Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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27 de dez de 2014

2014 EM 12 FLASHES PESSOAIS. KAWÔ!

Por Cidinha da Silva



1 – A ressignificação de Brasília que passou a ser (para mim) um bom lugar para viver.

2 – A concretização de BAÚ DE MIUDEZAS, SOL E CHUVA, meu livro mais desejado, barrado de maneira esdrúxula em concurso literário de 2013. Prefácio e orelha escritos por mulheres que admiro demais, Grace Passô e Ellen Oléria, respectivamente.

3 – A Constatação de que entrevistas e abordagens críticas sobre meu trabalho, finalmente, começam a enfatizar aspectos literários, com destaque para as resenhas de Mariana de Assis (O Menelick 2º Ato, edição ZEROXIII), Ronald Augusto (Afrosul) e Márcia Cruz (Estado de Minas) sobre meu RACISMO NO BRASIL E AFETOS CORRELATOS e artigo de Marcos Fabrício Lopes da Silva no Observatório da Imprensa (edição 846), intitulado, CIDINHA DA SILVA: UMA ATIVISTA DA CRÍTICA DE MÍDIA.

4 – A generosidade da artista multimídia Jaciana Melquíades, a quem ainda não conheço pessoalmente, mas fez de mim uma de suas graciosas bonecas e também me presenteou com avatar que, convenhamos, apresenta ao público uma versão simpática (e melhorada) de Cidinha da Silva.

5 – A renovação dos votos de amor das pessoas que me amam apesar de todos os meus descuidos, ausências e imperfeições.

6 – Não ter (ainda) encontrado no LATTES (recentemente confeccionado) lugar para acomodar a fortuna crítica sobre minha obra, cerca de 30 artigos, ensaios, resenhas.

7 – Ter facilitado a parceria da Fundação Cultural Palmares (FCP) com o selo editorial Me Parió Revolução para publicação de ONDE ESTAES FELICIDADE?, livro composto por conto e relato inéditos de Carolina Maria de Jesus, acrescidos de seis ensaios textuais e um fotográfico sobre a obra da autora de Sacramento, MG. O prazer do trabalhado cotidiano com Dinha, além de poeta admirada, parceira de todas as horas.

8 – Ter facilitado na FCP a publicação da revista LEGÍTIMA DEFESA, organizada por Os Crespos, talvez, o documento de teatro negro brasileiro mais importante dos últimos 50 anos.

9 – Ter entrevistado Elisa Lucinda na Balada Literária e tê-la visto expondo-se negra ao público, em exercício pleno de oralitura, como sempre a li em sua literatura.

10 – Ter estado com Sueli Carneiro na bela Cachoeira (UFRB) e a contragosto tê-la acompanhado em uma atividade que era dela, para a qual me convocou. Chegando lá, como nos velhos tempos de Pelé e Coutinho, atuamos afinadíssimas, sem treino e sem combinados prévios. Antes disso, a alegria de vê-la na audiência de palestra minha, sorrindo e emanando bons fluídos como no tempo em que eu era menina.

11 – Ter garantido a publicação de AFRICANIDADES E RELAÇÕES RACIAIS: INSUMOS PARA POLÍTICAS PÚBLICAS NA ÁREA DO LIVRO, LEITURA, LITERATURA E BIBLIOTECAS NO BRASIL, no minuto final da prorrogação. Ter feito 55 convites a autoras e autores e ter recebido 48 respostas positivas e efetivadas de pronto; uma resposta positiva, mas que, por problemas diversos não conseguiu entregar o texto a tempo e apenas uma negativa, porque o convite foi feito de afogadilho (afora umas cinco pessoas que não deram resposta alguma). Uma obra embasada no pensamento negro sobre livro, leitura e cadeia produtiva do livro no Brasil que nasce clássico e foi mesmo pensado para sê-lo.

12 – O companheirismo, a solidariedade e apoio diuturno da amada Marthinha para que eu conseguisse aprovação no Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento / UFBA, do momento em que divaguei sobre a possibilidade de me inscrever até a comemoração do resultado final. Nzaambi ye kwaatesa!

25 de dez de 2014

Na terrinha


Por Cidinha da Silva
Depois de acomodar a mala no táxi e do primeiro minuto de corrida silenciosa pergunto ao motorista: "tem chovido"? "Tem, não!" Ele responde. "Qué dizê, não chuveu muito hoje. Agurinha messs chuveu, mas agora num tá chuveno"...
Como o leitor e a leitora percebem, disso eu sabia, não chovia naquele momento e parecia não ter chovido antes porque estava tudo seco, sem aparência de chuva, por isso fiz a pergunta. Mas é que mineiro tem de dois tipos, o falante e o caladão, sendo que as duas personalidades podem se alternar na mesma pessoa. O primeiro tipo é aquele que você visita num domingo, se despede dele e vai para o ponto do ônibus. Você fica 40 minutos plantada no ponto e só passa um ônibus para o metrô. Você quer ir para o centro da cidade por cima da terra, está encasquetada com a vida urbana de tatu. Então, seu anfitrião aparece na varanda e solta um ingênuo "uai, cê tá aí ainda?" "Tô, o ônibus pro centro ainda não passou". "Uai, o ônibus não passa hoje não." "Como assim?" "Não passando, uai! Só tem ônibus pro metrô". "Uai, mas você não me avisou!" "Uai, ocê não perguntou"...
O senhor ao volante era falastrão ou estava em momento de língua solta, não se sabe. Sem mais perguntas ele continua: "esses dia pa trás aí chuveu tudo, teve dia de chuvê forte, mas forte, forte memo num foi, num inundou nada por aí afora". "E será que no dia 24 cai chuva? Ano passado choveu". "Chuva, ocê chama aquil'ali de chuva? Aquilo foi um pé d'água, São Pedro tava com a vó atrás do toco".
Eu rio solto e a viagem prossegue. De repente o motorista emite um gritinho espantado: "opcevê!" Eu olho na direção apontada pelo queixo dele. Não vejo nada demais, mas é prudente não comentar, haja vista que "opcevê" sinaliza coisas gritantes e é óbvio que você, mineira destreinada, é que não está enxergando o que salta aos olhos. Prescreve a etiqueta da boa convivência com mineiros que você deve exercitar princípios budistas, ou seja, observe, cale e reflita antes de emitir uma opinião. A depender da conclusão é prudente manter o silêncio. Mineiro é bicho armadilhoso, sempre te espera na curva.
Como não concluí nada que valesse a pena ser dito, me mantive muda e o homem explicou: "olha, moça, eu vou te falar procê um coisa, esse tempo de natal me dá uma gastura; é uma abraçação de cobra coral, tudo aque'as cobrinha pequenininha e colorida. O fulano põe pra lenhá incima docê o ano inteiro e chega no 25 de dezembro vem desejá feliz natal. Ôh raiva que me dá."
Eu continuo sem saber para o que é que ele apontava e o sinal já vai abrir, será que ele não vai contar? "É uma hipocrisia, minina, natal é hipocrisia! Num diz que é aniversário de Jesus Cristo?" Ele se vira para trás e me pergunta. Eu respondo diligente: "é, é sim!" "Então, ocê me explica u'a coisa, pra que tanto pisca-pisca? Parece que é aniversário de Thomas Edson, sô!"

24 de dez de 2014

Nilma Lino Gomes na SEPPIR


Por Cidinha da Silva
O nome me agrada, muito. É, de longe, o melhor nome entre aqueles especulados para o cargo. Aliás, o nome de Nilma não se ouvia, eu, pelo menos, não ouvi. Contudo, ouvi tanta bobagem, como é próprio do campo das especulações: nome de políticos negros de expressão local, que não conseguiram se reeleger e que agora rumam ladeira abaixo do ostracismo, porque nomes mais novos estão se consolidando e será difícil que se reelejam em 2018; nomes de artistas negros sem qualquer experiência pregressa de gestão; quaisquer nomes, quaisquer notas. Como se para os negros pudesse se destinar qualquer coisa.

Fico satisfeita, bola dentro da Presidenta Dilma, depois da bola lunática de Kátia Abreu na Agricultura, e de outras que estão por vir, infelizmente. Nilma Gomes é uma gestora em ascensão, jovem e bem formada, com experiência na gestão de uma universidade de perfil internacional como a UNILAB – um projeto belíssimo e ousado que, Oxalá, depois de sua saída não naufrague nas mãos de reitores/as politiqueiros/as e descomprometidos/as com África. Tem-se notabilizado pelo gabarito técnico, trajetória respeitável como um todo e admirável em vários aspectos, um deles, a imensa capacidade de diálogo e de composição. Admiro também sua independência, gosto muito de pessoas que se estabelecem pela competência técnico-profissional e a consolidação de sua liderança é alentadora para muitas pessoas de nossa geração. Nilma Gomes, para os mais novos que talvez não saibam e para os que têm memória difusa do assunto, membro do Conselho Nacional de Educação em 2010 foi responsável pela propositura de que o livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, recebesse uma nota explicativa sobre as expressões racistas utilizadas pelo autor, fato que gerou imenso debate na sociedade brasileira, notabilizado pela imprensa hegemônica e pela academia (a conservadora e a menos conservadora) e respondido de maneira enfática por organizações negras e pessoas comprometidas com o combate ao racismo no Brasil.

A Presidenta Dilma emite uma mensagem de não-retrocesso nas conquistas e maneira de operação da SEPPIR, ou seja, escolhe para suceder Luiza Bairros, alguém à altura de continuar o caminho exitoso trilhado na gestão da ministra, aliado à potencialidade de qualificá-la com os aportes específicos da área da Educação. A ministra Luiza é uma administradora por formação, a nova ministra Nilma, é educadora com habilidades de gestão. São diferentes perfis e trata-se de boa alternância. Particularmente, sentirei saudades dos discursos “improvisados” da ministra Luiza, de consistência política inigualável (não por Nilma em especial, são discursos sem par, mesmo), verdadeiras aulas que inexoravelmente levavam os que discursavam depois dela a destacar seu feito, como que a pedir desculpas pelo que viria depois.

Nilma Gomes, reitero, sabe dialogar, é uma de suas virtudes. Imagino que já esteja conversando com a ministra Luiza e que talvez mantenha boa parte da estrutura técnica da SEPPIR. Torço para que mantenha o melhor, que os critérios de permanência e inovação sejam técnicos e que fujam da velha política de acomodação dos sem-cargo e sem-mandato e dos compromissos políticos com tendências ou grupos, em detrimento das competências exigidas para determinadas posições. Por suposto, a habilidade política é fundamental, é preciso cercar-se de pessoas que saibam fazer articulação política, mas há que examinar e reavaliar quem permanece com a lupa da adequação ao novo projeto, ou mesmo à continuidade do antigo.

Nilma Gomes conversa bem com a ex-ministra Matilde Ribeiro também, escreveu bela orelha para o livro “Políticas de promoção da igualdade racial no Brasil” (2006-2010), publicação da Garamond neste ano de 2014. Bom sinal. É a terceira mulher a dirigir a SEPPIR e dialoga com as antecessoras, muito bom.

Aguardo ainda a apresentação pública de possibilidades políticas para a ministra Luiza Bairros. É preciso romper com a tradição de que os nossos concluem suas tarefas, são bem avaliados e não são convocados a exercer tarefas maiores e diversas, ficam relegados à própria sorte. Não nutro expectativas de que Luiza Bairros venha a ocupar outros ministérios de maior envergadura, num cenário de chegada de Cid Gomes e Helder Barbalho (outro dia comemorava sua derrota no Pará) e volta de Eliseu Padilha, para deter-me em apenas três desastres do novo ministério. Ficaria feliz demais se fosse surpreendida, entretanto, penso que o racismo estrutural e as alianças políticas pela governabilidade não o permitirão. Mas, desejo para Luiza Bairros, algum posto de representação deste governo na esfera internacional, ou que não seja posto de governo, mas um lugar cuja ocupação nos orgulhe e que esteja à altura da querida ministra.










11 de dez de 2014

Lançamento do Cadernos Negros 37, em São Paulo

VAMOS CELEBRAR MAIS UM CADERNOS NEGROS

 
 

Em primeiro lugar queremos agradecer seu apoio. Ele é fundamental para nós.

Depois de 36 anos as pessoas talvez se perguntem se Cadernos Negros ainda pode trazer novidades. Este volume 37 mostra que sim. Não só pela maior quantidade de jovens escritores e escritoras, não só por causa da presença marcante das mulheres, mas também porque mostra a força que a poesia de escritores(as) que publicam há mais tempo vem adquirindo ao longo dos anos.

A leitura tem mil e um problemas em nossa sociedade. E a receptividade a um trabalho de poesia afro sofre com bloqueios e boicotes às vezes sutis, às vezes descarados.

Mas também há muito incentivo por parte das pessoas interessadas.

Por isso é gratificante fazer mais um Cadernos Negros. Porque é o contrário de aceitar passivamente que "as coisas não podem mudar". Quando cada leitor ou leitora dá vida ao livro, as coisas mudam. Quando o texto se torna motivação e ação, as coisas mudam.

No dia 12 de dezembro de 2014, próxima sexta-feira, a partir das 19h, vai ser lançado o trigésimo sétimo volume da série, nabiblioteca Mário de Andrade, rua da Consolação, 94, centro de São Paulo. É um volume de poemas, com 224 páginas (inscreva-se abaixo).

Criada em 1978 por Cuti, Hugo Ferreira, Jamu Minka e outros poetas, a série significou a possibilidade de autores afrodescendentes publicarem seus textos de forma cooperativa, superando os limites impostos pelo mercado editorial e o silêncio determinado pela ditadura.

Este volume 37 dá continuidade à caminhada, sempre feita com muito esforço, carinho e determinação, contando com a iniciativa dos próprios autores e autoras, com a receptividade dos leitores e leitoras e sendo organizada por Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa.

O volume 37 traz vinte e oito poetas de várias cidades e Estados brasileiros.

Como afirma a profa. Maria Thereza Veloso, da Universidade do Alto Uruguai, "nestes Cadernos não tem guarida a palavra consentida, agrilhoada. Não cabe aqui a palavra policiada, ferida. Essa não. Nestas páginas viceja outra palavra, nascida do liberto encontro de luzentes poemas com zumbizeiros ideais de igualdade".

Ou como diz o ativista e editor Marciano Ventura:

Publicada anualmente desde 1978, Cadernos concebe uma comunidade em torno das obras publicadas, inspirando novas gerações de leitores(as) e escritores(as) Brasil afora.

Ou ainda a escritora Cidinha da Silva:

Em Cadernos Negros muitas vozes são lidas, diferentes texturas e tessituras são sentidas, internalizadas, refeitas a partir da interação texto-leitor, texto-leitora.

O lançamento é aberto e gratuito, mas é necessário inscrever-se no link a seguir (ainda há poucos lugares):https://docs.google.com/forms/d/1dgUdOGp98Nbfhel3abtJO12w_5Vab4sBmnqlgi-Zil4/viewform?usp=send_form (pedimos que quem já está inscrito chegue até 19h45 no máximo).

Haverá a exibição do curta "Vidas de Carolina", com Débora Garcia, em homenagem ao centenário de Carolina de Jesus; haverá bate-papo com os autores e esquetes de dança afro com Omo Ayiê.

Participação de Daniel, do sarau “O que dizem os umbigos”
e dos rappers Nup & Big.

Reflexão sobre como a literatura negra pode contribuir nas escolas, com a profa. Elisabeth Fernandes.

E vamos celebrar os autores/autoras Benê Lopes, Bruno Gabiru, Cuti, Dirce Prado, Edson Robson, Esmeralda Ribeiro, Fausto Antônio, Helton Fesan, Jairo Pinto, Juliana Costa, Kasabuvu, Márcio Barbosa, Mooslim, Raquel Garcia, Valéria Lourenço.

Que venha mais esse Cadernos Negros e que por enquanto ele seja definitivo!

É tudo nosso!


Neste volume 37, temos autorxs das seguintes cidades:

Brasília/DF: Cristiane Sobral, Denise Lima

Campinas/SP: Fausto Antônio

Carapicuiba/SP: Mooslim

Duque de Caxias/RJ: Valéria Lourenço

Limeira/SP: Dirce Prado

Recife/PE: Lepê Correia

Salvador/BA: Ana Célia, Ana Fátima, Benício dos Santos Santos, Fátima Trinchão, Fernando Gonzaga, Guellwaar Adún, Jairo Pinto, Jovina S., Luís Carlos de Oliveira‘Aseokaynha’, Mel Adún, Mil Santos

São Paulo/SP: Benê Lopes, Bruno Gabiru, Cuti, Edson Robson, Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa, Raquel Garcia

Viçosa/MG: Juliana Costa

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Preço do livro no lançamento: R$ 25,00

4 de dez de 2014

Coisas que nem Deus mais duvida!



Por Cidinha da Silva



A senhora brandia os braços, inflava bochechas e olhos, tremia a boca pequena. Era Madame Mim performando um poema.

Coisa boa não viria dali. A colega já havia feito caras e bocas de incredulidade quando apresentei meus livros no sarau. Reparei que não aplaudiu, assim como as outras pessoas fizeram comigo naquela noite.

Houve um preâmbulo antes do poema, a autora dizia: “No meu tempo (como vocês podem ver, eu sou velha), a gente chamava os pretos que a gente gostava de negão, quando era homem, neguinha, quando era mulher. Era carinhoso. Hoje, se a gente não for politicamente correto, pode até ser preso”.

Nessa hora, seus olhinhos de Madame Mim encontraram os meus e, de pronto, tratei de exuzilhá-los, fechei meu corpo com a mão direita e com a esquerda levantei meu Tridente. 

A chuva apertou e N’Zila rodou, me levou para fora das paredes de vidro da biblioteca, para o local exato onde havia feito minha saudação de chegada. Era uma encruza da Henrique Schaumann com Cardeal, 777, era o número da casa. N’Zila dançou para mim, apontou o céu, logo cortado por um raio de Kaiongo. Eu saudei N’Zila e o raio, agradeci. Quando um deles ilumina meu caminho é sinal de anunciação.

De volta ao sarau, de olhos abertos, aqueles versos mal feitos e ressentidos machucavam meu coração. A mulher velha desprovida de sabedoria destilava mágoa e saudade dos tempos da escravidão. Dizia num poema torto que solução para o racismo é que os pretos se pintem de branco e se tornem cinza (cinzas, quem sabe?) e os brancos se pintem de preto, obtendo o mesmo resultado.

Terminada a performance ouviram-se uns fracos aplausos constrangidos, outros, consternados, afinal, tratava-se de uma idosa e muita gente acha que a idade justifica tudo. Duas ou três pessoas, além de mim, não descruzaram os braços. Um rapaz muito sério, que se eu encontrasse andando pela rua, julgaria mestiço, levantou-se negro e mandou uma letra de rap aguda sobre a hipocrisia das relações raciais no Brasil. Tinha uns palavrões cabeludos e o menino de lâmina nos dentes colocou os tridentes nos devidos lugares.

Eu reuni meus livros e trocados, olhei a chuva intermitente e vi Kaiongo à minha espera, absoluta e bela, próxima ao cemitério.

Guardei a distância respeitosa da natureza que não se afina com a casa dos mortos. Kaiongo veio sorridente, me abraçou generosa, só amor. Eu entreguei o que era dela: “Toma, Senhora dos Raios, leva daqui essa carcaça, esse egum da mentalidade colonial e racista que inda sibila entre os vivos.” Kaiongo sorriu outra vez, cúmplice, e desapareceu soberana na noite sem lua.

Tambor das águas


28 de nov de 2014

Cidinha da Silva: uma ativista da crítica de mídia


Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 25/11/2014 na edição nº 826 / Observatório da Imprensa


Nos livros Cada tridente em seu lugar (2007) e Racismo no Brasil e afetos correlatos (2013), Cidinha da Silva tece críticas importantes a respeito do fazer midiático. A escritora dedica um conjunto especial de crônicas a discutir a democratização dos meios de comunicação, a qualidade de conteúdo realizado pelos agentes de difusão e a virtude ética necessária para alcançar consistência e pluralidade na mídia. É possível encontrar nas argumentações de Cidinha da Silva o desejo legítimo por uma formação informativa e opinativa que, de fato, viabilize o encontro da clareza do jornalismo com a densidade e a complexidade da cultura, incluindo, nessa relação, a indústria do entretenimento e sua responsabilidade direta pela diversão pública, em termos recreativos e educativos.
Na crônica “TV a gato”, integrante do livro Cada tridente em seu lugar, Cidinha da Silva alerta para a censura econômica que impede o acesso ampliado aos conteúdos produzidos pelos canais fechados: “Você sabe que às vezes o pessoal da favela faz gato não é só pela falta, mas também pela revolta.” A autora observa a falta de preocupação das empresas de comunicação do ramo em atender a população residente em favelas, cuja linha de interesse também passa pelo consumo de informações e opiniões transmitidas pela TV por assinatura. Outro ponto a ser discutido referente à mencionada questão refere-se aos preços abusivos cobrados pelas empresas de comunicação, dificultando a vida do público para adquirir um pacote de canais fechados. Trata-se, nesse sentido, de atitudes discriminatórias, em matéria de atendimento ao consumidor e, principalmente, de preservação à cidadania no tocante ao direito fundamental da informação. Em oposição ao quadro de desigualdade informacional, a comunidade residente em favelas apela para a TV a gato, fazendo gambiarras para, enfim, obter uma programação mais alternativa, considerando o convencionalismo predominante nos conteúdos transmitidos pela TV aberta. A respeito dos temas aqui arrolados, Cidinha da Silva assim se posiciona:
“Gato de TV a cabo você deve achar que é luxo, pois talvez nem você tenha (TV a cabo ou um gato de TV a cabo) em sua residência. Mas, veja bem: assim como um vivente tem direito à água potável, tem também direito à programação televisiva de qualidade. Para obtê-la, no Brasil, é preciso pagar uma assinatura. Suponhamos que você possa pagar. Ocorre que a empresa prestadora do serviço acha que o lugar onde você mora não é digno dele. E você, além de perguntar-se onde mora a lógica capitalista da empresa, faz o quê? Os meninos fazem gato. E quer saber do que mais, quem gosta de miséria é intelectual, já disse o Joãozinho Trinta.”
A “síndrome da novidade”
A escritora destaca a referida atitude – a TV a gato – como expressão de uma luta dos mais desassistidos pelo acesso à comunicação midiática de qualidade. O público residente em favela também tem interesse em adquirir o patrimônio imaterial da cultura comunicacional, principalmente o de matriz transformadora, capaz de promover e estimular, lúcida e ludicamente, o esclarecimento popular. Afinal de contas, como já alertava o grupo Titãs na canção “Comida” (1987): “Bebida é água!/ Comida é pasto!/ Você tem sede de quê?/ Você tem fome de quê?/ A gente não quer só comida/ A gente quer comida/ Diversão e arte/ A gente não quer só comida/ A gente quer saída/Para qualquer parte”.
Como pano de fundo, encontra-se na citada crônica de Cidinha da Silva a busca de dispositivos sociais arrojados para se opor à clientelização do cidadão, fenômeno este que também se faz presente na oferta seletiva de difusão midiática. Nesse sentido, o restrito acesso à programação veiculada pela TV a cabo afronta o texto constitucional em seu artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição.” A censura econômica se coloca como impeditivo para a livre comunicação. Estar fora da TV por assinatura é ficar excluído dos principais fluxos de informação. Desconhecer os conhecimentos divulgados naquela modalidade de comunicação informacional é amargar uma nova ignorância.
A crítica da mídia desenvolvida por Cidinha da Silva também se manifesta argutamente em Racismo no Brasil e afetos correlatos. Por exemplo, na crônica “Thatcher x Cher”, a escritora apresenta fatores nocivos que corroem o jornalismo ético de qualidade: o imediatismo e a falta de historicidade. Sobre o primeiro item, a opinião da autora apresenta um saber de síntese ímpar: “Tempos sombrios de velocidade da informação desacompanhada da qualidade de compreensão.” A respeito do segundo quesito, Cidinha critica a alienação social oriunda, dentre outros fatores, da cobertura superficial da mídia: “Os jovens, também como resultado do culto à história dos grandes e vencedores, têm cada vez mais dificuldade para conectar o presente em que vivem a fatos da história recente.” Estes apontamentos dialogam diretamente com as advertências reflexivas feitas pelo poeta Gustavo de Castro, em Os ossos da luz (2007), e pelo filósofo Walter Benjamin, em Experiência e pobreza (1933).
Castro, incrivelmente sucinto, salienta, no poema “Mídia”, que “a prensa é inimiga da perfeição”. Parodiando o dito popular, o poeta aproxima pressa à prensa, no sentido de repercutir o alerta de que os parâmetros informativos e opinativos da mídia perigosamente se respaldam pela agilidade voraz, prejudicando argumentações mais profundas e dialéticas para favorecer apontamentos mais generalizados, preconceituosos e vazios. Bússola da opinião pública, a imprensa vem se distanciando cada vez mais deste papel social, ao promover, por conta da síndrome da novidade, o vulgar, rejeitando, assim, o importante. A respeito, Benjamin lamentava com pesar: “Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá-la muitas vezes a um centésimo do seu valor para recebermos em troca a miúda do ‘atual’.”
“Os privilégios da branquitude”
A promoção de celebridades vazias exemplifica o afã midiático de promover modismos como se fossem verdadeiros feitos. Com desconfiança sábia, Cidinha da Silva demonstra como a imprensa não economiza espaço para promover nulidades. A escritora, na crônica “Os mortos”, foi direto ao ponto: “Celebridade não é pessoa, é espetáculo ambulante, e quando bom e eficaz, eterniza-se em business.” Como produtos do jornalismo de intimidade, as celebridades se comportam como medalhões sociais, representando a exibição da vida cotidiana, da esfera privada e de assuntos sem relevância pública. Para explicar a origem do termo “celebridade”, o historiador americano Daniel Boorstin, autor do livro The image: a guide to pseudo-events in America (1962), relaciona o conceito, surgido entre os séculos 18 e 19, com a modernidade. Antes desse momento, não se falava em “celebridades”, mas em ídolos, famosos e heróis, que recebiam essa designação por seus feitos. Se os heróis tinham mérito por terem realizado um grande feito, a celebridade, muitas vezes, possuía apenas certa fotogenia que lhe garantia a visibilidade, mesmo com o mérito e a relevância política esvaziados. Portanto, as celebridades protagonizam o suprassumo midiático do mundo narcísico das imagens: a publicidade do eu, a autopromoção ou – usando uma terminologia afeita aos modismos atuais – o marketing pessoal.
Preocupados demasiadamente em manejar as estratégias que lhes conduzirão aos píncaros do prestígio e do reconhecimento social, as celebridades devem fazer de tudo para agradar, amoldando-se aos meandros da festa de máscaras que anima o salão da cordialidade e da simpatia. Eis “o preço da admiração”, termo que também intitula uma das mais divertidas crônicas de Cidinha da Silva acerca do assunto: “Nos tempos supermodernos aplicam-se os pressupostos celebrativos a qualquer pessoa que tenha o mínimo de visibilidade e ela é esvaziada da condição humana para transformar-se em alguém que atende às vontades do público soberano.” Mais vale “ser percebido” do que “perceber” – eis a linha de conduta daqueles que sofrem com a “sede de nomeada”, conforme ressaltava Machado de Assis, no alto de sua inteligente ironia expressa em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).
Além de criticar o mercado midiático das celebridades, Cidinha da Silva, em “A PEC das Domésticas, os grilhões e as madames”, parte para o enfrentamento inteligente dirigido à cobertura tendenciosa da mídia que, majoritariamente, defendeu os interesses patrimonialistas dos setores mais abastados, mesmo diante da legítima causa referente ao reconhecimento formal dos direitos trabalhistas das domésticas. Postura conservadora e racista que, infelizmente, reverbera o engodo da mentalidade escravocrata ainda vigente. Com a palavra, a escritora:
“São 77 anos de organização sindical das trabalhadoras domésticas, iniciada por Laudelina de Campos Mello, em Santos, na busca de 34 direitos garantidos à maioria das demais categorias de trabalhadores. São 70 anos de atraso em relação às conquistas da CLT. São cerca de 8 milhões de domésticas em todo o país, incluindo adolescentes e crianças; destas, em torno de 6 milhões não têm carteira assinada e não ganham sequer um salário mínimo.
Entretanto, mesmo diante desses números, os jornais estão consternados com o ‘desamparo’ das patroas e patrões, e se apressam em esmiuçar todos os direitos da classe patronal frente aos insuspeitos novos direitos como trabalhadoras (ironia da História) conquistados pelas domésticas. Qualquer semelhança aos debates prévios à extinção formal da escravatura não são mera coincidência.
[...]
O giro da roda num país racista sempre emperra nos privilégios da branquitude. A bola da vez é o trabalho doméstico que passa a ter direitos similares aos dos demais trabalhadores apenas no século 21, e são ainda questionados. Eita, pessoal ranheta, não larga o osso nem a poder de marreta!”
“Nem Coca, nem Fanta, uma garapa, por favor”
Há que se destacar também, no exímio empenho de Cidinha da Silva como crítica da mídia, suas reflexões sobre a indústria comunicacional do entretenimento e sua atuação direta no oferecimento da diversão pública, tanto em termos educativos como em termos recreativos. Entre os novelos e as novelas que marcam as páginas da vida, a escritora mostra as máscaras nas linhas e a verdade entre as linhas confeccionadas pela teledramaturgia brasileira. Por exemplo, foi reforçado em uma novela global de grande sucesso o estereótipo dirigido à população em favelas. A respeito, Cidinha da Silva, na crônica “A favela em Salve Jorge“, salienta:
“A autora de Salve Jorge está esculachando a favela. Poxa, é uma moçada jovem que não trabalha, não estuda e só tem quatro ou cinco tipos de ações: batem perna, batem boca e gritam, postam coisas na internet, tomam sol na laje e dançam, do funk ao pagode. De quebra, fecham com o pessoal do movimento e planejam subir na vida arrumando marido rico.”
Em contrapartida, na opinião de Cidinha da Silva, Lado a lado foi um marco novelístico para o reconhecimento dos feitos da comunidade negra no Brasil. O casal Zé Maria e Isabel, interpretados, respectivamente, por Lázaro Ramos e Camila Pitanga, ofereceu inúmeros exemplos de inteligência, sensibilidade, beleza, ética, solidariedade, coragem, trabalho, perspicácia e empreendedorismo. Ao analisar os capítulos de Gabriela, Cidinha da Silva chama a atenção para a interpretação de Juliana Paes, que confere complexidade à protagonista do romance de Jorge Amado. Além disso, a escritora destaca, ainda, a desconstrução do machismo de plantão que impõe um padrão simplório aos afetos: “Houve quem reclamasse de que o turco comia Gabriela com os olhos, ao invés de comê-la como se devia. Tolinhos! Nacib não é bobo e come Gabriela como ela gosta, não como a testosterona imbecilizada prescreve.”
No tratamento crítico do programa global Esquenta, Cidinha da Silva saboreia os leitores com uma formulação conceitual bastante perspicaz: trata-se do “sociologuês”. O sociologuês “é a mudança conservadora, a transformação pelo alto, velha conhecida”. Em outras palavras, partindo do melhor que há em nossa fortuna metafórica de cunho popular, “é o ponto de mutação em que a Coca se revela Fanta”. Conforme o parecer lúcido de Cidinha da Silva, “a diversidade torta”, apresentada no programa de Regina Casé, revela “a miscigenação subordinada, a mistura, nome popular e contemporâneo que até hoje não conseguiu provar sua efetividade para os pretos, tampouco diminui os privilégios dos brancos”. A escritora, com bom humor, aproveita a oportunidade para fazer um pedido ao garçom: “Nem Coca, nem Fanta, uma garapa, por favor.” Uma garapa: bem mais saborosa do que “uma boa média”.
A apuração ética
Encontra-se presente, na crônica “Preconceito racial, discriminação e racismo, distinções de letramento”, um dos grandes problemas que prejudicam as práticas de entretenimento em matéria de expressão de alteridade voltada para a promoção da diversidade: “O que mais me desagrada é a forma como a expressão preconceito (sequer é o preconceito racial) tem dissimulado a força da discriminação e do racismo ao longo da trama. Meus amigos dizem que é por ação de Ali Kamel, orientação global. Tenho dúvidas, a mim parece mais a ausência de letramento racial.” Pior: parece-nos que ambos os fatos, midiaticamente falando, estão terrivelmente combinados.
Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, é autor do livro Não somos racistas (2006), cujo subtítulo aponta bem qual é o objetivo geral da obra: “Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bipolar”. O escritor defende a ideia de que compomos uma nação predominantemente mestiça e que o racismo existe como manifestação minoritária e não institucional, sendo a pobreza o principal problema do país. Pretende criticar as reivindicações do movimento negro e os projetos de adoção de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras. Trata-se, a nosso ver, de um remendo neogilbertofreiriano voltado para o elogio à mestiçagem brasileira, tese que possui caráter ideológico, ao tentar esconder o racismo existente no país e a exclusão do negro ao longo dos cinco séculos de formação do Brasil. Tal posicionamento contribui decisivamente para “a ausência de letramento racial”, conforme bem notou Cidinha da Silva. Visando à superação desse problema, a escritora, à luz de importante questão racial e étnica, nos ajuda a compreender como se comportam o preconceito e a discriminação racial:
“O preconceito e a discriminação racial são parte de um todo chamado racismo, um sistema ideológico espraiado e arraigado em instituições e corações, que esvazia da humanidade seus alvos, os serviliza e constrói privilégios para aqueles que exercem o poder. O preconceito racial, então, diferente de outros tipos de preconceito, motivados hipoteticamente pelo desconhecimento, está a serviço da manutenção de um sistema de poder, de exploração que, no Brasil, tem cristalizado o lugar de mando dos brancos em detrimento dos negros. A discriminação racial, por sua vez, é o braço ativo do racismo, é o que define a eficácia de seu modus operandi.”
Destacamos e comentamos, então, neste artigo, as principais críticas de Cidinha da Silva compromissadas com a apuração ética dos meios de comunicação. A qualidade argumentativa presente nos mencionados textos da escritora colocam Cidinha da Silva como notável pensadora da mídia, em termos críticos.
Obras consultadas
Cada tridente em seu lugar. 3ªed.rev. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010.
Racismo no Brasil e afetos correlatos. Porto Alegre: Conversê Edições, 2013.

19 de nov de 2014

Sobre o velho seriado que se pretende novo e inovador


Por Cidinha da Silva

Estou totalmente atribulada com viagens de trabalho - divulgação do livro "Onde estaes Felicidade?" - organizado por (Dinha Maria Nilda) e Raffaella Fernandez, composto por inéditos de Carolina Maria de Jesus e 7 ensaios sobre Carolina e sua obra. Cumpro também minha própria agenda literária, passei nos últimos dias por Redenção - CE, São Luís, Salvador, Vitória, Brasília, São Paulo, Cachoeira - BA, e vou ainda para o Rio de Janeiro e volto a Salvador para fazer a conferência de abertura da III Kizomba - Seminário de Juventudes Negras na UNEB.  Durante as viagens, nos dias que passo no escritório, finais de semana e madrugadas, concluo organização de um livro que tem 48 autores e autoras, 38 textos, exercícios de proposição de políticas públicas para a área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, pensadas pela ótica das africanidades e relações raciais. Além disso, participo da comissão de sistematização que está escrevendo a versão final do "Plano Setorial de Cultura Afro-Brasileira". Ou seja, estou ocupada em fazer história e sem tempo para me deter no famigerado seriado racista que se pretende novo e inovador.

É óbvio que as amigas que têm se ocupado em escrever sobre os desdobramentos da história, a exemplo dos vídeos de atrizes e atores negros em defesa de Falabella, autor do seriado, o fazem porque se desdobram em mil e arrumam tempo para continuar escrevendo sobre essa chatice. Então, em deferência a essas mulheres, também escreverei algumas cositas aqui, mesmo muito cansada e triste com tudo isso. Em larga medida, devo repetir o que várias delas já disseram, acrescentando uma linha ou outra. Não há nada original no que vou dizer, mas, vou falar, vamos lá:

1 - Decidi não mais mencionar o nome do tal seriado, além de não assisti-lo (nunca assisti, acredito na força do boicote), porque creio na força da palavra e acho que estamos ajudando a dar sobrevida a esse troço ao nominá-lo. É nítido que toda essa celeuma é porque os índices de audiência devem estar baixos, o boicote está funcionando, a formação da opinião pública também. Ou seja, as bases da casa grande estão estremecidas.

2 - Acho incrível esse novo argumento de que a crítica ao seriado, à postura do autor, à trama falaciosamente protagônica de mulheres negras (confio na opinião das amigas que têm se dado ao trabalho de assistir e analisar o programa) seria um tiro de escopeta no pé. É compreensível que que queiram nos fazer crer que o tal autor é mesmo um redentor de artistas negros na TV. Talvez seja, mas a gente aqui, do lado de fora da telinha, tem todo o direito de não gostar disso, de não compactuar com esse joguinho de compadrio branco a negros de recado. Como Ana Maria Gonçalves já salientou, esses artistas estão fazendo o papel esperado dos negros protegidos ou beneficiados pelo branco bondoso em suas manifestações de apoio a ele. Mas não é admissível que queiram que compactuemos com os segredos opressivos vividos pelos artistas negros no maior canal de TV do país sem que saibamos do que tratam. Só esses mistérios justificariam o tal tiro no pé, além de uma confiança totalizante que deveríamos ter nesses artistas e em seu silêncio (sobre as agruras do mundinho global). Tenham coragem! Ponham na roda, abram o jogo. Talvez a exposição do que acontece internamente seja algo saudável. Embora todos saibamos (vocês e nós) que vai todo mundo para a geladeira e que, para cada negro refrigerado haverá pelo menos dez, prontos a ocupar o espaço. Do lado de cá, sabemos que o mar não está para peixe e ninguém quer perder o lugar conseguido a duras penas no trabalho e, para alcançar tal objetivo, serão feitos concessões e pareamento ideológico para subir um degrau na escala global.

3 - É insustentável o argumento de que não se pode criticar o autor do seriado porque "ele não é racista." Ora, bolas! Eu sou negra e tenho legitimidade para dizer uma série de coisas sobre o mundo negro. Escolho dizê-las pela literatura, mas, a legitimidade para falar não garante que meu texto seja bom. Uma pessoa, pretensamente não-racista, pode, obviamente, cometer discriminação racial e, sim, reproduzir estereótipos e estigmas racistas. A afinar nosso instrumental crítico  pelo diapasão da essencialização do indivíduo não-racista porque é nosso amigo e confiamos nele, absolveríamos os assassinos de mulheres que mataram apenas uma mulher porque eles só mataram uma, não mataram outras antes daquela. Eram homens bons (a mulher morta é que deve ser má e deve tê-lo corrompido).

4 - A alta rentabilidade da engrenagem racista brasileira se vale, dentre outros combustíveis, da desqualificação da opinião das pessoas discriminadas. Só isso justifica o fato de que, pessoas despolitizadas e outras politizadíssimas, como Jean Wyllys, achem-se avalizadas a dizer que quem não gosta do tal seriado, discorda dele, critica o autor e aponta o racismo na estrutura do programa e na trama, sofre de falta de discernimento. Quem essas pessoas pensam que são? Deus??? O Deus branco ou embranquecido que sabe o que é melhor para as pobres negrinhas? Esse mesmo Deus coloca as barbas de molho e não diz como deve agir o Movimento LGBT, nem o MST, para citar apenas dois movimentos sociais, aos quais se autoriza que tenham voz própria. Àquilo e àquelas que o racismo e a branquitude entendem como movimento negro, eles se dão o direito de dizer como agir, o que pensar e como atuar politicamente. Por quê? Porque infantilizar a pessoa negra contrária ao status quo, destituí-la de sua criticidade e de seu protagonismo, é óleo fundamental para garantir o alto funcionamento da engrenagem.

Enfim, é o que me ocorre. E que termine logo a temporada da série e não volte mais por força da pouca audiência e do descontentamento gerado no público. Tenho certeza de que daqui a alguns anos, quando o protagonismo negro estiver ainda mais fortalecido, as queixas de hoje serão simplesmente, assimiladas, incorporadas e a trama será refeita para não perder a audiência, como acontece com as novelas. É apenas mais uma uma novela. O problema é que esta novela acordou a força reativa daquelas pessoas, cujo papel, é apenas o de assistir a novela passiva e acriticamente. E a casa grande insiste em não sair de cena. E não sairá por vontade própria, tudo é muito cômodo para seus herdeiros e, infelizmente, os serviçais também estão acomodados. Mas, como disse o poeta, faremos Palmares  outra vez, a despeito de vídeos contrários no you tube, postados por artistas negros, em pleno mês da consciência negra.

18 de nov de 2014

Coração suburbano também fere e se locupleta da estigmatização das negras





Por Cidinha da Silva

Sou fã de Elisa Lucinda. Fã mesmo, de verdade, tanto porque a poesia dela me toca muito, quanto porque a acho excelente poeta. Não só eu, gente importante como Nélida Piñon tem a mesma opinião e isso deve significar que ela é boa mesmo, ao contrário do que pensa meu amigo e poeta Ronald Augusto. Aliás, acho que os setores da crítica que torcem o nariz para a poesia de Elisa também o fizeram para Mário Quintana e Adélia Prado. Gente grande, mas muito simples e de linguagem acessível, que se ocupa do comezinho da vida dos viventes para poetar.

Já assisti vários espetáculos de Elisa no Rio e em São Paulo. Certa vez ganhei livro por responder corretamente à pergunta feita pela poeta ao final do espetáculo.  No Rio fui duas vezes à Casa Poema, em Botafogo, e lá assisti a espetáculo encenado por Elisa e um grupo de atrizes e atores negros, dentre eles Sandra de Sá e Iléa Ferraz. Prestigiei por dois anos consecutivos o espetáculo de encerramento da turma de alunos da Casa Poema em teatros lindos.

Também assisti uma performance de Elisa em Salvador e dessa feita aconteceu uma situação constrangedora. Um pequeno grupo de mulheres negras, do qual eu não fazia parte, talvez muito animado com a presença de uma atriz e poeta negra magnífica no palco, talvez por não ter costume de frequentar teatros, conversava sem parar. Elisa precisou interromper a atuação e pediu silêncio porque o grupo a estava atrapalhando. Se pudesse, seria um avestruz naquele momento, porque a artista negra no palco e as mulheres da plateia, igualmente me representavam. E representam.

O fato de ser fã-leitora de Elisa e de acompanhá-la sempre que tenho oportunidade, desde que a conheci numa apresentação contratada pelo Conselho da Comunidade Negra ou da Mulher em São Paulo, em algum lugar entre 1990 e 1992, quando divulgava o livro independente A lua que menstrua, me permite afirmar que o público que vai vê-la no teatro é maiormente branco. Como imagino que também sejam seus leitores e fãs, ou seja, quem prestigia e paga pelo valoroso trabalho de Elisa é o público branco. E, para sermos francas, qual é o artista negro bem sucedido no Brasil sustentado pelo público negro? A resposta pode ter muitas nuances e vetores e não me ocuparei deles neste texto. Em contraponto, só pelo exercício de pensar, quantos artistas negros consagrados se ocuparam da formação de público negro em algum momento da carreira? Acho honesto perguntar, como acho necessário dizer também que percebo o quanto a maioria dos artistas negros, comprometidos com o público branco, que, em última instância valoriza seu trabalho e garante seu sustento pela arte, relativiza ou minimiza a crueza do racismo brasileiro.

De toda sorte, este longo preâmbulo se justifica por dois motivos: o primeiro, já enunciado, sou fã-leitora de Elisa. Tenho por ela respeito e admiração imensos e nos parágrafos que se seguirão, discordarei completamente do texto Coração suburbano escrito pela poeta em defesa de Falabella, criador do famigerado programa televisivo Sexo e as negas. Pode ser bobagem, mas parece que eu precisava pedir uma espécie de licença para, na condição de fã, discordar diametralmente de alguém que tenho na melhor conta.

O segundo motivo é que, de antemão, desautorizo qualquer uso do meu texto para atacar as escolhas estéticas da literatura de Elisa Lucinda. Explico, existe uma moçada que a critica porque ela não se posicionaria como um certo modelo de escritora negra imbricado com o ativismo político de combate ao racismo por meio da literatura. Elisa, então, é acusada por muitos de "não ser negra mesmo". Acho isso uma grande bobagem e defendo seu direito de escrever o que quiser, quando quiser e como quiser, embora saiba que ela não precisa de mim para defendê-la, mas faço esta afirmação, para desautorizar a utilização de meu texto para esse tipo de finalidade.

Ora, se cada um tem o direito de escrever o quiser, não é contraditório que estejamos criticando Falabella? E mais, por que o programa seria famigerado, antes mesmo de ir ao ar?

Cada um tem o direito de escrever o que quiser e a recepção ao texto também tem o direito de reagir e se posicionar como achar mais conveniente.  

O texto é famigerado pelo próprio título, Sexo e as negas, exemplarmente discutido por Fabiola Oliveira ao explorar as conexões entre as palavras sexo e negas, em diferentes imaginários, a ver.

No imaginário da mulher negra, historicamente vilipendiada pelo racismo e suas múltiplas manifestações, o estupro de escravizadas por escravizadores é um fantasma acordado pelo título da série televisiva. A hipersexualização de seu corpo também pesa nas costas da mulher negra de maneira incompreensível ao coração suburbano cego ao espectro de solidão e abandono que persegue as mulheres negras comuns.  

O imaginário branco, por sua vez, vincula a hipersexualização do corpo negro ao sexo fugaz, pago, superficial, descomprometido e muitas vezes violento. Os sentimentos de amor, respeito, cuidado, cumplicidade, não são associados ao corpo da mulher negra de todo dia, aquela que não usa o botox da resignação para enrijecer os músculos do riso e gargalhar, mesmo quando destruída pela humilhação e dor impostas pelos inofensivos corações suburbanos.

Em última instância, os dois imaginários, o negro banhado pela dor da experiência, e o branco, pautado por estereótipos racistas, desqualificam e reduzem o sentido do sexo pleno quando atrelado às mulheres negras, chamadas por Falabella de negas. Como argumenta Fabíola, "o sexo com a mulher preta é o que permite a violência, o escárnio, a insensibilidade e a relação mercantil. Mulher preta que reclama atenção emocional geralmente é rechaçada e posta no seu lugar de “mula”. O sexo com a mulher preta quase nunca dialoga com a beleza ancestral desse corpo. Nunca é o sexo simbólico: é sempre aquele no escuro dos becos, ou no silêncio do adultério. A mulher preta é sempre a outra, a coadjuvante – protagonista apenas nas questões fisiológicas, com todo o seu aparato emocional e humano desconsiderado. Isso dilacera o imaginário da mulher negra e alimenta perversamente o imaginário branco."

A defesa de Elisa Lucinda a Falabella, propriamente, de certo ponto de vista, parece-me algo compreensível. Falabella é seu amigo, etc, e, se não formos nós a defender os próprios amigos, quem o fará? E devemos fazê-lo, principalmente quando compartilhamos seu ideário. Essa concordância fica patente na defesa da poeta ao autor global. Entretanto, daí a querer que nós compreendamos e aceitemos as boas intenções do alardeado coração suburbano do moço vai uma distância sideral.

Vejamos: lidar com a não intenção de discriminar do discriminador, à medida que, efetiva e impunemente  discrimina, faz parte do rol de afetos correlatos ao racismo brasileiro. E, ironicamente, as práticas discriminatórias bem intencionadas não soam falso como o assassino que declara "eu não tinha intenção de matar, mas, num momento de privação de sentidos, atirei na cabeça da pessoa, ou joguei a criança da janela do quarto andar." Não! Discriminar racialmente e negar a discriminação faz parte da liturgia do racismo brasileiro, porque, por aqui, a gente é submetida ao absurdo cotidiano de provar que o racismo existe e de demonstrar que determinados comportamentos que, em qualquer lugar do mundo seriam entendidos como manifestações racistas, aqui são absolvidos pela intenção de não discriminar. Havemos de concordar que a suposta intenção de não discriminar tem sido ferramenta eficiente de proteção ao racismo institucional. Tipo, eu evoco num título de programa de TV a lista de estereótipos embasadores da hipersexualização da mulher negra, mas não tenho a intenção de discriminar porque não sou racista (solidariamente gero emprego para artistas negros) e, não sendo racista, como é que posso discriminar alguém? Eu com meu coração grandão e suburbano... vocês é que não sabem rir, não têm humor! Façam-me o favor.

Aliás, por falar em falta de humor dos negros estereotipados e riqueza de humor dos brancos que estereotipam, Luanda Nascimento foi precisa: " A maioria dos humoristas brancos no Brasil não cumpre o papel do humor: distensionar.  Pelo simples fato de não aplicarem a primeira lição do Clown, hiperbolizar e ridicularizar suas próprias idiossincrasias.  Ao ridicularizar o preto que é historicamente oprimido no Brasil, não há nenhum distensionamento, apenas reprodução de racismo com "licença poética". Ao ridicularizar o gordo sendo magro, quando o padrão biotípico é da magreza, não se produz distensão, mas tensão para quem normalmente já é estereotipado. Ao se valer da imagem do morador 'do asfalto' (com coração suburbano, acrescento) sobre o que sejam costumes, hábitos e vivências da favela não se produz humor, se produz estereotipia higienista social.”

Poxa, acho desleal que Elisa pergunte, num texto apressado e mal escrito (desalinhado de sua escrita habitual) por que a comunidade negra se cala diante da ausência de negros na TV, porque não é verdade. Faz-se muito barulho. Talvez, antes de o amigo Falabella ser atingido, Elisa não tivesse ouvido o clamor da comunidade negra pela presença (qualificada, protagônica, digna) de atrizes e atores negros na TV, via posts na internet, discussões em bares, salões de beleza, em salas de aula, monografias, dissertações, teses, artigos científicos e de opinião, na literatura e dramaturgia negras, em ações específicas e repetidas do Movimento Negro. Talvez nunca tenha visto a comunidade negra que consome no Saara e na 25 de Março apoiando os modelos negros que exigem espaço profissional nas grandes feiras de moda, como a São Paulo Fashion Week.

Existe um mundo negro pautado pela noção de pertencimento a uma comunidade de destino, que luta por seus indivíduos encrustados e isolados nos mais diversos setores sociopolíticos, simplesmente porque eles integram um só povo, o povo negro, enquanto outros irmãos e irmãs se dissolvem e se perdem no mundo branco. Parece-me que falta a esses negros imiscuídos no mundo branco dizer a que vieram e ter a coragem de pautar a questão racial em seu cotidiano (é chato, cansativo e desgastante) para além do sentimento de agressão injusta aos amigos brancos. A tal comunidade negra, a seu turno, tem bradado há décadas por negros que não estão nem aí para ela e continuará a fazê-lo, porque sabe como o racismo opera e, por isso, não virará as costas aos negros, em nome dos brancos amigos.

Não sou público para a série Sexo e as negas. Não sou profissional de comunicação que por dever de ofício precisa assistir esse tipo de programa, embora tenha dedicado um livro inteiro a discutir, por meio da criação literária, a mídia e as relações raciais ali representadas, especialmente em produções dramatúrgicas globais que assisti atenta, critiquei e elogiei. Sou criadora, escritora e não demonizo a televisão, assisto o que me interessa e meu tempo permite. Quando tenho televisão, é verdade, porque, no momento, tenho tanto trabalho criativo a fazer e tão pouco tempo disponível para realizar, que optei por não ter uma.


Gosto de textos poéticos, com inovação de linguagem, bons diálogos, dramaturgia criativa. Meu tempo é precioso demais para desperdiçar com humor abjeto e diálogos boçais de cristalização do olhar branco sobre a miséria da vida do negro. Definitivamente, esses programas enlatados pela fórmula do riso fácil, do sucesso junto ao público que se acha desprezível e por isso acha graça em se ver desprezado, não me fisga como telespectadora.

Crônica de Mariana Assis


"Espero que o povo negro não recue diante das ameaças e dos discursos condescendentes e vozes suaves que tentam nos convencer de que mulheres negras vulgarizadas, blackfaces, homens negros criminosos e viciados, ausência total de famílias negras, etc é apenas arte, licença poética, liberdade de expressão e o diabo. Não podemos aceitar mais piadas, assédio sexual disfarçado de elogio ou qualquer outra forma de nos colocar de volta nas senzalas culturais em que o racismo à brasileira nos mantém encarceradxs."
Estamos em momento bastante delicado para o Movimento Negro e as mídias. Parece-me que a liberdade e capacidade de expressar ideias e mobilizar lutas que a internet vem nos oferecendo está incomodando mais do que imaginávamos. Enquanto estávamos nos revoltando contra Neymares e Pelés da vida, ou seja, contra os nossos, tínhamos uma gama de progressistas de esquerda ao nosso lado, lutando contra o racismo e empunhando nossas bandeiras. Mas agora a capacidade de mobilização negra nas redes sociais chegou à Casa Grande e aí já é vandalismo!! Agora a luta é contra o inimigo de terno e gravata que garante emprego e rendas gordas para esses mesmos progressistas.
Estamos vendo uma verdadeira campanha em defesa de Miguel Falabella e sua série de mal gosto e preconceituosa. Ouvir Jean Wyllys defender o seriado e tentar mostrar ao MN o que é ou não racismo, foi de cortar o coração. Ainda mais com o argumento de que Falabella não é racista, pois oferece espaço para negros em seus trabalhos. Ainda devemos agradecer por sermos faxineiras ridicularizadas, cabelereiras que alisam cabelos crespos e os ridicularizam, mulheres vulgares e sem futuro??? Acho que não!!! Ou pior ainda, disse que não soubemos avaliar a série, pois não vimos os episódios. Vimos e não gostamos mesmo, nem estética, nem politicamente, mas somente o título já foi ofensa suficiente.
Para arrematar, colocaram Camila Pitanga, uma das poucas referências sérias de mulher negra que temos na TV, para fazer coro com outra raridade, Sheron Menezes (que já andou papagaiando auditórios racistas em outras ocasiões) e defender uma série que, sequer, assume as quatro negras como protagonistas. Seria melhor se ele tivesse dado outro nome e centrado a série na vida sexual de uma mulher pobre e de meia idade, a verdadeira protagonista da história Jesuína (Cláudia Jimenez), única personagem bem construída da história. Dizer que as negras são as protagonistas é um misto de oportunismos: por um lado explora seus corpos para atrair, pelo apelo sexual, o público que verá a história de Jesuína e por outro tenta parecer generoso e um combatente do racismo ao dar esse suposto protagonismo às negras.
Acho triste ver tanta gente inteligente transformando nossa luta em uma batalha moralista e, até mesmo, ditatorial (Ditadura é a palavra da vez, estão disputando quem entende menos seu sentido). Tentando nos colocar na posição de censores de pobres humoristas que apenas reivindicam o direito de humilhar e degradar publicamente grupos sociais inteiros para garantir diversão e a dose diária de alienação necessárias à família brasileira.
Espero que o povo negro não recue diante das ameaças e dos discursos condescendentes e vozes suaves que tentam nos convencer de que mulheres negras vulgarizadas, blackfaces, homens negros criminosos e viciados, ausência total de famílias negras, etc é apenas arte, licença poética, liberdade de expressão e o diabo. Não podemos aceitar mais piadas, assédio sexual disfarçado de elogio ou qualquer outra forma de nos colocar de volta nas senzalas culturais em que o racismo à brasileira nos mantém encarceradxs.

13 de nov de 2014

Lançamento do livro inédito de Carolina Maria de Jesus: Onde estaes Felicidade?


Carolina faria 100 anos.... Nós ganhamos este presente!
Vem buscar o seu e comemorar conosco.

Coletivo Perifatividade e a Me Parió Revolução têm a honra de convidar a tod@s para o Sarau Perifatividade: Lançamento do Livro Onde Estaes Felicidade, de Carolina Maria de Jesus (Org. Dinha Maria Nilda e Raffaella Fernandez ).
O livro - que homenageia o centenário de nascimento de Carolina - é composto por dois textos inéditos de sua autoria, uma pequena fortuna crítica e ainda um ensaio fotográfico (Sandrinha Alberti) sobre as favelas na atualidade.
Trata-se de um livro feito a muitas mãos, com a colaboração de mais de 100 pessoas - entre sonhar, planejar, executar e investir tempo e dinheiro. Trata-se de um livro único
E o melhor: Graças às parcerias com a Fundação Cultural Palmares, Ciclo Contínuo Editorial e graças à colaboração de tantas pessoas, o livro será distribuiído gratuitamente.
Venha comemorar conosco.

Participação com textos críticos: Flávia Rios, Miriam Alves, Geny Guimarães, Hildalia Fernandes (versão eletrônica), Mariana Santos de Assis, Fernanda Matos e Sergio Barcellos

25 de out de 2014

Uma palavra sobre corrupção e política brasileira



Poderia escrever muito sobre o tema, mas não o farei agora. Quero apenas registrar um flash do último debate entre os candidatos à Presidência na eleição de 26 de outubro. Eu tive muita vontade que a Presidenta Dilma explicasse como ocorre a corrupção na efetivação das políticas sociais. Quando ela começou a falar do Minha Casa Minha Vida e mencionou o critério do sorteio como recurso para impedir a escolha de beneficiários por critérios escusos e eleitoreiros, pensei, agora vai! Mas não foi, não deu tempo ou ela optou por outro caminho explicativo. Gostaria que ela evidenciasse como as políticas sociais são utilizadas em governos da velha política, como a maioria dos governos do PSDB, em todos os níveis, como moeda de troca por votos. Como os exemplos criados por Aécio são frequentes na história do PSDB. Eles podem acontecer no PT e em outros partidos de esquerda? Sim, seguramente! Entretanto (e aqui discordo da maioria dos meus amigos petistas), quando um peixe pequeno vê um tubarão preso, punido por roubar, por corromper, ele pensa assim: "poxa, se isso aconteceu com ele, imagina o que pode acontecer comigo." Em que pese sabermos que existe disposição para julgar petistas, condená-los e divulgar exaustivamente a sentença, na mesma proporção em que existe disposição para proteger os psdebistas da ação da lei. Então, fico com minha consciência muito tranquila ao votar no PT, pois não apoio, tampouco aprovo corrupção, venha de onde venha, e me dá alento ver pessoas que tiveram culpa comprovada, presas, pertençam a que partido pertençam. Eu queria (e quero) ver o julgamento e a prisão do pessoal do mensalão do PSBD também, Renato Azeredo, Aécio Neves, Aloysio Nunes e toda a turma. 2015 nos aguarda!