Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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28 de jun de 2017

OSSO - Pelo amplo direito de defesa de Rafael Braga


Novos textos publicados

Com alegria divulgamos o lançamento das duas coletâneas com textos de convidados e convidadas do 20º Congresso de Leitura do Brasil realizado em julho de 2016 pela Associação de Leitura do Brasil (Editora Leitura Crítica). Os dois exemplares impressos serão enviados pelo correio aos associad@s da ALB de 2016 e estão disponíveis para venda na livraria da ALB (www.alb.org). As associações realizadas no ano 2017 garantem o acesso ao formato digital dos dois livros, além de outras vantagens. Para tornar-se um associad@ da ALB acesse o site www.alb.org.br. Como associad@ você assegura o fortalecimento da associação, cujo objetivo maior é constituir-se como um espaço de análise das condições de leitura no país e promover ações ligadas à temática da leitura e da educação. A associação feita neste ano possibilitará a participação gratuita como ouvinte ou desconto na inscrição para comunicações orais no 21º COLE a ser realizado em julho de 2018. Os associad@s recebem ainda gratuitamente a versão impressa dos três números anuais da Revista Leitura: Teoria & Prática e têm acesso às publicações da ALB em formato digital (pdf) em sua área restrita do site. Aproveitamos para divulgar a publicação on-line dos últimos números da Revista Leitura: Teoria & Prática e da Revista Linha Mestra e de alguns vídeos de conferências e mesas-redondas do 20º COLE, disponíveis no canal https://www.youtube.com/channel/UC32EH-G_ncVbAhPG5eCG9iw.

26 de jun de 2017

#Gil75

Ave-Gil!
Xangô-menino.
Meu Rei.


"Vendo o panorama geral da minha vida, eu fiz tudo para ser quem eu sou, para estar no lugar em que estou e sentir a vida de modo a estar em conformidade com ela. É o que sempre digo: a conformidade conforme a idade. Tenho a idade que tenho hoje e uma vida em conformidade com ela".

24 de jun de 2017

Corra para o cinema e depare-se com o racismo miúdo de todos os dias!




Por Cidinha da Silva

O filme “Corra” (Get out / Jordan Peele) foi o responsável por minha estréia como expectadora de filmes de suspense/terror numa sala de cinema. Minha experiência anterior e insignificante aconteceu frente à televisão, com dois ou três filmes que não consegui assistir até o final. Ou seja, vocês estão diante da confissão de alguém que não conhece e tampouco se anima com o gênero.

Movi-me até o cinema por duas vezes, devo dizer, para assistir a um filme de terror/suspense que tratava do terror do racismo, pelo que depreendi das resenhas lidas. Não me decepcionei. Aliás, me surpreendi muito. Positivamente.

Compartilho aqui as principais impressões de uma pessoa que tem alguma habilidade para compreender a operacionalidade do racismo e procurou decodificar como Peele fez o mesmo exercício numa obra cinematográfica inusitada. Não prometo mais do que isso neste texto.

A leitura do filme começa pelos locais e platéias. Estive em duas salas de ambiente cult distintas. A primeira, dentro da Universidade Federal da Bahia, freqüentada por estudantes e principalmente por professoras/es. Nesse tipo de filme que toca em questões sensíveis aos Direitos Humanos conta-se com uma reação de parte da platéia que quer mostrar o quanto é politizada. Quando enxerga pessoas negras afirmadas, então, capricham nos suspiros, comentários sobre o absurdo das situações racistas e outras intervenções durante a exibição, em tom especialmente alto que chega a atrapalhar a audição dos diálogos.

A segunda sala foi um espaço cult em versão comercial, o Cine Belas Artes, na cidade de São Paulo. Ali, com um público maior e mais diverso, a preocupação de parte da platéia em ser politicamente correta permanece, mas as interferências são diluídas e a gente diretamente envolvida na trama do filme que, afinal, trata de coisas muito conhecidas por nós, negros (e por isso são aterrorizantes), tem um pouco mais de paz para assistir o filme.

Passei os olhos por alguns comentários feitos por mulheres negras, principalmente, no sentido de que o filme abordaria em profundidade as relações afetivo-sexuais entre homens negros e mulheres brancas. Não tive essa sensação. A meu sentir, a presença do racismo na relação amorosa interracial entre os protagonistas do filme, Chris e Rose, é mais um dos aspectos sinistros do racismo, mas não o principal ou central.

Dito de outra forma, Chris não me pareceu em momento algum que quisesse “ser branco”, que quisesse abrir mão de ser negro ao namorar a personagem branca. Até porque, não existe espaço para isso na sociedade estadunidense. Chris me pareceu mais um desses meninos negros perdidos, fragilizados (no caso dele pela perda da mãe e ausência do pai), talvez vítimas da rejeição e da estereotipia causadas e alimentadas pelo racismo, e que se deslumbram quando qualquer mulher branca acena para eles. Mas todos sabem que continuam sendo negros subalternizados na hierarquia racial dos afetos, mesmo tendo “conquistado” o tipo de mulher valorizado pelos homens brancos, os donos do poder.

Escuso-me aqui de discutir histórias de amor entre homens negros e mulheres brancas, não é o foco do texto. Interesso-me apenas por problematizar o suposto desejo de Chris de “deixar de ser negro” por estar envolvido com Rose, mulher branca.

Chris, inclusive, é um fotógrafo bem sucedido, que registra o mundo negro como se verá ao longo da narrativa (mantém-se ligado às referências que o formaram e que o projetam). É reconhecido profissionalmente e está no lugar dos negros que podem buscar o que há de melhor para si, porque se descolaram (com sucesso) da massa anônima. Por conseguinte, mais ou menos por uma questão de lógica da ascensão social, esses homens negros buscarão mulheres brancas, comprovação viva de que eles estão por cima da carne seca. A seguir, experimentarão a complacência possível da branquitude, a ilusão de pertencer ao clube vip porque a marca do carro que dirigem é a mesma do carro do chefe. Mas ninguém deixa de ser negro por isso, não.

O diálogo entre Chris e o funcionário negro da fazenda dos sogros é elucidador, diz o caseiro: “ela (a namorada branca) é de primeira linha, não é? Se fosse minha eu não largava mais”. Rose é o emblema do sucesso que ali, na intimidade da conversa entre dois negros, é desnudado por um deles, aquele que já perdeu tudo. Até mesmo a própria vida.

O filme propõe outras tantas abordagens complexas. Logo no início o aspecto traiçoeiro do racismo se evidencia. Um músico negro que depois saberemos ser do Harlem, caminha tenso por um bairro de classe média branca a procura de um endereço. Talvez ele tema a polícia que considera os negros como suspeitos preferenciais porque, como justificativa do teatro do absurdo, precisam suspeitar de alguém. Talvez esteja com medo de cães treinados para atacar determinados perfis físicos como o seu, estigmatizados como ladrões. Talvez tema a segurança privada dos bairros endinheirados que como a polícia, o considerará suspeito. Contudo, o racismo tem tantas faces e máscaras que se apresentará a partir de outro lugar não especulado aqui. Um homem trajando um capacete de ferro, saído de um imponente carro branco, lhe aplicará um golpe de Jiu Jitsu (pelas costas) que o fará desmaiar. Depois ele será jogado no porta-malas.

Notem que é um homem branco que dirige um carro usando um capacete. Está bem, o cara pode ter posto o capacete apenas para atacar o homem negro, não dirigia com ele na cabeça. Mas, se considerarmos a primeira hipótese, posso também ler o ato como alegoria de que o branco pode tudo. Aquele homem branco de capacete e dirigindo um carro, provavelmente não seria abordado pela polícia do bairro, talvez nem fosse notado, tal qual um homem negro andando a pé seria (será). Porque aos negros, sabemos, não se garante plenamente o direito de ir e vir previsto em todas as constituições democráticas.

Outra marca da complexidade do racismo aparece quando Chris é hipnotizado como primeira fase do processo de espoliação de si e tenta resistir. Ele não quer se lembrar da dor que o desestruturou na infância, mas é forçado a isso. O racismo estimula nossos estados de fragilidade e desamparo. Chris afunda e fica lá, num lugar perdido. O chão escapa, a sustentação garantida pelas próprias pernas desaparece. Ele é jogado no buraco profundo de sua dor, da perda da mãe, pela qual ele se culpa, como se fosse possível tê-la salvo.

Instala-se a tortura de reviver a dor e a incompreensão do que se passa. É um pesadelo que não termina. É o buraco da impotência da criança negra que se vê sozinha no mundo e que poderá tornar-se um adulto suscetível a salvadores e hipnotizadores que manipulem sua dor. A namorada fará isso.
Por fim, o mais macabro de tudo é como o racismo escolhe aquilo que Chris tem de mais adequado e útil aos brancos do filme de terror, só àqueles, para alívio de alguns leitores desconfiados de “racismo reverso” da cronista.

Chris é o prêmio do jogo. Ele emprestará sua virilidade ao velho caquético, cuja mulher saliva ao tocar as carnes rijas do negro; sua força física ao jovem lutador que não é tão forte quanto ele; seu charme ao homem que acha que ser negro está na moda; sua inteligência e perspicácia poderão servir a outro; sua visão perfeita, sua capacidade de enxergar o mundo e produzir arte poderão restituir a visão a um cego. Basta apenas preencher a cartela e vencer o Bingo para ganhar como prêmio o corpo e os dotes diversos de Chris, o negro, e assim revigorar uma brancura deficitária.


“Corra” é realmente um filme de terror racista e o mais aterrador é a certeza de que está embasado em fatos reais, amplamente conhecidos e experimentados por nós, gente negra do mundo.

22 de jun de 2017

Foi bonita a festa


Por Cidinha da Silva


Quando ela subiu ao palco, gingando, alguém poderia dizer que ia ali uma porta-bandeira experiente, protegendo o pavilhão da escola e oferecendo-o aos admiradores para a reverência do beijo.

Outra pessoa poderia enxergar uma senhora da ala das baianas, forte, segura, carregando aquela fantasia pesada e evoluindo na avenida como se o peso do mundo fizesse parte daquele corpo negro. Como se carregá-lo fosse o princípio involuntário da reinvenção.

Eu, quando a observei, vi uma habilidosa dançarina de samba-rock rodopiando já na subida dos degraus e nos deixando embevecidas pela elegância, fluidez e determinação de cada passo.  

Depois do silêncio templário feito para escutar a Davi Kopenawa, o Auditório Ibirapuera fez um silêncio entrecortado por ondas elétricas para ouvir a Sueli Carneiro. Era a tensão de não saber o que seria dito pela lâmina da espada.

Mas é mandingueira essa Sueli Carneiro. Até para receber um prêmio ela ginga no desfile de sua cadência banto-paulista de raízes mineiras até chegar ao microfone e empunhá-lo para dizer o que precisa ser dito. Para nos instar a fazer o que precisa ser feito.

Reza a lenda que um exercício freqüente para aprender a dançar samba-rock, daqueles treinados à exaustão em casa, antes do baile, era segurar a maçaneta de uma porta fechada e girar, girar, fazer todos os movimentos e passos, sem soltá-la. Trocando as mãos, mas sem soltar a maçaneta.

Sueli Carneiro, exímia dançadora de samba-rock, nas mesmas proporções em que é conhecedora das manhas do futebol, deve ter apreendido a essência da lição do exercício fixo na maçaneta, ou seja, manter o foco na porta (a abertura do caminho) sem descuidar por um segundo sequer, da flexibilidade do corpo e do espírito dançarino.


Tenho para mim que ela subverteu o jogo, pois portas fechadas não combinam com sua natureza. Sueli Carneiro é mulher de abrir portas, todas elas. Abre mesmo portais, porque não teme o novo, nunca temeu. Talvez por compreender que o melhor do afrofuturismo contemporâneo está no reconhecimento da tradição, na manutenção dos pilares fundadores e na reinvenção daquilo que é da ordem da criação e da tecnologia, do princípio ogúnico da existência.

12 de jun de 2017

Dia das namoradas


Por Cidinha da Silva


Nesse dia, como no restante do ano, você pode escolher entre falar de amor ou de relações comerciais. Vamos aqui inventar o amor que a Organização Mundial do Comércio já está com a vida ganha.
Amar é... passar a ferro o vestido da amada, mesmo não gostando, só para aliviar a pressa dela.
Amar é... compreender que o sangue da mulher amada tem cinco componentes: hemácias, plaquetas, leucócitos, polvilho e queijo. E sair pela cidade nova na chuva à cata de um pão de queijo decente, quentinho, que aplaque a crise de abstinência.
Amar é... aguardar ansiosa a próxima partida de futebol na TV só para ouvir os comentários dela. Amor, quem é que tá jogando? O Barcelona... Ah... o time do Neymar. Sim, o time do Messi. Humm, aquele baixinho que dizem que bate um bolão. Não, preta, ele bate um bolão. Joga muito. Joga nada, esse pessoal é comparsa dele!
Messi na TV, o simples majestoso, passa por dois adversários, deixa o terceiro no chão, torto, e por fim leva uma botinada do quarto, brasileiro recém-chegado do futebol inglês. Permanece de pé, mesmo trôpego, corre e mantem a bola coladinha ao pé. Conclui a jogada num passe açucarado para um companheiro qualquer completar para o gol.
Singela, a amada arrebata: esse pessoal da Europa deixa ele jogar, olha para isso! Por que é que ninguém pára o sujeito? Quero ver jogar bem aqui, na série B do brasileiro.

10 de jun de 2017

Histórias de leitura do #Paremdenosmatar 1 (conte-nos a sua também...)



Nô Homero chegara a Luanda. Na bolsa um exemplar do #Paremdenosmatar! para ler durante as férias. Fernanda Kung Agostinho, 12 anos, folheou o livro e resolver ler. Não largou mais, até terminar. Isso para Nô foi um problema, porque ela já havia iniciado a leitura e queria terminá-la. Mas Fernanda se trancou no quarto e fugia dela para não devolver o livro. Quando devolveu chorava e a abraçou dizendo: "Nós sofremos em quase todos os lugares".

8 de jun de 2017

O livro #Paremdenosmatar! em Alagados, Salvador



Neste sábado tem Só para Mulheres Negras - Oficina de Leitura Encenada, promovida pelo Coletivo de Mulheres Negras (COMUN) no Espaço Cultural Alagados (Uruguai).
O livro #ParemDeNosMatar foi utilizado para produção do texto adaptado "Porque as mães choram", a oficina oferecerá análise de texto dramatúrgico e técnicas de leitura encenada bem como a discussão cênica das questões referentes às mulheres negras. Vai ser muita potência!

Teremos outros títulos à venda no local. As vagas para oficina já foram preenchidas, mas estaremos lá durante a tarde toda, apareçam! <3 span="">

Data: 10\06
Horário: 14h
Local: Espaço Cultural Alagados
- Rua direta do Uruguai, s\n - Final de linha do Uruguai

7 de jun de 2017

O livro #Paremdenosmatar! agora tem página própria



Bom dia! Se você acompanha a trajetória do #Paremdenosmatar!, de alguma forma já faz parte dela. Queremos que o livro e os debates que ele suscita cheguem a mais pessoas. Colabore conosco, marque seus amigos para curtirem a página, curta também https://www.facebook.com/livroparemdenosmatar/?ref=aymt_homepage_panel. Assim que chegarmos a 500 curtidas começaremos as promoções para facilitar o acesso ao livro. Ajude-nos a andar (e voar) pelo mundo. Sinta-se convidad@ a também expressar suas impressões sobre a obra. Vamos junt@s. Gracias.

5 de jun de 2017

Sturm e Richthofen

Por Cidinha da Silva

As personagens dessa crônica são Sturm (André), ainda secretário da cultura da gestão Dória, em São Paulo e Richthofen (Andreas), um jovem doutorado em Química, surtado sob efeito do crack. Homens cuja ascendência européia pode ser notada pela sonoridade consonantal dos sobrenomes.
Em comum o fato de serem dois homens brancos na cidade de São Paulo que gozam das benesses da branquitude. O primeiro, Sturm, para agredir, humilhar e manter-se impune no exercício de cargo público. O outro, Richtofen, beneficiário do direito de existir, explicar-se numa situação suspeita, manter-se vivo e livre, com direito à comoção humana que todos os seres humanos em situação de fragilidade e desequilíbrio deveriam merecer.
Sturm é acusado por ativistas culturais de práticas coronelistas, tais como: interferência nos resultados finais do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (Vai); no carnaval da cidade e na revogação e alteração do edital de Fomento à Dança, que já tinha os projetos pré-selecionados. O secretário também é responsável pelo congelamento de 47% da verba municipal da cultura para 2017 e pelo desmonte de políticas culturais construídas ao longo da última década.
Há poucos dias, durante reunião com ativistas culturais da região de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, confrontado por um deles, o jovem negro Gustavo Soares, que reivindicava não trabalhar de graça para a prefeitura na gestão de um equipamento cultural, foi chamado de babaca e chato por Sturm.
Descontente e alterado diante da argumentação continuada do jovem, ameaçou quebrar-lhe a cara. Gustavo Soares perguntou então se o secretário o estava constrangindo e chamou-o para concretizar a ameaça. Sturm, no melhor estilo Telequete, disse então que não o faria para não sujar as mãos.
O prefeito Dória, como esperado, minimizou o fato, chamou-o de bobagem. Os movimentos culturais periféricos da cidade trataram de pressionar pela queda de Sturm, por serem inaceitáveis suas práticas coronelistas. Procuraram o prefeito com abaixo-assinado de seis mil assinaturas, ocuparam a secretaria de cultura, foram alvo de nota mentirosa da secretaria acusando-os de agressividade na ocupação, intimidação de funcionários e tentativa de invasão do gabinete do secretário. Tudo desmentido em vídeo pelo secretário de relações governamentais, Julio Semeghini, designado pelo prefeito para mediar o conflito. Este, aliás, parece ter sido posto ali para atender às reivindicações dos ativistas, menos a deposição de Sturm. Afinal, se alcançado o intento, a turma pode achar que tem força e isso não será bom para o prefeito e sua gestão que apaga obras de arte dos muros e as substitui por corações vermelhos, feitos por ele mesmo.
A mensagem final é a seguinte: qualquer conjunto probatório que supere as convicções dos acusadores não faz sentido a depender do acusado, de seu sobrenome, de seu pertencimento racial, do lugar político ocupado e à gestão de quem se filie. Em outras gestões, uma nota mentirosa, assinada por uma secretaria e desmascarada por outra, seria o suficiente para a queda de Sturm.
Não foi. Mas, imagine se por um motivo qualquer, em situação pública, com testemunhas e gravação veiculada na internet à larga, o descontrolado Sturm, gestor público, tivesse ameaçado quebrar a cara de um dos cineastas signatários da carta do SIAESP – Sindicato da Indústria do Audiovisual de São Paulo que o apóia? Imagine que Sturm, em surto, intimidasse Cao Hamburger, Cacá Diegues ou Fernando Meirelles com um possível soco?
Caía, mano. Caía no dia seguinte. Não seria mais secretário. Mas, a ameaça foi feita a um pobre coitado, na opinião dessa gestão, e com esses, contra esses, está tudo liberado.
Andreas Richthofen, por sua vez, teve a vida destruída por uma tragédia familiar. A irmã mais velha arquitetou a morte dos pais de ambos e coordenou a execução dos assassinatos. Andreas teve a vida destruída, compreensivelmente. Não se sabe o que viveu, mas havia refeito a vida, era considerado um estudante competente de uma das melhores universidades da América Latina, a Universidade de São Paulo. Graduou-se, doutorou-se.
Foi encontrado em delírio, ferido, semi-desmaiado na porta de uma casa, cujo muro havia escalado. Por sorte, é branco, “não tem cara de bandido”, como disse o dono da casa invadida, que o socorreu e chamou a polícia, que, por sua vez, tratou o moço como gente.
Que maravilha. Um rapaz de sorte. Sorte por não ser um dos inúmeros pretos em delírio causado pelo crack ou pela lucidez de serem o que são e de saber como são tratados e de, por isso, serem mortos como ratos.

31 de mai de 2017

Os instrumentos de Cidinha da Silva


A médica feminista Ana Reis analisa contribuição do livro #Parem de nos matar! para a reflexão de pessoas brancas sobre seus privilégios: “Eu conhecia muitas dessas histórias, minha timeline sangra todos os dias, repleta de massacres. Mas Cidinha tem sempre uma abordagem que incomoda mais, justamente por mexer com a limitação do olho cego com que a branquitude me aleijou”
Por Ana Reis Do Portal Fórum
Conheci Cidinha da Silva em Salvador, na noite do lançamento do seu segundo livro, Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!.
Luiza Bairros tinha me dado a dica do evento, um sarau, com a saudação feita pelo professor Ubiratan Castro, um querido de toda a gente, e um diálogo instigante entre Luiza e Cidinha.
Logo que acabou a mesa, Luiza, como de costume, saiu para fumar o seu ansiado cigarro. Com meu livro autografado “Para a Ana, esse Tambor que quer fazer barulho por aí. Um barulho bom, espero” juntei-me a ela, naquela esperada esticada para algum lugar de cerveja gelada e aipim frito sequinho.
A vida política e cultural de Salvador, mais que outras cidades onde vivi, não é completa sem os encontros pós. É nas mesas mais eloquentes, sem os inevitáveis enquadramentos das reuniões que acontecem as conversas inovadoras, mais soltas, e onde as amizades se fazem mais presentes que as alianças. Entre antirracistas e feministas, os afetos têm peso, cumplicidades.
Quando Cidinha chegou percebi que não viria mais ninguém. Era pra ser um encontro entre as duas. Mas não resisti a perguntar se podia ir também. Generosamente fui, mais uma vez, acolhida. E sem saber, testemunhei um momento particularmente especial para as duas.
Calada, ouvias as duas cheias de prazer pelas realizações de Cidinha, afirmando-se como escritora, batalhando o seu talento. Luiza abençoando.
Essa foi uma das vezes em que percebi o que significa conviver com amigas negras. Amigas que generosamente abrem espaço para que eu possa aprender, com suas didáticas silenciosas, passo a passo como entrar na intimidade protegida, sem esse à vontade automatizado que nos ensinaram desde o nascimento, e que a cada instante nos é reiteradamente bombardeado por todos os meios, até que se torne inconsciente e naturalizado.
O à vontade da branquitude, feita de uma auto referência arrogante, como se fossem nossos, todos os lugares no mundo.
Eu entendo perfeitamente o que são espaços protegidos. Quando feministas nos reunimos para compartilhar nossas alegrias e nossas dores no mundo patriarcal, não queremos homens por perto. Nem aqueles que se dizem feministas. Sempre falta muito para serem feministas. E não, não é racismo nem machismo às avessas. São espaços de respiro, refúgios onde não se tem que explicar, que pedir para não interromper, para não vir com a arrogância que nem é percebida.
Para nós, mulheres brancas de classe média minimamente eXclarecidas, ( assim mesmo, com um x colocando no passado a clareza como sinônimo de saber) a cegueira para o racismo não deveria ser tão naturalizada, porque você sabe, se tiver um mínimo de consciência, que nem todos os lugares são seus. Nem todos são lugares seguros. Sobretudo se você for uma feminista a sério.
Lendo agora o #Parem de nos matar!, sinto como ainda falta para ser uma antirracista a sério.
Cidinha da Silva, nas suas crônicas, “histórias duras mas que precisam ser contadas”, como ela escreveu no autógrafo, traz as mortes, as chacinas, o genocídio da população negra, a que assistimos diariamente, mas os reescreve materializando corpos verdadeiros, com nomes e sobrenomes.
Eu conhecia muitas dessas histórias, minha timeline sangra todos os dias, repleta de massacres. Mas Cidinha tem sempre uma abordagem que incomoda mais, justamente por mexer com a limitação do olho cego com que a branquitude me aleijou. Cabe aqui a palavra. É um aleijão, aquele mesmo que Gil bradou em Barracos da Cidade.
Esse incômodo em gente branca é a tarefa cumprida dos textos, que trazem o olhar preciso, contundente mas também finamente irônico quando retrata situações corriqueiras, aquelas onde o racismo se esconde se fazendo de inexistente.
Penso que esse tempo da implosão das máscaras que estamos vivendo abre também para o tempo de refundação. E a urgente refundação do Brasil começa por abrirmos os olhos cegados.
Asseguro que abrir o olho fechado para esse óbvio que é o racismo estruturante, por difícil que seja, faz da gente uma pessoa melhor. Temos que encarar o legado histórico terrível que pesa sobre nossas trajetórias.
É duro ver o quanto nossos lugares são feitos de privilégios. E quanto mais abrimos o olho, mais vergonha temos. Mas não há mais como esconder essa vergonha e nos livrarmos dela, não implica só em pedir perdão, pois devemos aos negros muito mais que cotas. Significa abrir espaços, abrir mão dos privilégios, aceitar e sobretudo provocar os deslocamentos.
Em tempos de refundação, a coleção de crônicas do #Parem de nos matar! é uma oportunidade de letramento racial. É uma entrada preciosa no mundo visto pelo olhar negro, para ouvir a imprescindível narrativa que falta nessa floresta de narrativas brancas. Uma escuta que é transformadora.
Para construirmos outras casas, com instrumentos outros que não os dos amos, como ensinou Audre Lorde.
Cidinha da Silva nos oferece esses instrumentos, com elegância e talento, como se faz em boa literatura.

25 de mai de 2017

Impressões sobre o Brasil golpista pós-delação dos irmãos Batista

Por Cidinha da Silva

No mundo impossível em que vivemos desde 17 de abril de 2016 é duro admitir que a declaração / delação / projeto para lavar as mãos de crimes, executados pelos irmãos Batista, trouxeram algum alento para nossa energia em descenso.

Eles atuaram como uma bolsa de sangue (contraditoriamente) bom e saudável injetada na veia de doentes muito frágeis e já incapazes de produzir sozinhos, a quantidade necessária de leucócitos, hemácias e plaquetas para ter vigor. Ânimo. Tônus.

Quem já se achava morto, reanimou-se com as provas de recebimento de propina por Temer e Aécio, o conseqüente afastamento deste do Senado, a prisão da irmã-mentora e a possibilidade real de que o ilegítimo caia por prática de crime de responsabilidade.

Antes disso, a greve de 28 de abril fora um sucesso. O Brasil parou mesmo, inclusive o Brasil profundo manifesto em inúmeras cidades do interior. Mas, isso ainda era pouco quase tudo estava a mercê da manipulação da grande mídia e sua construção de narrativas de sustentação ao golpe midiático-parlamentar que opera em várias frentes e de maneira articulada.

O rádio, por exemplo. A narrativa dos programas de debates da conjuntura política prima pela confusão deliberada. Ora são comentadores que você ouve por cinco, dez minutos e, ao cabo, não consegue saber o que exatamente postulam. Não existem argumentos. É um amontoado de achismos com a intenção de agradar a gregos e baianos.

Outros fixam-se em detalhes de segundo ou terceiro plano, ou mesmo em coisas aleatórias, com o objetivo nítido de desviar a atenção do ouvinte das questões centrais, a exemplo da suposta depredação de prédios públicos em Brasília na manifestação de 24 de maio, em detrimento do foco na necessidade de sangue no Hemocentro daquela cidade para atender aos feridos pela polícia, Força Nacional e Exército, este último convocado por Temer em violação constitucional flagrante. Ou mesmo do assassinato de dez trabalhadores rurais no Pará, como se a violência praticada estado em Brasília não fosse a mesma que matou uma mulher e nove homens de um sindicato de trabalhadores rurais numa nova edição de Eldorado dos Karajás.

Em comum, os cronistas do rádio ameaçam a população pobre e sem acesso a fontes de informação diferentes do rádio e da TV, ouvinte daqueles programas, com o mesmo discurso de “baderna e ataque ao patrimônio público” utilizado por Temer para acirrar a repressão, acrescido de um pavor ao que chamam de “nova Venezuela.”

Nessa toada aproveitam para realimentar o consenso dos golpistas de que “era necessário tirar a Dilma” de qualquer maneira que não fosse pelo voto e ameaçam: “é Venezuela, sim! A Dilma ta querendo voltar, não ta vendo aí? Quer anular o impeachment.”

Ora, reivindicar a anulação do impeachment faz parte da briga jurídica, é um caminho legal diante da comprovação de que não houve crime de responsabilidade, da confissão dos bandidos golpistas e das provas do golpe arquitetado e posto em prática. Não se trata de algo só para “encher o saco” como fez Aécio ao pedir a impugnação da chapa Dilma-Temer, depois de derrotado nas eleições de 2014. Mas, não chegam a discutir sequer a viabilidade política dela voltar ou a acordo político da convocação imediata de eleições gerais, haja vista que seria impossível para ela governar com esse Congresso que aí está.


Não, nada disso. “Tirar a Dilma e manter a Dilma fora” continua sendo ponto pacífico para eles e, para garanti-lo, talvez até resgatem as aposentadas panelas e manifestações de rua orquestradas pelos empresários. O país e seu povo são pano de fundo, são o que menos importa nessa história toda.