Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

31 de jan de 2013

O fundo do fim




Por Cidinha da Silva

Disseram que era dia da saudade e quem a sentisse deveria compartilhar. O nó do novelo é que essas campanhas impulsoras do comércio de sentimentos às vezes pegam a gente em dia de sol escondido e o coração enfraquecido pode embarcar em canoa furada.

Naquele dia nublado reinavam as lembranças dos que se foram, Jarbas, Bira, Zozó. O primeiro, amigo amado, o segundo, gigante admirado, e o terceiro, um simpático catalizador de amor e jovens talentos, sequiosos de espaço para expressão.

Mas insistiam em buzinar que era dia da saudade e o que eu sentia não era saudade, era incômodo a cada vez que alguém marcava os já idos para lerem algo no computador. Era dor de atropelamento pela mecânica dos relacionamentos virtuais. Era incompreensão ocidental aos ensinamentos budistas da Senhora dos Ventos sobre a impermanência das coisas, o volátil da vida.

Era a sensação de não saber cortar a própria carne sem comer vidro.

30 de jan de 2013

Dilma, Santa Maria e nós, quilombolas!




Por Cidinha da Silva

Foi digna de uma estadista a atitude da Presidenta Dilma ao interromper a reunião internacional da qual era protagonista, aliás, depois de Lula, tem sido assim para o Brasil, e voltar direto para Santa Maria, no Rio Grande do Sul, terra que a acolheu durante a ditadura militar mais recente, para prestar solidariedade e apoio institucional às famílias das dezenas de vítimas do incêndio na boate Kiss.

Aquelas pessoas jovens, cujas vidas tiveram interrupção trágica, foram vítimas de fatalidade, descaso, irresponsabilidade, descuido, ainda não se sabe, mas as investigações demonstrarão as razões do desastre e os culpados serão responsabilizados, não tenho dúvidas. Foi muita gente que conta a morrer de uma só vez.

Deveria ser punido também esse pessoal que inventa um deus sórdido e vingativo que submete centenas de jovens ao desespero e à morte dolorosa, simplesmente porque se divertiam em uma boate, dançando, paquerando, conversando, bebendo. Esse tipo de gente influencia negativamente a humanidade, a vida diária e o plano astral. Deveriam viver isolados do mundo, em algum lugar impossível para sua radioatividade contaminar nossos lençóis freáticos.

Há uma diferença nítida entre um grupo que é vítima e outro que é alvo de violência. Todas as autoridades constituídas conhecem essa nuance. Esses jovens de Santa Maria, homens e mulheres foram vítimas, sucumbiram ao fogo e à fumaça química, sem possibilidade de defesa. Foram acuados pelo pânico de se proteger em banheiros, onde havia água e portas confundidas com saídas de emergência. Foram impedidos de se salvar pelo despreparo de seguranças, aptos apenas a apartar brigas, bater em suspeitos, expulsar indesejáveis e receber um comprovante de quitação de consumo, ou seja, habilitados para garantir a ordem de funcionamento (não de esvaziamento) do local e a lucratividade dos donos.

Os homens e mulheres de Rio dos Macacos e de centenas de outros quilombos, das favelas incendiadas em São Paulo e noutras cidades do país, das periferias do Brasil onde se matam jovens negros como se esmagam baratas, são todos alvo! Alvo do racismo institucional e também do difuso, da irresponsabilidade governamental com o destino dos que não têm valor social, da especulação imobiliária, da incúria radioativa dos que inventam um deus irascível que só aceita uma expressão de humanidade.

Essa gente miúda, alvo da cartilha do desleixo, não tem valor quando viva e os seus que conseguem driblar a morte, ganham alguma sobrevida no areal do abandono, mas não mobilizam compaixão pública ou solidariedade. Que Oxalá seja por nós!

Ogum's Toques 6 - Cidinha da Silva e Guellwaar Adún


29 de jan de 2013

Me oriente, rapaz!



Por Cidinha da Silva

Um amigo, pai pela terceira vez, tem me comovido com seu novo ofício. Enquanto aguarda o rompimento da bolsa nidifica o mundo para acolher o rebento. Tão bonito, isso.

Quem tem pai sabe a diferença que ele faz na vida, quem não teve também sabe. Um pai bom nos dá coluna vertebral, nos ensina a ser algo inteiro, firme pela flexibilidade.

Pai orienta, dá o freiriano Sul para a vida. É quem mais ensina pelo exemplo, nesse sentido, é tradicional, primevo, inaugural.

Dois amigos, jovens pais de meninos únicos, referem-se aos filhos como pajezinhos, mestrinhos, babalaozinhos, ou seja, aqueles que cuidam deles, protegem, orientam, repreendem, ensinam pelo exemplo. É bonita e tão humana essa masculinidade construída na relação de espelho entre pai e filho.

São admiráveis esses moços que, como o poeta plantam um ipê amarelo na cabeça do tempo, só para ver o sorriso do filho.

28 de jan de 2013

Circulando pela blogosfera



Por Cidinha da Silva

A partir de setembro de 2012 consegui escrever crônicas diárias em meu blogue pessoal, reproduzidas no Facebook. Seguiram-se resultados promissores em meio a coisas curiosas, por exemplo, leitores e leitoras que não expressam qualquer comentário sobre textos autorais, mas manifestam-se quando há matérias não-autorais, indicando que estas são as verdadeiramente interessantes ou dignas de sua nobre atenção. Outros, desta feita, amigos queridos e críticos respeitáveis, dão o ar da graça quando escrevo sobre temas gerais, sem conexão direta com questões raciais. Vejo nisso um incentivo para que eu reflita e crie sobre generalidades cotidianas.

Em meio aos bons resultados, surgiram os convites para escrever em blogues, sítios e portais, seis, ao todo. Dentre eles, dois me alegraram muito, o dos blogues  Preta & Gorda e Blogueiras Negras, iniciativas de jovens e criativas mulheres negras. A sétima novidade foi inesperada recomendação para escrever no premiado Nota de Rodapé, no qual estrearei em breve a coluna Dublê de Ogum, e a oitava,  meu oferecimento para ser cronista do Portal Geledés. São, portanto, nove veículos de comunicação eletrônica até o momento, incluindo o pioneiro Cidinha da Silva. É a Senhora dos Ventos à frente do meu caminho.

Quando vi algumas pessoas reproduzindo o texto “O cabelo dos meninos pretos” postado  no Portal Geledés, resolvi escrever à Sueli dando conta da minha alegria ao ver algo de minha lavra exposto por lá e aproveitei para dizer que gostaria que isso fosse mais perene. Sueli, como sempre, atendeu o pedido, acolheu a oferta e alargou o caminho,  passei a ser colunista oficial do Portal Geledés.

Um sentimento de júbilo fez morada no peito e não me canso de ir até lá para me ver. É uma sensação boa de volta à casa, mais velha, madura, na condição de parceira, não mais de membro dos destinos de um coletivo.

Agora entendo Lázaro Ramos e a afirmação sobre seu pertencimento ao Bando de Teatro Olodum: eu sou de Geledés e estou emprestada ao mundo!

27 de jan de 2013

Resultado da enquete no blogue sobre a novela Lado a lado



Por Cidinha da Silva


Curioso, bastante curioso! A matéria de divulgação da enquete sobre a novela Lado a lado foi a mais acessada da semana, mas o número de votos não refletiu o interesse pelo tema. Foram apenas 46 frente ao quadruplo de acessos registrados. Destes, 2% definiram tratar-se de uma novela como outra qualquer e outros 2% a caracterizaram como mais um novela a enganar o povo. 43%, dentre os quais me incluo, julgam-na a melhor novela dos últimos 10 anos e os 58% vencedores consideram-na uma boa novela, mas cheia de armadilhas globais.

Particularmente, reputo Lado a lado fantástica porque os autores, de maneira inaugural na teledramaturgia brasileira rasgam, dilaceram, escancaram os privilégios dos brancos tupiniquins alicerçados na exploração reiterada e arraigada do povo negro ao longo de séculos. Quanto às armadilhas, conto com o beneplácito das crônicas para decodificá-las.

A enquete seguinte é sobre o segundo governo Obama, participem. Continuarei me divertindo com a tentativa de formular uma questão objetiva e um pequeno leque de respostas capaz de compreender a diversidade de opiniões dos meus leitores e leitoras.

Sobre a Copa Africana de Nações



O tempero africano. (Crônica de um Peladeiro)
por Michel Yakini

"Estive acompanhando alguns jogos da primeira fase da Copa Africana de Nações, que acontece na África do Sul, até agora, assisti: Gana x Congo, Etiópia x Zâmbia e Costa do Marfim x Togo. 

A seleção de Gana é velha conhecida, com seu craque: Ashamoah Gyan, figurinha carimbada das ultimas copas, mas dessa vez não conta com Prince Boateng, do Milan, que pediu dispensa da seleção, infelizmente.

Costa do Marfim talvez seja a seleção mais completa da África, a maioria do time joga em equipes de expressão e tem um toque de fino trato.

Togo depende do craque Adebayor, capitão, maior nome, mas que já não tem fôlego pra carregar o time nas costas.

O restante é novidade. A gente pouco sabe sobre o futebol africano, tirando os jogadores que atuam na Europa, as seleções que disputam as Copas e algum Mazembe no caminho (pesadelo colorado!), o conhecimento é mínimo.

A mídia brasileira cobre mal o campeonato continental, e malemá mostra os gols. Os confrontos são equilibrados e a maioria dos jogos são decididos no fim, adrenalina a mil.

A originalidade é uma marca do campeonato, seja pelas danças na hora de comemorar (ato sagrado nos gols), pelos cabelos trançados de vários estilos e pela torcida que é um espetáculo de cores e empolgação.

É difícil saber quem está perdendo ou ganhando, pois o mau humor não faz parte das arquibancadas. Um capítulo a parte.

Alguns jogadores chamam mais a atenção pelas manias, como o goleiro Muteba Kidiaba, do Congo, famoso por seus pulinhos sentado nas comemorações (pesadelo colorado!) e pelos nomes: como meia Mulenga, de Zâmbia, e os marfinenses: Maestro e Bamba. Seria interessante vê-los jogar no Brasileirão com esses nomes-adjetivos.

Apesar do nível técnico com surtos de amadorismo, consegui assistir com mais entusiasmo do que as partidas disciplinadas e robustas do futebol alemão e inglês, essas não consigo ver mais que 15 minutos.

Os jogadores africanos são fortes, por natureza e não por injeções, mas tem ousadia, gingado no corpo, mesclam velocidade e habilidade sem serem mecânicos, e lembram muito o nosso futebol, ou será que nosso futebol lembra muito o estilo africano?

Me recordou a Copa América, em tempos remotos: jogadores mais soltos, errando, acertando, atacando, arriscando, sem as retrancas bombadas da terra do gelo. Kidiaba, por exemplo, carrega um misto de goleiros antológicos, como: René Higuita (Colômbia), Jorge Campos (México), Carlos Montoya (Boca Juniors) e Luis Chilavert (Paraguai).

O jogo-duro também é parecido, envolve vontade de vencer, raça, até sangue, pois o futebol sul-americano, assim como é o africano, é mais emoção e vontade, mas agora que todos os países importam craques e pernas-de-pau pra Europa, tudo tem ficado mais comportado, burocrático e chato.

Tomara que a Copa Africana, não se torne uma filial do padrão europeu, e continue na contra mão do espetáculo gelado, programado e insosso que tem se tornado o futebol no resto do mundo."

Sobre o legado de Sabotage



Do Portal Áfricas
Há 10 anos o eterno maestro do Canão continua fazendo eco pelas periferias do Brasil
São Paulo é a terra dos contrastes e também o lugar onde tudo começou e acabou na vida de Sabotage. Ele ficou conhecido como o Maestro do Canão, mas foi na favela do  Boqueirão, também na Zona Sul de São Paulo, que Mauro Mateus dos Santos viveu os últimos anos de sua vida.
Na manhã de 24 de janeiro de 2003, quando o assassino de Sabotage apertou o gatiho e disparou quatro tiros, muitos acharam que a história do Maestro do Canão havia chego ao fim. Mas as balas de um revólver podem matar um homem, não um mito. Sabotage continua vivo e seu rosto estampado em camisetas faz com que sua presença seja marcante. Suas rimas serão lembradas por todas as gerações do hip-hop e o legado que ele construiu jamais será apagado.
Dez anos se passaram e a história de Sabotage continua sendo escrita. Um novo disco, com músicas inéditas, um documentário e um filme, são alguns dos projetos protagonizados por ele.
Sabotage teve três filhos, Larissa, Tamires e Wanderson, os dois últimos com Dalva, com quem era casado quando morreu. A família continua  morando no Boqueirão e foi lá que abriram a porta da casa simples, localizada no meio da viela,  para  compartilhar um pouco das lembranças, saudades e novidades sobre Sabotage.
A saudade de Sabotage ainda dói no peito de milhares de fãs espalhados pelo país inteiro, mas é na casa onde eles moravam que estão as pessoas que mais sofrem com sua ausência. . “De 2003 para cá foi uma época difícil, não ficamos bem de vida, trabalhamos como pessoas normais, mas não passamos necessidades. Tivemos que aprender a viver sem meu pai. Antes dele ser o Sabotage era o Maurinho, meu pai. Eu era pequeno, mas me lembro dele chegando em casa a noite depois dos shows, ensaiando junto com o pessoal do RZO, as visitas dos caras do RAP. A  Dina Di era muito amiga dele vinha aqui em casa também. Eu mesmo só me dei conta da fama dele, depois que o vi  no jornal e na MTV recebendo o prêmio. Até então ele era apenas o meu pai”, nos confidencia Wanderson, conhecido como Sabotinha.
O Maurinho antes de virar o Sabotage e mostrar para o mundo que um bom lugar se constrói com humildade, teve que enfrentar na pele o racismo, o preconceito, a violência e opressão do sistema. Passou por debaixo de muitas catracas de ônibus, levou muito enquadro da polícia e chegou ao ponto de ter que pagar para cantar. Um começo difícil, doloroso, mas que o guerreiro soube enfrentar. Sabotage era despreocupado e não media esforços para conseguir o que queria.
Desde muito novo já mostrava que as barreiras foram feitas para serem ultrapassadas. “Meu pai era muito travesso, deu muito trabalho para o meu tio Deda (risos), que também já é falecido. Foi meu tio que o apelidou  de Sabotage.  Quando ele ainda era menor de idade e não podia entrar nas baladas ele teve a ideia de  pegar a carteira de identidade do meu tio Deda e trocar as fotos para pode sair a noite. Depois de um tempo meu tio descobriu, ficou bravo,  reclamou muito e e falou que ele só fazia sabotage. Depois disso o apelido pegou e os meninos da rua também começaram a chamá-lo assim. Meu pai acabou gostando do apelido e assim que surgiu o vulgo Sabotage”, relembra Wanderson.
E o menino travesso da zona sul conquistou seu espaço no RAP NACIONAL de forma avassaladora. O talento misturado com a humildade e o sorriso acolhedor se espalharam rapidamente.
Cantor, compositor e ator, Sabotage era muitos em um só, compôs dezenas de músicas e algumas se tornaram hinos pelas periferias do Brasil. A arte de Sabotagem continua sendo usada por vários artistas em forma de  samples, colagens e scratches de suas músicas.
O maestro do Canão chegou a um nível de sucesso tão imenso, esbanjando o verdadeiro talento vindo da periferia que nem a grande mídia conseguiu camuflar seu brilho.Sabotage teve várias aparições na mídia, entre matérias, entrevistas, participações em programas de televisão. Em uma época onde o RAP NACIONAL praticamente era ignorado pela imprensa, Sabota com toda a sua negritude e talento, soube ir e mostrar para o sistema o que era o RAP NACIONAL, maior expressão musical das perifeiras brasileiras, e provou que respeito é pra quem tem. “Depois que ele participou dos filmes Carandiru e Invasor e das grandes participações nas músicas do B. Negão, Charles Brown Junior, entre outros, a mídia voltou os olhos para o meu pai. Ele era muito humilde, podia ir ao Morumbi, Perdizes, onde quer que fosse. Ele não ligava se o cara era favelado ou playboy. Ele trocava ideia com todo mundo, ele tinha um coração doce com as pessoas”, comenta Sabotinha.
Um dos mais promissores rappers do Brasil que andava pelas ruas com a cabeça erguida e o coração tranquilo, não teve tempo de perceber que o ser humano é traiçoeiro e pode chegar mascarado por trás. Foram quatro tiros pelas costas e o último suspiro de quem a partir de então deixava de ser carne e osso para se tornar um mito do RAP NACIONAL.
Sabotinha era apenas uma criança quando tudo aconteceu, mas lembra-se muito bem. “Eu fiquei sabendo pela televisão. Quando vi a notícia até pensei que era engano, que estavam confundindo meu pai com outra pessoa. Então eu liguei para minha mãe e ela já estava no Hospital São Paulo. Nesse momento comecei a chorar e quase entrei em depressão. Muitos dizem que foi vingança, acerto de contas, mas foi à inveja que matou meu pai. O Datena falou coisas que não eram verdades, até no programa de Frente com Gabi ela falou mentiras. As pessoas acham que foi por causa de drogas que ele morreu, mas não é verdade, foi à inveja que motivou o crime”, desabafa. O enterro de Sabotage reuniu cerca de 4 mil pessoas, entre rappers, artistas, fãs, e imprensa. Uma multidão foi se despedir do maestro do Canão que a partir de então entraria para o seleto grupo dos eternos.
Não estamos exagerando quando afirmamos que Sabotage virou uma lenda, mesmo após dez anos de sua prematura partida o rapper continua fazendo eco e  permanece pulsando cada vez mais forte. “As pessoas sempre perguntam das músicas, o que eu ando fazendo, quando terá novidades do meu pai. É pela humildade e talento que meu pai é lembrado e considerado até hoje. Ele foi um dos melhores MCs que o Brasil já teve. Até hoje vou aos shows de RAP e sempre tocam músicas dele, sempre tem alguém usando uma camiseta com o nome dele. Eu fico orgulhoso,  afinal ele é eterno. Até me arrepio só de falar”, desabafa Sabotinha, com os olhos cheios de lágrimas.
Se para os fãs que até hoje se lembram, cantam as músicas e vestem a camisa foi difícil a dor da perda, esse sofrimento é muito maior para a família de sangue. “Imagina o dia dos pais, você liga a televisão e só tem comercial de pais e filhos juntos, você vai ao parque, restaurante a mesma coisa, os filhos e os pais juntos, aí a dor aperta o coração entende?. Crescer sem pai é terrível, mas eu penso assim que ele foi viajar, que ele tá viajando para tentar não sofrer tanto. Porque se não a mente fica só pensando bobagens e isso não faz bem”, finaliza Sabotinha.
Rappin Hood e Sandrão RZO foram os responsáveis por resgatar Sabotage para o RAP e até hoje são amigos e sempre que possível ajudam a família. O eterno Sabota que se inspirou primeiro em seu irmão Deda, que também cantava RAP, deixou para Sabotinha e para Tamires o amor pelo RAP. Tanto que os dois irmãos, que sabem da responsabilidade de levarem o nome do pai, atualmente fazem shows e palestras.
O nome de Sabotage e suas rimas inteligentes, cheias de ensinamentos, continuam fazendo eco. Uma geração cresceu ouvindo o rapper, muitos nem se quer tiveram a chance de vê-lo cantar, mas mesmo assim a história segue.
Porque a inveja pode matar o homem, mas nunca matará suas ideias e rimas como: O rap é compromisso, não é viagem e um bom lugar se constrói com humildade, estão para sempre eternizadas na história do RAP NACIONAL.
E o hip-hop só tem a agradecer ao maestro do Canão por tudo que foi ensinado e deixado marcado para sempre.
O legado de Sabotage continua
Sabotage escrevia músicas com imensa facilidade, afinal o RAP corria no sangue e deixou várias letras inéditas gravadas. O novo disco, com 14 faixas.
O disco terá participações especiais de peso:  B. Negão, Charlie Brown Jr, Racionais MCs, RZO, Rappin Hood, Ao Cubo, MV Bill, Sistema Negro, SNJ e Ndee Naldinho, são algumas delas. As músicas deste novo trabalho já estão prontas, restando apenas pequenos detalhes. Todas as letras são de autoria de Sabotage, algumas partes há registro da voz dele cantando e nas partes que ele não pode gravar, entram as participações.
Um documentário sobre a vida de Sabotage também esta previsto para ser lançado.  O vídeo, que esta sendo produzido por Ivan 13 Produções e se chamará “Mauro Mateus dos Santos o Sabotage”, terá um depoimento inédito de Sabotage e  também entrevista com diversos rappers que acompanharam a carreira do Maestro do Canão.
Outra novidade é um filme que será dirigido por Walter Carvalho, que já fez o documentário “O Início, o fim e o meio”, sobre a  vida de Raul Seixas.  A ideia surgiu do produtor de cinema Denis Feijão e do ator Daniel de Oliveira. A ponte entre a produção do filme e a família de Sabotage foi feita por Rappin Hood que os levou até a favela do Boqueirão para apresentar a proposta, que foi aceita pela família. Algumas reuniões sobre o filme já foram realizadas e as gravações devem começar em breve.
Por Paula Farias | Fotos do Sabotinha Toni C. | Matéria publicada originalmente na Revista RAP NACIONAL

26 de jan de 2013

MUQUIFU - Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos


Por Mauro Luiz da Silva

MUQUIFU: Museu dos Quilombos e FAvelas Urbanos, no Quilombo do Papagaio / Aglomerado Santa Lucia, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

MUQUIFO: Casa pequena... é um pardieiro, um lugar sujo, mal cuidado, depredado, bagunçado, mal frequentado. Uma espécie de casebre, uma pequena casa de gente pobre. Um barraco de favela.
Pode ser chamado de birosca, como um botequim frequentado por gente de "pé sujo". Também pode ser um armazem ou umaespécie de cortiço. 

Estou em processo de redaçao de uma pequena tese (monografia) para a conclusao de uma Laurea Trienale (Graduaçao), em Historia e Preservaçao do Patrimonio Cultural, na Universidade de Padova / Italia. Por isso resolvi montar um album no FLICKR com as fotos que mais representam aquilo que pretendo defender. As fotos sao um resumo de 12 anos de dedicaçao a um projeto pessoal que se tornou um projeto comunitario. A Caminhada pela PAZ no Quilombo do Papagaio sera a base do trabalho academico que pretendo apresentar no final deste periodo de estudos. Meu argumento principal sera a criaçao do Primeiro Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos, para atender os moradores das mais de 190 favelas de Belo Horizonte e regiao metropolitana. A pergunta fundamental que tentarei responder neste breve estudo: EXISTE ALGUM PATRIMONIO CULTURAL A SER PRESERVADO EM UMA FAVELA? Posso arriscar outras pertuntas, também: AS FAVELAS SAO UM PATRIMONIO CULTURAL A SER PRESERVADO OU SAO UMA VERGONHA NACIONAL? QUAL E A FUNCAO DE UM MUSEU? PRESERVAR AS COISAS DO PASSADO OU INSPIRAR PARA COISAS NOVAS NO FUTURO? O método que optei utilizar é do afastamento absoluto do modelo aceito pela academia. Nunca desejei fazer parte de nenhum grupo fechado, como os “mestres” e “doutores” que conheci ao longo dos meus 35 anos de estudos. Quero ser apenas mais uma opiniao. Nao desejo convencer ninguém sobre minhas teorias. Nao me sinto dono da verdade, apenas vivo correndo em busca de encontra-la.

Diante do iminente extermínio das populações pobres, negras e faveladas do cenario urbano, escolhi fazer um confronto entre uma comunidade de Palermo, conhecida como ZEN de Palermo, e o Quilombo do Papagaio, que esta em vias de extinçao pelo Programa Vila Morta, da Prefeitura de Belo Horizonte. O tal programa é mais uma tentativa de eliminar os favelados, em sua maioria negros e pobres, da regiao central da cidade.

Quilombo do Papagaio: É aqui que eu amo. É aqui que eu quero ficar.
Pois não há á á! Lugar pra Negro, Pobre e Favelado em BH

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"







Por Plínio Delphino
Diário de São Paulo
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou
oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali,
constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres
invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu
comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma
percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão
social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de
R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição
de sua vida:'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode


significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o
pesquisador.



O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não
como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP
passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes,
esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me
ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão',
diz.



No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma
garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha
caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra
classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns
se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo
pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e
serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num
grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei
o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e
claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de
refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem
barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada,
parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar
comigo, a contar piada, brincar.



O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí
eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo
andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na
biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei
em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse
trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O
meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da
cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar,
não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.



E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a
situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se
aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar
por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse
passando por um poste, uma árvore, um orelhão.



E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está
inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais.
Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa.
Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa
deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe.
Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo
nome.



São tratados como se fossem uma 'COISA'


25 de jan de 2013

Nova campanha de combate ao Genocídio da Juventude Negra!

"Eu pareço Suspeito?" Levante-se Ou Será Derrubado! -WAPI Brasil 2013


Lançamento do livro PERIFEMINAS, em São Paulo



Por Cidinha da Silva

PERIFEMINAS: uma história do Hip Hop narrada por mulheres! Assim eu chamaria esta obra de vozes e olhares múltiplos. Algumas autoras apresentam o currículo, listam os feitos no movimento Hip Hop e isso também é significativo, dada a pouca consideração pública à participação transformadora e estruturante das mulheres na cena. Outras refletem de maneira mais ampliada e filosófica sobre o movimento e sua própria trajetória. Outras, ainda, ensaiam bons textos de ficção como “Banquete de reis.”

As autoras fazem elegia a elas mesmas, são plenas de orgulho e amor para contar histórias de mulheres que estiveram na base da projeção de vários homens, escondidas, carregando o piano. Contam também histórias de mulheres que ousaram lançar CDs, sozinhas, sem qualquer tipo de apoio. Há tímidos suspiros de crítica interna à presença e ação das manas na cena.

Mulheres cristãs, rastafáris, católicas, candomblecistas e umbandistas, umas tantas sem crença religiosa, professam dois lemas fundamentais: o primeiro, “O Hip Hop salva” e o segundo, “Lugar de mulher é onde quer que ela queira estar.”

Embora possa parecer expressão messiânica, ter tido a vida salva pelo Hip Hop foi realidade para muitos manos e manas que ouviram uma frase de promoção do amor próprio, um verso de solidariedade, uma palavra de  respeito ao que se é, pelas ondas do rádio, quando estavam tristes e depressivos, sem perspectiva pessoal e político-social na quebrada.

Há mais do que MCs, Bgirls e grafiteiras neste PERIFEMINAS, todas as autoras do livro “criaram-se” no Hip Hop. Foi ali que muitas passaram a entender-se e afirmar-se como negras. Outras, não-negras, constituíram uma irmandade estética, de classe e gênero, passando a praticar a solidariedade racial.

PERIFEMINAS nos conta muito de nós, do que sabemos e do que estamos por descobrir. Que a leitura nos apresente mais de nós mesmas.

Ação Educativa (General Jardim, 660), dia 06 de março de 2013, às 19:00.

24 de jan de 2013

Sapatos espalhados pelo Anhangabaú lembram os mais de 2 mil mortos na periferia de São Paulo em 2012



Redação Catraca Livre em 21/01/13
O objetivo é questionar a “guerra civil” que se instaurou na cidade de São Paulo
Dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, é dia de comemorar, mas também de lembrar, refletir, criticar e mudar. Para isso, o movimento #ExisteAmorSP está organizando um Memorial dos Sapatos, que vai ocupar o Vale do Anhangabaú no dia 25, em memória das mais de 2 mil pessoas assassinadas nas periferias da cidade em 2012.
divulgaçãodivulgação
Em maio de 2012 cerca de 4 mil pares de sapato foram colocados numa praça em Sidney para representar o número de pessoas mortas por ano nas estradas australianas
O objetivo é questionar a “guerra civil” que se instaurou na cidade no último ano e continua fazendo vítimas semanalmente. A ideia é que todos possam participar doando um par de sapatos, para simbolizar cada um dos que se foram. A homenagem será no Vale do Anhangabaú, ao lado da Casa de Cultura, e os calçados serão doados após o evento.
Os interessados devem comparecer ao local do evento no dia 25 levando os calçados ou simplesmente entrega-los na DBB Brasil (Rua Fidalga, 308A – Vila Madalena), na Matilha Cultural (Rua Rego Freitas, 542 – Centro) ou no Outras Palavras (Rua Augusta, 1239, 11º andar – Consolação).

Zeca



Por Cidinha da Silva

O homem montado no quadriciclo engana toda a gente. Fosse um Buarque de Hollanda que nem deve ser de Ogum, diriam que é política, mas é o Zeca, evocam caridade. Dizem também que sua cerveja é coisa de cachaceiro, enquanto o whisky do Vinícius era fineza de diplomata.

Tolos, os que cansados do marketing pessoal celebrativo, minimizam a estratégia do homem. Ele sabe que atrai holofotes e assim chama atenção para o problema das chuvas. Mas as pessoas parecidas com ele, em exercício de carência de ícones alimentam certo fetiche pelo coitadismo, precisam transformá-lo em cidadão comum que por ação individual ajuda o próximo.

Cidadão comum, uma ova, comum é o descamisado, o Zé Povinho, o que é atingido pela inundação do córrego todo ano. Zeca é marca consolidada, é Zeca Pagodinho, nome e sobrenome de vencedor que sabe utilizar a própria imagem para mobilizar a mídia em favor do povo.

22 de jan de 2013

Niemayer e Neymar


Por Cidinha da Silva 

A cronista desconfia da perseguição à celebridade em declínio que lamenta a morte de Neymar, parente mais próximo de Niemayer. Ela não é a única, uma infinidade de gente deve ter confundido o arquiteto centenário e o garoto bom de bola. Ocorre que essa gente toda não postou lamento choroso em redes sociais. 

Essa gente, como a celebridade, freqüentou uma escola que não ensina quem é Niemayer e é ela, a escola, o principal agente de formação sócio-cultural dessa galera. Deixem a moça em paz, o som dos nomes é mesmo parecido e se a pessoa não tem qualquer noção de história da arte, troca um pelo outro, sem esforço.

Ademais, Neymar, o principal jogador das Américas em atividade no solo amado pelo Che, é o maior produto de marketing da história do futebol brasileiro e um dos mais significativos do futebol mundial.

A celeuma não tem fundamento, é só mais um jeito de desancar a moça que aprendeu a ganhar a vida com a beleza do corpo e o balanço da bunda, como se ensina a tantas, desde tenra idade nos programas televisivos.

O povo não troca Gillete por lâmina de barbear? Troca Neymar por Niemayer. Fácil, fácil!

21 de jan de 2013

O conto do Messi chavista



Por Cidinha da Silva

Comi a primeira mosca do ano. Enorme. Tratava-se de imagem do Messi comemorando gol. O argentino levantava a camisa do Barcelona e por baixo tinha outra com imagem do Chávez. Mesmo não sendo chavista, adorei. Era tapa de luvas nos colegas de futebol alienados e na mídia que quer matar o Chávez a todo custo, postei a imagem, nem me lembrei que o Barcelona não havia jogado por aqueles dias.

Para minha sorte e proteção, um rapaz do Texas fez troça da postagem apócrifa reproduzida por mim e contra-atacou com o Messi comemorando gol e homenageando a ele, autor da postagem, como alguém fizera com o presidente venezuelano. Rapidamente, tirei o mico de campo, que não sou boba.

Eu me vangloriava de não ter caído na esparrela da crítica apressada ao Morgan Freeman que teria feito um discurso pós-racismo. Sei que o afro-estadunidense médio tem consciência racial igual ou maior do que muitos líderes afro-brasileiros, notadamente os facebookianos de primeira geração. Para completar, alguém mais lúcido mostrou que se tratava apenas de fala descontextualizada do ator.

Também escapei do fim do mundo dia 12 de dezembro de 2012, por dois motivos, primeiro porque eu não sabia que o mundo acabaria, segundo porque achei de mau gosto o grosso da pilhéria sobre o caso. E no entardecer do dia estapafúrdio, cuja invenção foi atribuída aos Maia, os Zapatistas de Chiapas, seu legítimos herdeiros, depois de uma manifestação que reuniu milhares de pessoas silenciosas México afora, disseram: “escutaram? É o som do mundo de vocês desmoronando. E do nosso ressurgindo.”

Não engrossei o coro de bobagens sobre o fim do mundo, mas caí no conto do Messi chavista. Tivesse prestado mais atenção à lição dos Zapatistas não me iludiria com a esquerda festiva e inconseqüente. 

20 de jan de 2013

30 anos após a morte, Garrincha ainda não descansou


Rui Castro é um grande conhecedor de Garrincha, talvez o maior, ok. Entretanto, me incomoda demais a forma como ele trata a sexualidade do astro. Quando li a biografia, há muitos anos, travei em uma dos muitos momentos, nos quais Garrincha não era apresentado como um homem que gostava muito de sexo, que talvez chegasse mesmo a ser viciado em sexo, mas como um animal insano em busca de sexo. Não consegui continuar a leitura e não retomei até hoje.


RUY CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

Trinta anos após sua morte, certos mitos sobre Garrincha continuam mais difíceis de matar do que Rasputin. O de que ele chamava seus marcadores de "João", por exemplo --significando que não queria nem saber quem eram, porque iria driblá-los do mesmo jeito. Garrincha nunca disse isso.

A história foi inventada por seu amigo, o jornalista Sandro Moreyra, em 1957, para mostrá-lo como um gênio ingênuo e intuitivo. Garrincha a detestava, porque os adversários, que não queriam ser chamados de "João", redobravam a violência contra ele.

Que Garrincha era um gênio intuitivo do futebol, não há dúvida. Mas não tinha nada do ingênuo, quase débil, com que algumas histórias o pintavam. Ao contrário, era até muito esperto a respeito do que o interessava --mulheres e birita, a princípio nesta ordem--, e não havia concentração que o prendesse. Nos seus primeiros dez anos de carreira, 1953-1962, Garrincha conseguiu conciliar tudo isso com o futebol. Dali em diante, a vida lhe apresentou a conta.
Acervo-2.set.1958/Arquivo do Estado
Ao lado de Mazzola (à direita), Garrincha escuta música na concentração da seleção em 1958
Ao lado de Mazzola (à direita), Garrincha escuta música na concentração da seleção em 1958
Outro mito é o de que, às vésperas do Brasil x URSS na Copa-1958, na Suécia, os três jogadores mais influentes da seleção --Bellini, Didi e Nilton Santos-- foram ao técnico Vicente Feola e exigiram sua escalação na ponta direita, com a consequente barração de Joel, do Flamengo, então titular. Em 1995, isso me foi desmentido pelos quatro jogadores (Bellini, Didi, Nilton Santos e Joel), pelo preparador físico daquela seleção, Paulo Amaral, e por outros membros da delegação.

Perguntei a Nilton Santos por que, durante tantos anos, ele confirmara uma história que sabia não ser verdadeira. Ele admitiu: "Era o que as pessoas queriam ouvir". No futuro, em entrevistas, contaria a versão correta: a de que Joel se contundira ante a Inglaterra, e a entrada de Garrincha aconteceria de qualquer maneira. Note-se que, até o jogo com a URSS, Garrincha ainda não era o Garrincha da lenda, e Joel, também grande atleta, era uma escolha normal para a ponta.

Outro mito, este agora bastante atenuado, mas ferocíssimo na época, refere-se à participação de Elza Soares na vida de Garrincha. Para os desinformados, ela ajudou a destruí-lo. A verdade é o contrário: sem Elza, Garrincha teria ido muito mais cedo para o buraco. Quando ela o conheceu (em fins de 1961, e não em meados de 1962, durante a Copa do Chile, como até hoje se escreve), Elza estava em seu apogeu como estrela do samba, do rádio e do disco. E ninguém imaginava que Garrincha, logo depois de vencer aquela Copa praticamente sozinho, logo deixaria de ser Garrincha.

Ninguém, em termos. Os médicos e preparadores do Botafogo sabiam que Garrincha, com o joelho cronicamente em pandarecos (e agravado pela bebida), estava no limite. Mas ele não se permitia ser operado --só confiava nas rezadeiras de sua cidade, Pau Grande. O que Garrincha fez na Copa foi um milagre. Mas, assim que voltou do Chile, os problemas se agravaram.

Mesmo jogando pouquíssimas partidas, levou o Botafogo ao título de bicampeão carioca --e, assim que o torneio acabou, com sua exibição arrasadora nos 3x0 ante o Flamengo, ele nunca mais foi o mesmo. Marque o dia: 15 de dezembro de 1962 --ali terminou o verdadeiro Garrincha.

Um outro Garrincha --gordo, inchado, bebendo às claras ou às escondidas, incapaz de repetir seus dribles e arranques pela direita-- continuou se arrastando pelos campos, vestindo camisas ilustres (do próprio Botafogo, do Corinthians, do Flamengo, do Olaria e da seleção) por mais inacreditáveis dez anos --até o famoso Jogo da Gratidão, organizado por Elza Soares. Foi sua despedida oficial, a 19 de dezembro de 1973, com um Maracanã inundado de amor.

Naquela noite, um time formado por Felix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Rivellino e Paulo César; Garrincha, Jairzinho e Pelé --praticamente a seleção de 1970 com Garrincha-- entrou em campo para enfrentar uma seleção de estrangeiros que atuavam no Brasil, estrelada por Pedro Rocha, Forlan, Reyes e outros.

Isto é Garrincha

 Ver em tamanho maior »
Arquivo/France Presse
AnteriorPróxima
Garrincha dribla Mel Hopkins, de País de Gales, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1958, na Suécia
Numa das várias preliminares, cantores e artistas, como Chico Buarque, Jorge Ben, Wilson Simonal, Paulinho da Viola, Miele, Sergio Chapelin, Francisco Cuoco e outras celebridades também se enfrentaram. Pelas borboletas do estádio, passaram 131.555 pessoas e, com exceção de uma pessoa --o ditador Garrastazu Medici--, todos pagaram para entrar, inclusive os jornalistas. Era o dinheiro que garantiria o futuro de Garrincha.

Da renda de quase 1 milhão e 400 mil cruzeiros (US$ 230 mil de 1973, uma nota), cerca de 500 mil cruzeiros saíram do cofre do Maracanã direto para cadernetas de poupança em nome de suas oito filhas oficiais e um apartamento ou casinha para cada uma. Este era um dos objetivos do jogo. Com os descontos da Receita e outros, sobraram-lhe mais de 700 mil cruzeiros para fazer o que quisesse --e que ele, naturalmente, torrou logo, sem saber como.

Daí o último e maior mito a ser derrubado sobre Garrincha: o de que ninguém o ajudou --o que, no fim da vida, ele declarou em entrevistas para a televisão, que ainda hoje são reprisadas. Mas a verdade é que Garrincha foi muito ajudado, e em várias etapas de sua vida.

Entre seus maiores benfeitores, estavam o banqueiro José Luiz Magalhães Lins, do então poderosíssimo Banco Nacional; o empresário Alfredo Monteverde, dono do Ponto Frio; o Instituto Brasileiro do Café (IBC) e a Legião Brasileira de Assistência (LBA), que lhe deram empregos generosos, aos quais ele não correspondeu; e seus ex-colegas do futebol, agrupados na Agap (Associação de Garantia ao Atleta Profissional), que não se cansaram de recolhê-lo em coma alcoólico na rua e interná-lo em clínicas de "desintoxicação" --das quais era criminosamente liberado dois ou três dias depois de dar entrada.

O alcoolismo matou Garrincha há 30 anos --e continua a matá-lo até hoje, a cada uma de suas vítimas que o Brasil deixa de assistir.
RUY CASTRO é autor de "Estrela Solitária -- Um Brasileiro Chamado Garrincha" (1995), Companhia das Letras, atualmente na 16ª reimpressão