Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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21 de fev de 2014

Socio-lógica do rolezinho


Por Muniz Sodré em 04/02/2014 na edição 784 / Observatório da imprensa
Desde junho do ano passado, cada nova forma de manifestação coletiva que parece assombrar as ruas e aturdir a imprensa é uma demanda implícita de nova chave explicativa para o fenômeno. As chaves costumeiras (“o que pretendem os manifestantes”, “a que servem” etc.) não dão mostras de funcionar, porque as manifestações parecem buscar sentido em si próprias, tal qual imagem de espelho.
Um bom exemplo é a “finalidade” como linha de explicação, isto é, como tentativa de esclarecer um ato ou uma atitude qualquer pelo objetivo buscado. Em junho, havia uma finalidade econômica na luta pela redução no preço da passagem de ônibus em São Paulo, mas foi logo superada pelo contágio social de ações contidas em si mesmas, embora com um escopo sugestivo de mudanças globais. Também o posterior quebra-quebra dos black blocs escapava a qualquer finalidade política identificável.
Agora, há o “rolezinho”, que inquieta – pasmem – o próprio Palácio do Planalto. Apesar das sugestões de generalização (o contágio viral da internet), é originalmente um fenômeno paulistano, que comporta, para início de esclarecimento, a categoria “espaço”, ainda não suficientemente abordada em sua diferença com o Rio de Janeiro.
Por isso, é útil atentar para distinção que fazia o pensador Félix Guattari entre “espaço estriado” (ou “áreas territorializadas”) e “espaço liso”. No primeiro caso, trata-se de uma área de sentido denso, pela presença de símbolos étnicos, religiosos ou culturais de todo tipo. Já o “liso” tem a ver com “um espaço desterritorializado, onde não há mais os mesmos tipos de circunscrições ou delimitações por emblemas étnicos ou religiosos, por exemplo”.
“Minorias flutuantes”
Por mais penosa que seja e tenha sido a vida das classes pobres das favelas, o Rio de Janeiro sempre se caracterizou por uma proximidade ambígua entre o Morro e o Asfalto, favorecida pela topografia específica da cidade. O historiador do samba José Ramos Tinhorão descreveu-a como uma “promiscuidade vitalizadora” – topográfica, errática, não deliberada – que permitia um certo interculturalismo entre membros de classes sociais diferentes: jovens de pele clara, “filhos de família” em contato com negros e mestiços que detinham a “chave folclórica” das festas e ritmos populares, inclusive do próprio samba.
São essas “estrias” ou marcas de singularidade humana que transformam o espaço em território. E apesar da atual transformação da metrópole carioca em megalópole, algo permanece dessa velha densidade simbólica que preserva alguns traços territoriais, a despeito das mutações provocadas pelo tráfico de drogas e pelo recrudescimento da violência.
São Paulo sempre teve certamente cruzamentos sociotopográficos entre suas “colônias” de imigrantes tanto de origem estrangeira quanto interna, de outras partes do país. Disso um resultado cultural admirável é a música de gente como Adoniram Barbosa, Paulo Vanzolini etc. Mas hoje, gradativamente, o espaço global da cidade é descrito pela imprensa como “liso”, sem pontos simbólicos de intersecçãoperceptíveis entre as classes sociais, principalmente para os jovens. De fato, a megalópole “sem praia” (como se tem acentuado) estende-se homogênea e horizontalmente, sem uma síntese capaz de incluir a diversidade cultural das zonas periféricas. Até mesmo os shoppings, que são núcleos de apropriação indiferente de consumidores, deixam transparecer a distância entre a periferia espacial e o centro nervoso da cidade.
O problema está em se saber que distância é essa.
A se julgar pelas imagens midiáticas dos figurantes do rolezinho, os chavões explicativos do tipo “excluídos do consumo” são descartáveis. Os implicados parecem bem incluídos nos padrões médios de consumo, com roupas e tênis de grife, além de acesso à internet. E como a maioria dos “incluídos” de hoje, não protestam nem reivindicam coisa alguma. Alegadamente, eles querem apenas divertir-se.
E o problema, então? Econômico não é, político-partidário não é, criminal não é, mas é certamente territorial e estético ou estésico. Aqui, o aspecto territorial diz respeito à falta de uma densidade simbólica (por exemplo, uma tradição étnica, ainda que eventualmente desprezada pela ideologia dominante) reconhecível.
Ao mesmo tempo, é possível encontrar na estesia (no caso, talvez este termo seja mais adequado do que a estética), portanto, na esfera dos gostos, dos juízos de aparência e nas emoções, uma chave explicativa adequada. Exibir-se ou ostentar as aparências de indivíduos inseridos no consumo torna-se imperativo num tipo de sociabilidade “lisa”, mas vetorizada pela sincronização digital das emoções – pela internet. A essa sincronização virtual corresponde uma fragmentação bastante real no nível das relações de trabalho, de família e de vizinhança.
Na concretude do território físico, a distância social se mostra (ali não há morro perto de asfalto). Mas graças ao “território” do consumo – onde identidades tentam forjar-se no enlace amoroso de pessoas e objetos – e ao espaço demarcado da rede eletrônica, os jovens são compelidos a romper os limites geográficos dos bairros periféricos e os percalços da fragmentação social para se fazer reconhecer na “praia” do consumo, isto é, no shopping.
Só que isso não é feito no modo objetivo e isolado do consumidor padrão, e sim em grupo. Findas a era e a ideologia do consumo de massa (típicas da segunda metade do século 20), viceja agora o individualismo de massa, que favorece o florescimento de “coletivos” ou de “galeras” sem verdadeiro espírito de grupo, ou seja, sem estabilidade identificatória. Comunidade, se há, é apenas no plano das emoções.
A isto se tem chamado de “minorias flutuantes” [cf. Raquel Paiva em “Minorias flutuantes: Novos aspectos da contra-hegemonia. Revista /Animus (UFSC), 2002, p. 9]: coletivos que podem mostrar-se e desaparecer depois como um objeto no mar. Trata-se afinal de diversão pelo autorreconhecimento ou pelo instantâneo reconhecimento mútuo.
Papel da imprensa
O rolezinho é uma espécie de selfie grupal.
Só que é difícil acomodar grupos no espaço exíguo do shopping, programado para atos igualitários, mas individualizados na compra ou na contemplação de vitrines. Uma boa questão é a de se saber qual seria a reação a grupos compactos de jovens de pele clara ou brancos brasileiros. É certo, porém, que o colorido e iluminado igualitarismo daquele espaço é infenso à gradação forte dos fenótipos, isto é, aos coletivos “escuros”. Em si mesma, a arquitetura do shopping (recorde-se Le Corbusier: “É preciso matar a rua!”) embute preconceitos. É uma arquitetura de bunker, em que se faz inerente a repulsa à diversidade.
O espírito que preside a tudo isso é global, porque sem educação de qualidade que garanta a entrada de todos na ordem da produção, cabe ao “resto” histórico a inserção social pelo consumo. É o único caminho aberto pela ideologia neoliberal às massas, que anseiam pela confirmação coletiva de sua condição consumidora. O consumo é um território novo, onde o factício é fato social, e o virtual aspira à realidade.
Isto é geral, vale repetir, mas em alguns dos fenômenos ancorados no artificialismo desse território, há particularidades locais, como o rolezinho, que é originariamente paulistano. É preciso frisar o “originário”, uma vez que, em tempos de internet, o local pode tornar-se rapidamente global pelo contágio viral das redes sociais. A mídia corporativa também contribui para isso na medida em que exagera o microevento, fazendo-o repercutir como grande notícia e ampliando, com um pano de fundo paranoide, as suas dimensões. Em outras palavras, a mídia tradicional também “sugere” a ubiquidade do evento.
Mas pode acontecer que, na mudança de local, reste do fenômeno apenas o nome. No Rio, trata-se de “apoio”. Segundo a imprensa, o rolezinho que levou ao fechamento do Shopping Leblon no dia 19 de janeiro, um domingo, e causou a queda de 60% do comércio no feriadão tinha como objetivo apoiar a “galera” de movimento semelhante em São Paulo. Era gente com curso superior completo (63%) e residente, em sua maior parte, na Zona Sul do Rio. Em suma, era gente do “filé” existencial, que estava ali para “protestar”, como foi declarado numa pesquisa.
Desde junho passado, como se sabe, protestar é um verbo que dispensa preposição e objeto. Pode-se protestar contra tudo, até mesmo contra a chuva que inunda e arrasa casas em bairros pobres. À primeira vista, seria insensato protestar e queimar veículos por algo que depende em termos imediatos da natureza ou, em termos mediatos, da imprevidência do Estado. Mas já faz parte da percepção pública a evidência de que a insubordinação das ruas causa um tipo de medo que atrai a mídia e, em consequência, a atenção dos poderes constituídos.
O medo é, assim, um grande vetor de ações. No shopping ou na rua, gente aglomerada e com “cara de povo” (a estesia ostentatória do consumo não apaga a diferença étnica) acaba provocando medo. É este o sentimento patético que transparece em comentários de jornais ou em colunistas de revistas, supostamente avançados e cultos. As ditas altas autoridades do país não ficam atrás: de olho na Copa, há quem pense em demarcar zonas de protesto (o Ministério da Defesa afirma que não é sua esta ideia) como se demarcam zonas de festa – fan protest, assim como fan fest. O fato, entretanto, é que comerciantes paulistanos e representantes do rolezinho já se reuniram para negociar a institucionalização do evento. Na certa, aviso prévio, menos gente, menos tempo, menor espaço.
Se existe sambódromo, por que não um protestódromo?
O que fica mesmo evidente é que, nesta nova ordem social em que as emoções são globalmente sincronizadas pela internet, o pânico pode ser manejado também pelas massas como uma espécie de trunfo na manga contra a indiferença do poder de Estado às condições reais de vida. Por sua vez, entretanto, o mesmo Estado administra vários tipos de medo – a depredação das garantias trabalhistas, as ameaças veladas ao regime das aposentadorias, a insegurança das ruas etc.
Uma imprensa capaz de ponderar e de orientar seria um antídoto razoável para a síndrome de confusão dos juízos avaliativos das mudanças e tensões que vêm aturdindo os grandes espaços urbanos. Para tanto, imprensa teria de ser algo muito diferente de shopping, quer dizer, algo além da mera oferta de objetos, serviços e shows. Sem reflexão e ponderação públicas, outros fenômenos dessa natureza tendem a aparecer, a irradiar-se nos espaços físicos do país e a amedrontar incautos e eleitoráveis. Afinal, quem tem Copa tem medo.
***
Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular (aposentado) da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Após pressão, tema da Parada LGBT de São Paulo muda e pela primeira vez dá visibilidade ao grupo trans


Pela primeira vez, uma manifestação pública muda o tema e contempla a sigla T

Uma petição online com mais de seis mil assinaturas causou polêmica ao pedir para que o tema daParada do Orgulho LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais] de São Paulo em 2014 fosse mudado e que, diferente dos últimos 17 anos, desse visibilidade aos assuntos pertencentes às identidades trans do Brasil. Sobretudo, ao PL 5002/2013, conhecido como Lei João W Nery, que visa reconhecer a identidade de gênero de travestis e transexuais [saiba mais abaixo]. Depois da pressão nas redes sociais – as trans diziam que eram invisibilizadas pelo evento e que somente as questões gays eram defendidas pela Parada - pela primeira vez uma manifestação muda o tema e finalmente contempla a sigla T. 

Inicialmente, a direção da Parada comunicou em nota oficial que o tema não poderia ser mudado, mas que daria um trio sobre o assunto. Depois, organizou uma reunião com ativistas na tarde desta quarta-feira, 19, recuou e entrou em um consenso. Foi decidido, então, que o tema “País vencedor é País sem Homofobia. Chega de Mortes! Criminalização já” fosse alterado para “País vencedor é país sem HomoLesboTransFobia! Pela aprovação da Lei de Identidade de Gênero Já”. 

Analista de sistemas, feminista trans e responsável pela petição, Daniela Andrade afirma que além da homofobia é preciso se atentar também para a transfobia. “Se a gente não falar em transfobia, as pessoas esquecem que sofremos opressões que as pessoas gays, bissexuais e lésbicas cisgêneros não sofrem. Por exemplo, temos notícias de gays que foram arrancados de dentro do banheiro onde foram lavar as mãos ou fazer as mesmas necessidades que os demais? Não. Já as trans sofrem com esse tipo de preconceito”. 

Ágatha Lima, militante do Conselho Estadual LGBT de São Paulo, diz que a mudança é um importante passo, uma vez que as manifestações geralmente focam na questão gay e que as pessoas trans acabam sendo invisibilizadas e esquecidas. “Muitos ainda segregam o título de Parada Gay, mas a verba e a visibilidade são para todos LGBT. Nas Paradas, vemos quase 70% dos homens gays [cis] sem camisas, mas as trans não podem se manifestar assim, pois são vistas como vulgares, mas essas pessoas esquecem de se perguntar que para a lei atual ainda somos vistas como homens. E que isso precisa ser mudado”, defende Ágatha, que comemora a visibilidade conquistada. “Hoje, as pessoas trans estão em festa por essa inclusão”.

A REUNIÃO

A reunião ocorreu na sede da APOGLBT, na Praça da República, em São Paulo, às 18h30, com cerca de 30 pessoas, dentre elas militantes como Daniela, Dennis Mitchell, Kimberly Luciana Dias, Brunna Valin, Bianca Mahafe e Marcia Lima, e organizadores da parada, como o presidente da associação Fernando Quaresma, Adriana da Silva, entre outros. 

“Primeiro, parecia mais uma briga de partido, foi defendido o tema anterior, tivemos momentos de debate intenso e de muitas cobranças ao segmento T. Mas entramos num consenso e o acordo vencido foi o da luta que já havia se iniciado na internet. Foi uma conquista porque antes nos cobravam escolaridade, participação nos espaços... E, hoje que fazemos isso, queremos visibilidade”, defende Brunna Valin, orientadora sócio-educativa do Centro de Referência da Diversidade. 

A assistente social Fernanda Moraes diz que foi entendido que um dos maiores eventos do Brasil “contribuiria para que as autoridades do mundo pensassem na questão trans. “Muitos ainda não perceberam que saíamos faz tempo do ‘armário’, armário este que nos colava na posição de coadjuvantes no movimento social organizado, que nos colocava na posição de inferiores. Antes, o discurso era de que pessoas trans não tinham estudo, não tinham nível superior, mas essa realidade mudou e cada vez mais temos pessoas trans em diversos espaços e trabalhando em diversos governos estaduais e municipais. Hoje, é preciso que comecem a falar Parada LGBT ou Parada da Diversidade Sexual, pois as paradas são para todos e frequentadas por todos". 

A direção da APOGLBT ainda não se manifestou sobre o novo tema. 

“SE A LEI DE IDENTIDADE DE GÊNERO FOR APROVADA, FACILITARÁ PARA DESENTERRAR A PL 122”

Transhomem que dá nome ao PL 5002/2013, João W. Nery – um dos pioneiros do segmento e autor do livro Viagem Solitária - diz que a organização da Parada LGBT de São Paulo acertou em concordar com a reivindicação do grupo trans. “Estava mais que na hora de reconhecer e dar importância aos TT, já que a Parada continua GGG. Até porque, se a lei for aprovada, facilitará para desenterrar a PL 122 [projeto que visava criminalizar a homofobia no Brasil e que foi apensado ao projeto de reforma do Código Penal e saiu da pauta do Legislativo]. 

Sobre o projeto de lei 5002, João afirma que significa tudo para os trans, a liberação e o reconhecimento da cidadania. “Ele garante o direito do reconhecimento à identidade de gênero de todas as pessoas trans no Brasil, sem a necessidade de autorização judicial, laudos médicos ou psicológicos, cirurgias, hormonioterapias. Ele preserva o histórico, assegura o acesso à saúde no processo de transexualização, despatologiza as pessoas trans e preserva o direito à família frente às mudanças registrais. Propõe assim, que a psicoterapia só seja feita caso o interessado assim o desejar”.

O projeto foi feito pelo deputado federal Jean Wyllys [PSOL-RJ] em co-autoria com a deputada federal Erika Kokay [PT-DF], com base na experiência da Lei da Identidade de Gênero na Argentina. 

Confira abaixo, algumas das montagens feitas por Dennis Mitchell que circularam pelo Facebook: 



 

João Nery apoiou a manifestação que pedia a mudança do tema da Parada LGBT

20 de fev de 2014

Prêmio Funarte de Arte Negra: comunicado sobre o pagamento

A Fundação Nacional de Artes, por meio de seu Centro de Programas Integrados – CEPIN, informa que todos os pagamentos relacionados ao Edital Prêmio Funarte de Arte Negra foram realizados pela instituição. Os contemplados deverão verificar suas contas correntes e entrar em contato caso seja detectado algum tipo de problema, através do e-mail cepin@funarte.gov.br. ou pelos telefones (21) 2279 8080/8082.

Uma equipe do Centro Programas Integrados da Funarte vai acompanhar a realização de todos os projetos. Para dar início a este diálogo, é importante observar as seguintes informações, previstas no edital:
1) Os projetos premiados têm até 365 dias, a partir da data do depósito do valor do prêmio na conta bancária, para realizar o projeto;
2) O projeto deve ser realizado tal como foi aprovado pela comissão de seleção;
3) Em todo o material de divulgação deverão constar os créditos do Ministério da Cultura, da Funarte e da SEPPIR, obedecendo aos critérios de veiculação das logomarcas estabelecidas, que estarão à disposição na página www.funarte.gov.br, e obedecendo às normas referentes à legislação eleitoral, no que for pertinente;
4) Nas categorias circo, dança e teatro, os contemplados deverão realizar, no caso de espetáculos, no mínimo 10 (dez) apresentações;
5) Todos os contatos, contratações, custos e encargos referentes ao desenvolvimento do projeto selecionado, inclusive o pagamento de direitos autorais e a obtenção de direitos de imagem, de acordo com a legislação vigente, são de inteira responsabilidade dos contemplados;
6) Após o prazo estipulado para a execução do projeto, o contemplado deverá encaminhar para a Funarte, no prazo de 30 (trinta) dias corridos, relatório detalhado das atividades realizadas, acompanhado de materiais comprobatórios (fotos, clipping, vídeos, materiais de divulgação etc.) e de 5 (cinco) exemplares do(s) produto(s) resultante(s) do projeto, se houver;
7) Os proponentes contemplados deverão permitir que todas as ações do projeto sejam fotografadas e/ou gravadas em áudio e vídeo por pessoas designadas pela Funarte, e que o material resultante possa ser incorporado ao acervo do Cedoc/Funarte e incluído em materiais de divulgação institucional;
Com a finalidade de dar amplo conhecimento, visibilidade e difusão de tudo o que for produzido por cada projeto contemplado – sejam apresentações, lançamentos, exposições ou qualquer outra atividade de difusão do projeto –, o Centro de Programas Integrados solicita que sejam enviados releases acerca das iniciativas para que as mesmas possam ser divulgadas nas redes sociais e no portal da instituição, com antecedência mínima de 15 dias.
O endereço para envio dos relatórios sobre cada um dos projetos contemplados é:
Fundação Nacional de Artes – Funarte
Centro de Programas Integrados
Rua da Imprensa, 16/sala 1402 – Centro
Rio de Janeiro – RJ
CEP: 202040-193
Sobre o Prêmio Funarte de Arte Negra
Lançado em novembro de 2012 pela Fundação Nacional de Artes, em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR, o Prêmio Funarte de Arte Negra vai contemplar 33 projetos nas áreas de artes visuais, circo, dança, música, teatro e preservação da memória. O investimento total é de R$ 4,440 milhões, dos quais R$ 4,3 milhões serão concedidos em prêmios de R$ 100 mil, R$ 150 mil e R$ 200 mil. Os recursos são do Fundo Nacional de Cultura.

19 de fev de 2014

Barbacena, holocausto brasileiro: 50 anos sem punição

Milhares sucumbiram de frio, fome, tortura e doenças curáveis; 50 anos depois, ninguém foi punido por este genocídio

Por DANIELA ARBEX
Não se morre de loucura. Pelo menos em Barbacena. Na cidade do Holocausto brasileiro, mais de 60 mil pessoas perderam a vida no Hospital Colônia, sendo 1.853 corpos vendidos para 17 faculdades de medicina até o início dos anos 1980, um comércio que incluía ainda a negociação de peças anatômicas, como fígado e coração, além de esqueletos. As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos, já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental, sucumbiram de fome, frio, diarréia, pneumonia, maus-tratos, abandono, tortura. Para revelar uma das tragédias brasileiras mais silenciosas, a Tribuna refez os passos de uma história de extermínio. Tendo como ponto de partida as imagens do então fotógrafo da revista "O Cruzeiro", Luiz Alfredo, publicadas em 1961 e resgatadas no livro "Colônia", o jornal empreendeu uma busca pela localização de testemunhas e sobreviventes dos porões da loucura 50 anos depois. A investigação, realizada durante 30 dias, identificou a rotina de um campo de concentração, embora nenhum governo tenha sido responsabilizado até hoje por esse genocídio. A reportagem descortinou, ainda, os bastidores da reforma psiquiátrica brasileira, cuja lei sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, editada em 2001, completa dez anos. As mudanças iniciadas em Minas alcançaram, mais tarde, outros estados, embora muitas transformações ainda estejam por fazer, conforme já apontava inspeção nacional realizada, em 2004, nos hospitais psiquiátricos do país. A série de matérias pretende mostrar a dívida histórica que a sociedade tem com os "loucos" de Barbacena, cujas ossadas encontram-se expostas em cemitério desativado da cidade.
Criado pelo governo estadual, em 1903, para oferecer "assistência aos alienados de Minas", até entã atendidos nos porões da Santa Casa, o Hospital Colônia tinha, inicialmente, capacidade para 200 leitos, mas atingiu a marca de cinco mil pacientes em 1961, tornando-se endereço de um massacre. A instituição, transformada em um dos maiores hospícios do país, começou a inchar na década de 30, mas foi durante a ditadura militar que os conceitos médicos simplesmente desapareceram. Para lá eram enviados desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive, doentes mentais.
'Trem de doido'
Sem qualquer critério para internação, os deserdados sociais chegavam a Barbacena de trem, vindos de vários cantos do país. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra, para os campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia. Os considerados loucos desembarcavam nos fundos do hospital, onde o guarda-freios desconectava o último vagão, que ficou conhecido como "trem de doido". A expressão, incorporada ao vocabulário dos mineiros, hoje define algo positivo, mas, na época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. Wellerson Durães de Alkmim, 59 anos, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, jamais esqueceu o primeiro dia em que pisou no hospital em 1975. "Eu era estudante do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Belo Horizonte, quando fui fazer uma visita à Colônia 'Zoológica' de Barbacena. Tinha 23 anos e foi um grande choque encontrar, no meio daquelas pessoas, uma menina de 12 anos atendida no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Ela estava lá numa cela, e o que me separava dela não eram somente grades. O frio daquele maio cortava sua pele sem agasalho. A metáfora que tenho sobre aquele dia é daqueles ônibus escolares que foram fazer uma visita ao zoológico, só que não era tão divertido, e nem a gente era tão criança assim. Fiquei muito impactado e, na volta, chorei diante do que vi."
Pavilhão onde internos dormiam no "leito único", nome oficial para substituição de camas por capim
Pavilhão onde internos dormiam no "leito único", nome oficial para substituição de camas por capim

Esgoto era fonte de água de internos

Entrar na Colônia era a decretação de uma sentença de morte. Sem remédios, comida, roupas e infraestrutura, os pacientes definhavam. Ficavam nus e descalços na maior parte do tempo. No local onde haviam guardas no lugar de enfermeiros, o sentido de dignidade era desconhecido. Os internos defecavam em público e se alimentavam das próprias fezes. Faziam do esgoto que cortava os pavilhões a principal fonte de água. "Muitas das doenças eram causadas por vermes das fezes que eles comiam. A coisa era muito pior do que parece. Cheguei a ver alimentos sendo jogados em cochos, e os doidos avançando para comer, como animais. Visitei o campo de Auschwitz e não vi diferença. O que acontece lá é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. Havia um total desinteresse pela sorte. Basta dizer que os eletrochoques eram dados indiscriminadamente. Às vezes, a energia elétrica da cidade não era suficiente para aguentar a carga. Muitos morriam, outros sofriam fraturas graves", revela o psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho, 80 anos, que trabalhou na Colônia no início da década de 60 como secretário geral da recém-criada Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica, substituída, em 77, pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). A Fhemig continua responsável pela instituição, reformulada a partir de 1980 e, recentemente, transformada em hospital regional. Hoje, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) atende um universo de 50 cidades e uma população estimada em 700 mil pessoas.
Capim como cama
Os pacientes da Colônia, em sua maioria, dormiam no "leito único", denominação para o capim seco espalhado sobre o chão de cimento, que substituía as camas. O modelo chegou a ser oficialmente sugerido para outros hospitais "para suprir a falta de espaço nos quartos."
Em meio a ratos, insetos e dejetos, até 300 pessoas por pavilhão deitavam sobre a forragem vegetal. "O frio de Barbacena era um agravante, os internos dormiam em cima uns dos outros, e os debaixo morriam. De manhã, tiravam-se os cadáveres", contou o psiquiatra Jairo Toledo, diretor do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB).
Marlene Laureano, 56 anos, funcionária do CHPB desde os 20, era uma espécie de faz-tudo. "Todas as manhãs, eu tirava o capim e colocava para secar. Também dava banho nos pacientes, mas não havia roupas para vestirem. Tinha um pavilhão com 300 pessoas para alimentar, mas só tinha o suficiente para 30. Imagine! Só permaneci aqui, porque tinha a certeza de que um dia tudo isso ia melhorar, sei que Deus existe."
José Machado em 1961; Machadinho, hoje, aos 80 anos. Resistência em meio século de internação
José Machado em 1961; Machadinho, hoje, aos 80 anos. Resistência em meio século de internação

Sobreviventes passaram a vida internados

"Esse faleceu. Era uma delícia de pessoa. Essa morreu. Ela benzia a gente. Lembra? Olha o Raul, que saudade. Essa era bem alegre. Esse homem era engraçado, gostava de tomar conta das portas." Os comentários deMarlene Laureano sobre os pacientes fotografados por Luiz Alfredo, em 1961, não deixam dúvida de que a história da Colônia tem na morte uma de suas principais heranças. Sobreviver à Colônia é quase como confrontar o improvável. José Machado, 80 anos, Sônia Maria da Costa, 61, Maria Aparecida de Jesus, 71, e Antônio Sabino, 70, são alguns dos que conseguiram. Institucionalizados há mais de meio século, resistiram a fome, ao frio e ao tratamento desumano, mas carregam graves sequelas.
O registro de José Machado, o Machadinho, é de número 1.530. A informação sobre ele que mais se aproxima da verdade, já que a maior parte dos pacientes não tem qualquer registro sobre o seu passado, é de que deu entrada na entidade em 1959, conduzido pela polícia, após ser acusado de colocar veneno na bebida de alguém. Inocente, passou a vida encarcerado. Hoje, aos 80 anos, precisa de uma cadeira de rodas para se locomover, mantendo-se reticente na presença de estranhos.
Sebastiana Marques está em um dos cinco módulos residenciais implantados no hospital para atender os pacientes com mais autonomia. Com diagnóstico de esquizofrenia, mantém o hábito de ficar isolada e não consegue se expressar. Já Sônia é uma exceção entre os sobreviventes. Apesar de ter chegado ao hospital ainda criança, vive hoje em uma das 28 residências terapêuticas de Barbacena. Mudou-se para lá em 2003, deixando para trás uma história de eletrochoques, agressões e medo. "Lá no hospital judiavam muito da gente. Já apanhei muito, mas bati em muita gente também. Como era agressiva, me deram muito choque. Agora tenho comida gostosa, talheres e o principal: liberdade."
Museu é tributo às vítimas
Atualmente 190 pacientes asilares estão sob a guarda do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), mas sua sobrevida é estimada em, no máximo, mais uma década. "Acredito que, em dez anos, o ciclo dos porões da loucura se fecha", afirma o diretor Jairo Toledo, referindo-se às últimas testemunhas daqueles tempos de horror. Maria Cibele de Aquino, 68 anos, foi uma das baixas mais recentes. Clicada em 1961, aos 18 anos, por Luiz Alfredo, ela faleceu em 14 de setembro, na companhia das bonecas que ninou durante toda uma vida de internação. Chegou ao hospício aos 14 anos de idade e nunca saiu de lá.
Para que a memória não seja enterrada, o Museu da Loucura vai continuar lembrando o que, convenientemente, poderia ser esquecido. Idealizado por Jairo, o museu foi inaugurado, em 1996, no torreão do antigo Hospital Colônia, e pretende ser um tributo às dezenas de milhares de vítimas da lendária instituição. Dos cinco museus de Barbacena, o que se dedica a contar a história da loucura é o mais visitado por turistas.
Em 2008, a publicação do livro "Colônia", também organizado por Jairo, expôs as feridas de uma tragédia silenciosa abafada pelos muros do hospital. "Por mais duro que seja, há que se lembrar sempre, para nunca se esquecer - como se faz com o holocausto - as condições subumanas vividas naquele campo de concentração travestido de hospital. Trazer à tona a triste memória dessa travessia marcada pela iniquidade e pelo desrespeito aos direitos humanos é uma forma de consolidar a consciência social em torno de uma nova postura de atendimento, gerando uma nova página na história da saúde pública", afirmou o ex-secretário de estado da saúde de Minas, o deputado federal Marcus Pestana. (PSDB/MG). Foi ele quem viabilizou a tiragem de mil exemplares do livro "Colônia."

Entrevista de Cidinha da Silva ao blogue Pernambuco Afro Cultural

Momento de Prosa com a Escritora Cidinha da Silva


Nós que compomos o “Quilombo Virtual” Pernambuco Afro Cultural, temos o prazer inenarrável em prosear com a irrepreensível Cidinha da Silva, que estará em nosso estado no dia 25 de fevereiro do corrente ano, lançando o seu mais novo “feito” O Livro Racismo no Brasil e Afetos Correlatos (Conversê Edições).



P.A.C Para início desta sessão de prosa, como poderemos definir a Cidinha escritora?

C.S... Sou negra e sou escritora, dois estados que me definem no mundo.

P.A.C O que inquietou você a escolher o Título Racismo no Brasil e Afetos Correlatos?

C.S... Boa pergunta (que ainda não tinha sido feita). O racismo no Brasil, diferente de outros países é impregnado de “afetos”. Diferentes, obviamente daquele afeto dirigido a quem amamos, admiramos, queremos bem, mas, o afeto do escravizador lusitano e seus descendentes pelo escravizado e seus descendentes.
Aqui é assim: a mesma pessoa que tece loas a Mandela é incapaz de agradecer o ascensorista (função esdrúxula, aliás, própria de país socialmente hierarquizado como o nosso) ou mesmo uma pessoa que trabalhe no setor de limpeza e faça a gentileza de segurar a porta do elevador para o engravatado, que, por sua vez, sequer enxerga aquela, e por isso não agradece. Ele entende que aquele ser está mesmo ali para servi-lo.
Outro exemplo é o episódio de racismo com o jogador Tinga. Duvido que um jogador mais altivo, brigador, marrento mesmo, mobilizasse tanta solidariedade. É uma solidariedade seletiva direcionada a certo perfil de discriminado. Toda essa coisa do Tinga humilhado, de cabeça baixa, incapaz de explicar ao filho (todos nós somos incapazes) a ignomínia do racismo, enternece o coração das pessoas de bem, aquelas que professam até ter amigos negros que sentam à mesa junto com suas famílias. É só comparar com altivez do Balotelli que chora de olhos abertos, encarando o opressor, dizendo a ele, “você está me matando, mas eu não caio e se cair, caio de pé”.  Balotelli não mobiliza a “ternura” do opressor. Além disso, o caso ocorreu fora do Brasil, e existe também um sentimento de repreensão ao estrangeiro (peruano) que o brasileiro médio considera inferior a ele.
Qual é a grande diferença entre Tinga e Balotelli? Entre a reação de um e a reação de outro à atitude de discriminação racial? É o ambiente em que foram criados e as ferramentas que a cada um foi permitido forjar para enfrentá-las. A Itália de Balotelli é abertamente racista, mas não o é mais do que o Brasil, a diferença é a explicitação da coisa, a compreensão que se tem lá, de que o racismo engendra privilégios para quem discrimina, na mesma medida em que subalterniza o outro discriminado.
Tudo isso forma o caldo de cultura dos afetos correlatos ao racismo, trabalhado em múltiplas dimensões neste Racismo no Brasil e afetos correlatos.

P.A.C Diga-nos, qual é impressão que você espera do público leitor, após o contato com a obra Racismo no Brasil e Afetos Correlatos?

C.S... Espero que as pessoas dialoguem com o que escrevi. Que sintam, pensem, que despertem para aspectos da vida e das relações humanas que lhes passavam despercebidosEspero também que prestem atenção ao meu trabalho de construção de linguagem.

P.A.C Há algum trecho no livro que você admire ou acha mais importante e queira destacar?

C.S... Gosto sempre dos textos em que a poesia grita, como a água que invade um ambiente passando por uma fresta improvável.

P.A.C Dentre os livros que você leu, qual foi marcante a ponto de impactar em seu novo trabalho?

C.S... Olha, impacto neste novo trabalho não consigo definir, mas posso mencionar um livro que impactou minha vida e minha carreira como escritora, Niketche, uma história de poligamia, de Paulina Chiziane. Dois outros livros também admiro muito pelo processo zeloso de construção de linguagem, Cidade de Deus, de Paulo Lins e Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

P.A.C Comente sobre sua expectativa do Lançamento do livro na Semana Pré Carnavalesca em Recife/PE?

C.S... Uai, a expectativa é que as pessoas venham para a festa do lançamento, para mim, é sempre uma festa.

P.A.C Qual o cenário/ambiente você escolhe para escrever seus textos? Isso Influencia?

C.S... A maior parte do tempo escrevo em casa (no tempo livre), uso meu computador pessoal. Eventualmente escrevo à mão, principalmente quando estou viajando (falo de escrever um texto inteiro, pois, anotações faço à mão todo o tempo). Mais eventualmente ainda, escrevo alguma coisa no trabalho. Gosto especialmente de trabalhar pela manhã e gosto de silêncio também.

P.A.C Muitos escritores tentam definir a literatura Afro Brasileira, você que produz e dar vida a essa literatura, ou Oraliteratura para alguns, como você a define?

C.S... Não defino, é algo que não me importa. Sou uma mulher negra que escrevo a partir do olhar afrocentrado que me faz enxergar o mundo. Essa é a definição do meu trabalho. O mais é um debate teórico e político que pouco me apraz (também por incompetência, não tenho ferramentas para intervir qualitativamente no tema, então, não gasto vela com defunto morto). Minha função é escrever, eu escrevo e topo discutir o mundo a partir do meu texto. Ademais, me parece que muitas vezes somos iscas de uma armadilha que rouba nosso tempo discutindo conceitos, quando as afirmações necessárias estão no texto, evasivamente deixado de lado. Acho importantíssimo que as pessoas dedicadas à construção da teoria realizem esse debate, não é o meu caso e meu tempo é pouco. Quero utilizá-lo discutindo minha obra.

P.A.C Considerando a criticidade exposta em seus escritos, o que você pretende deixar para Pernambuco com a sua passagem e seu fazer literário?

C.S... Não sei, talvez a lembrança do bom combate travado pela literatura e por meio da literatura.

P.A.C Agradecemos pelo valoroso momento de prosa, desejamos sucesso em seu caminhar literário. Que muitos feitos sejam realizados e que novas páginas sejam revistas nesse cotidiano racista ao qual estamos inseridas e inseridos.

Cidinha da Silva Obrigada, Rosangela.


Rosangela Nascimento (P.A.C) rsrs (risos) O prazer é todo nosso, em ampliarmos o olhar por meio de seus grandiosos escritos!  

18 de fev de 2014

Cidinha da Silva no boletim e portal LITERAFRO


Zumbis no blogue Salve Favela

Por Dinha (Maria Nilda)



Quando todos os meninos estiverem como insetos nas propagandas do pesticida "que mata bem morto e protege sua família"; 

quando todos estiverem devidamente detidos, devidamente linchados, devidamente jogados na vala comum da nossa paralisia;

se levantará do chão – desse mesmo onde sucessivamente as mulheres têm parido, se multiplicando em mil pra poder suprir a falta que fizeram seus maridos, seus filhos;

desse chão se erguerá uma horda de zumbis.


E vai ser um corre corre doido.


Eles vão comer teu cérebro.

Não haverá nenhum remédio, filósofo ou prefeito, capaz de deter seu rolê.

E aí, nesse mundo virado, onde a flor que se cheira não abre com medo de também ser (morta bem morta),
a hora terá chegado.

E o reino de Palmares será enfim restaurado.

Liberdade corre riscos quando não se sabe o que fazer com ela

PERIGO À VISTA

Liberdade corre riscos quando não se sabe o que fazer com ela

Por Alberto Dines em 14/02/2014 na edição 785
 
A história está mal contada. E mesmo assim a imprensa a entrega ao freguês como absolutamente verdadeira, verossímil. E inquestionável.
Dois jornalistas do Rio, ambos da Folha de S.Paulo (Janio de Freitas e Paula Cesarino Costa), não engoliram a armação (quinta, 13/2, págs. A-7 e A-2). Mas não são todos os leitores que se dispõem a ler comentários dissidentes, céticos, em textos distantes do noticiário, das fotos e da badalação marqueteira (ver “Sem resposta” e “Quem são eles?”).
Nas matérias factuais sobre a caça aos responsáveis pela morte de Santiago Andrade, transparece o desdém pela inteligência do leitor. Vale o que dizem as fontes e autoridades. Porém, tanto as fontes como as autoridades parecem empenhadas em encerrar o caso atribuindo a culpa pela violência nas manifestações a partidos e políticos de extrema esquerda.
E por que não se investiga a hipótese de que o aliciamento dos baderneiros faz parte da estratégia das milícias para desacreditar o governo estadual e as autoridades policiais?
Foi impecável o trabalho de edição e análise do material televisivo apresentado pela TV Globo no sábado (8/2) com a ajuda do perito Nelson Massini. Graças a ele foi possível identificar com incrível rapidez e chegar ao Bandido nº1, Fabio Raposo, e dois dias depois ao nº 2, Caio de Souza, corresponsáveis pelo disparo do rojão que matou o cinegrafista da Band.
Esta “incrível rapidez” é que chama a atenção. No domingo (9), o Bandido nº 1, ainda na condição de suspeito, já havia contratado um advogado, se apresentara à polícia e era longamente entrevistado peloFantástico.
Na quarta-feira (12), o Bandido nº 2 era localizado numa pousada em Feira de Santana (BA), já com um advogado a tiracolo – o mesmo do outro! – e dava entrevista à Globo antes de embarcar para o Rio sob escolta policial.
A informação de que os arruaceiros recebiam dinheiro de políticos para radicalizar os protestos foi dada por Caio de Souza e confirmada pelo advogado, Jonas Tadeu Nunes. Se ele conhecia esta conexão política, por que razão não a adiantou à polícia tão logo prenderam o Bandido nº 1?
Contra a democracia
E quem é este super-causídico que se desloca com tanta rapidez e eficiência para atender clientes aparentemente sem conexão e, de repente, implicados no mesmo crime? Jonas Tadeu Nunes não parece o clássico rábula de porta do xadrez. Tem escritório num shopping fuleiro do Recreio dos Bandeirantes, tem amigos na polícia civil do Rio, já defendeu um ex-deputado estadual (Natalino Guimarães) acusado de fazer parte das milícias e tem entre os clientes um ex-coronel da PM fluminense, exonerado pelo secretário de Segurança do Estado do Rio. Alega que o Bandido nº 1 era conhecido do estagiário do seu escritório e que chegou ao nº 2 porque eram amigos.
A suspeita de que partidos de extrema-esquerda são aliciadores dos vândalos permeia insistentemente o noticiário desde segunda-feira (10/2) sem comprovações ou indícios concretos. A presença do advogado Jonas Tadeu Nunes não despertou desconfianças.
Neste mix de tons de cinza, siglas, militâncias e agentes provocadores circula a figura sofisticada da “ativista” Elisa Sanzi, vulgo Sininho. E a partir da edição de quinta-feira do Globo, incorporou-se ao insólito grupo o ex-governador Anthony Garotinho (hoje no PR tentando chantagear o PT), desde o ano passado acusado de ser o instigador da cruzada contra o governador Sérgio Cabral Filho.
O ingrediente mais preocupante desta desconjuntada cobertura começou logo depois do anúncio da morte cerebral do cinegrafista da TV Bandeirantes, quando a mídia em peso lançou-se numa emocionada cruzada em defesa da liberdade de expressão. Na sua edição de quinta-feira (13/2), seis páginas do Globolevavam no cabeçalho o selo “Ataque à Liberdade de Expressão”, numa evidente exploração política da tragédia.
Tanto os vídeos como os depoimentos da dupla de bandidos coincidem em demonstrar que o rojão-assassino foi aceso e colocado no chão. Não foi apontado contra o cinegrafista, nem contra alguém em especial. O cadáver que se procurava era o da democracia.
A liberdade de expressão corre perigo sempre. Em qualquer momento e lugar. Mas, sobretudo, quando seus beneficiários e defensores se atrapalham e não sabem o que fazer com ela.