Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de jan de 2014

O primeiro beijo (sem censura) entre mulheres na TV brasileira

Por Cidinha da silva em 22/05/2009

 

Depois de longa espera aconteceu o primeiro beijo entre duas mulheres em uma série de TV brasileira. Em novela anterior um casal de lésbicas assumidas explodiu, noutra, o casal de jovens amantes precisou se transformar em Romeu e Julieta para dar um “selinho”, outras se beijaram por acidente e assim por diante. 
O beijo foi indolor, inofensivo, e aconteceu durante o terceiro episódio da série policial Força Tarefa da Globo, dia 02/05/09. Ponto para a teledramaturgia  brasileira, ponto para os dois roteiristas, os escritores Marçal Aquino e Fernando Bonassi. Entretanto, os elogios à cena não podem encobrir as falhas de roteiro (direção ou edição, não sei) do episódio, vejamos. 
Findo o bafafá da retomada do morro pela gang do traficante Exu, a gang miliciana que ocupava a área é desbaratada e capturada pela turma de policiais honestos do coronel Caetano (Milton Gonçalves, o Morgan Freeman do Brasil). É a vez do conflito amoroso do dia: Jaquinha, corruptela carinhosa de Jaqueline (Fabíula Nascimento), inventada por seu criativo e delicado namorado, o tenente Wilson (Murilo Benício), cobra satisfações do policial pois acha que ele vive um caso com a sargento Selma, representada pela ótima atriz Hermila Guedes (O céu de Sueli e Baixio das bestas). O motivo da dúvida é que, como componentes da equipe de tiras honestos, os dois (Wilson e Selma) foram morar na favela para filmar a movimentação da milícia e traçar estratégia para pegá-la com a boca na botija na prática de extorsão aos moradores. Para segurança da própria Jaqueline, ela não sabia de nada (o roteiro não nos diz isso, nós é que deduzimos) e desconfiada do namorado que transa, mas não dorme com ela, segue-o no táxi de um motorista amigo. 
Chegando ao morro, ela é interceptada pela milícia e, sem saber,  entrega o namorado aos bandidos, pois, na tentativa de furar a barreira, muito ingênua e honesta, ela diz aos milicianos que está indo ao encontro do namorado, um policial, para flagrá-lo com uma “vadia” (eles achavam que o tenente Wilson era taxista). 
A casa caiu. Os milicianos invadem o local, armados até os dentes e Jaqueline, serena, como se as armas fossem de brinquedo, desvencilha-se dos braços do miliciano sub-chefe e joga-se em cima da sargento Selma, chamando-a de vagabunda e quetais. O tenente Wilson diz que vai contar toda a verdade (para garantir a segurança de Jaquelime) e pede para que os caras a liberem. O sub-chefe aproveita para tirar a sargento Selma da sala, levá-la a um beco e tentar estuprá-la. No início do capítulo o sub-chefe havia demonstrado interesse sexual por Selma e ela, fingindo-se boa moça, disse que o irmão (Wilson) não a deixava sair à noite. 
Mas, e o beijo entre as moças, Jaqueline e Selma? Conto daqui a pouco. Falemos ainda dos furos do roteiro. Jaqueline é construída como uma mulher estúpida, incapaz de pensar. Cega de ciúmes, ela não se apavora com as armas, com os tiros dos milicianos, não raciocina um segundo sequer e entrega o namorado. Ao entrar na casa, mesmo sob a mira de uma arma, o ciúme lhe dá super poderes, ela se livra de um homem armado, bem mais forte do que ela e se joga sobre Selma, uma policial de elite, treinada no mínimo para se defender, mas facilmente derrubada pela frágil namorada do colega  em franco delírio. 
Jaqueline continua sem raciocinar, não percebe que todos correm risco de vida ali, só se preocupa em arrancar os cabelos de Selma e chamá-la de vadia ou vagabunda, não me lembro. Nesse ínterim o sub-chefe leva Selma para um beco com o objetivo de estuprá-la. Sem possibilidade de defesa, ela encara o agressor todo o tempo, grande interpretação de Hermila Guedes. Ele manda que ela tire a roupa, ela não tira e se defende como pode. Aparece um homem, do nada, um comparsa, aparentemente, e o miliciano tarado diz: “segura aí” e entrega a arma ao bandido, para ficar com as mãos livres e tirar a roupa de Selma. Então, o super tenente Wilson aparece, dá uma coronhada no miliciano que parece desmaiar (não se sabe o que aconteceu com o comparsa, ele simplesmente some da cena). Os policiais pulam o corpo desmaiado, como fosse um saco de batatas e vão reforçar a equipe do coronel Caetano (Milton Gonçalves) que já armou o cerco sobre os milicianos. Até eu que não sou policial, nem expert em filmes policiais, sei que uma regra básica para imobilizar bandidos é algemá-los (com as mãos para trás) depois de desarmados. Isso não aconteceu com o sub-chefe da milícia. 
E o beijo? Presos os bandidos da milícia, Jaqueline e Wilson vão “discutir a relação” na frente de Selma. Esta, visivelmente irritada, diz saber como solucionar o problema do casal, ou seja, como mostrar a Selma que não tem nada com Wilson. Ela olha Jaqueline nos olhos e a beija (Wilson não vê o beijo, está de costas) e pergunta, “entendeu”? 
O tenente Wilson vai levar Jaqueline em casa e quer entrar, transar e dormir lá, mas ela o dispensa, foram muitas emoções, quer ficar sozinha. Ponto para o roteiro. Quem sabe passado o efeito da surpresa, Jaqueline não tenha gostado do beijo de Selma e reflita sobre isso?
 Em suma, uma no cravo, outra na ferradura, como contrapeso à ótima cena do beijo entre as duas mulheres, a completa pasmaceira de uma delas. Afinal, não podem deixar de nos idiotizar por completo.
Imagem: Hermila Guedes.

Lutar por beijo gay na TV? Só se for beijo grego…


Por Nilton Luz


A campanha pelo beijo gay voltou com força total na atual novela do horário das 20h da Globo, “Amor à Vida”. Como aconteceu no final de quase todas as suas antecessoras dos últimos anos. De resultado concreto até agora, apenas a promoção da emissora e a necessidade de explicar porque alguns de nós, militantes das diversidades sexuais, não aderimos a ela.

Ao invés de higienizar ainda mais Félix e Nikko, as bichas más da militância deveriam explorar a fechação do casal.
Foto: TV Globo/Estevam Avellar
O casal da vez é o ex-vilão Félix, promovido a mocinho “fofo”, segundo uma campanha pelo beijo entre ele e a “bicha burra” Nikko. O público telespectador das novelas da Globo é extramente conservador, bem diferente de produções culturais de outras tevês mundo afora, e está crescendo na TV brasileira em paralelo à expansão política e cultural dos evangélicos no país. Félix e Nikko conseguiram um feito inédito ao conquistá-los, o que reacendeu a campanha.
Inicialmente, é preciso desmistificar a ideia de que a televisão é fútil. Ela ainda é o veículo de comunicação mais influente. Como alcança todos os públicos, direta ou indiretamente, a TV é um dos principais instrumentos de formação das ideias sociais. Um beijo gay seria importante na busca pela normalização de outras afetividades.
Entretanto, parece questionável se a campanha por esse beijo gay (e não o beijo em si) é a melhor estratégia. Afinal, a campanha tem presença no cenário político. Perder ou ganhar essa batalha representará algo na correlação de forças e gerará reações na dinâmica elementar da disputa política. A questão não é se o beijo gay é importante, mas se é estratégico.
Há três razões para duvidar. A primeira é a centralidade da agenda de democratização da mídia no Brasil. Para entender, basta saber que outra emissora já exibiu um beijo lésbico, mas mesmo quem tem conhecimento desse fato reconhece que a repercussão do mesmo evento na Globo é incomparavelmente maior. O mesmo ocorreu com a primeira protagonista negra de uma novela. Por isso, a agenda prioritária deveria ser a democratização da mídia, para que outras TVs possam disputar o mercado e diversificar a produção cultural (e as ideias sociais).
A segunda é que a campanha torna latente o atraso da TV brasileira, umas das mais conservadoras do mundo. Diversas outras TVs da América Latina já exibiram beijos gays e lésbicos sem grandes polêmicas. Mesmo em caso de vitória, os fundamentalistas poderão notar a força do conservadorismo nacional, e se souberem usar isso, a balança acabará por pender para eles.
A terceira questão envolvida é o apelo reducionista de uma campanha que aborde novela, um show produzido com a intenção de exigir pouca reflexão e questionamento, abusando do maniqueísmo e das certezas absolutas. Algumas peças de campanha demonstram esse risco de apropriação conservadora, como o argumento de que as novelas ensinariam violência ao invés de ensinar o amor. Esse é o velho maniqueísmo do bem contra o mal. Aliás, o inverso da afirmação homofóbica de que as crianças vão “aprender a ser” gays, como se não “aprendessem a ser” heterossexuais. Ambos os argumentos frágeis, pois um produto cultural pode até influenciar, mas não determina caráter – nem orientação sexual. Uma campanha pelo beijo gay precisaria ser capaz de evitar essas armadilhas.
Há ainda o perfil normatizador que subjaz ao apelo reducionista. Félix e Nikko são brancos e ricos, e sofreram intervenções decorrer da trama para se adequarem ao que a emissora permite.  A campanha contribui com o amoldamento ao exibir o casal de forma tolerável ao público, na ânsia de conseguir o apoio popular. Se esse padrão se impuser, pode marginalizar ainda mais outros formas de demonstração de afeto e desejo, como o beijo por prazer e diversão. É preciso recusar a determinação de um padrão de casal gay aceitável.

A foto de capa do CD de Tom Zé conseguiu passar pela censura da ditadura. Uma paródia perfeita contra a censura da Globo.
Arte de Hugo Mansur com frase de Dário Neto.
O que passa despercebido é que Félix e Nikko são um casal fechativo, e talvez tenham conquistado o público justamente por isso. Um casal de comportamento feminino desperta o fascínio e a curiosidade heterossexual sobre quem desempenharia os papéis sexuais comuns às relações heteronormativas. Os casais gays e lésbicos de tramas anteriores, submissos às normas de gênero, não alcançaram tanta popularidade. A mensagem é simples: diferente do apelo reducionista que a Globo impõe às novelas, o público entende e até gosta de personagens que despertem inquietações, dúvidas e reflexões. Isso deveria ser explorado pela militância LGBT. O exemplo foi dado pelo pesquisador Dário Neto[i], ao propor uma campanha pelo beijo grego[ii].
Por esses motivos, alguns não aderem à campanha. Ela não é prioritária no atual estágio da luta pela diversidade sexual, não contribui para alterar a correlação de forças e ainda pode reforçar as normas que nos aprisionam. Isso não significa combater a proposta. Todos defendem o beijo gay, mas não a inclusão dessa reivindicação no topo da agenda política.


[i] Dário Neto é Doutorando em Literatura Brasileira pela USP, militante e membro do Conselho Estadual LGBT
[ii] Beijo grego ou anilingus é o sexo oral no ânus.

30 de jan de 2014

Três grandes atrizes


Por Cidinha Silva 

Kássia Kiss é a mais velha e experiente do trio. Vivenciou inúmeros papéis durante a carreira: de comerciante à dona de casa, de mulher pantaneira à socialite, de recatada à prostituta. Mulheres ricas, míticas, pobres, de classe média, trabalhadoras, escravizadoras, vilãs, mocinhas, beatas. Personagens amadas e/ou odiadas pelo público, outras que não caíram no gosto da massa, outras eternizadas no imaginário popular, tal qual Maria Marruá.

A versatilidade na atuação é fundamental para formar uma grande atriz, para explorar o repertório individual de cada artista na construção de personagens. Diversificar é a recomendação. Se um ator passa a vida prisioneiro do tipo físico, alternando papéis de criminoso ou de policial, como acontece com muitos atores negros, ele cresce pouco, quando cresce.

Patrícia Pillar é outra atriz-monstro. Não atuou tanto quanto Kássia Kiss, mas sempre deixa marcas profundas quando o faz e agora, começa a ser acionada com freqüência, a tornar-se uma atriz mais popular, porque vista pelo povo e a admiração aumenta.

Talento, aliás, burila-se com trabalho, prática, estudo, erro e acerto. Talento sem exercício não floresce, não vinga como poderia.

A terceira atriz desta crônica é Dira Paes, tal qual Elizeth, divina. Dira, depois de tantas pontas e pequenos papéis agigantados por sua atuação – quem não se lembra dela em A diarista? Eu e milhares de pessoas esperávamos para ver Solileuza, personagem de Dira que roubava todas as cenas do seriado. Enfim começa a transpor, ou começam a deixá-la transpor o cárcere geopolítico imposto à sua beleza e compleição física em cena. Aos poucos ela suplanta os papéis de moradora de favela, trabalhadora doméstica, prostituta, barraqueira, feirante, pessoa desonesta. Sua beleza madura e exuberante, sua sensualidade, também começam a ser exploradas, a exemplo do papel de socialite do sertão casada com um ricaço e amante do jovem garanhão protagonista da trama televisiva.

Foram saborosas as cenas dela, Dira, patroa autoritária, e Kássia Kiss, empregada doméstica, ex-prostituta e presidiária que passa a chantageá-la e extorqui-la escudada pelo ardil de mãe do amante. Duas grandes atrizes em duelo elegante de interpretação, no qual os gestos estudados de cada uma, mais até do que as palavras foram pontes para o brilho de ambas.

Dentre as atrizes negras que me encantam, só Camila Pitanga ultrapassou a contento os limites geopolíticos convencionalmente antepostos à fruição de seu corpo negro. Falta à TV, convidar para trabalhos múltiplos, frequentes e protagônicos, atrizes consolidadas como Zezé Motta, Elisa Lucinda e Ana Carbatti e outras, jovens e potentes, como Dani Ornellas e Érika Januza. Falta.

29 de jan de 2014

Madalena, vereadora transexual negra, e o mendigo caucasiano


Por Cidinha da Silva

Eis que o novo hit das redes sociais é um mendigo-gato de olhos azuis. As moças querem levá-lo para casa, dar leitinho na boca, banhá-lo e passar talco. Semelhante ao que ocorre com os moços presos, com penas longas a cumprir, e que arranjam casamento de dentro da penitenciária. Descolam mulheres fidelíssimas, amantíssimas, que zelarão pelo nome que o detento lhes dá, e elas, em troca, lhes darão filhos depois das visitas íntimas, que elas mesmas se encarregarão de sustentar.

Há pouco tempo, Renato Rocha, ex-baixista do Legião Urbana, foi descoberto na condição de mendigo nas ruas do Rio de Janeiro. Ele foi famoso, teve algum dinheiro, frequentou badaladas festas de embalo, teve milhares de fãs - deve ainda tê-las -, foi belo. Não me lembro de que alguém tenha querido levá-lo para casa, dar leitinho na boquinha e coisa e tal. Parece que preto mendigo, mesmo famoso, é um preto só.
As famílias de Renato Rocha e de Rafael Nunes, este o nome do mendigo caucasiano de Curitiba, têm em comum, além de serem trabalhadoras, desprovidas de lastro econômico hereditário, ao contrário dos demais membros do Legião, por exemplo, o fato de terem oferecido apoio aos dois filhos desgarrados da orientação familiar que um dia tiveram. Renato e Rafael, por sua vez, como  muitos moradores de rua, afirmam-na como um espaço de liberdade, de fuga das normas sociais que os oprimem, além de serem usuários de drogas. Existe nestas opções, quando assim se configuram, realmente, um drama humano pouco acessível a nós, mortais de vidinha organizada e previsível.
Um dia, encontrei um homem branco, caucasiano, em um galpão de seleção de material reciclável. Perguntei a amigos qual era a história dele. Havia sido empresário, me contaram. Faliu, perdeu tudo e abandonou a família, envergonhado. Antes disso, tomara o cuidado de passar a casa onde vivia com a família para o nome de um amigo-irmão sem vínculo de parentesco. Evitou, assim, que fosse penhorada junto com os outros bens para pagar dívidas, garantiu a segurança da família que, grata, um dia o reencontrou. Foram as filhas que contaram a história à assistente social e, aos poucos, tentavam se reaproximar. Ele, arredio, mal cumprimentava as pessoas, apenas selecionava o lixo, e nas horas vagas lia todas as revistas e livros com os quais se deparava. Só aceitara conversar com a filha mais nova.

Já Urinólia, moça negra, trabalhadora do mesmo local, viera da Maioba, interior do Maranhão, trazida por uma família da região de Higienópolis, bairro endinheirado da Paulicéia, para trabalhar na casa deles como faz-tudo e mais um pouco.
Ao fim do primeiro mês de trabalho, acordou com o adolescente da casa masturbando-se sobre ela. A moça gritou e naquele momento mesmo foi expulsa da casa pelos patrões. Vagou dois dias pelas ruas da cidade, bebendo restos de líquidos encontrados no caminho, até lembrar-se que tinha fome e passar a vasculhar o lixo. Depois de uma semana andando a esmo, comendo comida das lixeiras de restaurantes e procurando lugar seco para dormir, encontrou um pessoal catando latas e papelão. Perguntou se podia juntar-se a eles, foi aceita de braços abertos. Sentiu-se mais protegida, dormiam debaixo das carroças, tinham um cachorro como guardião, até que fundaram uma cooperativa e hoje ela mora num quarto de pensão, enquanto constrói a própria casa num mutirão de habitações populares.

Mas Rafael, além de viver um drama humano de brancos e negros, tem o poder de mobilizar sentimentos humanitários que só aos brancos é dado arregimentar. Refiro-me ao sentimento massivamente manifesto de que algo está fora da ordem na hierarquia da gente que vale muito e da gente que nada vale. Rafael Nunes é branco demais (disseram bonito demais) para ser mendigo.

O outro lado da moeda é Madalena, negra, transexual, eleita vereadora em Piracicaba, interior de São Paulo, ameaçada de morte caso assumisse a vaga conquistada legitimamente. Uma mulher negra que além de um pênis e um rosto marcado pela vida tem um corpo negro antimodelo que não a habilita a desfilar em passarelas ou posar nua para revistas masculinas, como fez Roberta Close, nos anos 80. Transexual branca, objeto de desejo de muitos homens socialmente heterossexuais, bem-postos e moralmente conservadores.  Se Madalena, Roberta fosse, tudo se resolveria pelo fetiche, mas uma preta transexual é inaceitável, como também impronunciáveis devem ter sido os gritos de autodefesa de Urinólia. Madalena é preta demais para ousar ser uma transexual legisladora numa câmara do interior paulistano.

Aqui, enquanto ouço as cordas sublimes do Ponteio afro para violoncelo, apuro a motivação racial desses dramas todos. A tragédia cotidiana nas ruas expõe o valor desigual da moeda do racismo para negros e brancos. É sua essência rediviva e dela ninguém escapa.

Torero: Um drible espetacular de Neymar na Receita?


Caso Neymar e a matemática da corrupção boleira
Neymar não dribla apenas zagueiros. Também dribla contratos e leis.
Na verdade, todos os envolvidos na sua ida para o Barcelona são grandes dribladores. Ou pensam que são. Como foram descobertos, não são tão bons assim.
Vamos aos números:
Oficialmente os direitos federativos de Neymar custaram 17,1 milhões de euros. Mas o total gasto pelo Barcelona, segundo o próprio clube, teria sido 57 milhões de euros. Para entender esta diferença, um sócio do Barcelona entrou na justiça pedindo esclarecimentos. E aí descobriu-se que Neymar, na verdade, tinha custado 95 milhões de euros.
Isso o transforma no jogador no mais caro da história, passando Cristiano Ronaldo, que custou 94 milhões de euros ao Real Madrid.
Dinheiro escondido é dinheiro sujo
O problema não é o preço de Neymar, mas sim, omiti-lo. Isso é sinal de que alguém levou um dinheiro a mais e quis escondê-lo.
As táticas para driblar a lei foram variadas. O pai de Neymar, por exemplo, recebeu três comissões estranhas: dois milhões de euros para que ele busque “novas promessas no Santos” (sendo que ele nunca descobriu nenhum outro jogador), quatro milhões por um suposto trabalho de captação de “contratos de publicidade com empresas brasileiras” (o que não é sua especialidade), e mais 2,5 milhões (sempre de euros) para fins sociais (sem que se especifique que fins são esses).
O curioso é que estes 8,5 milhões de euros não pedem qualquer tipo de contrapartida. Se ele não trouxer novos craques, novos contratos ou se não investir um centavo em programas sociais, não faz a menor diferença. Ou seja, é apenas um jeito de pagar por fora.
DIS que diz
Há alguns anos, ainda na gestão de Marcelo Teixeira, a DIS (braço esportivo do grupo Sonda) comprou por R$ 5,5 milhões 40% do craque. Uma pechincha espetacular, até suspeita, que certamente prejudicou o clube.
Provavelmente o Santos achou que era a hora de dar o troco, e aí maquiou a venda. Diz que vendeu o craque por 17,1 milhões de euros, com o que pagaria 6,8 mi à DIS (22,2 milhões de reais, um lucro de apenas 300%). Mas o contrato diz que o Barcelona pagará 9 milhões de euros por dois amistosos com o Santos (o que significa que o Santos vale três vezes mais que a seleção brasileira). Ou seja, foi um modo de pagar mais ao Santos pelo jogador.
E ainda houve uma estranha compra de prioridade na contratação de três jogadores santistas (Gabigol, Giva e Victor Andrade) por quase oito milhões de euros. Compra que não precisaria estar ligada à venda de Neymar.
N&N ou $&$?
Mas os números mais estranhos da venda são para a empresa N&N. Os enes são de Neymar e Nadine, pais do jogador. A empresa recebeu nada menos do que 40 milhões de euros. Mais do que o dobro dos 17,1 milhões pagos pelos direitos federativos do jogador.
Não é curioso uma empresa que não é dona dos direitos de Neymar receber mais de 120 milhões de reais?
Segundo Jordi Cases, torcedor que pediu vistas ao contrato e é um dos líderes da oposição dentro do Barcelona, parte do 40 milhões seria repassado aos bolsos de Sandro Rosell, o presidente do Barcelona que contratou Neymar.
Quando o teor do contrato foi divulgado pelo jornal “El Mundo”, Rosell rapidamente realizou o movimento de defesa padrão dos corruptos: fez ar de indignado e pediu demissão.
Rosell não cheira bem
Sandro é um velho conhecido do Brasil.
Por exemplo, você se lembra do contrato da CBF com a Nike, quando a empresa praticamente ficou dona da seleção brasileira, o que até gerou uma CPI? Pois o presidente da Nike do Brasil era justamente Sandro Rosell. E uma de suas empresas, a Uptrend, é acusada de receber R$ 25 milhões desviados de recursos provenientes de 24 amistosos da seleção brasileira.
Você se lembra do amistoso entre Brasil e Portugal, em 2008, que custou R$ 9 milhões? O dinheiro foi parar na conta da Ailanto, outra empresa de Rosell, que por coincidência tinha sede na fazenda de Ricardo Teixeira.
Aliás, a amizade de Rosell e Teixeira é muito grande. O primeiro chamou o segundo de “amigo de verdade” em sua biografia “Bienvenido al mundo real”, lançada em 2010. E, prova maior de amizade, fez um depósito bancário de R$ 3,8 milhões na conta da filha caçula do brasileiro. Um belo presente. O quê? Você acha que é divisão de propina? Ah, as pessoas não confiam em ninguém hoje em dia…

Cartas à Madame Satã / Os Crespos


28 de jan de 2014

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!


Por Cidinha da Silva

O ator da novela atirou na bissexualidade com a intenção de atingir a heteronormatividade e o tiro saiu pela culatra. É que ele pretendia afirmar a homossexualidade inequívoca de seu personagem, um homem gay que, manipulado por uma das várias mulheres más da trama destrói uma relação homoafetiva feliz, bem estruturada e amorosa, trocando-a por uma família padrão de papai, mamãe e filhinho. Impensadamente, o ator disparou “a bissexualidade não existe”.

Sim, não existe para seu personagem que é gay-gay, mas se deixa seduzir pelo jogo de aparências heteronormativo. Mas, o apressado decretou a inexistência da bissexualidade de maneira genérica e o mundo LGBT caiu sobre ele. Como tudo o que está ruim ainda pode piorar, o moço cometeu a deselegância de questionar a orientação sexual de uma cantora, acusando-a de ser lésbica e não bissexual como alardeia. Deixe a moça, rapaz! Assim fica parecendo que você a paquerou, ela não quis nada contigo e você, como o policial civil rejeitado pelo objeto do desejo ao fim da balada, meteu bala.

Uma pena! O próprio emissor despotencializou a segunda parte do discurso que era muito interessante, um crítica contumaz à estruturação e aos destinos do núcleo gay da novela dados pelo autor e possivelmente reforçados pelo diretor. O ator queria ver mais seriedade no trato dos conflitos do núcleo gay, menos pilhéria e falta de compromisso com a construção de relações familiares saudáveis entre os próprios personagens gays e também com seus familiares diretos, pais, mães, irmãos.

Entretanto, ainda que, de maneira enviesada, o depoimento bombástico do ator toca em questões submersas que a cada dia exigem a luz do dia. Por exemplo, certo aspecto bipolar de muitas mulheres bissexuais que gostam de mulheres entre quatro paredes e de homens no mundo público. Homens que são apresentados à família, aos amigos de infância, que circulam com elas, devidamente fotografados e postados na Internet. Ou ainda, o crescente número de mulheres que se relacionam homoafetivamente com outras, não pelo desejo, propriamente, mas por cansaço e frustração com os homens, suas canalhices e despreparo para viver relações respeitosas com as companheiras.

Há muita coisa nebulosa entre o paraíso do “todo mundo, no fundo é bissexual” e o inferno da “não existência da bissexualidade.” A ver! 

27 de jan de 2014

Absurdada

Por Cidinha da Silva  


– Pela milionésima vez, por favor, se amostrar, não existe. Não pega bem para você, uma pessoa formada e reformada pela universidade, usar uma expressão incorreta como essa.

– Ora veja, incorreto para mim é o que não faz sentido, se amostrar faz sentido para boa parte do país.

– Não faz sentido e está errado.

– Prismando pela gramática você pode até estar certa, mas no cotidiano das pessoas está errada.

– Por que você não usa um sinônimo mais simples da palavra? Exibido, por exemplo. Todo mundo conhece.

– Não dá, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quem se exibe é exibido, quem se amostra é amostrado.

– Compreendo. Mas, quem se exibe e quem se amostra não busca o mesmo resultado, ou seja, vender o próprio peixe? Pense bem, é melhor vender seu peixe com as palavras adequadas.

– Pois é aí que sua isca se engana, se exibir é assunto de vitrine, se amostrar é assunto de farmácia.

– Como assim? Você está me parecendo assunto de confusão mental.

– Não é que eu queira me gambá, mas confusa é você que prisma pela gramática e não entende os prismas criativos do olhar. Vou dar um exemplo para ver se te ajudo. Quando a pessoa compra uma roupa e não tira mais do corpo, aproveita e conta para todo mundo que comprou aquela peça, ela está se exibindo, é exibida. Mas quando a pessoa compra um corselet do tamanho de Minas Gerais, espreme o Pará, coloca dentro de Minas, depois vai debutar num ambiente para 20 convidados, ela quer se amostrar, é amostrada. Pensando em termos mais contemporâneos, os vendedores de shopping que olham com desprezo para os meninos dos rolezinhos e no fim das contas moram no mesmo bairro deles são exibidos. Eles acham que o nariz empinado, a gomalina no cabelo, a roupa padrão vendedor de loja de shopping e aquele olhar de conferência nojento em cada pessoa diferente do branco que eles almejam ser, faz deles seres diferentes e superiores ao rolezistas. Por outro lado, as meninas e meninos dos rolezinhos vão para os corredores dos shoppings para se amostrar, para serem consumidos uns pelos outros, são, portanto, amostrados. Percebeu a sutileza da diferença?

– Entendo, mas está errado.

– Como é que está errado se você entende? Se milhões de pessoas entendem e usam? Você não aceita a inventividade linguística do povo, isso é que é. Aceite que dói menos. Amostrar é verbo torto no breviário das conjugações e amostrado é particípio de amostra grátis! Pronto. Captou?

Anderson Silva tomba e Cauby canta Cavalo Marinho


24 de jan de 2014

Se eu aparecer morto, não foi suicídio!

Por Cidinha da Silva

Minha chance de ser assassinado antes dos 19 anos era três vezes superior às possibilidades de um jovem branco. Sobrevivi e não vou me matar.

Embora minha probabilidade de ingressar numa universidade (genérica, nem boas ou ruins) fosse três vezes inferior a um jovem branco, consegui.

Sofro muito baculejo da polícia, mas ainda não conseguiram me fazer engrossar a população carcerária e, se um dia me jogarem naquele depósito de gente, fugirei dos números majoritários dos que têm baixa instrução.

A despeito da vida de fracassos que impuseram aos meus iguais consegui superar as previsões estatísticas, mantive minha alegria de viver, não estou deprimido e não vou me matar. Definitivamente, não!

Sim, é verdade que em vários momentos da vida expus minha tristeza e solidão nas redes sociais, mas elas são consultório terapêutico de todo mundo, não só meu. Por isso, se eu aparecer morto, não permitam que eu seja suicidado. 

20 de jan de 2014

O homem de camisa vermelha


Por Cidinha da Silva

O vermelho inundava a cidade. Festa de Santa Bárbara. Pelas matas comida arriada para Iansã. Nas ruas, um ou outro espetaculoso dava santo e os mais experientes na religião meneavam a cabeça, incrédulos.

O padre salpicava água benta de Santa Bárbara no ambiente e quando respingava no povo era frequente ouvir baixinho “Eparrei Oiyá”! , era também comum uma mão espalmada e suspensa pouco acima do ombro, logo convertida no sinal da cruz.

A multidão rezava fervorosa e festeira. A chuva ameaçadora caiu e a igreja se tornou o abrigo mais cobiçado. Fiéis se deslocavam no passo das horas, resignados até chegar aos pés da santa. A visitante, extasiada, registrava cada detalhe da fé transbordante.

Há três metros do local de consagração da Santa, passa uma mulher agitada e avisa para que as pessoas tomem cuidado, um homem de camisa vermelha está batendo carteiras. Ela desdenha! Tudo era vermelho à volta.

Chega sua vez de postar-se ao pé da Santa. Toca-lhe um lugarzinho ao lado de um jovem senhor, cuja introspecção já havia merecido uma fotografia.  A posição dele é bem confortável, os braços descansam à beira do andor e a cabeça repousa entre eles. Ela segue o exemplo do homem, fecha os olhos para conectar-se completamente com o Altíssimo. Terminada a oração, sai da igreja, nos mesmos passos lentos da entrada, mais rica e alimentada pela fé coletiva.

O Sol reaparecera e ela leva a mão à blusa para pegar os óculos escuros. Não estão lá. Olha dentro da bolsa, também não. Foi furtada dentro da igreja. Que chato.

Paciência! É o que recomenda a si mesma. Entrega-se ao deleite de revisar as fotos, repara que registrou uma sequencia do rapaz concentrado, em oração. A primeira vocês já conhecem. Na segunda foto só o braço esquerdo do fotografado apoia-se no oratório, o direito pende, discreto. Na terceira imagem, a câmera flagra a mão direita dele ultrapassando o sovaco esquerdo. Nessa hora ela entende tudo. O homem de camisa vermelha.

17 de jan de 2014

A ministra Luiza Bairros é chamada de anta: o tratamento dispensado à face negra e feminina da política

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A ministra Luiza Bairros é chamada de anta: o tratamento dispensado à face negra e feminina da política

by Blogueiras Negras
ornal Metro, 17/1, coluna de Cláudio Humberto.
ornal Metro, 17/1, coluna de Cláudio Humberto.
Cécile Kyenge, Christiane Taubira e agora Luiza Bairros. Ministras de estado atacadas em sua humanidade pela comunhão estreita entre o racismo, o sexismo e a sensação de impunidade. Mulheres que se recusaram a permanecer no lugar que lhes é destinado pela branquitude abjeta que, atônita, reage por meio de xingamentos. A primeira e a segunda foram chamadas de macacas. Por aqui o xingamento foi outro, dessa vez somos comparadas a uma anta porque a ministra expressou a opinião de que os jovens do rolezinho também são vítimas de racismo.
O sujeito da agressão é Cláudio Humberto, colunista do Jornal Metro, que se sentiu confortável o bastante para chamar uma ministra de estado de anta ao mesmo tempo que defende a tese de que não existiriam brancos no país. O que está subjacente a essa mensagem é a de que se não existem brancos, não é possível existir racismo. Obviamente o tiro saiu pela culatra pois a publicação do texto em si e o xingamento são expressões de uma branquitude acrítica e despreparada para lidar com as questões raciais e que ainda se fia na impunidade para expressar suas contradições e excrecências.
É assim que o tratamento desigual dispensado a negras e negros funciona, à vontade e à luz do dia e da escrita. É por isso que trabalhamos para que ele seja denunciado e portanto combatido. Nós, um coletivo de mulheres negras de pena e teclado, repudiamos o tratamento dispensado à face negra e feminina da política. Toda vez que uma de nós chega ao poder, chegamos todas. Toda vez que uma de nós é atacada e desumanizada, somos todas. Não iremos nos calar diante desse impropério que expõe ainda mais o fato de o racismo ser uma questão estrutural de nossa sociedade, ainda afeita a comportamentos escravocratas.
O respeito à liberdade de pensamento e a imunidade de crítica não devem ser usados para defender a ideia de que o racismo é apenas uma opinião. A herança racista de um país que se diz democrático está posta, nós a sentimos na pele todos os dias quando não acessamos a universidade, quando recebemos tratamento conveniente em função do racismo institucional e quando fazemos sua denúncia, assim como o fez a ministra Luíza Bairros. Estamos falando de uma realidade muito palpável, inclusive estatisticamente.
Assim, acreditamos que o autor da fala e o jornal devem ser devidamente responsabilizados pela declaração, se não judicialmente, que sejam rechaçados publicamente. Independente da tipificação legal de crime, ética e moralmente, comete-se um delito ao desqualificar a fala de uma chefe de estado a partir da percepção de uma suposta e erroneamente presuminda incapacidade apenas pelo fato de ser mulher e negra. Será que o articulista teria chamado de “anta” um político homem e branco que tivesse a mesma opinião?

Me deixa em paz! Eu não aguento mais!


Por Cidinha da Silva

Chacina mata doze meninos em quatro horas. Três por hora, um a cada vinte minutos. Vidas abatidas para que as famílias sintam na carne o luto da vingança policial.

Jovem negro e gay é encontrado morto em uma das ruas mais movimentadas de São Paulo: dentes arrancados, rosto desfigurado, sinais de tortura por todo o corpo e uma barra de ferro enfiada na coxa.

A família, os amigos, o pessoal da quebrada, todos leem a crônica e se perguntam de que adianta repetir a narrativa do crime, repisar a dor. A resposta é que recontar não deixa esquecer e fazê-lo sem sensacionalismo evoca a desmesurada falta de valor marcada a ferro na existência de alguns seres humanos. Lembra que eles foram humanos, um dia.  Não permite que sejam soterrados na vala comum dos negros para os quais se naturaliza a morte trágica.

No caso de Kaíke Augusto, em especial, é preciso lembrar um milhão de vezes, para demarcar a impossibilidade de que uma morte assim (por traumatismo craniano e intracraniano) seja registrada como suicídio no boletim de ocorrência. É piada racista e homofóbica contra a vida de um garoto de 16 anos e daqueles que se importam com ele.

Jovens negros, maiormente heterossexuais, são mortos quando estão na quebrada, nos bares, nas ruas, em casa. São torturados quando vão aos shoppings em grupo e acusados pela esquerda festiva e pelos culturalistas de buscarem o consumo, quando deveriam buscar a cultura. Alôooooo... eles não têm dinheiro para consumir (cultura, inclusive), só o desejo e, como subproduto de sua presença nas casas de torrar dinheiro, o capital ainda deixa de vender.

Para esses meninos, vitrine de shopping é como mostruário de doceria, só pavê. São “famosinhos” digitais, conforme definição própria, querem apenas encontrar os seguidores fora da tela do computador, zoar e paquerar. Os shoppings, próximos do metrô, onde não se cobra (ou não se cobrava) entrada (só umas moedinhas para usar o banheiro) são os locais escolhidos. Milhares de jovens fazem encontros semelhantes, mas aos pretos, periféricos, funkeiros de boné e bermuda, é vedada essa opção de lazer.

Aos culturalistas, é bom informar que discurso anticapitalismo funciona melhor com quem estudou em boas escolas, nunca sofreu com dor de dente, que ganha carro de presente quando passa no vestibular, que é hippie de butique, que recebe um apartamentinho quando se casa, como facilitador de início de vida, que brinca de mochileiro na Europa e atravessa todas as fronteiras porque tem dupla cidadania. Para quem nada tem, ao contrário, direito ao consumo (ainda que na fantasia ostentatória) é item básico de cidadania. Para o pessoal da classe média é mais fácil ser confortavelmente anticapitalista.

Para quem não tem posses a herdar, lastro familiar no momento de trocar de carro, de manter-se por anos dedicado às leituras da pós-graduação, nem qualquer tipo de apoio financeiro para pequenos e grandes momentos de up grade, resta amargar os efeitos do capitalismo selvagem e sobreviver como pode.

Uns fazem saraus e outras intervenções culturais na quebrada, outros têm na comunicação digital a forma de ascensão social que permite marcar um rolezinho no shopping e migrar de “famosinho” digital para estrelinha de shopping por um dia, enquanto continuam alimentando o sonho de se tornar astros que possam comprar o shopping inteiro. Enfim, cada um constrói dignidade e cidadania a partir dos recursos garimpados em sua própria história.

Foto: Kaíke Augusto


16 de jan de 2014

A adoção de cotas prejudicou seus planos: por isso publicou anúncio de venda de negros

Responsável por anúncio racista afirma ter sido motivado pelas cotas

Adolescente que publicou anúncio de venda de negros a R$ 1 diz que foi injustiçado em prova

Rio - A desculpa dada pelo adolescente que publicou anúncio com conotação racista no site de vendas Mercado Livre foi sua revolta por não ter conseguido ingressar em um curso técnico de Informática no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) Celso Suckow da Fonseca. Segundo ele, a adoção de cotas para estudantes negros prejudicou seus planos.
Identificado na tarde desta quarta-feira pela Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), X.., 15 anos, confessou a autoria de uma postagem que anunciava a venda de pessoas negras por R$ 1. O jovem disse ainda ter usado o e-mail da irmã de 11 anos para publicar o anúncio.
Depois de duas horas de depoimento na DRCI, o adolescente foi liberado, deixando a delegacia à noite, acompanhado pelo avô e pela mãe. “Ele está arrependido do que fez. Meu filho não é racista. E pede desculpas diante das pessoas negras. Foi um ato impensado porque ele foi reprovado na primeira fase do exame”, disse a mãe, uma professora de 43 anos. Com uma fisionomia de preocupação, M. se limitou a perguntar: “Tem imprensa aí fora?”.
O adolescente foi localizado por agentes da DRCI na casa onde mora, em uma favela, e conduzido com a mãe. O silêncio no trajeto até a delegacia, na Cidade da Polícia, no Jacarezinho, só foi interrompido pelas lágrimas. “Ele não tem nenhum histórico de agressividade. No seu perfil, não há nada que indique preconceito ou racismo”, explicou o delegado Gilson Perdigão, da DRCI.
O caso repercutiu há duas semanas, quando internautas divulgaram o episódio. Como o autor é menor de idade, o caso foi registrado como ato infracional, enquadrado no Artigo 20 da Lei 7.716, por ‘praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. X. será encaminhado à Vara da Infância e da Juventude.
Garoto tinha esperança de não ser identificado
Em depoimento, a mãe do adolescente disse que só ficou sabendo do envolvimento do seu filho no episódio no último domingo, devido à repercussão do caso. Ela contou que pretendia apresentá-lo numa delegacia, mas ele teria pedido para esperar, porque tinha a esperança de não ser identificado. Em meio ao depoimento, o garoto chegou a ser repreendido pelo avô: “Você não pode falar de negros. No Brasil, todo mundo é mestiço.”
O adolescente foi localizado por meio de uma ronda virtual, com o cruzamento de dados numa rede social da internet. O método de rastreamento, segundo o delegado Gilson Perdigão, é mais trabalhoso, mas evita um rastreamento feito com base em ordem judicial.
O caso também está sendo acompanhado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que divulgou uma nota ontem elogiando a Polícia Civil, por identificar ‘de forma rápida e diligente o responsável pelo anúncio racista.’
A Secretaria também cobrou providências do site de vendas Mercado Livre pelo episódio. Depois do alerta dado pelos próprios internautas, o site removeu o anúncio do seu conteúdo.
HERCULANO BARRETO FILHO  do O DIA.
Imagem da Internet