Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de dez de 2016

2016, uma mirada


Os momentos mais tristes do ano?
A votação e homologação da primeira parte do golpe contra nossa frágil democracia na Câmara dos Deputados, dia 17/04.
A notícia da morte de Luíza Bairros, recebida em Campinas, enquanto participava do 20o COLE, dia 12/07.
A derrota de Fernando Haddad na corrida à prefeitura de São Paulo.
Tudo o que a imprensa golpista e o judiciário partidário fizeram com Lula e sua imagem ao longo do ano. Também o povo pobre manipulado que comeu esse reggae. Todas as mortes da população negra em ritmo de extermínio.
Os momentos mais empoderadores?
A coragem, altivez e serenidade de Dilma Rousseff no Senado, no enfrentamento de 14 horas a abutres, piranhas e hienas.
A eleição de Áurea Carolina como vereadora mais bem votada de Belo Horizonte das 3 legislaturas mais recentes e a mulher mais votada de todos os pleitos.
Os momentos mais alegres?
A publicação do livro Sobre-viventes! pela editora Pallas, uma promessa de solução para a precária distribuição de minha obra por todo o país.
A vitória de Áurea Carolina na Câmara de BH.
Momentos de bate-papo sobre meu trabalho literário na livraria Boto cor de rosa livros, arte e café e na Primavera dos Livros, ambas em Salvador.
O lançamento do livro de poemas Canções de amor e dengo em São Paulo, noAparelha Luzia, com show de Danielle Almeida, para o qual escolhi o repertório a partir de canções de amor que me acompanham há décadas. Em Salvador, naKatuka Africanidades, com comentários luxuosos e instigantes de pessoas que leem minha literatura com muita atenção e zelo. E no teatro espanca!, em Belo Horizonte, com participação eletrizante do meu público cada vez mais negro, mais jovem e mais libertário. Em Seabra (BA) para um público de adolescentes do CEFET que vibrou, pediu mais e comprou todos os livros que levei. Em Caetité (BA), num Terreiro de Candomblé, ótima alternativa encontrada pelas organizadoras do Leituras de Áfricas às dependências da UNEB, corajosamente ocupada pelos estudantes que nos defendiam da PEC da morte.
O lançamento do livro de crônicas #Paremdenosmatar! no Muquifu - Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos, durante o Chá da Dona Jovem, dentro da Igreja das Santas Pretas, quando foi apresentada ao público parte da iconografia que representa a história da Paróquia da Vila Estrela e de 14 mulheres-líderes da comunidade. Foi um momento único de reunião da família nuclear e da família extensa em BH, proporcionado pelo querido Padre Mauro Luiz da Silva que se despedia da Paróquia.
Que venha 2017. Estamos fortes! E #Paremdenosmatar!

29 de dez de 2016

ÚLTIMO ENCONTRO DO LIVRO #PAREMDENOSMATAR! COM O PÚBLICO DE BELO HORIZONTE EM 2016





NA noite de hoje (às 19:00) na Livraria Bantu (Andradas, 367, loja 211B) encerraremos a trajetória virtuosa de lançamentos dos livros Canções de amor e dengo e #Paremdenosmatar, em Belo Horizonte.

Estivemos no Sarau Coletivoz, ontem, um espaço de formação e fruição que reúne poetas, prosador@s, educador@s e outr@s artistas no Barreiro. Insistimos no objetivo de fazer o livro circular e de ir até os lugares das pessoas.

No teatro espanca! e no Muquifu - Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos o encontro renovador com meu público cada vez mais jovem, negr@, libertári@, atent@, argut@, inspirador. Além da mediação calorosa e inspiradora de Madu Costa, Josemeire Alves e Áurea Carolina.

Agradeço a todas as pessoas que estiveram nos três encontros passados e também às que ajudaram a divulgar e contribuíram para termos lotação esgotada, sempre.

Convido quem ainda não veio para estar conosco hoje à noite e para continuar convidando @s amig@s. Será nossa última festa neste 2016.

LIVRARIA BANTU - RUA DOS ANDRADAS, 367, LOJA 211B

Até lá!

27 de dez de 2016

#Paremdenosmatar! no jornal Estado de Minas, hoje




Escritora Cidinha da Silva está em BH para lançar novo livro

Um dos mais importantes nomes da literatura negra contemporânea, mineira radicada em São Paulo afirma que seu público se sente representado em sua escrita

 por Márcia Maria Cruz 27/12/2016 08:37
Arquivo Pessoal/Divulgação
(foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Um dos importantes nomes da literatura negra contemporânea, a prosadora e dramaturga Cidinha da Silva comemora os 10 anos de carreira, completados em junho, com o lançamento de três livros neste ano: Sobre-viventes! (Pallas), Canções de amor e dengo (Me Parió Revolução) e Parem de nos matar (Ijumaa).

Radicada em São Paulo, a autora belo-horizontina esteve no Espanca, na semana passada, para a apresentação de Canções de amor. Volta à capital, nesta terça (27), para o lançamento de Parem de nos matar, que ocorre no evento Chá da Dona Jovem, realizado pelo Museu dos Quilombos e Favelas Urbanas (Muquifu), na Vila Estrela, Região Centro-Sul. Na quinta (29), estará na recém-inaugurada Livraria Bantu, na Avenida dos Andradas. No Chá da Dona Jovem, Cidinha compõe mesa com a historiadora Josemeire Álves e a cientista política e vereadora Áurea Carolina, que comentam a obra. Durante o evento, ela autografa Canções de amor e Parem de nos matar.
Parem de nos matar é a segunda publicação da Ijumaa, editora paulista comandada por três mulheres. O primeiro foi o livro de Mel Duarte, jovem escritora bastante celebrada nos saraus e slams de poesia. Cidinha segue a trilha aberta por outras escritoras negras, como Carolina de Jesus, Suely Carneiro e Conceição Evaristo. “O livro pretende ser um olhar caleidoscópico para essa situação de violência aos direitos humanos de pessoas negras na África, no Brasil e na diáspora. É uma forma de falar do extermínio físico tanto de maneira individual como coletiva”, diz.

Com a literatura, a autora propõe uma reflexão sobre tema em crônicas escritas no período de 2012 a 2016. Cidinha trata de episódios de mortes de jovens negros – em chacinas, o assassinato do dançarino do Esquenta DG, Cláudia Ferreira, entre outros – e mortes simbólicas, como no caso de racismo envolvendo o goleiro Aranha, e outros apagamentos simbólicos nos meios de comunicação. “Gosto de futebol. Pela primeira vez trago uma coletânea que aborda o racismo no futebol.”

Ao chegar no 11º livro publicado, Cidinha alcança os 10 anos de carreira com estilo mais apurado. “Alguns escritores chegam prontos. O primeiro livro é um abalo. Tem outros que não. Crescem e amadurecem a cada livro. É nesse segundo grupo que me enquadro”, diz. A maturidade foi o que permitiu a incursão pela poesia em Canções de amor e dengo. “É meu primeiro livro de poemas. São experimentações. Queria me desafiar no formato”, conta sobre a obra, que reúne 40 poemas, escritos em diferentes momentos.

O livro fala de experiências de amor e desamor. A busca por uma expressão poética foi bem recebida e celebrada na comunidade negra, principalmente pelas novas gerações, que compareceram em peso ao lançamento. “É um público crescente – jovem, negro, antenado, não sectarista –, que se sente muito representado no que escrevo.” Ao fazer um balanço da carreira, Cidinha considera que a trajetória pode ser sintetizada em três pilares: o amadurecimento literário, na consistência da obra – mesmo sendo uma autora independente, lançou 11 livros – e na interação que os textos provocam com o público.

LANÇAMENTO
Chá da Dona Jovem recebe Cidinha, na Igreja das Santas Pretas. Nesta terça (27), às 18h, no Museu dos Quilombos e Favelas Urbanas – Muquifu (Rua Santo Antônio do Monte, 708, Vila Estrela/Santo Antônio). Entrada franca.

26 de dez de 2016

Sobre o livro Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil

Por Ricardo Queiroz

Um ano duro e perverso chega a sua última semana. Sem dúvida, um ano de perdas das frágeis conquistas democráticas e da perda de noção do valor do que é efetivamente público.
No campo pessoal, em contraponto, conclui uma etapa da minha vida profissional com um trabalho de mestrado. O tema: políticas do livro e leitura e participação social. Defender políticas em tempos de desmantelamento é tarefa dura. Mas não há como desistir.
Em época de "convenientes" esquecimentos, aproveito o ensejo para lembrar de um importante registro bibliográfico produzido por gente que defende política pública.
Estou me referindo ao caprichado trabalho organizado pela escritora Cidinha Da Silva em 2014 e lançado num arranjo entre Fundação Palmares e Diretoria do Livro, Leitura e Biblioteca do Minc: "Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil".
Foram vinte e três autoras e vinte e cinco autores, predominantemente negros, que trataram de temas do livro e leitura sobre a égide dos quatro eixos do Plano Nacional do Livro e Leitura. Reunião de textos que agiganta a importância das políticas públicas e suas intersecções culturais, raciais, étnicas, literárias. Um trabalho sério, de fôlego e inexplicavelmente (?!?!) esquecido nesses tempos ásperos.
Gostaria de deixar a sugestão a todos as companheiras e companheiros que compartilham a luta e a esperança pela política pública e pelo que é público, a começar 2017 lembrando e reforçando os diversos trabalhos que foram feitos e habitam um limbo inexplicável, tanto nas referências, como nas práticas. Passou da hora de deixarmos o isolacionismo e nos unirmos para praticar a transversalidade da vida, dos saberes e dos poderes.
Uso como referência esse importante trabalho da Cidinha, mas reforço que há muita gente e muitos outros trabalhos esquecidos e sobrevalorizados. Que 2017 seja o momento de nos unirmos em torno de um objetivo comum, pois a maquina destruidora segue firme. Viva a leitura viva e diversa.
Feliz Ano Novo com toda a resistência e utopia.

24 de dez de 2016

Trecho do prefácio de #paremdenosmatar



"Cidinha se empenha especialmente em revelar com toda a sua argúcia as complexidades do racismo e do sexismo, ideologias perversas que se desdobram em outra multiplicidade de temas que tem sido esquadrinhado pedagogicamente em seus artigos, em suas pílulas de letramento racial e em suas crônicas. Não lhe tem escapado os assuntos mais espinhosos, em relação aos quais muitos silenciam, e que agora estão reunidos neste volume, a saber: A violência racial e policial, os Autos de resistência, a redução da maioridade penal, o genocídio do povo negro, a violência de gênero". Sueli Carneiro, prefácio.

23 de dez de 2016

Chá da Dona Jovem Recebe Cidinha da Silva para Lançamento do Livro #Paremdenosmatar



Venha curtir a ultima edição do Chá da Dona Jovem em 2016, na companhia de Cidinha da Silva que lançará seu livro mais recente,#Paremdenosmatar!. São 72 crônicas escolhidas no período de 2012 a 2016, que dissecam o genocídio da populaçãonegra, via assassinatos individuais e de coletivos, e da imposição da morte simbólica e cultural, principalmente pelos meios de comunicação. Em suas 240 páginas, o livro contempla também, a resistência a este estado de coisas.

A obra já foi lançada em no Rio de Janeiro, em Salvador, Sebra e Caetité, cidades do interior baiano. Agora é a vez de Belo Horizonte, honrosamente no Aglomerado Santa Lúcia. 

Contaremos com os comentários da historiadora Josemeire Alves e da vereadora eleita Áurea Carolina para iniciar a roda de conversa. 

O lançamento de #Paremdenosmatar! acontecerá na Igreja das Santas Pretas, na Vila Estrela, durante o Chá da Dona Jovem, dia 27/12, às 18:00. O local ( rua Santo Antônio do Monte, 708) é bem próximo da Praça Cairo, no Alto do bairro Santo Antônio. Basta subir direto a rua da Bahia e, após a Contorno, subir direto a Carangola, até a rua São João Evangelista. A Santo Antonio do Monte é a segunda paralela à Carangola.

14 de dez de 2016

CANÇÕES DE AMOR E DENGO: UMA LEITURA






Por: Luciana Sacramento Moreno Gonçalves

A ideia inicial era tecer uma análise sobre o livro de poemas da Cidinha, mas tragada por sua leitura considero que vale mais narrar a minha experiência literária ao me deleitar com as Canções de Amor e Dengo. Como ao longo do processo de ler o livro, as canções do meu repertório afetivo me tomaram, começo lembrando um verso de Caetano: “Os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, porque é assim que ingresso em minha incursão nessa experiência de leitura. Antes de trazer a chave para entrar nos poemas, me encantou o formato do livro. Aparentemente é um livro de bolso. Essa característica, entretanto não evoca uma decisão mercadológica, capitalista. É também uma via para baratear custos e popularizar o texto (o que considero maravilhoso). Mas é sobretudo um meio de consolidar a ação revolucionária da Mi parió e da própria Cidinha de “editar ‘livros semiartesanais, bonitos de encher os olhos e a alma, mas sem esvaziar os bolsos”. Livros desse tamanho são delicadezas tratadas como relíquias, preciosidades que exigem cuidado. É preciso entrar neles com os “pés de flor” que encontraremos nos versos lá dentro do livro.

Ainda sobre o prazer de tocar no livro, cheirar suas páginas, alisar suas dobras, nós, leitores, somos presenteados com um fino e belo pedaço de tecido que se roça em nossas mão durante a leitura. O verde, o marrom, o branco, um leve rosa que não aparecerão nas páginas ficam grudados no corpo. E o dourado riscado no pano arremata a beleza da qual ando carente. Confesso! Durante as muitas leituras que fiz do livro, numa delas, o tecido caiu. Fiquei órfã. Senti-me obrigada a colar novamente o tecido. Eu acho que é porque depois que a beleza, a delicadeza, o singelo se grudam na gente é mesmo insólito continuar sem isso. Refiro-me à leitura. Mentira refiro-me também à leitura, mas sobretudo à vida, ao amor.

Então, abri o livro. Pássaros e flores me assaltaram. Era o amor mesmo que me elevava. Pronto, eu era a leitora, a amante, viveria ali entre as páginas. Mas Cidinha me trai logo na entrada e nas primeiras páginas joga água na leitora que eu quero ser. Que é justamente aquela leitora desprendida da professora, da pesquisadora em teoria da literatura e me amarra de volta a uma das minhas personas. Diz a mim em seu “Manifesto”, aos críticos, aos pesquisadores, munidos da máquina de dissecar textos literários, de encaixotar escritoras que façam o que quiserem, mas não a obriguem a qualquer coisa. Ela sabe que nós a pesquisaremos, ela sabe que nós escreveremos sobre ela, todavia ela seguirá seu caminho com as roupas e as caixas que lhes convier. Se lhes convier. Até porque, a ancestralidade, desde sempre já a aponta para o fogo, o trovão, a justiça.

Vou encontrando o olhar lírico da cronista. Ali estão o amor e o dengo, mas sem perder de vista a crítica social, o cotidiano como fonte primária, a vida presente, os homens e mulheres do presente, o tempo presente, como declara o poeta gauche, seu conterrâneo. Na linguagem tem “é coisa, viu?” Em bom baianês, a escritora da multiterritorialidade, cidadã do mundo, que nasceu em Minas, morou em de São Paulo, em Brasília, que viajou por diversos lugares e agora vive na Bahia coloca as marcas do nosso falar nos textos. Nos jogos com a palavra derruba a ideia de que senzala pode ser sinônimo de quilombo, brinca com a sonoridade do vocábulo para fazer o que de melhor sabe fazer: nos tirar da superfície, nos arrancar das obviedades da fala corriqueira que se cola na gente e nos acostuma a não pensar. Ora potencializa a ordem do discurso, ora subverte-a. Até porque aqui “ninguém se acha. A gente é”, como um dos seus versos nos aponta.

As páginas se seguem sendo encharcadas de águas que fluem, afogam, secam e refluem. Nesse sentido mesmo. Há enchentes nas primeiras páginas, seguidas de secura e dor funda no depois, mas que, para nossa sorte, retornam cheias, abundantes, alvissareiras.

As poetas são maravilhas nas vidas de seus leitores porque nos mostram que as loucuras são humanas. Me conforta ler o “Vermelhor”, porque eu também quando não encontro respostas no universo da racionalidade, confio no “ônibus vermelho” que vai passar, ou digo, se ele me ama o terceiro carro a passar nessa via será preto e estará com o vidro aberto. E eu sigo confiando que minha brincadeira é resposta certeira, nem de longe é maluquice.

Essas àguas de dengo e amor e muita, mas muita dor também são ginga, corpo, movimento e aqui na porta do poema o verbo decantar pode tanto ser fazer loas, quanto se livrar de impurezas ou se separar de algo ou alguém. Decantar na “Química sentimental” é a faca amolada da solidão, são os dias de espera. Então, ainda que haja amor quem caminha por essas páginas poéticas vai ser convidada a também fechar a cara. E vai ouvir o refrão de Nelson Cavaquinho: “tire seu sorriso do caminho”, porque há horas em que só nos resta fazer a dor imperar.

Mas no logo depois virá com força a Canção da chegada, aquela dos dias de luz, em como canta Gal a composição de Gil: “quando a gente está contente tanto faz o quente, tanto faz o frio tanto faz”. Tudo abre comportas.

E se conselho fosse bom eu diria que a minha experiência com os dengos e o amor desses poemas me disse que ainda que não saibamos se o que mais cala é o que um dia desejamos e nunca tivemos ou o que desejamos e tivemos a sorte de ter no agora... O amor é um imperativo! Eu diria pela voz desses poemas que amor é entrega, com a quase certeza do abismo, da ferida, das ranhuras e ainda que haja o desamor, o amor em si mesmo é a chave para a renovação.

Assim, fecho as comportas do livro com as águas que encharcaram tudo. Com leveza, sim com força também. Indomáveis. Intransponíveis, porque a despeito de nossas vontades, as águas retornam exuberantes. E chega o tempo da “oguniação” cessar nos dizeres da poeta e se inaugura o tempo da “oxumniação”. Das águas. Da esperança. Que venham. Porque o que nós leitores mais desejamos é que ainda que haja fúria, desesperança e medo, em algum tempo digamos: “Enfim chegaste, minha rainha, plena estou para te receber”.


A experiência de ler os poemas inaugurais da Cidinha teceram outras manhãs. Teceram as minhas manhãs e ainda que por alguns minutos fizeram da professora, a dengosa amante. Agradeço.

10 de dez de 2016

DA SILVA, Cidinha. #Parem de nos matar. São Paulo: Editora Ijumaa, 2016.






Luís Carlos Ferreira[1]


O livro #Parem de nos matar!,  da pensadora e dramaturga Cidinha da Silva, publicado pela editora Ijumaa, em 2016, é uma obra que coloca o racismo para tremer e nos convoca para uma ação de justiça com graça, insubmissão e beleza.
A autora, de maneira cuidadosa, nos mostra que o racismo nos golpeia em diversos âmbitos. É um livro de crônicas do “Pensamento do Tremor”, em alusão ao termo de Édouard Glissant, pois o racismo estrutura a vida: a política, a estética, a epistemologia.
E assim, o livro trata de questões que nos reúnem num turbilhão de percepções, sensações e compreensões, tais como, o genocídio da juventude negra, a resistência das mulheres negras, o racismo nas mídias e futebol,  intolerância religiosa, homofobia,  ódio, dor, lembrança,  morte, saudade, utopia, encontro, liberdade e beleza. O “grito aberto” de #Parem de nos matar! evidencia o problema crucial da obra, a morte física e simbólica  da população negra. A beleza de #Parem de nos matar! golpeia e não foge.
O livro tece em sua construção a ética, pois se ocupa das vidas negras combatidas e aniquiladas nas suas mais diversas esferas, e a política, evidenciada em uma necropolítica, conceito cunhado por Achille Mbembe. Uma política de morte construída e elaborada contra as vidas negras linchadas em praças públicas. Como afirma Cidinha da Silva “No mundo real, entretanto, eram sempre negros os alvos dos linchamentos. Qualquer motivo, qualquer suspeita, qualquer vacilo diante das regras do establishment justificava a eliminação física do suspeito” (SILVA, Cidinha, 2016, pag. 22). Esta eliminação é possível por causa de uma sensibilidade educada pelo racismo. Desta maneira, adentramos em uma outra esfera, a da estética, também presente no livro.
A estrutura das crônicas constrói uma rede semiótica do racismo recente na história do país, que age, por exemplo, na política de segurança pública (na ação sistemática da polícia), na programação cotidiana da televisão (a qual age de maneira direta na produção do imaginário), na estrutura do futebol (aqui também o machismo), no cenário político recente do golpe parlamentar ocorrido contra o governo Dilma Roussef e na unidade latino-americana sem negros.
As crônicas, por conta da sua força, beleza, ironia, graça e assertividade, apresentam a possibilidade de encontrar caminhos para a liberdade. O protagonismo de justiça e construção de liberdade é traçado nas crônicas: “Marcha do Orgulho Crespo + Marcha das Mulheres Negras”, “Marcha das Mulheres Negras 2015” e na crônica “Obrigada, Luíza Bairros! ” que tem um tom construído numa  beleza tocante. “O nome Luiza Bairros reverbera em nós como sinônimo de esmero, dedicação, seriedade, compromisso, consequência, solidariedade e amor pelo povo negro do Brasil, da Diáspora e de África. Em nome desse amor ela entregou a vida a uma causa, a luta diuturna contra o racismo e pela promoção da humanidade das pessoas negras”. (SILVA, Cidinha, 2016, pag. 61). E segue a cronista: “Agora é o tempo do descanso, de aposentar o machado. O tempo da pedra silenciosa que se desfaz em barro. Tempo de volta a Terra. À água. Ao sal! Siga em paz, Luiza, tão querida. Zaambi ye kwatesa!” (SILVA, Cidinha, 2016, pag. 64).
“Obrigada, Luiza Bairros!” é disposta após as crônicas que problematizam o extermínio da juventude negra no Brasil e na Nigéria. Nesta última, a autora faz uma reflexão acerca de um atentado sofrido pela França e a reação que este provocara em relação ao terror sofrido por jovens na Nigéria. Assim, ela nos diz: “Na Nigéria, 276 Meninas sequestradas, 2.000 mortos em Baga. E o olhar do mundo fixado em um atentado na França.”. É possível perceber uma outra categoria importante para o entendimento da construção do livro, o espaço, o abismo entre eles. Os espaços construídos pela “efabulação e enclausuramento do espírito”[2] realizado pelo truque semiótico do racismo. Enquanto o mundo se sensibiliza com um atentado na França, na Nigéria existe uma produção espacial da morte.
A primeira crônica dialoga com a segunda, que, por sua vez, dialoga com as demais, pois ao negar o signo África representado pela Nigéria, legitima-se “O recado dos linchamentos”, assim como “A execução sumária é legitimada como gol de placa no campeonato de extermínio da juventude negra”, “Nazis soltos! Rolezinhos no corredor polonês”, “Política de confinamento x direito à cidade”. O genocídio da juventude negra está ligado à tríade ética-política-estética e ao semiocídio do continente africano e os seus arquipélagos. A autora enfatiza a relação entre África e Brasil, em relação ao genocídio da população negra. “E por que havemos de nos importar com o número de mortos entre os africanos? Com as 276 meninas negras sexualmente escravizadas? Com os 82 jovens negros mortos por dia na guerra civil do Brasil?”. (SILVA, Cidinha, 2016, p.20).
O estado de exceção é a regra para a juventude negra no Brasil, principalmente nos espaços geográficos de Amarildo Dias de Souza, Cláudia Silva Ferreira, os “111 tiros disparados contra cinco jovens negros desarmados dentro de um carro” no Morro da Lagartixa; os doze do Cabula, em Salvador; Kaíke Augusto, morto em São Paulo, cuja morte evidencia a homofobia, além do racismo. São casos que atestam que a vida negra é uma “vida nua”, nos termos de Agamben, nos mais diversos espaços brasileiros. “Ou alguém ousa negar que a vida desses garotos não tem valor porque são vidas de negros?” (SILVA, CIDINHA. 2016, p.35). O racismo cria a linha tênue entre aqueles que irão viver e os que vão morrer. Entretanto, “a morte de negros pelo arbítrio policial não tem sido considerada assassinato”. (SILVA, CIDINHA, 2016, p.38).
O assassinato das vidas negras ocorre de diversas formas, seja física, como discutido, e epistemológica, onde ocorre o assassinato das maneiras de conhecer e agir, ou simbolicamente, no aniquilamento da existência da pessoa negra do imaginário cultural brasileiro, onde se configura a tentativa de apagamento da presença de artistas negros e negras no espaço da mídia. Essa discussão pode ser notada na crônica “Antônio Pompêo e o desejo cerceado de ser artista pleno”. Ainda no universo da televisão, a cronista traz a reflexão de que as atrizes e jornalistas negras de destaque sofreram ações machistas e racistas via redes socais: “O espírito dos ataques raciais à jornalistas Maria Júlia Coutinho”. E a insistência da programação em reforçar os estereótipos da pessoa negra, como destacado nas crônicas: “Coração suburbano também fere e se locupleta da estigmatização das negras” e “Rastro de Pânico do racismo Brasileiro”.
O livro de crônicas trata de questões violentas, onde a “palavra seca”, mas a autora com seu talento nos mobiliza para uma obra de muito movimento, onde seguimos por meio de ventos, tempestades, raios, trovões e o grito de justiça: #Parem de nos matar! Em um assunto que diz respeito à vida, a cronista guerreira joga com as imagens e nos convoca para um território de luta contra o racismo.
Cidinha da Silva também nos conforta durante essa deriva, quando evidencia na crônica “Futebol brasileiro e ética”, a trajetória de Leandro Damião e sua humildade: “Damião segue sendo um homem simples, pouco afetado pelo glamour de boleiro bem sucedido”.
Finalizo ressaltando a beleza dessa obra, apesar da aridez do tema, que pode ser expresso na crônica “Alguma poesia para chamar o sol e saudar as águas”. Nela, a autora procura um bote-salva-vidas para vencer o dia 17 de abril de 2016, o dia da homologação do golpe contra Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. E o conforto de Cidinha da Silva foi com o livro “Correntezas e outros estudos marinhos”, da poeta Lívia Natália. “Voltei à poesia para continuar viva”, disse a cronista. E ela segue afirmando que “quando lemos boa poesia, somos tentadas a poetar também”. A poesia é o lugar de conforto da cronista, é um dos leitmotivs para a luta pela sobrevivência, para estar na resistência. Como disse Édouard Glissant, “Toda poética é um paliativo para a eternidade”.



[1] Professor de Filosofia. Doutorando em Difusão do Conhecimento (UFBA) Mestre em Educação (UFBA) Graduado em Filosofia (UFBA).

[2]Alusão ao subtítulo do livro Crítica da Razão Negra de Achille Mbembe (2014)

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8 de dez de 2016

A poética de Grace Passô é indicada ao Shell

PRÊMIO

A atriz, dramaturga e diretora mineira concorre na categoria de melhor autor pelo espetáculo “Vaga Carne”

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PUBLICADO EM 08/12/16 - 03h00
O cenário é um corpo de uma mulher. A personagem é uma voz. Assim sintetiza Grace Passô, 36, a primeira imagem vislumbrada para a construção do texto de “Vaga Carne”, espetáculo que acaba de lhe render indicação na categoria de melhor autor pelo Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro do segundo semestre. A peça, que estreou neste ano no Festival de Teatro de Curitiba, tem previsão para ser apresentada em Belo Horizonte em fevereiro de 2017.
Com “Vaga Carne”, além da autoria, Grace também lançou-se ao seu primeiro solo e deixou-se permear em cena por questões que lhe afetam. “Essa voz tenta desesperadamente identificar e sondar a identidade de um corpo feminino que, no caso, é de uma mulher negra. Isso abre portas para falar de muitas coisas, dos estereótipos, por exemplo. É uma tentativa de questionar o que vivemos hoje na sociedade, do desejo de afirmar as identidades, de reconhecer o corpo, sua existência e suas memórias”, diz a atriz, diretora e dramaturga.
A primeira casa a receber “Vaga Carne” foi o projeto Janela de Dramaturgia, em 2013, em uma leitura dramática que colocava a obra em contato com seus primeiros públicos. “Ali já era possível ver que o trabalho tem outra proposição em relação ao que ela vinha fazendo. Grac foge da narrativa que antes era fabular e agora traz essa ideia de uma voz”, observa Vinícius Souza, idealizador do projeto que abre espaço para novos trabalhos e reflexões sobre dramaturgia.
Ainda que reconheça pontos distintos, a peça, para Grace, é uma continuação de um gesto poético e da identidade de sua escrita, que se iniciou com “Por Elise”, em 2005. Foi a partir dali que “espancar docemente” tornou-se uma marca estética dela e do Grupo Espanca!, do qual foi uma das fundadoras.
“Me interessa escrever sobre as contradições das relações humanas, a mim e à maioria dos dramaturgos, mas me interesso pela disputa entre o desejo e a ação, o sentir e o agir. Somos matérias contraditórias e, nesse sentido, a nossa violência é doce, o nosso amor é violento”, comenta a dramaturga.
Projeção. O reconhecimento do prêmio, que amplia a projeção nacional da artista já conquistada em outros trabalhos, é sentido de forma quase cotidiana na cena teatral de Belo Horizonte. Pensar a dramaturgia da cidade requer rever o que Grace trouxe de contribuições.
Para Vinícius, que há alguns anos vem acompanhando e pesquisando o campo da dramaturgia, Grace é fruto de uma geração, imersa em aspectos de um tempo e lugar, mas que traz a experiência teatral à uma radicalização do que já vinha sendo desenhado no início dos anos 2000, em especial com a extinta Cia. Clara, da qual ela fez parte, e com a Cia. Luna Lunera. “Grace trouxe essa renovação da palavra para a cidade. Um elemento que a tornou reconhecida nacionalmente foi o gesto de trazer a poesia para o texto do teatro e a metáfora como recurso primordial para dar conta de assuntos amplos”, pontua.
Olhar para o mundo que a rodeia com proximidade também é uma premissa do trabalho da mineira. “Ela trouxe para o teatro questões contemporâneas, dramaturgicamente e cenicamente, ou seja, naquilo que diz respeito ao tema e à forma teatral. Grace repensou as ferramentas teatrais a partir de questões de hoje, como, por exemplo, as relações humanas nesse novo tempo, incluindo a solidão urbana e o medo das pessoas de se envolverem, presente em ‘Por Elise’, a incomunicabilidade e as dificuldades de convivência, em ‘Amores Surdos’”, cita o pesquisador.
“Eu vou sempre ser uma pessoa que faz questão de pensar o teatro como uma realidade contemporânea. O que escrevo vai ser sempre permeado pelo lugar onde eu vivo. O que faz a diferença nesse meu trajeto é o tempo, porque as questões se transformam. É isso o que muda, como estamos vendo a realidade brasileira se transformar a todo momento. Minha relação é sempre de atualidade, de entender, de fato, as vivências do nosso tempo”, afirma Grace.
Quanto à forma, que também se reinventa a cada trabalho, um exemplo diz respeito à fragmentação, também experimentada em ‘Por Elise’. “Ela cria uma estrutura fragmentada de encontros tal qual a forma como nos relacionamos hoje. Outro aspecto é a proximidade com o espectador. Ela fala para o público”, comenta Vinícius.
Homenagem
Grupo Galpão será o homenageado do Prêmio Shell em reconhecimento aos seus 35 anos de trajetória. A cerimônia está prevista para o primeiro trimestre de 2017.