Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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29 de jun de 2013

Na favela morro é verbo!





AÍ VOCÊ QUE ACORDOU AGORA: TEM UM GIGANTE RACISTA MATANDO O BRASIL HÁ MAIS DE 500 ANOS!



Por Mães de Maio

... Chacina de Acari (1990); de Matupá (1991); Massacre do Carandiru (1992); Candelária e Vigário Geral (1993); Alto da Bondade (1994); Corumbiara (1995); Eldorado dos Carajás (1996); São Gonçalo e da Favela Naval (1997); Alhandra e Maracanã (1998); Cavalaria e Vila Prudente (1999); Jacareí (2000); Caraguatatuba (2001); Castelinho, Jd. Presidente Dutra e Urso Branco (2002); Amarelinho, Via Show e Borel (2003); Unaí, Caju, Praça da Sé e Felisburgo (2004); Baixada Fluminense (2005); Crimes de Maio (2006); Complexo do Alemão (2007); Morro da Providência (2008); Canabrava (2009); Vitória da Conquista e os Crimes de Abril na Baixada Santista (2010); Praia Grande e Favela do Moinho (2011); Massacre do Pinheirinho, Chacina do ABC, de Saramandaia, da Aldeia Teles Pires, da Penha, Favela da Chatuba, Várzea Paulista, os Crimes de Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro em SP (2012), a Chacina do Jd. Rosana, Repressão à Revolta da Catraca, VILA FUNERÁRIA, CHACINA DA MARÉ e ITACARÉ (2013) ...

A Marcha Fúnebre Prossegue...

26 de jun de 2013

*O Folião de raça de Cris Pereira




Por Cidinha da Silva

Quem pensa que Brasília é apenas o chão musical de Ellen Oléria, Dhi Ribeiro e Hamilton de Holanda, precisa conhecer Cris Pereira.

Nascida em berço de samba, Cris Pereira diz que a própria voz é rouca e imperfeita, mas quem ouve Folião de raça se pergunta: O que comove mais, a beleza ou a perfeição? O que move, o que subverte e surpreende, a limpidez, a técnica dura ou a emoção?

Folião de raça movimenta a areia da música ruim que impregna os ouvidos da gente. É colírio para os tímpanos que passam a enxergar depois de ouvi-lo. É disco de cantora jovem que lembra os discos das cantoras antigas, como Nora Ney, grande libertadora das mulheres de vozes imperfeitas, fortes, belas e sem tantos agudos. Porém, vestido de contemporaneidade, multiculturalidade, marcas tão registradas da criação artística brasiliense.

Os arranjos de Lucas de Campos são serenos, requintados, não têm afetação, deixam a cantora livre e às vezes precisam segui-la, porque ela sai pelas matas acompanhando um  beija-flor que a seduziu. Ela brinca ao cantar, celebra a liberdade de cantar no próprio tempo, enquanto o coro segue como se fosse ele o cantor principal.

Em Clareira, Cris Pereira ensaia essa liberdade, mas solta-se mesmo na belíssima Facho de esperança, que ela reinventa em interpretação autoral daquelas que a gente não esquece mais. A composição de Cacá Pereira, aliás, abre o disco com poesia de primeira: “Mandou tirar nosso estandarte da calçada / A batucada lá não pode mais ficar / Bloco na rua, samba de quadra sem quadra / Sem teto o samba volta ao lume do luar.”

Folião de raça, de Pedro Cariello e Henrique Nepomuceno, é um poema em dois movimentos conduzido pelo violão delicioso de Vinícius Magalhães. A primeira parte é um lamento-reflexivo da mulher que repensa a relação amorosa e quer que o homem a acompanhe. No segundo movimento, mais definido pela mudança na música do que propriamente da letra, o Folião de raça toma conta da cena, a mulher “se cala na desgraça” e não sabemos mais o que ela sente. É letra de homens que falam de sentimentos das mulheres, posicionam-se inventando um lugar para elas e dá certo (coisa rara de acontecer), como nas composições de Chico Buarque.

Lágrima da desilusão tem a gaita gaiata de Pablo Fagundes a pontilhar toda a canção, acompanhada pelo baixo bem marcado de Paulo Dantas, o piano discreto de José Cabrera e a bateria de Leander Motta em diálogo brincante com o violão de Lucas de Campos e a sempre saborosa cuíca de Guto Martins. Talvez seja a canção em que cada instrumento aparece individualmente, ao mesmo tempo em que forma a moldura de água para que a letra corra macia e recupere o eu lírico de mais uma dor de amor composta por Sérgio Magalhães.

Briga de Reis, de Chico Dias e Codó, é simples e boa como uma canção cantada em roda de capoeira. O acordeom de Juninho Ferreira dá um tempero especial ao arranjo e prosseguirá temperando ao longo do disco.

Poema, de Vinicius de Oliveira e Breno Alves, é dedicada à filha da cantora, Poema, e, como de hábito neste tipo de canção, é uma declaração de amor à  pequena que participa divertida do final.

Mas ela não é filha de Oxum? Alguém se pergunta ao ouvir Cris Pereira cantar com tanta alma para Iemanjá? Sim, ela é, mas tem também a liberdade de Oxóssi para ser quem quiser quando canta e diz poemas, como em Encantos na areia, de Vinícius de Oliveira e Arthur Senna.

Incompleta e Deixa estar são composições da cantora. A primeira em parceria com Henrique Nepomuceno é uma canção triste, um belo poema, cujo verso mais lindo é: “Vem silenciar / meu pranto que arde / e que reparte a luz no meu olhar”.  É um texto de imagens que ao final convida alguém para tomar o eu lírico e amá-lo, ou seja, controlando tudo a voz da canção se entrega. Coisa de mulher no comando.

A segunda canção autoral, Deixa estar, é dividida com Ana Reis. Música e letra são otimistas, brejeiras, dirigidas a um menino, a quem a letra dá dicas para amadurecer, transformar-se em homem. A poesia pode decantar mais, mas está no bom caminho.

Samba é fineza de Vinícius de Oliveira tem clima de gafieira no arranjo, letra pouco criativa, rimas pobres, como: “Luz mais pura que alimenta as nascentes da paz / Rega o pranto de quem a ti satisfaz”, mas convida a dançar.

Mais um samba de saudade, de Leandro Fragonesi, é um samba gostoso para ouvir e para sambar, mas quando canto junto com a cantora aquele “vento frio que bateu e foi perverso” rimando com o “universo aberto quando o verso nasceu”, não me agrada, nem convence.

Em Imagem, canção instrumental de Alencar 7 Cordas, Cris Pereira brinca com os instrumentos, com a voz, com a música, num clima de cabaré de jazz dos anos 20, 30, e ela, é a cantora, a diva,a dona da voz e do palco.

O ponto  alto do disco é a dolente Espelho da vida que parece transformar-se em outra canção introduzida por acordeom e violoncelo até que um tamborim solitário e uma cuíca preciosa chamam a voz de Cris Pereira e então nos lembramos que se trata daquele velho samba de Ivone Lara e Délcio Carvalho, companheiro de tanto choro e bebida depois de mais um amor perdido.

E não bastassem as surpresas do arranjo, vem a própria Ivone Lara com a voz de primeira dama do samba, agora frágil, menina nonagenária afinada e doce.

O encanto que traz o desejo de amar são lições que aprendemos vendo o mar e ouvindo o acordeom de Juninho Ferreira e a cuíca de Guto Martins. E Cris Pereira canta solta, segura, melódica, suave. Sem contenções faz também seu laraiá e avisa aos navegantes que está pronta para carregar o bastão.


*Para conhecer as canções de Folião de raça, CD de estréia  de Cris Pereira é só copiar o endereço no lugar certo e nunca mais parar de ouvir. https://soundcloud.com/cris-pereira-brasil/sets/foli-o-de-ra-a

100 anos de Aimé Césaire, o pai da Negritude


Fonte: Jeune Afrique

Há apenas um século, 26 de junho de 1913, nascia o escritor da Martinica Aimé Césaire. Um poeta que realizou um trabalho profundamente humanista da negritude no panteão dos grandes homens. Uma dos principais negro intelectual do século XX .

Em agosto de 1968, um funk furioso, ondas radicais e estaria por seis semanas nas paradas americanas. James Brown cantava com orgulho ser negro (Say It Loud - Eu sou negro e eu me orgulho).

Um ato militante neste ano também aconteceu alguns meses antes, em 4 de abril, Martin Luther King, foi covardemente assassinado. Dizer em alto e bom som a sua negritude quando o viés do fanatismo e ódio são a causa da morte não é uma palavra vazia. Muito menos uma luta fútil.

"Negritude" para Aimé Césaire foi projetada para contar uma realidade, uma experiência, a de ser negro em um mundo que inventou essa cor através do prisma do racismo, da deportação, da escravidão e colonização. Ele se via com os seus companheiros de infortúnio, Leopold Sedar Senghor e Léon-Gontran Damasco, na luta pela dignidade literária e política do homem negro e na recusa à opressão enquanto os impérios esmagam a humanidade inteira . Uma só palavra então fazia sentido: a liberdade!

Incansavelmente ao lado de seus irmãos africanos, Césaire esteve sempre preocupado com o destino do continente de seus ancestrais. Sonhando com a avó Diola, o poeta desenvolveu uma amizade duradoura com Senghor , com quem compartilhou uma paixão comum pelas belas-letras e pelo exercício do poder.

Deputado francês, ele ficou do lado de Houphouet-Boigny para abolir o trabalho forçado nas colônias, e admirou a coragem de Sekou Toure diante de De Gaulle em 1958. quando disse:

" Temos dito sem rodeios, Senhor Presidente, que as demandas do povo são ... Nós temos uma necessidade primordial e essencial:. nossa dignidade, mas não há dignidade sem liberdade ... Nós preferimos a liberdade na pobreza a opulência em escravidão . "

Mais importante, ele espera uma África independente, e nada mais vergonhoso ver um continente dividido que não conseguiu aproveitar seus pontos fortes para construir.

Os nove pentes d'África pelo olhar de Ogum's Toques!


25 de jun de 2013

O dia em que Willian Bonner chorou

Por Cidinha da Silva

O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais.

O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil.

Um adolescente de vida miserável  é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove.

O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emocionaria o apresentador, a mãe do menino.

No trajeto a câmera destaca os efeitos da seca prolongada, a pobreza, o abandono. Quando chegam à casa, cumprimentam a dona, são convidados a entrar. A repórter senta em um dos dois tocos da casa de cômodo único, cruza as pernas, equilibra-se. A mãe senta na cama de forquilha, dois troncos finos de árvore que sustentam colchão velho, fino e torto, cama única do lugar. Afora isso, uma bilha com caneca de alumínio em cima, dessas de escola pública, e retrato de um casal na parede, o homem de terno, a mulher de vestido branco, provável casamento dos pais do menino.


A repórter, compungida, transmite à mãe a notícia do roubo. Lágrimas grossas escorrem pelos sulcos do rosto marcado pelo sol e pela dureza no trabalho da roça. A Câmera focaliza cada detalhe. A mulher ergue o dedo cabeçudo e calejado, sem unha feita, esfolado pelo cabo da enxada e profetiza: “Eu vou falar uma coisa pra senhora, ele roubou foi de safadeza, colegage, luxúra. Não foi fome, não senhora, porque fome ele conhece desde que nasceu!”

24 de jun de 2013

O fogo, têmpera do aço, como o tempo, têmpera das gentes!




Por Cidinha da Silva

“Onde você for, que o mal se esconda / e não saia do lugar / porque você tem Ogum de ronda / no clarão do seu olhar.”

Naquele agosto de 91, a primavera chegou mais cedo, quando recebi em Belo Horizonte, um telefonema dela. Era o fim das noites de angústia, das tardes bucólicas, burocráticas e tristes no trabalho de apenas sobreviver. Da vida de horizontes curtos, apesar dos 20 anos.

Sueli Carneiro me fez nascer pela segunda vez, quando, atendendo a um pedido meu, me convidou para trabalhar e viver em São Paulo. E por isso serei grata em todas as vidas que me for dado viver. Sou grata também pelas lições aprendidas via Método SC. Contumaz (às vezes duro demais), mas amoroso, tal qual o Método Maia.

Sueli, como a sinto, é essência de ferro, vento, ouro e amor de mãe. Lulu que o diga, aquela que a vida inteira precisou dividir a mãe com o mundo e à medida que cresceu e maturou a menina linda, sentiu orgulho imensurável dela. Confio na irmandade taurina para afirmar.  

Foi Luanda, aliás, quem me propiciou a segunda lição do Método SC. Em uma situação de festa, eu, em Geledés havia três meses, tive a atenção chamada por Sueli, de maneira brusca e desproporcional. Assustada, eu não reagia e Lulu, do alto dos 13 anos e do domínio sobre o coração da mãe, avisou: “mãe, você está machucando a minha amiga, solta ela!” E eu pude respirar.

Aquilo rendeu pesadelos nas férias, dor da falta de entendimento e quando busquei explicações, era tudo atribuído às cervejas. Ficou o mais importante, o tempo tempera as gentes, como o fogo tempera o aço.

A primeira lição foi a generosidade de Sueli ao me dar a vida, sabendo tão pouco de mim, não conhecendo minha família, minha origem, só meus olhos ávidos de vida e certos de que São Paulo era meu lugar no mundo. A aposta de Sueli no meu sonho me ensinou a respeitar as pessoas jovens, a não desdenhar de seus mistérios. Esta foi a mais preciosa de todas as lições e posso afiançar que a aprendi direitinho.  

Quando primeiro cheguei a São Paulo, em 88, para assistir a uma das sessões do Tribunal Winnie Mandela, eu ainda não conhecia Sueli pessoalmente, nem sabia direito como ela era, mas quando vi aquela preta reluzente, pura luz preta no ambiente, de testa reflexiva e sorriso franco, de olhos vivos, atentos ao mundo, ao novo, dedos finos, elegantemente alternados no queixo e microfone armado, pensei, é ela! É esta mulher que escolho para me fazer quem quero ser.

Eu estava hospedada na Vila Sônia e não tinha noção das distâncias da cidade. Então, num domingo, Sueli, que morava perto dali, deslocou-se até o lugar onde eu estava para discutir comigo um projeto de pesquisa, para o qual faltava interlocução na universidade. Eu me senti tão valorizada, tão importante, tão gente, que, a partir daquele momento, passei a dedicar minha vida para provar àquela mulher que o cuidado que tivera comigo, não fora em vão.

E continuei indo a São Paulo todos os anos desde então. Economizava centavos para a viagem à terra que para mim era Sol acima de qualquer cinza. Eu passava muito tempo em Geledés e adorava quando Sueli me convidava a acompanhá-la nas coisas que fazia. Era tanta gente importante que ela me apresentava, gente que olhava para ela com apreço e admiração. E quando eu pegava o microfone, abusada, como sempre fui, ela me ouvia com atenção e olhos enluarados, e sorria. Sorria e balançava a cabeça como Steve Wonder a cantar. E eu me agigantava, Coutinho esgrimindo seus dotes para Pelé observar.

Vinte dias depois do telefonema que adiantou a primavera, me apresentei àquela que passaria a comandar meu exército interior. Ainda demorou mais de dois anos para que eu conseguisse trabalhar diretamente com ela e nesse período fui testada, inúmeras vezes.

No primeiro teste, outra diretora, talvez enciumada pela forma como eu idolatrava Sueli Carneiro e também para demonstrar poder, me ofereceu, na frente dela, uma viagem aos EUA. Eu deveria representá-la numa conferência e ler um trabalho seu. Eu tinha 24 anos, saíra da roça para a cidade grande há pouco tempo e a tentação era grande. Sueli, calada, apenas observava. Serena, agradeci a lembrança e o oferecimento, mas não poderia aceitar porque não falava uma gota de inglês. A diretora insistiu, contrariada, irritada. Argumentou que não era necessário dominar a língua, ela treinaria a leitura do texto comigo. Não, obrigada, eu não falo inglês, reiterei, orientada pelos velhos que sustentam meu Ori e pela certeza da lição aprendida com meus pais, de que na vida, a gente deve ter valor, não, preço.

Foram extenuantes os testes ao longo de vários anos de convivência, também as dores, os jogos de interesses e poder, sacrifícios da vida pessoal e frustrações decorrentes, que foram matando aos poucos a alegria, e me levando a desistir da política e a retomar o sonho da literatura. O saldo é positivo, lógico. Sou quem sou, porque um dia Sueli Carneiro me deu a vida e, justamente, para honrar este presente, entendi que precisava seguir meu próprio caminho e reinventar meu lugar no mundo.

E é essa reinvenção que faço nas crônicas diárias, nos livros, nas intervenções públicas, no aprendizado com as pessoas mais jovens. Minha cidade e minha família me deram régua e compasso. Sueli me deu uma tela ampla para xilografar minha história.

Ogum iê! Sueli Carneiro! Mulher do ferro, do vento, do ouro e do amoroso coração de mãe!


21 de jun de 2013

Será a volta do monstro?




Por Cidinha da Silva

Parece que o vento virou, à direita, e os de sempre têm o leme nas mãos.

Mãos sujas de sangue por tantos séculos, tantas gerações.

Gerações de sesmeiros, exploradores de minas e escravizadores de gente, cafeicultores, donos do cartel do transporte público.

Transporte público que foi e é luta de vanguarda, pelo direito a viver na cidade, a desfrutar da cidade.

Cidade que nos expulsa, que não nos cabe, não nos dá amor.

Amor que se vê na Brasilândia, no Campo Limpo, no Morro do Alemão que desce para o asfalto e exige o fim do extermínio da juventude negra, favelada, periférica. Amor que se respira na Revolta dos Turbantes.

Turbantes que protegem e molduram cabeças e cabeleiras de potentes mulheres negras.

Negras mulheres que mais uma vez tingem as ruas e a noite com cores de alegria e força da transformação, com espadas banhadas em mel.

Mel que nos dá Oxum com chá de canela bem quente para que despertas, acompanhemos o desenrolar dos fatos novos, tão velhos e conhecidos.

Conhecidos como o são todos os expedientes da direita que não podem nos surpreender, tampouco nos apequenar.

20 de jun de 2013

O livro de receitas da D. Benta


Por Cidinha da Silva

Alguém avisou à dona da casa que a visitante gostava de cozinhar e aquela, muito solícita, mostra-lhe o que considera uma preciosidade, o livro de receitas da D. Benta.

A sobrinha da visitante, ingenuamente pergunta: “Mas, tia, a cozinheira não era a Anastácia?” “Era”, responde a tia satisfeita. A menina continua, enquanto folheia o livro: “Então, porque o livro de receitas é da D. Benta?”  “Boa pergunta”, responde e mira a anfitriã, aguardando algum comentário.

A dona do livro sorri amarelo, diz que a garota é muito esperta, ameaça tocar suas tranças. A menina se esquiva do gesto, agradece o que parece ser um elogio e explica que gente estranha não pode colocar a mão na cabeça da gente.


O mesmo sorriso sem graça da anfitriã se repete e ela busca outra obra de receitas, determinada a agradar a visita ilustre. Traz um volume fino de receitas caribenhas. Na capa, o mar azul ao fundo e na frente, uma banca enorme de pimentas diversas, cuidada por uma mulher negra que gargalha, sem dentes. 

19 de jun de 2013

Nada, de novo?

Por Michem Yakini


A Copa, já diz no nome, é pra quem tem copa. Os estádios brasileiros são elitistas desde sempre, tanto que antes, desde o inicio do século XX, tinha um estilo comparado aos atuais desfiles de chapéus-botox nos turfes no Jóquei, foi só o fim da Geral que deixou tudo como antes e tirou uma parte, que eles chamam de “penetras”, da festa. Essa é uma pauta perdida.

Agora nas ruas o caldo tá engrossando, só me surpreende as surpresas: 

A ditadura havia acabado só pra vocês! A polícia é violenta todo dia! A gente tem medo dela, sim. Porque quando querem nos calar, não vem com bala de borracha, é chumbo no lombo, mané. Porque sabem que a gente não tem advogado solidário pra nos defender. Porque sabem que não vai ter celebridade se maquiando com nosso sangue. Pois a gente é a parte que pode sumir.

Como diz um amigo meu: "Jacaré que vacila, vira bolsa de madame". Tô ligeiro, e não me inflamo de emoção, mesmo quando isso me ameaça, pois cinco minutos ouvindo com alegria o coro do “povo” me fez vacilar e ficar de costas pra um grupo de “Carecas Nacionalistas” exigindo seu bolo na democracia, com faixas bem legíveis pedindo “Intervenção Militar, Já!”. Tô ligeiro! Sei bem de quem eles querem o fim e quem eles seduzem pra parceragem. Falta pouco pro Datena, o Willian Bonner e Fátima Bernardes, mais o Boris Casoy colar. O Jabor já pediu desculpas, tá juntão!

Na boa, não caio nessa de levantar slogan: “Verás que um filho teu não foge a luta” e ficar cantando o hino nacional, carregando bandeira de “ordem e progresso”, e dizendo “eu amo minha pátria”. Sou filho da dona Maria Elisa, a merendeira da escola, e foi pra ela que eu expliquei o motivo de estar lá, só pra ela. Depois que a onda passar o foco vem pra gente e é possível que todo ódio acumulado dos coturnos seja descontado nas quebradas mais uma vez. Ou onde vocês acham que eles fazem seus treinamentos e descarregam a fúria contida, pra te proteger?

Pátria? Parece papo de TFP. Tô aqui de imposição, desde os navios, depois nos paus-de-arara e agora pela migalha oferecida pra servir.  A minha mãe é mãe solteira!

Ainda sim, o melhor lugar agora é as ruas!

Ficar na quebrada, mais do que nunca, não vira! Só chega noticia de telejornal bomba e indignação de quem não consegue terminar seu turno até as seis ou chegar a tempo de ver a novela das nove. Então é melhor colar, somar no que nos interessa, mas sem empolgação, saber onde anda. Até porque tem muitos dos nossos lá, na linha de frente.

Mas ficar andando na Vila Olímpia, na Berrini, dá a seguinte sensação: De que a qualquer momento o “povo” vai atravessar a rua, virar uma esquina, e entrar pra dentro dos prédios chiquetosos, no seu “lar doce lar”, e a gente vai ficar mais uma vez esperando o trem sujo da Leopoldina.

Mas já que você acordou de seu sono tranquilo, ganhou o beijo de cinderela, e agora acha legal ser auto intitular “povo”, saiba que pra mim é nada, de novo, cara pálida!

Caminhada atentada, sem tempo pra lagrimar!


Porque se o “povo” conseguir o que quer é certo que eles voltem pros cursos endinheirados das faculdades públicas, pras escritórios engravatados, pros condomínios de luxo, pros pedidos de paz branca na Paulista, pra cara pintada de tucano e pro jantar que está servido. Espero estar enganado,  mas tá com cara, mano véio, que pra gente não dê em nada, de novo!

Os nove pentes d'África


18 de jun de 2013

Cidinha da Silva em Porto Alegre!


Sobre o sono dos cavalos e o transporte público em São Paulo

 Por Cidinha da Silva
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Você aprendeu na escolinha que cavalos e outros quadrúpedes dormem em pé, ou pelo menos tiram uma soneca, não foi? Pois pegue o metrô em São Paulo, da Zona Leste para o Centro, antes das 7:30 da manhã, e você verá vários bípedes humanos dormindo nessa posição.

Você se perguntará como é possível, mas em questão de segundos, perceberá que ninguém cai. Uma pessoa escora a outra, não protege, mas escora, tal qual bois e vacas no caminhão sacolejante a caminho do matadouro.

Mas, espere, ao invés de propor um projeto de pesquisa baseado na observação etnográfica do quadro a seus alunos na universidade, aproveite esta narrativa insólita para compreender porque é tão aviltante acrescentar 40 centavos diários ao que essas pessoas pagam para serem transportadas como animais maltratados rumo a um dia extenuante de trabalho, e também depois para voltar à casa.

São pessoas que dormem em pé no metrô porque chegam onde moram sobressaltadas pelo risco de serem abatidas pela polícia ou por milícias atuantes na quebrada, porque não sabem se encontrarão os filhos vivos, porque disputam um lugar na aglomeração pacífica tolerada pelas autoridades para entrar no metrô e viajar de pé. Dormiram cansadas na noite anterior (dormem assim todos os dias), acordaram cansadas e não sabem quando terão paz para descansar o suficiente.

No dia em que o trem pára e sempre que chove isso acontece, um trabalhador ou trabalhadora pode levar até 4 horas (usualmente são 2:30) para deslocar-se do Centro à casa, em São Miguel Paulista, que, é longe, mas ainda é mais perto do mundo conhecido do que o Pantanal, bairro da mesma região Leste, no qual reside a família do ciclista que teve o braço arrancado por motorista criminoso na Paulista.

As paradas do trem por tempo indeterminado podem acontecer também em dias secos e, nestes, você poderá ver hordas de usuários do transporte público, de todas as idades, caminhando como formigas em fila pela linha do trem.

Não é mentira da cronista, fantasia ou metáfora. Haverá também quebra-quebra feito pelo setor mais revoltado do grupo, ao terminar o trajeto forçado a pé sobre o cascalho da linha férrea.

Para você que, além de curiosidades sobre o sono dos cavalos, aprecia cinema, este não é um mundo de replicantes. Estas pessoas não são baratas. São tratadas como se o fossem, mas não o são, é bom avisar, Just in case!

Na vida de gado real e cotidiana desses seres humanos, qualquer vintém acrescido ao valor do transporte de todo dia é inaceitável.

Na prática, mulheres e homens trabalhadores, estudantes, pessoas que circulam pela urbes são constrangidos a pagar mais pela ração diária de maus tratos.

Aceitar passivamente o aumento do valor pago por esse tipo de transporte público, mesmo abaixo da inflação acumulada, como propugna o prefeito, é apertar o fecho da coleira de rebaixamento da condição humana no pescoço.

16 de jun de 2013

Libere sua WiFi por um dia para ajudar a coibir os desmandos da polícia de São Paulo durante as manifestações públicas!

A ideia é permitir que, com as redes abertas, os manifestantes possam compartilhar na internet o que estiver acontecendo durante o novo protesto
wifi-cartaz-protesto-sp
Manifestantes que participam dos protestos contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo começaram a divulgar nas redes sociais uma campanha pelo wi-fi livre durante o novo ato, marcado para segunda-feira. A ideia é pedir aos moradores da região onde vai acontecer o protesto que liberem o acesso às suas redes de internet.

"Você que mora na região próxima ao local da manifestação (ou por onde ela passará), deixe sua wi-fi sem senha para que todos possam compartilhar o que está acontecendo", diz o cartaz que circula nas redes sociais. 

O novo protesto contra o aumento da passagem está marcado para começar às 17h no Largo do Batata, segundo o Movimento Passe Livre. Denominado "Quinto grande ato contra o aumento das passagens", o protesto contava com mais de 164 mil pessoas confirmadas até as 20h30 deste sábado.

Dois documentos orientadores da auto-defesa para a população civil: o primeiro, para prevenir ações da última ditadura militar, o segundo, da polícia de São Paulo,em junho de 2013



Documento com procedimentos de auto-defesa para manifestantes contrários à ditadura militar no Brasil - anos 60/70

"Devido a mudança das formas de atuação da repressão e com a agudização da crise que se acentua entre as classes fundamentais de nossa sociedade, faz-se necessário que em nossas discussões abordemos o papel histórico da violência numa sociedade de classes e que discutamos o aprimoramento de nossas comissões de segurança a tal ponto que ela não se restrinja a uma comissão, mas que todos nós façamos parte dessa segurança. Faz-se necessário que discutamos a auto-defesa e seu significado.
As normas que se seguem devem ser discutidas e melhoradas e a elas acrescentadas outras:
1 - Forma de comparecer à manifestação
a) Não levar: roupa pesada, sapato de salto, roupas berantes, jóias, objetos, caderneta de telefones, carteira falsa de estudante. (as mulheres não devem usar calça comprida na cidade)
b) Levar: documento de identificação e profissional
c) Observar RIGOROSAMENTE os horários determinados
d) Dirigir-se aos pontos com clareza de que a repressão não tem conhecimento desses pontos
e) Permanecer nos pontos até que se estabeleça o contato - baixando a palavra de ordem
2 - Comportamento dentro da manifestação
a) Acatar estritamente a palavra de ordem do chefe do grupo
b) Ao receber a palavra de ordem para dispersar, fazê-lo o mais rápido possível, em ordem, deslocando-se para o próximo ponto
c) Fazer pichação e panfletagem sem se dispersar muito
3 - Medidas preventivas contra gás
Ir em jejum, só bebendo líquido ou leite em pequena quantidade
Lenço molhado para se tapar o nariz
Bicabornato para passar em volta dos olhos
Vitamina C (Citrovit ou Cebion) para chupar, pois o gás dá fraqueza
Bomba de efeito moral - é só barulho, abra a boca
4 - Conselhos táticos
A manifestação será pacífica somente cabendo resistência quando for caracterizada a repressão contra a massa. Para tanto observar:
a) Acatar somente as palavras de ordem dos líderes estudantis e dos nossos chefes de grupo
b) Não aceitar palavras de ordem de provocação dadas por elementos desconhecidos e que não sejam de liderança
c) Em caso de aproximação do esquema de repressão, deverá ser observada: calma para melhor acatar as palavras de ordem dos chefes
Em caso de perder-se do grupo, dirigir-se ao ponto de referência e lá permanecer."

15 de jun de 2013

Ogum's Toques e a promoção da diversidade humana

Educar para as intersecções identitárias, para a ampliação das vivências e dos afetos: um assunto cada vez mais relevante, e que certamente terá também destaque nas discussões que acontecerão no IV CBPN.

Parabéns ao Ogum's Toque pela bela, e altamente educativa, campanha de dia d@s namorad@s!

https://www.facebook.com/OgumsToques?ref=ts&fref=ts

Miudezas de Belo Horizonte, capital brasileira dos bares

Para  Cida  Moura que está revelando ao mundo o sertão negro-mineiro, o Vale do  Jequitinhonha! 



Por Cidinha da Silva

Os bares da minha terra são pródigos em esquisitices, não só em comida de boteco. Você entra em um e está escrito “é proibido ficar com agarramento nas dependências desse estabelecimento!”  Noutro canto do mesmo bar encontramos o seguinte aviso aos homens: “É proibido circular sem camisa." Às mulheres: "Shortinho apertado demais da conta é responsabilidade da cliente assanhada.”

Noutro bar você pode encontrar mistura entre letra de forma e cursiva, em cartolina ou papel de pão, proibindo o seguinte: “ Apagar cigarro na mesa e deixar a bituca lá em cima” ou então, “não pode tirar caca do nariz e disfarçar debaixo da mesa”.

A melhor de todas foi estipular o tempo de duração dos beijos de língua, um minuto no máximo, sob pena de o casal apaixonado ouvir o sonido do instrumento de aferição do tempo, manuseado pelo garçom-sentinela.

O sujeito e a senhorita (que mulher casada não se dá a esse desfrute na rua e beijo gay ou lésbico está longe de ser tolerado) começavam o beijo. Plimmm! O garçom dava um tapa no marcador de tempo, os segundos iam correndo. Pressupõe-se que o casal atracado vá contando o tempo. Quando o cronômetro marca 50 segundos, o sentinela dirige-se solene à mesa dos beijoqueiros. Quando atinge a marca de sessenta segundos, no prego, o bicho faz um cocoricó, como galo cantando de madrugada e começa a tocar o hino do Atlético.

Conheço gente que vai a esse bar no Horto, perto do Independência, onde time que vai enfrentar o Atlético está morto, e se beija ultrapassando o tempo permitido só para forçar os cruzeirenses da turma e do ambiente a ouvirem o hino do Galo.


A gente e os bares da minha terra são imbatíveis e inacreditáveis!

14 de jun de 2013

Atualização sobre os editais de ação afirmativa para artistas e produtores culturais negros do MinC, dia 17/06, em São Paulo


O dia seguinte à 4a manifestação contra o aumento do transporte público em São Paulo, 14 de junho de 2013


Por Cidinha da  Silva

Do meu trabalho, no Vale do Anhangabaú, deu para ver que a turma começou a tocar o terror pelos ares às duas da tarde. Helicópteros sobrevoando nossas cabeças instauram na gente um clima de guerra, desespero e desamparo.

Pela Internet via-se as pessoas sendo presas antes da manifestação, gente que nem sabia o que estava acontecendo.

Pela televisão, Datena faz uma pesquisa dirigida e dá com os burros n'água. As pessoas acham os protestos necessários com tudo o que eles possam vir a acarretar.
Ainda na Internet, jornalistas isolados chamam a atenção para o fato de que essa polícia truculenta vista ontem, destacada ontem, é assim todo dia nas periferias da cidade.

Essa polícia que dá tiros de bala de borracha a queima-roupa em jovens brancos comprometidos com aquelas pessoas para as quais o acréscimo de 40 centavos diários pesam no orçamento, em senhoras, também brancas, que caminham assustadas pelas ruas, buscando um lugar seguro, que toca o terror da dispersão militar à base de gases tóxicos a setores da população que ela sempre protegeu (de alguma forma), é velha conhecida dos jovens negros, dos manos e manas das quebradas e favelas.

É a mesma polícia que mata com balas de verdade por diversão, para disputar quem mata mais numa noite ou semana.

Pelas ruas, as pessoas aterrorizadas buscavam a segurança diária do metrô, hiper lotado porque foi dia de greve dos trens metropolitanos. Desoladas, jogavam-se nas escadas e corredores, aquelas que podiam esperar que o movimento das estações super lotadas diminuísse um pouco para seguirem rumo às casas.

Incrédulas e indignadas, muitas delas que nunca tinham ouvido a palavra vândalo, a incorporaram de imediato ao vocabulário para crucificar o povo da paz que luta pela justiça nas ruas da cidade.

No dia seguinte, na Itália, “uma vereadora da cidade italiana de Pádua, no norte do país, causou indignação nacional ao dizer no Facebook que Cecile Kyenge, primeira pessoa negra a ser ministra na Itália, deveria ser estuprada.

Dolores Valandro, do partido direitista Liga Norte, estava a referir-se a um texto de um site italiano chamado "Todos os crimes dos imigrantes", contando uma suposta tentativa de estupro de duas mulheres por um africano.

"Por que ninguém a estupra, assim ela entende como se sente a vítima desse crime atroz?", escreveu em maiúsculas a política sobre uma foto de Kyenge, ministra da Integração, que nasceu na República Democrática do Congo.

A frase rapidamente circulou nas redes sociais e foi parar nos sites de notícias. Pelo Twitter, Kyenge, de 48 anos de idade, dos quais 30 na Itália, disse que "esse tipo de linguajar vai além da minha compreensão, porque incita à violência e tenta incitar à violência pelo público geral".

Mais tarde, a ministra acrescentou que a agressão verbal foi "um insulto a todos os italianos".

Políticos de várias tendências recriminaram as declarações de Valandro, e um dirigente regional da Liga Norte disse que ela será expulsa do partido pelo seu comentário "inenarrável".

A vereadora desculpou-se mais tarde em entrevista a uma rádio e negou que a Liga Norte seja racista.”

Desnecessário concluir que a vereadora italiana e a polícia paulista (e brasileira, de um modo geral) bebem das mesmas águas contaminadas pelo totalitarismo.

Foto: Cecile-Kyenge, ministra italiana.

13 de jun de 2013

Fall in love



Por Cidinha da Silva

Precisei me retirar das redes sociais. É que o amor me pegou de jeito e junto com ele a vontade de dizer para o mundo ouvir, aquelas coisas que só fazem sentido no ouvido da amada. 

Sei que a ninguém mais, além de mim, interessam as horas que conto para a chegada dela. A comida que fiz para ela. O dia de amor que tivemos. Os desejos mínimos dela. Mas o amor subverte as certezas da gente e por medo de sucumbir à vitrine devastadora e degustadora da rede, resolvi sair.

Não, não, não tenho estrutura. Outro dia, um homem apaixonado postou foto sorridente ao lado da namorada, 20 anos mais nova, com um bigodinho de glacê. Para que notássemos o glacê, ele avisa que não gosta de bolo de aniversário e seu baby é testemunha. Não! Não! Intimidade é coisa privada, mas o amor é assim exibido mesmo e vai que a tentação me pegue na curva...

Gente graúda, peixe cascudo, quando apaixonado, morde a isca da exposição facebookiana e quer tornar pública sua paixão. Acho que é porque muitos de nós não tivemos adolescência, principalmente como a de hoje, que se estende impunemente aos 30, 35, 40, à vida inteira.

Pode ser também que, mesmo mais maduros, estejamos submersos na falta de ação política da vida pública supermoderna e a exposição da vida íntima, seja a única coisa restante a nos conectar com o mundo.

Talvez queiramos dizer aos quatro ventos que somos diferentes desse pessoal que desenvolve pavor de amar ao primeiro espinho no dedo. Vai ver queremos dizer que esse amor também tem lugar no mundo. Um amor que se joga, que posterga o beijo porque quer olhar nos olhos. Esse amor também quer gritar sua existência e, se o Facebook é o amplificador do momento, a ele! Mas confesso que a mim faltou coragem e recolhi minhas armas. Não queria transformar minha amada em troféu de campeonato da solidão abatida!

Seja lá como for, são deprimentes as relações de amor, ódio e estupidez com o diário virtual das redes sociais. Sou precavida, não sou covarde. Não queria ceder à tentação de dizer ao mundo e a quem me infelicitou: “A roda gira e agora eu sou feliz. Estás a ver?”


E, se pela timeline do malfeitor ou dos coligados, você souber que quem te fez infeliz, hoje rasteja na lama, tanto melhor. Dentre as mil e uma utilidades de recados via rede social, tem a vingativa, também. Não, não! O mais seguro é me deixar fora disso! Adeus Facebook!

12 de jun de 2013

Justiça Federal decide pela continuidade dos processos dos editais do MINC/SEPPIR

Deu no sítio da FCP

quarta-feira by marakarina
Ao apreciar agravo de instrumento impetrado pela União, TRF1 decide pela continuidade da seleção, mas mantém premiação suspensa
A Justiça Federal decidiu, no dia 7 de junho, pela continuidade dos procedimentos relacionados aos Editais para Criadores, Produtores e Pesquisadores Negros do Mistério da Cultura (MinC), construídos em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Trata-se de um agravo de instrumento interposto pela União contra a liminar do juiz José Carlos Madeira, da 5ª Vara da Seção Judiciária Federal do Maranhão, que deferiu a suspensão dos editais para agentes culturais negros, em maio desse ano.
De acordo com o documento, as atividades de seleção serão retomadas e compreendem desde a triagem dos projetos enviados até a divulgação dos resultados finais do certame e da lista de classificados no Diário Oficial da União. Entretanto, o pagamento dos prêmios continua suspenso até o julgamento final do processo.

Deu branco no futebol

Deu branco no futebol

by Blogueiras Negras
Por Mariana Santos de Assis para as Blogueiras Negras
Até hoje o jogo de futebol mais triste que já vi tinha sido a partida em que meu Timão jogou sem torcida. Naquele momento entendi porque tantas pessoas não gostam de futebol, não conseguem entender as lágrimas, o desespero, o ódio, a euforia e a felicidade incontida de quem torce e ama seu time do coração. Naquele jogo eu entendi essas pessoas porque esse sentimento foi tirado do campo, a devoção da fiel torcida estava ausente, essa falta não foi compensada nem mesmo pela vitória do corinthians por 2X0.
Mas o dia 02 de junho conseguiu colocar esse vazio no chinelo, perto do que o futebol viu acontecer nesse dia, um jogo com estádio vazio não foi nada. Reinauguração do maior símbolo do futebol nacional, depois do Pelé, o estádio do Maracanã, novo, reformado, hiperfaturado e vendido a preço de banana para o dono do mundo, Eike Batista. Mas não foi apenas nosso maior estádio que foi reinaugurado, uma tendência antiga, clássica mesmo do futebol também foi retomada e acalentada pela nossa elite lamentável que vai lotar os estádios ultramodernos, ainda que odeiem futebol e por nossa classe média decadente que vai estourar todos os cartões de crédito em busca de um lugarzinho na corte. A tendência de um futebol para a elite branca!
É, o público que lotou o maraca era a cara que a sociedade brasileira sonha em passar para o mundo, a cara de um povo civilizado, bem comportado, adestrado, branco e rico que se senta e aprecia um espetáculo de raça, sangue, suor e lágrimas – ao menos é isso que os verdadeiros amantes do futebol esperam ver quando vão aos estádios – como quem acompanha uma reportagem instigante do Discovery Channel ou um torneio de tênis animado. O mesmo adestramento que tentam impor em campo, quando criticam o estilo brincalhão dos meninos que driblam e dão o show que imortalizou o futebol brasileiro e o tornou único, a ginga dos meninos do morro, dos pivetes que precisam driblar mais que zagueiros, a meninada que nasceu com a bola nos pés ou na frente da TV vibrando com seus ídolos, aqueles que os “inspira por falta de alguém”, como diria Mano Brown nessa linda parceria com o mestre Jorge Bem, boa sugestão para entrar no clima da paixão pelo futebol.
O futebol e o carnaval são as duas pedras no sapato desse modelo de sociedade perfeita, invenções deles das quais nos apropriamos, melhoramos, mostramos pra eles como se faz e agora eles querem de volta. Há muito tentam nos expulsar dos sambódromos e mesmo das festas de rua. Agora estão nos expulsando dos estádios, como nos expulsaram desde sempre de suas salas de teatro e concertos de música, dita, erudita – mais uma das arrogâncias do estilo branco de fazer arte. Novamente lamento os conservadores, não por nos excluírem, até porque sei que virão atraz buscar nosso samba pra imortalizar na boca de seus playboys rebeldes, nossa capoeira para seus antropólogos generosos, nossa poesia, nossa música, nossa didática...
Um carnaval
Um carnaval
Lamento porque sei que eles virão muitas vezes, implorando migalhas da nossa paixão pela vida, mas sempre com ares de quem está sendo generoso em aceitar a vida que nunca tiveram e nós temos de sobra. Mas não se enganem, está chegando o dia em que fecharemos a porta na cara deles e diremos: fique com a sua erudição repetitiva e nada original, deixe-nos com nosso primitivismo vulgar que vocês amam e sonham poder consumir com a nossa desenvoltura e consciência tranquila, até porque não existe pecado desse lado do Equador, desse lado que ainda está colado em África, que ainda ama, odeia, sofre, grita, fala ri alto, altíssimo pro mundo inteiro ouvir, sem nenhuma vergonha, culpa ou constrangimento. Isso vocês não vão conseguir patentear, isso não dá pra produzir em plástico com cores lúdicas. Isso é uma questão de vontade de viver e sentir cada emoção como se fosse a última. Podem tentar embranquecer nossa folia, mas sempre que conseguirem voltarão pra buscar mais melanina, mais dessa alegria de viver que vocês nunca tiveram.

Mariana Santos de Assis: formada em letras e mestranda em linguística aplicada na Unicamp, militante no Núcleo de Consciência Negra e na Frente Pró-Cotas da Unicamp.

Xangô!



Por Cidinha da Silva

Eu vi Xangô assentado no pilão, com uma gamela sobre a perna direita, acalentada por sua barriga ao fundo e a mão gorda escorada no joelho, à frente. O corpo pendia para cima da gamela, como se a comida o devorasse. Com o indicador da mão esquerda em riste, ele discursava sobre alguma questão de poder no reino.

Era Xangô ou Buda? Era o Buda Nagô!

Vez ou outra ele calava e trocava a gamela de lugar, abraçava-a com o braço esquerdo, deixando a mão direita livre para fazer montinhos de amalá que levava à boca gulosa. Ele sorvia barulhentamente a comida pastosa.  Eu observava sua destreza para comer. Fazia-o como adulto, nem um pouquinho de quiabo escorria pelo braço, ou mesmo pela mão.

Xangô me olhou, leu meu pensamento e explicou: “Quem come com a mão e faz lambança é criança, sinal de que ainda não aprendeu a ser grande.” Eu encarava minha sina, pois nunca conseguiria comer comida de caldo com as mãos sem vê-la escorrendo pelo braço. Ele zombava da minha ignorância.

O Rei dos reis voltava a discursar, agora com o indicador da direita apontado para o Orun, porque precisava dela livre para alternar fala e comida. O equilíbrio do poder no reino era o tema. Eu ouvia com atenção, porque ele se irrita quando nos dispersamos, mas pensava mesmo no poder do quiabo.

Dizem que as filhas e filhos de Xangô se parecem com o quiabo, cuja baba se espalha por lugares impensáveis, caminhos que ninguém imagina e dessa forma chegam onde querem. São assim, principalmente na oratória. Inusitados como o pai que faz a prole compreender a natureza do poder enquanto ele come sua comida predileta.

Filhas e filhos de Xangô, por sua vez, preferem a metáfora do vulcão em erupção e da lava espraiada por todos os cantos. Gente de Xangô nasce do magma flamejante vindo do interior da terra que depois se espalha, cobrindo larga superfície que nem os olhos podem alcançar.  É também uma gente ruidosa, destruidora, mas fertilizam o solo para o novo, como a lava.

Talvez o saber mais recôndito do quiabo seja a flexibilidade para buscar novos caminhos, se não der de um jeito, que seja de outro.


Xangô não sabe escrever um nome na areia, esculpe-o na pedra. Seu consolo é saber que a pedra um dia foi água e a natureza das coisas permanece, mesmo quando muda de forma. 

11 de jun de 2013

Cultura sem racismo! Roda de Conversa em SP com Hilton Cobra – Presidente da Fundação Palmares


Por Liliane Braga e Pedro Neto
Cultura Sem Racismo!
Roda de Conversa em SP com Hilton Cobra – Presidente da Fundação Cultural Palmares
Por Liliane Braga e Pedro Neto
Experimentei minha hereditariedade. Queria ser tipicamente negro – mais isso não era mais possível. Queria ser branco – era melhor rir. E, quando tentava, no plano das ideias e da atividade intelectual, reivindicar minha negritude, arrancavam-na de mim. Demonstravam-me que minha iniciativa era apenas um pólo de dialética.”
Frantz Fanon
Rode Conversa com cobra/ Foto Sandra Campos
A convite do Fórum para as Culturas Populares e Tradicionais e da rede Kultafro, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Hilton Cobra, e a chefe da representação da FCP no estado paulista, Cidinha da Silva, reuniram-se conosco, representantes da cultura negra de São Paulo, no último dia 3 de junho. Puxado pelo tema da suspensão dos editais afirmativos, o encontro pautou a inexistência de políticas públicas para a cultura negra e a necessidade da união de forças em torno dessa demanda.
Entregamos a Hilton Cobra o documento elaborado a partir da análise dos editais afirmativos por parte da sociedade civil realizado no dia 11 de maio de 2013 na FUNARTE SP. No documento, também encaminhado para a Representação Regional do Ministério da Cultura em São Paulo e para a Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais da SEPPIR, sugerimos a duplicação dos recursos financeiros e melhorias para os próximo editais afirmativos do Ministério da Cultura.
Cerca de 50 pessoas das áreas de produção, artes cênicas, literatura, hip hop, audiovisual e música negras e alguns representantes do movimento negro organizado expuseram  questionamentos e refletiram conosco por cerca de 3 horas sobre a conjuntura que envolve a atuação da Fundação Palmares e a necessidade de se repensar a política dos editais que desloca a atenção da sociedade da demanda por políticas públicas efetivas e, no geral, são marcados por dispositivos que inviabilizam o acesso da população negra a tais recursos na medida em que a burocratização marginaliza potenciais proponentes que não se enquadrem em requisitos excludentes e dificulta a prestação de contas por parte das organizações sociais que, ao fim dos repasses, acabam por ser criminalizadas.
No encontro, Cidinha da Silva enfatizou a importância do encontro, que contou com um grande mosaico de artistas e produtores negros, de várias regiões da cidade de São Paulo.
Após explanar sobre o papel político desempenhado pela Fundação Palmares, Hilton Cobra falou sobre a grande burocracia no repasse de recursos para atividades culturais negras, bem como sobre a escassa quantidade dos recursos orçamentários da FCP destinados para o desenvolvimento de políticas públicas de cultura negra.
Roda de Conversa com Cobra/Foto Sandra Campos
Para além da ação jurídica contra a atitude do juiz maranhense que suspendeu os editais afirmativos, Cobra propôs ainda solicitar à Ministra Marta Suplicy a cotização dos orçamentos de todas as Secretarias vinculadas ao Sistema MinC para as culturas negras. Essa solicitação também está sendo debatida no âmbito do Setorial Nacional de Culturas Afro-Brasileiras do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e será pauta da reunião realizada pelo setorial nos próximos dias 19 e 20 de junho em Brasília.
A política pública para cultura não se resume em editais. Necessitamos organizar cada vez mais os fazedores das culturas negras em torno da construção transversal de políticas para o setor. Até quando os grupos e artistas negros serão usados somente em manifestações de rua em períodos eleitorais?
Na reunião, elegemos o lema “Cultura Sem Racismo”, criado por Hilton Cobra, para disseminar país afora uma campanha de repúdio ao racismo na cultura brasileira. Por essa campanha, artistas, intelectuais e cidadãos que queiram se expressar contra o racismo na cultura realizam vídeos e os disponibilizam na internet via redes sociais utilizando o lema escolhido.
Além disso, demandas elencadas por nós, participantes da reunião, resultaram em pautas para um próximo encontro, que será realizado no dia 17 de junho, das 19h às 21h, no auditório do MinC na Funarte SP. Serão debatidos “o que é produção cultural negra?”, a possível criação de um Fórum Permanente de Cultura Negra e de Conferências Livres de Cultura Negra rumo à Conferência Nacional de Cultura.
Os encontros entre Fundação Palmares, produtores e artistas negros seguirão pelo Brasil em datas a serem divulgadas no site da FCP. Com o mote de ampliar o debate e angariar apoio contra a suspensão dos editais de fomento à arte e cultura afro-brasileira do MinC, a finalidade de tais encontros também é fortalecer estratégias pelo fim das práticas racistas no campo das artes e da cultura afro-brasileira.

10 de jun de 2013

Ardis da imagem



Por Cidinha da Silva para as Blogueiras Negras
Bonita ela não era, mas fotografava bem. Ali morava a ilusão da coisa. Foram dezenas de contatos pela rede social. Álbum de fotos para cima, álbum para baixo e quem via as fotos tinha uma impressão diferente da real.
Eu sempre aconselhei, esse negócio de paquerar pela Web é a maior roubada, mas ela insistia. Imagine você, ao vivo costuma dar errado: Cheiros, hálitos, texturas, hábitos, são tantas variáveis sinestésicas que derrubam um bom papo virtual ou telefone, um tesão à distância. Mas ela insistia. Ainda tinha o fetiche supermoderno da imagem, da superexposição.
Certa vez um conhecido me contou no café da manhã de um congresso, que marcara encontro com um rapaz desconhecido no cais de uma cidade do interior, depois de ter visto uma fotografia exibicionista do pretendente. Ele morava a duas horas do local e marcou o encontro às 22:00. Às 18:00 montou na motocicleta e rumou para o lugar marcado. Queria chegar bem cedo para observar a movimentação do provável futuro parceiro, vai que não era um cara do bem.
Para piorar tudo, a colega era romântica, aquele tipo de gente a quem você diz com gentileza, “você está muito bem, iluminada” e ela já entende o brilho percebido na pele como declaração de amor eterno. Mas pelo menos era fina, não era como umas e outras que no auge da falta de sexo recebem um elogio inócuo e já atacam, “bonita, bonita, do que adianta? Me comer que é bom, nada!”.
Marcou o encontro e pegou o avião do Norte para o Sul, voou para os braços da Sininho, a fada que havia descoberto na tela. Eu preveni: “Você não acha melhor conhecê-la um pouco mais? Você é do Norte, ela do Sul… você é negra, morena como a Gabi Amarantus, que seja. A candidata a amor eterno é branca”… Fui acusada de invejosa, agourenta, pessimista para dizer o mínino.
A colega driblou o pessoal do embarque e conseguiu esconder a violeta lilás florida que pretendia entregar ao objeto de sua paixão. Colocou a plantinha delicada numa caixa de compensado cheia de furos e depois envolveu-a com papel de presente, fez um piparote no fechamento e assim conseguiu carregá-la como bagagem de mão. Já sentada, afrouxou o laço e colocou a planta debaixo do banco da frente. Assim que o avião decolou, desfez o pacote por completo e deixou-a respirar pelos furos.
Chegou ao desembarque com mochila de roupas para passar dois dias e coisas íntimas mil para seduzir seu amor da vida toda. Na mão esquerda a plantinha, na direita o celular e o estojo do tablet. Perdia-se imaginando a melhor posição para registrar o primeiro encontro.
A porta de vidro abre à medida que ela se aproxima. Um sorriso de propaganda de creme dental rasga seu rosto. Olha para a esquerda, para todos os lados, mas não vê o grande amor.
Pega o celular, chama, ninguém responde, fora de área. Conecta o tablet, procura mensagens, presença virtual, não encontra a mulher de sua vida. Fotografa a violeta, envia a foto, diz que as duas a esperam. Pensa em ir para a casa da moça, mas não tem o endereço. Quer ligar para o número fixo, mas nem sabe se o fixo existe.
Resta esperar, deve ter acontecido alguma coisa. Senta-se na cadeira solidária que acolhe as pessoas que esperam por outras nos aeroportos, rodoviárias, estações de trem. Não tira olhos e ouvidos do celular e do tablet. Tecla sem parar. Vai até o balcão da Infraero, anuncia a própria presença, pede a presença da outra ao lado da cabine de informações. Depois do terceiro aviso, o pessoal da Infraero recusa-se a continuar chamando.
Depois de três horas de espera e silêncio, não sabe se procura um vôo de volta ou um hotel para hospedar-se. Telefona pela última vez, alguém atende. Ela sorri e chora. Desata a perguntar o que aconteceu. A outra está bem? Teve um imprevisto, por isso não conseguiu sair de casa? Para onde ela deveria se dirigir?
Sininho a interrompe com voz de atendente de telemarketing: “Eu vi suas 78 ligações e como parece que você não vai desistir resolvi atender.” “Como assim?”, a colega pergunta frustrada. “Você viu que eu estava te ligando e não atendeu?” “Vi e não atendi.” “Por quê?” “Porque eu não quis!” “Você é louca? Sabe de onde eu saí para te encontrar e você nem se dá ao trabalho de vir aqui me ver?” “Eu fui!” “Você veio? E não me viu? Por que não falou comigo?” “Eu vi, mas não falei, fui embora. Estou falando agora. É melhor você sumir daqui e eu vou te bloquear, não me procure mais. Adeus!”
A colega olha para a violeta que parece murchar e chorar junto consigo. Vai ao banheiro, umedece a planta e enxuga os olhos. Mira no espelho o cansaço do vôo, da mudança climática, das horas de fome alimentadas pela ansiedade.
Sai do aeroporto. Hospeda-se num motel de beira de estrada. Só haveria vôo de volta no dia seguinte.