Baú de Miudezas, Sol e Chuva

Baú de Miudezas, Sol e Chuva
A prosadora, como gosta de se definir, Cidinha da Silva apresenta ao público mais um fruto de sua profícua carreira de escritora, iniciada em 2006. Desde então, são oito livros, contando com este último, que passeiam por contos, textos opinativos, crônicas, narrativas infantis.... E são sobretudo crônicas, ou, como percebe o olhar aguçado da prefaciadora Grace Passô, “poesia transfigurada em crônicas”, que formam o consistente recheio de Baú de Miudezas, Sol e Chuva, lançamento da Mazza Edições, mesma editora na qual Cidinha da Silva começou sua trilha literária. O interior de Baú guarda 41 miudezas, e não por serem as crônicas, em sua maioria, pequenas em tamanho. Miudezas em função de outra acepção que esta palavra encerra: delicadeza. Essa qualidade Cidinha da Silva emprega em todos os textos, mesmo quando se trata de abordar temas nem sempre tão digeríveis, como amores frustrados, relacionamentos interrompidos ou a busca de liberdade para o amor homoafetivo. Aliás, Baú de Miudezas, Sol e Chuva escancara o amor, com todas as letras e lágrimas e sorrisos que costumam acompanhá-lo. Não há o que se estranhar, afinal, a autora é, declaradamente, uma amante, isto é, alguém que ama “grande” e se incomoda com aquele tipo de amor que se manifesta “apenas na parte interna da orelha dos livros”, como revela a crônica Memória. Sua poética arquetípica dos Orixás impregna sentimentos e personagens, são testemunho do coração livre e libertário de Cidinha da Silva. Como todo bom/boa cronista, Cidinha da Silva se alimenta, principalmente, do cotidiano, e mais ainda, dos pequenos fatos do cotidiano, a cuja narração empresta leveza, humor e subversão. Baú de Miudezas, Sol e Chuva é daquelas arcas que dão prazer abrir e contemplar os simples e pequenos tesouros que guarda. Mas, que o leitor não se engane, a literatura de Cidinha é “suave como o pássaro que controla o próprio voo”, é prosa poética refinada, corta e perfura tal qual lâmina de adaga.

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31/10/2012

Quilombolas! For ever!


Por Cidinha da Silva

O desespero de Zumbi não dá no jornal! Sua estratégia de buscar os dois filhos adolescentes na escola à noite, e de os três esperarem pela mais-velha no escadão da faculdade, quando então, juntos, ele, Luiza Mahin, Amílcar e kwame Nrumah caminhavam para casa, apoiando-se mutuamente e trocando impressões sobre o dia, naufragou em sangue.

Zumbi está aturdido. Enquanto busca uma solução, conversou com os filhos. Em conjunto, decidiram ficar recolhidos em casa durante as noites, até que a matança cesse e o toque de recolher acabe. Na escola já estão acostumados. O acordo é tácito, cada um sabe o que fazer para tentar preservar a vida. Winnie, a mãe, não suportaria perder mais um filho para a guerra. Eles querem viver, acima de tudo.

Para se aproximar do número de civis mortos a cada noite, multiplique por cinco a cifra noticiada. É informação técnica confiável do pessoal das funerárias de bairro, dos cemitérios, do Instituto Médico Legal.

Na guerra é assim: eles chegam montados em motos possantes ou em carrões, arrogantes! De dentro do covil diminuem a velocidade. Das janelas, por cima dos fuzis, miram a cabeça dos quilombolas em grupo, parados ou em movimento. Riem alto enquanto atiram e apertam os olhos para alvejar os que correm. Têm predileção pelas crianças das biqueiras, mas podem também brincar de matar qualquer outro grupo caminhante pelas ruas. Feito o serviço, não chegam a fugir, apenas cantam pneu e quem sobrou guarda silêncio, guarda a vida.

Essa é a onda do momento, matar quilombolas. Voltamos à Colônia, quando qualquer grupo de mais de três negros juntos era um quilombo. A ordem da Coroa? Exterminá-los.

30/10/2012

Quem não soube a sombra, não sabe a luz...


Por Cidinha da Silva

Apliquei um Taiguara antigo na veia de um amigo pós-moderno que arranhou o dedo e por isso decidiu nunca mais brincar com faca. Essa moçada criada a iogurte de copinho, excesso de proteção e carinho, não sabe ralar o joelho no chão. Cicatriz, então, nem de longe.

Fugir da dor é marca geracional. Não é necessário, como os românticos, afogar-se nos braços do sofrimento, mas é bom aprender a manusear a faca, entender que amar e performar o amor são coisas distintas.

A performance é um movimento construído a partir de uma concepção, o amor é o próprio movimento, o vento, o fogo, a água, o ar que revigora. O amor é espora, espeta, mas também protege. Coração revestido de amor é mais cascudo, não desfalece a qualquer espetadinha, suporta uma rinha de galos.

Coração performador, ao contrário, é fracote e vive exposto, não sabe ouvir que alguém precisa dele, reduz-se a um garnisé. Por isso, Taiguara na veia. Por isso, ainda, sentir dor e até sofrer quando não se tem a amada, mas sentir-se plena e feliz por amar.

29/10/2012

O cabelo dos meninos pretos



Por Cidinha da Silva

Algo de sinistro acontecia com os cabelos daqueles meninos. Eles simplesmente não cresciam mais. Haveria algum parente do nitrato posto no feijão dos encarcerados na comida dos clubes?

Primeiro fora Romarinho, ao transferir-se do Bragantino para o Corinthians. Primeiro mês, segundo, terceiro, e o cabelo não avançava um centímetro. Seis meses e nada, continuava do mesmo tamanho, parecia encolhido, até. Deveria ser o contrário, certo? Não dizem que quando se está triste e deprimido o cabelo cai? O garoto estava feliz, fazendo gols decisivos, tornando-se ídolo da torcida.

Depois fora Cortês, vindo do Nova Iguaçu para o todo poderoso São Paulo, numa decisão do Presidente de trazer para o clube rico, gente que corresse atrás da bola com fome de um prato de feijão. No Olaria, no Bangu, no Nova Iguaçu, times dos subúrbios do Rio, tem muitos meninos com os cabelos estilo Cortês, são uma marca. No Tricolor do Morumbi, o cabelo do menino também parou de crescer, pior, diminuiu a olhos nus.

No quesito diminuição de cabelos, a operação mais drástica dera-se em Wesley, do Palmeiras. Ele que voltara da Europa com tranças longas, densas e brilhantes, que o deixavam com um aspecto Massai, talvez desconhecido, depois de longa contusão voltou à caretice, digo, carequice da época do Santos. É verdade que dizem por aí que o Wesley muda o cabelo e tatua o corpo de acordo com mudanças fundamentais de vida.

Os dois maiores Ronaldos da história do futebol brasileiro fornecem material antagônico para estudo das questões capilares relativas às cadeias de aminoácidos espiraladas. O  Fenômeno, achando-se branco, manteve-se careca durante longos anos, advogando que coisa ruim deveria ser cortada. O Gaúcho, por sua vez, em um dos trotes de boas vindas à Seleção Brasileira teve os cabelos cortados enquanto dormia. Um repórter, percebendo a insatisfação do atacante mágico, perguntou: “então, Ronaldinho, aderiu ao time dos carecas?” Ele, com o jeito tímido que até hoje carrega, porém assertivo, respondeu: “bahhh... foi brincadeira dos caras. Eu não gosto de careca, não. Eu gosto do meu cabelo.”

Tinga, do Cruzeiro, e Roque Júnior, campeão mundial de 2002, já aposentado, são exemplos dissonantes, como Gaúcho. O primeiro tem os dreads mais longos já vistos no futebol brasileiro e mundial. É alvo constante de piadas, descrédito, desrespeito. Tímido e operário em campo, não costuma responder com palavras, apenas mantém a estética.

Roque Júnior tem os dreads mais lindos e bem cuidados do mundo futebolístico. Ninguém tira farinha com ele e com o Primeira Camisa, time de futebol que preside, dá os primeiros passos como gestor moderno, preparado para gerir um time e o pós-carreira com mão firme e consciente do impacto de seus dreads no mundinho eurocêntrico desse esporte abrilhantado por negros.

Foto: Roque Júnior

28/10/2012

Fala, amendoeira


De Carlos Drummond de Andrade

Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista deparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre céu e chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes.  Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.
Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e, ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe pelo tronco. Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.
Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom – cor final de decomposição, depois da qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador de seu azedinho. É como se o cronista, lhe perguntasse – Fala, amendoeira – por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:
-- Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.
-- E vais outoneando sozinha?
-- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.
-- Somos todos assim.
-- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.
-- Não me entristeças.
-- Não, querido, sou tua árvore-de-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonize com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-se com dignidade, meu velho.

27/10/2012

Os motivos da luta dos Guarani e Kaiowá pelos territórios tradicionais, tekoha guasu

por *Tonico Benites

"A pretensão deste artigo é fazer uma breve análise das motivações principais que levaram historicamente e
 ainda levam hoje os Guarani e Kaiowá a retornarem aos territórios tradicionais, tekoha guasu, de onde foram expulsos e dispersos. Além disso, pretende-se ressaltar os significados vitais dos territórios específicos reivindicados para os povos Guarani e Kaiowá. Esses territórios tradicionais estão localizados nas margens das bacias dos rios situados no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul.

Como é sabido, no início da segunda metade do século XX, intensificou-se o processo de colonização oficial do sul do atual estado do Mato Grosso do Sul, e inúmeras comunidades Guarani e Kaiowá foram expropriadas e expulsas de seus territórios antigos, sendo, na maioria dos casos, transferidas e confinadas nas Reservas Indígenas e/ou Postos Indígenas do Serviço de Proteção dos Índios (SPI). Diante desse quadro, iniciativas de articulação e luta de várias lideranças Guarani e Kaiowá para retornar aos antigos territórios começaram a despontar no final da década de 1970.

Os grandes rituais religiosos – jeroky guasu – foram fundamentais para os líderes políticos e religiosos se envolverem nos processos de reocupação e recuperação dos territórios tradicionais específicos. A atuação, ação e valorização dos saberes Guarani e Kaiowá, rituais religiosos e a intermediação dos líderes religiosos nos processos de reocupação e recuperação de parte dos territórios tradicionais foram e são muito importantes para este povo. Nesse sentido, é importante explicitar que as manifestações rituais e religiosas observadas em situações de reocupação de territórios tradicionais expressam uma ação e concepção indígena bem específica e inteiramente desconhecida dos não indígenas, gerando diferentes reações e posições entre as diversas autoridades envolvidas em conflitos fundiários, tais como, fazendeiros e instituições do Estado brasileiro, e Justiça.

É relevante considerar que os Guarani e Kaiowá sentem-se originários dos espaços territoriais reivindicados, e que, nos últimos 30 anos, tendo sido privados da possibilidade de se reassentarem nos seus territórios tradicionais e sobreviver conforme seus usos, costumes e crenças, passaram a investir reiteradamente nas táticas de recuperação deles.

Em relação ao significado vital do território para o povo Guarani e Kaiowá é preciso observar em detalhe o modo específico de relacionamento desses indígenas com os seres invisíveis/guardiões (protetores/deuses) da terra, manifestados através de cantos e rituais diversos dos líderes espirituais. O respeito a esses seres humanos invisíveis e a forma de diálogo com eles marca uma diferença muito importante em relação à percepção e ao uso dos recursos naturais da terra. Este é um aspecto fundamental e determinante do relacionamento dos Guarani e Kaiowá com os territórios antigos. Ao lutar pela recuperação dos territórios, já nas terras reocupadas/retomadas, os Guarani e Kaiowá demonstram e acionam claramente a sua especificidade e condição de pertencimentos aos territórios de origem.

Importa observar que os Guarani e Kaiowá têm ligação e conexão direta com os territórios específicos, considerando-se a si e aos territórios como uma só família, dado que o território específico é visto por esses indígenas como humano. Os Guarani e Kaiowá possuem um forte sentimento religioso de pertencimento ao território específico, fundamentado em termos cosmológicos, sob a compreensão religiosa de que os Guarani e Kaiowá
á foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e a cuidar deste território específico, de modo recíproco e mútuo, portanto eles podem até morrer para salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os Guarani e Kaiowá e o guardião/protetor da terra, há pacto de diálogo e apoio recíproco e mútuo: os Guarani e Kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra, por sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guarani e Kaiowá.

A compreensão dos espaços territoriais pelos Guarani e Kaiowá tem uma concepção cosmológica específica, sui generis, e uma fundamentação cosmológica e histórica que se enraíza em tempos passados. Assim, o processo de luta antiga pela reocupação e recuperação dos territórios tradicionais é uma ação exclusivamente indígena interconectada aos seres do cosmo Guarani e Kaiowá, ou seja, trata-se de uma concepção etnicamente diferenciada, eles sentem profundamente a importância de retornar ao território específico.

Dessa forma, a luta de recuperação das antigas áreas ocupadas pelos Guarani Kaiowá é realizada por meio de retorno ao território, caracterizado como um movimento pacífico e político-religioso exclusivo. Isto é, trata-se de uma articulação política, comunitária e intercomunitária de lideranças religiosas Guarani e Kaiowá.

Nesse contexto, destaca-se o papel da Aty Guasu, uma assembleia geral realizada entre as lideranças políticas e religiosas dos Guarani e Kaiowá a partir do final de 1970. Decisões vitais que afetam a todos, como decisões sobre a recuperação de parte dos territórios antigos, por exemplo, são discutidas religiosamente e acatadas. A Aty Guasu é definida como o único foro legítimo de discussão religiosa e de decisão articulada das lideranças políticas e religiosas dos Guarani e Kaiowá.

Por fim, o que se deve ressaltar, como conclusão parcial do que foi exposto, é a importância da continuidade histórica da luta político-religiosa das lideranças Guarani e Kaiowá."





*Carta de Tonico Benites, do povo Guarani-Kaiowá, mestre e doutorando em Antropologia Social do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicada pela Justiça Global.

26/10/2012

O leilão da virgem e a fita métrica

Por Cidinha da Silva

As moças, jornalistas tarimbadas, tomavam a cervejinha habitual das sextas-feiras enquanto reclamavam da falta de homens no mercado. Uma queria um homem decente, as outras queriam homens de verdade, estavam cansadas de donzelos. Um cara com pegada (sem ser grosso), carinhoso (sem ser gay) e à moda antiga no quesito contas do restaurante e do motel. Não havia coisa mais deprimente do que dividir conta de motel com homem. No restaurante, ainda vá, mas no motel, não. Dava a sensação de que a moça estava pagando para o varão comê-la. 

Animadas, as produtoras de notícias zombavam da virgem catarinense leiloada. Provavelmente continuaria virgem, já que o lance vencedor fora de um japonês. Sabia-se que o pinto dos japoneses era insuficiente para grandes coisas. Contudo, ela tivera sorte. Imagine se um africano leva? Coitadinha! Que nada, comenta outra. Aquela lá deve ter hímen complacente, não deve ser virgem coisa nenhuma. 

Eu juro a vocês, seria mais feliz ao falar de flores, amores e pássaros, mas esse pessoal não nos deixa criar em paz. Respondam vocês, por favor, o que o leilão da virgindade da senhorita tem a ver conosco? 

Há muitos anos exibiram uma novela em que Adriana Esteves, bem novinha, era a personagem-consolo de um fazendeiro rico, velho, solitário e amargurado, representado por Antonio Fagundes. O homem havia perdido a esposa no parto do último filho. Este, já adulto, sofria terrivelmente, porque o progenitor, além de tê-lo rejeitado por toda a vida, acabara de tomar-lhe a mulher amada para madrasta. Marcos Palmeira fazia o filho desprezado, crescido entre os peões da fazenda, amigos leais. Dentre estes, havia um homem negro, quarentão. Ele contrai matrimônio com uma moça recém saída da adolescência, também negra, ajudante de cozinha na Casa Grande. 

Passada a primeira noite da lua-de-mel, como peão e cozinheira não viajam, nem têm tempo para desfrutar a alfazema dos lençóis, estábulo e cozinha esperavam pelos dois na manhã seguinte. Só que a cozinheira não aparece para cumprir as funções. Durante vários dias fica acamada, estropiada pela potência do pênis negro. Essa foi a resenha dos peões a respeito do sexo descomunal do companheiro, órgão e ato.

Por outro lado, o pênis grande e assustador, fantasia do homem exúnico, indomável e virulento, é desejado para outros usos. É o solucionador de longos períodos de abstinência, o desbravador de todas as matas, o que encara qualquer caverna desconhecida. Aquele pronto para tudo, que a todas serve com alegria e presteza. Ai do homem negro alto e sarado de pinto pequeno ou mesmo menor do que a média nacional. Será a encarnação mais nefasta da frustração. Ninguém aceita, nem as mulheres, nem os homens gays. O sujeito pode se preparar para ter o nome jogado na Medina, sem dó! 

O japonês, por sua vez, precisa ter pinto pequeno, pois tem inteligência, dinheiro e software, nasceu no país mais evoluído do mundo (superou até a bomba atômica). É filho de um povo aguerrido, honesto e trabalhador, inventor do Mangá, do Sodoku e da comida japonesa. Uma beleza! E, convenhamos, não se pode ter tudo na vida. 

O falo imenso é marca em brasa no corpo do africano negro e nos outros negros do mundo. Tem dias em que serve para dar muito prazer, noutros, precisa ser suportado, porque incomoda e machuca. Não faz parte de um homem-gente, é um pedaço cônico de tecidos, artérias e nervos, apontado para o Norte (sem bússola), nascido no meio de um boneco preto, ora desejado, ora ridicularizado, animalizado, sempre.

25/10/2012

O jeito sulista de fazer Jazz (Strange Fruit)


Um conto de Mumu Silva



Não lembro de onde vim, mas cheguei à cidade pouco depois do anoitecer. A viagem de trem foi desgastante, viajar pelo sul norte-americano sempre é, especialmente para nós, homens negros. A cidade era pequena, tinha aquele ar aconchegante do campo. A meia quadra da estação de trem havia uma igreja muito grande com a pintura toda desgastada.  Na verdade a cidade, cujo nome, infelizmente não me recordo, era muito comum. Ela se parecia com qualquer outra cidade do sul dos Estados Unidos década de 30.

Ao lado da igreja havia lojas feitas de madeira, todas assimetricamente enfileiradas. Do meu lado esquerdo havia a via férrea, por onde cheguei, e, do lado direito alguns casebres, uns maiores, outros menores. Definitivamente era uma vista comum.

Cheguei ao hotel e as coisas aconteciam de acordo com o esperado, não queriam me hospedar. Preferia quando haviam as placas “White only”*, era muito mais sincero, mesmo odiando do fundo de minha alma as leis de “Jim Crow”*.

Depois de muito penar, consegui algo raro, aluguei um quarto bem ao lado do hotel. Era pequeno, não sei ao certo se era um quarto de empregados. Era pouco provável, pois naquele tempo os hotéis nem contratavam negros. Não entendi como consegui aquela hospedagem, mas estava cansado demais e não queria pensar naquilo tudo, por mais que me forçassem a isso a todo momento: briga para conseguir almoçar, briga por estadia e até pelo uso do banheiro. Bem, o que dizer dos sulistas, não?!

Apesar de minúsculo, o quarto possuía alguns luxos e um deles era um lampião. Com ele pude começar a rever meus cadernos e fazer algumas anotações. Quando me dei conta já estava totalmente desperto. Meu sono e cansaço haviam passado. Comecei então a ouvir muitas vozes e gritos que vinham da rua. Assustado apaguei o lampião. Havia passado um pouco da meia noite, horário incomum para todo aquele barulho deste lado da cidade. Recordava-me que os clubes e cabarets ficavam a algumas quadras dali, mesmo assim, não faziam tamanha algazarra como aquela que estava ouvindo.

Abri uma pequena fresta na persiana para poder entender o que estava acontecendo. Deduzi  de forma leviana que um crime havia sido cometido. Não pude me conter por muito tempo, vesti meu casaco e meu chapéu. Então  parti para ver de perto o que acontecia nas ruas daquela pequena cidade.

Segui o som da confusão e ele me levou de volta a estação de trem. Fiquei escondido atrás de uma árvore. Havia em torno de 25 pessoas aglomeradas ali. A maioria era composta por homens bem apessoados, ou, melhor dizendo, homens com aquele típico perfil sulista americano: Loiro, alto, esbelto barba e/ou bigode por fazer, olhos esverdeados ou acinzentados. Olhos sempre brilhantes e cruéis.

Alguns deles estavam calados, postados firmemente em pé. Austeros. Figuras assustadoras posso dizer. Já o restante era o oposto. Não se continham e batiam suas botas com esporas no chão fazendo a maior algazarra enquanto levantavam suas armas de fogo e facões, praguejando sem parar. Era impossível entender o que falavam.

A situação era caótica. Senti uma voz do além sussurrando em meu ouvido para que eu não ficasse ali. Totalmente perplexo não tinha certeza sobre o que fazer. A única certeza que tinha, mesmo sem saber o que estava acontecendo, é que aquele dia mudaria a minha vida para sempre. Estático e impaciente aguardei até os primeiros e fracos raios de sol que chegaram iluminando aquelas pessoas arrepiantes, juntamente com todos aqueles casebres.

Já não havia mais baderna. Rapidamente os baderneiros calaram. A organização e o silêncio eram tão profundos que conseguia ser mais assustador do que tudo que já tinha acompanhado até então. Aqueles homens se comunicavam e se entendiam pelo olhar. Estavam em comunhão, de corpo e alma.

Com o nascer do sol muitas pessoas iam chegando e se encostando. Haviam muitas mulheres e crianças. Em um círculo mais ao fundo havia a aglomeração dos negros, que, por medo, ou por simples impedimento social, não ousavam chegar muito perto daquela alva multidão. Muitos carregavam marmitas e sacolas, com certeza estavam indo trabalhar. Diferentemente dos outros, tinham um olhar apreensivo. Com certeza eles sabiam o que se passava. Alguns seguravam seus símbolos religiosos e faziam orações.

Por volta de 7 horas da manhã, pude ver que ao longe trotavam em nossa direção alguns homens da segurança pública da cidade. Entre eles haviam dois cavaleiros imponentes que se destacavam. Bonitos e alinhados seus cavalos trotavam de forma imperativa pela estrada de terra.  Entre um cavalo e outro, havia um jovem negro amarrado. Estava quase sendo arrastado. Ele corria da forma que podia entre os imponentes cavaleiros. Suas mãos estavam atadas a uma grande corda que também prendia sua cintura. Tudo isso estava firmemente amarrado à cela de um dos cavalos.

Mesmo os homens que austeros permaneceram durante toda a noite, passaram a gritar e rosnar sons horripilantes de euforia com a chegada da cavalaria. Rapidamente as pessoas abriram um clarão na multidão e alguém, prontamente, passou uma corda no pescoço do jovem negro. A outra ponta da corda já estava sendo posicionada em um apoio de madeira, formando uma forca. Neste momento alguém no meio da multidão gritou: "Queimem ele! A forca é digna demais para um criolo!”

A tensão era enorme. Como uma corrente elétrica ela foi sendo conduzida e passava para cada corpo presente. Os corpos tremiam em ecstasy.   Você já presenciou a transformação de seres humanos em feras selvagens? Creio que poucas coisas neste mundo são tão terríveis e assustadoras como isso.

Rapidamente buscaram e cravaram no chão um mourão da estrada de ferro. Trocaram as cordas que amarravam aquele jovem negro por correntes e em poucos instantes ele já estava totalmente preso àquele pedaço de madeira.

Mesmo em estado de choque tentei olha-lo nos olhos, talvez em sinal de apoio, mas o que eu via era a carcaça, não mais um homem. Nele só havia suas formas de ser humano, pois em sua face e em sou corpo estavam cravadas a ferro e chicote todas as marcas da mais pura degradação. Seus olhos eram opacos e olhavam para o vazio. Conclui então que em sua cabeça já existia total ausência de pensamentos. Ele havia se dado conta de seu fatídico destino e em total estado de choque mal conseguia reagir ou tremer.

Era somente mais um negro a mercê daquele pelotão de olhos claros. Era mais um jovem negro prestes a conhecer a forma sulista de se fazer jazz.

Organizadamente trouxeram diversos pedaços pequenos de madeira e óleo. Colocaram cada pedaço de lenha perfeitamente entre o mourão  e os pés do jovem negro. Depois de tudo arrumado, não sei ao certo de onde, alguém chegou com a tocha acesa. Ela clareava ainda mais aquela ensolarada manhã.

Em poucos instantes as chamas que nasceram pequenas e tímidas aos pés daquele negro desafortunado se transformaram em lindas labaredas avermelhadas que tomaram conta de todo seu corpo.

Assustado o jovem soltou um gemido fino, longo e profundo. De repente ele passou a se contorcer entre as correntes tentando escapar. Tudo em vão. Começou a gritar desesperadamente um grito que vinha do fundo de sua alma. Um grito de dor. Um grito de morte. Este grito era tão horripilante que jamais sairá da minha cabeça, tenho certeza disso!

Enquanto as chamas queimavam suas carnes, seus urros de desespero e dor que antes podiam ser ouvido a quadras dali, passaram a ficar cada vez mais graves e abafados por conta das chamas, cada vez mais altas e fortes. Seus olhos, antes opacos e estáticos, agora giravam freneticamente sem direção certa dentro de suas órbitas. Eles buscavam em cada pálido rosto a sua volta um socorro, que, obviamente, nunca seria atendido.

Na multidão alguns gritavam e pulavam de alegria. Outros mostravam claro arrependimento por ter participado de toda aquela barbárie. Haviam alguns poucos que se viravam e fechavam os olhos para não ver aquela cena. Ficava evidente que seu próprio ódio lhes causava enjoo.

Eu estava paralisado. Não conseguia mover um músculo sequer, parecia que havia sido pregado naquela arvore, assim como cristo na cruz. A curiosidade, ansiedade e bravura da noite anterior se transformaram em uma espécie de arrependimento e culpa.

Ainda não consigo entender como alguém pode atear fogo e queimar um semelhante com tanta naturalidade. Também não entendo como ninguém foi capaz de ao menos tentar impedir aquilo tudo. Inclusive eu.

Antes mesmo que eu continuasse com meus devaneios, ou, me desse conta, tudo estava terminado.

De toda aquela loucura só havia sobrado o mastro de madeira inteiramente carbonizado, algumas cinzas que alimentavam um fogo já morto, ossos enegrecidos pelas labaredas e alguns fragmentos de carne, que chamuscados, escorriam presos naquelas correntes enegrecidas. O cheiro de carne queimada - carne humana - invadia minhas narinas. Era tão enjoativo que nem sei descrever como me senti.

Na verdade me sentia deveras humilhado! Desejei muito trocar de lugar com aquele jovem rapaz naquela manhã. Como alguém tão jovem podia ser dono de um destino tão cruel?

A vergonha percorria cada poro e cada pelo do meu corpo. Como era triste fazer parte de uma raça que podia ser tratada daquela maneira. Eu mesmo podia ser queimado vivo a qualquer instante. Talvez até o fosse na tentativa de reivindicar meus direitos por estadia, comida ou um copo d'agua no restaurante errado. Talvez fosse melhor ser um cão vira-lata ao invés de um jovem negro em terras como essa.

Voltei para meu quarto tão chocado que mal me lembrava de onde vim ou para onde iria. A única certeza que tinha é que deixaria aquela cidade o quanto antes.

Enquanto coisas assim se repetem diariamente, a vida continua no seu ritmo de improviso constante.

A poucas quadras dali em um cabaret qualquer os shows da noite anterior ainda não haviam acabado. Billie Holiday cantava"Strange Fruit" com a banda de Artie Shaw numa esquina, enquanto Chick Webb swingava sem parar, fazendo aqueles traseiros brancos rebolarem no clube concorrente.

Algum cretino que acabara de sentar em uma mesa grita para Billie Holiday: "Ei criola, canta pra mim aquela música sobre os corpos ardendo de tesão! Da uma olhada em como eu estou cheio de tesão por você, boneca!” - Lady Day fechou seu semblante, virou as costas e deixou o palco elegantemente engolindo a seco a ofensa, coisa rara de acontecer. “Just feel the blues”, este era o jeito do negro fazer jazz.

24/10/2012

Oke Arô Mutalambô! Protejei os Guarani Kaiowá!



Por Cidinha da Silva

Sou de um tempo em que patrulhávamos a solidariedade aos índios, em detrimento da solidariedade aos negros e por isso, criticávamos Milton Nascimento.

Naquele tempo sofríamos uma pressão insuportável, era nenhum o canal para nossa voz e, acima de tudo, sabíamos como o stablisment operava, e ele preferia dar algum espaço aos índios, que eram centenas, do que a nós, milhões, desde aquele tempo. Havia também o hábito dos engolidores do status quo, de relativizar a extensão, a profundidade e o impacto das questões, quando atingiam aos negros.

Hoje, mais livres e um tantinho mais vitoriosos, a generosidade é também uma arma de luta e todos somos Guarani Kaiowá e, a depender de nós, não serão mortos. Somos Quilombo Rio dos Macacos e não permitiremos que a Marinha do Brasil destrua-o física e simbolicamente. Somos a juventude negra enfrentando a morte promovida pelo terror e pela truculência do Estado em todas as periferias brasileiras. Somos Maria da Penha a proteger mulheres alvejadas pela violência doméstica.

Hoje, a noção de pertencimento a um campo político nos toma de corpo inteiro e nele, todos os sujeitos partícipes das causas justas e humanas que nos mobilizam têm lugar na plataforma de ação, a despeito dos surfistas nos temas fundamentais, que teimam em achar que tudo é onda na superficialidade da internet.

23/10/2012

Madalena, vereadora transexual negra, e o mendigo caucasiano


Por Cidinha da Silva

Eis que o novo hit das redes sociais é um mendigo-gato de olhos azuis. As moças querem levá-lo para casa, dar leitinho na boca, banhá-lo e passar talco. Semelhante ao que ocorre com os moços presos, com penas longas a cumprir, quando arranjam casamento de dentro da penitenciária. Descolam mulheres fidelíssimas, que zelarão pelo nome que o detento lhes dá, e elas, em troca, lhes darão filhos depois das visitas íntimas, que elas mesmas se encarregarão de sustentar.

Há pouco tempo, Renato Rocha, ex-baixista do Legião Urbana, foi descoberto na condição de mendigo nas ruas do Rio de Janeiro. Ele foi famoso, teve algum dinheiro, frequentou badaladas festas de embalo, teve milhares de fãs, deve ainda tê-los, foi belo. Não me lembro de que alguém tenha querido levá-lo para casa, dar leitinho na boquinha e coisa e tal. Parece que preto mendigo, mesmo famoso, é um preto só.

As famílias de Renato Rocha e de Rafael Nunes, este o nome do mendigo caucasiano de Curitiba, têm em comum, além do fato de serem trabalhadoras, desprovidas de lastro econômico hereditário, como os demais membros do Legião, por exemplo, o fato de terem oferecido apoio aos dois filhos desgarrados da orientação familiar que um dia tiveram. Renato e Rafael, por sua vez, como diversos moradores de rua, afirmam-na como um espaço de liberdade, de fuga das normas sociais que os oprime, além de serem usuários de drogas. Existe nestas opções, quando assim se configuram, realmente, um drama humano pouco acessível a nós, mortais de vidinha organizada e previsível.

Um dia, encontrei um homem branco, caucasiano, em um galpão de seleção de material reciclável. Perguntei qual era a história dele. Havia sido empresário, me contaram. Faliu, perdeu tudo e abandonou a família, envergonhado. Antes disso, tomara o cuidado de passar a casa onde vivia com a família para o nome de um amigo-irmão sem vínculo de parentesco. Evitou assim, que fosse penhorada junto com os outros bens para pagar dívidas, garantiu a segurança da família que, grata, um dia o reencontrou. Foram as filhas que contaram a história à assistente social e aos poucos tentavam se reaproximar. Ele, arredio, mal cumprimentava as pessoas, apenas selecionava o lixo e nas horas vagas, lia todas as revistas e livros com os quais se deparava. Só aceitara conversar com a filha mais nova.

Já Urinólia, moça negra, trabalhadora do mesmo local, viera da Maioba, interior do Maranhão, trazida por uma família da região de Higienópolis para trabalhar na casa deles como faz-tudo e mais um pouco. Ao fim do primeiro mês de trabalho, enquanto dormia, o adolescente da casa masturbou-se em cima dela. A moça acordou, gritou assustada e naquele momento mesmo foi expulsa da casa pelos patrões. Vagou dois dias pelas ruas da cidade, bebendo restos de líquidos encontrados no caminho, até lembrar-se que tinha fome e passar a vasculhar o lixo. Depois de uma semana andando a esmo, comendo comida das lixeiras de restaurantes e procurando lugar seco para dormir, encontrou um pessoal catando latas e papelão. Perguntou se podia juntar-se a eles, foi aceita de braços abertos. Sentiu-se mais protegida, dormiam debaixo das carroças, tinham um cachorro como guardião, até que fundaram uma cooperativa e hoje ela mora num quarto de pensão, enquanto constrói a própria casa num mutirão de habitações populares.

Mas Rafael, além de viver um drama humano de brancos e negros, tem o poder de mobilizar sentimentos humanitários que só aos brancos é dado arregimentar. Refiro-me ao sentimento massivamente manifesto de que algo está fora da ordem na hierarquia da gente que vale muito e da gente que nada vale. Rafael Nunes é branco demais (disseram bonito demais) para ser mendigo.

O outro lado da moeda é Madalena, negra, transexual, eleita vereadora em Piracicaba, interior de São Paulo, ameaçada de morte caso assuma a vaga conquistada na eleição deste ano. Uma mulher negra que além de um pênis e um rosto marcado pela vida, tem um corpo negro anti-modelo que não a habilita a desfilar em passarelas ou posar nua para revistas masculinas, como fez Roberta Close, lembram-se? Transexual branca, objeto de desejo de muitos homens socialmente heterossexuais, bem postos e moralmente conservadores, durante os anos 80. Se Roberta, Madalena fosse, tudo se resolveria pelo fetiche, mas uma preta transexual é inaceitável, como também impronunciáveis deveriam ter sido os gritos de auto-defesa de Urinólia. Madalena é preta demais, para ousar ser uma transexual legisladora numa câmara do interior paulistano.

Aqui, enquanto ouço as cordas sublimes do Ponteio afro para violoncelo, do querido Di Ganzá, apuro a motivação racial desses dramas todos. A tragédia cotidiana nas ruas expõe o valor desigual da moeda do racismo para negros e brancos. É sua essência rediviva.

22/10/2012

Joaquim Barbosa, um operador do Direito na Corte!



Por Cidinha da Silva

Muito da esquerda rabugenta e obtusa que ora procura holofotes para achincalhar o julgamento do mensalão, consolidou-se em oposição à esquerda festiva e irresponsável, e isso é compreensível, entretanto, podiam nos poupar de tanto fundamentalismo ideológico. Há que haver um caminho do meio, pautado pela lucidez, definição precisa de princípios e valores, coroados pela assertividade. Chega de discurso inoperante!

Há um suspiro ideológico moribundo da esquerda que se aferra à crucificação do Ministro Joaquim Barbosa, como se fosse ele seu algoz. Confundem a indicação de Joaquim ao Supremo, feita pelo ex-Presidente Lula, com uma fidelidade canina que ele, bem como os demais magistrados recomendados por Lula e Dilma à Corte, deveriam ter ao PT. Esperável seria que esses militantes partidários se regozijassem pelo fato de dois Presidentes da República, oriundos do PT, terem optado por varrer o bolor das janelas do STF.  No entanto, parecem desejar que esta bancada do Supremo não julgue membros do PT, quando réus, ou absolva-os pela origem partidária, constituindo um tribunal de exceção.

Argumentar que não existem provas para punir os responsáveis pelo mensalão, é o mesmo que insistir na não existência de provas de que os agentes militares da ditadura agiram respaldados por empresas, da agroindústria aos conglomerados de comunicação (escrita e televisiva), ricaços, ricões e outros apenas bem-postos no mundo dos privilegiados. Todos garantiram que os milicos não agissem por livre e espontânea maldade. Eles tiveram costas largas e quentes para espoliar, torturar e matar, por mais de 20 anos seguidos. As provas existem, são cabais, é só olhá-las com olhos de ver. É o que a maioria do STF fez. É o que a Comissão de Verdade faz.

Quem se aproveita do mensalão para tentar punir o PT por “ter criado o maior programa de transferência de renda do mundo, por construir mais de um milhão de moradias populares, por criar cerca de 15 milhões de empregos, por triplicar o salário mínimo (em 10 anos de governo), por incluir no mercado de consumo (cerca de) 40 milhões de pessoas”, por ter construído 14 universidades federais, por ter criado o PROUNE e o REUNE, por ter dado orgulho e dignidade a todos os Silva do país, não é o STF progressista e ainda menos o Ministro Joaquim Barbosa, ele mesmo, um Joaquim, nascido no tempo em que este era um nome de gente muito simples. Quem busca desqualificar o PT, usando como mote a parcela de seus ex-dirigentes julgados no processo do mensalão, são os herdeiros da Casa Grande, protegidos pelo verniz das leis, das universidades, das telecomunicações, pela indústria do terror e do genocídio da juventude negra, patrocinada pelo Estado nas periferias do Brasil.

Não creio que Joaquim Barbosa queira “brandir o cajado da lei para punir os poderosos” (de esquerda). Vejo-o como um operador do Direito, muitíssimo bem preparado, exercendo com competência, legitimidade e dignidade, o cargo para o qual foi escolhido e para o qual é muito bem remunerado.  O mais é nossa sede implacável de ícones negros que, por vias tortas, o transforma em super-herói.

21/10/2012

Colóquio das Estátuas

De Carlos Drummond Andrade 

"Sobre o vale profundo, onde flui o Rio Maranhão, sobre os campos de congonha, sobre a fita da estrada de ferro, na paz das minas exauridas, conversam entre si os profetas. 
Aí onde os pôs a mão genial de Antônio Francisco, em perfeita comunhão com o adro, o santuário, a paisagem toda – magníficos, terríveis, graves e eternos –, eles falam de
 coisas do mundo que, na linguagem das Escrituras, se vão transformando em símbolo.
As barbas barrocas de uns, panejadas pelo vento que corre as gerais, lembram serpentes vingativas, a se enovelarem; no rosto glabro de outros, a sabedoria ganha nova majestade; e os doze, em assembléia meditativa, robustos, não obstante a fragilidade do saponito em que se moldaram e que os devotos vão cobiço-samente lanhando – os doze consideram o estado dos negócios do homem, a turbação crescente das almas, e reprovam, e advertem.
– Uma brasa foi colada a meus lábios por um serafim – diz Isaías, ao pé da grade. E Jeremias, cavado de angústias, desola-se:
– Pois eu choro a derrota da Judéia, e a ruína de Jerusalém...
Esse choro, através dos séculos, vem escorrer nos dias de hoje, e não cessa nem mesmo quando Israel volta a reunir seus mem-bros esparsos, pois só outra Jerusalém, a celeste, não se corrompe nem se arruína.
*
Na sua intemporalidade, são sempre atuais os profetas. Em qualquer tempo, em qualquer situação da história, há que recolher-lhes a lição:
– Eu explico à Judéia o mal que trarão à terra a lagarta, o gafanhoto, o bruco e a alforra – é Joel quem fala. Ao passo que Habacuque, braço esquerdo levantado, investe contra os tiranos e os dissolutos:
– A ti, Babilônia, te acuso, e a ti, ó tirano caldeu ...
Numa visão apocalíptica, Ezequiel descreve "os quatro animais no meio das chamas e as horríveis rodas, e o trono etéreo". Oséias dá uma lição de doçura, mandando que se receba a mulher adúl-tera, e dela se hajam novos filhos. Mas Nahum, o pessimista, não crê na reconversão de valores caducos:
– Toda a Assíria deve ser destruída – digo eu.
Contudo, há esperança, mesmo para os que forem atirados à jaula dos leões – conta-nos Daniel (e em numerosas partes do mundo eles continuam a ser atirados; apenas os leões se disfar-çam); esperança mesmo para os que, por três noites, habitarem o ventre de uma baleia – é a experiência de Jonas, a caminho de Nínive.
*
Assim confabulam, os profetas, numa reunião fantástica, batida pelos ares de Minas. Onde mais poderíamos conceber reunião igual, senão em terra mineira, que é o paradoxo mesmo, tão mis-tica que transforma em alfaias e púlpitos e genuflexórios a febre grosseira do diamante, do ouro e das pedras de cor? No seio de uma gente que está ilhada entre cones de hematita, e contudo mantém com o Universo uma larga e filosófica intercomunicação, preocupando-se, como nenhuma outra, com as dores do mundo, no desejo de interpretá-las e leni-las? Um povo que é pastoril e sábio, amante das virtudes simples, da misericórdia, da liberdade – um povo sempre contra os tiranos, e levando o sentimento do bom e do justo a uma espécie de loucura organizada, explosiva e contagiosa, como o revelam suas revoluções liberais?
São mineiros esse profetas. Mineiros na patética e concentrada postura em que os armou o mineiro Aleijadinho; mineiros na visão ampla da terra, seus males, guerras, crimes, tristezas e anelos; mineiros no julgar friamente e no curar com bálsamo; no pessimismo; na iluminação íntima; sim, mineiros de há cento e cinqüenta anos e de agora, taciturnos, crepusculares, messiânicos e melancólicos."

Do livro Passeios na ilha

20/10/2012

Priscila Preta e Allan da Rosa lançam A calimba e a flauta, dia 27/10, em São Paulo


Grupo quer novo prefeito de São Paulo comprometido com acesso ao livro



Deu na Rede Brasil Atual
"Ativistas da educação e da cultura, reunidos no coletivo
LiteraSampa, cobram dos candidatos a prefeito de São Paulo o
compromisso de, se eleitos, criar as condições necessárias para a
implantação do Plano Municipal do Livro e da Leitura (PMLL) para a
capital paulista. Além de um termo de compromisso, a iniciativa
convoca o apoio popular, por meio de uma petição eletrônica.
O formato dos dois
documentos foi fechado na mais recente das constantes reuniões do
grupo, realizada na noite da terça-feira (16). A ideia é obter do
futuro prefeito que a cidade cumpra sua parte do Plano Nacional do
Livro e da Leitura, instituído em 2006 em trabalho conjunto dos
ministérios da Cultura e da Educação. O plano do governo federal
prevê ações nos níveis estadual e municipal.
Ao comentar a
iniciativa, a coordenadora do LiteraSampa, Isabel Santos Mayer, a Bel, disse que há tempos o coletivo vinha colecionando impressões
negativas sobre a ausência de políticas públicas para estimular a
leitura e a frequência às bibliotecas na maior capital do país.
“Cada vez que
estávamos em um evento literário, como a Flip (em Parati-RJ) ou a
Bienal do Livro (de São Paulo), ouvíamos o quanto era ‘absurdo’ que
uma cidade como essa não tinha projetos que dessem visibilidade ao
livro e que ampliasse o acesso ao livro e à leitura como agente da
educação, da cultura e do desenvolvimento social da população.
Então, um dia, percebemos que alguém tinha que começar e decidimos
juntar as pessoas para desenvolver o projeto”, disse Bel. Os primeiros encontros sobre o tema ocorreram em 2010.
A especialista em
pedagogia social prevê que as diretrizes para o plano estejam
prontas no início de 2013, época em que o compromisso a ser
assumido pelo próximo prefeito comece a ser cumprido – o coletivo
está em contato com as assessorias de Fernando Haddad e José Serra
para viabilizar a assinatura do termo.
Bel defende que a
construção do PMLL seja o mais participativa possível, com todos
os atores direta ou indiretamente interessados atuando no processo.
Por isso foi lançada, entre outras iniciativas, a campanha on line
para angariar assinaturas de apoio à criação e implementação do
plano.
“Nós queremos unir o
maior número possível de pessoas e de organizações em torno do
projeto de fazer de São Paulo um polo de leitura literária”,
frisou a coordenadora do LiteraSampa, que reúne instituições que
mantêm bibliotecas comunitárias em pontos espalhados pela Grande
São Paulo.
Sem políticas
Bel sustenta que a
discussão sobre desenvolvimento cultural e educacional em São Paulo
deixou de considerar a importância do livro, do acesso à leitura e
dos projetos comunitários, e que projetos como os Pontos de Cultura
e a Virada Cultural, apesar de importantes, são insuficientes para
cumprir as demandas da população.
“É necessário
ampliar as possibilidades e instaurar o debate sobre o tema, com o
envolvimento direto do poder público, aberto à participação
popular para ampliar as políticas locais de educação e cultura da
cidade”, afirmou.
Ela lembrou ainda que o
estado de São Paulo também não deu continuidade às propostas do
Plano Nacional do Livro e da Leitura. Por enquanto, só Mato Grosso do Sul elaborou sua política estadual sobre o tema."

19/10/2012

E foi por ela que o galo cocorocô


Por Cidinha da Silva

O cronista constata que os passarinhos de São Paulo vêm cantando fora de hora, há algum tempo. Ele cogita que a poluição sonora do grande centro leva as avezinhas a trocarem a noite pelo dia e a cantarem de madrugada, quando certo silêncio se impõe.

A crônica ia bem e eu curtia a leitura, até que o cronista roubou a cena do galo. Explico: eu tinha anotado uma ideia sobre os galos que não cantam mais (pela primeira vez) às 5:00 ou às 4:00 da manhã, como tem sido desde que a biologia dos relógios foi inventada. Tem vários deles cantando entre 2:30 e 3:30, levando vizinhos contrariados a solicitar a execução sumária dos cantores destemperados.

Eu mesma tenho um desses na alvorada. O bípede levanta a crista às três da matina, canta e não durmo mais. Enquanto me acostumo ao hábito nada saudável do moço, experimentei contar quantas vezes ele cocorocava. No primeiro dia de atividade insone, aferi 44 cocoriuuuu, com espaçamentos maiores a partir do 15º cacarejo, deixando a falsa impressão de que ele havia se cansado. No segundo, contabilizei 17 cacarejos fortes e no terceiro dia, 25 notas galináceas, com pequeno enfraquecimento de tom a partir da
13.ª

Embora tenha tomado de assalto meu tema, a boa notícia é que o cronista levou-me a especular porque os galos estão acordando mais cedo e nisso eu não havia pensado. Acho que é uma chamada. A vida dos nossos está indo embora antes da hora, com a mesma naturalidade de quem olha distraído o reinado de um galo no galinheiro.

18/10/2012

Se ninguém perdoar Carminha, chamem o Lewandowski!


Por Cidinha da Silva

Estão chegando ao fim a novela e o mensalão, digo, o julgamento dos capítulos inscritos na ordem do dia.

Dois personagens destacados na trama, dada a interatividade de ambos, poderiam contracenar. A primeira é Carminha. Depois de comprovados peripécias e crimes inacreditáveis (incluindo a tentativa de enterrar viva a principal inimiga e de afogar o parceiro-amante), a vilã ainda quer ser perdoada, valendo-se da manipulação dos tolos e crentes. O segundo é Lewandowski. Após confrontar-se por longos meses com provas dos mais diversos matizes, insiste em absolver réus que seus colegas condenam.

No palco do mensalão, os chefões gostariam de debutar como Carminha e têm em Lewandowski, a família de Tufão. O nobre magistrado não vê dolo, má intenção e falcatruas. Não é propriamente um cético, é um bom coração embrenhado em tecnicalidades jurídicas que lhe permitem, data venia, previsíveis licenças poéticas.

17/10/2012

A guerra


Por Cidinha da Silva

Eu sou belo, sou forte, sensível e trabalhador
Você é vagabundo, feio, fraco, grosso e sujo
Eu sou limpo, trabalhador, belo, forte, sensível e honesto
Você é ladrão, sujo, vagabundo, feio, fraco, grosso e burro
Eu sou inteligente, honesto, limpo, trabalhador, belo, forte, sensível e guerreiro
Você é acomodado, burro, ladrão, sujo, vagabundo, feio, fraco, grosso e incompetente
Eu sou competente, guerreiro, inteligente, honesto, limpo, trabalhador, belo, forte, sensível e generoso
Você é egoísta, incompetente, acomodado, burro, ladrão, sujo, vagabundo, feio, fraco, grosso, fracassado, neurótico e tem síndrome de vítima
Eu sou alvo da sua metralhadora giratória, sou saudável, vitorioso, generoso, competente, guerreiro, inteligente, honesto, limpo, trabalhador, belo, forte, sensível e incansável, incansável, incansável
Eu quero ser feliz
Você agora é feliz, não percebeu?
Deixei de atirar para matar
Só atiro para assustar
Para fazer você correr
De volta para o seu lugar

16/10/2012

Sobre-viventes!



Por Cidinha da Silva

Aqui não teremos disputa eleitoral sangrenta, candidato! Ou o senhor tem informações privilegiadas para nos dar? Terá o senhor notícia sobre ataques sistemáticos e sincronizados próximos à data do pleito? Hein, candidato?

Aqui o sangue escorre na noite das esquinas desertas e sombrias. Quando sai das artérias daqueles que deveriam garantir a segurança publica, nas noites de folga enquanto fazem segurança privada no comércio da quebrada, instala-se o terror, em represália. Os corpos são resgatados rapidamente e os colegas do morto trotam motocas possantes e carangos imponentes pelas ruas estreitas e fétidas das favelas próximas, instituem toque de recolher à base de grito e fuzis: “mataram um dos nossos, seus filhos da puta! Fica todo mundo em casa! Quem estiver na rua, não volta, senão leva bala. Um nosso, dez de vocês!”                                                                                                                                                             

A onda agora é matar sem pólvora, estão enforcando a molecada. O senhor sabia? Precisa acompanhar as sutilezas da cidade que pretende administrar, candidato!  O governador atribui a culpa da matança às armas e drogas que o governo federal não coíbe. O senhor responsabilizará o governo do Estado pelos corpos recolhidos à baciada? Ou mentirá dizendo que atuará junto com ele para enfrentar  o banho de sangue?

Só para informá-lo, ninguém aqui tem sangue extra para doar à sua eleiçãozinha mixuruca, de um mandato que não será cumprido, caso o senhor seja eleito.

Aqui, candidato, como no conto, avizinha-se o dia em que todos os esquadrões se unirão e formarão uma força invencível, disposta a acabar com a gente inocente que vive do outro lado da ponte.

Foto: Daniel Gabu, 22 anos, rapper, morador do Jd. Rosana, região do Campo Limpo, assassinado pela polícia de São Paulo, na noite de 14/10/2012.

15/10/2012

Joaquim Barbosa, super-herói ungido até pela Veja!



Por Cidinha da Silva

Só mesmo minha admiração por Joaquim Barbosa para me levar a gastar R$9,90 na compra de um exemplar de Veja, semanário execrado por sete entre dez pessoas de bem. As outras três não sabem ler.

Precisava ver qual era a armadilha da vez, mas a matéria de capa, baseada em conversa com o Ministro e notícias sobre o mensalão, é bem mais correta do que eu poderia supor. Embora os pecados não se deem apenas por atos e palavras, mas também por omissões. Assim, temas como as críticas de Joaquim à cobertura espalhafatosa que a mídia faz do mensalão, com a intencionalidade explícita de atingir o PT, a declaração de voto do Ministro em candidatos do PT nas eleições presidenciais recentes, a consciência dos usos e abusos do posto de super-herói, ao qual foi catapultado, bem como, sua certeza de ser um anti-herói, tudo isso é omitido. Estes são temas que o Ministro Joaquim já havia abordado em entrevista consistente, publicada no jornal Folha de São Paulo, o que não deixa de ser uma modalidade de omissão, pois é sabido que a mídia se alimenta da própria mídia.

Não sou jornalista de formação, mas sei reconhecer perguntas ruins, perguntas boas e também a ausência delas. Vejamos: se destaco na trajetória do meu entrevistado a subversão de um destino de mesmice sócio-cultural traçado para outros milhões de negros, como faz a entrevista, quero alcançar e dar a conhecer as ferramentas e procedimentos utilizados por ele para vencer. Devo ir além da constatação.

No caso de Joaquim Barbosa, por exemplo, alardeia-se que domina quatro idiomas. Sabendo que ele não nasceu em berço de ouro, não fez intercâmbio nos EUA ou Europa, patrocinado pela família, quando adolescente, que trabalhou em funções de baixa remuneração quando jovem, como estudou as tais línguas? Terá sido autodidata? Mas isso não interessa ao stablisment racista, importa promover o passado lacrimoso (senão de fato, pelo menos em nosso imaginário escravagista) e sua eventual superação, ao invés de esmiuçar como a superação se deu, entendendo-a como parte de uma estratégia coletiva de sobrevivência ao racismo, ainda que involuntária. Ao contrário, interessa sempre ratificar a norma (o destino de milhões), promover a exceção, destacando o esforço pessoal, responsável pela superação dos supostos atavismos.

Na matéria de Veja, afirma-se que a justiça brasileira está funcionando para punir os ricos e poderosos que praticam crimes, é verdade. Faltou dizer que isso acontece, em parte, porque trata-se de integrantes do PT ou pessoas ligadas a ele, haja vista o acobertamento do mensalão do PSDB, no qual a corrupção tucana teria movimentado cerca de 104 milhões de reais, bem antes da atuação de membros da cúpula do PT. Destes, polpuda quantia teria ido para as mãos de Gilmar Mendes, membro do Supremo, outra parte graúda para o Grupo Abril, editor da revista Veja.

Embora compreenda porque a efetividade da justiça começa pela punição dos membros do PT e associados (que as elites econômicas e culturais transformam em punição ao projeto político do PT de promoção dos pobres e desmantelamento das redes da pobreza), que a justiça seja feita e estendida a todos, indistintamente.

Lá pelas tantas, afirma-se que “Joaquim Barbosa, quando criança, preferia não ir às festas a ter de submeter-se à humilhação de ficar separado dos colegas.” A acomodação covarde ao racismo brasileiro que não se explicita no debate, o faz apenas na prática, leva os jornalistas a não especularem os porquês de tal atitude. Passam ao largo do tema, também por saberem que, tratando-se de um negro altivo, fora dos padrões, a segregação racial aparecerá em cores fortes e vibrantes, destoantes do tom opaco da reportagem.

O que mais me anima na figura humana de Joaquim Barbosa, é a possibilidade de conviver com uma referência negra que sofre dores homéricas na base da coluna por nunca haver se curvado. É o preço cobrado por não ter-se deixado vitimar pela tergiversação travestida de flexibilidade. Poucos de nós estamos dispostos a pagá-lo.

14/10/2012

A Rita agora é Rita Benneditto


Deu no Uol

"Há alguns dias Rita anunciou publicamente que passaria a usar um novo nome artístico: Rita Benneditto. Para esclarecer os motivos que levaram a tal mudança, vale contar a história completa.
Rita começou sua carreira há mais de vinte anos. Há algum tempo descobriu a existência de nomes artísticos coincidentes com o seu,inclusive em Portugal e, recentemente, teve ciência do registro do nome artístico que utilizava. Assim, em lugar de entrar com um longo e, possivelmente, desgastante processo na justiça a artista, que sempre foi ligada ao sagrado – vide o sucesso do show Tecnomacumba– resolveu então atender aos sinais e mudar seu nome artístico. Escolheu um sobrenome que é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao seu pai, que se chamava Fausto Benedito Ribeiro; à sua terra natal, São Benedito do Rio Preto, cidade do Interior do Maranhão; e também por ser um nome abençoado. Benedito tem origem no latim, Benedictus, que significa abençoado, louvado, consagrado.
“Eu sou uma artista que se relaciona profundamente com os mistérios da existência. Cantar, para mim, não é só um meio de sobrevivência ou uma questão de prazer e vaidade. É antes de tudo, me relacionar com o sagrado. Então, alguns fatos me levaram a concluir que o sagrado – aquilo que Gilberto Gil e Caetano Veloso chamam de ‘mistério’ – estava me sinalizando para a troca de nome. Mesmo sabendo do trabalho que é fazer essa mudança após cinco discos e uma carreira de mais de vinte anos, decidi atender aos sinais. Escolhi então um sobrenome que é, ao mesmo tempo, uma homenagem ao meu pai e à minha terra natal, e cujo significado é “abençoado, bendito””, conta Rita, que ainda consultou um numerólogo de sua confiança para chegar &agra ve; melhor grafia para seu novo nome artístico, garantindo as melhores vibrações possíveis. Louvada seja Rita Benneditto!"


13/10/2012

‎Flávia Rios discute vida e obra de Carolina de Jesus no rádio, hoje, às 14:00



Hoje, às 14hs, programa "À Beira da Palavra" -
USP FM 93,7 (ou em www.radio.us
p.br
)

Uma prosa sobre as lâminas e pétalas de Carolina de Jesus, suas contradições, seus doces, tombos e abismos. Com leituras de seus parágrafos e perguntas do seu destino.
Apresentação: Allan da Rosa & Spensy Pimentel ( e a pesquisadora Flavia Rios)
Engenharia Sonora: Mateus Subverso
Produção: Joana Moncau

12/10/2012

Nós das eleições

Por Cidinha da Silva

A partir de um olhar panorâmico das eleições 2012 para eleger representantes às câmaras municipais e prefeituras, identifico algumas conquistas mínimas, a mais simbólica delas em Salvador.

Dentre os seis vereadores negros eleitos, há dois de direita, uma professora oriunda da Igreja Universal (PRB) e um jurista aberto, senão relativamente progressista (PTB). Quatro são de esquerda, três do PT, vindos do tradicional setor dos sindicatos e um do PSB, Silvio Humberto, a quem conheci no SENUN – Seminário Nacional de Universitários Negros, edição única de 1993. Silvio é doutor em Economia pela UNICAMP, professor concursado em universidade pública, auditor da prefeitura de Salvador, co-fundador do Instituto Cultural Steve Biko, responsável pela preparação de centenas de jovens negros para ingressar nas universidades baianas. É, a meu ver, a grande novidade da política soteropolitana. Não só pelo perfil, mas pelas causas defendidas e propostas apresentadas, amplamente alicerçadas no entendimento da pessoa negra como sujeito de sua própria história.

Dos seis concorrentes à prefeitura da capital baiana, dois eram negros: Márcio Marinho, do PPB e Hamilton Assis, do PSOL. Havia também duas candidatas negras à vice-prefeitura e elas disputarão o 2º turno, Olívia Santana (PCdoB), na chapa do PT, e Célia Sacramento (PV), na chapa do DEM. Duas mulheres negras nesta posição são reflexo da abertura de espaço que a temática racial tem forçado, há muitos anos, na agenda política da cidade do Salvador. É indicativo para todo o país.

As mulheres se candidataram mais e obtiveram sucesso maior do que em pleitos passados, embora os partidos políticos ainda resistam a cumprir a lei dos 30% do preenchimento de vagas para as mulheres. Minas e São Paulo são os estados que mais elegeram prefeitas, 71 e 67, respectivamente. A seguir, BA (64), PB (49) e MA (41). Três Estados do Nordeste entre os cinco primeiros lugares.

Que esses números tímidos sejam sinal de que estamos aprendendo com Ruanda, que depois do massacre de 1994, tem escolhido mulheres para cuidar do país no Parlamento. O exemplo da Presidenta Dilma é motivador. A principal mandatária do país cercou-se de mulheres na constituição do time que a assessora no primeiro escalão e continua trazendo outras para a gestão. Diferente do que fizeram Erundina (1989-1992) e Marta Suplicy (2000-2003), ambas eleitas para a prefeitura de São Paulo. Marta, por exemplo, quando indagada sobre a ausência de mulheres no primeiro escalão, chegava a afirmar que estava tudo certo, pois o posto principal da gestão da cidade era ocupado por uma mulher, ela!

No campo LGBT tive conhecimento de duas vitórias significativas: a eleição da transexual Madalena, nome social de Luís Antônio Leite, para a câmara de Piracicaba, interior de São Paulo. Madalena é negra, tem 55 anos e estudou até concluir o ensino fundamental. Elegeu-se pela coligação PSDB-PRB. Em Florianópolis, Tiago Silva, um homem negro, gay, jovem (29 anos), filho de uma trabalhadora doméstica e nascido no morro do Mocotó, principal favela da capital, elegeu-se pelo PDT e foi o vereador mais votado da história da câmara municipal de Floripa.

Em São Paulo, chamou-me atenção a candidatura do ex-ministro Orlando Silva. Vi gente nossa batendo muito duro nele e me perguntava, será que essas mesmas pessoas bateriam em outros de perfil racial radicalmente oposto, mas de características ético-políticas semelhantes? Que características? Não sei! Os detratores dele é que sabem. Só sei que muita gente tinha interesse em derrubá-lo do Ministério do Esporte, em esvaziar um líder negro emergente de um partido de esquerda pouco arejado, marcado pela não promoção de sua base negra. Sei também que mesmo com toda a visibilidade gerada pelo posto de administrador da Copa, uma raposa do PSDB paulista, ao encontrar Orlando num estádio de futebol, apresentou-o ao enteado assim: “este é o Nelson Gonçalves, ministro do esporte.” Sei ainda que aparecer abraçado ao Mano Brown na reta final da campanha não o elegeu.

Afora isso, surge dessas eleições mais um candidato a grande mobilizador/manipulador de massas, Eduardo Campos. Se for inócuo como Ciro Gomes, vida que segue, mas se for capaz de decolar como Collor, Aecinho, Eduardo Paes e ACMezinho, é de preocupar. 

11/10/2012

O corno deixou de ser manso, mas a patuléia queria mais!


Por Cidinha da Silva

Carminha apanha do marido traído e displicente, tolo mesmo. Poderia estar aí apenas a vingança que aumenta os dígitos de audiência, mas a macharada indômita queria mais e gritava: CHUUUUUPA TUFÃO!

Tufão, o boleiro que passou a ser sinônimo de idiota chifrudo na conversa das aglomerações populares, vingava-se da decana traição conjugal batendo na mulher. Ele, um homem correto, honesto, cioso de seus deveres como cidadão, justo, humano, leal, amoroso, detalhes que parecem não contar aos olhos da maioria que o observa, deixaram também de fazer sentido para quem construiu o personagem. Coerente seria que Tufão socasse a parede, quebrasse a casa, chorasse, gritasse, esbravejasse que tinha vontade de espancar a Carminha, como teve vontade de matá-la, mas que não batesse, da mesma forma que não a matou.  Se na hora da raiva for permitido a um homem equilibrado como Tufão, bater na mulher que o traiu em todos os sentidos, que foi absolutamente desleal com ele ao longo da vida, os crimes de honra, praticados sob suposta pressão emocional violenta e incontrolável voltarão a ser justificáveis.

Mandar alguém chupar, no jargão dos boleiros, é constatar que esse alguém se fodeu e mandá-lo para o reino dos fodidos, assim, diz-se ao time adversário na hora em que o seu time vira o jogo ou faz um gol definidor da partida: chupa fulano! Manda-se chupar também, quando o time ou um jogador adversário está se achando o último copo de bebida fresca do deserto e um jogador do seu time dá uma caneta, um lençol ou faz um gol de bicicleta: chupa outra vez, cicrano! Mandar chupar, de acordo com a conotação sexual da coisa, é submeter a boca do perdedor ao falo do vencedor. Humilhação das humilhações na cartilha do macho heterossexual.

Estamos mal! Tufão, na opinião dos machos medievais é um arrombado. Este, o arrombado, é aquele que tem o cu alargado depois de ser dominado sexualmente por um macho, que neste caso não tem o colorido do interesse de um homem por outros homens, é apenas um cumpridor da função precípua de penetrar em qualquer buraco.

Tufão estava por cima, literalmente. Carminha já tinha desabado no chão com a força da bofetada dada por ele, mesmo assim, sua jogada violenta não apaziguou os boleiros tomados por overdose de testosterona. Tufão desmascarara Carminha e a punia com violência, mas os boleiros não viam isso, ou seja, a vingança não importava. O que contava, de fato, eram os pesados galhos na cabeça de Tufão que, no entendimento deles, humilhavam a todos os homens. Para contentá-los, só mesmo mudando de novela e chamando o coronel Jesuíno.  

10/10/2012

A história das cores



Por Subcomandante Marcos

Acendo o cachimbo e, depois das três longas tragadas rotineiras, começo a contar-lhes, exatamente como fez o velho Antônio...

O velho Antônio mostra uma arara que cruza a tarde.
Olhe – diz. 
Eu olho esse impressionante raio de cores no quadro cinza de uma chuva que se anuncia.
Parece mentira que um só pássaro tenha tantas cores – digo ao alcançar o alto do morro.
O velho Antônio se senta em um pequeno declive livre do barro que invade este cainho real. Recupera a respiração enquanto enrola um novo cigarro. Só quando estou uns passos adiante é que percebo que ele ficou para trás.
Volto e me sento a seu lado.
O senhor acha que vamos chegar ao povoado antes da chuva? - eu pergunto enquanto acendo o cachimbo.
O velho Antônio parece não escutar. Agora é um bando de tucanos que distrai sua vista. Na sua mão, o cigarro espera o fogo para iniciar o lento desenho da fumaça. Ele limpa a garganta, acende o cigarro e se acomoda, como pode, para começar, lentamente.
“A arara não era assim. Ela quase não tinha nenhuma cor. Era só cinza. Suas penas eram curtas, como uma galinha molhada – mais um pássaro entre todos os outros que não se sabe como tinha chegado ao mundo. Os próprios deuses não sabiam quem fizera os pássaros. Ou como haviam sido feitos.
Assim era a vida. Os deuses despertaram depois que a noite disse 'agora é a minha vez' para o dia. E os homens e mulheres estavam dormindo ou se amando, que é uma forma bonita de ficar cansado para dormir logo depois.
O deuses lutavam, sempre lutavam esses deuses que eram muito briguentes, não como os primeiros, os sete deuses que criaram o mundo, os primeiros de todos. E os deuses lutavamporque o mundo era muito chato, pois era todo pintado somente com duas cores.
E os deuses estavam certos de ter raiva porque só duas cores se alternavam no mundo: uma era o preto que comandava a noite, a outra era o branco que caminhava durante o dia. A terceira não era uma cor, era o cinza que pintava as tardes e as madrugadas para suavizar um pouco o preto e o branco.
E esses deuses eram briguentos, mas sábios. E, durante uma reunião, conseguiram chegar a um acordo para criar mais cores que alegrassem o caminhar e o amar dos homens e mulheres morcegos.
Um dos deuses começou a caminhar para pensar melhor seu pensamento. E tanto pensava seu pensamento que não olhou para o caminho e tropeçou numa pedra assim de grande e caiu de cabeça e começou a sangrar.
E o deus, depois que ficou chorando por um bom tempo, olhou seu sangue e viu que era outra cor, além das duas cores. E foi correndo para onde estavam os outros deuses e lhes mostrou a nova cor e deram o nome de 'vermelho' para essa cor, a terceira que nascia.
Depois, outro deus procurava uma cor para pintar a esperança. Ele a encontrou depois de bastante tempo, foi mostrá-la na assembléia dos deuses e a chamaram de 'verde', a quarta.
Outro começou a cavar fundo na terra. 'O que você está fazendo?', perguntaram-lhe os demais deuses. “Procuro o coração da Terra', respondeu enquanto lançava terra para todos os lados. Logo depois, ele encontrou o coração da Terra e mostrou aos outros deuses, e colocaram na quinta cor o nome de 'marrom-café'.
Outro deus foi para cima. 'Vou olhar de cor é o mundo', disse e começou a subir e a subir até lá no alto. Quando chegou bem alto, olhou para baixo e viu a cor do mundo, mas não sabia como levá-la até onde estavam os outros deuses. Então ficou olhando por muito tempo, até que ficou cego, porque já tinha a cor do mundo em seus olhos. Desceu como pôde, aos tropeções, chegou ao lugar da assembléia dos deuses e disse: 'Nos meus olhos, trago a cor do mundo', e deram o nome de 'azul' à sexta cor.
Outro deus estava procurando cores quando escutou uma criança rindo, aproximou-se com cuidado e, quando a criança se distraiu, o deus lhe arrebatou a risada e adeixou chorando. Por isso dizem que as crianças de repente estão rindo e de repente estão chorando. O deus levou o riso da criança e puseram o nome de 'amarelo' a essa sétima cor.
Nesse momento, os deuses já estavam cansados e foram beber pozol, uma bebida refrescante, e dormir, deixando as cores numa caixinha, debaixo de uma ceiba, uma árvore muito comum no México. A caixinha não estava muito bem fechada e saíram e começaram a brincar alegremente, e se amaram e surgiram mais cores diferentes e novas. E a ceiba olhou tudo isso e decidiu cobri-las para que a chuva não apagasse as cores. Quando os deuses chegaram já não eram sete cores, mas eram muitas cores. Eles olharam a ceiba e disseram: 'Você deu à luz as cores, então você vão tomar conta do mundo. E, do alto de sua cabeça, nós vamos pintá-lo'.
Subiram no alto da copa e dali começaram a jogar as cores ao acaso: o azul ficou parte na água e parte no céu, o verde caiu nas árvores e nas plantas, o marrom-café, que era mais pesado, caiu na terra, o amarelo, que era a risada de uma criança, voou até pintar o sol, o vermelho chegou até a boca dos homens e dos animais, que o comeram e ficaram vermelhos por dentro, e o branco e o preto já estavam no mundo, e era um relaxo como os deuses lançavam as cores, e nem se preocupavam onde elas iam parar, e algumas cores salpicaram nos homens e é por isso que existem homens de diferentes cores e diferentes pensamentos.
Depois, os deuses se cansaram e foram dormir novamente. Esses deuses, que não eram os primeiros, os que criaram o mundo, só queriam dormir. E, então, para não esquecer ou perder as cores, pensaram numa forma de guardá-las.
E estavam pensando profundamente nisso quando viram a arara. Então, agarraram a arara e começaram a colocar nela todas as cores. Aumentaram suas penas para que coubessem todas. E foi assim que arara ganho suas cores e anda por aí passeando, para que os homenes e as mulheres não se esqueçam que existem muitas cores e pensamentos, e que o mundo só será alegre se todas as cores e todos os pensamentos tiverem seu lugar.”