Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de jan de 2015

Mais sobre o livro Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil


Por Cidinha da Silva

O capítulo III trata das dimensões de africanidades e relações raciais nas políticas públicas para o livro no Brasil, é aberto pela querida Mazza, decana das edições negras contemporâneas no Brasil com sua Mazza Edições, perseverante há 33 anos no mercado editorial.
É seguida por Esmeralda Ribeiro, timoneira do Quilombhoje, experiência altiva de editoria negra que demarca espaço na literatura brasileira há 37 anos com a publicação Cadernos Negros.
Marcelo d’Salete nos apresenta a produção dos quadrinistas negros e alguns de seus dilemas.
Fernanda Felisberto e Ricardo Riso valem-se do conceito de literatura negro-brasileira, cunhado pelo escritor Cuti, para problematizar a cena editorial do país.
Pablo Guimarães investe na perspectiva da bibliodiversidade e escrutina o mercado editorial do ponto de vista das pequenas editoras negras e periféricas.

SOBRE AS AUTORAS E AUTORES
Maria Mazarello
Fundadora e editora da Mazza Edições, tem seu percurso intelectual e humano marcado pelo envolvimento com as questões sociais, políticas e culturais do Brasil. A experiência acumulada como uma das fundadoras da Editora do Professor e da Editora Vega, nos anos 60 e 70, e, logo após, com o mestrado em Editoração realizado em Paris, se consolidou através da Mazza Edições, que testemunhou alguns dos principais acontecimentos da sociedade brasileira das últimas décadas.
Esmeralda Ribeiro
É jornalista, escritora e pesquisadora da literatura afro-brasileira. Integra o Quilombhoje Literatura, grupo paulistano de escritores afros. Obra individual: Malungos e Milongas. São Paulo: Ed. da Autora, 1988 (conto); Gostando mais de nós mesmos (co-autoria). São Paulo, Ed. Gente, 1999. Tem trabalhos nos Cadernos Negros; Moving beyond boundaries. International dimension of black women’s; Finally us. Contemporary black brazilian women writers, entre outras. Contatos: www.quilombhoje.com.br / quilombhoje@quilombhoje.com.br
Marcelo d’Salete
Marcelo d´Salete, professor da Escola de Aplicação da FEUSP; mestre em História da Arte pelo programa PGEHA/USP. Autor dos livros de quadrinhos Cumbe, Noite Luz e Encruzilhada. Contatos:
www.dsalete.art.br
dsalete@yahoo.com.br

Fernanda Felisberto
Fernanda Felisberto é Doutora em Literatura Comparada (UERJ), Profª de Literatura Brasileira na UFRRJ,  Pesquisadora do CNPq/UFRRJ GEDIR - Gênero, Discurso e Imagem.

Ricardo Riso
Pseudônimo de Ricardo Silva Ramos de Souza. Mestre em Relações Etnicorraciais (CEFET/RJ). Pesquisador de Estudos cabo-verdianos: literatura e cultura (USP); Coorganizador do livro “Afro-rizomas na diáspora negra: as literaturas africanas na encruzilhada brasileira” (2013).

Pablo Guimarães
Pablo Guimarães de Araújo é graduado em Comunicação Social pelo UNI-BH, especialista em Revisão de Textos pela PUC Minas e mestre em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Faz parte do grupo de pesquisa em “Escritas profissionais e processos de edição”, do CNPQ, e estuda o mercado editorial e as novas possibilidades de publicação de livros. É professor substituto do Curso de Letras (Tecnologias da Edição) do CEFET-MG e editor assistente na Mazza Edições.


29 de jan de 2015

Mais sobre o livro Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil




Por Cidinha da Silva
O capítulo II, Padê, é a cantiga de entrada, de abertura do caminho a ser trilhado pela obra, de apontamento do lugar ao qual pretendemos chegar. O autor e as três autoras que oferecem o Padê não foram convidados a fazê-lo. Seus textos se impuseram como aqueles que precisavam vir à frente por sintetizarem o espírito do livro.
Mário Medeiros atende a chamada para definir e contextualizar, aproximar e distinguir, por meio de excertos de sua pesquisa de doutoramento, as literaturas negra e periférica.
Regina Dalcastagnè, referência na trama de trabalhos acadêmicos que apontam a necessidade de pluralizar as vozes narrativas na literatura brasileira, pergunta, e responde, por que precisamos de escritoras e escritores negros na cena literária.
A poeta Lívia Natália constrói breve inventário de suas referências literárias para abordar o tema fulcral da formação da escritora e do escritor negro.
Por fim, Josemeire Alves vocaliza de maneira portentosa as vozes transgressoras das pessoas moradoras de favela, pela via que busca o conhecimento compartilhado e construído a partir de referenciais próprios.

SOBRE AS AUTORAS E O AUTOR:

Mário Medeiros: sociólogo, autor de Os Escritores da Guerrilha Urbana: literatura de testemunho, ambivalência e transição política, 1977-1984 (Annablume/Fapesp, 2008) e A Descoberta do Insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil, 1960-2000 (Aeroplano, 2013). Foi finalista do Prêmio Jabuti, Categoria Ciências Humanas, em 2014. Ganhou, em 2013, o Prêmio para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa do Centro de Estudos Sociais (Universidade de Coimbra) e, em 2012, a Menção Honrosa do Concurso Anpocs de Teses e Livros em Ciências Sociais. É, atualmente, docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp).

Regina Dalcastagné: professora de literatura brasileira da Universidade de Brasília.

Lívia Natália: poeta, autora dos livros de poesia Água Negra, Prêmio Banco Capital de poesia (2011); Correntezas e Outros Estudos Marinhos, pela editora Ogum’s Toques Negros e de Ela e Dia bonito para chover os dois últimos ainda no prelo. Doutora em Teoria da Literatura, Professora Adjunta de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Líder do grupo de Pesquisa Corpus Dissidente: Negropoéticas e Negropolíticas: Narrativas, memórias e representações de si na Literatura Negro-Brasileira, também na UFBA


Josemeire Alves Pereira: doutoranda em História Social, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

28 de jan de 2015

Cidinha da Silva escreve orelha do Cadernos Negros 37

Por Cidinha da Silva

Uma das alegrias do ano de 2014 foi o convite do grupo literário Quilombhoje para escrever a orelha do Cadernos Negros volume 37 (poemas afro-brasileiros).

Hoje recebi o livro. Eis o texto:                                        

 A publicação anual Cadernos Negros é sinônimo de perseverança e perenidade. Persistência para afirmar-se em mercado editorial inóspito, de cartas marcadas, jogo viciado, no qual, os de sempre, editam, distribuem e vendem. Constância da presença em um tempo cada vez mais hostil às publicações autônomas, pautadas pela identidade negra positivada e pelo enfrentamento ao racismo cotidiano, via criação literária.

No futuro próximo, quando a bibliodiversidade (diversidade dos livros presentes num certo contexto) – estiver consolidada e vier a ser estudada no contexto brasileiro, será obrigatório considerar a longevidade editorial de Cadernos Negros, bem como sua contribuição para consolidar a necessária multiplicidade das produções editoriais ofertadas ao público-leitor.

Em Cadernos Negros muitas vozes são lidas, diferentes texturas e tessituras são sentidas, internalizadas, refeitas a partir da interação texto-leitor, texto-leitora.

Que os poemas e contos de Cadernos sigam nos revelando, nos representando, nos levando a sorrir a cada nova edição. Vida longa e muita saúde a Cadernos Negros do Quilombhoje! Brindemos!

Cidinha da Silva, escritora. Autora de Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê, 2013), entre outros. 

24 de jan de 2015

Fundação Cultural Palmares (FCP) lançará em breve, Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas

Por Cidinha da Silva


A obra apresenta mapeamento robusto da realidade sociocultural do setor do livro, leitura, literatura e bibliotecas (LLLB), transversalizado pelas dimensões de raça e africanidades. Traz a público o pensamento de 48 mulheres e homens, predominantemente negros (90%, 43 autores) sobre o tema LLLB no Brasil, contemplando dimensões preciosas e múltiplas que visam produzir conhecimento qualitativo, consubstanciado em argumentos potentes sobre as relações raciais e de africanidades, visando alimentar as políticas públicas para o setor LLLB, considerando os desafios da encruzilhada do combate ao racismo e da formação do leitor-literário.
O primeiro capítulo é composto por conceitos que costuram todo o livro. O conceito é um aparato que, em dado momento histórico dá conta da disputa de sentidos em torno de uma situação, de uma sistematização de ideias, da definição de um campo. Ele deve ser permanentemente revisitado quando confrontado com novas ideias e situações, frutos da experiência ou da pesquisa.
Os doze conceitos apresentados no livro são búzios de sabedoria abertos no bojo de uma gamela partida ao meio. Em ruidoso Aláfia, eles nos autorizam a oferecer o Padê e caminhar rumo à construção de uma epistemologia que nos abrigue, decifre e represente.
Começamos pelo conceito de Africanidades, elaborado por Eduardo Oliveira, filósofo e professor da Universidade Federal da Bahia. Ele nos ensina que “Africanidades é uma categoria de tempo e espaço conjugada que, compreendida como forma cultural, isto é, as condições epistemológicas donde as ações humanas (e não humanas) se dão e produzem sentido. Cultura como produção de sentido é africanidade como discurso epistêmico. O tempo ampliado (dos viventes e ancestrais) e o espaço difuso (de africanos e seus descendentes semeados pelo mundo) perfazem a trama e a urdidura desse discurso. Discurso, que por sua vez, tem o vetor do tempo voltado para o passado, para a experiência. Experiência que tem como eixo de validação a pragmática e o encantamento. Encantamento que tem na ética de processos liberadores o seu ápice e na ancestralidade o seu corolário. Ancestralidade é o princípio régio das africanidades. É lastro de tempo e espaço em processos de subjetivação, síntese, crítica e criação. É lógica diferencial e transversal, perpassando os vários extratos de enfrentamento e produção do mundo, a um só tempo. Africanidades é uma categoria que compreende e se compreende a partir do mundo cultural africano-diaspórico na superação do racismo e na produção de uma nova regra de justiça social e felicidade subjetiva. É insurreição social e fluidez literária e, assim, vale-se de seus dispositivos ancestrais (beleza, ritmo, gênero, religiosidade, negociação, ginga, encantamento, organização, ironia, coalisão, criatividade, combatividade, sagacidade, diversidade, inovação, tradição, mito, rito, corpo, poética e contemporaneidade). Africanidades são um (re)-encontro consigo mesmo, na dimensão coletiva da vivência ancestral, que tanto nos atravessa quanto tecemos nas micropolíticas do dia a dia e na macroestrutura do enredamento tempo-espaço”.
A seguir, em excerto do texto de Pablo Guimarães, mestre em Estudos de Linguagens pelo Centro Federal de Educação-MG e professor substituto do curso de Letras (Tecnologias de Edição) da mesma instituição que nos apresenta o conceito de bibliodiversidade como “uma noção concreta que aplica o conceito de biodiversidade (diversidade das espécies presentes num determinado meio) ao livro (diversidade dos livros presentes num certo contexto). Ela remete à necessária diversidade das produções editoriais disponibilizadas para o público. O livro de criação é a encarnação da bibliodiversidade, opondo-se ao fenômeno da “best-sellerização” (produção editorial que se baseia essencialmente em produtos produzidos para o maior número, representando uma tomada de risco mínima, e respondendo essencialmente a objetivos financeiros). Talvez se possa atribuir a invenção deste termo a editores ou profissionais do livro latino-americanos, reunidos por ocasião do Salão do Livro Ibero-Americano na Espanha, no final dos anos noventa.”
Cultura negra é o conceito que segue, elaborado por Pedro Neto, Cientista Social e membro titular do Colegiado Setorial de Culturas Afro-Brasileiras do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Diz-nos Pedro: “Num jogo entre rupturas e continuidades, podemos ressignificar elementos definidores do que é ou não cultura negra. O primeiro é que a cultura negra brasileira é fundada, sedimentada e difundida pelos povos e comunidades tradicionais de matriz africana. A dança, a música, o canto, a performance – indissociáveis – a oralidade, a ancestralidade, a relação com a natureza, a circularidade, a relação geracional, a importância da mulher negra são também outros elementos definidores do que é cultura negra brasileira. O importante é ressaltar e afirmar que há definições de cultura negra. Nossa cultura não pode ser pasteurizada e coberta simplesmente pelo manto da diversidade cultural brasileira. Ela tem filiação, nome e conteúdo.”

O conceito de favela elaborado pela doutoranda em História pela Universidade Estadual de Campinas, Josemeire Alves, nos ajuda a compreender a indissociabilidade entre geografia e política. A historiadora nos alerta que: “Espaços segregados na cidade desde a origem, são geralmente tratados como “problema social” ou – a partir da metáfora médica-higienista que orientou o discurso dos gestores públicos a partir dos anos 1940 –, um “cancro” a ser “extirpado do tecido social”. Seus moradores, quando não invisibilizados, foram considerados durante muito tempo “massa amorfa”; e seu reconhecimento como sujeito de direitos ainda tem sido objeto de muitas lutas: em muitas regiões são considerados “invasores” e o próprio termo “favelado” é utilizado, em diversas situações cotidianas, como xingamento. A desumanização do morador de favela, associada à degradação do espaço e das condições de habitação, devido ao abandono dos poderes públicos, tornou-se prática naturalizada. Na “tradição” conceitual que se instituiu sobre as favelas, além da associação favela/pobreza/moradia de pobres, há outras representações, tais como as que a designam como chaga social, o espaço da falta e da carência e, mais recentemente, como espaço associado à violência e ao narcotráfico; ou no pólo oposto, nas representações que buscam exaltar o lugar e seus habitantes, enunciando-os como exóticos ou míticos: é a favela como lugar da solidariedade, da pureza e da ingenuidade, ou da gente simples e humilde.  Esses padrões de representação perpassam distintos campos da sociedade, dentre os quais os meios de comunicação, o discurso corrente entre as conversações cotidianas, e também os espaços onde são gestadas as políticas públicas”.

Analu Sousa, professora da Universidade Federal da Bahia e Pró-reitora da UNILAB, conceitua letramento. “Numa perspectiva sócio-histórica, o conceito de letramento precisa ser tomado em sua dimensão plural: letramentos. Falar em letramentos nos remete a um conjunto de práticas de usos sociais da leitura, da escrita, oralidade e outras modalidades de linguagem realizados pelos sujeitos, com diversas intencionalidades e em diferentes contextos sociais e culturais pelos quais transitam. Para muito além de saber ler e escrever interessa saber o que os sujeitos fazem com o conhecimento e que importância isso tem para suas vidas. As práticas de uso da linguagem funcionam de diferentes maneiras na vida dos sujeitos e, por isso mesmo, trazem diferentes implicações para as relações de poder nas quais estão imiscuídos e produzem diferentes efeitos nas relações de identidade que se constroem”.

Para definir a literatura afro-brasileira nos valemos da produção do LITERAFRO da Universidade Federal de Minas Gerais que conceitua sinteticamente o tema e nos exime da larga discussão plena de e contradições que o caracteriza e muitas vezes nos rouba o tempo de discussão da literatura propriamente.Um conceito em construção, processo e devir. Além de segmento ou linhagem, é componente de amplo encadeamento discursivo. Ao mesmo tempo dentro e fora da literatura brasileira. Constitui-se a partir de textos que apresentam temas, autores, linguagens mas, sobretudo, um ponto de vista culturalmente identificado à afrodescendência, como fim e começo. Sua presença implica redirecionamentos recepcionais e suplementos de sentido à história literária canônica”.

A literatura periférica é conceituada por Mariana Assis, mestra em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas. Conta-nos Mariana: “A partir do final dos anos 90 inicia-se, nas periferias de São Paulo, uma importante mobilização estético-política, aos moldes do Movimento Cultural Hip Hop, porém, caracterizada por uma massiva produção literária. A literatura marginal, periférica, da periferia ou marginal/periférica vem oferecer uma proposta totalmente nova de estética e sujeitos literários. Do ponto de vista político-ideológico, sua grande contribuição foi deslocar sujeitos marginalizados socialmente – sobretudo negros e negras pobres – da posição de objetos da literatura – personagens estigmatizados que corroboram lugares sociais e preconceitos – para a posição de sujeitos da literatura – romancistas, contistas e poetas que criam personagens, dessa vez caracterizados por suas próprias experiências e retratando sua realidade, falando de si e por si. Quanto às características estéticas, a multimodalidade e multissemiose, velhas conhecidas dos admiradores do hip hop, adquirem cores mais inquietantes ao articular-se com o gênero mais sacralizado da literatura: a poesia escrita. A publicação de livros que valorizam e ressaltam a oralidade, a música, a corporalidade presentes na formação dos autores nos obriga a repensar, até mesmo, posturas teóricas quanto à análise e crítica literárias”.
O conceito de oralitura, de riqueza extraordinária para interpretação da arte negra de um modo geral e principalmente da literatura nos é apresentado por Marcos Fabrício Lopes da Silva, poeta de professor de literatura brasileira. “Cunhado por Ernst Mirville, em 1971, o termo “oralitura” foi a proposta teórica sugerida pelo estudioso para englobar os enredos narrados pelo contador crioulo que, na época da escravidão, durante a noite, relatava histórias inspiradas em vestígios do passado. Tratava-se de “palavras noturnas” dedicadas a contemplar o sofrimento dos escravizados e os mecanismos de resistência negra, conformando, assim, uma manifestação de contracultura, em oposição ao sistema de escravidão. Na oralitura, projetou-se uma forma estética alternativa, que reconhecia a legitimidade da perspectiva negra como autoria importante nos fazeres literários e históricos que compõem o patrimônio cultural da humanidade. Leda Martins, por seu turno, propõe uma leitura do princípio da “oralitura”, considerando a contribuição da autoria negra para um fazer literário ao mesmo tempo oral, escrito e performático. Conforme explica a estudiosa: “o termo oralitura, da forma como o apresento, não nos remete univocamente ao repertório de formas e procedimentos culturais da tradição linguística, mas especificamente ao que em sua performance indica a presença de um traço cultural estilístico, mnemônico, significante e constitutivo, inscrito na grafia do corpo em movimento e na velocidade”.
O conceito de periferia é elaborado por Érica Peçanha, antropóloga e pós-doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo. Ela nos ensina que:O uso do termo periferia remete a uma série de reflexões acadêmicas e ações públicas que foram elaboradas nos anos 1970 acerca do contexto urbano brasileiro. Em substituição às ideias de “subúrbio” e “bairro pobre” que figuravam no vocabulário de intelectuais e gestores, periferia emergiu para nomear áreas produzidas no processo de expansão das cidades e que foram ocupadas por migrantes, trabalhadores de baixa renda, desempregados e negros, a partir de loteamentos irregulares e casas autoconstruídas de maneira precária. Afastadas geograficamente e compêndios das condições de vida opostas àquelas encontradas nos centros urbanos, essas regiões ficaram marcadas pela falta ou insuficiência de infraestrutura (como redes de saneamento, luz elétrica e asfalto) e serviços públicos básicos (educação, atendimento à saúde, transporte coletivo etc.), mas também por suas formas particulares de organização social, relações de sociabilidade e lazer, produção cultural, associativismo e mobilização política. Ao se falar de periferia nos dias atuais é importante considerar que o termo pode remeter a conjunturas diversificadas nos níveis conceitual e empírico, além de mobilizar múltiplas representações, práticas e identidades. O que parece relevante, contudo, é sua pertinência para se referir a certa realidade que ainda concentra a população marginalizada econômica, racial e socialmente, e que apresenta restrição ao exercício da cidadania, um menor número de equipamentos e serviços públicos, maior percurso para o trabalho e de vulnerabilidade a riscos ambientais quando comparados a bairros historicamente tidos como centrais ou nobres. Ou mesmo, sua legitimidade interpretativa e operacional quando estão em jogo outras referências geográficas, culturais, econômicas e políticas que podem ser relacionadas a algum tipo de centralidade, especialmente no discurso construído por sujeitos individuais e coletivos que articulam sua atuação político-cultural no sentido de ressaltar pertencimento e formas de compreender e intervir nas cidades, tais como movimentos artísticos populares como o hip hop, a literatura marginal-periférica e o cinema de quebrada”.
Josemeire Alves, generosamente, apresenta outra contribuição fundamental ao construir o conceito de quilombos urbanos para esta publicação. A historiadora nos diz: A noção de “quilombos urbanos” é uma construção que se insere – como o próprio conceito de quilombo –, nas lutas pelo reconhecimento de direitos territoriais das populações afrodescendentes. Nesse sentido, é possível tomar, a ambas as expressões, como referentes a categorias em disputa, por diferentes sujeitos e de acordo com perspectivas e interesses tão diversos quanto os do âmbito jurídico, acadêmico e político. No Brasil contemporâneo, especialmente a partir da Constituição de 1988 (Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias – ADCT CF88), o Estado reconhece os direitos à propriedade definitiva dos territórios ocupados pelos remanescentes destas comunidades e prevê a emissão de titulação definitiva. As disputas em torno da efetivação deste direito são árduas, envolvendo a resistência dos que, ao longo de décadas, ocuparam indevidamente tanto as terras originalmente herdadas por essas antigas comunidades quilombolas quanto aquelas adquiridas por ex-escravizados ou libertos, por herança ou compra. Muitas dessas propriedades coletivas encontram-se, atualmente, em terrenos urbanos e têm reivindicado seu status de “quilombo urbano”, com vistas a garantir os direitos previstos constitucionalmente. Mas “quilombo urbano” é também autoatribuição que se fazem as comunidades de favela das grandes cidades brasileiras, cuja população, majoritariamente negra, sofre, historicamente, os impactos da segregação socioespacial, econômica e racial operada nas sociedades capitalistas. “Quilombo urbano” é, num contexto de lutas pelo direito à cidade, evocação de uma tradição de resistência de mulheres e homens negros que, por meio das sociedades quilombolas do passado, atuaram como sujeitos da própria liberdade”.
Outro conceito fundamental desta obra que, como dito, situa-se na encruzilhada do combate ao racismo e da formação do leitor-literário, é o de racismo institucional. Para defini-lo nos valemos dos aportes do Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI), implantado no Brasil em 2005. Ele define o racismo institucional como “o fracasso das instituições e organizações em prover um serviço profissional e adequado às pessoas em virtude de sua cor, cultura, origem racial ou étnica”. Ele se manifesta em normas, práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano do trabalho, os quais são resultantes do preconceito racial, uma atitude que combina estereótipos racistas, falta de atenção e ignorância. Em qualquer caso, o racismo institucional sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e por demais instituições e organizações”.
Por fim, este Africanidades compreende o conceito de relações raciais como relações societárias conflituosas decorrentes do racismo e da discriminação racial nas sociedades contemporâneas, bem como as dimensões objetivas e simbólicas da luta para combatê-los.
A partir desta publicação, A Fundação Cultural Palmares propõe um diálogo do mais alto nível com o Plano Nacional do Livro e Leitura, em vigor desde 2006; com os planos municipais do livro e leitura já concretizados e com aqueles (a maioria) ainda em processo de elaboração; com a Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas e demais secretarias  vinculadas ao Ministério da Cultura bem como aos outros ministérios; com o Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literaturas; com o Programa Mais Cultura; com os projetos de lei afeitos ao campo LLLB; com o Programa Leitura Para Todos; com a Rede Brasil de Bibliotecas Comunitárias, outras redes autônomas de bibliotecas públicas, escolares e/ou temáticas brasileiras; com a Frente Parlamentar em Defesa do Livro no Congresso Nacional; com as Frentes similares existentes em Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais dispersas pelo território nacional; com a Lei Orgânica dos municípios; com os órgãos executivos específicos ligados às questões da comunidade negra; com a sociedade civil como um todo, mas, especialmente, com as organizações negras, as instâncias de arte, cultura e educação, assim como com os Pontos de Cultura dedicados ao LLLB. Finalmente, estamos preparados para dialogar com os sujeitos fundantes de todo esse processo, ou seja, escritoras e escritores, leitoras e leitores negros e periféricos.


23 de jan de 2015

Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil


AUTORAS E AUTORES:
Acácio Almeida, Adélcio Cruz, Aline Vila Real, Analu Souza, Bel S. Mayer, Cidinha da Silva, Cristina Assunção, Dinha (Maria Nilda Mota), Edimilson de A. Pereira, Eduardo Mota, Eduardo Assis, Eduardo Oliveira, Emerson Alcalde, Érica Peçanha, Esmeralda Ribeiro, Euclides Ferreira, Fabiana Lima, Fernanda Felisberto, Grace Passô, Janja Araújo, Josemeire A. Pereira, Josias Marinho, Lívia Natália, Lucélia Santos, Márcia Cruz, Marco Antônio Silva, Marcos F. L. da Silva, Marcelo d’Salete, Maria Mazarello, Mariana S. de Assis, Mário A. M. da Silva, Martha R. Queiroz, Mauro L. Silva, Michel Yakini, Neide Almeida, Pablo Guimarães, Pedro Neto, Regina Dalcastagné, Renato Botão, Ricardo Riso, Rodrigo Bueno, Rodrigo Motta, Ronald Augusto, Rosa V. Pereira, Rubenilson de Araújo, Silvane Norte, Uilian Chapéu, Vágner Souza.
UMA PUBLICAÇÃO DA FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES

22 de jan de 2015

Quando a rede social gera a ilusão de que sozinha resolverá questões improváveis


Por Cidinha da Silva



O caso da prisão arbitrária de Mirian França, farmacêutica e doutoranda em Bioquímica, negra, sem antecedentes criminais, por longos 16 dias sob acusação de ter assassinado Gaia Molinari, turista branca italiana, na praia de Jericoacoara, em Fortaleza, baixou o tom de gravidade diante da reação pública contrária à prisão, externada nas redes sociais. A ação destas denunciou o racismo motivador da acusação e o discurso foi alterado para possível participação no assassinato, não mais ato exclusivo.

Conseguida a liberação do cárcere, Mirian França continuou constrangida a permanecer os 30 dias seguintes em Fortaleza, ou seja, não pôde voltar para casa no Rio de Janeiro e retomar a vida sequestrada pela prisão. Este foi o recurso encontrado pela Defensora Pública que cuidou do caso para, de alguma forma, contentar a delegada que impunha a Mirian a prisão injustificável baseada em contradições bizarras nos depoimentos, como exemplo, o número de cafezinhos que Gaia teria tomado enquanto passara algum tempo com Mirian.

Estivemos diante daquilo que Milton Santos caracterizou como a brutalidade com que a informação inventa mitos. Dizia o geógrafo em entrevista a Gilberto Gil em 1996: “Acho que vai haver uma grande mudança política, mas nós não temos noção dessa possibilidade, dessa enorme mudança, por causa da violência da informação que é um traço característico do nosso tempo. A brutalidade com a informação inventa mitos, impõe mitos e suprime o que a gente chamava antigamente de verdade, essa violência da informação e das finanças, criou uma certa ideia tão forte do mundo atual que a gente fica desanimado diante da possibilidade de um outro futuro.”

Mirian França foi transformada pela delegada e pela mídia cearense em principal acusada do assassinato de uma turista eurodescendente por meio de fortes pancadas, mesmo sendo fisicamente frágil e não apresentando marcas de luta corporal. A imprensa local rejeitou veementemente o argumento construído por sua defesa popular de que Mirian estaria sendo vítima do racismo que transforma qualquer pessoa negra em suspeita preferencial dos crimes, mesmo sem provas.

Pela octo-milionésima vez havia-se que superar dois mitos reforçados pela brutalidade impositiva da informação, quer sejam, a inexistência do racismo no Brasil e a existência da justiça imparcial, válida para todos.  

Em contrapartida, a imprensa alternativa, eletrônica, progressista, veiculada nas redes sociais concluiu que sua ação libertou Mirian França. Mais uma vez, Milton Santos nos socorre na referida entrevista, diz ele: “Mas se a gente se detêm a pensar na maneira como o mundo está funcionando, na maneira como os pobres se apropriam da tecnologia... Os pobres e oprimidos estão fazendo, de uma maneira extraordinária, o uso das novas tecnologias, no seu trabalho e em seus assaltos, por exemplo, e estão encontrando e defendendo ideias aí pelo mundo afora e de que a gente fala pouco...” Ideias de liberdade, associativismo espontâneo, solidariedade, troca ao invés de compra e venda.

Entretanto, alguns equívocos merecem ser desfeitos. A Defensoria Pública preocupada com a defesa de direitos de cidadãs e cidadãos aos quais esses direitos são negados, não fica pescando casos na internet, não procura o que fazer na internet, ela precisa ser acionada, alertada, ainda que a mobilização prioritária em torno das situações ocorra inicialmente via web.

É preciso que as pessoas gastem a sola do sapato e caminhem até o espaço físico da Defensoria para conversar com os defensores, ou que gastem pulsos da primitiva telefonia fixa, ou bônus das redes móveis para fazer uma denúncia, para requisitar acompanhamento de um caso. É necessário que pessoas, de um modo geral, participantes dos movimentos sociais, conheçam quem são os defensores com que se pode contar nas diferentes cidades, estados. Todo mundo que milita na área de Direitos Humanos tem conhecimento disso, dessa rede existente desde os tempos em que pescadores saiam para pescar todas as manhãs, composta por defensores e militantes de outras cidades que informam, “olha, lá em Fortaleza tem a fulana de tal que atua na defesa dos Direitos Humanos e que dará um tratamento justo ao problema. Procurem por ela”

No caso Mirian França, muita gente se movimentou e foi movimentada: organizações de mulheres negras, feministas, de Direitos Humanos, o coordenador do curso de pós-graduação de Mirian na capital fluminense, que deslocou-se até Fortaleza, seus amigos e familiares que não descansaram um minuto sequer, mobilizando todas as redes e recursos imagináveis (inclusive internacionais) para libertá-la.

E, antes de tudo, houve uma organização de mulheres negras, chamada Criola, baseada no Rio de Janeiro, que, ao longo de mais de 20 anos construiu uma história de credibilidade junto à população negra carioca e brasileira, justamente pela reverberação dessa luta por cidadania e Direitos Humanos para a população negra, cuja atuação motivou alguém a entregar uma carta em sua sede, na qual denunciava a situação de Mirian e pedia socorro. Ali, naquele momento semipresencial e prosaico, a entrega de uma carta, toda a mobilização pela internet começou, as providências emergenciais foram tomadas, algumas noticiadas nas redes sociais, outras, não, haja vista que as pessoas que trabalham com causas humanitárias e cidadãs fora da internet não têm tempo de atualizar o diário virtual dos passos de seu trabalho minuto a minuto, tampouco é sua intenção. Sua escola de formação política e ética prescinde do exibicionismo virtual que, desafortunadamente, pauta a atuação de muitos.

Então, nem tanto ao mar. As novas tecnologias de comunicação podem, como asseverou Milton Santos, realizar coisas extraordinárias, principalmente no campo da divulgação e mobilização de temas que, sem elas, as novas tecnologias, continuariam soterrados pela imprensa hegemônica, contudo, o velho e bom movimento social que faz cartazes (não só catarse), usa telefone, constrói redes presenciais e marcha nas ruas e avenidas ainda tem um lugar de transformação que não foi (e é provável que não seja) substituído pelo ativismo de sofá com ar condicionado.

A intervenção política no mundo real feita no asfalto quente das contradições da realidade continua fundamental além das curtidas, comentários indignados na levada da boiada e quiçá, dos compartilhamentos.


21 de jan de 2015

Quanto mais negro, mais alvo!

 por Cidinha da Silva*


Em verso genial do poema “rondó da ronda noturna”, o poeta Ricardo Aleixo nos conta que “quanto mais negro, mais alvo”. Como na letra de “Haiti”, de Caetano e Gil, “rondó” contém doutoramentos inteiros, teses completas sobre a assimetria das relações raciais no Brasil. É o poder de síntese e de expansão da arte.

Engana-se quem pensa que somos vítimas de racismo, somos alvo do racismo, como disse Carlos Moore há décadas, antes de conhecer Ricardo, que por sua vez o disse em 1999, também sem conhecer o Carlos. Existia então, em ambos, o poeta e o antropólogo, compreensão similar desse fenômeno que mata a gente negra, como matou Amarildo da Silva, Cláudia Ferreira, Patrick Ferreira de Queiroz, Douglas Rafael, o DG, e desapareceu a Davi Fiúza, entre milhares de outros homens, jovens, mulheres e crianças negros que não tiveram seus nomes divulgados e são executados pela polícia dia após dia.

Quanto mais negro, mais alvo, só seria dito assim por um poeta. Quanto mais negro, mais visível. Visível por ser alvo, por ser buscado em qualquer lugar, em qualquer classe social, em qualquer situação, seja como Rafael Braga Vieira, morador de rua, preso durante as manifestações de junho de 2013, como se terrorista fosse, por carregar na mochila um vidro de desinfetante e outro de água sanitária, condenado a cinco anos e dez meses de prisão, único preso remanescente das manifestações daquele inverno. Seja como Thamires Fortunato, estudante da UFF, que durante manifestação contra o alto custo do transporte público no Rio de Janeiro no verão de 2015, foi covardemente imobilizada no chão e algemada, depois de ter tido a blusa arrancada e ter sobre si um brutamontes da polícia, paramentado para a guerra, tratando-a como bandido de periculosidade comprovada. Seja como a farmacêutica e doutoranda em Bioquímica Mirian França, mantida presa por 16 dias no Ceará sob acusação de assassinar uma turista estrangeira com quem fizera contato num sítio de mochileiros. Presa porque apresentou contradições em depoimentos à polícia, tais como o número de cafezinhos que a vítima, Gaia Molinari, teria tomado enquanto estiveram juntas. Mirian foi carimbada como principal suspeita da morte de uma pessoa abatida por pancadas fortíssimas e que lutou para se defender. E ela, a suspeita, de compleição física frágil, não apresentava qualquer marca de luta corporal.

Quanto mais negra, quanto mais consciente e senhora de si, mais alvo, como Lília de Souza, jornalista baiana, cujo cabelo black power foi rejeitado por um sistema de renovação de passaporte, obrigando-a a prendê-lo com uma borracha de escritório para que sua imagem fosse aceita.

Quanto mais negro, quanto mais melanina, mais alvo. Quanto mais negro, quanto mais negros juntos, mais alvo, mais auto de resistência. E nessas horas, estamos sós, desprotegidos e sós. Só depois, se sobrevivermos ao susto e à violência, a poesia nos acalentará.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Imagem: rondó da ronda noturna, poema visual de ricardo aleixo

20 de jan de 2015

Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil a caminho da gráfica



Por Cidinha da Silva

Quando tenho em mãos a prova de mais um livro que faço, a alegria é certa. Certeza também de que atingi o alvo, de que estou no caminho certo. Renovação dos votos de vida.

É assim com este AFRICANIDADES E RELAÇÕES RACIAIS: INSUMOS PARA POLÍTICAS PÚBLICAS NA ÁREA DO LIVRO, LEITURA, LITERATURA E BIBLIOTECAS NO BRASIL, segunda obra que organizo desde que comecei a publicar livros em 2003. O primeiro, exatamente naquele ano, Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 3ª edição), primeiro livro que organizei. Entre os dois, dezenas de artigos e ensaios em papel, centenas de crônicas na Web e oito livros autorais de literatura.

Este Africanidades é o coroamento de um curto período como gestora pública de cultura iniciado com a Chefia da Representação Regional da Fundação Cultural Palmares (FCP) em São Paulo e consolidado como Coordenadora de Disseminação de Informações da FCP-sede, em Brasília.

O desejo instituinte dessa publicação nasceu no diálogo da FCP com a Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) sobre atividades pontuais que poderíamos desenvolver conjuntamente no ano de 2014. Percebemos ali a oportunidade de desenvolver algo estruturante para o setor, um embrião de política pública, alimentado e definido pelas africanidades e relações raciais experimentados no Brasil e de dialogar, efetivamente, com o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), elaborado em 2006. Tal publicação mapeou as ações em curso no país, cujo foco eram o livro e a leitura no âmbito dos governos e da sociedade civil. O PNLL reuniu projetos, programas e ações de ministérios, instituições públicas dedicadas à educação e à cultura, governos, ONGs e também integrantes do mercado editorial. Contou, em sua formulação, com a participação de representantes de toda a cadeia produtiva do livro: editores, livreiros, distribuidores, gráficas, fabricantes de papel, escritores, administradores, gestores públicos e outros profissionais do livro, bem como, educadores, bibliotecários, universidades, especialistas em livro e leitura, organizações da sociedade civil, empresas públicas e privadas, governos estaduais, prefeituras e interessados em geral.
Nosso conhecimento prévio do PNLL nos informava que, em seus quatro eixos, a saber: democratização do acesso; fomento à leitura e à formação de mediadores; valorização institucional da leitura e desenvolvimento da economia do livro, não havia referências à população afro-brasileira e sua sub-representação no acesso ao sistema LLLB, assim como são ausentes também os conteúdos ligados às africanidades e relações raciais. Configurou-se então a oportunidade de apresentarmos nossa contribuição.
Pretendemos, com este Africanidades e relações raciais, produzir um diagnóstico robusto da realidade sociocultural do setor do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, transversalizado pelas dimensões de raça e africanidades. Queremos mapear quem somos, como estamos e o que queremos ser. De maneira rica, diversa e contributiva. Intentamos, de um lado, como vem sendo feito nos Planos Setoriais de Cultura, detectar fragilidades, obstáculos e desafios por superar, e de outro, salientar oportunidades, vocações e potencialidades a serem trabalhadas. Nossa missão institucional é elaborar políticas públicas viáveis e trabalhar com afinco para ampliar o número de atrizes e atores socioculturais envolvidos em sua execução. Ao concretizar esta publicação, estamos traçando um caminho, planejando.
 Este Africanidades e relações raciais traz a público a reflexão, o pensamento de 48 mulheres e homens, predominantemente negros (90%, 43 autores) sobre o tema do LLLB no Brasil, contemplando dimensões que desejamos tornar preciosas à toda a população brasileira. São 36 ensaios e depoimentos, um texto ficcional e doze conceitos cuidadosamente elaborados que visam produzir conhecimento qualitativo, consubstanciado em argumentos potentes sobre as relações raciais e de africanidades, visando alimentar as políticas públicas do LLLB, considerando os desafios da encruzilhada do combate ao racismo e da formação do leitor-literário.
Foi necessário dividi-lo em etapas, uma vez que o tempo do serviço público não permitiu a publicação do trabalho integralmente. Pesou nesta decisão também o aspecto didático, haja vista que a obra tem quase 400 páginas. Assim, nos vimos obrigadas a reunir neste livro apenas 37 narrativas e 12 conceitos norteadores do trabalho, e deixar para a versão on-line dois outros importantes componentes da obra, a saber, a análise da consulta pública realizada sobre o tema (outubro, 2014) e as sugestões de políticas públicas para o setor do LLLB com recorte de africanidades e relações raciais formuladas a partir da consulta pública, dos textos integrantes desta obra e de outras conversas com especialistas e do acúmulo reflexivo sobre o tema LLLB. Aproveitamos para agradecer a todas as pessoas, organizações governamentais e da sociedade civil que dedicaram parte de seu tempo a responder à consulta pública e também a divulgá-la.

Falta pouco para que o livro esteja em nossas mãos para leitura. Em tempo, a capa belíssima, Tereza-curupira, é obra do artista plástico Rodrigo Bueno em homenagem à escritora Maria Tereza Moreira de Jesus.

19 de jan de 2015

Cidinha da Silva participa de matéria da Fórum sobre arte na periferia

Arte da periferia: entre o assédio do mercado e a resistência

Estimulada por políticas públicas e pela internet, a cultura periférica se expande e resiste aos avanços da indústria cultural. Na disputa por visibilidade, artistas começam a questionar se a associação com grandes companhias é o melhor caminho

Por Anna Beatriz Anjos, Igor Carvalho e Ivan Longo
A tentativa da indústria cultural de cooptar expressões artísticas da periferia não é uma novidade. Samba, tecnobrega, funk, hip hop, entre outros movimentos têm em comum o fato de serem oriundos dos guetos brasileiros tendo sido, exaustivamente, explorados pelo mercado. Nas novelas, filmes, séries, programas de TV e rádio e até nas páginas dos jornais, quase tudo se copiou desses gêneros: roupas, expressões, comportamento, tudo se tornou produto na prateleira do mercado.
No entanto, a ideia de que esses movimentos culturais podem ser resistentes aos avanços da ideologia do consumo está implícita até mesmo na adoção do termo “periferia”, que foi politizado e utilizado como ferramenta de articulação social contra o discurso de opressão às classes populares, como explica o sociólogo e músico Tirajú Pablo D’Andrea.
“A palavra ‘periferia’ era um termo mais utilizado pela academia, tentando definir uma situação sociológica e geográfica. O termo ‘periferia’ vira uma arma política e uma forma de organização na década de 1990, principalmente por força do movimento hip hop”, explica D’Andrea, que se refere aos dias atuais para elucidar as consequências da utilização do termo. “Hoje, a gente vai para as manifestações do MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto], a turma está gritando: ‘a periferia chegou’. Tem um movimento que percorre vários outros movimentos sociais, que é o ‘Genocídio contra a população negra e pobre da periferia’. O que quero dizer é que, trinta anos atrás, a palavra ‘periferia’ não era usada dessa maneira, como arma política, e hoje ela é. Quem fez essa passagem, de termo da sociologia urbana para enfrentamento político, foram principalmente as expressões artísticas dessa periferia”, completa.
E essa periferia, hoje, anos depois da brutal e fundamental influência do hip hop, no final da década de 1980 e começo dos anos 1990, se distancia da influência e dependência das elites, explica a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Ivana Bentes.
“O termo ‘periferia’ se opõe classicamente à ideia de centro: centros geográficos, econômicos, centros culturais, centros de poder, mas ganha hoje um significado simbólico e político ainda mais radicalpois uma periferia pode ser um ‘nó’ de um novo arranjo numa cultura de redes”, afirma a pesquisadora, também professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para quem “as redes de periferias, as bordas, articuladas, não precisam de centro”. “Essa é a novidade da cultura de redes. Hoje, podemos falar de uma periferia global, que se articula por fora e por dentro, atravessa os centros. O hip hop, por exemplo, é uma cultura periférica global”, explica.
Foto: Riotur

Quem é o dono da bola?

O sociólogo Rogério Silva, autor da tese de doutorado “A periferia pede passagem: trajetória social e intelectual de Mano Brown”, cita o apresentador da TV Globo, Luciano Huck, como exemplo de tentativa, dentro da grande mídia, de cooptação de um movimento periférico.
(Foto: Arquivo pessoal)
"Sempre que você dialoga com o poder estabelecido está forçando a porta para entrar em lugares que não te querem", diz a escritora Cidinha da Silva (Foto: Arquivo pessoal)
“Há um bom tempo ele tenta se transformar no líder do hip hop no Brasil. Tentou fazer um show no sul do país, e há os festivais que tenta realizar aqui em São Paulo. Em 2007, por exemplo, apresentou um festival com o Ice Blue [do Racionais MC's]; em 2008, lançou um CD de rap. Mais recentemente, convidou o Edi Rock [também do Racionais MC's] para fazer uma apresentação em seu programa e deixou lá de forma clara que o palco dele estava aberto para os rappers”, explana Silva, que cita Gabriel, o Pensador como exemplo de rapper “palatável” à grande mídia.  “Pra você ser do rap, e isso é uma característica do rap de forma geral, tem que pertencer àquele grupo, fazer parte daquilo ali. Você relata o que viveu. Gabriel, o Pensador é um rapaz de classe média”, defende.
É possível romper com a politização do termo “periferia” ou tentar modificar o sistema por dentro da sua ordem? A escritora Cidinha da Silva acredita que é “preciso parar com essa coisa autoritária de definir o que a arte do outro deve ser e onde deve estar”, mas reconhece: “Sempre que você dialoga com o poder estabelecido está forçando a porta para entrar em lugares que não te querem, que não foram pensados para você e que aceitam te incluir de maneira subordinada. Se você topa jogar o jogo, na arena deles, precisa estar preparado porque a briga é de cachorro grande e nem sempre será leal”, coloca.
O rapper Crônica Mendes é cético em relação a uma possível associação da cultura periférica com o mercado fonográfico. “Para entrar, você já perde valores, os papéis são invertidos. Temos vários artistas do rap nacional que entraram de cabeça na indústria e foram para a geladeira. Fizeram um hit para uma gravadora e sumiram, desagradando o público do rap, mas agradando um outro público. Mas aí ele não consegue emplacar outro hit e se queima dos dois lados”, considera.
Crônica cita o rock nacional como exemplo. “Se vendeu a tal ponto que acabou, está acabado”, assinala. Cidinha da Silva relembra o maior grupo do rap nacional para ponderar e pedir mais tolerância. “Um aspecto fundamental é saber lidar com o tempo, não fossilizar, não estigmatizar, reconhecer que a história muda e as personagens crescem, amadurecem, se transformam. Na década de 1990, o Racionais MC’s não dava entrevistas para a imprensa hegemônica. No ano passado, o grupo  foi capa da Rolling Stones”, destaca a escritora. "E o discurso dos caras continua afiadíssimo, completa".
A mudança de discurso do artista que surge na periferia e é catapultado para o sucesso pelas plataformas tradicionais é a maior preocupação dos movimentos culturais. Thelles Henrique, produtor cultural e integrante da Liga do Funk, confirma a alternância comportamental provocada por exigência dos empresários. “Acho triste alguns artistas de funk que, após entrarem no mercado, acabaram se anunciando como do segmento pop, renegando as próprias raízes. Isso é influência do mercado fonográfico. Acho isso horrível, deprimente e lamentável”, destaca.
O cantor Latino é lembrado por Thelles como um exemplo de artista que se adequou ao comportamento pedido pelo mercado fonográfico e que segue negando sua origem. “Ele foi forjado no funk – a “Me Leva” é uma composição do DJ Malboro, por exemplo – e não carregou essa bandeira. Poderia ter contribuído para amenizar esse preconceito [de que o ritmo é alvo], mas as pessoas se acovardam. Assim, acaba se perdendo a flâmula do funk, o cara se afasta daquele estilo que vai lhe gerar preconceito”, ressalta.
(Foto: Divulgação)
"É possível quebrar o mercado através da internet”, afirma Geandson Rios, da Banda Djavú (Foto: Divulgação)
Rogério Silva explica que a decisão de aderir ao mercado pode ter consequências até mesmo no berço do artista. “Não sei se, com a aproximação com a grande mídia e a indústria cultural, o artista vai perder sua dose de questionamento e denúncia. No Brasil, o que a gente tem é o seguinte: os artistas que se aproximaram demais da indústria cultural deixaram de ter legitimidade dentro do próprio movimento, praticamente desapareceram. É o caso do Xis, e, mais recentemente, da Negra Li”, exemplifica.
Ainda no exemplo do rapper Xis, o sociólogo lembra que o também rapper Thaide, no começo dos anos 2000, defendia que o rap deveria ir para a grande mídia. “O Xis, que era do DMM, estava fazendo muito sucesso em 1999 com a música ‘Os Manos e As Minas’. Logo depois, o Xis vai fazer um programa de TV, o ‘Casa dos Artistas’, e recebe muitas críticas por isso. Depois, sai e vai fazer shows sem ter uma relevância muito grande. Hoje, praticamente não canta, ele é produtor musical”, lembra Silva. Thaíde, que conseguiu entrar para a chamada mídia tradicional, é apresentador do programa A Liga, na Rede Bandeirantes.
Geandson Rios, da banda de tecnobrega Djavú, explica que a banda resiste às investidas do mercado quando essas são acompanhadas de propostas que vão alterar o conceito do grupo. “O artista quer sempre estar no meio popular e a gravadora às vezes quer mudar alguma coisa, pra tocar na Globo, ou na MTV, isso prejudica o artista por que ele sai do popular para ir para outro mercado e deixa aquele público popular lá, tudo aquilo que começou. Por isso que muitos artistas desaparecem do mercado”, opina.
Foto: Divulgação

Internet e novas possibilidades

Nas barganhas culturais entre a periferia e a elite, a última fica em débito histórico. Do samba, nascido da correspondência sentimental de descendentes africanos, até o hip hop, o propulsor da produção artística da periferia nos últimos 20 anos, inúmeros artistas tiveram que se render à indústria do entretenimento.
(Foto: Nina Fideles)
“Para entrar [no mercado fonográfico], você já perde valores, os papéis são invertidos", defende o rapper Crônica Mendes (Foto: Nina Fideles)
A novidade, nos últimos dez anos, de aceleramento da produção cultural nas periferias, é a possibilidade de êxito profissional sem a dependência atroz da indústria cultural. Isso, graças à internet. “Hoje, produzimos mais porque houve uma ascensão social, graças ao governo Lula. A periferia consome muito mais sua própria cultura, quem é daqui, quer consumir, por identificação, o que se faz aqui. Nós, artistas de periferia, estamos escrevendo a história do nosso povo, que não está nos livros das escolas”, afirma o rapper Crônica Mendes.
Ivana Bentes vê o surgimento de uma “ciberperiferia”, que é capaz de se apropriar das tecnologias e processos mais sofisticados. “Vimos isso com a explosão dos grupos, coletivos e redes culturais que surgem nas cidades, na forma como as redes estão sendo usadas como lugar de produção de discurso contra o racismo, o assassinato dos jovens nas favelas, como ferramenta de organização dos movimentos culturais e sociais”, defende.
Para Rogério Silva, um exemplo do uso da internet como forma de se tornar independente da indústria fonográfica, alargando as possibilidades de sustento da própria arte, é o rapper Emicida. “Ele, num primeiro momento, vendia seus CDs artesanais no centro de São Paulo, mas rapidamente conseguiu transformar aquilo que chama de ‘laboratório fantasma’ num grande meio, um site onde você encontra toda a sua produção, inclusive camisetas, bonés, enfim, tudo que eles fazem”, conta.
Fruto da revolução cultural provocada pela internet é a ascensão do funk. Independente de qualquer intermediação, o ritmo é responsável por milhões de visualizações no Youtube e seguidores nas redes sociais.“Hoje em dia, você é analisado pelo mercado com a possibilidade de venda e isso é medido nas redes sociais e no seu canal no Youtube”, aponta Thelles, da Liga do Funk, que cita a MC Ludmilla, Anitta e Naldo como exemplos de funkeiros saídos da internet direto para a grande mídia.
Geandson Rios, da banda Djavú, credita à rede e às novas mídias e plataformas a ascensão do grupo de tecnobrega. “No celular você baixa tudo, tem acesso a várias bandas, escuta dezenas de ritmos diferentes. A gente divulga tudo na internet, nós nos tornamos um fenômeno da internet quando começamos. Isso tudo de forma independente, sem gravadora. É possível quebrar o mercado através da internet”, relata.
Foto: Flickr/Henrik Moltke

Preconceito e elitismo

Ídolos do movimento conhecido como “sertanejo universitário”, a dupla Munhoz e Mariano se vangloria por seu Camaro amarelo na música que carrega o nome do carro. A obra em nenhum momento é criticada por sua “ostentação”. Na contramão, ao funk são endereçadas as mais duras críticas pela sua exaltação ao consumo.
“A nossa potência na sociedade capitalista se expressa pela capacidade de consumo. Claro que a elite se incomoda de ver os pobres expressando potência, aí a crítica da elite ao funk ostentação é a mesma crítica ao nordestino que anda de avião e à doméstica que cobra direito trabalhista”, explica Tiarajú D’Andrea.
O sociólogo defende que a tolerância com o discurso dos neo-sertanejos é classista. “O sertanejo universitário é o desdobramento do agronegócio. A força econômica do agronegócio, que há anos detona o solo brasileiro, produziu uma expressão cultural e a sua principal manifestação é o sertanejo universitário, isso pertence à burguesia rural e não será criticado”, afirma.
Quem também viveu o preconceito durante sua trajetória artística foi Geandson Rios. “Antigamente, o ‘brega’ era uma coisa nordestina e ficava muito restrito lá, aí tinha o preconceito. Durante todo esse tempo ele se manteve vivo graças à periferia, que gosta de música brega. O preconceito diminuiu muito por que a mídia viu que dava dinheiro e se apropriou”, explica o integrante da banda Djavú, lembrando que o sertanejo universitário é um movimento que conta com muitos nordestinos de periferia, “mas isso pouca gente sabe.”