, para resolver pelo jeito estúpido dela, um problema que nossa sutileza está contornando. A violência começa em gestos aparentemente pequenos e se alastra como fogo em capim seco.
 

30 de jul de 2012

Obrigada, Daiane!

A definição mais bonita daquilo que é Daiane dos Santos na nossa memória, foi dada por Lígia Fagundes Telles, ao citá-la numa referência a coisas que a encantavam: "Como é mesmo o nome daquela menina? Aquela menina que voa"...

27 de jul de 2012

A comunidade quilombola do Rio dos Macacos está lutando contra o tempo. Assine a petição eletrônica nas próximas 48 horas!

Por Vilma Reis
Caros amigos do Brasil,

A comunidade quilombola do Rio dos Macacos está lutando contra o tempo. Em apenas algumas dias, uma ordem da justiça pode tirar a comunidade das terras em que vive há mais de 200 anos. Somente uma grande mobilização popular pode impedir que a pressão da Marinha prevaleça. Junte-se a essa luta agora, e a Avaaz e o defensor público que defende os quilombolas entregarão a petição diretamente para o juiz quando alcançarmos 50.000 assinaturas:

"Em poucos dias, 200 anos de cultura tradicional podem ser extintos. A comunidade quilombola de Rio dos Macacos na Bahia pode ser expulsa de suas terras para a construção de uma base da Marinha. Mas a solução para o problema está a nosso alcance!

A Marinha do Brasil quer expandir a Base Naval de Aratu a todo custo, mesmo que tenha que devastar uma tradição centenária e expulsar os quilombolas da região. Os pareceres técnicos do governo já afirmaram que os quilombolas têm direito àquela terra, mas eles só têm validade se publicados -- e a lentidão da burocracia pode fazer com que o juiz do caso determine a remoção da comunidade antes que seu direito seja reconhecido. Eles estão com a faca no pescoço e nós podemos ajudar a vencer essa batalha se nos unirmos a essa causa!

Não temos tempo a perder! O juiz decidirá na segunda-feira se retira os quilombolas ou espera a publicação do parecer do governo. A defensoria pública nos disse que somente uma grande mobilização popular pode impedir que a pressão da Marinha prevaleça. Junte-se a essa luta agora, e a Avaaz e o defensor público que defende os quilombolas entregarão a petição diretamente para o juiz quando alcançarmos 50.000 assinaturas:

http://www.avaaz.org/po/urgente_quilombolas_em_risco_c/?bjdTTab&v=16624

De acordo com estudos, das três mil comunidades quilombolas que se estima haver no país, apenas 6% tiveram suas terras regularizadas. É um direito das comunidades remanescentes de escravos garantido pela Constituição, e responsabilidade do Poder Executivo emitir-lhes os títulos das terras. A cultura quilombola depende da terra para manter seu modo de vida tradicional e expulsar quilombolas dessas terras pode significar o fim de uma comunidade de 200 anos.

A comunidade do Rio dos Macacos tem até o dia 1º de agosto para sair do local e, após isso, sofrerá a remoção forçada. Entretanto, temos informações seguras que técnicos já elaboraram um parecer que reconhece o direito dos quilombolas, mas ele só tem validade quando for formalmente publicado e a comunidade corre o risco de ser expulsa nesse intervalo de tempo.

No caso do Rio dos Macacos, a pressão popular já funcionou uma vez, adiando a ação de despejo em 5 meses. Vamos nos juntar aos quilombolas e apelar para que o juiz da causa garanta a posse de terra dessa comunidade, e carimbe seu direito de viver em harmonia com suas terras. Assine a petição abaixo para impedir que a lentidão da burocracia acabe com uma comunidade tradicional:

http://www.avaaz.org/po/urgente_quilombolas_em_risco_c/?bjdTTab&v=16624

Cada vez mais temos visto que, quando nos unimos, movemos montanhas e derrotamos gigantes. Vamos nos unir mais uma vez para garantir o direito de terra da comunidade quilombola Rio dos Macacos e dar paz as famílias que moram no local. Juntos podemos alcançar justiça!"

Com esperança e determinação,

Pedro, Luis, Diego, Carol, Alice, Ricken e toda a equipe da Avaaz


Mais informações:

Balanço 2011 das Terras Quilombolas da Comissão Pró-Índio de São Paulo
http://www.cpisp.org.br/email/balanco11/img/Balan%C3%A7oTerrasQuilombolas2011.pdf

'Os militares infernizam a nossa vida', diz quilombola sobre disputa por terra (Último Segundo)
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/ba/2012-07-22/os-militares-infernizam-a-nossa-vida-diz-quilombola-sobre-disputa-por-terra.html

Rio dos Macacos é quilombo, diz Incra (Tribuna da Bahia)
http://www.tribunadabahia.com.br/news.php?idAtual=122017

Rio dos Macacos: Defensoria pede suspensão da retirada de moradores (Correio)
http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-1/artigo/rio-dos-macacos-defensoria-pede-suspensao-da-retirada-de-moradores/

22 de jul de 2012

'Injusto é carro gigante buzinar para carroceiro', diz Ferréz, na Folha de São Paulo

Deu na Folha de hoje, por Regiane Teixeira

No portão da casa de Ferréz, 36, estão grafitados o retrato de três escritores que o influenciaram: a mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977), o alemão Hermann Hesse (1877-1962) e o russo Máximo Górki (1868-1936).
Morador do Capão Redondo, zona sul, ele se inspira em seu redor para criar histórias. Pela primeira vez, porém, lançou um livro sem identificar o local da trama, "Deus foi Almoçar" (ed. Planeta, 240 págs., R$ 29,90), seu oitavo título. Neste mês, ainda lança o infantil "O Pote Mágico".
O escritor paulistano Ferréz na rua da sua casa no bairro do Capão Redondo, na zona sul da cidade

Por que decidiu escrever um livro sem dizer onde a história se passa?
Quando ia fazer palestra, todo mundo me perguntava como era morar no Capão Redondo e eu não conseguia falar do livro. O assunto periferia é muito forte, mas eu também queria falar de literatura.

Já pensou em sair do Capão?
Não, gosto daqui. É onde o cara compra um quilo de carne, faz um churrasco na laje e todo mundo vai comer sem miséria. Tem uma coisa de união, de um bater na porta do outro e trocar ideia.

Qual manifestação cultural é mais forte na periferia?

A literatura é uma força. Tem muito livro lançado na quebrada. Quando comecei, era difícil. Agora, há outros escritores, como Marcos Teles e Cidinha da Silva.

A internet fez a periferia se unir?
Essa coisa de rede social é perigosa porque tem revolucionário só de Facebook. Mas é verdade que a internet facilitou o acesso. Alguém lá no Amazonas pode entrar no meu blog e ler o que escrevi. Antes eu fazia fanzine. Tirava xerox e mandava cópias pelos Correios.

O que é injusto em São Paulo?
É o cara com um carro gigante buzinando para o carroceiro sair da frente. É o cara perguntando quanto é o prato feito em vários botecos e só poder pagar por um de R$ 4. E aí você vê um restaurante cobrando R$ 200 num prato. São Paulo é como uma cidade cenográfica, se você encostar muito, as paredes caem.

Que palavra define a cidade?
"Monstro". A cidade devora as pessoas, mói, mutila. É onde as pessoas veem que o sonho era ilusão. São Paulo é muito dura e desigual. Para eu chegar na cidade que as pessoas conhecem, tenho que andar uma hora e meia de ônibus. A gente tem a impressão de que mora no interior.

Que todas as crianças possam brincar de identificar-se


16 de jul de 2012

Um Sol negro!

O meu canto é a luz de um Sol negro
É magia negra incisiva e mandingueira
Eu sou um Sol negro
Minha magia é negra como o Sol que sou!

15 de jul de 2012

O gato

Por Cidinha da Silva

Este texto compõe a dramaturgia do espetáculo "Silêncio" (2007), da Cia dos Comuns, processo coletivamente construído pelo grupo a partir de experiências.

Ele vem à noite e não me traz flores. Entra pelo telhado, se joga em minha cama, abre minhas pernas, rouba meus sonhos e eu me despetalo. Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... A gata grita no telhado de onde ele veio. Dizem que pinto de gato tem espinhos. Machuca. Eu também grito no bumbo do meu peito: DE-SEN-GA-NO, DE-SA-LEN-TO, DE-SA-TEN-TO, DE-SEN-RE-DO, DE-SI-LU-SÃO. Ele me come e eu olho o teto. Vejo os meninos correndo, os filhos que ele não quer ter comigo. Os dele balançam os cabelos ao vento. "Saíram à mãe", me diz orgulhoso. Eu dou a ele me olhar de mar... de água de choro, doída por saber que ele não quer ter filhos parecidos comigo, nem parecidos com ele. Se reclamo do sexo de gato, ele me diz que sou a mulher da vida dele, igual a ele, de pele e alma. Só na minha cama ele dorme tranqüilo por algumas horas durante a semana. Na cama de todo dia não consegue dormir, fica em vigília, um olho aberto, o outro fechado. Diz que o inimigo dorme ao lado. Por isso ele está sempre em riste e mete por cima para ela saber quem manda. E dá uns tabefes nela para lembrar que é o senhor da força. De uns tempos para cá parou de bater, só ameaça para manter a pose, depois que levou uns tabefes na delegacia. "Na guerra é assim, minha filha, o vencedor come a mulher do inimigo. Você não entende? Eu mato um leão por dia. À noite preciso de uma presa mais fácil para abater. Não quero um espelho para ver meu rosto cansado, quero a mulher do inimigo, para me sentir vitorioso e para fazer filhos que não se pareçam comigo, que sofram menos do que eu. Entendeu?"

14 de jul de 2012

Em homenagem a Sergio Ballouk

Por Régis D’Almeida e Marcos Fabrício Lopes da Silva

Nascido no Carnaval de 1967, em São Paulo, Sergio Ballouk apresenta um molejo literário das melhores garoas que afinam a Avenida Paulista. Publicitário, pela Fundação Cásper Líbero, o multiartista tem pós-graduação em Gestão Pública pela Universidade de Mogi das Cruzes.


Com manejo outsider, Ballouk é parceiro dos Cadernos Negros. Em carreira solar, o autor nos brinda com o livro Enquanto o tambor não chama, publicado em 2011, pela editora Quilombhoje. No poema “Flores do mundo”, o escritor suplementa com arrojo Charles Baudelaire, no clássico As flores do mal. Eis os versos do intelectual afrodescendente: “é aquela velha história:/ – Você não pode agradar a todos!/ por isso faço um agrado/ com todas as flores do mundo/ e um santo bocado/ de poesia”. Outro momento importante do livro de Ballouk é a releitura bíblica que ele sugere, tornando o axé tão nobre quanto à espiritualidade que se diz esclarecida. Não é à esmo tamanho poema: “Tem Orvalho em Folha Sagrada”. Nele, encontram-se versos serelepes: “a poesia voa/em palavra aportuguesada/cantiga keto, gege, nagô/virá pra angola”. Sugerindo um caminho, Ballouk se mostra favorável a um mercado mais colorido em matéria de brinquedos: “a poesia deu voltas/todas as voltas da diáspora/produziu boneca preta/em Itaquera-África/surgirá brinquedo enegrecido/conduzido por mãos brancas e pretas/e, se apertado no umbigo/logo se ouvirá:/salve, mamãe/oraieiê/Oxum”.

Como Einstein trilhou pelos caminhos da Escola da Relatividade, constata-se que Sergio Ballouk, em cena contemporânea, ressalta a ternura literária dos afro-brasileiros.


Referência:

D’ALMEIDA, Régis. Garimpo. Belo Horizonte: Primeiro de Maio, 2005.

BALLOUK, Sergio. Flores do mundo. In: _____. Enquanto o tambor não chama: poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2011. p. 16.

BALLOUK, Sergio. Tem Orvalho em Folha Sagrada. In: _____. Enquanto o tambor não chama: poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2011. p. 17.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Trad. Ivan Junqueira. 7.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. 10. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

http://www.letras.ufmg.br/literafro/

12 de jul de 2012

Obra e carreira

Por Cidinha da Silva


Neste julho de 2012, completo seis anos de carreira literária! Não recordo o dia da estréia, sei que o lançamento do meu primeiro livro, “Cada tridente em seu lugar”, aconteceu no inverno soteropolitano de 2006, durante a II CIAD – Conferência de Intelectuais Africanos e da Diáspora.

De lá para cá, muita água rolou e publiquei outros cinco livros autorais e uma co-autoria. O Tridente está na 3ª edição e toda a minha produção autoral de literatura somada ao livro de ensaios, “Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras” (de 2003, 3ª edição), compõe 23 mil exemplares de minha obra circulando por mãos e estantes. Nada mau para uma autora que publica de maneira independente ou por pequenas editoras.

Compreendi e ultrapassei o período aRtivista representado pelo Tridente e pelo segundo livro, “Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!”, este, prenúncio da literatura que gostaria de produzir. Mas ainda hoje, quando leio as crônicas de “Oh, margem! Reinventa os rios!”, livro recente, nos saraus, noto resquícios aRtivistas que me incomodam, com os quais dialogo no cotidiano da escrita no afã de superá-los, um dia.

Essa é a dureza da construção da obra, definir exatamente o que quero, como quero. O quando é também capítulo da obra, mas está umbilicalmente ligado ao planejamento da carreira. O Tambor, por exemplo, é um livro muito circunstancial e eu sabia que, se não o tivesse lançado em 2008, provavelmente não o publicaria mais como livro. Ficaria por ali, dormitando na gaveta e alguns textos, apenas alguns, seriam publicados em coletâneas posteriores. Não é um livro para ser reimpresso por desejo próprio. Deixo a decisão a cargo da editora, diferente dos outros livros autorais, para os quais tenho projeto de reimpressão.

“Os nove pentes d’África”, primeiro texto de fôlego longo, é que, de fato, me deu a certeza de produzir literatura. Nos livros seguintes, “Kuami” e “O mar de Manu”, essa percepção foi ganhando força e refinamento. Em “Oh, margem! Reinventa os rios!”, voltei às origens, à crônica. E a cada releitura percebo o quanto ainda há por trilhar no caminho da escrita ágil e enxuta que me define e à qual persigo.

Este 2012 continua dedicado aos projetos de literatura para crianças e adolescentes e à dramaturgia, continuidade de uma contribuição dada em 2007 para o “Silêncio”, espetáculo da CIA dos Comuns. Escrevi a dramaturgia de “Sangoma: saúde às mulheres negras”, para a Cia de Arte Negra Capulanas, a ser encenada em 2013. Outros projetos dramatúrgicos se avizinham. Existe também uma ou outra possibilidade de tradução, um projeto de livro-reportagem, outro, de um informativo; estudos independentes, mas orientados, sobre dramaturgia negra e sobre patrimônio cultural imaterial. Muita leitura, estudos programáticos de literatura, exercícios de escritura, reescritura e revisão do que foi publicado, por meio da leitura oral. Diálogo com a música e com o cinema, com previsão de estréia para 2013 e 2014, respectivamente. Passos na construção da obra e da carreira, superados os prognósticos iniciais de que eu (como inúmeros outros autores e autoras) não ultrapassaria o primeiro livro de literatura.

10 de jul de 2012

ONU Mulheres e UNICEF abrem convocatória para propostas para as Consultas de Desigualdades


A data indicada para se alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) está se aproximando rapidamente. A Sociedade Civil, os Governos e o Sistema das Nações Unidas já estão pensando em como será vista a próxima era do desenvolvimento, enquanto mantém um foco firme em alcançar as atuais negociações inacabadas dos ODMs.

Uma das contribuições do Sistema das Nações Unidas ao pós-2015 consiste em debater a catalisação de países com múltiplos interesses e consultas em temática global pelos próximos sete meses. Esta será a maior oportunidade para uma ampla variedade de interessados que possam influenciar e formar a próxima agenda tanto na perspectiva de país, quanto na perspectiva global. Dentro do sistemas das Nações Unidas, várias organizações já concordaram em co-liderar os processos de planejamento para as nove temáticas de consultas que cobrirão os seguintes assuntos:

· Desigualdades;
· População;
· Saúde;
· Educação;
· Crescimento e Emprego;
· Conflito e Fragilidade;
· Governança;
· Sustentabilidade do Meio Ambiente;
· Segurança Alimentar e Nutrição.

A ONU Mulheres e a UNICEF concordaram em co-liderar as Consultas de Desigualdades. Para ajudar a formar este debate, parceiros individuais, acadêmicos e organizacionais estão sendo convidados a submeter documentos teóricos, para apresentar suas descobertas em pesquisas já completadas ou ainda, apresentar trabalhos em desenvolvimento que levantam questões metodológicas ou conceituais. As propostas são convidadas a focar desde pesquisas de campo até pesquisas políticas, que demonstrem estratégias sustentáveis para resolver desigualdades específicas, incluindo a desigualdade de gênero, e direcionando-as a seu agente causador. As propostas serão revisadas pela UNICEF, ONU Mulheres e outros membros do Grupo Conselheiro (que está sendo montado) para guiar as Consultas sobre Desigualdades. Os documentos completos e selecionados serão utilizados para estimular a conversação online global e serão colocados à disposição da mesma maneira, como base para a conclusão de uma reunião de lideranças no começo de 2013. Os documentos selecionados também serão publicados como um sumário e um resultado concreto desta consultoria e deverão ser submetidos em Inglês, Francês ou Espanhol.

Pedimos que as propostas tenham foco tanto em temas de desigualdades gerais, como interseções naturais e relacionamentos entre as diferentes formas de desigualdades; ou em manifestações específicas e formas de desigualdade, tais como, as relacionadas com: renda/riqueza; gênero, localização, deficiências, etnia, minoria ou status indígena, orientação sexual; entre outros.

As propostas para Documentos Completos deverão conter entre 250-300 caracteres.
Os Documentos Finais deverão conter 5000 caracteres.

As propostas destes documentos deverão ser feitas por e-mail para:soshea@unicef.org

Prazos para apresentação:

· Propostas para trabalho completo – apresentação até 20 de julho de 2012
· Notificação de resultado aos (as) autores (as) – até 15 de agosto de 2012
· Documento Completo do (os/a/as) autor (es/a/as) – até 15 de outubro de 2012.

Para mais informações sobre este chamado, favor entrar em contato com Shannon O’Shea na UNICEF (soshea@unicef.org) ou Laura Turquet da ONU Mulheres (laura.turquet@unwomen.org).

7 de jul de 2012

Lançamento de Oh, margem! Reinventa os rios! Dia 12/07, no ECLA - Espaço Cultural Latino Americano!


Se você perdeu os saraus e lançamentos anteriores, tem agora o Sarau das Utopias para conferir o livro mais recente de Cidinha da Silva. A obra Oh, margem! Reinventa os rios! (Selo Povo, 2011) marca o reencontro da autora com a crônica. Neste sexto livro de sua carreira literária, a escrita ágil, irônica e multifacetada da autora promove sensações diversas em que a lê, incluindo a reflexão sobre temas como as práticas racistas arraigadas no dia-a-dia das relações humanas no Brasil, assimetrias de gênero e opressão sócio-política. Das crônicas emergem sujeitos dignos, plenos de humanidade que enfrentam (como podem) os dilemas narrativos propostos em situações amorosas, sensuais, futebolísticas e do cotidiano da pobreza, vivida e apresentada com dignidade. Como dito por Paulo Lins, na breve apresentação do livro: "A margem reinventa o rio. Cidinha reinventa a vida. A vida é feita de palavras". Dia 12 de julho de 2012, às 21:00. ECLA - Espaço Cultural Latino Americano, rua da Abolição, 244, Bixiga, São Paulo.

Livro novo de Spirito Santo na área!


Racismo a brasileira



Por Cidinha da Silva

A especificidade e a eficácia do racismo a brasileira, que levam a maioria dos nossos ícones a dizer as imbecilidades ditas por Pelé no tocante ao racismo e às suas manifestações, são nossos maiores inimigos. Temos também essa mídia poderosa que nos puxa 10 passos para trás, a cada passo que damos à frente (vide programa do Pedro Bial). Quando temos bons exemplos de atletas negros que se posicionam como tais, seja pela atitude política, seja pelo discurso, são minimizados, ridicularizados ou invizibilizados pelos Status quo racista. Tivemos a Marta, do basquete, com seu cabelo a Gracie Jones, aquilo marcou minha infância e adolescência de maneira indelével. Não me lembro de nada que ela tenha dito, mas me lembro da atitude e da estética dela. Lembro-me tristemente do final de sua carreira, quando ela teria passado uma noite com Robert de Niro, salvo engano, e foi tratada pela imprensa como uma profissional do sexo que foi até um hotel atender a um ator famoso, não como uma mulher livre que escolhe se deitar com quem quiser. É possível que tenha havido algum deslumbramento da parte dela... afinal tantos anos sendo linda, uma vida inteira como menina, moça e mulher deslumbrante, sem reconhecimento de sua beleza e sensualidade por ser negra... isso provoca visão desvirtuada no espelho. Antes de prosseguir a reflexão sobre a postura política de nossos atletas negros e mantendo o foco no racismo a brasileira e seus efeitos, podemos pensar nas semelhanças e diferenças entre a Cris Vianna e Juliana Paes. Ambas são excelentes atrizes, belas e sensuais. Isso as iguala. O que as diferencia é a identidade negra inequívoca de Cris Vianna e auto-declarada origem popular de Juliana Paes além de, obviamente, o reforço que o fenótipo de presumível ascendência negra desta, presta ao racismo brasileiro, em detrimento da negritude explícita daquela. E é por isso, sabemos, que Juliana Paes foi escolhida para interpretar Gabriela. De volta aos atletas, Garrincha, Anderson Silva e Ramirez, para citar os que me ocorrem de pronto, constituíram famílias negras, amaram e amam mulheres negras, casaram-se com elas. Isso, pelo menos para nós, deve significar algo. Pode ser pouco diante do que foi Ali, mas num Brazilzinho como o nosso, os dreads consolidados de Roque Junior e os incipientes de Romarinho dizem muita coisa. Tenho convicção de que Ali foi possível no contexto histórico estadunidense, ele não seria possível no Brasil, seja nos anos 60, 70, seja hoje, no século XXI. Assim, creio que a centralidade da nossa ação deve ser a decodificação do racismo produtor desse tipo de anomalia de percepção.


5 de jul de 2012

Cidinha da Silva no Sarau da Ademar!


Bando de Teatro Olodum fará leitura dramática em Rio dos Macacos



Para chamar a atenção da sociedade para as violações sofridas pela comunidade quilombola de Rio dos Macacos, próximo a Simões Filho (BA), o Bando de Teatro Olodum realizará neste domingo, dia 08 de julho, às 10h, uma leitura dramática do espetáculo Candaces, a Reconstrução do Fogo, montagem premiada do diretor Márcio Meirelles, encenada pela Companhia Comuns, do Rio de Janeiro. Por meio da exaltação da força da mulher negra, o texto ressalta mitos e símbolos da ancestralidade africana no Brasil.

A história de resistência das guerreiras candaces pode ser associada à luta da comunidade quilombola pela dignidade e em defesa do seu território. A apresentação contará com a participação da cantora Márcia Short e da professora Ivete Sacramento, ex-reitora da UNEB.

A comunidade formada por 50 famílias negras sofre constantemente pela ameaça de despejo por parte da Marinha do Brasil, que se considera proprietária das terras habitadas pelos moradores há mais de um século. São diversos os relatos de agressão, ameaças, impedimento de circulação e invasão de domicílios. “O Artigo 68 da Constituição de 1988 e o Decreto 4887/2003, garantem os direitos da ocupação secular da Comunidade”, explica a socióloga e Presidente do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra na Bahia, Vilma Reis. “A Marinha do Brasil não pode tomar o Território de Rio dos Macacos porque ela, como instituição Brasileira, não está acima das demais instituições nacionais. Vivemos sob a vigência do estado democrático de direito”, afirma a socióloga, destacando as diversas leis e programas federais em defesa dos direitos das comunidades remanescentes de quilombos.

A tensão se acirrou na região desde 2009, quando a Advocacia Geral da União (AGU) impetrou uma ação reivindicatória – acatada pela juíza Arali Maciel Duarte, da 10ª Vara Federal – determinando a retirada dos moradores do local. A execução da retirada estava marcada para 4 de março de 2012, mas a presidente Dilma Roussef determinou a suspensão da tomada do território. Desde então, os moradores são impedidos de plantar, pescar, construir ou reformar suas casas. A comunidade vive o medo de que o despejo ocorra a qualquer momento, o que tem deixado em alerta diversos movimentos e organizações em defesa do quilombo.

O Bando - No dia 06 de fevereiro, o Bando de Teatro Olodum recebeu no Teatro Vila Velha representantes da comunidade e lideranças sociais em um “Ato de apoio à comunidade quilombola rio dos Macacos”. As lideranças do quilombo presentes ao evento fizeram relatos da violência com que são tratados pela Marinha do Brasil, que atinge crianças, adultos e idosos, inclusive pessoas com mais de 100 anos que nasceram e sempre viveram naquelas terras. Os quilombolas relataram que não têm acesso à água, energia elétrica, aos serviços de saúde e educação.

“O Bando de Teatro Olodum se associa à luta desses brasileiros que estão sendo ameaçados por aqueles que deveriam garantir sua segurança. A sociedade brasileira precisa ter conhecimento e tomar partido desta situação. Estamos expressando a nossa indignação por meio da nossa arte”, afirma o diretor Márcio Meirelles. O espetáculo Candaces, a reconstrução do Fogo estreou em 2003, no Rio de Janeiro, e recebeu indicações ao Prêmio Shell nas categorias de direção, figurino, música e coreografia.

SERVIÇO
O que: Leitura Dramática de Candaces, a Reconstrução do Fogo
Onde: Comunidade Quilombola Rio dos Macacos, BA 528 - entrada em frente ao Posto de Gasolina Inema – Aratú, Simões Filho – Ba
Quando: Domingo dia 08 de julho, às 10h.
Informações: 3083-4619 e 4620 / http://bandodeteatro.blogspot.com.br/

4 de jul de 2012

5o Aniversário do Sarau Elo da Corrente e Livro Novo do Sacolinha


I Hadithi Njoo em São Paulo


"O Ilú Obá de Min Educação, Cultura e Arte Negra / Ponto de Cultura Ilú Ònà Caminhos do Tambor e o Projeto OFICINATIVA tem o orgulho de comunicar que estarão realizando nos dias 24, 25 e 26 de agosto de 2012 a primeira edição do Hadithi Njoo, Festival de AfroContação de Histórias, na cidade de São Paulo.
A iniciativa conjunta deseja valorizar e amplificar a tradição de propagar ensinamentos e entretenimento através da oralidade e do encontro, características que sempre estiveram presentes nas realidades comunitárias africanas e afrobrasileiras. Ao mesmo tempo, tem a pretensão de propor um diálogo contemporâneo entre as antigas e as atuais tecnologias utilizadas para tal prática, apoiando-se em criativas experiências e possibilidades artísticas, pedagógicas e comunicativas.
Para isso convida a todos que apreciam essa linguagem artística a participarem dessa ação inovadora. Entre os dias 17 de junho e 5 de agosto estaremos recebendo trabalhos relacionados ao tema. Além do convencional formato de contação presencial, o festival estará aberto para acolher apresentações em áudio e em vídeo também, já que a convocatória está sendo divulgada em outras localidades do mundo. Como conteúdo valem tanto histórias tradicionais de povos africanos e afrodescendentes, quanto criações personalizadas que diretamente tratem do assunto. Em relação às técnicas de contação, estamos abertos e ansiosos para contatar as mais diversas e originais possíveis. Paralelamente às apresentações durante os 3 dias de atividade de agosto, estaremos organizando conversas, exposições, feira, vivências, etc.
Quem desejar participar do festival, favor solicitar regulamento, que estará disponível a partir da segunda quinzena de junho . Outras informações podem ser solicitadas aos organizadores Baby Amorim (babyamorimprod@hotmail.com) e Odé Amorim (projetooficinativa@hotmail.com)."

3 de jul de 2012

Joga o jogo!



Por Cidinha da Silva

Um dia desses, Alceu Valença teve um sonho. Nele, começava a grande guerra entre o morro e a cidade. Seu amigo Melodia era o camandante-chefe da primeira bateria lá do Morro de São Carlos. Alguém falava, ele entendia, nós precisamos escutar a rebeldia.

Eu sonhei que Célia e Olívia se encontravam num palanque na Praça Castro Alves, com o mar de Salvador protegendo-lhes as costas. As duas se olhavam nos olhos, sorriam o sorriso de quem conhece a fundo o assunto posto sobre a mesa e se abraçavam. O abraço elevava à enésima potência o valor simbólico da presença de ambas no pleito soteropolitano de 2012.

Pellegrino e ACMezinho com os braços cruzados sobre o peito, do lado de baixo, no chão, miravam a cena. ACMezinho com o tradicional sorriso cínico escancarado! Pellegrino com o ar blazé que o inscreve no mundo. ACMezinho, acenando para o povo, gritou Touché e ensaiou uns passinhos de afoxé. Pellegrino, com seu ar de enfado, disse Touché, entredentes.

Erundina, quando rompeu com a chapa de Haddad, pegou todos os adversários na curva e não houve outra saída para eles, senão gritar em uníssono: Touché!
Quando vi Lula constrangido ao apertar a mão de Maluf, entristeci, me recolhi. Quando vi Lula sorrindo para o Maluf, chorei humilhada. Touché!

Todo mundo joga o jogo e cada jogador ou jogadora usa os recursos que tem. Mas há que jogar o jogo, acima de tudo, e ter uma atitude, seja ela qual for. Não muda nada a resenha depois do jogo jogado ou a movimentação dos bonequinhos na prancheta, se não for para alterar o desenho tático da disputa. Foi o que fez a Espanha na decisão recente da Eurocopa, jogou o jogo, abriu mão do futebol arte total para vencer a Itália e sagrar-se campeã do torneio.

Desde a eleição de Tancredo no Colégio Eleitoral temos escolhido o menos pior, temos jogado o jogo democrático possível. Escolhemos aquilo que romperá com o Status quo e nos oferecerá alguma brecha para a mudança. Sim! Temos feito “revolução pelo alto.” Sim! Reformismo é o que tem nos restado no jogo do pragmatismo político. Entretanto, este é o tabuleiro posto sobre a mesa e até construirmos mais Erundinas (com bala na agulha), precisamos jogar o jogo (sem abrir mão de valores e princípios, mas movimentando as peças). Cada jogadora com os recursos que dispuser. E de Touché em Touché, vamos roborizando as bochechas gordas do poder e tingindo de preto o que estiver ao nosso alcance.

2 de jul de 2012

O fenômeno Célia e Olívia e as artimanhas do poder da raça e do gênero



Por Ana Cláudia Lemos Pacheco

"Independente das convicções políticas e ideológicas que cercam as candidaturas das Vices-prefeitas de Salvador, Célia Sacramento, candidata a vice- prefeita pelo PV (Partido Verde) na coligação com o DEM (partido dos Democratas) e Olívia Santana, candidata a vice- prefeita do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) coligada na chapa majoritária do PT (Partido dos Trabalhadores); é inconteste o “ salto” que estas duas candidaturas negras-femininas deram na apólice segura da hegemonia branca e masculina que há quatro séculos vem governando ou disputando o poder político na prefeitura de Salvador.

Poderia iniciar essa pequena reflexão com uma observação pela defesa ideológica e partidária com a qual me filiei e me identifiquei por muito tempo, ou então, poderia reproduzir o discurso do “faz de conta” que há um projeto político bem demarcado entre os partidos da esquerda e da direita, principalmente em relação a nós negros e negras, o que não há, com os quais os discursos mais plasmados têm se dirigido às duas candidaturas, ou então, poderia seguir a linha mais casual ventilada nas redes sociais, “mais uma vez, os negros continuam sendo figurinistas, não são protagonistas do poder, são subservientes... continuam na senzala ou a reboque do homem branco”.
Tais formulações esquecem-se que há mais de 500 anos, nunca tivemos duas candidatas negras que disputassem com maestria o poder branco- masculino, quer da direita, quer da esquerda à prefeitura de Salvador, salve engano, fora a eleição da Deputada Lídice da Mata como Prefeita, que respondia muito mais a uma especificidade de gênero e outras demandas, do que a de raça, fora esse episódio na história política de Salvador, os discursos e bandeiras dos movimentos sociais negros e do movimento de mulheres negras brasileiros nunca foram levados à sério pelas máquinas mortíferas partidárias do poder senhorial soteropolitano.

As várias tentativas de se criar um nome “negro” consensual para disputar as eleições majoritárias à prefeitura de Salvador, sempre foram frustradas no interior das organizações políticas, e verdade seja dita, as poucas tentativas que houve, não se privilegiou discutir o nome de mulheres negras. Ao contrário, nos grandes partidos de expressão no campo da esquerda e da direita, esta possibilidade não passou de simples quimera. A procura de um nome “forte” no interior dessas organizações partidárias que pudesse alavancar votos e derrotar o adversário político, nunca teve uma cor negra. Nem mesmo Edvaldo Brito, então candidato a prefeito de Salvador, há algumas décadas atrás, não conseguiu driblar esta barreira do racismo institucional presente nos partidos de esquerda e da direita baiana.

Nenhuma outra candidatura negra conseguiu expressar tão bem, na atualidade, e denunciar os mecanismos do racismo e do sexismo e desmontar as representações sociais e simbólicas de lugares que nós mulheres negras deveríamos sempre ocupar fora de um imaginário que nos aprisiona em papéis de subalternidade da “doméstica”, ou da hiper-erotização da “mulata”, do servilismo social e sexual da negras, aos quais somos sempre vinculadas, como bem lembra as feministas negras Lélia Gonzales (1982) e bell Hooks (1995), somos vistas pela sociedade brasileira como “ só corpo, sem mente”.
Penso que as candidaturas de Célia e Olívia conseguiram instituir um novo paradigma político e epistemológico ao possibilitarem, pela primeira vez na história política de Salvador, uma reflexão forçosa do papel de nós mulheres negras na disputa política dessa cidade. É notório o impacto no campo político, na mídia, nas redes sociais, nas organizações negras; de como Mulher Negra, independente das distintas filiações e dos distintos projetos partidários aos quais fazem parte, ainda somos tratadas por nossos pares negros e brancos (as) como se nós fôssemos a “mucama” dos Sinhorzinhos da esquerda e da direita; esquecem-se da história de superação que Olívia e Célia, assim como outras mulheres negras, vem decantando em suas trajetórias sociais marcadas pela pobreza, pelo racismo, pelo machismo aos quais historicamente foram submetidas. Esquecem-se, também, das nossas avós, das nossas mães negras, que nos legou e nos lega uma história de protagonismo e de sobrevivência que devem estar presentes na nossa memória ancestral.

Memória essa que agora está sendo recriada em identidades subversivas, se olharmos do ponto de vista de nós Mulheres negras, tais identidades estão redesenhando novas possibilidades de fazer política com novos sujeitos sociais; isso não quer dizer ganhar as eleições, pois Célia e Olívia já são vencedoras antes mesmo de sabermos o resultado do pleito eleitoral.

A maior contribuição histórica que estas mulheres nos dão, é o mérito de introduzir nesse imaginário social um novo lugar para as mulheres negras que fogem à determinações das ideologias dominantes das representações sociais da senzala / casa grande; elas mesmas, driblaram tais hierarquias sociais, através do trabalho, da educação, da política, das estratégias familiares; desmontam com os discursos racistas que acreditam que nós negros somos incapazes intelectualmente e politicamente, a não ser no plano da subserviência ao poder branco; e desconstroem com as narrativas das hierarquias de gênero e raça, invertendo as regras do jogo da dominação cultural e política; eles que estão à “serviço delas”.

Em nenhum momento da história dessa cidade, viu-se duas mulheres negras “ roubarem” à cena da política e da mídia; elas viraram a grande sensação dessa cidade; são verdadeiras herdeiras da Luiza Mahin, que comandou com maestria uma das maiores rebeliões escravas no século XIX, na Bahia.

Por tudo isso, o que se está discutindo nesse texto, não é o que Neto e Pellegrino têm a dizer sobre nós, mas o que nós temos a dizer sobre como mulheres negras estão subvertendo a lógica da dominação racial e de gênero na “cidade das mulheres”.