Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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30 de mai de 2016

Cancelamento do lançamento de Sobre-viventes! em Recife!

Chove demais e a cidade está intransitável. Cancelamos o evento por questões de segurança. Logo, logo agendaremos outra data.


27 de mai de 2016

Sobre-viventes! na versão e-book!


Meu livro mais recente, Sobre-viventes! (Pallas, 2016), além da versão impressa, pode também ser encontrado e adquirido na versão e-book nos seguintes sítios: Amazon, Apple, Google, Kobo, Saraiva e Cultura.

25 de mai de 2016

Sobre-viventes! no Recife, dia 30 de maio!





Com debate aberto ao público a escritora mineira Cidinha Silva lança livro de crônicas no Recife


Cidinha Silva partilha com o público recifense nesta segunda, 30 de maio, às 18h30, na sede da ONG SOS 
Corpo as crônicas do seu mais recente livro: Sobre – Viventes!, Pallas, 2016. Este é o sexto livro de crônicas e o nono da carreira da escritora que escreve prosa, poesia, dramaturgia, ensaios e é colunista dos portais Fórum, Diário do Centro do Mundo e Geledés. Cidinha é também escritora blogueira publicando com regularidade em cidinhadasilva.blogspot.com.br.


Em posição quilombola de observação do mundo. Assim observa e percebe, assim escreve Cidinha Silva. Prestes a completar 10 anos de carreira, com Sobre – Viventes! a escritora tem viajado pelo país partilhando, em lançamentos movimentados e permeados por diálogos com o público, as crônicas do seu mais recente livro. Estas, que têm força em si, ganham em potência no encontro escritora – leitor(a).

Auto definida como “escritora politicamente posicionada”, Cidinha parece não se furtar ao debate, talvez pela clareza que carrega sobre o que quer provocar e refletir com seus escritos. Assim será no Recife, logo mais, quando recebe o público em encontro mediado pela professora da UFRPE, Denise Botelho, líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Raça, Gênero e Sexualidades Audre Lorde, GEPERGES.

Sobre – Viventes! é composto de 41 crônicas que formam um livro de fôlego: pela abordagem de temas densos, sem dúvida, mas pela mistura desses a outros que permeiam o cotidiano e que têm no humor (cáustico, irônico...) um forte componente. Gênero, sexualidade, racismo são tratados tendo como viés a perspectiva das africanidades. Também são tematizadas no livro as manifestações de junho de 2013 e a mídia brasileira – foco do olhar crítico e problematizador da escritora, neste e em outros trabalhos, para quem a hegemonia deve ser questionada e muito bem refletida.

Tocando no universo dos afetos, em Sobre – Viventes! há uma crônica dedicada aos bares de Belo Horizonte, cidade da autora, carinhosamente retratados em “Miudezas de BH, capital brasileira dos bares”. O início dessa crônica já nos dá o gostinho e o tom da escrita de Cidinha: “os bares da minha terra são pródigos em esquisitices, não só em comida de boteco. Você entra em um e está escrito 'é proibido ficar com agarramento nas dependências desse estabelecimento!”

Se o livro aparece como uma miscelânea de temas, não dispersa atenção, foco e gosto pelo que se vai lendo. Crônica a crônica, a diversidade das situações aos poucos vai deixando claro a quem lê: posicionar-se não é escrever sob rótulos. É, antes, uma tomada de decisão pelas visibilidades, através da vocalização e expressão pela escrita, de sujeitos, lugares, conjunturas... Todos têm nomes, são presenças e visibilidade nos livros de Cidinha Silva. Escritora. Mulher. Negra. Que partilha uma escrita universal a partir do seu lugar de fala-pertencimento e de olhar o mundo.

Sobre a Escritora:
Cidinha Silva atualmente vive em Salvador. Recife é cidade que já a acolheu e para qual tem voltado algumas vezes. Trazida pela literatura, já lançou outros dos seus livros aqui. Sempre desejou ser escritora, desde criança inventava histórias e na adolescência começou a escrevê-las. A escrita literária como exercício profissional foi iniciada em 2006, com o livro de crônicas Cada tridente em seu lugar. É prosadora e dramaturga. Tem nove livros de literatura publicados. Possui centenas de crônicas, ensaios e artigos de opinião publicados na WEB, em portais, blogues profissionais diversos e principalmente no blogue pessoalhttp://cidinhadasilva.blogspot.com.br/ e na Fanpagehttps://www.facebook.com/cidinhadasilvaescritoraÉ colunista dos portais Fórum, Diário do Centro do Mundo e Geledés.
No campo da dramaturgia escreveu Sangoma: saúde às mulheres negras (co-autoria com Capulanas Cia de Arte Negra, encenada em 2013) e Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas (encenada por Os Crespos, 2013 a 2015) e Os coloridos (espetáculo infantil encenado por Os Crespos em 2015 e 2016).
Como ensaísta organizou:Africanidades e relações raciaisinsumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, com a participação de 48 autores e autoras em 403 páginas (2014). Anteriormente foi organizadora de Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras(Summus, 2003), um dos 10 primeiros livros sobre o tema publicados no Brasil.
É doutoranda no Programa Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento – DMMDC, na Universidade Federal da Bahia – UFBA, onde pesquisa a tensão africanidades/relações raciais X racismo institucional nas políticas públicas para o livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (2003-2016).
Serviço

O que: lançamento do livro Sobre – Viventes! Cidinha Silva.
Presença da escritora de debate com o publico mediado professora da UFRPE, Denise Botelho, líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Raça, Gênero e Sexualidades Audre Lorde, GEPERGES.
Quando: 30 de maio, segunda, às 18h30.
Onde: Sede do SOS Corpo.
Rua Real da Torre, 593. Madalena. Recife – PE

20 de mai de 2016

A gente não precisa pedir licença


Capa: Rodrigo Bueno /Maria Tereza CurupiraCapa: Rodrigo Bueno /Maria Tereza Curupira
Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais? A frase publicitária é perfeita para outra pergunta: A literatura negra é pouco publicada porque aparece pouco, ou aparece pouco porque é pouca publicada?
O livro Africanidades e Relações Raciais, organizado pela escritora negra Cidinha da Silva, responde, relativiza e contextualiza essa pergunta. Quarenta e oito autores – vinte e três mulheres e vinte e cinco homens, sendo 90% negros – se unem numa força-tarefa para refletir acerca das memórias e atualizações das raízes africanas, escravidão, quilombos, libertação, marginalização, discriminação e preconceito.
Também, por suposto, Africanidades e Relações Raciais narra histórias de sucesso, resistência e superação na vasta e complexa cadeia da escrita e leitura no Brasil. A começar, pondo o dedo na ferida nacional: a imensa maioria dos pobres brasileiros são negros. A continuar, fazendo a pergunta fatal: Quantas personagens negras encontramos na literatura brasileira? Não vale contar escravos anônimos, criadas, meninos de recado, prostitutas, drogados, malandros, desvalidos de toda sorte.
A tese central que percorre os ensaios, depoimentos, relatos do livro é: a “invisibilidade” de textos de autores negros tem a ver com o racismo no Brasil. Este que escorrega sob a máscara de uma democracia racial. É evidente que muitos citarão Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Souza como negros integrantes da lista dos clássicos da nossa literatura. Mas é muito pouco.
 relevante produção passada e contemporânea que se mantém no limbo, ou circunscrita a editoras e selos negros. Portanto, com recepção franzina. Também sabemos que a literatura funciona em modo diálogo. Um texto se comunica com outro e com outro, formando as tradições. Mas para que isso aconteça é preciso haver oferta de conteúdos.
Se quisermos saber como a ficção tratou a imigração italiana em São Paulo, ou a portuguesa no Rio de Janeiro, encontraremos grandes buquês. Mas se quisermos saber como obras de ficção trataram as subjetividades das pessoas negras na sua imigração forçada, ficaremos a ver navios. Não os negreiros, mas os fantasmas.
Somando-se a essas dificuldades, falta divulgação da expressão atual de escritoras e escritores negros. Voltando à pergunta do Tostines, de que forma o grande público lerá títulos de autores negros, se eles não estão nas grandes livrarias e nem fazem parte orgânica do mercado editorial?
A boa supresa do livro, organizado por Cidinha da Silva, é que mais do que perguntas, ele oferece respostas. As melhores vêm em forma de exemplos. Entre eles, os vigorosos saraus que pipocam nas periferias de algumas cidades. O mais famoso deles é o Cooperifa, fundado em 2001, onde leituras e declamações acontecem no Bar do Zé Batidão, zona sul de São Paulo.
Mas há vários outros saraus espalhados por praças, bairros, centros de cultura. Neles, o encontro fundamental é entre autores e ouvintes-leitores. Também funcionam como estímulo para jovens e velhos escribas mostrarem o que andam prosando, poetizando. Outra curiosidade, bem significativa, é a releitura da palavra sarau.
No passado, saraus eram reuniões literárias e musicais em salões burgueses. Basta lembrar dos famosos saraus na casa da Dona Olívia Guedes Penteado, espécie de socialite, frequentado pela malta modernista e branca de São Paulo. O que pensar, então, de saraus em botecos, morros, salões de igrejas, bairros periféricos, frequentados por uma maioria negra?
Mais um exemplo vigoroso de aproximação com o público leitor são as Bibliotecas Comunitárias. De forma geral, elas estão em espaços geográficos pouco assistidos por ofertas culturais. Geridas por pessoas da própria comunidade, elas ganham asas de liberdade e criatividades.
Um dos relatos dá conta de uma biblioteca que nasceu em um bar. O acervo foi formado pelos moradores, tendo uma simples regra de empréstimo: Se você não quiser devolver o livro que pegou, traga outro. Nada de burocracias com fichinhas, CPFs, RGs. A ideia vingou e, no lugar de devolver um exemplar, muita gente devolveu dois.
Entretanto  bibliotecas comunitárias não têm necessariamente em seu acervo títulos de autores negros. Essa é uma questão a ser trabalhada por meio de sensibilizações e de conhecimentos. Uma das chaves é mostrar que está vencida a época em que se falava em nome dos negros. A nova temporada, sem data para expirar, é os negros falarem de si mesmos, com toda a liberdade que a literatura abarca.
As bibliotecas comunitárias também são fundamentais para formar leitores. Por décadas, grande número de crianças brancas herdava o gosto da leitura de avós e pais. Viam e manuseavam o objeto livro em suas casas. Enquanto a maioria das crianças negras e pobres chegavam aos primeiros anos escolares sem nenhuma, ou quase nenhuma, intimidade com os livros.
Forte aliada para a divulgação e consolidação da ficção negra é a Lei que obriga a inclusão da temática História e Cultura Afro-Brasileira no currículo escolar. O que, grosso modo, significa que crianças e jovens negros e brancos aprenderão sobre as raízes e as contribuições de metade da população brasileira. Muito além do carnaval, do samba, da culinária e do futebol.
A conta é simples, a temática negra necessita de conteúdos apropriados e eficazes, abrindo o apetite para a literatura dos africanos e afro-brasileiros. Oportunidade também de revisitar aqueles que abriram caminhos bem antes dos saraus e bibliotecas comunitárias.
Existiram escritores do naipe do gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009) poeta e um dos idealizadores do 20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra. Houve o mestre Abdias Nascimento (1914-2011) idealizador do Teatro Experimental do Negro. Houve Solano Trindade (1908-1974), agitador das artes no Embu – SP. Houve a surpreendente escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), que tem páginas bônus no livroAfricanidades e Relações Raciais.
Certamente existiram muitas outras penas negras que hoje aguardam por resgate e reconhecimento. Também há maduros na ativa. Dezenas de escritoras e escritores em plena escrivinhação, tentando estratégias e mostrando resiliência frente a cenários adversos para a sua produção literária e para a literatura brasileira em geral. Mas sem esquecer da internet – rede que possibilita a disseminação de espaços digitais – onde a literatura escritas por negros tem tudo para vicejar.
Os aplicados autores do livro elencam fortes sugestões para turbinar e democratizar as políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil. Entre elas, há ações afirmativas para escritores e leitores negros, no esforço de minimizar as desigualdades raciais que os atingem. Propostas de cotas para prêmios-estímulos promovidos pelos governos, compra qualitativa e sensível ao tema de livros para  escolas e bibliotecas públicas e comunitárias. Fomentos para planos municipais de divulgação da leitura literária.
Sem falar no estímulo de bolsas acadêmicas para interessados, negros e brancos, em estudarem a contribuição literária dos negros africanos e brasileiros. Grande ênfase é dedicada à Lei que torna obrigatório nas escolas a temática História e Cultura Afro-Brasileira, vista com um marco na educação para valorizar a população negra, enfraquecer o racismo e dilatar o conhecimento de todos. São vôos de grande altitude, mas absolutamente necessários.
O povo negro cansou da sucessão de “gerações perdidas”. A tinta negra quer correr livremente nas veias da nossa literatura, mestiça por nascimento e criação. Em nenhum momento é imposto o que escritoras e escritores negros podem ou devem escrever. Na verdade, eles podem e devem escrever o que quiserem. Desde contar de suas bisavós escravas até narrar a vida de uma família abastada na Escandinávia.
Africanidades e Relações Raciais – Insumos para Políticas Públicas na Área do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas no Brasil.Organização Cidinha da SilvaEditora Fundação Palmares – Ministério da CulturaAno 2014Páginas 402

17 de mai de 2016

Sobre-viventes! de Cidinha da Silva

Por *Pollyanna Marques Vaz
Em 2006 ao fazer minha primeira leitura de Cada Tridente em seu lugar e Outras Crônicas (Instituto Kuanza, 2006) em um único fôlego, sentada no centro de Goiânia, pensei “então literatura pode ser assim? Escrever pode ser assim? Estas pessoas podem estar nos livros…” Hoje com a chegada de Sobre-viventes! (Pallas, 2016) sexto livro de crônicas e nono livro da escritora, prosadora mineira Cidinha da Silva, também autora do primeiro livro, tenho certeza que definitivamente literatura é assim, escrever pode ser cada vez mais assim.
A sensação que a leitura de Sobre-viventes! causa poderia ser descrita como uma onda que se quebra na gente, mas como sou da água doce e tenho mais familiaridade com as águas daqui, a metáfora será cachoeira após época de chuvas, percurso de queda d’água forte e volumosa que refaz as margens.
650x375_cidinha-da-silva_1634279Começa com as águas calmas, temas cotidianos, a superfície da água é parte pequena do todo, do fundo e tudo que há além do visível, os mergulhos no cotidiano expõem as cenas habilmente recortadas assim como grandes fatos trazidos junto a análises certeiras. Essas cenas algumas vezes trazem o ridículo de nosso tempo como em “Mundo dos aplicativos”, outras vezes somos enredados, levados pela correnteza, a crônica “O dia em que William Bonner chorou” é certeira neste sentido, a narrativa nos envolve, sabemos que haverá um desfecho, mas deixamos nos levar e quando ele finalmente chega nos surpreende e nos sacode.
Estas águas se avolumam cada vez mais, batem nas pedras, se revoltam, voltam diante das dificuldades e abrem caminhos, é luta diária, é a revolta de cada denúncia, cada racismo. No cotidiano, na mídia, nas relações pessoais, nas instituições, na permanência da estrutura branca, masculina e heteronormativa no poder. Estando presente em todo livro o racismo, assim como machismo e a homofobia são especialmente abordados nesta parte. Aqui também as cenas são recortadas com precisão e concisão, é o racismo de todo dia presente em “O livro de recitas de D. Benta” e em “É só alegria”. As conquistas e as contrarreações relatadas no campo da diversidade sexual e sua representação na mídia aparecem em a “A heteronormatividade pira!” e de quebra ainda são rebatidos pelo menos dois mitos sobre mulheres lésbicas e bissexuais. Há também as cenas e vivências da própria escrita como em “Profissão de fé” e“Para não dizer que não falei de flores”, esta última começa com uma menção à Alice Walker e ao lindo “Vivendo pela Palavra”, atravessa outras referências na questão racial, como os médicos cubanos e Joaquim Barbosa e volta-se sobre o escrever crônicas e seus temas:
A falta de assunto, matéria de tantos cronistas, não me afeta. Ao contrário, a movimentação subreptícia dos racistas como reação a cada pequena conquista, a cada ameaça de ampliação do horizonte negro, me dá uma preguiça, uma letargia e, como Walker, chego a querer não mais escrever sobre esses temas. Meu tempo para eles tem se esgotado. Eis que encontro um cego atípico e ele me dá um sacode.”(p.33)
imagesA crônica vai da ironia ácida a imagens cheias de lirismo, movimento presente em vários outros momentos do livro. Aparecem também dois ícones negros, Emílio Santiago e Tim Maia, figuras presentes em outros momentos nas crônicas de Cidinha.
Ainda nesta parte, onde as águas batem cada vez mais fortes nas rochas e são reviradas até o fundo, estão as crônicas que doem, apertam a parte já dolorida pelos racismos, crônicas como  “125 anos de Abolição e eles gritam mais uma vez que o poder é branco!” que retrata o absurdo da suspensão dos editais destinados a artistas e produtores culturais negras e negros e  “Os velhos se vão, o velho grita”, doem aquelas histórias antigas como doem os extermínios de hoje.
Com “Antologia do quartinho de empregada no Brasil”, que traz a arquitetura racial de nossos espaços e a PEC das Domésticas, começa o salto das águas. Não é queda, é voo, a liberdade de seguir adiante, avolumada e cheia de força, de energia, sobrevivente que seguiu adiante, por cima das pedras, das dificuldades, com as referências de quem antes, agora e depois por vários caminhos, militância, arte, vida e obra seguiu adiante e se tornou volume nas águas para que também consigamos. Ponto incrível deste salto, onde percebi que estava em queda livre foi com “Assata Shakur e Nhá Chica”, resistência, afago, nas palavras da autora:“Se for preciso, a gente descansa a pena de Nkossi e faz o xirê do fogo. E se cair, a gente cai de pé, atirando, como Assata Shakur”. “Distinções entre abolição da escravidão e racismo” é aula sobre as dinâmicas das denúncias de racismo que precisamos todas e todos aprender. “Empresa Familiar” e “Voe, Velho Madiba, espelho da liberdade!” nos alenta, “Um capítulo das manifestações de junho” e “Será a volta do monstro?” nos inflama.
Quando terminamos o salto estamos em águas que moldam, que batem e esculpem as pedras, constantemente, são de novo as crônicas relacionadas a episódios do país eivados pela questão racial, a comparação de Joaquim com capitão do mato, o episódio do sorteio da Fifa que preteriu Lázaro Ramos e Camila Pitanga, a teocracia e a dificuldade de implantação da lei 10.639 e em “Sobre-viventes” o extermínio da juventude negra. Depois chegamos à calmaria de águas renovadas, lugar de onde se olha para trás e se observa, o cotidiano na superfície que de novo adivinha o fundo e continua, continua, como águas em movimento que são.
Sobre-viventes! se liga às outras obras da autora em especial Oh Margem! Reinventa os Rios!(Selo do Povo, 2011) e Racismo no Brasil e Afetos Correlatos (Conversê, 2013) nos seus temas principais, o cotidiano, a multiplicidade, o olhar aguçado de análise, as interconexões do que acontece aqui e acolá e principalmente as relações raciais, as manifestações do racismo e de outras formas de exclusão. Não restringindo a obra a um tempo ou finalidade, ela é propícia nestes tempos atuais onde sobram fórmulas prontas de explicação. Com ótica racializada e generificada as crônicas trazem análises com mais elementos e mobilizam outros atores, não só os que comumente tem “direito”, e meios, para falar.
O livro consolida o estilo da autora, os relatos com ironia, humor, acidez, a famosa navalha citada pelos apresentadores do livro que aparece, no trabalho com a linguagem, em criativas expressões como “cachorros contemporâneos” e “afro-surtada”. Refina a arte do estilo conciso que se abre, tece um pedacinho de vida, expondo, analisando e confiando na nossa inteligência que vê e percebe o resto. Esse aspecto é abordado por Eduardo Oliveira no posfácio do livro:
“Faz literatura banta, universalizável desde seu lugar de pertencimento. Cria seu próprio modo de expressão. Constitui seu universo. Escolhe suas referências. Diz com o estilo o que não se pode dizer com a frase. Ultrapassa o dito com o dizer. Para mim, isso é literatura. Dizer para além do dito. Intencionalmente ocultar para revelar. Revelar ocultando. Nesse jogo, deslinda-se o humano.”(p.128)
Quando li Cada Tridente em seu lugar e Outras Crônicas me encantava a multiplicidade e complexidade presentes nas personagens, eles seguiram de forma diferente o riscado da vida. Sobre-viventes! está cheio desta multiplicidade, cheio de sobreviventes destes tempos e de outros também, que o tempo se verga e comporta diferentes nestas crônicas como ressaltado pela prefaciadora do livro. E muito mais que isso está cheio de voz, voz que está mais ampla nos temas, na linguagem e na estruturação. Esta começa com um lindo prefácio, se desenha e nos leva tal como cachoeira, começa calmo, passamos por águas revoltas que lutam com as pedras, fazemos o voo e depois voltamos novamente a calma e finalizando com um ótimo posfácio.
Tenho um gosto pessoal pelas crônicas de Cidinha que trazem mais lirismo, pouco presentes neste livro e que talvez não coubessem no rumo que tomou esta obra, porém, valem a pena ser citadas e conhecidas. Cidinha, no início do Tridente cita Exu Tranca Rua “O caminho é quando ocê escolhe uma estrada pra seguir e chegar no seu lugar”, Sobre-viventes! e a obra da autora tem seu caminho certo na literatura.
*Pollyanna Marques Vaz, 31 anos, goiana, negra e lésbica, estudante de Letras da Universidade Federal de Goiás. Publicada no blogue Margens 




16 de mai de 2016

Cidinha da Silva na Mostra Benjamin de Oliveira (Belo Horizonte)


A prosadora e dramaturga Cidinha da Silva estará na Mostra Benjamin de Oliveira lançando o livro Sobre-viventes! e ministrando a oficina "Personagens interseccionais na crônica de Cidinha da Silva".
A oficina abordará a complexidade literária das personagens construídas por Cidinha em seus cinco livros de crônicas e nas outras centenas de textos publicados pela autora na internet, com destaque para mulheres negras, população LGBT, homens negros, diversidade de faixas etárias – sujeitos dissonantes, de um modo geral.
Dia 6/6, segunda-feira, das 19h às 22h
Tambor Mineiro - Rua Ituiutaba, 339 - Prado
Gratuito
INSCREVA-SE AQUI: http://bit.ly/1SDgR4D

12 de mai de 2016

Alguma poesia para chamar o sol e saudar as águas


Por Cidinha da Silva



No dia 17 de abril de 2016, durante a homologação do golpe contra Dilma na Câmara dos Deputados, quando a leoa Jandira Feghali se aproximou do microfone para votar contra o golpe e tinha o rosto abatido, dolorido, destroçado, eu não agüentei. Abandonei a TV e me refugiei no telefone.

Por que não atendi ao chamado do Paraguaçu para assistir a votação às suas margens? Era o que me perguntava. É que nunca, nem no pior dos meus pesadelos, imaginei aquele espetáculo de re-colonização encenado pela casa-grande.

E parecia que Jandira ia chorar. E ela poderia ter chorado, sem perder um milímetro de sua força. Seria o choro represado por todas nós. Seriam lágrimas nossas como foi o cuspe de Jean Willys no deputado nazista.

Aliás, não tive forças para assistir o voto de Jean também. Eu o ouvi de longe enquanto buscava ungüento para meu desamparo. Meu bote de salvação foi a lembrança de um professor de literatura que certa feita me disse: “Todas as vezes que morre alguém que amo, leio poesia. É a única coisa que me conforta”.

Eu morri um pouco aquele dia. Minha ilusão de justiça social também. Precisava de salvação e busquei a poesia.

O bote-salva-vidas foi “Correntezas e outros estudos marinhos”, de Lívia Natália. Li a apresentação, o prefácio e o primeiro poema. Quando cheguei ao segundo, “Sina”, li e reli umas seis vezes e resolvi dar uma pausa ao meu coração, contudo, o bichinho se acabrunhou novamente quando o barulho de panelas, foguetes e gritos de “fora Dilma” interrompeu o torpor poético que aplacara em mim o desespero. Assisti um pouco mais daquelas cenas macabras que expuseram nossas vísceras apodrecidas ao mundo.

Voltei à poesia para continuar viva. Durante a leitura, o previsto aconteceu. A poesia de Lívia Natália sangrou fertilidade e me arrebatou. Arrebentou, também. E fiquei mais lenta. Atenta para reter o pó de ouro abrigado entre um verso e outro. Para não desmanchar a tipografia quando a água tomasse conta de tudo.

Ari Sacramento me libertou do medo de afogamento no desconhecido  mar da análise literária, pela leitura afetiva que fez do livro. Eu sei escrever e ler, não domino as teorias. Ari, que sabe nadar em todos os estilos e nos lugares mais fundos do mar, me autorizou a tornar pública a ebulição das águas oceânicas deste livro no Rio Doce que me habita. Rio destruído pela Samarco nos Gerais de minha Minas sem mar.

“Estudo marinho” é um poema que li dez, vinte vezes. Não para “entender”, como costuma ocorrer com boa parte da poesia contemporânea que me cai às mãos, mas para entranhar  e degustar cada verso. Porque na poesia de Lívia Natália, que mora nas pedras negras, “a água se encharca nas palavras”. Porque é uma poesia que nos convida a sermos também “Orixás Didés” e nos banharmos no nosso próprio mistério.

Nós, que quando lemos boa poesia, somos tentadas a poetar também. E que nos perdoe a poeta, porque sua poesia “faz as tardes se emanciparem da gente”.

Em “Sometimes” o vento se movimenta e pobre da voz lírica, pois é toda feita de água. Do lado de cá sou feita das pedras que Lívia Natália se ocupa em cantar. Mas toda pedra um dia foi água e aí reside sua poetação.

“Imitação” é um poema de que discordo no início e com o qual concordo na conclusão. Diz a poeta nos primeiros versos: “A palavra não tem mesmo antes: / nada de seu esboço calmo flutua no ar”. Penso que o antes existe e se manifesta na busca da palavra precisa, que é também o depois, a reescritura.

A concordância vem ao final, no que considero a reafirmação Drumoniana de que “lutar com as palavras é a luta mais vã”, diz Lívia Natália: “As palavras afirmam o que mesmo são: / sombras de pássaros”.

Em “confissão”, a idéia dos limites da palavra se apresenta novamente e cala fundo em mim: “Nem tudo o que choro, / pode ser transmutado em poesia”. Sim! Viver é maior do que escrever.

Sobre “Quadrilha”, o poema censurado por pressão da “bancada parlamentar da bala” da Bahia, escrevi uma crônica inteira, publicada aqui. Lá, escrevi: “mesmo o poema de amor corta, pode ser dilacerante e pode também agredir muito a quem orienta a vida pelo desamor, pelas armadilhas e pela luta política menor”.

Vejamos o que a poeta escreveu em Quadrilha. “Maria não amava João. / Apenas idolatrava seus pés escuros / Quando João Morreu / Assassinado pela PM / Maria guardou todos os seus sapatos”.

Ficou patente a reedição da censura a partir daquele 14 de janeiro de 2016, à medida que o governo baiano retirou das ruas, na calada da noite, um poema de amor e crítica social, em atendimento às reclamações e articulações espúrias de militares inconformados com a exposição de sua carne viva que aperta o gatilho e extingue o corpo negro.

 Com alguns poemas me identifico mais, outros menos. Com poucos não me identifico, mas nada é raso ou “de plástico” (estética pela estética), para parafrasear outro poeta, Ni Brisant. Isso é o que fica.

Com a delicadeza dos “poeminhas de amor sem enfeite nenhum” me identifico muito. É quando gosto mais da poesia de Lívia. Quando fala de amor. Do amor vivido, liricamente experimentado no corpo.

Corpo que luta para existir e ser respeitado e por isso, muitas vezes, se perde de si e do amor. Só se reconhecendo na (reduzida) luta pela sobrevivência. Na resistência.

E a poeta nos redime ao nos lembrar que “mesmo que tudo em nosso vôo anuncie o exausto das horas, para sempre seremos pássaros. Para isto nascemos”.

O poema que encerra o livro, “Cura”, me remete ao motivo de ter buscado o “Correntezas e outros estudos marinhos” para sobreviver a um mar de detritos produzido e espalhado por ratazanas perigosas e repugnantes: “O tempo, como um cão, / cura as feridas na saliva dos dias”.


9 de mai de 2016

Trecho de Voe, Velho Madiba, espelho da liberdade!




"Sabíamos que você estava adoentado, iniciava o caminho de volta, mas ainda estava entre nós. A saudade agora dói mais, é o sentimento de adeus a um dos nossos que partiu para o país dos ancestrais.

Eu achava que não sentiria dor, não lamentaria, pois pensava estar conectada à sua necessidade de desenlace. Que nada! Caí do alto do cajueiro.

E que gente sonhadora conseguiria manter-se incólume à passagem do Madiba pela Terra, o grande espelho da liberdade? Todos nós que um dia sonhamos com a vida plena e humana, em algum momento nos vimos refletidos em sua voz firme, seu sorriso franco, seu olhar terno, sua coluna ereta e suas mãos de pugilista.

Nós ousávamos pensar, velho Mandela, que fazíamos parte de você. Sentíamos que o melhor de nós habitava em você. Era nosso jeito de crescer e de nos tornarmos dignos da sua luta sem trégua contra o racismo institucional. Queríamos ser persistentes como você, que a determinação se encaixasse em nós como sobrenome e que sua tenaz ternura nos apaziguasse" (Trecho de Voe, Velho Madiba, espelho da liberdade! de Cidinha da Silva, no livro Sobre-viventes!).

8 de mai de 2016

Sobre as crônicas de Sobre-viventes! (5)

“Vida de gato” aborda jogos de interesses em relações afetivo-sexuais entre gatas e gatos marcados pela cor. Neste caso, só gatos que preferem gatas e gatas que preferem gatos, não porque os homoafetivos sejam “santos”, mas por uma escolha de enfoque.
Interessante que quando esta crônica foi disponibilizada na Web, alguns homens negros reagiram. Um em especial, jovem e promissor intelectual, argumentou que, “como homem negro em reconstrução” sentia-se obrigado a responder o texto. Tratou então de reescrevê-lo.
O fato incoerente é que manteve minha assinatura.Fiquei perplexa e em silêncio. Refletia sobre a intervenção na obra ficcional de alguém porque trata de tema coletivo, cuja discussão, interessa e afeta diretamente a um coletivo.
Frente ao barulho do silêncio, o jovem intelectual me procurou e justificou-se. Ouvi e disse a ele três coisas: na primeira, mencionei minha reflexão sobre o vício horrível de tomar a produção criativa de outrem e interferir nela como fosse um panfleto de escrita coletiva, em que qualquer um pudesse meter o bedelho.
A segunda é que não concedo a ninguém o direito de mexer nos meus textos mantendo minha assinatura. No caso dele, como queria valer-se de minha ficção, reescrevendo-a, que me desse o crédito do texto-base e tratasse de divulgar sua reescritura assinada.
A terceira (diante da contra-argumentação dele) foi que fizesse o favor de demarcar suas intervenções no texto em letras maiúsculas e em cor diferente do original para diferenciá-las do que fora escrito por mim. Entre outros motivos porque a escrita dele me comprometia, haja vista que eu não escreveria aquelas coisas, tampouco daquela forma.
Como dizem as amigas baianas, “é coisa, viu”?

7 de mai de 2016

Sobre as crônicas de Sobre-viventes! (4)

Por Cidinha da Silva



Emílio Santiago! crônica citada pelo jornalista Marlon Marcos na resenha que fez do Sobre-viventes! (https://www.facebook.com/events/850491621747268/) no jornal baiano A Tarde, desse sábado chuvoso, fala do cantor, considerado pela cronista, o maior intérprete da música brasileira contemporânea. A cronista contrapõe a sofisticação que parte da crítica impingia a Emílio Santiago como sinônimo de certo elitismo musical, ao zelo extremado que o cantor tinha com a voz, a performance e o público.https://www.youtube.com/watch?v=lOZf9L1WvkU

6 de mai de 2016

Trecho da entrevista de Cidinha da Silva na Revista Afirmativa


Leia entrevista completa na Revista Afirmativa
A que se deve o pouco hábito de leitura do brasileiro em geral. Suponho que a comunidade negra, também tomada por esse mau costume da não-leitura, seja o principal foco da sua escrita. Quais são suas estratégias para seduzir leitores?
Então, vamos por partes. São três os temas nesta pergunta, não é? Vários analistas da leitura têm dito que o principal ativo de promoção da leitura no mundo contemporâneo é o tempo. As pessoas leem cada dia menos porque não têm tempo para ler. A leitura de um livro é exercício de contemplação da palavra, de interação com um movimento, um ritmo proposto por uma autora ou autor. Nesse mundo tão corrido, quem é que se senta na varanda, no sofá, ou se deita na rede para ler? Quem é que para? E veja que estamos falando de pessoas que trabalham e têm tempo livre e podem escolher o que fazer com esse tempo. Não estamos falando de pessoas que trabalham como burras de carga, das quais a FIESP acha que pode roubar a mísera hora de almoço. Gente que despende entre três e seis horas diárias para deslocar-se para o trabalho e voltar à casa. Na maior parte das vezes em pé, amontoada em metrôs, ônibus e trens super lotados. No caso das mulheres, expostas ainda a situações de abusos sexuais.
Mas, espera, a pergunta era sobre o “pouco hábito de leitura”... sim, o gosto pela leitura está diretamente relacionado às condições de vida, às possibilidades de fruição, à existência de tempo livre. As afirmações de que “quem quer ler o faz em qualquer lugar” são bastante úteis para uma relação com o livro que não seja marcada pelas limitações, pelas precariedades.
Isso posto, podemos abordar outros fatores limitadores, tais como:
- o baixo investimento na promoção do gosto pela leitura (veja bem, falo em gosto, não em hábito) na escola, durante o ensino básico;
- o despreparo de professoras e professores para lidar com a literatura como espaço de liberdade, pelo qual se deve transitar sem definir respostas certas e erradas, sem a futurologia do “que o autor quis dizer com isso ou aquilo”;
- a existência de prática deliberada de constituição do livro (dos saberes que ele contém) como elemento de opressão das classes populares e das demais pessoas que não compõem a elite intelectual que produz livros. O livro não é vendido como um objeto-amigo, mas como um instrumento de poder das elites sobre o povo, que o teme e venera como algo distante de si;
- ausência de campanhas massivas de popularização do livro e de políticas públicas para tornar a leitura acessível a grandes grupos de pessoas;
- preço elevado dos livros e encastelamento deles em livrarias que não temos o hábito ou a possibilidade de frequentar;
- por fim (é o que me ocorre agora), existe a questão da falta de representação de grupos não-hegemônicos na maior parte da literatura de grande circulação no mercado editorial. As pessoas gostam de livros nos quais se vêem, se reconhecem, que contam histórias que lhes são caras.
Quanto ao foco da minha escrita, tenho em mente a leitora que sou, o que gosto de ler, as personagens e situações que gostaria de ver abordadas na criação literária.
Quanto a “estratégias para seduzir leitores”, sou uma autora que escreve para ser lida, então, não utilizo linguagem cifrada. Quero que a sofisticação aconteça pela poesia, pelo ritmo, pela música do texto, em linguagem simples, não empolada. Isso do ponto de vista da escrita. Do ponto de vista da circulação da minha obra, tenho disposição para ir onde meus prováveis leitores e leitoras estão, onde vivem (Cidinha da Silva).

4 de mai de 2016

O cinema de palavras de Cidinha da Silva



Por Ni Brisant
https://www.facebook.com/cidinhadasilvaescritora/

Literatura é quando uma história nos convence de que a realidade pode ser outra(s), algo acima dos sonhos e das mazelas cotidianas. Não uma esperança convicta e anunciada, mas uma rachadura no muro de uma rua sem saída – para alguém que precisa chegar do outro lado. No entanto, literatura não é só isso.
Cidinha da Silva chega ao seu nono livro com o vigor e o ritmo próprios de quem já viu demais, sentiu muitas e não tem linha nem tinta para desperdiçar. Não cabem panfletos ou quebrantos. Vale mais caminhar e propor pistas de outras histórias: horizontais, obviamente.
Sobre-viventes é fertilidade criativa e crítica. Tocando em questões raciais, políticas e de gênero sem cair no mingau ralo do discurso pronto, das obviedades calcificadas. Narrativas de dentro.
Os personagens são palpáveis, são gente, não bonecos representando instituições – como se tornou comum ler por aí. Não se trata de crônicas produzidas para agradar grupos. É o que precisa ser dito. Menos dedo na cara e mais desafios à reflexão, propositivo. Do nojo à simpatia, causam os sentimentos mais complexos. Indiferença é que não. Aí está o encanto maior, a gente lê como se assistisse. E, naquele instante, quando você pensa que flagrou o ideal do livro, Cidinha te põe pra catar cavaco, revela a imensidão de seu repertório, capacidade de subverter e manusear a língua (como em Setoró, por exemplo).
O leitor não é testemunha, é cúmplice. Real como o agora (sem ser vulgar), cada crônica tem um coração como matéria-prima. Ora pelo afeto, ora pela sangria.       Extraídos de situações convencionais, como novelas, transportes públicos, redes sociais e noticiários, os casos passam pelo filtro da autora e deixam a suspeita-sensação de que aquelas personagens são todas partes de nós.
 Não por acaso, o título permeia e amplia os sentidos de todos os textos do livro. Com fôlego e parágrafos mais longos, as crônicas que denunciam violências (em geral) trazem um olhar jornalístico mais apurado em detrimento da poesia, que caracteriza as de cunho narrativo. E como preservar o lirismo em meio a tanto horror? Pois é, o texto que mais utiliza recursos poéticos se chama A Guerra.     Cidinha da Silva recorre o tempo todo às memórias de pessoas que tiveram (e/ou têm) o exercício pleno de suas humanidades negado. A autora não entrega tudo, muitas vezes prefere deixar o caso suspenso – como quem diz: “Receba. Você que continue, se quiser...” Por isso é necessária uma leitura dedicada para perceber os silêncios destas memórias femininas e negras – sobretudo. 
Se algumas crônicas permitem a vastidão da subjetividade, por outro lado, outras explicitam uma posição definitiva em defesa de lutas ancestrais. Sua fala em O leilão da virgem e a fita métrica é emblemática e ecoa“Eu juro a vocês, seria mais feliz ao falar de flores, amores e pássaros, mas esse pessoal não nos deixa criar em paz.
Um livro atento às emergências e contradições do nosso tempo. É uma trovoada neste aquário de literatura marginal. Dialogando com sentimentos imprevisíveis, toda uma tradição de resistência através de traços, cantos, sabores, sons, cores etc, Sobre-viventes não inventa a roda da literatura, mas faz com que ela gire com mais diversidade e reticências.
Mais ou menos como diria Criolo (artista citado no livro), saber a hora de parar é para gente sábia. E a julgar pela qualidade literária que vem apresentando nestes anos todos, a história de Cidinha da Silva não conhecerá fim.

*Ni Brisant é educador e poeta. Baiano residente em São Paulo, lê e escreve para ter no que acreditar.















Trovoadas e paradoxos contemporâneos em Sobre-viventes!


Um livro atento às emergências e contradições do nosso tempo. É uma trovoada neste aquário de literatura marginal. Dialogando com sentimentos imprevisíveis, toda uma tradição de resistência através de traços, cantos, sabores, sons, cores etc, Sobre-viventes não inventa a roda da literatura, mas faz com que ela gire com mais diversidade e reticências.
Mais ou menos como diria Criolo (artista citado no livro), saber a hora de parar é para gente sábia. E a julgar pela qualidade literária que vem apresentando nestes anos todos, a história de Cidinha da Silva não conhecerá fim (Ni Brisant, educador e poeta).

3 de mai de 2016

Oficina de Cidinha da Silva em Belo Horizonte!

Mostra Benjamin de Oliveira
OFICINA GRATUITA NA MOSTRA BENJAMIN DE OLIVEIRA, por CIDINHA DA SILVA
VAGAS LIMITADAS!
A oficina abordará a complexidade literária das personagens construídas por Cidinha da Silva em seus cinco livros de crônicas e nas outras centenas de textos publicados pela autora na internet, com destaque para mulheres negras, população LGBT, homens negros, diversidade de faixas etárias – sujeitos dissonantes, de um modo geral.
CIDINHA DA SILVA é prosadora e dramaturga natural de Belo Horizonte. Autora de nove livros de literatura, entre crônicas para adultos e contos e romances para crianças e adolescentes. Seu livro mais recente Sobre-viventes! (Editora Pallas, 2016) será lançado na quarta edição da Mostra Benjamin de Oliveira.
Dia 6/6, segunda-feira, das 19h às 22h
Tambor Mineiro - Rua Ituiutaba, 339 - Prado
Gratuito
INSCREVA-SE AQUI: http://bit.ly/1SDgR4D
Foto: Elaine Campos