Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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31 de mar de 2013

Sobre o trabalho da Comissão de Verdade




Psicanalista Maria Rita Kehl
Foto: Michel Filho / Agência O Globo
Psicanalista Maria Rita Kehl Michel Filho / Agência O Globo
RIO — Única psicanalista à frente da Comissão da Verdade, Maria Rita Kehl diz que ‘nem dá para contar’ relatos que vem ouvindo de vítimas da ditadura militar (1964-1985).
Neste primeiro ano, a Comissão ouviu mais de 40 pessoas. Como única psicanalista do grupo, a senhora poderia falar um pouco do sentimento delas?
Cada um cuida de uma área, a minha é de camponeses e índios, e ouvi bastante gente que foi torturada. Dos criminosos ouvi menos. Por enquanto ouvimos só quem se ofereceu para falar. É diferente dos torturadores, que a gente convoca e tem poder de lei para convocar. Não podemos impedir torturadores de mentir, eles mentem mesmo. Mas são obrigados a vir, senão é crime de desobediência. Os torturados são o contrário, querem vir.
Mas e o sentimento deles?
As pessoas que nos procuraram me impressionaram sob muitos aspectos. O primeiro é o lado do sofrimento mesmo, da dor, de como falar sobre o que sofreram dói. A riqueza de detalhes impressiona. Muitas têm as mãos trêmulas, precisam parar de falar, têm vontade de chorar. É um ato de coragem. Mas ninguém teve uma síncope porque trata-se de pessoas fortes, que aguentaram a tortura. Por outro lado, o trauma é revivido, faz o passado voltar para o presente. Algumas nunca falaram com tantos detalhes sobre o que viveram como agora. Percebemos que fica mais fácil de lidar, ao retirarem esta pedra que estava em cima de seu passado há mais de 40 anos, do que reprimindo-a. Não se pode esconder a verdade porque ela começa a mofar e a gerar monstrinhos. Mesmo que isso não possa servir como documento objetivo para acusar alguém, porque as pessoas podem estar confusas e não reconhecerem direito quem é o torturador, pode criar pistas muito consolidadas. A gente tem vários torturados que viram, na cadeia, um companheiro depois dado como morto por ter resistido à prisão. Ou várias pessoas viram outra machucada, passando mal. Então a gente conclui que esta pessoa não morreu fugindo da polícia ou enfrentando a polícia, como disseram, e sim que já estava sem condições de ficar de pé. Ela não pode ter morrido trocando tiros. Isso já é válido.
O coronel Sebastião Curió vai ser ouvido quando?
O Curió é incumbência minha e do Cláudio Fonteles (ex-procurador geral e membro da Comissão). Os camponeses do Araguaia (onde Curió combateu a guerrilha) eu ouvi bastante. Além da dor física, há a humilhação que sofreram. E contam o que foram obrigados a fazer, coisas que nem vou dizer aqui, coisas aviltantes. Sofrem tudo de novo. O pior foi falar da humilhação. Os índios foram maltratados para tentar rastrear guerrilheiros, perderam terras, foram obrigados a carregar corpos, decepar cabeças. Curió será intimado. E em breve.
Índios foram torturados?
Teve pouca tortura com índio, pelo que eu saiba até hoje. Há fotos horríveis de índio pendurado em pau de arara, de uma índia cortada ao meio. Mas são poucos casos. Estou começando a olhar a parte indígena agora, em colaboração com o Instituto Sócio Ambiental, que está há quarenta anos pesquisando indígena, então seria antecipar algo que ainda não sabemos. A violação contra os indígenas foi o modo como a terra deles foi ocupada. À força, às vezes à bala, queimando tudo. Expulsando e aí, sim, torturando os casos de resistência. Tem dois tipos de violação. O primeiro é a disputa por terra, o fazendeiro vai, expulsa à bala. E o outro, importantíssimo, principalmente a partir dos anos 70, foram as políticas de ocupação da Amazônia pelos governos Médici e Geisel, o “integrar para não entregar”. Foi aí que se entregou para grandes empresas e fazendeiros, para fazer hidrelétricas, estradas. Os índios foram tratados não como brasileiros que tinham que ser eventualmente remanejados, mas como lixo na beira do caminho: tira eles dali.

29 de mar de 2013

A PEC das Domésticas, os grilhões e as madames



Por Cidinha da Silva

As madames estão indômitas. Como diz o povo da minha terra em causas perdidas, seguidas de auto-flagelo dos protagonistas, estão rasgando o cu com a unha.

São 77 anos de organização sindical das trabalhadoras domésticas, iniciada por Laudelina de Campos Mello, em Santos, na busca de 34 direitos garantidos à maioria das demais categorias de trabalhadores.  São 70 anos de atraso em relação às conquistas da CLT. São cerca de 8 milhões de domésticas em todo o país, incluindo adolescentes e crianças, destas, em torno de 6 milhões não têm carteira assinada e não ganham sequer um salário mínimo.

Entretanto, mesmo diante destes números, os jornais estão consternados com o “desamparo” das patroas e patrões, e se apressam em esmiuçar todos os direitos da classe patronal frente aos insuspeitos novos direitos como trabalhadoras (ironia da História) conquistados pelas domésticas. Qualquer semelhança aos debates prévios à extinção formal da escravatura não são mera coincidência.

Foi só no final dos anos 80 que a História Social da Escravidão começou a utilizar a expressão trabalho escravo para nominar a ação transformadora e de sustentação do país desenvolvida pelas pessoas escravizadas. Antes destes pesquisadores, a historiografia brasileira só falava em trabalho formal e organizado a partir do movimento operário das primeiras décadas do século XX.

O giro da roda num país racista sempre emperra nos privilégios da branquitude. A bola da vez é o trabalho doméstico que passa a ter direitos similares aos dos demais trabalhadores apenas no século XXI, e são ainda questionados. Eita pessoal ranheta, não larga o osso nem a poder de marreta!

Oxalá, caminhemos de um lado, para botar fim ao “você é quase da família”, e do outro, para extirpar do mapa o discurso passivo de trabalhadoras destituídas de tudo, o dolorido “meus patrões têm o coração tão bom, me tratam tão bem.” São faces da mesma moeda. A coroa passa açúcar (roupa usada, sobras de comida) na exploração das domésticas, compartilha de maneira simbólica e subalternizada o mundo que um salário ínfimo não pode comprar. A cara da moeda, privada do básico, até do direito ao trabalho para manter existência digna, tende a contentar-se ou iludir-se com o coração bom de mãos tiranas. O bom tratamento restringe-se à provável ausência de maus tratos sofridos em experiências anteriores ou narrados por familiares e colegas. Nada mais.

Se Oxalá não nos ouvir, no ritmo em que as coisas andam, daqui a pouco as trabalhadoras domésticas serão condenadas a indenizar as senhoras, se é que vocês me entendem.

28 de mar de 2013

O ASSUNTO É DIREITO DO TRABALHADOR DOMÉSTICO





CREUZA MARIA OLIVEIRA
O ASSUNTO É DIREITO DO TRABALHADOR DOMÉSTICO
Uma reparação histórica
Não se trata só de igualdade de direitos, mas de inclusão e reparação histórica, diante dos absurdos vividos por 8 milhões de domésticos
A origem do trabalho doméstico no Brasil é a escravidão.

A relação entre o senhor e seus escravos era de exploração, sobretudo daqueles que serviam à chamada casa grande. Com o advento da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, o trabalho doméstico continuou a ser exercido majoritariamente por mulheres negras -jovens e inclusive crianças-, vindas das cidades do interior do país para trabalhar nos grandes centros urbanos.

Nesse processo histórico, temos que destacar o valor social do trabalho doméstico para o desenvolvimento da economia e sociedade brasileira e até mesmo mundial, ao fortalecer as estruturas familiares.

No entanto, a visão da sociedade no geral, fundamentada no preconceito, é a de que o trabalho doméstico é uma atividade sem importância e que não gera lucro para o patrão.

Diante desse ponto de vista, permeado por machismo e racismo, sempre houve evidente desvalorização do trabalho doméstico. As mulheres foram submetidas a condições degradantes e desumanas no que se refere ao desempenho de suas atividades, não tendo nem sequer a proteção das leis trabalhistas como os demais trabalhadores.

Em virtude dessa realidade, que fere a dignidade do trabalhador (a) doméstico (a), surgiram organizações de defesa da igualdade de direitos entre essa e as demais categorias. A primeira delas foi a Associação de Trabalhadoras Domésticas, fundada em 1936, em Santos (SP), por Laudelina de Campos Melo.

Como consequência dessa luta, no ano de 1972, foi aprovada a lei 5.859, que garantiria o registro da carteira de trabalho e previdência social para os trabalhadores domésticos no Brasil. No ano de 2006, a lei 11.324 passou a assegurar estabilidade para gestantes, folgas nos feriados e a proibição do desconto de utilidade no salário da categoria.

Nem mesmo com esses avanços, o trabalho doméstico adquiriu a proteção das leis trabalhistas necessárias para igualá-lo às demais profissões celetistas. Por isso, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), fundamentada na chamada Agenda do Trabalho Decente, levou o tema para sua 99ª e centésima conferências, respectivamente nos anos de 2010 e 2011. Deu origem à Convenção 189 e à Recomendação 201, específicas para as trabalhadoras domésticas.

Hoje, no Brasil, depois de tantas reivindicações e lutas, é o momento da aprovação da PEC (proposta de emenda constitucional) 478/2010, conhecida como a PEC das domésticas. A emenda garante à categoria a extensão de 16 direitos já assegurados a outros trabalhadores.

Não se trata somente da igualdade de direitos, mas de inclusão e reparação histórica, diante dos absurdos já vivenciados por essas cerca de 8 milhões de trabalhadoras domésticas do país.

Diante da aprovação da PEC na votação de segundo turno no Senado Federal, o Brasil demonstra que está mudando de mentalidade. A justiça social está sendo feita para uma categoria que tem papel importante na construção deste país.

Por fim, há de se destacar que a luta das trabalhadoras domésticas, nesses 80 anos de organização sindical, teve apoio de vários segmentos do movimento social para dar visibilidade à categoria, tão especial e merecedora de justiça.

Corporalidade Negra em Lado a Lado




por Cidinha da Silva*

Perdoem-me os fãs da Capoeira, mas quero falar sobre futebol na novela Lado a lado. Chico (César Mello) protagonizou cena histórica vivida no início real do século XX por Carlos Alberto, jogador negro que, migrando do singelo América para o aristocrático Fluminense, temeu a rejeição da torcida e, desejando evitá-la, passou pó-de-arroz no corpo, antes da partida.

O problema é que a mistura química do pó-de-arroz com o suor, à medida em que o jogador se movimentava no campo,  transformou-o em uma papa. Resultado trágico de uma válvula de escape do racismo que não funcionou. Talvez seja possível à leitora imaginar o desespero de Carlos Alberto para buscar uma alternativa de proteção tão ridícula e fadada ao fracasso.

O jogador da telenovela imitou o jogador da vida real com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, encontrar um caminho para ser aceito no mundo branco. Chico é chamado para jogar no time dos brancos (todos os times eram de brancos, naquela época), porque é bom de bola. O perigo é defini-lo como bom de bola porque é negro.

Nenhum negro é bom de bola porque nasceu negro, não está no sangue. Determinismo sanguíneo é quando o negro tem muitas hemácias saudáveis, isso pode oxigenar bastante o cérebro e potencializá-lo como corredor. Esse seria o verdadeiro sangue bom. Mas o talento de Chico não vem daí. É nato na proporção apenas em que todo e qualquer talento pode ser considerado nato, não o é para os negros de maneira restrita.

Chico joga bem porque tem ginga, tem o corpo flexível, corre muito e não se cansa. Tem habilidade para correr e dominar a bola ao mesmo tempo. A ginga, Chico adquiriu na vida, não só na Capoeira. O corpo precisa aprender muito de flexibilidade ao carregar numerosas sacas pesadas no porto, de maneira tal que a coluna vertebral se mantenha inteira para carregar outras tantas sacas no dia seguinte e no próximo, no próximo... E depois de carregar peso o dia inteiro, é preciso ter pernas fortes para subir o morro e disposição para ajudar um vizinho a refazer o telhado do barraco levado pelo vento. E depois de comer o feijão com farinha oferecido a toda gente, tomar um banho frio e amar a amada até o primeiro galo cantar lembrando que o porto o espera novamente.

Essa corrida insana pela sobrevivência inscreve no corpo negro um requebro, uma destreza, uma polissemia que entorta os janotas. O povo, erradamente, chama isso de característica negra. Certo seria entender que é a vida do negro que acaba por obrigá-lo a adquirir essa maleabilidade. E como não somos de ferro, subvertemos  a ordem da opressão, da exploração, em favor nosso. Enganamos tão bem, que passam a achar que somos bons de bola porque somos negros.

escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna quinzenal Dublê de Ogum.

27 de mar de 2013

Occupy Brasília


Mulheres Africanas – A Rede Invisível


Por Bianca Cardoso / Blogueiras Negras

Apenas duas semanas em cartaz, esse foi o tempo em que o documentário “Mulheres Africanas - A Rede invisível” permaneceu nos cinemas de Brasília. Tive que reservar dia para vê-lo, porque os horários eram restritos. Então, se ele estiver em cartaz em sua cidade, não deixe de conferir.
A primeira surpresa, o documentário é uma produção brasileita. Fico feliz que o Brasil esteja se interessando pelo continente africano, especialmente pelas mulheres. Uma iniciativa que já tinha dado certo na Tv Brasil com o: Nova África. O programa começou em 2009, em 2012 teve Dina Adão como apresentadora e segue mostrando diversos aspectos desse imenso continente.
“Mulheres Africanas - A Rede Invisível” apresenta trajetórias de luta, o cotidiano e as conquistas histórias da mulher africana na atualidade. O foco são os depoimentos de cinco mulheres: a moçambicana Graça Machel, política e ativista dos direitos humanos e ex-ministra da educação; a liberiana Leymah Gbowee, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2011 por organizar o movimento de paz que pôs fim a Segunda Guerra Civil da Libéria; a tanzaniana Sara Masasi, empresária mulçumana de grande sucesso;Luisa Diogo, atual deputada e ex-primeira-ministra de Moçambique; e a sul-africanaNadine Gordiner, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura (1991).
cartaz_mulheres_africanas
A África não é feita só de fome, genocídios e pobreza. Há desenvolvimento e crescimento no pais, em grande parte capitaneado pelas mulheres, seja na área rural ou nas cidades. As africanas são a principal base da organização política, econômica, comunitária e cultural do continente. Porém, o machismo e o sexismo ainda são grandes. Muitas meninas não tem acesso pleno a educação e algumas tradições acabam tornando-se um grande empecilho para seu desenvolvimento pessoal.
O formato do documentário segue o padrão de entrevistas simples. Porém, há espaço para algumas novidades, como caminhar e dirigir com Sara Masasi pelas ruas da Tanzânia, enquanto ela cumprimenta alegremente as pessoas, fala como seu negócio cresceu e explica que a religião mulçumana não representa o fim da liberdade para as mulheres. Há quem use burcas, mas a maioria das mulheres que aparecem na tela usam véus com estampas africanas, incluindo mais um elemento cultural a esse caldeirão.
Outra curiosidade reside na trança de Luisa Diogo, que em meio a várias histórias das mulheres de sua família, tira um tempo para explicar como o penteado é feito. É bonito ver os momentos em que a câmera procura as mulheres africanas nas ruas, em toda a sua diversidade e protagonismos. São esses pequenos momentos que fazem esse documentário ainda mais interessante. Graça Machel e Leymah Gbowee também dão ótimos depoimentos, relatando suas experiências pessoais, apenas Nadine Gordiner parece destoar, não apenas por ser branca, mas por trazer questões mais filosóficas que práticas.
Esse é o tipo de produção que eu gostaria que fosse exibida em cada escola brasileira, para as pessoas compreenderem o quanto somos próximas dessas mulheres em diversos aspectos. Como diz Luisa Diogo, é preciso multiplicar os rostos e ampliar as vozes das mulheres africanas, pois são elas quem estão capitaneando as mudanças sociais e políticas do continente. São elas a peça fundamental para a conquista da paz. Em outro trecho, Leymah Gbowee resume bem a luta das mulheres por reconhecimento:
Por que celebramos Gandhi? Por que celebramos (Martin Luther) King? Por que celebramos Mandela? Nós dizemos que eles são homens poderosos. Deveríamos ter dificuldades de celebrar as mulheres? Não. Porque o que King, Mandela e Gandhi fizeram é o que você vê as mulheres fazerem todos os dias em suas comunidades. Elas também deveriam ser celebradas.

Oração da terça!



Por Cidinha da Silva

Terça-feira é dia d’Ogum, camarada. Conheço bem essas coisas. Para cima de mim não cola essa patacoada de terça da grande batalha espiritual contra o mal na sua igreja. Quero dizer, até entendo, pois é do seu conhecimento que na rua Ogum trabalha, e antes do culto o senhor já entregou o que é dele, assim garante o funcionamento da coisa e posa de milagreiro.

Ogum é sujeito bom. Arrisco até que se diverte com a sua conversa mole de quebrar as sete forças do mal, com esse seu jeito estúpido e nada criativo de tentar manipular os símbolos dele. Estou falando do numeral sete, porque a maldade é por conta da sua cabeça. Porém, o senhor tome tento, o cara é bom, mas quando embravece, saia da frente, porque não fica cabeça sobre pescoço. A do senhor já está na mira da espada, abra o olho!

Diferente da mensagem do panfleto entregue nas estações de trem, às 18:00 (hora de Exu, bem sei e o senhor também sabe) para as pessoas que chegam em casa cansadas e desesperançadas, saiba que o povo dispõe comida, bebida, moedas, luz e flores nas encruzas, porque aqueles são lugares de confluência energética. Recebida a entrega orientada (é tudo troca), o povo da rua cuida de espalhar no mundo, as coisas do mundo e de quem está no mundo em interação com as forças do universo: o amor/o ódio, a admiração/a inveja, a saúde/a doença, o bem-querer/o mal-querer, a luz/a sombra. Tudo varia na intenção de quem manipula a força.

A estrada aberta pode dar num beco sem saída, numa bifurcação ou em direções múltiplas, depende da mestria e dos destinos espirituais do caminheiro. Os sentidos que se encontram e também se desconectam são o princípio de tudo, a encruza, então, é lugar de principiar as coisas.

Com negócio de cemitério eu não mexo, mas tenho certeza de que o senhor tem muita experiência sobre o assunto. Que o digam os concorrentes na caçada ao rebanho que o senhor deve enterrar por lá.

Os trabalhos nas pedreiras, cachoeiras, rios e matas são mobilizadores das forças da natureza. Das pedras que nos trazem a noção de resistência, silêncio e a compreensão de como somos ínfimos diante da criação. Das raízes, flores e frutos da mata, tudo o que se transforma, a impermanência do que nasce e morre, os novos estados a cada estação. Dos rios e cachoeiras a nos ensinar que água que brota não cessa, cria e recria a vida, nutre segredos tal qual o rio, calmo a nossos olhos, mas polvilhado de redemoinhos e quedas. Do mar que nos dá o sentido da travessia, da profundidade de sentimentos, da imensidão de horizontes, das forças maiores que fazem surgir da inconstância das ondas, a serenidade em nós.

Orixá é poesia. É amor. É lamparina acesa na noite dos tempos. É o zelo silencioso pela energia vital e pela harmonia da vida na terra. 

25 de mar de 2013

Cidinha da Silva, hoje, às 19:00, na PUC-Goiânia!


Dez anos da SEPPIR: das diferenças entre gueto e enclave




Por Cidinha da Silva

A SEPPIR, Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, completou 10 anos em 2013. Aprendi com a querida Ministra Luiza Bairros, nos idos de 86 ou 87, que a discussão sobre desigualdade racial só faz sentido se entendemos e desconstruímos o racismo que a produz.

Por conhecer um pouco do ideário da Ministra, ouso afirmar que ela se sentiria mais confortável gerindo uma Secretaria de Combate ao Racismo e Promoção de Políticas de Igualdade Racial, mas a SEPPIR foi a conquista possível há 10 anos e continua a sê-lo, porque é um enclave no Planalto, está instalada, resiste, mas não deveria estar ali.

A Secretaria de Políticas Para as Mulheres e a Secretaria de Direitos Humanos são pedras no sapato, incomodam, mas não podem ter sua existência negada. Com a SEPPIR é diferente, lidamos sempre com o fantasma de uma possível extinção, fusão, diluição. Porque o tema da promoção da igualdade racial (nem falamos de combate ao racismo) continua sendo objeto da atenção proativa de poucos e do desagrado de muitos, inúmeros, infindáveis. Estes que se esforçam diuturnamente (dentro e fora da Esplanada) para guetificá-lo ou para apagá-lo da agenda nacional. 

Para ascender da posição de enclave à condição de pedra no sapato é preciso institucionalizar a questão da promoção da igualdade racial (em oposição frontal ao racismo institucionalizado), promover políticas abrangentes e persistir, porque sua eficácia será comprometida, invariavelmente, pelas raízes profundas e expostas do racismo, manifestas em artérias inflamadas que provocam derrame de sangue a todo instante.  É necessário comprometer a Presidenta, instá-la a defender as cotas raciais como estratégia de diminuição da desigualdade, em programas televisivos de massa. Nos fóruns internacionais, a trilha aberta pelas organizações negras brasileiras nos anos 90 e 2000 para tratar o racismo vem sendo seguida pelo governo brasileiro. É mister enramar o debate e potencializar cidadãos e cidadãs comuns, de baixo nível de politização, para perceber, compreender e enfrentar o racismo estrutural. É fundamental articular os demais ministérios, mobilizá-los para a problemática, co-responsabilizá-los, impedir o discurso rasteiro que busca transformar a SEPPIR em gueto negro, localização sabidamente cômoda para a maioria dos opositores (e detratores). A meu ver a gestão que comemora os 10 anos da SEPPIR  realiza estes objetivos.

Desta forma, quando certos artistas justificarem a discriminação racial da ordem do dia (cabelos de palha de aço em modelos como opção estética de um desfile de moda) embasados no silêncio quanto ao mesmo artifício utilizado em edições da década anterior, saberemos, candidamente, que a pessoa negra de 2013 é afirmada, tem noção de direitos que não tinha antes, mete o pé na porta para tirá-los do umbral. De maneira simbólica e também objetiva (por meio de políticas que têm esse significado empoderador) é o que a SEPPIR representa.

Existem pessoas que gritam pelos direitos do povo negro, que negociam para garantir-lhe a vida, posto que a vida dos negros está ainda sendo negociada, não é um direito humano consolidado. Essa luta e essas articulações, como sabido, não merecem as luzes da ribalta, e mesmo no NBR só aparecerão porque o departamento de comunicação da SEPPIR  cumpre seu papel.

Há outras pessoas, entretanto, que esperneiam tal qual adolescentes irresponsáveis e autoritários, quando o pai os castiga por dirigirem sem carteira. Gente que não tem diligência para dirigir, promover e projetar o próprio galinheiro, mas quer cantar de galo quando maneja um microfone de sonorização amadora. 

24 de mar de 2013

CARTA MANIFESTO: SOBRE O ROMPIMENTO DOS COLETIVOS DE TEATRO NEGRO DE SÃO PAULO COM A “MOSTRA DA NOVA DRAMATURGIA DA MELANINA ACENTUADA”


CARTA MANIFESTO
SOBRE O ROMPIMENTO DOS COLETIVOS DE TEATRO NEGRO DE SÃO PAULO COM A “MOSTRA DA NOVA DRAMATURGIA DA MELANINA ACENTUADA”.

“Negros que escravizam e vendem negros na África não são meus irmãos
  Negros senhores na América a serviço do capital não são meus irmãos
  Negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos...”
(Trecho do poema “OS NEGROS” de Solano Trindade).

O MOVIMENTO DE TEATRO NEGRO DE SÃO PAULO manifesta aqui toda sua indignação e perplexidade diante do tratamento desrespeitoso direcionado aos coletivos de teatro: CAPULANAS CIA DE ARTE NEGRA, OS CRESPOS, COLETIVO NEGRO E GRUPO CLARIÔ DE TEATRO, pela curadoria e coordenação da "MOSTRA DA NOVA DRAMATURGIA DA MELANINA ACENTUADA”, que ocorre na Cidade de São Paulo, desde novembro de 2012, no TEATRO DE ARENA EUGÊNIO KUSNET, financiada pelo EDITAL DE OCUPAÇÃO DO TEATRO DE ARENA EUGÊNIO KUSNET/ 2012 (2º SEMESTRE).

É com tristeza que anunciamos nossa inevitável retirada, no mês de fevereiro de 2013, do “evento” supra-citado .

Somos coletivos comprometidos com a politização de questões raciais e sociais no teatro, e nosso reconhecimento é legitimado pelo público, movimentos sociais  e crítica, que reconhecem a qualidade estética de nossos trabalhos e a importância da militância político-artística no centro e nas periferias de São Paulo.
Para nós, a ocupação histórica do teatro de Arena - espaço de referência e luta  desde a década de 50 no Brasil -  pela Mostra referida, era mais um passo importante na trajetória do Teatro Negro brasileiro e, por este motivo, havíamos nos colocado à inteira disposição para seu fortalecimento. Disponibilizamos nossas obras, corpos e pensamentos, a fim de somar forças, estabelecer trocas e propiciar um passo fundamental na conquista de novos olhares, rumo à dramaturgia negra do século XXI. No entanto, no decorrer do processo de nossas participações, observamos um olhar estrangeiro, contraditório e, finalmente dissimulado e desrespeitoso, por parte do coordenador/curador/idelizador da Mostra: Aldri Anunciação. Por vezes tentamos dialogar, mas apesar do discursoaparentemente ser o mesmo, os modos de trabalho moram em pólos diferentes: apropriação não é pertencimento. 
Inúmeras falhas ocorreram durante o processo. É evidente que a legitimade de uma mostra de dramaturgia negra em São Paulo se dá pela força de atuação dos coletivos locais, porém o desconhecimento e falta de interesse do curador à respeito da trajetória de cada coletivo,  desembocou em uma série de incoerências. Em meados de setembro de 2012 os grupos foram sondados para participar da Mostra, sendo que alguns, depois de iniciados os contatos, foram simplesmente ignorados durante o processo de negociação. Em contraponto, outros foram incluídos na programação antes do fechamento de sua participação; datas foram modificadas sem acordo; materiais de divulgação expostos com inúmeras falhas, retirados da internet sem  consentimento. Uma absoluta desorganização e falta de comprometimento que, até certo momento relevamos, na tentativa de compreender e preservar a Mostra.
Descobrimos que o esforço e parceria por nós ofertados não era recíproco. Os Grupos paulistas fecharam sua participação na Mostra por uma “ajuda de custo”(já que o que nos foi informado era que a verba destinada era pouca, para o tanto que queriam e iriam produzir). Nós topamos, como já foi dito, por questões ideológicas. No entanto, os coletivos tomaram conhecimento do tratamento diferenciado ao elenco do Rio de Janeiro. Era discrepante a diferença financeira oferecida à produção carioca, em relação ao cachê. Pedimos um encontro para esclarecimentos e exigimos tratamento igualitário.  Em reunião, o coordenador da Mostra deu continuidade ao mau tratamento, enfatizando haver de fato uma separação entre trabalho de grupo: “os que participam pela causa”;  e elenco: “os que participam pelo cachê”. O rumo da prosa foi a lógica de Mercado, e o discurso político foi transformado em valores.  Diante disso, não poderíamos chegar a outra conclusão senão, a de que estávamos sendo EXPLORADOS EM NOSSA PRÓPRIA CASA e usados para legitimar uma proposta que não passava de cartaz.

Lembrando novamente do irmão Solano:
“Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão
 para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa. Eu sou um trabalhador.”  
     (Trecho do poema “autobiográfico”, de Solano Trindade)

Nós somos trabalhadores e dizemos: NÃO!
NÃO aceitamos permanecer na MOSTRA, porque os meios utilizados NÃO nos levaram a um mesmo fim ideológico, que antecede qualquer questão financeira: o respeito, a confiança, a parceria, a verdade.
Nós: OS CRESPOS, CAPULANAS CIA DE ARTE NEGRA, COLETIVO NEGRO E GRUPO CLARIÔ DE TEATRO rompemos.
Após o rompimento (que primeiro foi comunicado aos organizadores da Mostra), solicitamos uma carta de retratação por parte da coordenação, que foi resumida com a frase:  “POR MOTIVO DE FORÇA MAIOR”.                                                                                                              
E é por MOTIVO DE FORÇA MAIOR: R E S P E I T O  (com nós mesmos, nosso público, nosso posicionamento político-ideológico, a história do teatro negro brasileiro, nossos sonhos e obras), que nos afastamos da Mostra. 
Acreditamos que nossa ruptura pode contribuir para a evolução das próximas mostras e para o compromisso, respeito e ética com as futuras apresentações destes, e outros coletivos.

NOTA:
Desde nossa saída estamos sendo acusados de boicotar o evento por descontentamento financeiro”, e responsabilizados pelo esvaziamento das atividades propostas na programação (falha de divulgação da organização). 
Esperamos que nosso desabafo-manifesto sirva de esclarecimento ao nosso público e interessados sobre os reais motivos de nossa retirada e, que os mesmos compreendam e apoiem a nossa decisão.

Aqui também, anunciamos nosso respeito e consideração aos inúmeros participantes da “MOSTRA DA NOVA DRAMATURGIA DA MELANINA ACENTUADA”, mestres que por ali passaram e passarão, parceiros de luta, trabalho e vida. Irmãos. Bem como os parceiros cariocas, que nada tem a ver com a displiscência da organização desta Mostra de Dramaturgia Negra.

Axé.

Esta é uma posição coletiva.

São Paulo, 23 de março de 2013.
Movimento de Teatro Negro de São Paulo.

“Os tambores não são mais pacíficos
Até as palmeiras têm amor à liberdade”.
(Trecho do poema  “Canto dos Palmares” - Solano Trindade)

Para maiores esclarecimentos:
GRUPO CLARIÔ DE TEATRO: www.espacoclario.blogspot.com

23 de mar de 2013

Escultura de Nelson Mandela em Joanesburgo


Consiste em 50 placas de aço com 10 metros de altura, cortadas a laser e inseridas na paisagem, representando o 50.º aniversário da captura e prisão de Nelson Mandela, em 6 de agosto de 1962, no próprio local onde tal sucedeu, e que lhe custaria 27 longos anos de cárcere.


Num ponto específico de observação, a visão em perspetiva das colunas surpreende ao assumir a imagem de Nelson Mandela. O escultor é Marco Cianfanelli, de Joanesburgo, que estudou belas-artes em Wits.

Chinua Achebe!

Por Ogum's Toques Negros

#OgumsToques : Se me pedissem breves linhas sobre o mestre Chinua Achebe, teria imensa dificuldade, pois esse escritor simplesmente provocou uma revolução em minha cabeça, mudando meu olhar em relação a mim mesmo, ao meu entorno e ao meu tempo. Considero-o vital a qualquer pessoa que deseja solapar o colonialismo que habita em seu interior.

Chinua, meu mestre, vá em paz. Que a força da criação e transformação o receba muito bem. E tem é gente boa te esperando por lá. Nos vemos por lá.



22 de mar de 2013

Cidinha da Silva em Goiânia!

Alô, alô, minha gente em Goiânia (como diria a Ellen), tô chegando. Dia 25 de março, veja o cartaz anexo. Até lá. Espero o mundo todo pra uma prosa e uma pamonha.



21 de mar de 2013

Ao amigo Ronaldo Fraga




Por Cidinha da Silva

Sou fã de Ronaldo Fraga. Não tanto pela moda que ele produz, da qual não entendo patavina (de moda, não só do trabalho dele), mas pelo posicionamento político, pela simplicidade, pela inteireza de caráter que sempre me pareceu ter. Além do que, Ronaldo é mineiro e nós que somos das Minas estamos sempre de olho nos nossos que se destacam em qualquer campo.

Há uns 15 anos tive o primeiro contato com ele por meio de uma entrevista, gostei muito das idéias, da forma simples como olhava o mundo e trabalhava. Elogiei-o em conversa com um amigo que o conhecia pessoalmente e este me contou maravilhas sobre o estilista. Disse que além de ser um homem bem posicionado politicamente, um progressista num meio conservador e fútil, tinha práticas de respeito às pessoas comuns em seu cotidiano, além do compromisso de promovê-las, a partir do lugar de destaque que ocupa. Contou-me, por exemplo, que no ateliê localizado em bairro riquíssimo da capital mineira e cercado por um conglomerado de favelas, Ronaldo empregava costureiras da região, pagava-lhes salário justo, oferecia flexibilidade de horário para que estudassem e dava-lhes participação nos ganhos da empresa, por produção. Era um sujeito humano, sincera e coerentemente humano.

Algum tempo depois, encontrei-o no antigo aeroporto da Pampulha, em BH, acompanhado da esposa e das crianças que me pareceram ser suas filhas. Eu olhava as roupas delas para me certificar de que eram confortáveis, mesmo. É que o Ronaldo, a pedidos, havia criado uma linha infantil baseada no conceito de conforto, haja vista que a liberdade deve ser um princípio de vida das crianças. Segundo tinha lido, ele começou a desenhar roupas para a filha, porque à medida que ela crescia, não encontrava roupas adequadas a crianças, eram sempre vestimentas de mulheres adultas, tamanho miniatura. Os clientes da loja gostaram e começaram a pedir peças para os próprios filhos também.

Nunca fomos apresentados, mas eu o conhecia e admirava, talvez numa emanação dessa admiração, quando nossos olhares se encontraram, por acaso, ali no aeroporto da Pampulha, ele, muito gentil, sorriu e me cumprimentou. Retribuí surpresa, disse o nome dele na resposta e a esposa, para meu espanto, também me saudou. Naquela época eu nutria uns dreads poderosos e ele, sempre atento às pessoas negras (modelos negras sempre foram marca de seus desfiles), deve tê-los achado estilosos, num tempo em que não se viam tantas negras de dreads em Velho Horizonte.

Pois bem, continuei acompanhando o estilista nos shows de outro mineiro, o Vanderli, vestido por ele. Recentemente, estava em BH e soube de uma instalação de Ronaldo na Praça da Liberdade, lugar lindo, por si só repleto de poesia, escolhido para lançar nova coleção, ao ar livre, entre árvores e flores. Era algo com poemas do Drummond, não sei se havia outros poetas também, planejei passear por lá, mas, me enrolei com o tempo ou com a chuva e não pude ver.

Agora, às vésperas do Dia Mundial Pela Eliminação da Discriminação Racial, leio que no segundo dia de desfiles do São Paulo Fashion Week, Ronaldo Fraga e Marcos Costa (artista da beleza) apresentaram modelos brancas e negras com um arranjo feito de palha de aço como cabelo. Foi um gancho no meu queixo.

Refeita da tontura, li a explicação dos artistas, diziam eles: “o suposto cabelo ruim é na verdade uma escultura em potencial” e as mulheres negras devem ter orgulho do próprio cabelo, não precisam alisá-lo. Notem como a intenção de Ronaldo e Marcos parecia ser  boa, as modelos brancas também usaram o tal cabelo. Só que, mesmo tendo encaminhado pedido de desculpas, que acredito seja sincero, a dupla de criadores derrapou na escolha do signo de enaltecimento. Caíram na esparrela do afeto que tem sido absolutamente eficaz na perpetuação do racismo brasileiro, ou seja, não é porque a intenção é aparentemente boa e um dos autores tem currículo de respeito aos negros que poderia blindá-lo, que a discriminação racial deixa de acontecer.

A arte deve ser livre, como advogaram os dois homens da moda utilizando outras palavras, como a justificar a escolha da palha de aço para representar os cabelos das mulheres negras, talvez, numa intenção (infeliz) de subverter um símbolo de opressão. O caso é que, embora falemos de arte (guardadas as controvérsias, pois há estilistas respeitáveis que não consideram a moda uma manifestação de arte), ensina a política que são as pessoas oprimidas as que escolhem símbolos opressores que em dadas situações são subvertidos e/ ou re-significados. E não se trata aqui de acusar gratuitamente ao Ronaldo e ao Marcos como opressores, mas, concordamos que eles não são os oprimidos da história. Certo? E nenhum dos dois tem autoridade ou legitimidade para arvorar-se a revisor deste sustentáculo de opressão das mulheres negras durante sucessivas gerações, escudando-se na frase: “o suposto cabelo ruim é na verdade uma escultura em potencial.”  

Ora, ninguém é ingênuo aqui, vamos conversar de maneira séria. A escultura de Marcos, desastradamente referendada por Ronaldo, ratifica a coisificação de um atributo humano das mulheres negras, o cabelo crespo. Não é inofensivo recurso estético, apelo estilístico e ainda menos licença poética. Não fossem os malditos afetos correlatos ao racismo brasileiro, essa coisificação seria tão hedionda quanto o gesto de saudação a Hitler.

Eu te conto, Ronaldo, que ao longo de várias décadas, desde a criação da primeira palha de aço, a opressão e desumanização do cabelo das mulheres negras tem mudado apenas de marca, no meu tempo escolar era Bombril, no tempo das minhas filhas é Assolan.

Creio que nem no século XXII nos lembraremos desse episódio de repulsa ao seu desfile como um simples acinte politicamente correto. Acho impossível que nossas descendentes, nossas, das mulheres negras de hoje, que nos insurgimos contra o seu escorregão na casca de banana do racismo, venham a dar um sentido positivo à comparação entre palha de aço e cabelo crespo. Este é um símbolo do racismo demasiadamente  destruidor, como o ferro de fritar cabelos, como a saudação nazista ou a suástica.   

20 de mar de 2013

Emílio Santiago!



Por Cidinha da Silva

Todas as vezes em que ouço a voz  de Emílio Santiago, o maior intérprete da música brasileira, me lembro da minha mãe. Sempre que ele aparecia na TV e eu o assistia, embevecida, ainda adolescente, a mãe debochava de mim, porque eu gostava de música de velhos, dentre outras esquisitices.

Ela não entendia o meu gosto e eu justificava argumentando que se tratava de um grande cantor, além de preto lindo, elegante e jovial. Este último adjetivo a incomodava especialmente e ela ruminava: jovem só na sua cabeça, eu era menina e ele já cantava. Eu a provocava: ele devia ser menino também, mãe. Ela, convicta, fingindo irritação: eu era menina, ele já era moço barbado! Hoje, descubro no noticiário que Emílio se foi aos 66 anos e minha mãe, se não tivesse ido aos 53, teria 69.

Naquela época ele não havia iniciado ainda a edição da série Aquarela Brasileira, na qual gravou músicas populares com belos arranjos e sua voz-instrumento magistral. Foi uma tentativa bem sucedida de tornar-se mais conhecido e de romper com o rótulo que o incomodava e afastava do povo, o de cantor sofisticado.

A última vez que o ouvi, ao vivo, foi em um sábado à tarde, na feijoada da Mangueira. Quando cheguei, Emílio cantava Saigon e o público se acabava no feijão. Meu acompanhante, membro do time da suposta sofisticação de Emílio que o afastava do povo, nunca o imaginaria como atração de uma feijoada de escola de samba.

Emílio era sofisticadíssimo, sim, para interpretar, como o foram as grandes vozes masculinas do Brasil que o precederam, Orlando Silva, Silvio Caldas, Roberto Silva e os contemporâneosimensos que começaram como crooners de boates e casas de shows, junto com ele: Alcione, Áurea Martins e Djavan.

Ah, Emílio por que tão cedo? A feijoada da Mangueira nunca mais será a mesma. Agora a falta do seu sorriso franco, da sua risada sonora, enche o espaço de tristeza. 

Blogagem Coletiva Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial – A procura da métrica perfeita




Poder e Igualdade
Poder e Igualdade. Imagem por _Cheryl.

Compartilhar essas impressões no dia 21 de março - Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial, é me amar, é lavar minha alma, é encontrar minha medida.

Temos no outro uma importante medida, mas não podemos reputar a ele a definição do que somos a título de terceirizarmos o que há de mais caro para qualquer um: a nossa invenção. Não se trata de um processo fácil para nós, mulheres negras, que de uma forma velada e, muitas vezes, direta recebemos quase que, diariamente, mensagens de que somos inferiores na escala valorativa social.
O processo de autoafirmação passa por muitos caminhos a depender de cada uma de nós e da forma como nos colocamos no mundo. Para muitas, passa pela aceitação da textura do cabelo, para outras pela possibilidade de fazer poesia, de escrever uma tese de doutorado, de chegar em um posto nunca antes ocupado ou da concretização de um relacionamento. Sejam lá quais forem os caminhos para esse encontro com o que cada uma de nós é, gostaria de problematizar alguns pontos que me parecem essencialmente importantes.
O primeiro deles se apresentou, de forma clara na minha defesa de mestrado - embora sempre tenha estado presente - , em maio de 2007, quando o professor que compunha minha banca, negro e reconhecido no campo da comunicação como pesquisador de excelência, apresentou-me uma questão. A minha dissertação “Vozes da favela na internet: lutas discursivas por estima social” se baseava em uma análise qualitativa acerca de manifestações de moradores de favelas em portais na internet ligadas de alguma maneira a movimentos sociais de favelas, e eu defendia que a Web se apresentava como um espaço para reafirmar a identidade dos moradores dessas comunidades tão estigmatizadas nas cidades brasileiras.
Não vou reproduzir exatamente a questão para não desviar o debate que aqui me proponho, mas era uma pergunta instigante: será que lutar para que o outro nos reconheça não é apenas uma etapa do processo de construção dessa identidade, sendo a autonomia plena alcançada quando não há preocupação com a fita que o outro nos mede? Antes de ter uma resposta para questão, penso que ela deve ser um horizonte permanente de nossa reflexão - uma busca constante pela métrica perfeita. Não se trata de reforçar lógicas individualistas, mas sim saber porquê muitas vezes o que o outro pensa de nós representa tanta dor.
Ao ver o vídeo de Jully, uma jovem negra que, depois de se confrontar com tantas piadas sobre o seu cabelo, resolveu fazer um desabafo no Youtube, senti-me convocada a dialogar com ela (mesmo que de forma indireta e em um outro espaço). Em linhas gerais, ela dizia que assumir o cabelo crespo a deixava feliz, realizada, autoconfiante no espaço de sua intimidade, mas que, ao sair de casa, nos espaços públicos, as piadas, comentários e julgamentos feitos a partir de seu visual lhe traziam muita tristeza.
Claro que não quero discutir o sentimento de Jully, pois de antemão sou solidária a ela. Mas cabe aqui examinar se situações como essa não pedem certa rebeldia. Eis o segundo ponto que apresento. É na periferia que encontro esse “não tô nem aí” tão libertário, seja nas quebradas de São Paulo, com os versos do poeta Sérigo Vaz: “Ame-se. Se alguém não gostar, foda-se”. Seja na idílica Jamaica nos versos de Bob Marley: “Emancipate yourselves from mental slavery” (em uma tradução livre, liberte sua mente da escravidão mental). Cada uma a seu jeito, Bob e Vaz indicam que não há como aprisionarem nossas almas, não há correntes que sejam capazes disso. Para quem sofre com o racismo e discriminação cotidianamente parece uma saída fluída para questões tão pesadas. Como traduzir esse estado de espírito em possibilidade de transformação e combate a algo tão forte?
Foi na fala de Cidinha da Silva, em um diálogo estabelecido a partir de um de seus textos sempre provocativos, que consigo dar concretude ao que o professor, Bob Marley e Sérgio Vaz colocaram-me a pensar. Então, apresento o último ponto de minha reflexão. O combate tem que ser direto, certeiro, sem tergiversar. Sem escamotear, precisamos nos colocar! Fale! Da maneira que melhor você saiba se expressar! Como minha praia é escrever, compartilhar essas impressões no dia 21 de março - Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial, é me amar, é lavar minha alma, é encontrar minha medida. Não a métrica que outros querem que eu esteja, mas a que eu escolho para me mostrar ao mundo. Obrigada Cidinha pelo espaço!

Márcia Maria Cruz é jornalista e professora. É autora do livro Morro do Papagaio e doutoranda em Ciências Políticas pela UFMG. Escreveu para o Blogueiras Negras a convite de Cidinha da Silva.

Blogagem Coletiva pela Eliminação da Discriminação Racial
“Esse post faz parte da BLOGAGEM COLETIVA PELO DIA INTERNACIONAL PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL, uma iniciativa BLOGUEIRAS NEGRAS.”
Esse post é um esquenta, um rufar dos tambores. A blogagem acontece amanhã e ainda dá tempo de você participar!