Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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24 de set de 2015

Mais um na lista dos incontáveis invisíveis


Por Cidinha da Silva

Por que não escrevi sobre o assassinato de Herinaldo de Santana? Porque não tenho  forças para lamentar a morte de mais um menino da favela. Do time dos que morrem desde sempre se correm livres pelas ruas de casa; se são enclausurados dentro de ônibus por justiceiros de Copacabana; se saem de seus bantustões para irem à praia das áreas nobres em trajes de banho; se cometem delitos e cada vez mais cedo são mandados para a cadeia.

A dor dos que o amavam me consome e consumirá a cada vez que um deles vir o vídeo do garoto agonizante, atingido por um policial destreinado (ou acostumado a matar) assustado ao ver o menino que corria para comprar uma bola de pingue-pongue. Pow!

Mas, escrevo agora, porque com o advento das redes sociais, vemos os rostos dos mortos, presenciamos  sua agonia, e mais e mais compreendemos a estratégia dos que tentam negligenciar essas mortes, como fazem com os corpos negros recolhidos pelos camburões e depositados nos gavetões do IML, à espera de reconhecimento. E aceitamos que somos Herinaldo, sujeitos à próxima bala assustada.

A caneta sobre a mesa mira a cena, impotente. Não é videogame, a parada. A garganta seca. O menino está morto. Não dá para recomeçar o jogo. 

22 de set de 2015

Ana Maria Gonçalves fala de leituras, escritas e produção literária negra



amg
Em outubro, a Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia realizará o Curso de Escritas Criativas, com a escritora Ana Maria Gonçalves, que se unirá a um time de grandes nomes da escrita em suas variadas linguagens. São eles: a escritora, prosadora e dramaturga Cidinha da Silva (MG), o poeta, romancista, roteirista de cinema e televisão e professor, Paulo Lins (RJ), o escritor Marcelino Freire (PE) e a atriz-MC, diretora, diretora musical, pesquisadora, slammer, Roberta Estrela D’Alva (SP).Confira o #FPCEntrevista com Ana Maria Gonçalves e conheça mais sobre o projeto:

#FPCEntrevista - Para você, qual a importância de participar de projetos de estímulo à leitura e a produção literária como o Escritas Criativas?

Ana Maria Gonçalves - Tenho plena consciência de que tive uma formação privilegiada como leitora. Desde muito cedo tive contato saudável e estimulante com os livros, através da minha mãe, que é leitora compulsiva. Através do exemplo dela, cresci vendo a leitura como algo prazeroso e divertido, e não como obrigação. Tenho certeza de que isto foi fundamental na minha vida, em vários sentidos, mas principalmente ampliando horizontes e conservando características que me são caras, como a curiosidade, o inconformismo, o questionamento, a compreensão das contradições e ambiguidades humanas. A literatura de ficção nos possibilita isso através do contato com outros mundos (exteriores e interiores), com dramas, alegrias e tragédias, com culturas às quais não teríamos acesso de outra maneira. A partir desses locais de alteridade podemos imaginar também novas possibilidades e transformações no mundo ao nosso redor. Para isso, para um mundo em que haja maior representatividade e, consequentemente, mais entendimento e possibilidades, acredito que novas histórias precisam ser contadas. Histórias que fujam à produção hegemônica do mercado editorial brasileiro que é composto, em grande maioria, por homens brancos, héteros, classe média ou média alta, de grandes centros urbanos do sudeste, escrevendo sobre seus próprios universos ou sobre universos e personagens que, sendo-lhes distante física ou emocionalmente, muitas vezes são representados de maneira estereotipada e/ou exótica.

Precisamos formar mais escritoras e escritores que, a partir de experiências e formações distintas, insiram suas próprias histórias na construção desse imaginário que chamamos de Brasil. Desta maneira, um grande público leitor potencial poderia ser formado, pois passaria a se identificar também, ao se ver representado. Conseguindo se transportar para dentro da história, literatura vira prazer, uma grande fonte de sonhos e de universos reais e possíveis. Conhecimento e, principalmente, a sua produção, é poder. Para mim, a importância desse curso está na possibilidade de redistribuição desse poder entre novos leitores e escritores.

#FPCEntrevista - Além das aulas com você, o curso trará uma série de workshops temáticos com escritores e poetas convidados. O que o público pode esperar das aulas e dos workshops?

AMG - Sobre o curso, não tenho a pretensão de ensinar ninguém a escrever, até porque é um processo muito subjetivo. Acredito, no entanto, que ele vai apresentar ferramentas que facilitam o trabalho da escrita, que exige muito mais estudo e disciplina do que as pessoas imaginam. Coisas que eu adoraria ter sabido quando comecei a escrever. Para quem realmente quer encarar a escrita como profissão, é um passo a partir do qual poderá iniciar seu processo de experimentação e aprendizagem, que é contínuo. Sobre os workshops não tenho muito a dizer, pois deixei os convidados bem à vontade para que decidam o que e como fazer. Mas sei que serão fantásticos, pois são com pessoas que gostam do que fazem e fazem bem feito, que estudam e se aprimoram constantemente, que são reconhecidas em suas áreas de atuação, que são generosas com o conhecimento acumulado e estão animadas com a possibilidade de compartilhar. 

#FPCEntrevista -Os workshops tratarão de diferentes estilos literários. Qual a importância desse contato com diferentes estilos para o jovem escritor que está começando a se lançar nessa área?
AMG - São gêneros diferentes que exigem abordagens e técnicas diferentes. No curso abordarei conceitos mais gerais, e os workshops serão específicos. Escrever um poema, por exemplo, exige abordagem e postura completamente diferentes das necessárias para escrever um romance. Acho importante que os alunos tenham contato com os diversos gêneros e possam escolher o que funciona ou flui melhor para eles, dedicando-se mais ao seu domínio. O que não quer dizer que tenha que ser apenas um, mas que a produção de cada gênero possui características que lhe são próprias.

amg
#FPCEntrevista -50% das vagas do Escritas Criativas são destinadas aos inscritos que se declararem negros. Como isso pode contribuir para o incentivo de jovens leitores e escritores de classes menos favorecidas?

AMG - Além do que já citei, sobre a representatividade atrair leitores, é gritante a falta de negros e negras em destaque na produção de conteúdo para o que podemos chamar de grande mercado editorial, televisivo, teatral, jornalístico, cinematográfico. Ou seja, entre os formadores de opinião. Como somos uma sociedade baseada no compadrio, os lugares de destaque e de poder tendem a ser ocupados por iguais àqueles que sempre estiveram lá, dificultando a inserção de quem nunca teve acesso a tais espaços. Temos excelentes artistas negros cujas produções, por falta de oportunidade e/ou apadrinhamento, com raríssimas exceções, ficam restritas a círculos específicos formados geralmente por outros artistas, militantes e acadêmicos negros que vão atrás dessa produção. Com os escritores não é diferente, e quase ninguém consegue viver do que faz.

A literatura brasileira geralmente é produzida por e para uma elite. Isso acontece há séculos, e faz parte de um processo de dominação e descriminação. A literatura produzida por negros é tão ignorada por essa elite que tivemos o poeta Ferreira Gullar escrevendo que "os negros, que para cá vieram na condição de escravos, não tinham literatura, já que essa manifestação não fazia parte de sua cultura. Consequentemente, foi aqui que tomaram conhecimento dela e, com os anos, passaram a cultivá-la". Ou seja, segundo Ferreira Gullar, literatura é coisa de branco europeu, ou o que o branco diz que é, ignorando saberes e fazeres diferentes dos seus. O que Gullar não consegue admitir é a oralidade como literatura, visto que o domínio da escrita foi usado, durante a escravidão, como método de distinção, pois escravos eram proibidos de estudar. Ironicamente, muitos escravos malês eram comprados para servirem de tutores e professores de filhos de donos de escravos, pois dominavam a escrita e as ciências mais exatas que seus donos desconheciam E o que Gullar ignora completamente, porque nunca se interessou em ir atrás, é que há registros de literatura - aquela única que ele consegue conceber como tal, a escrita - na costa oriental da África ainda no século X.
Esse domínio da produção literária pela elite branca, a meu ver, leva agora a uma saturação. Pega-se boa parte dos livros publicados pelas grandes editoras brasileiras e as histórias se parecem: os mesmos locais, as mesmas personagens, os mesmos conflitos etc. Acredito de verdade que a longa e rica tradição literária herdada dos africanos, aliada a temas que são muito mais sensíveis e caros aos seus descendentes, depois de séculos de represamento, censura, preconceito e negação por parte de um país que se beneficiou mas que nunca quis assumir as consequências da escravidão, tem tudo para nos tirar desse marasmo que atinge também os canais de notícia (apenas 6 dos 555 colunistas fixos dos 8 maiores jornais, revistas e portais de notícias brasileiros são negros), a TV de entretenimento, o teatro, o cinema e por aí vai. Alguns veículos ou mercados já se atentaram para o esgotamento das velhas fórmulas e perceberam que, pela sobrevivência, precisam se reinventar. Temos que qualificar profissionais para atender à potente e crescente demanda por histórias que nunca foram contadas e por temas que nunca foram tratados com profundidade; não apenas porque o mercado começa a enxergar nela uma possibilidade de renovação, junto a um público mais atendo, crítico e exigente, mas porque já passou da hora de contarmos mais e melhor as nossas próprias histórias.
mosaico

  
#FPCEntrevista - Você já tem publicados os livros "Ao lado e à margem do que sentes por mim", que foi a sua primeira obra, e o "Um defeito de cor", que recebeu o Prêmio Casa de Las Américas de 2007. Atualmente você está trabalhando em algum livro novo? O que o público pode aguardar de novas publicações?

AMG - Finalmente consegui terminar mais um livro, que se encontra no meu eterno processo de reescrita, mas deve sair em breve. Chama-se "Quem é Josenildo?" e é um livro juvenil, policial e de ficção científica. Estou também estudando muito e escrevendo para teatro e para cinema.

21 de set de 2015

Candidatura de Cidinha da Silva a Vaga no Colegiado Setorial do Livro, Leitura e Literatura do CNPC-MinC - Conselho Nacional de Políticas Culturais



Caras amigas, caros amigos,
Em atendimento à convocação dos amigos do Setorial de Cultura Afro-Brasileira - MinC, estou candidata a uma vaga no SETORIAL DO LIVRO, LEITURA E LITERATURA do Conselho Nacional de Políticas Culturais - CNPC pelo ESTADO DA BAHIA (conta o nosso local de residência atual).
Caso você queira apoiar nosso projeto de enegrecer o CNPC é preciso se cadastras no link http://cultura.gov.br/votacultura/foruns/ba-literatura-livro-leitura/

As informações sobre quem pode ou não votar estão um pouco desencontradas. Parece que a pessoa votante cadastra-se por um estado e vota em candidatas/os daquele estado, exclusivamente. Assim, para votar em Cidinha Da Silva é necessário cadastrar-se pelo estado da Bahia. É o que consegui depreender da coisa. Se você é de São Paulo e quer votar em pessoas do estado, deve cadastrar-se por SP. Se quer votar em pessoas de outros estados, cadastre-se pelo estado da candidata/o e vote.

Elucidada a confusão, se quiser votar em Cidinha da Silva, clique no link abaixo, inscreva-se, procure o nome da candidata na lista e vote. Facinho, facinho! http://cultura.gov.br/votacultura/foruns/ba-literatura-livro-leitura/

IMPORTANTE: o período eleitoral se encerra em poucos dias. A DATA FINAL PARA VOTAR É 26 DE SETEMBRO DE 2015.
CIDINHA DA SILVA NO SETORIAL DO LIVRO E LEITURA DO CNPC PELO ESTADO DA BAHIA
Grata pela atenção da leitura e pelo seu voto, caso role...
Amplexos,
cidinha da silva
Cidinha da Silva é escritora com 8 livros publicados. Organizou "Ações afirmativas experiências brasileiras" (Summus, 2003) e "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil" (FCP-MinC , 2014, esgotado) composto por 48 autoras(es). É cronista dos portais Geledés e Fórum. Edita o blogue cidinhadasilva.blogspot.com
O livro "Africanidades e relações raciais...", concebido e realizado enquanto Cidinha da Silva atuou como gestora de cultura na FCP (2014) é hoje peça essencial para elaborar políticas públicas para o setor LLLB na perspectiva de africanidades e de enfrentamento do racismo institucional com vistas à formação do leitor literário pleno. Circula desenvolta pelas questões editoriais no Brasil.



15 de set de 2015

Inscrições no curso Escritas Criativas prorrogadas até dia 17 de setembro de 2015





Foi prorrogado até quinta-feira (17), o prazo de inscrição para o curso de Escritas Criativas ministrado pela escritora Ana Maria Gonçalves. O curso é destinado ao público jovem (17 a 29 anos) e os interessados podem realizar gratuitamente a inscrição pela internet e também de forma presencial. Além do curso serão realizados Workshop Temáticos com Cidinha da Silva (Crônicas), Ana Maria Gonçalves (Teatro), Roberta Estrela D´Alva (Poesia), Marcelino Freire (Contos) e Paulo Lins (Roteiro). Saiba mais:http://goo.gl/3lNTH6

13 de set de 2015

Adeus, Azoilda! Muito obrigada!

Por Cidinha da Silva

A manhã de domingo ficou estranha quando vi postagens de amigas de Azoilda da Trindade que davam a entender que ela não estava bem. O dia ficou mesmo triste quando consegui compreender que ela estava partindo.
Falei com ela dia 17 de julho passado, pela primeira vez fora dos encontros casuais. Azoilda me escreveu para solicitar texto de livro meu que havia se perdido e que precisava para um debate ou atividade de formação, algo assim. Imediatamente providenciei o texto e enviei. Tudo aconteceu de manhã bem cedo. Aproveitei para perguntar como andava a saúde e ela me disse "sigo tratando, cuidando da saúde para que a potência da Vida se afirme e elimine o câncer". Isso foi tudo e, de longe, pensei que ela estivesse bem.
A tristeza que senti é da admiradora, de uma pessoa que a observava à distância, sem a convivência da amizade. Alguém com quem mantive encontros eventuais, sempre fraternos e plenos de risos. Aliás, a capacidade agregadora de Azoilda e a aparente aversão a relações fratricidas me chamaram a atenção, despertaram admiração e respeito.
No meio da tarde de hoje veio a confirmação da partida e a certeza do rasto de luz deixado por sua passagem entre nós. Um samba do Paulinho que pede silêncio e fala sobre o infinito é o que ainda me resta dizer.
Foto: Azoilda Loretto da Trindade por Kátia Costa-Santos

Roda de conversa com Cidinha da Silva na Faculdade de Políticas Públicas da UEMG em BELÔ

Alô BH! Estarei na Faculdade de Políticas Públicas da Universidade Estadual de Minas - UEMG, dia 16 de setembro


12 de set de 2015

Prosa poética, ancestralidade e família em Os nove pentes d'África - curso ministrado por Cidinha da Silva em Salvador




O curso abordará a prosa poética de Cidinha da Silva, em seu primeiro texto longo, Os nove pentes d’África, considerando aspectos de seu processo criativo e de construção de enredo e personagens. Na obra, ancestralidade e família são entrelaçados a temas contemporâneos como o racismo e seu enfrentamento, educação para os direitos humanos, diversidade cultural, entre outros. Todos serão abordados na análise dos pentes herdados pelos nove netos de Francisco Ayrá. Eles constituem a pedra de toque para tocar a pulão de vida presente nas experiências das personagens e rituais cotidianos da narrativa, numa rede tecida pelo fio do tempo.

Horário:8:30h às 13h
Local: Katuka Africanidades - Praça da Sé, n1
(em frente ao Museu da Misericórdia)
Investimento: R$40,00 (aceitamos todos os cartões)
Informações: 71 - 3322-1664

Inscrições no local
Vagas Limitadas

11 de set de 2015

Íntegra da entrevista concedida por Cidinha da Silva à Revista Fórum para matéria sobre a solidão da "mulher negra"


1) O texto de Engravidei, Pari Cavalos e Aprendi a Voar Sem Asas partiu de experiências pessoais suas ou você conversou com outras mulheres negras para escrevê-lo? Como se deu o processo de produção e por que este nome foi escolhido?
O texto foi escrito para a Cia de Teatro Negro Os Crespos. A demanda foi de um texto sobre afetividade das mulheres negras tendo por base 55 entrevistas realizadas durante a pesquisa do espetáculo a mulheres negras de diferentes perfis: presidiárias, universitárias, catadoras de material reciclável, trabalhadoras de salões de beleza, sambistas, estrangeiras, moradoras de rua, ente outras.
A solidão não era um tema. O tema era afetividade entre mulheres negras. A solidão emergiu com força das entrevistas e acabou por compor boa parte dos arquétipos construídos para as personagens, como aconteceu também com a lesbianidade. .
Quanto ao título da peça, foi algo escolhido pelos Crespos. Trata-se de verso de poema da lavra de Maria Tereza Moreira de Jesus, poeta negra paulistana, falecida em 2010 e homenageada pelo grupo.

2) Por que decidiu transformar em obra o tema da solidão da mulher negra?
Como disse, a solidão não era o tema da peça. À medida que o tema da afetividade entre mulheres negras era investigado, a solidão gritou, em certos momentos de maneira desesperada e desesperançada. A solidão emergiu como força telúrica das entrevistas e acabou por compor boa parte dos arquétipos construídos para as personagens.

3) De que forma avalia a maneira como o assunto tem sido tratado nos espaços de militância do movimento negro e do feminismo? Acha que a internet e as redes sociais têm ajudado a amplificar a discussão?

Esta é uma questão preponderante para boa parte das mulheres negras, principalmente as heterossexuais. Parece-me que há dois vetores importantes.
O primeiro refere-se essencialmente ao campo afetivo-sexual, ou seja, a falta de parceiros, principalmente para relações estáveis e companheiras. Aquilo que a demógrafa Elza Berquó demonstrou fartamente ainda nos anos 1990.
O segundo vetor refere-se ao abandono sofrido pelas mulheres negras na condução das famílias, na educação dos filhos, no provimento da vida de pessoas sob sua responsabilidade.
O primeiro tema tem sido objeto exclusivo de grita por parte das mulheres negras que se sentem sozinhas, principalmente as jovens que têm reclamado de maneira bastante enfática, do quanto os homens negros as preterem em favor de mulheres não-negras.
Para sabermos o que circula pela cabeça de muitos homens para que essa escolha aconteça, podemos recorrer ao historiador Joel Rufino dos Santos, recentemente falecido, que em 1995, no livro Atrás do muro da noite, publicado pela Fundação Cultural Palmares,à qual presidida à época, respondeu à pergunta “por que os homens negros que ascendem socialmente, escolhem logo uma branca, de preferência loira”? Cito de memória: “A parte mais óbvia da resposta, é que a branca é mais bonita do que a loira e quem prospera, troca automaticamente de carro. Quem me viu dirigindo um Fusca e hoje me vê dirigindo um Monza, sabe que eu não sou mais um pé rapado. Mulheres, como carros, são símbolos!” Creio que não é preciso explicar, o texto fala por si.
Quanto ao segundo vetor, a solidão das mulheres negras na manutenção das famílias, trata-se de um fenômeno mundial, inclusive em África. Os motivos são diversos: perda dos companheiros para as guerras civis, para a Aids, para o álcool, para os mares, seja em naufrágios de barcos em que fogem das péssimas condições de vida em busca de uma vida melhor, seja quando sobrevivem aos mares, se estabelecem em outros países e formam outra família, esquecendo-se da mulher e dos filhos que ficaram no país natal. E também, é óbvio, por irresponsabilidade com a família, descompromisso com os filhos, desrespeito às mulheres, machismo, misoginia, etc, além de serem os alvos preferenciais da polícia, levando-os a compor cifras astronômicas de homens assassinados.
Neste vetor têm se detido instituições humanitárias, serviços de proteção à mulher, organizações feministas negras, organizações de mulheres negras e, de maneira sazonal e ainda pouco representativa, alguns indivíduos negros, e alguns coletivos de homens negros, de maneira ainda mais rarefeita.
Não tenho opinião formada sobre o papel da internet e das redes sociais no aprofundamento do tema, que me parece ser a necessidade. Quanto à amplificação, sim, a Web amplifica tudo, para o bem e para o mal.

4) Como você, enquanto mulher negra, vivenciou essa questão da solidão e do preterimento?
Tenho dificuldade de responder a esse tipo de questão. Explico e, se a resposta for aproveitada, gostaria que o fosse na integralidade. A vida pessoal faz parte da política, indubitavelmente, mas o tempo em que vivemos parece ser adepto à evasão do privado. É exatamente de evasão que falo, evasão pela vitrine, pelo holofote. E a vitrine é um espaço de exposição, não de cura. Desse modo, para mim, não existe sentido em cultuar a vitrine. Vitrine é algo adequado ao trabalho.
A solidão da mulher negra que tem ocupado meu pensamento não é exatamente aquela a que a pergunta se refere, é, por exemplo, a solidão de ser única em espaços de poder, definição, comando. De ver apenas uma mulher negra ocupando esses lugares por vez. De quase nunca haver várias mulheres negras no poder ao mesmo tempo. A diminuição desse isolamento ocupa meu pensamento.

5) Nas entrevistas com a Ana Cláudia e com a Claudete Alves, conversamos sobre os caminhos para se reverter essa cultura que relaciona as mulheres negras ao “mercado do sexo” e as brancas “à cultura do afetivo”, do casamento, da união estável. Na sua análise, o que é necessário fazer para combater esses estereótipos já arraigados no imaginário coletivo brasileiro? A arte pode contribuir com isso?
Penso também que os parâmetros em que a discussão sobre a solidão da mulher negra têm sido postos são extremante heteronormativos. Gostaria de ver as mulheres negras em posição mais libertária e autônoma. Os homens ainda ocupam a centralidade em questões das mulheres.
A arte pode contribuir com todos os temas, ela existe porque a vida é insuficiente, não é isso? Mas, ando querendo ver o enfrentamento da heteronormatividade internalizada.

3 de set de 2015

Íntegra da entrevista concedida por Cidinha Da Silva ao portal Correio Nagô



Queria saber o motivo do relançamento? Uma questão editorial?

A primeira edição de Os nove pentes d'África data de 2009. De lá para cá, três mil exemplares foram vendidos, mas o livro já estava esgotado há algum tempo e continuava sendo demandado à editora. Assim, mesmo diante da crise terrível que assola o mundo editorial neste 2015, dada a não concretização das compras de livros realizadas pelo governo federal em 2014, a Mazza Edições reeditou o Pentes para atender à demanda do mercado.

Como é falar de africanidades para as crianças? É o lugar ideal para a valorização do nosso mundo negro?

Escrever para crianças, pelo menos para mim, é algo bem difícil e trabalhoso. Existe uma linha muito tênue a separar a expressão criativa e fluida de valores humanos e éticos do didatismo e simplificação empobrecedora de linguagem. Abordar os temas ligados às africanidades é ainda mais complexo, haja vista que existe no mercado uma "cultura negra fast food" incrementada pela necessidade de produzir livros para atender às exigências da Lei 10.639.

O Pentes não é um livro para crianças, é para adolescentes, para jovens leitores, para leitores adultos. Por isso, ele vem sendo adotado pelo pessoal de EJA em diversas secretarias de educação Brasil afora.
Penso que definir "lugares certos" para falar sobre africanidades passa por uma perspectiva didática da literatura que não me interessa. As africanidades estão presentes em toda a minha produção artística porque as matrizes africanas são fontes primordiais de alimento e água para mim. Simplesmente por isso.

E ter a orelha assinada por Chico César, como foi?

Foi massa! O Chico é um sujeito muito simpático e generoso. Eu pedi a orelha, ele leu o livro e escreveu aquele texto delicioso. Acredito que se ele não tivesse gostado do livro ou mesmo se não tivesse tempo para escrever ele teria dito e isso também me deixou confortável para fazer o pedido.

No texto você disse que sabia que o livro teria formato de novela. Veio assim, ou tem um motivo esse formato?

O texto costuma dizer o que quer ser. Eu escreveria um texto de fôlego, de mais fôlego que um conto e de menos fôlego que um romance. Seriam capítulos mais ou menos autônomos, pois eu deseja falar de um pente/valor/virtude em cada um deles e esse é o formato de uma novela.