Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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25 de jun de 2013

O dia em que Willian Bonner chorou

Por Cidinha da Silva

O Jornal Nacional aproximava-se do fim e seguindo o roteiro diário viria algo de impacto para encerrar a espetacularização da notícia no horário de maior audiência dos telejornais.

O narrador de voz bonita, terno impecável e cabelos charmosamente grisalhos anuncia um caso surpreendente no sertão do Brasil.

Um adolescente de vida miserável  é flagrado ao roubar um bombom na vendinha da região. A repórter responsável pela cobertura percebe que ali há uma boa história para entreter os telespectadores fiéis e resolve levar a notícia do roubo à mãe do garoto para compor o drama que antecipará a novela das nove.

O cinegrafista, depois de ter filmado o menino cabisbaixo e mudo na delegacia, inclui as devidas tarjas no rosto, pois o pequeno infrator tem apenas 13 anos, fecha dramaticamente o ângulo da câmera no bombom solitário sobre a mesa do delegado e, junto com a repórter, ruma para a casa daquela que roubaria a cena e emocionaria o apresentador, a mãe do menino.

No trajeto a câmera destaca os efeitos da seca prolongada, a pobreza, o abandono. Quando chegam à casa, cumprimentam a dona, são convidados a entrar. A repórter senta em um dos dois tocos da casa de cômodo único, cruza as pernas, equilibra-se. A mãe senta na cama de forquilha, dois troncos finos de árvore que sustentam colchão velho, fino e torto, cama única do lugar. Afora isso, uma bilha com caneca de alumínio em cima, dessas de escola pública, e retrato de um casal na parede, o homem de terno, a mulher de vestido branco, provável casamento dos pais do menino.


A repórter, compungida, transmite à mãe a notícia do roubo. Lágrimas grossas escorrem pelos sulcos do rosto marcado pelo sol e pela dureza no trabalho da roça. A Câmera focaliza cada detalhe. A mulher ergue o dedo cabeçudo e calejado, sem unha feita, esfolado pelo cabo da enxada e profetiza: “Eu vou falar uma coisa pra senhora, ele roubou foi de safadeza, colegage, luxúra. Não foi fome, não senhora, porque fome ele conhece desde que nasceu!”
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