Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

26 de mar de 2014

Cidinha da Silva em O Estado de Minas


Racismo, ficção e realidade »

Cidinha da Silva lança o livro 'Racismo no Brasil e afetos correlatos'

Publicação é convite à desnaturalização de situações enraizadas na cultura brasileira

Diminuir Fonte Aumentar Fonte Imprimir Corrigir Notícia Enviar
Márcia Maria Cruz - Estado de Minas Publicação:22/03/2014 06:00Atualização:22/03/2014 15:10
Camila Pitanga e Lázaro Ramos em 'Lado a lado': marco na teledramaturgia brasileira (João Cotta/Divulgação)
Camila Pitanga e Lázaro Ramos em 'Lado a lado': marco na teledramaturgia brasileira
  A propagandeada diversidade étnica do povo brasileiro e o processo de miscigenação são apontados como o tecido que forma o manto da democracia racial no país. Três episódios, envolvendo jogadores e um juiz de futebol, no entanto, colocaram em xeque essa fina película de harmonia racial. Em um desses episódios, o jogador do Cruzeiro, Tinga, foi hostilizado por parte da torcida peruana, que fazia sons de macaco quando ele tocava na bola em partida contra o Real Garcilaso, em Huancayo, no Peru. Pouco tempo depois, já no Brasil, o volante do Santos, Arouca, foi vítima de agressão racista por parte da torcida do Mogi-Mirim e, na mesma semana, o árbitro Márcio Chagas da Silva foi chamado de macaco por torcedores do Esportivo em Bento Gonçalves. Como esses episódios jogaram luz a situações em que a cor da pele é motivo para o alijamento de um grupo social, o livro 'Racismo no Brasil e afetos correlatos' (Editora Conversê), de Cidinha da Silva, é um convite à desnaturalização de situações enraizadas na cultura brasileira.

Recém-lançada, a obra é composta por 37 crônicas e 17 textos opinativos reunidos pela autora. Inicialmente, os textos foram produzidos para diferentes plataformas online – blog e páginas no Facebook, em que a autora tem presença destacada. Com repercussão no ambiente digital, os textos foram compartilhados centenas de vezes e serviram de referência para debates sobre a questão racial.

O argumento central da autora aponta para a forma como o racismo se traveste, muitas vezes amparado em formas cordiais e até afetuosas de manter situações caracterizadas pela desigualdade de acesso e oportunidade dado a cor da pele e outras características como textura do cabelo, formato do nariz, entre outros aspectos da aparência. Para fazer esse exercício reflexivo, Cidinha costuma não tergiversar. Muito clara em suas posições, a escrita é reflexo de uma forma de olhar o mundo que não se pauta pela colonização das ideias. Cidinha fala de um lugar em que o negro assume o protagonismo e que não há intermediários para traduzir suas demandas e questões.

Trata-se de uma fala amparada em outras intelectuais negras como Sueli Carneiro, Leda Martins e Luiza Bairros, que está a frente da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Social, artistas como Leci Brandão e Zezé Motta, que desbravaram o campo das artes para negros, principalmente na televisão, que, conforme aponta Cidinha, ainda não reflete a diversidade da composição do povo brasileiro em seu quadro artístico. Também traz referências de Lira Marques, artista do Vale do Jequitinhonha.

Todas essas mulheres servem de inspiração para as reflexões de Cidinha, que trazem sempre o recorte de gênero, classe e raça. Como transita pela literatura, as crônicas, embora com um forte cunho político, trazem claramente uma preocupação com a linguagem. A escrita ficcional de Cidinha parte de uma visão nascida nas tradições da cultura negra, com a valorização da ancestralidade e divindades das religiões de matizes africanas. Embora as crônicas nasçam de episódios cotidianos que tocam a questão racial, a autora, vez ou outra, flerta com essa bagagem tão presente em sua obra. A cosmovisão é parte de uma construção argumentativa para desconstruir o racismo à brasileira e o que ela chama de afetos correlatos.

Por travar uma disputa discursiva sobre o que é ser negro e a importância desse grupo para a construção do Brasil, Cidinha volta seu olhar para os meios de comunicação e, como resultado de um exercício quase que diário, traz reflexões sobre como as representações são construídas. A ela interessa a inscrição pública do corpo negro seja de personalidades, como Anderson Silva; autoridades, como o presidente norte-americano Barack Obama e o presidente do STF Joaquim Barbosa; seja Madalena, a vereadora transexual negra.

NOVELA A autora também dedica boa parte de suas reflexões à novela 'Lado a lado', que trouxe como protagonistas Camila Pitanga e Lázaro Ramos. O folhetim é apontado como um marco na teledramaturgia brasileira não só por ter como protagonistas dois negros, mas sobretudo pelo esforço de recompor período posterior à abolição da escravatura sem eventuais estereótipos.

A novela é pretexto para refletir sobre relações interraciais, sobre o processo de educação de crianças negras e até momentos como a Revolta da Vacina e a disseminação da capoeira. A experiência de prosadora dá leveza ao texto, que reflete sobre questões polêmicas. Também não se exime de se posicionar em controvérsias como a PEC das domésticas ou ação do Joaquim Barbosa no julgamento do mensalão.

Seja sobre a ficção ou episódios do cotidiano, a tentativa da autora é mostrar que, muitas vezes, uma postura cordial, como a da mocinha branca assumir as dores da amiga negra que sofre racismo, pode, na verdade, ser uma forma de manter o racismo, uma vez que tal tutela nega ao negro o papel de protagonista e de sujeito na construção da sua liberdade.


Racismo no Brasil e afetos Correlatos
. Editora Conversê
. 168 páginas

25 de mar de 2014

Sangoma (Cia Capulanas de Arte Negra) e Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas (Os Crespos), dramaturgia de Cidinha da Silva em destaque na revista Raça de março


“Sangoma e Pari Cavalos têm em comum o abandono e a solidão pelos quais passam as mulheres negras e a busca do amor como forma de curar, principalmente de curar a elas mesmas à medida em que aprendem a se amar mais” (Cidinha da Silva)

“A autoestima de hoje é o velho amor próprio de nossas avós e bisavós. O enfrentamento ao racismo cotidiano que afeta as mulheres negras e suas famílias, pelas quais elas são responsáveis, rouba-lhes o tempo e o espaço do cuidado consigo mesmas, enfraquecendo o amor próprio” (Cidinha da Silva).

http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/188/a-cor-do-amor-o-cotidiano-afetivo-da-mulher-308843-1.asp

20 de mar de 2014

Curta histórias 2014

Prêmio do MEC é dedicado às personalidades negras brasileiras

quarta-feira by Ascom
A 2° edição do Prêmio Curtas Histórias propõe aos alunos contra histórias em vídeo sobre homens e mulheres negros brasileiros que atuaram para a participação negra na formação da sociedade brasileira
Buscar novos talentos do audiovisual, estimular o desenvolvimento social, acadêmico e a reflexão étnico-racial nas escolas públicas do país. São os objetivos do Prêmio Curta Histórias, desenvolvido pelo Ministério da Educação, que nessa edição traz como tema Personalidades Negras. As inscrições estarão abertas de 25/03 a 25/04/2014, no site http://curtahistorias.mec.gov.br/.
A premiação é voltada para a valorização da identidade afro-brasileira o que permitirá aos alunos conhecerem mais sobre a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil, por meio da cultura, da arte, das religiões e de importantes intelectuais negros da matriz africana.
O Festival de curtas-metragens é uma iniciativa do Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão – SECADI, Fundação Vale, Fundação Telefônica, UNESCO . A Fundação Palmares – MinC apoia o Prêmio que representa mais uma ação em torno da implementação da Lei Federal nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira na Educação Básica.
Regras de Participação - De acordo com o regulamento do edital do Prêmio “Curta Histórias” Edição 2014, poderão participar exclusivamente alunos/as de Educação Básica de todas as escolas públicas brasileiras: municipal, estadual e federal. Cada escola poderá inscrever apenas um vídeo com, no máximo, um minuto de duração, sem contar os créditos. As imagens podem ser captadas por meio de aparelhos de telefone celular ou câmeras domésticas. A premiação terá dois vencedores, um escolhido pelo Júri Popular e outro pela Comissão Julgadora Final.
Conheça os vencedores da 1ª edição do Prêmio Curta Histórias em 2013:
Para mais informações, acesse o site http://curtahistorias.mec.gov.br/

19 de mar de 2014

100 vezes Cláudia

100 vezes Cláudia

A mulher arrastada pela Polícia Militar tinha nome – Cláudia da Silva Ferreira. Cláudia também tinha família. E sonhos, coragem, dores e medos como qualquer ser humano. As denúncias da barbárie ocorrida são importantes e elas não devem cessar. Mas fugir do sensacionalismo e humanizar esse momento também é. Por isso, nos propusemos a retratar Cláudia com mais carinho do que o visto nos últimos dias.
A convite da OLGA, alguns artistas gentilmente criaram imagens sensíveis, que se dispõe a resgatar a dignidade roubada por criminosos. Este projeto se chama 100 VEZES CLÁUDIA e é aberto para que qualquer um possa enviar suas homenagens. Ou seja, esperamos publicar aqui novas artes com frequência. Quem sabe não chegamos a 100? Por fim, gostaríamos de imprimir algumas das ilustrações e enviar à família de Cláudia. Quer participar? Escreva para olga@thinkolga.com.
19) MICHELLE MORAES
Claudia da Silva Ferreira
Não sou artista e também não sei se o meu desenho será escolhido, mas isso pouco importa, porque sei que esse movimento é uma acalento e uma alerta.
18) NICE LOPES
Claudia_nice lopes
Envio minha singela homenagem à esta mulher, vítima do descaso, da falta de amor, da falta de respeito pela vida humana.
17) KEKS PUCCI
claudia08
Eu estou um pouco envergonhada de mandar meu desenho porque não sou artista e nunca desenho nada, mas a história de Cláudia me toca demais para não participar. Somos Cláudia da Silva Ferreira. PRECISAMOS ser Cláudia da Silva Ferreira para exigir que se faça justiça.

16) EUGÊNIA SOUZA
claudia07
15) MARCELO MESQUITA
claudia06
“Não se trata de saudade de alguma coisa que acabou ou pessoa que morreu. É saudade do que está aí vivo, solto e nunca deixou de existir. Se não temos acesso a isso, é por falta de uma batalha maior.” – Elis Regina
claudia (2)
13) GABRIELA CAMPANER
claudia05
12) MARÍLIA NOBRE
claudia04
11) TÂNIA RIBEIRO SOARES
claudia03
Não sou artista. Sou arquiteta. Desenhar pessoas não é o meu forte. Mas quando vi o post achei importante enviar minha singela contribuição para homenagear Claudia da Silva Ferreira, mesmo que não se publique. Por razões tantas somos diferentes, mas temos o mais importante em comum. 
Somos pessoas. E a vida de uma pessoa é sempre preciosa.

10) LEILA RANGEL DA SILVA
claudia (1)
9) EMERSON DIAS
claudia02
8) JÚLIA BORGES
Brilhará

7) VERA LIRA
179789_194764274024843_825298927_n
Claúdia Flor Criola, serenidade e força.
Claudia

5) SARA STORRER
ClaudiaSilvaFerreira
Nesse desenho, Cláudia é Iansã. Porque no fim das contas, é assim que ela tem que ser lembrada, como Guerreira. Como a força de tantas e tantas pessoas, de tantas mulheres, de quem o mundo parece ter esquecido.
4) TAILOR
Sem título-1

3) CONFEITARIA (criação de Fabiane Secches + Thiago Thomé)
claudia01 (1)
claudia02
claudia03
A gente gostaria de contribuir, ainda que de uma maneira simbólica e muito pequena, para que a Cláudia fosse enxergada e tratada como uma mulher. Como um ser humano. Com respeito. Não como uma coisa, para ser atingida num tiroteio e colocada em um porta-malas, do qual ela ficou dependurada e foi arrastada por 250m.
Embora a gente defenda que seja muito importante que a mídia divulgue essas imagens cruéis e violentas — a gravidade do crime não permite eufemismos, também gostaríamos que, ao menos aqui, neste espaço desta homenagem, Claudia fosse lembrada como a mulher que foi, e tratada com a humanidade que merecia. Gostaríamos que seus filhos se lembrassem sempre de que merecem nada menos do que este tratamento: o de seres humanos. Para isso, nossa inspiração foi o depoimento do seu marido em uma entrevista, que dizia: “Extrovertida, guerreira para caramba, determinada no que queria”.
Claudia
Fiz algo bem simples, na verdade. Queria fazer algo que representasse a humanidade que não viram e continuam não vendo nela.
claudia_olga_1

As duas vidas de Vinícius Romão

Por Cidinha da Silva

A primeira vida é de um rapaz de família, trabalhador, pacato, cercado de amigos negros e brancos. Um homem jovem, para quem, ser negro, talvez vá pouco além da alegria e do orgulho de uma bela coroa Black Power.

A segunda vida é a do sujeito descrito, mas, tratado como um negro qualquer pela polícia. Toda singularidade se esvai como bolha de sabão colorida diante da perseguição dos  estereótipos.

Por um lance simples de sorte e provável proteção espiritual, Vinícius Romão de Souza não foi abatido como Cláudia da Silva Ferreira.  Em comum, a negritude de ambos, o pertencimento à mesma comunidade de destino.

O racismo é o que menos se evidencia nas histórias de Cláudia e Vinícius. A mulher trabalhadora, mãe zelosa de filhos e sobrinhos, sucumbe à condição de “a arrastada”. A mídia não se dá ao trabalho sequer, de dizer seu primeiro nome, Cláudia! De Vinícius exploram a juventude, os sonhos, a família forte que supera os sofrimentos das perdas precoces, a cabeleira Black Power, atributos que o individualizam, emprestam-lhe uma história particular que não é respeitada, por isso, ele é “o injustiçado”.  Contudo, o que pegou mesmo, quer para a prisão de Vinícius, quer para o assassinato de Cláudia, foi o fato de serem negros desprotegidos, expostos à sanha racista e ao humor sórdido de policiais, que, para os que não querem entender, prendem e matam as pessoas negras a esmo, como insetos ou vermes.

Depois de sair da prisão, em busca de recuperar a primeira vida, Vinícius afirma que nunca fora vítima de racismo, sempre foi respeitado. Vítima, não. Isso é certo. Vinícius é alvo de uma sociedade que, estrategicamente, refuta a existência do racismo dirigido aos negros, para garantir os privilégios dos brancos; que enlouquece os que atestam sua virulência, pois querem provar a eles que o que julgam ser racismo é apenas a vida inexorável do negro (não por acaso conveniente para manter intactos os louros da branquitude).

Vinícius terá se sentido respeitado todas as vezes que levou baculejo da polícia? Ao voltar da universidade, do colégio, talvez até da escola primária com uniforme escolar. Porque é assim que homens e meninos negros são tratados! Ou não? Terá se sentido respeitado a cada vez que uma mulher protege a bolsa ao sentir sua aproximação? Ou nas inúmeras vezes em que foi ridicularizado por sua compleição física de descendente de africanos?

Para infelicidade dos negros, a história individual não tem evitado sua morte, seja física, seja simbólica. Mas, Vinícius, como a maioria dos seus, foi levado a dormir dentro dessa casca de ovo, até que a segunda vida a quebre e surja de dentro um cheiro insuportável de coisa podre que toma conta de todo o ambiente. Então, mesmo não havendo como fugir, disfarçar, negar o óbvio, a primeira vida será evocada outra vez, na ilusão de que possa proteger as pessoas- alvo da voracidade do racismo.

E a trilha viciosa se repetirá até que as duas vidas se encontrem e se fundam. Até que se compreenda que todas as vezes que um negro sofre discriminação porque é negro, trata-se de uma agressão coletiva. Desse modo, não existe um negro que nunca tenha sido discriminado.

A repetição ocorrerá até que se entenda a alteridade como direito que não exime a população negra do pertencimento à mesma comunidade de destino. Os “negros especiais” não existem,   apenas negros que contaram com mais sorte ou acessos ao longo da vida. O povo negro será tratado como negro, descendente de escravizados as vezes sem conta em que o poder branco se sinta ameaçado. É a regra do jogo da opressão racial. 

18 de mar de 2014

Da bala à bola − presidenta Dilma Rousseff se reúne com integrantes do Movimento Negro para falar sobre campanha contra racismo na Copa

Por Ana flávia Magalhães Pinto


Um relato sobre a reunião ocorrida em Brasília, em 13 de março de 2014




Ao responder afirmativamente ao convite para a segunda reunião da presidenta Dilma Rousseff com integrantes dos Movimentos Negros, que ocorreu na última quinta-feira (13), não tinha qualquer expectativa de que o encontro pudesse ser um momento decisivo para a solução dos problemas enfrentados pela população negra no Brasil. Afinal, eventos dessa natureza não servem para isso. Isso, entretanto, não é o mesmo que dizer   que para nada servem.

A reunião abriu uma série de devolutivas da presidenta com os segmentos dos movimentos sociais com os quais ela se encontrou após as manifestações de junho de 2013. Anunciada apenas dois dias antes, como de costume, o encontro assumia um tom de urgência. Todavia, era óbvio que essa “priorização” não se dava exatamente pelas mesmas razões que nós, negras e negros − mais de metade da população nacional −, nos consideramos prioritários para agenda política do país.

O jogo de forças que nos conduziu ao lugar de sujeito estratégico neste momento específico remete, pois, aos desafios da realização da copa do mundo de futebol em junho próximo, tendo como slogan “Copa pela paz e contra o racismo”. No país do futebol, não foram os alarmantes números dos assassinatos de jovens negros que motivaram o chamado. Na terra de Pelé, não foi a gravidade dos dados sobre mortes evitáveis entre pessoas negras atendidas pelo SUS que impulsionou a ação. Também não foi o incômodo diante dos conteúdos e formatos racistas de programas televisivos que serviu como catalizador de tudo.

Em vez disso, o que impulsionou o interesse de parte dos organizadores da festa foi o comportamento de torcedores fora das regras do ilusório “racismo sutil brasileiro”. Digo parte porque há figuras importantes nesse cenário que não querem nem saber da questão. Diante da repercussão negativa, o técnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari, por exemplo, não hesitou em desqualificar o debate e afirmar: “Isso é bobagem. São uns imbecis que fazem isso (atos de racismo). Vocês (jornalistas) não deveriam nem dar oportunidade para esses caras ficarem grandes. Não tem debate. Nós todos somos iguais. Não tem credo, cor, raça que nos faça diferentes”.

Da ignorância do Felipão, todos sabem. Da mesma forma, quem luta contra o racismo cotidianamente sabe que o que aconteceu/acontece no futebol é uma das tantas formas da violência e barbárie dirigidas contra a população negra. Mesmo assim, já que surgiu a oportunidade para falar abertamente sobre o racismo para o Brasil, num momento tão especial, o silenciamento não se apresenta como opção. Por outro lado, a primeira exigência é não aceitar uma mera campanha de constrangimento para que o racismo se reproduza tão somente no chamado “modo disfarçado”. 

As desigualdades raciais são exageradamente graves e pedem ações incisivas em várias frentes. Esse foi o consenso entre os diferentes ativistas que se fizeram presentes tanto na reunião preparatória, que ocorreu no fim da manhã, quanto na oficial com a presidenta, no fim da tarde. Para esta, o grupo maior escolheu quatro pessoas para abordar temas centrais das agendas de promoção da igualdade racial e do enfrentamento ao racismo no Brasil, a saber, Ana Flávia Magalhães Pinto, integrante do Coletivo Pretas Candangas e da Campanha A Cor da Marcha (DF); Douglas Belchior, da UNEafro (SP); Maria da Conceição Lopes Fontoura, representante da ONG Maria Mulher (RS) e conselheira do CNPIR; e Paulino Cardoso, presidente da ABPN e conselheiro do CNPIR. 

A reunião começou com uma fala introdutória da presidenta Dilma Rousseff. Reafirmando convicções sobre a gravidade do racismo, na linha do que tem dito em pronunciamentos públicos e nas redes sociais, a presidenta chegou ao tema da Copa do Mundo e à proposta de construção de uma campanha de mobilização contra o racismo nos meses que antecedem o evento. Haveria, pois, o interesse de dialogar com o Movimento Negro no intuito de produzir um discurso coerente e legítimo a respeito.

Em seguida, Paulino Cardoso fez um resumo do que ocorreu desde a primeira reunião em 19 de julho de 2013. Falou sobre o diálogo estabelecido com Ministério da Educação, de algumas conquistas, como a garantia das cotas raciais no SISUTEC e a formalização do Programa Abdias do Nascimento de bolsas para a ida de estudantes negros de graduação a universidades no exterior. Entretanto, registrou o impasse gerado pela Capes e o CNPq ao não liberar a bolsas, peça-chave para o programa saia do papel. Além disso, tratou da fragilidade das agendas de enfrentamento ao racismo nos trabalhos do Poder Legislativo, com destaque para a defesa do PL n. 4471, que instituiu o fim dos autos de resistência, altera o Código de Processo Penal e prevê a investigação das mortes e lesões corporais cometidas por policiais durante o trabalho; e para a crítica à PEC n. 315, que transfere para o Legislativo a autoridade pela titulação de terras indígenas e quilombolas. 

Maria da Conceição Lopes Fontoura falou sobre a centralidade das ações voltadas para as mulheres negras. Retomou o debate sobre a aprovação da PEC das Domésticas e alertou para os significados das várias controvérsias e do perigo de retrocesso avistado nos encaminhamentos dados ao texto da Regulamentação. 

Por sua vez, Douglas Belchior centrou na questão da Segurança Pública. Partiu, pois, da fragilidade institucional do Programa Juventude Vida, que, embora não tenha incorporado ao nome o recorte racial, afirma priorizar a defesa da vida de jovens negros. Defendeu, portanto, o fortalecimento institucional da agenda dentro da lógica do governo. Em seguida, defendeu a desmilitarização da polícia e criticou Projeto da Lei Antiterrorismo (PL 499/13), considerado uma medida antidemocrática, que colocaria em risco a liberdade política da população. 

Após isso, eu passei a tratar de três pontos: Comunicação, Cultura e Saúde. A conversa foi tensa em todos os momentos, sobretudo no que diz respeito à comunicação. Uma vez que eu apontei a política de comunicação como um dos grandes responsáveis para a manutenção das desigualdades raciais e do racismo no Brasil e, portanto, uma área-chave para a campanha da Copa, a presidenta evidenciou o impasse político que esse assunto encerra. Mais uma vez ficou nítido que as disputas em torno da comunicação são, de certa forma, equivalentes às verificadas no âmbito da questão fundiária e dos embates com os ruralistas e o agronegócio. Ainda que tenha sido feita a defesa de políticas de fortalecimento das mídias comunitárias e independentes, não obtivemos qualquer compromisso da presidenta a esse respeito.

Quanto à Saúde, comecei pela recapitulação do anúncio feito por ela durante a III Conapir, sobre a criação de uma instância dentro do Ministério da Saúde responsável e institucionalmente legitimada para tratar da implementação da Política Nacional de Saúde da População Negra (PNSPN). Em seguida, relatei o problema gerado pelo encaminhamento proposto pelo Ministério, que pretendia institucionalizar a instância num nível abaixo de onde ela já estava. A presidenta não disfarçou a surpresa, nem seu descontentamento sobre o ocorrido. Discordou enfaticamente da localização sugerida para a instância na hierarquia do Ministério da Saúde, ou seja, dentro de um departamento da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP); e prontificou-se a tratar do assunto com o ministro Arthur Chioro.

O último ponto foi a Cultura, pasta pela qual responde a ministra Marta Suplicy. O tema não gerou muitas discordâncias. Tão logo apresentados os dados sobre as experiências dos editais para a valorização de artistas, produtores e intelectuais negros; e sobre a mínima parcela do orçamento do Ministério da Cultura para as expressões culturais negras – que não chegam a R$ 200 milhões dos R$ 5 bilhões do orçamento geral −, a presidenta saiu na defesa do estabelecimento de cotas para a garantia de recursos para esse fim. O presidente da Fundação Cultural Palmares Hilton Cobra considerou bastante acertado o entendimento da presidenta, tomando esse como um passo importante para o promoção de mudanças efetivas nas políticas culturais do país. Tal como se fez entender, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência Gilberto Carvalho ficou responsável por principiar a interlocução com a ministra Marta. 

A reunião foi, então, encerrada com um convite para que o Movimento Negro seguisse em diálogo na elaboração da Campanha contra o Racismo na Copa. Após isso, os participantes avaliaram positivamente o encontro, embora tenha ficado evidente que as nossas demandas só serão encaminhadas se houver uma forte pressão externa. Em outras palavras, caso os segmentos do Movimento Negro não intensifiquem a pressão neste momento, em que se ensaia fortalecer a agenda de combate ao racismo, nossa luta corre o risco de se tornar uma peça num jogo que, por si, não tem qualquer condição de nos beneficiar efetivamente. 


Participaram da Reunião: Ana Flávia Magalhães Pinto (Pretas Candangas / Campanha A Cor da Marcha); Ana Maria Gonçalves (escritora); Arilson Ventura (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas − Conaq); Clédisson Geraldo dos Santos Júnior (Enegrecer − Coletivo Nacional de Juventude Negra); Douglas Elias Belchior (Uneafro Brasil); Edison Benedito Luiz (Conen); Emanuelle Góes (Odara – Instituto da Mulher Negra); Frei David Raimundo dos Santos (Educafro); Helcias Roberto Paulino Pereira (Agentes Pastorais Negros − APNs); Hélio Santos (Fundo Baobá para Equidade Racial); João Carlos Borges Martins (Associação Nacional dos Coletivos de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros − Anceabra); Manoel Júlio de Souza Vieira (Unegro); Maria Conceição Costa (Observatório Negro); Maria da Conceição Lopes Fontoura (Maria Mulher / Articulação de Mulheres Negras Brasileiras − AMNB); Maria Júlia Reis Nogueira (CUT); Paulino de Jesus Francisco Cardoso (ABPN); Valdina Pinto (Renafro – Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde), Valkíria de Sousa Silva – Kika de Bessen (Centro de Africanidade e Resistência Afro-brasileira − Cenarab).

Quando a palavra seca

Por Cidinha da Silva

 Tudo perde o sentido quando uma mulher negra, moradora de favela, baleada no pescoço, pende de um porta-malas e tem o corpo arrastado pelas ruas do centro do Rio.

Transeuntes e motoristas buzinam, gritam, acenam, se desesperam, choram, lamentam, porém, os policiais que dirigem o carro não ouvem, não vêem, não param. Não param. Não param.

As palavras humanidade, respeito, dignidade, cidadania, vida, direitos, sonhos, justiça, perdem o sentido. A gente perde as forças, a palavra, e míngua, como o texto seca diante de mais um caso de horror racista que não comoverá o mundo e ainda terá a dimensão racial esvaziada.

Perde-se o sono e não se sabe a fórmula do conforto para reencontrá-lo. Tudo perde o sentido. A vida perde a poesia. A condição humana é rebaixada a cada ação policial. 

17 de mar de 2014

Cidinha da Silva no Rio de Janeiro

Griotagem Encontros Poéticos entre Pretos e Pretas, dia 25 de março às 18:00, com Cidinha da Silva, no Rio de Janeiro


Proafro discute representação negra na mídia

PUCnotícias


Ana Cristina Garcia, estagiária da Dicom
para o PUC Notícias
Evento ocorre de 20 a 23 de março, com palestras, debates e show musical
Evento ocorre de 20 a 23 de março, com palestras, debates e show musicalFoto: Divulgação
Com uma programação que inclui oficina literária, o Programa de Estudos e Extensão Afro-Brasileiro (Proafro/Proex) da PUC Goiás promove seu III Ciclo de Estudos de 20 a 22 de março. O evento debate o tema Mídias e representações negras e ocorre no Auditório 1 da Área 2, antigo Básico. Os interessados em participar das discussões podem se inscrever aqui: http://puc.vc/1fxb1xc.

A abertura será realizada no dia 20, a partir das 19 horas, com palestra ministrada pelo comunicólogo Jairo Pereira, de São Paulo. Na programação, exibição de filmes, debates e palestras, além da oficina literária com a escritora, contista, poeta e blogueira Cidinha Silva, de São Paulo. Referência da militância negra brasileira, ela também lançará, no evento seu livro mais recente, Racismo no Brasil e afetos correlatos, publicado pela Conversê Edições. Mais informações pelo fone: 3946-1618

cidinha afro carioca
Escritora e blogueira Cidinha Silva: obra será lançada em evento da PUC


Programação

Dia 20, quinta-feira:
19h: Abertura
20h: Conferência de Abertura: Mídias e Representações Negras
Conferencista: Jairo Pereira /SP (ator, comunicólogo, poeta, cantor, blogueiro)

Dia 21, sexta-feira:
9h: Projeção e Debate da Obra Se eu fosse uma flor
Debatedores: Marta Cezária (Diretora), Cinthia Marques, Julio Vann
14h30: Oficina de Criação Literária
Coordenação: Cidinha Silva / SP 
(Escritora, contista, poeta, blogueira)

Dia 22, sábado:
9h: Mesa de Debates: Representações de Gênero e Raça nas Mídias
Debatedoras: Profa. Luciene (Facomb/UnB) e profa. Ceiça Ferreira (FAC/UnB)